Olá. Aqui está a atualização de O DESTINO DE MUITOS.
Lamento o atraso, mas realmente estou em um ritmo de vida que não me permite o luxo de atribuir e cumprir prazos, o que é uma pena...Sinto que isso está afastando-me do que gosto de fazer e daqueles com quem gosto de conviver também, por isso estou fazendo o possível para organizar como posso meu esquema.
Sei que a fic ficou muito tempo desatualizada, por isso talvez algumas informações estejam já perdidas na memória de vocês. Alguns personagens citados podem estar nesse vácuo de imagens distantes, como obom Enzo Alfonso, aquele velhinho que estava no consultório de Elrond quando Legolas chegou baleado. Ou talvez o menino oriental abraçado ao pai morto na guerra, que na verdade é retrato da infância triste do doutor Kenta Hotaka, chefe-cirugião e donodo Hospital Central, tambémumamigo de Teodor. A figura ruiva de Drago, inimigo doentio de Estel que parece ter pego Legolas para "Judas", também pode fazer parte desse time.
Não sei o quanto ficou para trás devido a esse tempo de atraso, mas se houver qualquer dúvida, por favor, perguntem. Espero que gostem do capítulo. Estou ansiosa pela opinião dos que ainda estão lendo, e a estes amigos em especial, deixo o meu muito obrigada. Uma palavra apenas de incentivo de vocês com certeza vale mais do que muitos momentos de inspiração.
Gostaria também de agradecer a minha amiga Nimrodel,que compartilhou comigo algumas inspirações desse capítulo.
Obrigada
Sadie
Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeiras de infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.
José do Carmo Francisco
36 – A INFÂNCIA TEM SUA HORA E VEZ
& Crianças do passado &
O riso doce de Danika foi ouvido de novo. Ela divertia-se agora contando a Legolas as peripécias de seus pequenos.
"Imagino o que elas fariam com você." A moça comentou ainda sentada no tapete, desfazendo, distraída, um de seus longos cachos negros com as pontas dos dedos. "Você é igualzinho a um anjinho louro que dei a eles e fica no quartinho onde dormem."
Legolas sorriu e sacudiu a cabeça. Essas associações o perseguiam mais do que sua consciência quando contava uma mentira a alguém.
"Gostaria de ir com vocês hoje à tarde. Me sinto melhor..."
"Não sei, anjinho. Você mal despertou." Ela respondeu preocupada agora, mas depois sorriu ao ver o amigo baixar desanimado a cabeça e soltar os ombros.
"Me sinto melhor... de verdade." Ele afirmou em um tom fraco, como se já imaginasse que não convenceria ninguém com aquele argumento. A moça sorriu mais expressivamente, arrastando-se então para perto e apoiando o queixo no joelho do elfo.
"Eu também gostaria que fosse, sabia?" Ela comentou suavemente e sorriu ainda mais ao ver o rapaz enrubescer com sua proximidade, "El disse que você gosta de árvores."
"Gosto muito..." O arqueiro concordou, baixando ainda mais a cabeça. Ainda era impossível olhar para Danika sem que doces recordações do passado viessem lhe bater às portas.
"Eu queria levar os pequenos a um parque em especial." A moça comentou despreocupadamente. "Fica só a dez minutos do orfanato, mas tem belas árvores bem antigas. Elas são mesmo muito grandes. Dá pra se ir a pé se não estiver nevando. As crianças adoram brincar na neve."
Árvores muito antigas. Legolas repetiu mentalmente, e seu desejo de sair daquele casulo e correr em direção a imagem que aquelas palavras criaram em sua mente cresceu demais.
"Gostaria de ir." Ele repetiu, fechando os olhos e soltando o ar dos pulmões.
"Precisa melhorar." A moça comentou, ajeitando o rosto que apoiara agora no joelho do amigo. Legolas ergueu um pouco os olhos, acompanhando aquele movimento. Tudo em Arwen sempre fora brandura e leveza até que os olhos dela capturassem os de alguém. Como força e suavidade poderiam se unir em um único ser era um questionamento, cuja resposta se encaixava perfeitamente àquela elfa de cabelos anelados e escuros como a noite.
Legolas engoliu em seco, prendendo o ar nos pulmões e as recordações no fundo do coração, e acabou esticando timidamente a mão para deslizá-la pelas madeixas da amiga. Uma tentação que sempre o assolara. Ele amava os cabelos de Arwen e os de Danika eram tão perfeitos quanto foram os da Rainha de Gondor. Longos e negros, escorregando em sinuosos e sedosos caminhos. Legolas sorriu então, deixando-se levar pelo brilho que refletiam agora, enlaçados em seus dedos. Que bom que Danika, assim como Arwen, não se importava que ele os acariciasse, muito pelo contrário, ao sentir o toque do amigo a moça apenas sorriu com o carinho recebido e virou a cabeça para apoiá-la melhor no joelho do arqueiro.
"Eles são adoráveis." Ela comentou, fechando os olhos, na mente ainda havia o som prazeroso do riso daqueles pequenos do qual falava. "Eu os amo muito e não compreendo como algum deles ainda não seduziu definitivamente o coração de alguém."
"Seduziram o seu..." Legolas lembrou e sorriu ao sentir que a amiga fazia o mesmo.
"Verdade... A pureza me seduz..." A moça admitiu sem se mover. "Queria que só houvesse crianças no mundo..."
Legolas suspirou, lembrando-se que muito tempo vivera sem saber como uma criança seria, até que fora presenteado um dia com a imagem de um certo menininho de grandes olhos azuis, andando cambaleante para encontrar a mãe. Um menino que transformaria sua vida.
"Há muito que guardar da infância que se viveu... ou da que se viu viver..." Ele disse pensativo e seus olhos passearam pelas imagens de outras muitas crianças que conhecera depois disso. Fora um passeio agradável até que sua mente estagnou-se em uma única visão, uma visão que se repetia desde o dia em que a vira pela primeira vez. A visão daquela criança oriental abraçada em prantos ao pai morto. O mundo tinha suas tristezas. Nem sempre ser criança significava viver na pureza e na poesia.
E aquela imagem triste, infelizmente, atou-se a uma outra que ainda lhe pesava mais. Ele, assim como Hotaka, também perdera seu pai certa vez, perdera-o em uma guerra terminada, perdera-o injustamente. Entretanto, de forma diversa da do pai de Hotaka, o seu decidira-se por cair pelas mãos do inimigo, sem qualquer revide.
A cena recriou-se então diante dele, com todos os detalhes, e ele reviu, mesmo sem desejar, o ódio no olhar de Erebian e o mistério nos claros e brilhantes olhos do pai.
Claros e brilhantes. Como se neles habitasse um sentimento que ele nunca o vira demonstrar. Como se no coração do rei houvesse expectativa e... esperança.
Legolas sacudiu a cabeça.
Por quê? Por que justamente naquele momento? Por que daquela forma e não por outro meio qualquer? Por quê?
