EPÍLOGO
Meses depois...
O rosto de Elizabeth era o que me encorajava. Eu me agarrava novamente à esperança que era ter encontrado alguém que poderia compreender minhas dores, que não me julgaria ou faria perguntas que apenas me trariam mais dor. Jason, seu marido, estava trabalhando na cidade vizinha, uma vez que o vilarejo que eles escolheram para viver era tão pequeno que encontrar um emprego ali era difícil. Assim como um médico. O hospital mais próximo estava também na cidade vizinha. Havia ali apenas uma mulher que utilizava de benzas para ajudar os que a procuravam e uma parteira que trazia ao mundo tanto crianças quanto vacas.
Era ela quem ajudava Elizabeth naquele momento a trazer meu filho ao mundo.
— Olhe para mim, vamos lá — disse Elizabeth mais uma vez quando tudo o que eu queria era deitar a cabeça nos travesseiros atrás de mim e desmaiar pela dor e pelo cansaço. Mas eu não podia. Não quando Jocelyn, a velha parteira, estivesse dizendo para eu empurrar, que a cabeça já estava quase saindo, que logo tudo terminaria.
Mais uma vez desejei que Sirius estivesse ali comigo, embora fosse um desejo vão. Sirius estava preso em Azkaban depois de ter matado Pettigrew. O amigo que eu julgava covarde fora o único com a coragem para enfrentar Sirius depois que ele entregara Lily e James a Voldemort. Senti vontade de chorar e a dor que tomava todo meu corpo nada tinha a ver dessa vez.
— Vamos lá, Ariadne — pediu Elizabeth novamente. — Empurre!
Eu empurrei. E uma eternidade depois, consegui ouvir o choro fraco do bebê nos braços de Jocelyn. Estendi os braços para pegá-lo quando a parteira se aproximou, entregando-me o embrulho de um bebê de rosto ainda inchado e a cabeça repleta de fios negros.
— C'est um garçon — sorriu Jocelyn.
Eu meio ri, meio chorei. Um menino. Eu tinha um menino.
— Nicola — murmurei, buscando a mãozinha escondida no mundo de tecidos que o cobriam. — S'agapo. — E sorri, pois não conseguia conter a felicidade que me encheu naquele momento. — Écho ídi agapo.
Embora não quisesse, entreguei Nicola – meu filho, que eu já amava com toda minha alma – para Elizabeth. Ele precisava ser limpo e receber os cuidados de um recém-nascido e Jocelyn precisava limpar meu corpo. Eu estava quase adormecendo pelo cansaço, com Nicola novamente ao meu lado, quando a parteira foi embora. Ouvi vagamente Elizabeth dizer que iria comprar algumas coisas no mercado e deixaria Camille de sobreaviso para qualquer eventualidade.
Não sei por quanto tempo dormi. Talvez um instante, apenas. Acordei com o som da porta fechando com violência no fim do corredor. Mas o que me despertou foi o som de um grito logo sufocado.
— Procurem-na.
Meu corpo inteiro se arrepiou. Era a voz de Sebastian. À medida que meu coração ameaçava sair pela boca, busquei o colar em meu pescoço. Não percebi o quão frio ele estava. E também me perguntei como Sebastian conseguira ultrapassar as defesas que eu cuidadosamente havia colocado ao redor da casa de Elizabeth. E foi então que ouvi a voz de Jason, marido de Elizabeth. Ele implorou, mas não durou muito tempo.
Tentando buscar forças em minhas pernas fracas, ergui-me da cama. Nicola ainda dormia, sem saber o que estava acontecendo. Melhor assim. Senti-me tão fraca que custei segurar meu filho e levá-lo até o único lugar que eu poderia protegê-lo. Coloquei-o dentro do guarda-roupa, ocultando-o com cobertores e roupas. Então fechei a porta e a lacrei com um feitiço. Neste mesmo instante, vi Katrina parada na porta do quarto, com um sorriso predador. Não tive tempo de rechaçá-la. Logo suas mãos se fecharam em meu pescoço enquanto Samantha arrancava a varinha de minha mão.
Minha visão começou a embaçar e eu sabia que iria desmaiar se Katrina continuasse a apertar meu pescoço daquela maneira.
