No último capítulo…

Commodore procura Dorothy para contar-lhe sobre a decisão de Decker executar Relena. Decker manda construir o palanque de execução e durante o almoço conta a Dorothy sobre a sentença dada a Relena, a ser cumprida no sábado de manhã. Decker está muito desconfiado de Commodore desde que flagrou ele conversando com Relena. Commodore, por sua vez, não está mais tão disposto a amainar as suspeitas do primo. Relena conta a Noin tudo o que houve entre ela e Decker ao verem a construção do palanque começar. Dorothy manda buscar Relena e elas conversam sobre uma forma de livrar a princesa da morte. Dorothy propõe que ela volte atrás e aceite a casar com Decker, poupando a própria vida, com a garantia de Decker seria eliminado na hora mais propícia. Relena não aceita participar desse plano, preferindo morrer. Tanto Dorothy quanto Commodore lamentam essa decisão, mas respeitam e admiram Relena ainda mais por esta.

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Capítulo 35 – Perto demais

Subindo uma colina debaixo do Sol das três horas da tarde, a tropa de cavaleiros avistou uma vila pitoresca. Parecia um lugar muito agradável onde seriam muito bem recebidos. Tinham almoçado na floresta, Akane comprara pães e queijo, estava sempre os perturbando a comer coisas que eles não tinham noção do que eram – carboidrato e proteína. Agora os cavalos pareciam estar com sede e um pouco fatigados e talvez fosse mesmo hora para um intervalo na viagem.

_Já devemos estar perto. –Quatre comentou, olhando o mapa. –Aquele vilarejo é uma das referências do mapa e, pelo que vejo, ele e o castelo Romefeller não são muito distantes um do outro.

_Que bom. –Trowa respondeu, mas o motivo de tal frase era difícil de entender.

_Bem, o negócio agora é irmos até lá… com certeza teremos mais informações. –Duo falou, simplista e Quatre assentiu, concentrado.

_Agora é hora de tomarmos cuidado redobrado… Se realmente estamos perto dos Romefellers, eles podem desconfiar de nossa presença. –Heero disse friamente, olhando para o vilarejo à frente.

_Certo, vamos logo com isso. –Wu Fei rosnou e fez Sheng Long começar a andar. E falava murmúrios em chinês que não soavam nada agradáveis.

Duo deu de ombros e o seguiu. Assim, todos os outros partiram. Akane ia sempre ao final da fila, Unicorn dava passos despreocupados enquanto sua amazona olhava o céu e os arredores com um sorriso esboçado.

_O dia está lindo, não é? –ela perguntou depois de se aproximar e Quatre lhe sorriu bondosamente, a pele do rosto rosada do Sol e ele parecia tão lúcido quanto o astro-rei.

_É verdade! Nossa viagem está sendo muito deleitável pelo menos… –e ele adicionou suavemente, a voz tão doce e bonita. Akane gostava de ficar próxima dele, era tão relaxante.

_Eu fico me perguntando por que Decker quis trazer a princesa para um local que na verdade é tão perto do Reino de Sanc… –Trowa mencionou, parecendo divertido com o assunto.

_O Decker é pirado, sacou? Acho que isto explica tudo! –Duo respondeu debochado e sorriu largo, divertindo-se.

_Pobre de ti se te ouve falar assim… –Quatre provocou, mas tudo nele não indicava isso.

_Ah, o que é que dá? Dá nada, dá nada…

Akane riu e olhou Heero, como que para compartilhar a graça da situação, mas ele apenas franziu o sobrolho.

Eles já estavam próximos da entrada do vilarejo e os moradores que circulavam por ali observavam cheio de assombro a tropa que se aproximava, e se afastavam. Tinham medo do que aqueles forasteiros estavam trazendo com eles – estavam escaldados. Eram tempos nebulosos, não havia nada mais além da incerteza completa. Ainda mais, eles não eram os únicos que tinham acabado de chegar.

_Olhe só, parece que não haverá somente nós de forasteiros por aqui… –Trowa murmurou logo avistando da entrada uma comitiva que consistia de muitos cavaleiros e quatro carruagens, sendo duas de carga.

Quatre assentiu, concordando com Trowa e Duo logo concluiu:

_Pelo jeito são pessoas de posse… Veja só que comitiva enorme! Quantos guardas! O que será que um pessoal rico deste está fazendo neste fim de mundo?

_Será que são Romefellers? –Quatre arriscou, logo preocupado com o sucesso da missão que empreendiam. Mas Heero já havia se preocupado com isso muito antes e disse friamente:

_Não, eu nunca vi este brasão antes…

Heero fitava as flâmulas estáticas nos mastros carregados por alguns guardas, olhos de suspeita e desdém. Ele observava friamente os cavalos pomposos, de pelos bem aparados e brilhantes e as pessoas desinteressadas, que nem pareciam ter notado os outros recém-chegados. Os que viajavam dentro das carruagens – os nobres – aparentemente não tinham dado as caras, e Heero apenas esperava que aqueles não estragassem a missão.

_É muito bom que tenha outros viajantes por aqui, eles farão com que nossa passagem se torne despercebida e camuflada. –Wu Fei disse sério e de forma respeitável e alguns se espantaram discretamente ao ouvi-lo finalmente não reclamar sobre nada. Mas Wu Fei continuou agindo friamente, olhando os arredores.

O ponto de vista do Wu Fei agradou Heero, apesar de que ele não expressou nada. Apenas olhou o companheiro após a frase e depois voltou a observar a comitiva. Estavam já muito próximos, Wing pareceu irritado com a presença daqueles desconhecidos, e fungou bravo, mexendo a cabeça em desaprovação.

_Não fique tão inquieto. –Heero o repreendeu, e Wing bufou. –Não há motivo para tanto, você está procurando confusão?