"Lazarus?" Dedos suaves escorregarem por seus cabelos e o príncipe sobressaltou-se, buscando se erguer de onde estava. Celebrian segurou-o pelos ombros, sentando-se rapidamente a seu lado. "Shh, tudo bem, Esquilo. Tudo bem..." Ela garantiu apoiando a palma no rosto frio do príncipe.
Legolas olhou para os lados confuso. Diante dele, ainda ajoelhada no tapete, Danika o olhava com preocupação, apoiando a mão em seu joelho. Provavelmente ele se desligara mais tempo e mais profundamente do que seria oportuno. Sim. Era isso. Ainda não estava tão recuperado quanto precisava estar.
Não estava.
Não ainda.
Mas precisava estar, o quanto antes.
"Eu... Eu estava..." Tentou explicar o arqueiro, procurando resgatar algum argumento válido em sua mente ainda meio atordoada.
"Está tudo bem." Celebrian reforçou seu tom, acariciando-lhe o rosto e segurando-lhe uma das mãos. Ela ainda parecia preocupada, mas empenhava-se em uma evidente tentativa de não transparecer tal sentimento. "Acabou de despertar. Esteve no mundo dos enfermos por muito tempo, precisa alimentar-se."
"É verdade, anjinho." Danika ergueu-se em seus joelhos então, para que pudesse ver o amigo mais de perto. "Mas acho que depois do almoço seria bom que você dormisse mais um pouco. Não é mesmo, Gilah?"
Celebrian não teve tempo de responder, pois Legolas já sacudia a cabeça com uma indiscutível veemência.
"Não. Não... Eu..." Disse o rapaz em tom clemente. Tudo menos aquilo. Ele precisava sair dali, recuperar suas forças em outro lugar onde o concreto não se fizesse um sepulcro como aquele. Ele precisava desesperadamente ver suas amigas árvores. "Eu... estou... Eu preciso..." Ele tentou explicar, o peito arfando em agonia por não conseguir encontrar um discurso dissimulado o suficiente para enganar Danika, mas esclarecer Celebrian.
A seu lado, porém, a boa elfa de cabelos claros já balançava positivamente a cabeça, apoiando agora a palma no peito do príncipe.
"Talvez..." Ela disse, forçando um sorriso. "Quem sabe... se um certo alguém participar de um certo almoço como uma pessoa normal hoje, eu possa convencer um certo tio a permitir que vá ao parque com os primos." Ela sugeriu e aguardou que o rosto do confuso príncipe voltasse vagarosamente a se acalmar, desvendando o pequeno mistério daquelas poucas palavras.
Legolas assentiu enfim com um sorriso que mais parecia refletir alívio que satisfação. Faria qualquer coisa para sair um pouco daquele confinamento e a imagem de uma praça, somada a crianças brincando na neve, parecia o remédio ideal para combater as outras, não tão prazerosas imagens, que insistiam em povoar sua mente.
"Eu prometo." Ele afirmou, e Celebrian ainda olhou-o por algum tempo; claros olhos percorrendo devagar os traços daquele rosto ainda pálido e cheio de mistérios, buscando uma resposta que não estava lá. Infelizmente. Enfim a elfa beijou-lhe o rosto e afastou-se para jogar a toalha que trouxera por sobre a mesa do almoço.
"Vamos ver." Ela provocou-o de longe, piscando depois para a filha em simulada cumplicidade.
Danika sorriu como resposta, refazendo um antigo diálogo mãe e filha como se tempo algum houvesse se passado. A moça então se ergueu, vindo auxiliar a elfa na composição das peças da refeição.
&&&
Quando finalmente Elrond e Elladan chegaram já havia passado a hora do almoço e o grupo se preparava para sair. Os dois elfos encontraram Elrohir vindo do quarto, enquanto vestia sua pesada jaqueta de couro.
"Demoraram." Queixou-se o gêmeo mais novo, envolvendo o pescoço em um grosso cachecol. "Almoçamos sem vocês."
Elrond suspirou.
"Alguns problemas custam a se resolver." O curador comentou, entrando cabisbaixo no apartamento, enquanto desabotoava o pesado sobretudo. "Outros parecem insolúveis."
Elrohir acompanhou o trajeto do pai intrigado, ecoando aquelas palavras que não entendia, depois se voltou para o irmão.
"Temos um paciente." Elladan esclareceu em um quase sussurro, enquanto desfazia-se também da jaqueta que usava. "O senhor Alfonso. Ele sofre de uma doença terminal..."
Elrohir apertou os lábios, o complemento daquela história pareceu subitamente não ser de seu total interesse. Aqueles eram assuntos que Elladan, por juízo próprio, evitava levar aos ouvidos do irmão, mas mesmo assim o gêmeo mais novo continuou prestando atenção, enquanto ambos olhavam sorrateiramente para o pai.
"Ele está bem agora. Foi um alarme falso." Esclareceu o gêmeo com um suspiro. "Mas ada julgou que o fosse perder. Para ser sincero. Eu também julguei."
Elrond esvaziou os pulmões com mais força, parecendo querer ignorar a conversa dos filhos, que vinha a seus ouvidos mesmo sem que ele para isso se dispusesse. O curador deu alguns passos pela sala, ainda desfazendo os complicados botões de seu casaco, para confirmar uma visão que tivera assim que entrara no apartamento.
"Onde ele está, Estrela?" Indagou à esposa que se aproximava, após certificar-se de que o sofá estava realmente vazio.
"Está no quarto vestindo algo mais quente, querido." A elfa esclareceu, olhando o esposo com preocupação, enquanto ajudava-o agora a despir o sobretudo. "Ele está bem melhor, consegui fazê-lo comer um pouco na hora do almoço com a promessa de que você o deixaria sair com os primos hoje."
Elrond franziu o cenho.
"Sair?"
"Sim. Eleazar e Einarr vão acompanhar Danika até o parque. Ela quer levar as crianças para brincar."
Elrond soltou os ombros, percorrendo a pequena sala com os olhos como se ainda estivesse à procura de algo. Na verdade percorria os grandes corredores de sua mente em busca do que o incomodava naquela história toda.
Tolice. Tudo o incomodava naquela história. Danika ainda não conseguira desvencilhar-se do emprego que tinha e não parecia inclinada a fazê-lo. Ele não a culpava, pois conhecera tais crianças a quem a moça dedicava seus dias, por isso compreendia perfeitamente bem o fantasma da insegurança que assombrava o coração da filha, toda vez que o assunto surgia.
Eram muito pequenos, rostos angelicais e desprotegidos, seres a quem o futuro era uma incógnita para a qual não havia outra proteção, senão a presença gentil daquela assistente social, que executava a olhos vistos um papel muito além do que lhe era atribuído.
Danika amava o que fazia, mas sobretudo, amava aquelas crianças.
"Vão levar os pequenos ao parque." Elrond repetiu a informação como se esperasse uma confirmação, mas na verdade apenas organizava seu raciocínio, enquanto ganhava um pouco de tempo.
