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FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques e Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 34

Temor e Culpa

Sakura caminhava ao lado de Syaoran em direção ao sobrado branco localizado na mesma rua do templo Tsukimine. Estavam calados desde que Gabriel tinha sumido da frente dos dois após lhes dar a notícia, ou melhor, o ultimato. Sakura não olhava para Syaoran.

O rapaz, às vezes, espiava-a pelo canto dos olhos. Ela estava brava. Muito brava. Ele soltou um suspiro cansado. Estava ainda com alguns ferimentos ardendo enquanto cicatrizavam.

Chegaram a casa e Sakura abriu a porta, tirando os tênis. Syaoran entrou atrás dela e fechou a porta que ela tinha deixado aberta para ele passar. Ouviu a mochila dela sendo jogada no chão com mais força que o necessário, fazendo um barulho surdo. Ele tirou os tênis e colocou a mochila num canto. Olhou para a sala, vendo a namorada parada sem saber direito o que fazer.

'Sakura…' Ele a chamou.

'Melhor você tomar um banho, Syaoran. Você está imundo.' Ela o cortou, mostrando que não queria conversa.

You're lookin' so distant
(Você está tão distante)

I'm pulling at your coat
(Estou tentando chamar sua atenção)

There's lump in my throat
(Está difícil de respirar)

Because I have to go
(Porque eu tenho que partir)

Ele sorriu de lado. Normalmente ele é quem tinha este tipo de atitude, enquanto ela insistia que tinham de conversar.

'Certo.' Ele falou, vendo-a ir até a cozinha, provavelmente para preparar um chá. Seus olhos passaram pelo relógio da sala, já era quase hora da janta também. Hoje era quinta, não? Era o dia dela preparar a refeição.

Soltou outro suspiro, caminhando de forma arrastada em direção ao banheiro. Tirou a roupa e ligou a ducha gelada, entrando debaixo do jato d'água. Sorriu, pensando que era melhor aproveitar bastante antes de voltar para o inferno. Fechou os olhos, sentindo a água bater em seu rosto. Sentiria falta daquilo. Sentiria falta de Sakura. Trincou os dentes. Não queria voltar para lá. Novamente, tivera pouco tempo de felicidade. Passou a mão pelo rosto.

'Pelo menos aquele maldito zunido desapareceu.' Sussurrou.

Ele sentia a presença agitada da namorada no andar inferior. Ela se movimentava de um lado para o outro. Ora expandia-se, ora retraía-se. Duas semanas, era todo o tempo que tinha para aproveitar antes de voltar para o inferno. Não sabia nem o que faria neste tempo. Pensou que seria melhor aproveitar e fazer o que gostava, antes de ir. Provavelmente ficaria um bom tempo lá até conseguir voltar. Ele voltaria, sabia disto.

Começou a fazer uma lista mental do que gostaria de fazer. Não sabia quanto tempo ficaria lá desta vez. Deu para perceber que o tempo corria mais rapidamente naquele lugar do que aqui, então, ponderou que isso seria bom. Ele teria mais tempo para destruir as tais brechas e Sakura esperaria menos tempo por ele. O problema era que não tinha ideia de quantas existiam. E se fossem infinitas? Pensou que seria melhor esclarecer as coisas com Gabriel antes de voltar para lá.

Voltou a pensar na sua lista: Tomaria banho gelado por horas. Sorriu, balançando a cabeça debaixo d'água. Realmente isso era muito bom. Mas tinha algo muito melhor… Sorriu de lado e suspirou. Fazer amor com Sakura. Sentir a pequena feiticeira entre seus braços, sentir o gosto e o perfume da pele dela. E a sensação de quando unia-se a ela era por demais prazerosa. Era mágica. Era quando se sentia completo. Suspirou novamente, pensando que a namorada estava bem brava com ele no momento.

Onde já se viu, ela achar que iria com ele para lá. Nunca permitiria que a mulher que amava vivesse por um único segundo naquele inferno. Ele voltaria. Ele sabia que seria capaz de voltar para ela e voltaria como humano. Franziu a testa, pensando que talvez fosse melhor deixar aquilo registrado por escrito, protocolado e sabe-se lá mais o quê, no acordo com Gabriel. Caso contrário, daqui a um tempo, aquele anjo de meia tigela apareceria com outra bomba para ele.