— Acalme-se, Katrina — Sebastian havia entrado no quarto. Busquei o ar em golfadas quando caí no chão, livre. — Então finalmente nos encontramos, minha cara. Você está bem melhor do que pensei.
— Sebastian — minha vontade foi de gritar, contudo minha garganta machucada permitiu que apenas um sussurro saísse. — Quem são elas? — perguntei. Mas eu as conhecia bem. Foram as primeiras vampiras que Sebastian tinha ao seu lado, há tempo demais. Alexey me falara delas. E eu as vira vagamente uma vez. Procurei por Aimèe, mas ela não estava no quarto. Queria apenas fingir de ignorante, tentar uma conversa, pensar em um plano que não fosse morrer enquanto meu filho estivesse escondido no guarda-roupa ao meu lado.
Sebastian sorriu, o que foi acompanhado pelas outras mulheres.
— Não se preocupe, você as conhecerá logo – Sebastian retorquiu. – Katrina?
Ele estendeu o braço com a palma da mão para cima, no que Katrina colocou nela uma faca negra com detalhes em dourado. A Arma de Belial, embora eu não conseguisse discernir os símbolos novos que Sebastian desenhara na lâmina. Tentei me levantar ou me defender, mas, antes que eu sequer conseguisse erguer a mão, ele enfiou a faca em meu peito.
Eu sentia meu corpo perder as forças, minha mente se escurecer. Meu coração pareceu doer mais forte; eu sabia que não era o punhal que me dilacerava naquele resquício de vida, mas meu filho, inocente, que perderia sua vida antes mesmo de ter a real noção do que ela era feita. Pois eles o encontrariam, tenho certeza. Mesmo que eu tivesse feito de tudo para Sebastian não entrar em minha mente e descobrir a gravidez.
Um fraco suspiro foi tudo o que saiu dos meus lábios quando nada mais me prendia àquele lugar.
O som fraco de vozes alcançaram meus ouvidos, embora tudo ainda estivesse escuro. Em seguida senti que minhas forças voltavam. Pensei em Alexey. Talvez ele tivesse conseguido me encontrar a tempo, impedido o ritual. Mas meu corpo estava gelado, estendido. Tentei enxergar onde estava, mas as sombras se projetavam em lugares estranhos, passando sobre meus olhos, nublando-me a vista. Foi quando senti algo muito quente em meu peito que as palavras de Sebastian chegaram claramente em meus ouvidos.
— Foste maldita onde estiveste, no comer e no beber, no dormir e no andar e no viver, pois vieram sobre ti todas as maldições. Na morte, sua alma sucumbe, e viverás de hoje em diante sobre essa estranha ponte que começa onde acaba a vida e termina onde começa a morte. Andarás eternamente, pois este é o desejo de teu antepassado. Nada lhe restará nesta terra, mas tudo te prenderá a ela. Ódio e paixão serão seus guias, e aquele que lhe tira a alma, obediência eterna deverás ter. Que assim seja, Ariadne Vrykolakes.
Então, mais uma vez, a escuridão me envolveu.
Oscilei entre escuridão e luz e sonho e realidade por tanto tempo que me perdi. Ouvia vozes perto de mim, mas não distinguia palavras. Sentia a maciez do colchão e a suavidade do cobertor, mas nem frio ou calor me incomodavam. Não soube por quanto tempo fiquei assim, mesmo que a janela do quarto estivesse aberta e permitindo que eu visse a luz do sol e a lua minguante. Dias ou semanas, não importava.
Quando finalmente despertei, percebi que havia alguém ao meu lado. Um corpo esguio e masculino, macio e que me chamava, como um ímã que vai em direção ao ferro.
— Sebastian — murmurei, sorrindo.
— Olá, minha cara. Finalmente despertou.
Virei-me na cama, enroscando-me a ele, e senti seus lábios nos meus. Entreguei-me sem reservas, sentindo e desejando suas mãos em meu corpo. Toquei seus cabelos compridos e o trouxe para mais perto, as mãos ansiosas retirando qualquer roupa que nos incomodava.