"Vão." Celebrian respondeu, colocando agora o casaco do esposo nas costas de uma cadeira e voltando a seu encontro. "Foi um conselho de Eleazar. Ele julga que correm menos riscos em um parque público."
"Menos riscos..." Elrond sacudiu a cabeça, apertando as têmporas com as pontas dos dedos.
"É ada." Elrohir confirmou sem se aproximar. "Lembra-se da repercussão que aquele atentado doentio dos correios gerou? O idiota do Drago não vai tentar mais nada em um local público."
"Do que está falando, ion-nin?" Elrond foi quem se achegou ao filho. "E o carro bomba? Quantos poderiam ter morrido?"
"Aquilo foi diferente, ada." Elladan tomou a palavra em tom conciliador. "Não havia rostos a serem filmados ou fotografados e que ocupariam o jornal da noite. Para que façam algo contra nós em um lugar público como o parque, eles teriam que se expor e não têm tido muita sorte ultimamente. Os informantes do El disseram que Drago e Kakius estão pensando em uma trégua, há quem fale até em negociações."
"Negociação... Sim, é claro." Elrohir riu alto então, dando uns tapas amigáveis nas costas do irmão. "Ontem mesmo na televisão eu vi um senhor muito bem apessoado contando uma história parecida. Era um velhinho gordo, tinha uma barba branca comprida e se vestia de vermelho. Como era mesmo o nome dele? Alguma coisa Noel... Não era isso, nana?"
Celebrian riu então, sacudindo a cabeça e cobrindo os lábios. Mas Elrond não parecia disposto a piadas ou conjecturas.
"Estamos sem opção, ada." Elladan mudou o tom de sua voz então, parecendo acompanhar instintivamente a seriedade do pai. "Eu acho inútil tentar convencê-la, ela está decidida e Estel não quer contrariá-la. Tudo o que podemos fazer é adaptarmos o que está ao nosso alcance para protegê-los."
Elrond suspirou com força, sentindo que havia uma inversão de papéis ali. Elladan demonstrava-se estranhamente contrário à idéia da irmã deixar o que fazia. Isso, apesar de incomodar profundamente o curador, fazia sentido até demais, pois um coração cheio de ideologias sempre fora marca registrada do filho mais velho. Marca essa que se mostrava mais acentuada com o incentivo da irmã agora reencontrada.
Mesmo assim, Elrond sentia que havia mais do que motivos para sua apreensão. Todos os seus filhos, todos a quem amava haviam acabado de sair de uma terrivelmente bem armada armadilha. A sorte lhes tinha sido mais do que gentil aliada. E isso poderia não vir a se repetir.
Sorte. Na verdade fora bem mais do que sorte. A salvação surgira do que muitos chamavam de maldição, surgira do sofrimento de alguém a quem ele muito amava também.
"Como está Legolas?" Elrond lembrou-se de seu questionamento inicial, olhando novamente para os lados em busca do rapaz. "Quando despertou?"
"Lazarus acordou bem." Celebrian corrigiu o marido docemente e sorriu ao vê-lo constranger-se e voltar a esfregar as têmporas. "Comentávamos hoje mesmo sobre a mudança e ele empolgou-se com a idéia."
Elrond ofereceu um sorriso cansado, percebendo a alteração de rumos que a esposa queria impor à conversa.
"E prometeu-lhe que poderia ir ao parque com Danika e Eleazar?" Ele indagou em tom de censura, recebendo um olhar pouco satisfeito e um suave erguer de ombros como resposta. "Está dormindo há dias, Estrela. Uma refeição não o colocará suficientemente em pé para que se arrisque em uma investida dessas."
"Um passeio ao parque não é uma investida, querido." Celebrian lembrou-o.
"Abrir uma caixa de correios também não o é. Nem mesmo a visita a um hospital." Elrond esclareceu e a elfa franziu os lábios.
"Os gêmeos irão com eles." A elfa comunicou.
"Nossos outros filhos." Elrond sacudiu a cabeça, sentando-se agora e apoiando o rosto nas mãos. Celebrian soltou os lábios para responder, mas desistiu. Tardiamente ela percebia o que ainda estava ocupando de fato o coração do curador. Uma sombra que ele já enfrentara diversas vezes, mas que agora parecia pesar-lhe mais do que o costumeiro. A elfa então se sentou ao lado do marido, tomando-lhe uma das mãos que usava para cobrir o rosto. Elrond suspirou novamente, soltando o corpo no encosto do sofá.
"Ele está sofrendo muito?" Ela indagou, alinhando seu pensamento com o do esposo e Elrond fechou os olhos.
"Sofre sempre." O curador respondeu. "A idade pesa-lhe demais nos ombros, pesa-lhe demais..." Ele sacudiu a cabeça, revendo involuntariamente a imagem do bom Enzo no leito de hospital onde o deixara. "Não entendo... não entendo porque as mãos do criador não o tomam de volta para si... não o poupam... É uma dor... uma dor sem serventia essa... essa pela qual se passa inconscientemente..."
"Amado meu..." Celebrian envolveu-o nos braços. "Logo de você ouço tamanha insensatez?" Ela disse sorrindo-lhe e o lorde elfo voltou a fechar os olhos, como se soubesse de cor o complemento daquela sentença e não o quisesse ouvir.
"Não há dor sem serventia..." Ele mesmo proferiu então as palavras que sempre foram suas. "Eu sei, Estrela... Eu... Eu sei..."
Celebrian beijou-lhe o rosto. Na face de ambos ainda desenhava-se a insatisfação. Uma insatisfação que não se associava apenas à situação do pobre paciente do curador, mas refletia os sentimentos que o futuro incerto da família despertava.
"Não vai permitir que Lazarus acompanhe aos outros, querido?" A elfa indagou. "Creio que nada que façamos por ele agora será mais proveitoso do que essa visita ao parque." Ela comentou e Elrond sentiu-se obrigado a concordar, por mais desagradável que a idéia lhe parecesse.
Nisso a suave tosse do rapaz foi ouvida e o curador voltou preocupados olhos para o corredor, de onde Legolas vinha, acompanhado por Estel e Danika.
"Mestre." O jovem elfo disse com satisfação e o tom de sua voz trouxe um pouco de paz ao coração aflito do curador. Elrond sorriu-lhe e ergueu-se, estendendo-lhe o braço. O rapaz rapidamente aceitou o convite, aproximando-se e abraçando-se a ele.
"Como se sente?" Elrond indagou, puxando-o para que pudesse olhar para ele e apoiando a mão por sobre seu peito.
"Sinto-me bem, mestre." Legolas respondeu, ainda sorrindo, mas Elrond não demonstrava satisfação com o que via. A energia que emanava dele não parecia suficiente e alguns leves ruídos de sua respiração ainda eram sentidos. Ele permaneceu alguns instantes olhando o rapaz nos olhos, olhar este que o arqueiro retribuiu por quanto tempo pôde, mas do qual se afastou em instantes insuficientes para o convencimento de seu mestre e curador. Elrond franziu os lábios, puxando o queixo do príncipe para que olhasse para ele novamente e não se satisfazendo ao vê-lo estremecer, como se o contato fosse ser mais revelador do que o jovem elfo gostaria.