A porta do banheiro se abriu com força, assustando-o. Estava distraído pensando em como ter garantias mais concretas de um acordo com o plano superior ou algo assim. Virou a cabeça e viu através do vidro do box o rosto de Sakura.

'A janta já está pronta.' Ela falou de maneira ríspida, antes de fechar novamente a porta.

Parecia uma loba feroz, só faltou rosnar para ele. Pensou. Fechou a torneira e se secou com a toalha. Colocou um short e desceu para o primeiro andar ainda secando os cabelos com a toalha. Olhou para a mesa posta para um. Franziu a testa.

'Você já jantou?' Ele perguntou, vendo a namorada mexendo na sua bolsa.

'Não estou com fome. Eu vou sair agora.' Ela falou. 'Hoje é seu dia de lavar a louça.' Sakura ainda comentou, colocando a bolsa sobre o ombro. Nenhuma vez ela o olhara.

Ele trincou os dentes. 'Você vai aonde a esta hora?'

Sakura adoraria dizer que não era da conta dele, mandá-lo catar coquinho, soltar meia dúzia de palavrões e xingá-lo de tudo. Estava com tanta raiva por ele ter cedido à chantagem dos anjos que o socaria, se achasse que aquilo resolveria alguma coisa. Respirou fundo e fechou os olhos brevemente tentando se controlar. 'Vou à casa de Eriol.'

'Você acabou de vê-lo! Vai fazer o que lá?' Indagou.

You're on the staircase
(Você está na escada)

You're head on your knees
(Encolhida, com a cabeça em seus joelhos)

You're making that same face
(Você está com aquele olhar)

*Singing please, don't leave
(Pedindo para eu não ir)

Ela levantou os olhos, finalmente o fitando, e Syaoran sentiu uma fisgada no peito. Ela não chorava, mas transmitia tanta dor, tanto desespero que deixou sua garganta seca. 'Ele vai me ajudar a achar um jeito de ir com você.'

'Sakura…' Syaoran sussurrou, aproximando-se dela, mas a ruiva se afastou, não queria perder tempo. Tinha apenas duas semanas para encontrar uma maneira de sobreviver naquele inferno.

'Deixe-me, Syaoran.' Ela falou, tentando se afastar dele em direção à porta, mas o rapaz a pegou pelo pulso. Levantou os olhos verdes, voltando a encará-lo. 'Solte-me.'

'Não.' Ele respondeu de forma firme.

Sakura tentou puxar o pulso, mas ele não soltou. 'Solte-me!' Ela gritou, puxando com mais força. Estava pronta para se debater, obrigando o rapaz a segurar os dois pulsos dela. 'Solte-me logo, Syaoran.' Ordenou, mas ele não a obedeceu, apertando mais forte seus pulsos. Sakura começou a se debater. 'Você é um idiota, cabeça dura, Syaoran! Um idiota, está me ouvindo?!' Ela gritou ainda tentando se soltar. 'Você tem sempre que querer resolver tudo sozinho! Odeio quando você age assim! Não preciso ser salva! Eu não preciso de um herói!' Ela continuou a falar, emendando vários palavrões. 'Se eles estão com medo que eu, sei lá… Exploda! Exploda tudo! Eles é que resolvam o problema, não você!' Ela gritava e empurrava Syaoran, ainda tentando fazer com que ele a soltasse.

Ele não falava nada. Apenas a fitava enquanto esperava o acesso de fúria da namorada terminar.

Por que ele não conseguia entender como ela se sentia? Como ele achava que ela se sentia quando tudo pelo que passou de ruim sempre estava, de alguma forma, relacionado com ela? As surras, o tal caos, a ida ao inferno. E agora, de novo? Tudo sempre estivera ligado a ela.

Será que ele não era capaz de entender o quanto ela se sentia culpada por todos os sofrimentos dele? Mas não! Ele sempre tinha que ser o grande herói com a armadura de ouro, montado em um cavalo branco a duelar contra, sei lá, dragões, monstros, contra o inferno inteiro para salvá-la como a uma princesa idiota! Porque, na cabeça dele, ela simplesmente não conseguiria se defender sozinha.

Ela tinha as cartas, ela tinha passado por desafios também, por perigos inimagináveis quando tinha 10 anos de idade. Ela passou pelo juízo final depois de levar uma surra de Yue. Ele a tinha acompanhado durante aquele tempo. Eles brigavam, discutiam, disputavam… Juntos. Tinha combatido seres das trevas há pouco tempo, algumas vezes sem nem usar magia e, além disso, salvara-o várias vezes. Por que, então, ele a via como uma inútil?

