SAVE ME

Capítulo 36. Refletir

Silêncio. Reflexão.

Miyavi mal conseguia acreditar no que tinha acontecido. Em que acreditaria? Não em uma primeira hipótese, mas sabia que não fora sonho ou alucinação. Reita estivera ali, dizendo coisas difíceis de aceitar, mas muito fáceis de crer.

Reita e Kai, amigos? Sim, não havia motivos para acreditar que tal hipótese era impossível. O moreno fazia amizades de forma fácil com qualquer um com capacidade mínima de mostrar sentimentos. Difícil era acreditar que Reita pudesse ser uma dessas pessoas.

"- Ele não era um simples garçom pra mim da mesma forma que não era um simples romance pra você."

Por alguns instantes não soube o que pensar, mas aos poucos foi capaz de reconhecer seu namorado em cada palavra do loiro. E ver os olhos do outro brilharem daquela forma ao falar em vingança foi o suficiente para levar fé.

Havia dois... ainda. Questão de tempo, de acordo com as palavras dele. Embora seu instinto fosse de ter pressa, não duvidava da palavra do loiro. As coisas funcionavam de outra forma no mundo em que Reita vivia e, se ele estava tão comprometido com vingança, não havia menor motivo para dúvida. Com certeza estava mantendo a situação sob controle.

"- Essa vingança não é só sua. Kai era o único amigo que eu tinha. Tendo em vista tudo que aconteceu, ele terá uma vingança à altura."

Quem diria que Suzuki Akira era capaz de sentir...

E agora? O que faria?

– Só você mesmo, Yukkun... - disse, em voz baixa, sorrindo desanimado diante de mais um fato indiscutível.

A situação era delicada, embora não lhe restasse dúvidas sobre ter de se acostumar com aquela estranha parceria. Pouco importava o fato de ser um policial, pelo menosnaquele momento em que estava por sua própria conta.

Pelo menos a perspectiva de uma vingança já era algo bem mais real que há poucos meses.

Os pensamentos foram interrompidos quando a campainha soou pela segunda vez naquele dia. Pelo olho-mágico viu que se tratava de Naoyuki.

Olhou para a sala e respirou fundo, agradecendo silenciosamente que o parceiro não tivesse chegado enquanto Reita ainda estava ali. Não queria vê-lo envolvido naquilo. Sabia que seu estado despertaria perguntas das quais não sabia se conseguiria escapar, mas era diferente do peso de ter uma testemunha.

Talvez contasse a ele. Talvez fosse o certo. Dependia de outros fatores. Era apenas uma possibilidade.

Abriu a porta, encontrando um Naoyuki que conhecia muito bem: o observador. Será que ele notaria algo diferente? Perceberia que algo havia acontecido? Fosse como fosse, ele teria de aceitar e se contentar com o que pudesse lhe dizer e nada mais.

Não houve "oi", "olá" ou "bom dia" audível. Não eram grandes amigos mas já conviviam o bastante para se entenderem com gestos e olhares. Tinham liberdade suficiente para se livrarem da cordialidade e irem direto ao assunto.

– Demorou a abrir. - disse Nao.

– Eu não estava na sala. - justificou-se - Entra logo, bochechudo. Demorou a aparecer.

– Isso tudo é saudade?

Ie, apenas ironia.

– Parece que está tendo uma manhã movimentada hoje.

– Talvez sim, talvez não.

– Depende do que? Da minha capacidade de sigilo?

– Depende de mim mesmo.

– Certos segredos não são bons, Miyavi.

– Certas coisas não devem ser contadas.

– Pelo jeito tem novidades retumbantes sobre seus planos. Ele esteve aqui, não esteve?

– De onde tirou uma idéia dessas?

– Apenas um pensamento que me veio à mente.

Sorriu de forma cínica. Naoyuki era muito mais sagaz do que poderia pensar.

– Apenas uma breve visita. - o tatuado respondeu.

– Pelo visto uma visita cordial, a menos que tenham conseguido se agredir sem quebrar nada. - olhou rapidamente ao redor - Seria demais perguntar o que aconteceu aqui?

Demais? Não sabia se sim, mas julgou ser prudente contar algo. Por mais que quisesse manter aquilo para si, por um reflexo dos velhos tempos, sentiu que devia algo a Naoyuki. Não sabia o que, nem porque, mas era um fato. E então o fez, tentando ser o mais racional que podia embora duvidasse que seria possível. Um monólogo que durou pouco menos que meia hora.

– Isso é quase inacreditável... – Não disse, um pouco mais alto que um sussurro.

– Quase inacreditável? Então quer dizer que acredita?

– Não duvido, mas seria cético. Por Kami, que situação... precisa tomar cuidado com o que ele diz. Até ontem você queria matá-lo.

– Pode parecer loucura, mas eu acredito no que Reita disse. Aquilo era Kai. Definitivamente era Kai.

– Mesmo raciocinando friamente?

– É por isso mesmo que estou chocado.

– E o que vai fazer?

– Tenho alternativa?

– Não me diga que não tem escolha, Ishihara. E sabe também o que pode acontecer.

– Estou mais próximo de um acerto de contas do que jamais estive. Se pra conseguir o que quero vou precisar me aliar a um criminoso, pode apostar que o farei.

Miyavi esperou que ele dissesse algo. Esperou por várias perguntas sobre o futuro, implicações sobre o que aquilo traria para sua carreira. Esperou por discursos sobre amanhã e como seria dali para a frente. Esperava por milhares de coisas tendo resposta para tudo na ponta da língua.

Curiosamente não houve perguntas. Talvez Naoyuki já soubesse as respostas. Talvez já se conhecessem mais que julgava ser capaz. Ele apenas lhe oferecera o silêncio respeitoso que indicava aceitação, mas não necessariamente concordância.

– Quer tomar um café? - ofereceu o tatuado.

Hai, seria bom.

Sorriram. Miyavi ficou feliz por não ter de explicar nada. Não precisaria lhe pedir segredo. Estava implícito e Nao era capaz de ler nas entrelinhas.

OoOOoo

Espera. Assim foram os seus dias.

Reita não havia entrado em contato, nem mandado notícias. Não que houvesse algum combinado entre eles, era apenas desconfiança e ansiedade.

Era desconfortável ter de esperar, e isso o deixava sem alternativas que não fosse a de lidar com a ausência de Kai, explícita como nunca naquele apartamento. Tentar ser frio enquanto estava ali era como negar tudo o que sentia, pois não era imune às lembranças, e por mais que lhe doesse, em algum momento teria que desabar.

Miyavi estava aprendendo a duras penas que não dava para ser forte todas as horas, e ceder não era de todo ruim. Assim as recordações não tinham mais um gosto tão amargo.

Será que era isso que queriam dizer sobre "aprender a lidar com a perda"? Estaria aprendendo mesmo sem querer?

Respirou fundo, apertando os olhos. Não queria esquecer do que acontecera a Kai. Diziam que aprender a lidar com o luto não significava esquecer, mas será que isso era verdade? Seu caso não era como o dos outros, não era simplesmente parar de chorar e seguir com a vida.

Precisava ser frio, mas não podia esquecer. Não podia deixar a dor enfraquecer e dar lugar a qualquer espécie de conformismo.

Como lidar com o luto em uma situação dessas?

Fosse como fosse, seus dilemas não o fariam declinar em sua decisão. Pelo contrário. A cada dia ficava mais certo do que deveria fazer.

As consequências simplesmente não importavam. Nem o que poderia acontecer consigo.