Acordei no meio da noite, sentindo-me agitada. Havia tido um sonho com um menino abandonado entre cobertas, que chorava com tanto sofrimento que ainda me doía. Sebastian dormia ao meu lado. Por um momento tive um vislumbre diferente dele. Os cabelos não eram compridos e brancos como leite, mas rentes ao ombro e negros. E o rosto não era tão anguloso ou delicado, mas com barba por fazer e aristocrata. Fechei os olhos e mandei aquela lembrança embora. Apoiei a cabeça no ombro de Sebastian e voltei a adormecer.
Ele não estava ao meu lado quando acordei no dia seguinte. Não saí da cama, sentindo o corpo estranhamente fraco. Aimèe estava no quarto e me deu uma taça para beber.
— Vai te fazer bem — ela disse. Não prestei atenção em seu rosto, apenas deixei a bebida descer fresca por minha garganta, doce e viscosa. Voltei a dormir mais uma vez.
— Não entendo por que ela está fraca desse jeito. O ritual de Sebastian deveria torná-la forte — acordei com uma voz jovem. Abri os olhos de leve e enxerguei duas silhuetas sob o sol que se punha. Reconheci Katrina imediatamente, mas a outra mulher, de cabelos vermelhos como sangue, era nova para mim.
— Ela está resistindo — disse Katrina e percebi nojo em sua voz. Mas eu não queria resistir. Sebastian era meu centro e eu deveria ficar com ele. Era o certo. Não era? — Encontraram a criança?
— Não. Aquela mulher desapareceu com ela de alguma maneira.
— Aposto que o namoradinho da Aimée está no meio dessa droga toda.
Voltei a dormir. E novamente sonhei com o bebê. Mas agora ele não estava sozinho. Ele era embalado por um homem bonito, de cabelos escuros e olhos azuis e um tanto acinzentados. Ele me olhava de tal maneira que senti toda sua angústia, toda a súplica em cada gesto, me chamando.
Ao acordar com o sol no rosto, percebi que estava bem mais forte. Não reconheci o lugar em que estava, embora nada tivesse mudado. O mesmo lençol de seda, o quarto imenso e antigo, a mobília rústica e bonita. Olhei ao redor, procurando por algo que deveria estar ali. Eu sentia. Faltava algo importante. Onde estava o berço? Onde estava Nicola?
E foi como se um martelo tivesse batido em todo meu corpo. Embaixo da camisola de cetim púrpura, entre meus seios, vi o corte que ainda não cicatrizara. Corri para a janela apenas para ver o quão alto meu quarto estava. Ouvi vozes no corredor e voltei para a cama, deitando no momento em que entravam no quarto. Fingi que dormia, embora meu coração estivesse pronto para saltar.
— Dê a ela assim que acordar — ouvi a voz de Katrina. — Vamos, Adhara. Talvez tenhamos sorte com o menino.
Assim que elas saíram, virei-me pra ver Samantha sentada em uma cadeira. Ela sorriu para mim.
— Finalmente.
— Onde está Sebastian? — perguntei, agradecida por minha voz ter saído calma.
— Na biblioteca. Ele vai ficar feliz em saber que perguntou por ele. — Ela se ergueu e trouxe a taça para mim. — Aqui, tome tudo. Enquanto isso, vou buscar Sebastian.
Levei a taça aos lábios, vendo Samantha deixar o quarto. Assim que a porta se fechou, cuspi todo o conteúdo. Havia mais de uma mistura ali dentro, porém eu sabia que havia sido o gosto de sangue que embrulhava meu estômago, embora eu quisesse bebê-lo. Peguei o roupão que estava aos pés da cama e saí do quarto.
Eu estava no castelo em Strigoi. E, se eu me lembrava bem, a biblioteca ficava no andar superior ao corredor repleto de quadros. E foi aquele corredor que encontrei quando virei o que levava ao quarto que ocupava. Corri até as escadas, passei pelo hall principal e alcancei as imensas portas duplas de madeira. Não foi difícil sair. E, assim que alcancei o lado de fora dos muros, desaparatei.