"Precisa descansar um pouco mais, menino." Ele afirmou e sentiu a tristeza que sabia que viria a seu encontro com aquelas palavras. Legolas baixou mais a cabeça e soltou um suspiro de infelicidade, tossindo uma tosse baixa e fraca.
"Sinto-me bem melhor, mestre." Ele apenas respondeu, sacudindo a cabeça quase involuntariamente e, com isso, atestando o quanto a idéia de "descansar um pouco mais" não o agradava. Elrond, por sua vez, franziu o cenho diante de mais aquela mentira, mas conformou-se, pois certas questões não tinham serventia em um diálogo com o jovem arqueiro. Não, decididamente Legolas nunca seria totalmente sincero em uma situação como aquela.
"Fico feliz." O curador apenas respondeu com um pequeno e conformado sorriso. Não estava disposto a trazer tristeza ao coração de ninguém naquele momento, por melhor intencionado que estivesse. Ele então se voltou para os outros dois filhos.
"Vamos ao parque." Danika informou com um largo sorriso e Elrond assentiu com a cabeça, procurando disfarçar sua inquietação.
"Einarr vai conosco." Estel acrescentou, olhando agora para Elladan, que ainda estava ao lado do gêmeo. "Você vem, Enosh? Não precisa nos acompanhar se estiver muito cansado."
"Eu vou sim, El." O gêmeo mais velho respondeu, voltando a vestir a jaqueta que acabara de tirar.
"Acho bom mesmo." O tom irônico de Elrohir voltou a imperar na sala. "Assim não precisamos ir naquela lixeira que alguns chamam de carro." Ele completou, olhando o caçula de través. "Nunca vi alguém com tamanha habilidade para conseguir trocar um nada por um coisa alguma como Eleazar faz. O carro novo dele chega a ser pior do que o último."
Elladan riu, apertando o ombro do irmão.
"Eu também não fiz boa troca, depois que tentaram mandar o meu pelos ares."
Elrohir forçou garganta abaixo o amargo que se criara em sua boca, lembrando-se do atentado com menos disposição do que gostaria.
"O dinheiro que consegui nele pra você te daria oportunidade de comprar um tão bom quanto. Você foi quem preferiu guardar uma parte." Lembrou insatisfeito o gêmeo.
"Não preciso mais viver de aparências." Respondeu conformado o irmão. Agora que deixara o hospital e fecharam a clínica o primogênito não via mais propósito para tamanha ostentação.
"Pelo menos comprou uma carroça que anda sem que a tenhamos que empurrar". Elrohir comentou, puxando brutalmente o zíper da jaqueta que o irmão vestira para apressá-lo e demonstrar sua impaciência. "Vamos logo ou as crianças do orfanato vão brincar sob a luz das estrelas."
Elladan sorriu, voltando a envolver o pescoço no cachecol que estava displicentemente jogado em seus ombros. Eles não sentiam tanto frio quanto os edain, mas procuravam sempre agasalharem-se de forma a não chamarem atenção. Não faria sentido que, em um ambiente cuja temperatura despencava a valores negativos, eles andassem pelas ruas com as poucas peças de roupa que necessitavam para protegerem-se do frio.
Legolas observou o movimento da família atentamente. Danika vestiu o casaco e olhou para ele e para Celebrian, como se interrogasse a mãe em silêncio sobre a promessa que a elfa fizera. A dona da casa sorriu-lhes e segurou a mão do marido, lembrando-o do assunto que trataram. Elrond voltou-se para ambos e por fim olhou o príncipe nos olhos.
"Quer ir ao parque então, criança?" Indagou, contendo sua insatisfação e recebeu um sorriso tímido e um aceno positivo como resposta. "Faz bastante frio lá fora."
Os olhos do arqueiro brilharam e ele pressionou os lábios como se nenhum argumento suficientemente convincente lhe ocorresse, embora ele precisasse desesperadamente de um. Todos os integrantes daquela sala pararam o que faziam, parecendo também à espera da resposta do pai.
Elrond suspirou, olhando o rapaz com carinho. Ele já estava pronto, os cabelos escondidos em um gorro de lã marrom e o corpo bem agasalhado nas pesadas e escuras vestes que Elrohir lhe emprestara. Ao mestre não agradava a idéia de forma alguma, mas sentia que não estaria de fato ajudando se roubasse do rapaz o sorriso que aquela perspectiva de passeio lhe presenteara.
"Está bem agasalhado?" Ele sorriu, ajeitando melhor o cachecol que envolvia o pescoço do príncipe. "Sua tosse não parece estar te incomodando muito."
"Não está, mestre." Legolas apressou-se em responder, voltando a pressionar os lábios e prender o ar no peito em expectativa. "Eu vou me comportar. Não vou me exceder, senhor. Eu prometo."
Elrond riu então, esvaziando os pulmões e tentando fazer de conta que aquele ato em si pudesse esvaziar seu coração das dúvidas e temores que tinha.
"Não sei não." Ele brincou. "Sempre que me faz uma promessa dessas acaba por ver-se obrigado a descumpri-la."
"Não, mestre." O arqueiro sacudiu a cabeça rapidamente. Não queria parecer ansioso ou algo assim, mas não podia evitar. Nos olhos do curador havia algo que o fazia sentir esperança de que o lorde elfo permitiria aquele pequeno excesso e ele queria agarrar-se àquela expectativa. "Eu vou me comportar. Danika já me disse que posso ficar sentado, pois há bancos em lugares cobertos e pequenos chalés onde nos abrigarmos se o tempo nos surpreender."
"É verdade, doutor." A moça reforçou com um sorriso, ao receber um ansioso olhar do amigo louro pedindo-lhe confirmação. Aquela cena a estava encantando, mas ela tentava ao máximo disfarçar sua admiração com a consideração com que Lazarus tratava o tio. Nunca havia visto tamanha devoção e respeito em sua vida. "Há lugares para nos abrigarmos se voltar a nevar."
Elrond suspirou mais uma vez, mantendo um olhar paciente no jovem louro, que agora unia nervosamente as mãos diante do corpo à espera de uma resposta.
"Se sentir algum mal estar..." Ele mal iniciou suas condições e já recebia o sorriso agradecido do jovem arqueiro.
"Vou ficar bem, mestre." Legolas impediu o final da frase do curador, cujo conteúdo já era de seu total conhecimento e Elrond riu mais uma vez, sacudindo conformado a cabeça.
"Estão atrasados?" Ele indagou enfim, olhando agora para a filha que também lhe sorria.
"Não." A moça respondeu. "Ainda temos tempo suficiente. Einarr é que está nos apressando porque é um impaciente nato. Se Enosh não fosse seu extremo oposto diria que ambos foram prematuros. Nascendo de cinco meses, na certa." Ela brincou e riu um riso delicioso do ar que recebeu como resposta do irmão desconhecido. "Por que, doutor?"
