XXXVI

Apesar de minha autorização imediata, Saga não faz a mudança no mesmo dia. Fica um dia todo comigo, disfarçando para que a menina não desconfie de nosso relacionamento "diferente" dos demais irmãos que conhece.

No dia seguinte, algumas horas após ele partir, recebo uma carta dizendo que Ruth resiste em se mudar, dado que desde os dezenove anos, a idade que tinha quando nós dois nascemos, também foi orientada a sair da corte e "isolar-se" na gaiola dourada que é a propriedade onde ela e Saga viveram por todos estes anos.

No entanto, com relação a isso, Saga já se decidiu. Deixa Ruth na antiga casa e vem com Mary e suas coisas. Embora não queira deixar nossa mãe, com a qual conviveu desde sempre, para trás, também não quer perder a oportunidade de colocar Mary perto do Reino.

Assim que chega, apresento-lhe os criados, de quem poderá se servir, e alguns dos quartos os quais ainda não conhece. Ele, é claro, opta por continuar dormindo comigo.

- Agora vamos dormir juntos todas as noites? - ele me indaga, curioso.

- Claro que vamos. E muito em breve, a sua cerimônia de posse será feita...

Ele vira os olhos, transtornado.

- Não acredito que além de reinar com você, precisarei comparecer em cerimônia pública.

- Para que todos saibam... para ficar marcado... como um casamento.

- Um casamento...! Mal sabem todos os cortesãos que você quer fazer da cerimônia de posse um casamento enrustido!

Sorrio a ele e o levo para ver os demais e numerosos cômodos do castelo.

OoOoOoOoOoOoO

Uma semana se passa. Acabamos de arranjar tudo em relação à cerimônia pública. Instei com Ruth, através de cartas, que viesse também assistir, e ela, apesar de resistir no início, depois aceita enfim vir e vê-la.

Durante esta semana, vejo como é o convívio com Mary. Ela é uma menina muito especial, realmente... apesar do luto recente por seus pais, ela o supera bem e concentra-se em seu novo ambiente. Apesar de eu começar a criar alguns laços com ela, quem os tem mais é Saga. Ele a trata como se a conhecesse desde que nasceu.

Apesar dos deveres administrativos, a vida tem-se demonstrado mais doce, dado que, mesmo não tendo sido entronizado, Saga me ajuda com o que sabe sobre política e administração. Além disso, continuamos num clima constante de paixão recente: fazemos amor todos os dias, passeamos pelo jardim onde brincávamos quando crianças... e me parece que, enfim, após tanta tribulação, finalmente a alma de meu pai pode descansar em paz por saber que seus filhos se reconciliaram.

No dia da cerimônia, ajudo Saga a escolher uma roupa. É a mais bela, a mais pomposa e a que lhe dá mais destaque que pude encontrar. Meu irmão sente-se mal em trajar-se tão soberbamente.

- Todos vão olhar diretamente para mim, Kanon!

- E não é para olharem?! A noite será sua, Saga! Ande, deixe de ser tão envergonhado!

- Não é exatamente vergonha. Você sabe, eu não fui criado...

- Sei, sei, não foi criado para isto! Mas vamos lá, você deve ser mesmo a estrela da ocasião!

Eu o ajeito melhor, e explico o que deve fazer. Ainda lhe digo que se quiser pode ensaiar o que fazer, mas ele rejeita, dizendo que prefere meditar antes de chegar o momento.

Pouco antes de a cerimônia começar, eu me coloco em meu lugar e repasso com Saga o que deve ser feito e dito. Tomo então assento no trono e espero os convivas chegarem. Com o tempo, a sala enche de pessoas e eu sinto que em cada local, em cada mesa, em cada conversa travada, há comentários contrários à diarquia que se formará entre mim e Saga. Todos são da opinião de que jamais dois senhores podem reinar de forma harmoniosa...

Deixa dizerem. O tempo, e somente ele, poderá mostrar a todos que o que me proponho a fazer não é nenhum absurdo.

Espero, espero e espero. A hora da cerimônia se iniciar é chegada, mas nada de minha mãe mostrar ter vindo. Talvez não venha... o que vai me entristecer, porém não posso parar ou atrasar o evento por causa disto.

Após dez minutos nesta indecisão, decido iniciar a cerimônia. Dou um recado ao mestre de cerimônias e as trombetas soam. Nisto, eu me levanto e principio a discursar.

- Damas e cavalheiros! Como bem sabem, meu irmão por muitos anos foi criado no ostracismo, por conta de sermos gêmeos e termos um patrimônio vasto a dividir. No entanto, agora que meu pai morreu, eu convidomeu irmão a tomar seu lugar na corte. Ele, de livre e espontânea vontade, aceitou tomá-lo. Saudem, pois, senhores e senhoras, o novo Senhor e Rei desta nação!