Foi diferente, daquela vez. Na verdade, sequer pensei que não tinha varinha. Apenas desejei meu filho e logo encarava uma casa pequena. Não imaginava onde estava, qual cidade, país... Contudo, nada disso importava. Eu sabia que meu filho estava ali dentro. De alguma maneira, eu sabia. Passei pela sala pequena e o corredor que levava aos quartos. Abri a porta do primeiro cômodo, mas ele está vazio. Foi então que ouvi o choro fino no quarto ao lado. Fui até o criado-mudo ao lado da cama e encontrei minha varinha. Não parei para pensar como eu sabia que ela estava lá. Meu corpo reagia como se soubesse o que estava fazendo, como se qualquer ato, qualquer pensamento, qualquer coisa fosse simples demais de ser alcançada.
A porta do quarto ao lado estava semiaberta. Eu a empurrei devagar, ouvindo Elizabeth cantar baixinho enquanto ninava um bebê. O meu bebê.
— Nicola — sussurrei. E ela pulou com o susto.
Elizabeth apertou meu filho em seus braços, as pernas a levando para longe de mim.
— Dê-me ele, Elizabeth.
— Não!
— Ele é meu! — gritei com raiva. Nicola chorou e a raiva se dissipou instantaneamente. Tudo o que eu queria era protegê-lo. — Dê o meu bebê, Elizabeth.
— Mas você... Você não pode, Ariadne.
— Eu posso sim! Ele é meu e eu o quero.
— Olhe para você.
Parei de andar, ficando ao lado do espelho da penteadeira de Elizabeth. Virei apenas o rosto e me surpreendi com o que vi. Minha pele estava mais pálida, quase perolada, e os lábios tornaram-se mais escuros e avermelhados, enquanto meus olhos, antes castanhos, estavam da cor de ouro líquido. Aquela imagem me assustou ao mesmo tempo que me fascinou. Senti também o horror e fascínio de Elizabeth, como se eu não apenas lesse sua mente como se fosse um livro, mas enxergasse a tudo, sem esforço e barreiras. Então esse era o poder que Sebastian queria para ele. Um poder que apenas nós, Vrykolakes, possuíamos.
Pensar em Sebastian fez todo meu ódio vir à tona. E também a memória de que Katrina e a mulher chamada Adhara estavam vindo atrás de meu filho. Se eu consegui encontrá-lo, logo elas também estariam ali. Não tínhamos tempo. Aproximei-me de Elizabeth e praticamente tomei meu filho de seus braços.
Toda dúvida e medo que ainda existiam dentro de mim se foram. Antes era Sebastian que me chamava, exigindo de mim, usando um magnetismo que eu não conseguia identificar. Mas agora tudo se resumia a Nicola. Os olhos de meu filho me encararam por um tempo eterno e maravilhoso. Então ele fechou-os e dormiu.
— Está tudo bem, Elizabeth. Vamos embora.
— Para onde? — ela me perguntou e eu senti o medo em suas palavras.
Mas não havia por que ter medo. Tudo estava bem. E eu sabia, de uma maneira inexplicável, que Sebastian não me atormentaria por muito tempo. Ele tentaria. Mas enquanto eu me focasse em meu filho, nada poderia nos separar. Então, segurando-o forte junto ao meu corpo, levei a outra mão para Elizabeth e segurei a dela.
Um segundo antes de desaparatar dali, pude sentir Katrina e Adhara.
Porém não importava. A única coisa que elas encontrariam naquela casa era o resquício da fumaça estranha e de cheiro forte que eu deixava para trás. Um rastro que elas não poderiam seguir.
Palavras em grego, respectivamente: Te amo e Eu já te amo.
Nota: Peço desculpas aos que acompanhavam esta fic pela imensa, colossal, vergonhosa demora em atualizar. Mas isso tem explicação. As fanfics se tornaram um universo para mim que eu deixei de lado. Isso, pois eu estou mais concentrada em ter minhas próprias histórias, meus próprios escritos.
A vocês que quiserem me acompanhar de outra maneira, deixo aqui o endereço do meu blog Linhas e Pensamentos no Blogspot:
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Lá também tem meu Twitter, Tumblr e meu endereço na Amazon.
Um beijo carinhoso a todos que me acompanharam e também insistiram em eu atualizar e finalizar essa fanfic que foi meu xodó! (Beijo, Duda e Osmar! Desejo de coração ter vocês nas outras redes =D )
Meu carinho pra vocês.
Lívia Cavalheiro.