Wing fingiu-se de surdo, mas serenou. Heero tinha um jeito duro e ríspido de tratá-lo, e ele não gostava de desafiar o dono demais. Aceitava que finalmente tinha sido domado.

Ninguém sentia falta de Akane, mas quando foram dar-se conta, ela estava debruçada na janela da carruagem, Unicorn a observava de longe, como se fosse um pônei, porque continuava parado ao lado de Sandrock, paciente.

_Mas o que ela está fazendo lá? –Duo perguntou surpreso, e todos se mantiveram calados porque não tinham nada para responder. Ela era sempre imprevisível.

Heero estava muito desgostoso com a atitude dela, mas ainda assim não disse nada. Ele simplesmente agitou as rédeas e foi com Wing até onde ela estava sorrindo, mesmo debaixo daquela pesada armadura negra. Quando se aproximou fez sombra sobre ela, que olhando sobre o ombro, procurou saber quem tinha se achegado, porém, ela não falou nada quando viu que era Heero. Ele apenas a fitou com firmeza e dentro da carruagem viu uma moça de cabelos loiros muito brancos e olhos claros. Akane e ela estavam conversando.

_Cadê o Edgar? –Akane perguntou, calmamente, procurando no interior da carruagem.

_Está com meu pai no outro carro… –a moça respondeu despreocupadamente e ergueu os olhos para ver quem é que estava montado no cavalo branco perto de sua janela. Ela viu Heero e abriu um sorriso enigmático. –Boa-tarde. –cumprimentou com sua voz rouca e sotaque britânico abundante.

_Heero, seja educado e diga boa-tarde para minha amiga. –Akane importunou Heero, imperiosa, e a moça na carruagem soltou um risinho. Ele não desfez a carranca, e seus olhos altivos pareciam nem encostar na imagem da moça. –Esta é Desdemona, filha do duque de Withglow.

Desdemona mostrava um sorriso elegante e refinado para ele, mas Heero não estava disposto a nada.

_Akane, vamos logo. Estamos ocupados. –ele simplesmente cobrou.

Akane o olhou e meneou a cabeça, relevando-lhe as palavras. Wing mordeu a borda da capa dela e a puxou de leve e Akane riu, impressionada com o gesto do animal, no entanto não tinha a mínima pressa. Desdemona também riu divertindo-se e Heero já estava se aborrecendo com o jeito de comadre das duas moças.

_Desdemona, este é o simpático, sociável e dócil Sir Heero Yuy e seu corcel Wing… –Akane então apresentou Heero cheia de provocação e Desdemona riu por causa do gracejo irônico, mas Heero bufou mais irritado que antes e se afastou.

_O que vocês vieram fazer aqui? –Akane debruçou-se na janela da carruagem outra vez e continuou conversando com a amiga. –Estão indo para os duelos em Sanc?

_Bem que eu gostaria, mas a nossa rota é outra. Estamos indo para a direção oposta… Papai diz que não quer ir para os duelos para que eu não fique perdendo tempo nas tavernas "me desvirtuando"… –Desdemona explicou displicente, sorrindo instigante, e Akane assentiu:

_Que droga… Seria legal ter você lá com a gente…

_É, eu também queria ir, mas meu pai está mesmo a fim de me "endireitar", como ele diz… Ele não consegue me entender, não me deixa em paz um segundo… Será que não percebe? Eu não quero saber de nada disso…

Desdemona era uma jovem rebelde e determinada. Não queria se submeter aos comportamentos restritos da nobreza. Gostava de frequentar as tavernas, andar a cavalo nas selas masculinas, mas não podia fazer nada disso e vivia travando longas discussões acaloradas com o pai. Ela e Akane se conheciam já há algum tempo e compartilhavam do mesmo espírito de obstinação. Queriam ditar as próprias regras.

_E você, o que faz aqui? O que está acontecendo? –Desdemona então perguntou achando interessante a coincidência.

_ Muitas coisas estão acontecendo, é tudo muito complicado, sabe?

_Entendo completamente: são suas obrigações, certo? –Desdemona estava bem por dentro da situação incomum de Akane e, com um sorriso, a ruiva assentiu. –E quem são os bonitões? –ela perguntou depois com jeito charmoso e Akane riu:

_São os "Formidáveis" oras, meus companheiros de ordem. Eu e eles estamos aqui numa missão especial e sigilosa pelo Reino de Sanc…

_Entendo. –e para Desdemona o que ouviu foi o bastante. Como britânica sempre agia muito refinada e discretamente. –Se precisar de qualquer auxílio, farei tudo que estiver ao meu alcance.

_Eu sei, Desdemona, e lhe agradeço muito pela disposição. –Akane respondeu sorrindo contente para a amiga, e Desdemona agradeceu por sua vez com um movimento de cabeça.

_Espero poder conversar com você mais depois… –Desdemona comentou por fim, desgostosa da situação e das rédeas que seu pai aplicava.

_É, eu também! Temos muito para pôr em dia, não é mesmo?

_Com certeza! Estou louca para ouvir as suas histórias e aventuras mirabolantes…

Akane simplesmente riu depois disso, dando mais motivos para Desdemona ficar curiosa, e assim, elas despediram-se. Estava um dia brilhante, Akane fez sombra sobre os olhos para enxergar os cavalos "Formidáveis" parados lá na frente, e abriu um sorriso caloroso como o Sol. E foi caminhando de volta até Unicorn, sem se preocupar se todos olhavam para ela. Talvez os vilões se perguntassem que sorte de moça usava armadura como um cavaleiro, sem muito bem entender o que estava acontecendo. De fato, eles na verdade não conheciam nem metade da história.