Tímido, ainda sem preparo, Saga entra na sala. Tenta dar passos firmes, apesar de dar mostras de sua insegurança.

Logo, meu irmão chega e ajoelha-se perante mim, abaixando a cabeça. Eu tomo do cetro real, símbolo de meu poder, e quando relanceio o olhar pela sala, observo minha mãe no canto esquerdo, em pé, emocionada ao ver o dilema de sua gravidez finalmente resolvido... após tantos anos.

Comovido eu também, tomo do cetro e o encosto sucessivamente no ombro direito, esquerdo e na cabeça de Saga, enquanto digo as seguintes palavras:

- Eu, Kanon Windsor, Senhor e Rei, concedo a ti, meu irmão gêmeo, Saga Windsor, a metade do Reino que a si sempre pertenceu; até o fim de seus dias reinarás, e caso ocorra de eu morrer primeiro, serás o único titular da Coroa, até o fim de sua vida terrena.

Ao terminar de dizer tais coisas, coloco o cetro eu seu lugar. Saga levanta, olha em meus olhos e eu coloco em seu dedo anelar um anel de chancela, igual ao que uso em minha mão esquerda. Meu irmão não aguenta e me abraça forte, não contendo as lágrimas.

- Eu o amo, Kanon... - diz ele bem baixinho em meu ouvido.

- Eu também o amo, Saga...

As pessoas presentes, comovidas por verem como nos damos bem, apesar de sempre quererem dizer o contrário, levantam e aplaudem nosso ato. Desfazemo-nos do abraço, ele se posta a meu lado e permanecemos de mãos dadas, olhando os convivas.

Saga toma assento em um trono ao lado do meu, e ainda assim não largamos nossas mãos. Em seguida, tem lugar uma parte penosa e enfadonha do evento: todos beijam o anel de chancela de Saga e o declaram como seu novo Rei. Meu irmão, humilde, não sabe reagir a isto com altivez.

As únicas pessoas que lhe agradam de fato nesta cerimônia, além de mim, são minha mãe, a qual o abraça com ternura e o felicita, e Mary, a qual vem e lida com meu irmão como se fosse um outro dia qualquer.

- Tio Saga hoje está tão bonito e bem arrumado! É verdade que agora será o rei?!

- É sim, Mary querida... é sim...

- Que bom! Eu serei a filha do rei? Serei uma princesa?

- Você não é minha filha de sangue, Mary...

- Sou filha de Gary, meu papai que foi pro céu... mas agora você pode ser meu segundo papai, meu papai de coração, não pode?

- Claro que posso, Mary! - diz ele, extasiado com o afeto da menina, entre risos.

À noite, quando o banquete finda, vamos dormir. Meu irmão, depois de levar Mary para seu quarto e dar um beijo de boa-noite em sua testa, vem para a nossa cama e deita comigo.

- Finalmente, Kanon... finalmente a nossa complicada história pôde ter um desfecho feliz. Estou em paz...

- Desfecho? - digo, entre um e outro beijo em seus lábios - Este é apenas o começo!

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Sobre a cerimônia, não é a "típica" cerimônia de entronamento utilizada na Idade Média. Tomei a liberdade de "inventar" uma, até porque essa "Idade Média" da fic não tem parâmetros estritamente medievais – o Kanon toma banho todos os dias, eu não cito em qual país a fic se passa (pra todos os efeitos é em uma "dimensão alternativa" mesmo) a despeito dos nomes todos em inglês, etc... então tomei mais essa liberdade ao fazer uma cerimônia diferente.

Bom, gente, a história era pra terminar aqui. Aliás, tem um epílogo que fiz em terceira pessoa, contando o resto da história até a morte dos gêmeos, o qual seria o próximo e último capítulo. Porém... me pediram pra fazer um derradeiro lemon.

E a coisa aqui vai no modo-prebiscito mesmo. Opinem aí, querem mais um lemon ou o epílogo direto? Se não quiserem mandar reviews, mandem MP, e-mail, sinal de fumaça... mas se façam presentes, rs!

Ah, só pra lembrar: tem a sidestory da Catherine, que se chama "Memorial de Catherine Gray" e deixei em hiatus por uns meses, mas agora retorno com ela. Se os que lêem essa fic puderem dar uma olhadinha lá e opinarem pro bem ou pro mal, por favor o façam... afinal, uma fic não é só os seus leitores, mas também é eles, ao menos em parte.

Beijos a todos e todas! Espero os "votos"!