Por que, agora que eles cresceram, que não eram mais crianças, ele achava que daria conta de tudo sozinho? Por que ele não conseguia perceber que, se eles trabalhassem juntos, as coisas seriam, além de mais fáceis, possíveis? Como quando capturaram a carta Areia. Como quando lutaram juntos contra os tantos seres das trevas que eles derrotaram.

Sakura parou de se debater e ficou parada a frente dele, fechou os olhos, respirando de forma ofegante e tentando se controlar. Syaoran ainda tinha os pulsos dela presos. Ficaram em silêncio, até a respiração da jovem voltar a ficar calma novamente.

You still stand up with all of your love
(O seu amor é o que a mantém em pé)

But you walk me to the door
(Ao me acompanhar até a porta)

'Eu vou voltar.' Ele falou de forma firme.

'Eu vou com você.' Ela rebateu, abrindo os olhos e fitando-o profundamente.

'Não tem como! Você não ouviu o que aquele anjo idiota falou?'

'Como você mesmo o definiu, ele é um idiota.' Ela falou com a voz controlada. Inclinou o corpo, ficando com o rosto a centímetros dele. 'Eu vou achar um jeito de ir com você. Ele, pelo visto, não sabe de nada, senão não estaríamos nesta situação.'

Syaoran ponderou que ela não estava de todo errada. Mas também não queria que ela fosse com ele para aquele inferno. Ele tinha sofrido durante todo o tempo que estivera lá, não queria que ela passasse por aquilo.

'Aquele lugar não é para você.'

'Meu lugar, como você mesmo falou quando me trouxe para esta casa, é ao seu lado. Se você for para o inferno, Syaoran Li, eu vou com você.' Sakura falou com a voz firme sem desviar os olhos dele.

Ele engoliu em seco, ela era determinada demais. 'Por Deus, Sakura. Confie em mim, eu vou dar um jeito de voltar. Apenas me espere.'

'Não.' Ela falou entre os dentes. 'Não vou esperar porque eu vou estar ao seu lado.'

'Pare de ser teimosa!'

'Teimoso é você!' Sakura voltou a gritar. 'Você se deixou levar por aquela chantagem baixa! Se o perigo sou eu, então eu tenho que resolver. Você não vai resolver os meus problemas.'

'Nossos!' Ele retrucou. 'Nossos problemas!'

'Nossos?!' Ela falou em tom irônico. 'Agora são nossos?' Syaoran franziu a testa observando-a. 'Por quê? Se você não for, o que vai acontecer com você, Syaoran?' Ele arregalou os olhos de leve. 'Nada! Você vai continuar vivendo sua vida tranquilamente aqui. Eles não têm como obrigá-lo a ir para lá. Você mesmo deixou isso claro.'

'Sakura…' Ele tentou interromper, mas ela não tinha falado tudo.

'O que aquele anjo lá usou para forçá-lo a ir? Ah, sim… Se um dos demônios ou sei lá o quê destruir um pilar, todos eles cairão… Ah! Olha só que coincidência feliz para ele, não? O estúpido pilar deste universo sou eu! Clow resolveu me presentear com este cargo maravilhoso que agora está servindo para chantageá-lo a voltar para aquele inferno.' Ela falou tudo de uma só vez, parecia que nem tinha conseguido respirar. 'Eu já estou cansada de ser a fonte do seu sofrimento. Agora, solte-me!' Ordenou novamente e, desta vez, foi obedecida por ele. Deu um passo para trás, encarando-o.

'Você…' Ele começou a falar incerto. 'Você está vendo as coisas de forma errada.'

Ela ergueu uma sobrancelha. 'Estou? Então me diga qual é a forma correta de vê-las?'

Syaoran respirou fundo para ganhar tempo e pensar no que responder, mas nada vinha a sua cabeça. Ela não era tonta. O idiota do anjo não tinha nada que ter falado aquilo na frente dela.

Oh ho…

You are what tears me the most
(Você é o que mais me desestrutura)

And it's every time I leave I miss you the most
(E toda vez que eu parto, é o que mais me faz falta)

The thought of losing you is what scares me the most
(A ideia de perder você é o que mais assusta)

And so you…
(Então você…)

It's only you…
(É só você...)