Os mais perspicazes logo poderiam concluir que a presença dos cavaleiros com certeza tinha a ver com o castelo de veraneio dos Romefellers ali próximo. E, muito acostumados a verem as damas Romefeller vestida em panóplias, podiam suspeitar que a moça de cabelos vermelhos também fizesse parte da família e os cavaleiros com ela eram seus guarda-costas, como era comum das moças Romefeller. Por isso, todos guardavam reserva e olhavam impressionados para os cavaleiros pomposos que ficavam parados no meio da cidade debaixo do Sol que fazia as armaduras brilharem apesar da poeira dos caminhos que as cobria. E os rapazes se conversavam fazendo mistério e não davam abertura para aproximação alheia. Algumas crianças tomaram coragem e se achegaram de Sandrock, mas o corcel não se incomodou com a presença destes, que curiosamente alisavam o pouco de focinho que surgia da manta. Quatre olhou as crianças bondosamente, mas depois prosseguiu prestando atenção no diálogo entrecortado que seguia entre os rapazes restantes enquanto Akane se aproximava deles.

_O que você pensa estar fazendo, hã? –de repente, soou atrás de Akane uma voz enfurecida. Ela nem tinha notado, mas Heero a esteve esperando terminar o assunto e a vinha seguindo sobre o cavalo, e começou a brigar com ela, a voz muito empertigada. Akane apenas abriu um sorriso convencido e não olhou para trás, para ele.

_Não enche, vai, Heero… –e depois de alguns passos ela desdenhou com voz risonha e Heero meneou a cabeça. Já estavam perto dos outros rapazes, que os estavam esperando enquanto discutiam sua próxima ação.

_Por que você se acha no direito de ir entregando tudo o que estamos fazendo para aquela forasteira? –ele perguntou depois, intrigado e desgostoso, e Akane voltou-se para ele e começou a andar de ré, fitando-o com desafio, e foi explicando:

_Escuta aqui, rapaz: por que você se acha no direito de ir me condenando assim? "Aquela forasteira" é minha amiga, falou? Ela me ajudou várias vezes no passado, sempre soube a respeito da minha verdadeira identidade! Ela pode ser muito útil.

_Faça-me o favor! Não temos tempo para suas socializações! –Heero reclamou amargo e Akane desdenhou, estalando os lábios:

_Heero, deixa de ser implicante!

Heero estava ficando cada vez mais enfurecido com a petulância da menina. A discussão deles acabou chamando atenção dos outros "Formidáveis", que pararam de conversar e ficaram assistindo a briga, que não terminou por ali.

_Eu deixo de ser implicante quando você fizer as coisas direito!

_Eu faço tudo muito direito! O que deu em você que já acordou azedo hoje, hein? –Akane colocou as mãos na cintura e indagou, gesticulando com a cabeça. A desenvoltura dela estava testando a parca paciência que Heero tinha.

_Cala a boca… –ele rosnou baixo e cheio de sanha.

_Não calo, não calo! Para de querer controlar a vida dos outros! –Akane replicava sem dó, invocada com o jeito dele para cima dela.

_Mas que briga… –Duo murmurou no fundo, assistindo tudo passivamente.

_Qual é o motivo? –Quatre indagou preocupado.

_Com certeza, nada demais… só estão estragando tudo chamando atenção… –Wu Fei disse cheio de menosprezo, ajeitando um fio da crina de Sheng Long. Trowa riu em seguida desta frase.

_Ao invés de ficar descontando nos outros, fala logo o que tá perturbando! –Akane cutucou, olhando nos olhos de Heero, atrevida.

_É você que está perturbando! –ele respondeu frisando bem, olhando para ela de cima de Wing que já parecia entediado. As crianças olhavam vidradas para a dupla que agia mais infantilmente do que elas próprias.

_Ai, fiquei magoada! –Akane simulou tristeza.

_Já chega disso… –Wu Fei se intrometeu ferino, exausto com aquela troca sem sentido na típica picuinha de irmãos. De algum modo, funcionou.

_O que vamos fazer? –Duo indagou então, displicente, e depois olhou a volta. As crianças tinham dispersado depois da briga e as pessoas nem pareciam se importar mais com eles ali, já que a comitiva Withglow era muito mais atraente.

_Vamos descansar um pouco e pedir informações sobre qual é a distância até o castelo Romefeller e então armarmos nossa estratégia. –Quatre respondeu prontamente, sem qualquer esforço e Trowa assentiu em seguida.

_E para isso nós não vamos ter de nos enfiar num destes antros embolorados fedendo a álcool, teremos? –Wu Fei perguntou, e ficou incerto se provocava, reclamava ou lamentava.

_Claro que teremos! Estes são os melhores lugares para conseguir informações! –Akane exclamou contente e Quatre meneou a cabeça divertidamente.

_Mas você veio ao mundo a passeio mesmo, não? –Wu Fei replicou, desdenhoso.

Akane envolveu o pescoço de Unicorn com um braço e foi com ele até a fonte que havia no centro da praça para que ele bebesse, e ficou lá sentada na borda. Olhava muito para o céu: temia que o brilho daquele Sol estivesse na verdade anunciando tempestade. Estava fazendo muito calor, tudo brilhava alegremente e era Verão – todos estes detalhes contribuíam para a chuva. Se chovesse a missão deles poderia ser mais difícil de executar.

Por fim, todos os cavalos foram tomar água, competindo um pouco entre si e entre os cavalos da caravana Withglow, e de longe Edgar abanou a mão para Akane, um pouco antes de ela entrar na taverna, muito depois dos rapazes "Formidáveis", porque ela tinha ficado para trás com os outros cavalos enquanto eles bebiam e depois os atou até uma trave na entrada da taverna. Ela sorriu para Edgar saudosamente, mas não foi conversar com ele.

Como Wu Fei bem descreveu, o ambiente da taverna era úmido, escuro e cheirando a destilado, mas mesmo assim se sentaram para tomar uma rodada de qualquer coisa que lhes fosse oferecida, no caso, ale. Só porque era uma taverna não significava que fosse um lugar indecente. Na verdade, era uma das tavernas mais aconchegantes nas quais já haviam entrado, além de muito grande.