"Gostaria de acompanhá-los também." Elrond informou, esperando assim encontrar algo que apaziguasse suas sensações de perigo e afastando-se para apanhar o casaco que a esposa deixara sobre a cadeira.
Danika mostrou-se profundamente feliz com a idéia e Celebrian apoiou ambas as mãos na cintura.
"Ah, mas sendo assim eu também irei." Ela declarou com um de seus sorrisos encantadores. "Quero muito conhecer esses pequenos."
"Ah, tá! Perfeito!" Elrohir esbravejou, em uma irritação que era mais simulada do que real. "Então teremos mesmo que usar a espelunca do Estel. Era bom demais para ser verdade. Vou buscar minha caixa de ferramentas."
& Infância &
Estavam todos agora à porta do orfanato, esperando que a moça trouxesse os pequenos. Elrohir decidira que seria mais apropriado enfrentar o frio em sua moto do que um eventual problema no carro de Estel. Ele e o irmão então vieram na frente, enquanto Elrond guiou o restante da família no carro de Elladan.
Das dezesseis crianças que estavam sobre os cuidados de Danika restavam agora apenas seis. O destino, às vezes amigo dos que sofrem, trouxera famílias para todos os pequenos sadios do grupo, restando agora para a assistente social o encargo de cuidar dos que tinham algumas dificuldades. Dificuldades estas que, é claro, eram insignificantes aos olhos da moça, mas infelizmente constituíam um motivo que movia a sociedade a negar certas valorosas chances.
Legolas desprendeu os lábios ao ver Danika sair do orfanato com dois pequenos no colo e uma turminha atrás dela, todos caminhando de mãos dadas. O arqueiro olhou então para Elrohir que, assim como ele, perdera completamente a cor, e ambos se voltaram para o gêmeo mais velho.
Elladan, cujo rosto era uma máscara perfeita que pouco transmitia, apenas sacudiu a cabeça, repreendendo qualquer comentário dos dois a seu lado, em tempo suficiente de receber a irmã com um sorriso.
"Ah." Celebrian aproximou-se, apanhando já um dos pequenos que estava no colo da filha. "Que belezinhas! Olá, gracinha!" Ela disse, oferecendo à criança um sorriso tão sincero que foi imediatamente retribuído. "Veja só! São gêmeas!"
"É." Danika sorria largamente agora. Satisfeita como se de fato os pequenos fossem a família que ela agora apresentava. "Essas são Myrna e Mona."
"Quanto tempo têm essas belezinhas?" A elfa indagou, segurando a mão miúda da que mantinha no colo agora.
"Sete meses, apenas." Danika respondeu com um suspiro. "Têm asma, mas nunca mais tiveram uma só crise depois que o doutor receitou aquele medicamento abençoado." Ela informou, sorrindo agora para o curador. Elrond retribuiu, agachando-se então diante das outras três meninas que caminhavam atrás dela.
"Olá, pequeninas." Ele as saudou. "Eu me lembro de vocês. Lembram-se de mim?"
As crianças sorriram, amontoando-se timidamente e sacudiram suas cabecinhas.
"E essas quantos anos têm?" Celebrian indagou, olhando agora para as outras meninas.
"Síne, a moreninha aqui." Ela disse afagando os cabelos cacheados da criança. "Tem cinco aninhos completos, não é mesmo Si?" Ela indagou e a criança, agora sentada em uma das pernas de Elrond sacudiu novamente a cabeça. "Úna tem quase quatro, não é Úna?" Ela acariciou agora a outra menina, de cabelos um pouco mais lisos e que se abraçava timidamente a uma das pernas da moça. "Úna é mais tímida, mas ela e Nora fazem uma grande confusão quando estão juntas." Ela riu então, puxando delicadamente a outra menina para perto dela também. "Nora e Úna também são gêmeas, embora não se pareçam tanto quanto Myrna e Mona".
Elrohir sacudiu a cabeça diante do que via, depois se encostou mais no irmão, segurando-lhe um dos braços com firmeza.
"Dan... você já as conhecia?"
O gêmeo apertou o maxilar e respirou fundo.
"Eu as tinha visto quando Nika levou-as ao consultório."
"E por que não me disse?"
"Porque não tinha certeza... Eu..."
"Droga, Dan! Quando as pessoas vão parar de guardar as coisas importantes para si?"
"Quando elas tiverem certeza, Ro." O irmão respondeu com amargura, observando com um aperto a mãe tomar agora a outra bebezinha do colo de Danika. "Eu... eu estava confuso." Ele admitiu, olhando alternadamente para o calado Legolas e o agoniado Elrohir. "Tanta coisa tinha acontecido..."
Legolas baixou a cabeça, colocando solidariamente uma mão no ombro do gêmeo mais velho. Elrohir respirou fundo então.
"Contou ao ada?" Ele indagou em um tom mais conformado.
"Não. Nem sei se vou... Não agora... É muita coisa para a cabeça deles. São crianças de orfanato... Desde que as vi morro de medo de pensar no que pode acontecer a elas... Vocês não percebem? Todas as outras foram adotadas... e essas... justamente elas... não foram... É assustador... Eu não sei o que pensar."
Elrohir esvaziou os pulmões então, enlaçando o irmão em um abraço rápido e sacudindo novamente a cabeça.
"Não temos paz... Nunca teremos." Ele disse.
Mas Legolas olhava para os pequenos com ternura, o coração palpitando mais vivo do que nunca em seu peito.
"Ninguém os tomará..." Ele disse, vendo o último pequenino aparecer, um menino entre seis e sete anos, e ser imediatamente pegado no colo por Estel. O guerrilheiro beijou-lhe a bochecha, dizendo-lhe algumas palavras ao ouvido que fizeram com que risse também.
"Estão todos lá..." Elrohir sentiu seu queixo cair ao observar a mesma cena.
"Sim... Todos..." Legolas concordou, recebendo o olhar do pequeno que Estel segurava. O menino franziu o cenho ao vê-lo, permanecendo alguns segundos parado como se o fosse reconhecer, depois apenas sorriu e deitou a cabeça no ombro do guerrilheiro. "São uma família completa." Concluiu o admirado elfo, pensando que talvez o destino tivesse reservado ao amigo Estel mais do que apenas atribuições e tristezas. O destino parecia ter-lhe reservado algumas alegrias.
& Guizos e castelos &
Legolas caminhava pelo parque sozinho, estava fascinado com aquele resto de natureza perdido no meio da cidade. Não havia muitas árvores, era fato, mas as que estavam lá já o encantavam. Havia até árvores de grande porte como flamboyants, jambolões, palmeiras e alguns pinheiros. Também havia muitos ipês, inclusive dos tipos que produziam as flores amarelas que sua mãe gostava tanto.