Akane, quando entrou, viu os cinco rapazes reunidos numa mesa afastada e uma moça de cabelos negros usando espartilho apertado entregando as canecas de cerveja. Duo parecia estar flertando com ela, que depois deixou a mesa com um sorrisinho ruborizado. Akane parou no meio do trajeto e suspirou irritada com a cena, mas não se preocupou de ir repreendê-lo instantaneamente e continuou e se encostou ao balcão, onde um homem alto e muito ruivo a esteve seguindo com os olhos desde a entrada e notando o modo que ela se vestia. Ele tinha um rosto bonito, como se tivesse recebido uma criação abastada, e seus olhos azuis fervilhavam.

_'Tarde, senhor, como vai? –ela começou falando num tom baixo e intrigante.

_Vou muito bem agora que tenho uma mocinha linda na minha frente! –gracejou e ela sorriu sedutoramente.

_Posso saber o nome do senhor? –perguntou e, notando a disposição do barman, manteve o sorriso que ficava cada vez mais instigante.

_Sou Tristin, milady, o dono do estabelecimento e um humilde servo teu. –ele era divertidamente teatral, mas não falso, e por isso Akane soltou um risinho sincero e divertido. –Bem-vinda ao "Dragão de Duas Cabeças"! O que a dama deseja? Uma copa de sangria eu suponho? –Tristin continuou com simpatia e galanteio, sorrindo largamente a mostrar os dentes brancos e bonitos. Akane abriu um meio sorriso e continuou séria:

_Não, me sirva uma boa cerveja, mas me responda, por favor: a que distância estamos do chateau Romefeller?

_Por que quer saber, milady? –e perguntou, também falava baixo e cauteloso, olhando-a com interesse.

_Uma pergunta em troca de outra? É assim que se joga por aqui, então…–Akane disse, aproximando-se bem o rosto do homem. Tirou a caneca da mão dele e tomou um longo gole, sem remover os olhos do homem. –Não vai me responder? O que custa, hein? –e fez charme, enquanto o homem olhava de modo divertido, pouco afetado pelo comportamento da moça. Conhecia bem demais aquele tipo de menina e gostava especialmente do jeito de Akane, já que um atraente mistério envolvia a forasteira mais do que o costume.

_Ah, senhora, o castelo Romefeller fica umas três horas a cavalo daqui. É bem perto, não concorda? –e ainda quis agradá-la enquanto assistia ela tomar outro gole e depois fitar o fundo vazio da caneca enquanto alisava a borda com o indicador enluvado de astrakhan.

_É, concordo sim… É muito bom saber disso. –Akane continuou. –Mesmo assim, quero um aposento para mim e para meus companheiros que estão sentados ali… –e ela mostrou os "Formidáveis" com um gesto de cabeça. –E uma boa cavalariça para nossos corcéis.

_Certo, o que desejar, milady. –o homem foi respondendo, calmo e debochado, mas a levava bem a sério. Akane sabia disso e assim lhe sorriu picante e tomou todo o resto da cerveja num gole só enquanto o ruivão a assistia do outro lado do balcão pasmado.

_Sobretudo, você não falou comigo e nunca me viu, entendeu? –e ela colocou discretamente quatro peças de ouro dentro da caneca que entregou em seguida para Tristin, que olhando o dinheiro ficou satisfeito e assentiu, sorrindo maldoso. Já estava por demais acostumado com aqueles casos.

_A bebida é por conta da casa, milady! –e assim, virou-se para o interior, logo chamando uma empregada e mandando-a preparar aposentos para os cavaleiros.

Os rapazes estavam sentados silenciosamente com as canecas de cerveja. Estavam pensativos, era hora de começar a resolver a estratégia que seria usada para o resgate, mas havia alguns empecilhos no planejamento desta. Eles não estavam bem certos do que iam encontrar e ter esta informação era muito importante para o sucesso.

_Como faremos para atacar um lugar que não conhecemos muito bem? –com certeza, aquela foi uma questão relevante levantada por Quatre. Ele olhou os companheiros em seguida e ficou a pensar. –Não temos nenhum tipo de informação sobre a planta, é como andar no escuro sem ter onde tatear…

_Não há nada no mapa que pode nos ajudar? –Duo indagou, pensando ter achado uma boa solução. Mas Quatre olhou para ele e negou com a cabeça:

_Infelizmente o mapa só dá informações sobre o acesso até o local, mas não dá nenhum detalhe da construção… Nem mesmo o desenho é muito esclarecedor. –ele explicou calmamente, abrindo o mapa na mesa e prendendo-o com uma caneca em cada lado.

Todos olharam a carta por um instante, se atentando aos detalhes da representação do castelo Romefeller. Era um pequeno desenho feito em preto que não entregava muita coisa. Mesmo assim, para alguns, aquilo era somente o suficiente:

_Dá para ver que o chateau é cercado por um muro com duas torres ladeando a entrada. –Heero disse enquanto observava o desenho.

_Sem contar que é na beira de um abismo… –Wu Fei lembrou, mostrando a área escura no mapa.

_Isto significa nenhum acesso pela parte leste. –Duo murmurou, desagradado com o fato. –Pelo jeito, nós não vamos ter muita escolha e teremos de infiltrar pela porta da frente se não quisermos nos aventurar escalando sabe-se elá quantos metros de pedra…

_Oras… se os sequestradores da princesa conseguiram pular o muro do Peacemillion, por que nós não podemos? –alguém falou em tom de desafio, e os rapazes se entreolharam porque não foi nenhum deles que falara.

Akane veio chegando e passou a mão pelo ombro de Duo, de uma ombreira a outra, e sentou-se tranquilamente.