Legolas suspirou. Era uma pena que a neve cobrisse tudo daquela forma. Mesmo assim, estava feliz apenas por poder sentir um pouco da natureza por perto. A sua volta, apesar do frio, ele podia ver que muitas famílias faziam o mesmo que eles naquela tarde. Pais e filhos passavam algum tempo juntos. A poucos metros dele, um senhor de cabelos grisalhos ajoelhava-se ao lado de dois meninos, ajudando-os a montar um pequeno boneco de neve. A tarefa não era fácil, pois ainda não havia neve suficiente para tanto, mas, mesmo assim, o paciente senhor cumpria seu papel naquele faz-de-conta, elogiando o trabalho final que, com certeza, muito pouco se parecia com o que os irmãos queriam realizar.
"Família." Ele disse para si mesmo, olhando agora as crianças de Danika. As duas gêmeas mais velhas se apertavam ombro a ombro em um dos bancos do jardim com suas bonecas de trapo, rindo e se acotovelando provocativamente. Síne, a mais velha de todas, estava em pé diante das outras, tomando para si o cargo de professora e gesticulando diante de um quadro imaginário. Legolas sorriu, lembrando-se que certa vez fora pego em uma das brincadeiras das filhas de Elessar e tomara o mais delicioso chá imaginário de sua vida. Ele riu então, sacudindo a cabeça e pensando que um dia ele também fora um elfinho e também correra e pulara e fizera de conta que tinha poder para transformar o mundo.
A poucos metros deles Elladan e Elrohir estavam sentados em outro banco, cada qual com uma das gêmeas mais novas no colo. Elas dormiam docemente nos braços dos dois, que pareciam conversar sobre um assunto muito sério. Legolas sentiu uma ponta de tristeza. Sempre fora difícil para os El aproveitarem um momento genuíno de alegria. O que chegava a ser uma ironia, levando-se em conta o quão bem dispostos e animados eles sempre procuravam transparecer. Na verdade, ambos mantinham a mente voltada para o medo do futuro que os atormentava. Sim, os gêmeos não eram como ele, que se abraçava a cada momento de paz e alegria como se julgasse que assim poderia mantê-lo eternamente, exatamente como estava fazendo naquele instante, olhando para os dois amigos idênticos, com bebês idênticos no colo e lembrando-se de todas as traquinagens de gêmeos que os dois ensinaram às duas filhas de Elessar há anos incontáveis agora.
Ele sorriu mais uma vez então, sacudindo levemente a cabeça e voltando-se para continuar sua caminhada. Foi quando algo surgiu em alta velocidade e colidiu-se com ele, levando-o imediatamente ao chão.
"Desculpe." Uma vozinha e um sorriso surgiram por sobre o elfo caído. Duas mãos apoiadas em seu peito e um rosto do qual Legolas nunca se esquecera. "Machucou?"
"Darian!" A voz de Estel foi ouvida em seguida e era nítido que o guerrilheiro tentava disfarçar o riso. "Assim você vai matar alguém, menino!"
A criança riu alto agora, aquele riso que só os pequenos sabem dar e que desperta em cada um o desejo de fazer o mesmo. Duas mãos fortes surgiram, erguendo o menino e voltando depois para oferecer ajuda ao elfo.
"Machucou-se, Azrael?" Estel indagou, puxando o amigo para que se levantasse.
"Não." Legolas respondeu, batendo a neve da pesada roupa que usava. "Está tudo bem. Estava mesmo querendo sentir esse chão frio, mas não tinha coragem." Ele brincou, sorrindo então para a criança que segurava a mão do amigo. "Olá, Dari."
"Darian." O menino corrigiu e Legolas sorriu novamente. Era exigir demais que um apelido antigo refletisse algo para aquela criança.
"Darian." Ele repetiu.
"Estávamos brincando de pega-pega." Informou o pequeno. "Quer brincar?"
Legolas ergueu os olhos para Estel, que deu de ombros, isentando-se habilmente de opinar a respeito. Sabia o ridículo que fazia, correndo pelo parque com aquela criança, mas decididamente, não se importava nem um pouco.
"Acha Eleazar um bom corredor, Darian?" Perguntou intencionalmente o elfo.
"É claro que acho." O menino respondeu com uma veemência que admirou o guerrilheiro. O pequeno o havia visto poucas vezes. "Ele pode ganhar de qualquer um."
Legolas sorriu então, lendo devagar os olhos claros de Estel que, ao perceber-se analisado pelo amigo, empalideceu. Ele conhecia aquele olhar do elfo e sabia que algo estava por trás dele.
Algo sempre estava...
"Ele pode ganhar de você!" Darian ainda provocou e Legolas ergueu ambas as sobrancelhas.
"Eu não apostaria." Estel apressou-se em responder, um tanto encabulado pela defesa acirrada que Darian estava lhe oferecendo.
"Pois eu sim." Legolas respondeu com um suspiro de cansaço, olhando pacientemente para o animado menino
"Eu também." Darian concordou, mas Estel já tinha olhos preocupados sobre o amigo louro.
"Azrael está meio adoentado, Darian." O guerrilheiro explicou. Estava na verdade angustiado pelo amigo há muito tempo, mas os acontecimentos daqueles dias ofereceram de vez todos os motivos para tal preocupação. "Não vamos abusar dele."
Legolas soltou um suspiro mais forte, mas seu semblante ainda transmitia satisfação.
"Quem sabe quando eu estiver inteiro novamente possamos fazer tal aposta." Ele ofereceu.
"Está bem." O menino concordou, olhando ainda o elfo com insistência. Legolas sorriu novamente para ele ao vê-lo afastar-se com o pai que não conhecia.
"Por que o chama de Azrael, El?" Ele ouviu ainda o menino perguntar.
"Porque gosto." Estel respondeu. "Como sabe que ele não se chama Azrael?"
"Não sei. Mas pensei que ele tinha outro nome."
"Qual nome, Darian?"
"Sei lá... outro nome..."
"Lazarus." Estel disse, tomando a mão do menino novamente e vendo-o franzir insatisfeito as sobrancelhas, como se ainda quisesse se lembrar de algo e alguém não o estivesse ajudando. "Ele se chama Lazarus, mas nós o chamamos de Las."
"Las... isso... Las é o nome dele." O menino disse então, voltando a olhar o elfo por cima do ombro e depois soltando novamente a mão que segurava para voltar a correr pelo parque.
&&&
E assim passou-se a tarde sem grandes eventos. Elladan e Elrohir permaneceram onde estavam. Estel brincou com Darian e Danika ficou grande parte do tempo conversando com Elrond e Celebrian. Legolas sentou em um dos bancos e deixou-se perder em pensamentos agradáveis, enquanto o pouco sol ainda deixava seus raios escaparem pelas nuvens escuras acima e o parque esvaziava-se devagar.
"Elas são boas crianças." Danika afirmou, sentada agora ao lado de Estel. Elrond e Celebrian estavam em pé próximos a eles, apreciando o que podiam ver do fim de tarde. "Trabalho com elas desde que eram pequeninas. Ainda me lembro do rostinho redondinho de Darian quando chegou no orfanato."
"Nunca mais tiveram crises?" Elrond indagou.
"Não, nenhuma. Excetuando o alarme falso de Síne no hospital aquele dia." Ela sacudiu a cabeça. A mais velha das meninas era um pouco temperamental. "O senhor e Enosh são mesmo abençoados."
"Abençoados são esses pequeninos, princesinha." Celebrian disse, olhando agora para as outras meninas que se achegaram aos gêmeos e conversavam animadamente com eles. As duas bebezinhas também haviam despertado e os dois irmãos pareciam envolvidos em um jogo de provocações e risos que estava dando um bom resultado. "Elas têm você que se preocupa e olha por elas."
"Ah..." Danika sorriu com uma ponta de tristeza. "Ficaria com elas vinte e quatro horas se pudesse. Quem dera fossem minhas de fato. São tão unidas que chega a me dar um aperto quando algum casal olha para alguma delas. Fico imaginando como seria se tivessem que se separar."
"E suas famílias?" Elrond indagou.
"Não sabemos nada sobre eles. São uma grande incógnita. A única coisa que sabemos é que são de minha terra. Nova Cillian, há tempos, é um reino dividido por grandes conflitos." Ela comentou olhando agora ao redor. "El, onde está Darian?"
Estel fez o mesmo giro de cabeça que a namorada pelo parque todo.
"Essa não." Ele disse. "Estava ali agora mesmo!"
"Ali onde?"
Estel não respondeu, andando a passos largos em direção a uma grande árvore. Danika e os pais fizeram o mesmo.
"Darian!" Ele gritou, após constatar que o menino não se encontrava às suas vistas. Legolas e os gêmeos se ergueram de onde estavam e se aproximaram também.
"O que houve, Eleazar?" Elrohir indagou, ainda com uma pequena no colo.
"Darian. Não o viram?"
"Não." Elladan respondeu a questão, olhando também por toda à volta a procura do menino. "Onde o viu pela última vez?"
"Anjos do senhor." Danika apavorou-se, empalidecendo e dando passos sem rumo pelo lugar. "Las, não o viu, anjinho?"
Legolas parou alguns instantes, tentando ouvir algum som familiar. Mas uma voz rompeu as expectativas.
"Nika!"
A moça ergueu a cabeça.
"Ai, meu pai do céu!" Ela disse apoiando a mão nos lábios. "Darian! Não se mexa!"
O menino estava há uns cinco metros de altura, em um dos galhos de um enorme pinheiro que se encontrava bem no centro do parque.
"Tá tudo bem." Gritou o pequeno. "Mas eu não consigo subir mais. É muito liso."
"Subir?" A moça não entendeu. A seu lado os gêmeos já entregavam os bebês que seguravam para a mãe e a irmã e se aproximavam da árvore, pensando em como escalá-la.
"Está muito liso." Elrohir afirmou, apoiando as mãos no tronco coberto de uma película de gelo fino.
"Os galhos..." Legolas segurou subitamente o gêmeo mais novo pelo braço. "O gelo os transformou em armadilhas."
Os irmãos se entreolharam por um curto tempo, depois se aperceberam do que o elfo silvestre estava falando.
"Não podem receber muito peso." Legolas afirmou, tirando rapidamente o pesado sobretudo e tomando a frente dos irmãos. "Deixe que eu vou."
"Nada disso." Elrohir agarrou-lhe um braço. "Você não está bem."
"Estou bem, Einarr." O arqueiro respondeu. "Sabe que sou o mais indicado."
"O mais indicado uma ova." Retrucou o irritado gêmeo.
Legolas fixou seus olhos nos do amigo, e havia angústia e urgência tamanhas neles que Elrohir se arrepiou.
"É perigoso, Las. Me deixe ir." A voz do gêmeo deslizou para um tom de súplica que não lhe era peculiar. Seus instintos de guerreiro lhe lançavam inegáveis avisos, avisos que ele não sabia como atender.
"A árvore não vai agüentar seu peso, Einarr." Legolas reforçou. "Sou mais leve e você sabe que ela me... ela me permitirá..." O arqueiro procurou explicar, usando o mínimo vocabulário que podia sem que suas palavras o fizessem passar por insano ou algo do gênero diante de Danika. "Você sabe..."
Elrohir engoliu em seco, em seguida olhou para a família preocupado. Ele sabia que se alguém ali seria bem aceito por aquele ser coberto de gelo e talvez até guiado em segurança até as alturas, esse alguém seria aquele elfo da floresta. Entretanto, o gêmeo não conseguia conter sua preocupação.
Elrond apoiou a mão no ombro de Legolas e recebeu deste um olhar de mesma convicção que o arqueiro lançara ao gêmeo. O curador franziu o cenho, ouvindo o ressoar dos inúmeros avisos que recebera para não executar tal empreitada. Que tempos eram aqueles nos quais tão importantes pressentimentos eram simplesmente ignorados?
"Permita que eu vá, mestre. Por favor." Pediu o príncipe, e seu tom de urgência apenas reforçou o questionamento que torturava o curador. "Por favor."
Elrond respirou fundo. O olhar de Legolas lhe dizia mais do que ele na verdade queria saber. Ao coração do curador, chegava a incômoda certeza de que o príncipe também parecia estar seguindo seus próprios avisos.
"Mestre..." Legolas repetiu e Elrond suspirou, assentindo com a cabeça, para enfim o gêmeo soltar relutante o braço do amigo louro.
"Ai ai..." Danika lamentou-se, segurando com mais firmeza a bebezinha que agora tinha nos braços. "Por que ele faz isso? É só eu dar as costas que ele consegue arrumar criatividade para fazer o que não deve."
"Porque é criança." Estel disse com um sorriso preocupado. O olhar fixo na figura agarrada a um dos galhos, enquanto o amigo elfo vencia todos os obstáculos até ela com destreza inacreditável.
Legolas subiu a árvore com tanta rapidez, que até os gêmeos ficaram impressionados.
"Elfinho do mato." Elrohir disse quase para si mesmo, mas os lábios de Elladan se ergueram em um sorriso de concordância.
Lá em cima o arqueiro se esticava agora para alcançar o menino.
"Venha, Darian."
"Não, Las." O pequeno retrucou, agarrando-se mais ao galho no qual estava. "Eu preciso pegar ele ali... tá pertinho."
Legolas franziu o cenho, ainda com o braço esticado na direção do menino.
"Ele quem?" Indagou por fim, ao perceber que Darian realmente não parecia disposto a obedecer.
"Ele ali." O menino apontou e o elfo ergueu o rosto novamente. Alguns galhos acima um pequeno gato pardo encolhia-se. Era apenas um filhote.
Legolas voltou a franzir o cenho, descrente da informação que seus olhos lhe traziam. Ele olhou para baixo, para cima, para os galhos todos, para enfim suspirar, admirado do que uma simples criaturinha peluda daquelas era capaz de fazer.
"Falta pouco, Las. Mas eu não consigo alcançar. Você me ajuda?" Darian insistiu, em um tom de quem não pretende aceitar uma negativa como resposta.