_Estive conversando com Tristin e… –ela começou a dizer, mas foi bruscamente interrompida:

_Quem é Tristin? –Duo perguntou intrigado e Quatre fez uma expressão surpresa, mas era difícil descobrir o que tinha causado esta reação nele. Heero e Trowa apenas ficaram esperando a resposta, mas Wu Fei não parecia prestar atenção.

Akane parou ainda com as palavras nos lábios e, depois, tomando um suspiro, franziu as sobrancelhas e recomeçou, mas não parecia continuar o assunto, muito menos responder o que foi perguntado:

_A propósito, Docinho… Gostei da sua atitude amistosa e gentil ao tratar a garçonete, viu? –Akane repreendeu irônica, olhando Duo intransigentemente. Ele olhou outra direção e murmurou:

_Sério? –quis passar por inocente, e Akane apenas meneou a cabeça, aborrecida.

_Bem, como eu ia dizendo, Tristin, o dono da taverna, me informou que o chateau Romefeller está a três horas a cavalo daqui. –então ela terminou.

_Esta é uma informação valiosa. –Quatre sorriu para ela, que agradeceu com uma mesura de cabeça.

_Sim, dias luminosos prometem serenas noites claras… –Trowa murmurou felinamente, olhando baixo e meditando.

_O que você tem em mente? –Duo perguntou, interessado e Trowa abriu um sorriso, relanceando Heero com os olhos. Eles trocaram uma espécie de mensagem, como se fosse uma comunicação entre os instintos de dois felinos.

_Já que o castelo é tão próximo, alguém deve ir espionar o local durante esta noite para podermos atacá-lo. –Heero disse imperioso, meio que em explicação da declaração de Trowa, e olhava os demais na mesa de forma geral.

Eles discutiam tudo discretamente e baixo, cuidando para não chamar atenção, sentados numa mesa afastada que recebia pouca luz. Às vezes, olhavam em volta altivamente com a caneca em mãos, ameaçando qualquer curioso para manter-se muito longe. Ali estava acontecendo um conselho de lobos muito mais ferozes do que aqueles que uivavam nas florestas, ninguém era bem-vindo.

Quem os observava de fora sentia, nem precisava ouvir sobre o que falavam, nem precisavam conhecê-los: havia um caldeirão fervendo, borbulhando, aquecido muitas vezes e retendo o calor. Parecia ser insuportável aproximar-se dele, parecia que mesmo á vinte jardas ia se sentir aquele mormaço. Eles estavam tramando, eles estavam arquitetando e aquilo ardia, ardia, ardia… mas só quem estava de fora é que via.

_E quem vai? –Wu Fei fez então a pergunta que desencadearia a grande decisão. Mas não houve um longo momento de silêncio desta vez. Na verdade, uma resposta veio soar prontamente:

_Trowa. –Heero simplesmente disse e seu tom de voz firme não pedia mais nenhuma opinião e não admitia objeções. Ele já tinha decidido e esperava que ninguém fosse ousado o suficiente para contestar.

Trowa olhou para Heero enfadonhamente por cima das mãos de dedos entrelaçados, sustentadas pelos cotovelos postos na mesa, sempre misterioso e esquivo, e suspirou parecendo desgostoso.

_Esta ótimo. –e depois disse, foi algo um tanto antagônico ao que ele personificava, e nem mesmo o tom de voz parecia exprimir aquela boa disposição transmitida pelas palavras da breve frase. Entretanto, depois ele sorriu charmosamente, voltando a encostar-se à cadeira, sem muitos modos, e colocou os braços para escorrerem por atrás do encosto, o que o fazia parecer tão comprido. Na verdade, Trowa parecia estar gostando muito da designação.

_E onde ficaremos esperando? Afinal, Trowa só vai voltar de manhã. –Quatre levantou mais uma questão. Tudo tinha de ser perfeitamente planejado, e assim, Quatre perscrutava as faces de seus amigos com seus olhos verdes tranquilos, tão pensativo quanto eles.

_Eu já tomei a iniciativa de fazer isso… –então Akane ronronou, infantil e deliciada, e todos a olharam esperando mais explicações. –Eu já pedi a Tristin que preparasse para nós bons aposentos e acomodasse nossos cavalos numa boa cavalariça.

_Então está certo, vocês ficarão me esperando aqui. –Trowa articulou apenas para confirmação própria.

_Agora só precisamos mesmo é pedir os detalhes a ele sobre a localização deste ponto de pousa. –Akane continuou, e agora usava as duas mãos para apoiar o rosto na mesa, parecendo uma menininha. –Eis! Lá vem ele…

_Os milordes aceitam mais uma bebida? –desta vez, Tristin pessoalmente veio oferecer. Deu-se conta de que aqueles clientes eram muito ilustres e iam lhe dar muito trabalho e então resolveu cuidar do caso ele mesmo. E sorria bonachão com seus dentes perfeitos olhando demoradamente cada rosto. Bem que as empregadas tinham ficado cochichando que eles eram bonitos. Tristin admitia que uma moça linda como Akane só podia andar com homens bem-parecidos, e ele riu sozinho pensando nisto enquanto esperava a resposta do grupo.

_Eu acho que ninguém aqui quer encher a cara. –Wu Fei rosnou ríspido e Tristin mesurou com a cabeça em acatamento, sempre sorridente.

_Para quem é que você está trabalhando, hã, senhor Tristin? Essa sua imprudência o fez digno de minha desconfiança… Como é que trama assim em embebedar meus rapazes? –Akane provocou, com voz e olhos enlevantes, outra vez apoiando a cabeça sobre uma mão, e na verdade estava apenas brincando com Tristin. Ele refreou o riso para entrar na brincadeira:

_Longe disso, milady, não pense mal de seu humilde servo! Eu só quero me atrever a perguntar algo que muito me intriga: além da espada e da língua afiada, o que mais a senhora tem para oferecer?

_Você nem faz ideia… –ela disse e olhou outro lado, fazendo drama, e Tristin riu.