O elfo louro suspirou. Vida cheia de imprevistos. Por fim voltou a erguer a cabeça na direção do pequeno felino.
"Aiya! Lle anta amin tu, mellon-nin?" - Ah! Precisa de ajuda, meu amigo? - Ele indagou, escorregando quase automaticamente para o idioma nativo, idioma este que ao pequeno felino pareceu bastante natural, pois o gatinho virou o rosto de onde estava e olhou para ele."
"Fala a língua dos gatos, Las?" Darian indagou, admirado com a estranha cena e Legolas apertou o maxilar e pendeu a cabeça sem saber ao certo o que responder.
"Mais ou menos." Ele disse. "Mas você precisa vir comigo, Darian." Ele pediu então, bastante sério. "É muito arriscado aqui onde estamos."
"Ah, não!" Protestou o pequeno, erguendo a voz e agarrando-se ao tronco frio. "Preciso pegar ele, Las. Tá frio demais e ele vai congelar."
Legolas ainda ficou alguns instantes encarando o pequeno e teimoso menino, sem conseguir evitar a recordação de um outro menino tão corajoso e tão teimoso quanto ele. Sim. Darian, em qualquer geração de sua vida, tinha muito do pai.
"Darian, escute. Esses galhos estão congelados, nosso peso pode parti-los a qualquer momento. É uma queda muito difícil daqui até o chão."
O menino bufou então, fazendo um beicinho que só fez com que Legolas se lembrasse mais e mais do pequeno Estel. Legolas sacudiu a cabeça. Nem mesmo o próprio Eldarion fora tão impulsivo e obstinado.
"Vá você então." O menino enfim respondeu. "Eu vou salvar o gatinho com ou sem você me ajudar."
Legolas fechou os olhos e afrouxou um pouco a força com a qual se segurava no tronco onde se apoiava. Estava tão cansado e simplesmente não se lembrava mais de como lidar com a teimosia infantil. Mesmo porque ele também não se sentia completamente seguro, sobre o quão justo seria deixar aquele pobre animal na situação na qual, acidentalmente, se colocara.
"Façamos o seguinte então, Darian." Ele disse enfim, sentindo-se como quem está sempre a perder uma batalha, mas não estando bem certo sobre o quão ruim isso seria. "Eu levo você de volta e depois venho apanhar o pequenino ali."
Darian franziu a testa desconfiado.
"Está mentindo." Ele atestou sem entrelinhas ou cerimônia. "Adultos sempre prometem as coisas para que a gente faça o que eles querem, mas depois não cumprem."
Legolas também franziu o cenho. Nunca havia pensado naquilo. Pior era a conclusão de que o menino estava inteiramente certo. Pior ainda era imaginar que depois de crescidos tais meninos, como Darian, fariam exatamente a mesma coisa.
"Não estou mentindo, Darian." Legolas respondeu então, surpreso com sua própria conclusão.
"E como é que eu vou saber? Como vou saber quando alguém não está mentindo?" Ele indagou então e Legolas estranhou em ver que os olhos do menino brilhavam agora, como se aquela informação fosse de tanta importância quanto o resgate da pequena criatura em apuros.
O arqueiro desprendeu os lábios, mas nada em si foi mais forte do que o silêncio que a ausência de uma resposta deixou.
"DARIAN!" A voz de Danika ergueu-se lá debaixo. "Venha com o Las para cá, vamos! Vai ficar tudo bem, querido." Ela pediu, julgando que a demora fosse devido a algum tipo de apreensão por parte da criança.
Legolas baixou o rosto tristemente, mas quando o reergueu os claros olhos de Darian o olhavam de forma estranha.
"Não estou mentindo..." Ele apenas disse e o menino apertou os lábios.
"Tá certo..." Ele surpreendentemente respondeu, após alguns instantes de silêncio, depois esticou-se um pouco, erguendo a mão e apanhando a do arqueiro. "Mas... salva ele, Las. Salva o coitadinho do frio."
Legolas assentiu calado, em seguida puxou o menino e enlaçou-o pela cintura. Darian envolveu o elfo com os pequenos braços e apoiou a cabeça em seu ombro, trazendo novamente o arrepio das boas recordações. De fato, aquela Terra-Média renovada tinha lhe reservado alguns momentos doces, pequenas compensações para toda a amargura que via.
Ele suspirou uma última vez, procurando centrar suas energias na descida que certamente não seria tão fácil quanto a subida. Os galhos rangeram com o peso de ambos e a boa árvore procurou ao máximo indicar-lhe os pedaços seguros de apoio. O elfo ouviu atentamente, obedecendo à risca cada conselho.
Finalmente Legolas sentiu Elrohir, que aguardava já de braços estendidos, receber aliviado o menino. O gêmeo passou então para Estel, que o abraçou com um carinho que não era natural para o guerrilheiro.
"Seu menininho arteiro." Danika disse com um suspiro, olhando para a criança nos braços do namorado. "Quer nos matar de susto?"
"Não." Ele defendeu-se. "Quero pegar o gatinho que está preso."
"Gatinho? Que gatinho?" Quase todos indagaram ao mesmo tempo e depois voltaram suas cabeças para cima e surpreenderam-se ao ver Legolas voltando a escalar a perigosa árvore.
"Droga." Elrohir murmurou, voltando a apoiar ambas as mãos no tronco gelado.
"Ele não mentiu..." Darian disse, admirando sorridente seu novo herói subir corajosamente a perigosa árvore para cumprir a promessa que lhe fizera. "Ele vai salvar o gatinho."
"Salvar o gatinho? Salvar o gatinho! Claro! Ele vai só ali salvar o gatinho! O pobre gatinho!" Elrohir repetiu algumas vezes para si mesmo, enquanto acompanhava, ainda descrente, o trajeto do amigo louro e balançava indignado a cabeça. "E eu vou dar uma bela sova nele assim que colocar seus pés de elfo do mato aqui nesse chão."
Ninguém riu da brincadeira. Na verdade Elrohir não tinha a intenção de fazer-se sequer ouvir e daria graças se tivesse percebido o deslize que cometera em seu comentário. Elladan pareceu ser o único a perceber o fato e respondeu apertando-o o braço do irmão para fazê-lo cair em si de onde estava.
"Quieto, Ro!" Elrohir ainda ouviu o conselho, mas nem conseguiu atribuir-lhe qualquer importância, seus olhos estavam fixos na figura do amigo da floresta, que já atingira o topo da árvore, apanhara o pequeno animal, mas estranhamente parecia não estar disposto a voltar.
"Azrael?" A voz de Estel soou, alcançando as alturas e atingindo os ouvidos do amigo elfo. Porém Legolas não se sentia preparado para responder. Sua mente estava em um grande turbilhão de angústia e preocupação, enquanto seus olhos fixavam-se em uma cena que não queria ver. Do topo da árvore ele amargava uma imagem bastante real. De um grande carro escuro, uma conhecida figura ruiva desceu e agora entrava no parque pelo portão lateral, acompanhada de outros quatro homens.
"Drago..."