_Onde foi que aprontou as acomodações para nós? –Quatre perguntou, a parte de todo aquele confuso jogo que o deixava incomodado.

_Nos fundos da taverna temos quartos a serem oferecido para viajantes e estes já estão a disposição dos senhores. Os cavalos foram conduzidos para cavalariça e o falcão que foi deixado no cuidado de um dos garotos da vila também está bem confortável junto dos cavalos. –Tristin explicou como um bom e humilde anfitrião e Quatre sorriu e agradeceu polidamente.

Para Quatre, Tristin pareceu um homem muito confiável, respeitável e generoso, o que o fez muito agradado. Ele olhou os outros companheiros, como que para partilhar os ânimos, mas ninguém parecia muito a fim disso e Akane apenas olhava o vazio de um modo astucioso.

_Os senhores desejam tomar um banho? –então Tristin continuou oferecendo seus serviços, mas Akane interveio e respondeu por todos:

_Não temos tempo para isso. –mas desta vez pareceu séria, e Tristin assentiu submisso novamente. –Talvez um escalda-pés mais tarde… –e depois ela avacalhou com um risinho burlesco. –Ou uma massagem…

_Akane, ao contrário do que você está pensando, isto aqui não é um spa! –Heero a repreendeu rispidamente, mas ela o desdenhou com um riso, enquanto Tristin ria gostando do ânimo de todos eles.

Que espirituosos esses cavaleiros, ele se afastou pensando e sorrindo.

_Hey, Ane! O que é que deu em você? –Duo então exigiu, parecendo pasmado. Ela olhou-o sorrindo confusa e despreocupada, por fim nem dando muito crédito para a inconformidade dele. –Oras! O que você quis dizer com essa de "meus rapazes"?

Akane riu maliciosa, sem se importar, e depois olhou a volta exibindo um sorriso estranho e magnético.

Heero apoiou o queixo com a mão na mesa e ficou olhando para algum canto sem importância da taverna, quase não tinha noção de que horas eram. E em sua mente ele conversava consigo mesmo, comentando como acontecimentos desgraçados aproximam as pessoas e as modificam tanto. Ele estava ali, quem diria que um dia ele estaria convivendo estreitamente com aquelas pessoas, que apesar de conhecidas não eram seus próximos, mas agora eram como irmãos. Heero percebia que tinham muito em comum, que pensavam como um só e não tinham medo de se ajudar quando preciso. E ele só descobrira tudo isso porque um infortúnio os levou a ficar juntos. E talvez, Heero analisou, fosse muito melhor encarar o duelo infindo daquela forma – em grupo, mesmo que não estivessem todos no mesmo lugar, porque as meras recordações dariam forças sempre que necessário.

Um mensageiro em trajes formais se aproximou da mesa, mas Heero não prestou muita atenção, quando foi se dar conta da presença do rapaz, achou primeiro que era um sonho. De qualquer forma, o rapaz veio, falou em baixo com Akane e ela levantou-se em seguida, ergueu o capuz e saiu sem dar satisfação. Depois, Tristin voltou para guiar os cavaleiros até as alcovas, que apesar de parecerem dois cômodos distintos, eram na verdade um grande dormitório com uma divisória. O dono da taverna explicou algumas coisas e depois mostrou o caminho para a cavalariça onde as montarias já estavam esperando.

Os rapazes jogaram as mochilas nas camas e foram até os cavalos buscar o que faltava. Sentiam que estavam seguros ali sob a guarda de Tristin e da taverna Dragão de Duas Cabeças – era um nome forte. Eles se acomodaram melhor nos aposentos e se livraram do peso das armaduras, já que iriam fazer uma pausa, embora Trowa tenha mantido algumas peças vestidas. Depois, ele mesmo foi mimar seu falcão um pouco, e finalmente arrumou as coisas para partir. Foi tomar uma refeição e arranjar alguma comida para viagem, caso tivesse fome durante a noite.

Estavam os cinco rapazes parados perto da fonte no centro da praça, já passava das cinco horas da tarde. A comitiva Withglow tinha desaparecido, será que iam aventurar-se em viajar a noite? Talvez tivessem arranjado outro lugar para ficar…

Trowa arrumou pela última vez as fivelas das bridas de Heavyarms e olhou os companheiros com jeito de que chegara a hora. Então eles sentiram, sentiram como se estivessem cercados de uma grande trama que os enredava e atava uns aos outros – por fim todos entenderam que partilhavam um momento de amizade. As faces taciturnas se encararam e trocaram olhares cúmplices, quase sorridentes. Era a primeira vez em muitos anos que eram tomados por um entusiasmo infantil. Akane veio se aproximando, vindo da taverna, caminhava devagar e assistia os rapazes como se fosse a mãe deles e tivesse tanto orgulho de suas crianças. Ela já não usava mais a armadura, mas continuava completamente coberta com a capa negra, e fizera os cabelos numa tiara de tranças.

_Boa sorte, Trowa… –ela sussurrou do outro lado de Heavyarms enquanto alisava o pescoço do corcel e Trowa olhou por cima da sela, encontrando logo o par de olhos verdes dela e sorriu. Não conseguiu conter as lembranças sobre Catherine então e percebeu que fazia tempo que não pensava nela. Deste modo, sorriu mais por ter se lembrado da esposa.

Akane deu a volta pela frente de Heavyarms, brincando um pouco com ele, e parando perto de Trowa disse calmamente:

_Por favor, quando voltar, entre pela taverna. –ela pediu, olhando-o fixo e sentou-se na borda da fonte. Trowa a escutou, e em pensamentos ficou tentando entender o qual era a intenção dela, mas assentiu concordando. Então subiu em Heavyarms e fez uma continência para os companheiros. Esporeou o cavalo, partindo sozinho em rumo de uma missão arriscada, mas na qual ele era perito. Desde que partiram de Sanc, era a primeira vez que se separavam. Podia parecer estranho, mas aquilo foi um choque. Todos eles ficaram observando Trowa partir e depois apenas fitaram o caminho vazio por um longo tempo. Duo sentou-se ao lado de Akane e pegou uma das mãos dela, detendo-se em alisar a textura do astrakhan da luva dela, mas ela nem parecia sentir.

_Agora vem a parte chata: esperar. –Heero murmurou friamente, apoiando um pé sobre a borda da fonte, e ficou olhando para baixo, a longa franja pendia e quase lhe cobria o rosto todo.

_Mas agora falta tão pouco. –Quatre colocou a mão num dos ombros de Heero, falando mansamente, e Heero ficou pensando se havia alguma indireta naquela declaração. Akane olhou Quatre e assentiu concordando e sorrindo.

_O que você foi fazer naquela hora que o mensageiro veio te buscar? –Duo perguntou num tom de voz particular com Akane, mas mesmo assim todos ouviram. Ela o olhou e respondeu resumidamente:

_Desdemona estava partindo e queria se despedir. Ela e a família vão passar a noite numa pousada há umas duas horas daqui.

Ele assentiu depois e encostou a testa no ombro dela, sentindo-se exausto de repente. Era só parar para começar a sentir o cansaço, as dores e o desgaste. Enquanto ele olhava para baixo, encostado nela, tirava-lhe a luva apertada de astrakhan sem saber se ela permitia, mas Akane prosseguia muda. Parecia muito alheia, como se tivesse esquecido completamente que os rapazes estavam lá. Inesperadamente, se levantou e deixou Duo com a luva, entrando na taverna novamente. Ele achou a movimentação dela estranha, mas sorriu, brincando com a luva de couro macio, e Heero a seguiu com os olhos, sempre muito felino como se não devesse perdê-la de vista nem por um instante, e depois suspirou.

Andava suspirando muito ultimamente, mas não se sentia mais leve como deveria por suspirar tanto. A tensão era auto gerada, não importava quanto fosse liberado, ela sempre voltava a preencher todas as lacunas. Era tristeza, na verdade, que alimentava aqueles suspiros sem fim, que sustentava toda a tensão que vivia presa no peito dele. Heero era triste, o tempo todo triste sem saber por que, só o que sabia era que não ia ficar bem. Ou pelo menos, era o que acreditava.

Era como se algo houvesse remexido tanto no fardo que ele vinha carregando que finalmente ele tinha notado como aquilo pesava. Ele estava sendo arrastado para o fundo de um fosso por estar tão carregado de sentimentos negativos. Todavia, por que é que aquilo tudo foi remexido? É dito que só se cura uma dor quando ela é sentida. O mundo de gelo e de silêncio de Heero estava derretendo e se tumultuando de muitos ruídos, ele já estava começando a se afogar e confundir-se com tantos sons. Por quanto tempo será que tudo aquilo estivera oculto dentro de seu coração de aço? Agora machucava. Ele não podia mais ignorar aquela dor.

Os quatro rapazes estavam silenciosos sentados na mesma mesa de antes no interior do Dragão de Duas Cabeças, mas agora o lugar todo estava cheio de pessoas, sorrisos e música. Entretanto, eles não estavam no clima para festa. Taciturnos, só falavam sobre a missão que cumpriam, estavam todos muito ansiosos pelo regresso de Trowa. Agora era a reta final, muito perto da realização do propósito que os levara até ali. A única coisa mais leve para beberem era sangria, e tomaram uma refeição simples, mas saborosa. Despercebidamente acatavam todos os conselhos que vinham recebendo: não abusar do álcool e manter-se sempre bem-nutrido. Havia uma imagem de tédio e distância nas faces deles, como se não estivessem se enxergando, mesmo sentados em círculo.

Tristin observava os rapazes do balcão enquanto supervisionava o interior de seu estabelecimento e atendia seus clientes mais queridos. Não gostava de ver aquela névoa de desânimo envolvendo os jovens homens, aquilo era deprimente. Assim, ele se perguntava como Akane, uma moça tão vivaz, conseguia ficar junto deles, e ele abriu um sorriso. Os opostos deviam mesmo se atrair. Não que Tristin questionasse a necessidade dos cavaleiros serem sérios, já que aparentemente estavam de serviço, mas eles eram exageradamente sérios. Eles se anulavam, calados profundamente, pensando muito, até demais, olhando friamente à volta. De certo modo, Tristin achava aquilo divertido, um tanto patético. Pelo menos aqueles garotos não eram fanfarrões, ousados e viciosos como os outros que costumavam aparecer, principalmente como os Romefellers que visitavam a taverna charmosa e confortável que era o Dragão de Duas Cabeças para destruir toda a paz que habitava ali normalmente.

Já estava ficando tarde, deviam ser onze horas. Quatre ficava examinando a decoração do lugar, olhando as galhadas de alce sobre a lareira apagada, os escudos, as espadas. Era um lugar elegante, amplo, as pessoas sentadas em torno das mesas conversavam animadamente e riam, alguns casais dançavam seguindo a música vibrante.

_É difícil imaginar que tem uma guerra nos esperando lá fora quando estamos imersos em ambientes como estes… –e por fim ele comentou suavemente, com um sorriso brando. Tudo em Quatre era sempre tão sutil, ameno e agradável, os olhos dele sempre eram lúcidos e apaziguantes.

Heero olhou-o, mas nada era suave nele. Estava sempre sisudo, os olhos sempre refulgindo ariscos e ameaçadores, anunciando a ferocidade que vivia por trás deles como um lobo a espreitar por entre os robles de uma floresta. E Heero não disse nada, embora tenha ficado refletindo na frase, e abaixou os olhos.

_O mundo podia ser perfeito, não é? Mas se o mundo fosse perfeito, por que iriam precisar de nós? –Duo comentou, ele nunca conseguia pensar de uma forma negativa. Ele podia admitir a seriedade dos assuntos, mas nunca se deixava abater. Tudo era fácil. O espírito de Duo era muito forte, enfrentando tudo e assumindo a atitude de que sempre existe algo pior. Isto sempre acabava servindo de estímulo, até para ele mesmo.

Quatre soltou um riso quase inaudível, gostando do modo de pensar. Sentiu-se animado mesmo pelo humor-negro da frase. Wu Fei sorriu debochado, no entanto Heero agora olhava para o lado, o queixo apoiado na mão, como que em outro lugar muito longínquo e cinza, o olhar perdido parecia fitar o infinito, como se uma paisagem fria com árvores mortas se abrisse diante dele.

Por fim, todos o olharam sentindo muito bem a disposição desanimadora que o possuía. Ele nunca estivera tão distante e entorpecido antes.

_Você está bem, Heero? –Quatre indagou preocupado. Mas tudo o que ele observou em Heero foi o rolar dos olhos em sua direção enquanto ele permanecia imóvel tal estátua.

Não, Heero pensou mas esqueceu de articular. O pensamento lhe ocorreu de novo: ele não ficaria bem. Fadiga, estafa, exaustão – Heero estava perdendo o duelo para todas elas. A vida o estava extenuando, ele não queria dar o próximo passo. Desde que acordara naquele, dia ele se sentia assim, como se não fosse conseguir resistir. Desânimo enfraquece a alma, ele sempre soube disto, e pela primeira vez estava descuidando de si mesmo e deixando de levar em conta os seus treinamentos. Era claro que era proibido sentir medo, ansiedade, ele jamais podia se surpreender. Era um cavaleiro, devia estar pronto para tudo. Senão ficaria fraco, frágil, incapaz. Mas o desânimo fizera morada nele, como uma parasita, a vontade era de abandonar tudo.

"Vamos, Heero, estamos quase chegando. É muito tarde para você desistir. Você já chegou até aqui, você já definiu quem você é…" –ele pensou ter escutado, mas apenas estava se lembrando. Aquelas palavras eram tão verdadeiras… Ele já chegara até ali, não adiantava mais nada desistir e simplesmente ter se esforçado em vão. Ele era um cavaleiro, ele nem podia pensar nesta palavra – desistir – mas era a sua obrigação lutar, lutar sempre, contra si mesmo, contra tudo.

E, quando se lembrou daquela frase, ouvindo-a ecoar em sua mente, viu um rosto, mas não o rosto do autor da declaração. Aquelas palavras relembraram-no do porque estava ali, qual era a causa daquela missão, e ele quase sorriu, embora tenha conseguido se refrear a tempo. Estava vendo outra vez olhos azuis fitando-o com curiosidade e candura, ouvindo de novo aquela voz gentil e refinada, sentindo novamente o ruge-ruge do vestido enquanto os dourados cabelos se agitavam no ar e o sorriso contente iluminava a face como um pequeno Sol que o queimava. Apesar de não gostar de sofrer aquelas reações e sentir aquele prazer, Heero sabia estar lá para resgatar toda a sua esperança e paz personificadas numa pessoa.

Ele estava lá por Relena, como ia negar? Reconhecia que, embora não soubesse definir o que, sentia algo por ela. Havia um bom motivo para se esforçar. O resgate da princesa estava vinculado a uma série de bens. Resgatando-a eles poderiam voltar para sua rotina e terminar os duelos. Além do mais, ela estaria em segurança para garantir, não só para ele, mas para todos, que a paz ia continuar se esforçando para tornar-se total. Ele queria aquela paz, ele queria só para ele. E lá vinha a vontade de sorrir outra vez, que novamente foi contida. Haveria um momento que não saberia resistir em sorrir.

_Eu acho bom nós irmos dormir… precisamos estar preparados. –Wu Fei comentou quase como numa ordem já entediado de ficar ali. Mas a proposta era sensata e os demais concordaram com ele.

Levantaram-se ao mesmo tempo e foram os quatro até o dormitório. Levaram consigo duas lamparinas para iluminar o cômodo de modo a se acomodarem. Haviam três camas para um lado da divisória e três camas para o outro. Heero e Quatre estavam do mesmo lado da divisória e Duo e Wu Fei estavam do outro lado, junto de Trowa, embora este terceiro estivesse ausente. A divisória exibia uma porta estreita e um pouco baixa, comunicando os dois aposentos que criava, e era enfeitada com pinturas de faisões e veados de ambos os lados, acompanhando a temática de caça da decoração do cômodo.

E logo ali na primeira parte, Akane estava deitada numa das camas. No chão, sua capa estava jogada sobre um amontoado de coisas, mas apenas se podia identificar sua armadura e mochila. Ela estava dormindo placidamente, bem aconchegada debaixo das cobertas.

_Então era aqui que ela tinha se escondido… –Heero murmurou baixo, se traindo. Ele tinha sentido falta dela, embora não tenha comentado nada. Quatre sorriu por isso, e a ficou olhando por um instante. Acontecera a mesma coisa com ele. Era fácil sentir a ausência dela, o que era muito difícil era admitir que sentira, aceitar que se interessava.

_Ela gosta de dormir de bruços… –Duo comentou e todos olharam assombrados para ele, tirando conclusões maldosas. –O que foi? Deixem de ser desconfiados… –Duo se defendeu, ainda mais assombrado com a atitude deles, reprovando o modo malicioso de pensarem.


Boa-noite!

Essas férias, espero adiantar um pouco a publicação dessa fic.

Estavamos chegando a um ponto alto, o resgate! :D

Logo também alcançaremos o final do que tenho escrito e pronto para postagem. Preciso me organizar para voltar a escrever essa fic também e dar o fim para ela.

Espero que estejam se divertindo!

Agradeço demais a paciência e a atenção de todos!

Deixem reviews com suas opiniões.

Beijos!

20.12.2017