'Não existe outra forma de ver o que está acontecendo aqui.' Ela mesma respondeu e ele no final concordou com a cabeça. 'Agora… Se você realmente quiser resolver isso, vai me deixar ir com você para resolvermos juntos os nossos problemas.'

Syaoran a fitou de forma demorada, os olhos dela tremiam. Por fim concordou com um gesto, mesmo que sua vontade fosse o contrário. Não tinha como convencê-la ou enganá-la dizendo não estava indo para lá por medo de que algo acontecesse a ela. Só de considerar aquela possibilidade ele...

Ela respirou fundo e estava pronta para sair quando ele a chamou novamente.

'Por favor, Sakura. Fique comigo agora.' Ele murmurou baixinho.

Sakura arregalou os olhos, ouvindo a voz dele falhada. Ele estava com medo. Claro que ele estaria com medo de voltar para lá. Estava tão envolvida em sua culpa que não pensou no pânico que devia estar instaurado na cabeça do namorado com o prospecto de voltar para aquele lugar que até hoje o assombrava em pesadelos.

Ela respirou fundo e relaxou os ombros, aproximando-se e o abraçou-o pela cintura. Fechou os olhos e apoiou a cabeça no peito dele. As batidas do coração dele estavam aceleradas assim com as dela. Ele a envolveu com seus braços, apertando a jovem contra o corpo dele. Ficaram assim por minutos, até se acalmarem.

Ela se afastou dele e pegou o rosto tão amado entre as mãos. Fitaram-se profundamente, até ela ficar na ponta dos pés e alcançar os lábios dele num beijo leve, mas cheio de ternura e amor.

Syaoran a apertou mais forte contra o corpo aprofundando o beijo; Sakura sentiu a língua dele invadindo a sua boca.

Ele deslizou os lábios pelo rosto dela até alcançar o ouvido da namorada. 'Eu preciso de você, Sakura.' Sussurrou. 'Preciso aplacar esse medo dentro de mim.' Confessou. 'Não se afaste de mim; não agora, por favor.'

Sakura concordou com um gesto, em silêncio. Voltaram a se beijar de forma urgente e Syaoran a empurrou de leve até as costas dela baterem numa das paredes da sala. Sentiu a jovem passar as mãos pelo seu dorso nu. Ainda a beijando, ele começou a tentar desabotoar o vestido que ela usava, mas estava sem paciência. Agora tudo parecia ser urgente para ele.

Viu-se puxando o tecido e fazendo os botões arrebentarem e saltarem pelo ar, espalhando-se pela sala. Ele tirou a calcinha dela ao mesmo tempo que ela se livrava do short que o cobria. Ele a pegou pela cintura e a levantou, sendo imediatamente envolvido pelas pernas dela.

Pela primeira vez, ele a tomou com sofreguidão e de forma urgente. Sentiu a aura de Sakura invadir o seu corpo, dando a ele a sensação de que tudo terminaria bem, que ele seria forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa e voltar para ela. Que ele sobreviveria a todas as dores e sofrimentos para voltar a se unir a ela, para voltar a se sentir completo, como naquele momento.


Smith caminhava de um lado para o outro no saguão do aeroporto de Tomoeda. Estava ansioso para pegar o avião para Londres. Não sentia mais a aura do guardião que havia trazido do outro universo e ainda sentia a presença forte de Syaoran Li. Provavelmente Logan tinha sido derrotado pelo demônio. Inferno! Seus planos tinham dado errado. Tinha gastado rios de dinheiro, tempo, contatos para não ter resultados. Lembrou-se da ameaça do senhor Yanamoto em seu último encontro e passou o dedo pelo colarinho que estava molhado de suor.

Olhou em volta, sentindo-se vigiado. Ouviu a chamada de seu voo e soltou um suspiro. Entrou na fila de embarque e sentiu-se mais seguro assim que sentou na poltrona do avião. Sorriu de alívio. Logo estaria em casa. Ficar no Japão agora poderia ser perigoso para ele. Tinha que se reunir com Rosas e os dois anciões Li para pensarem em outra forma de eliminar Syaoran.

A aeromoça o cumprimentou e ele pediu uma taça de Prosecco para relaxar um pouco mais. Estava degustando a bebida quando sentaram ao seu lado.

'Como vai, Smith?' Ele reconheceu a voz de Yanamoto. Quase se engasgou com a bebida que desceu arranhando a garganta.

'Senhor Yanamoto. Estou com assuntos urgentes em Londres.' Começou a se justificar nervoso.

'Sim… Imagino que tenhamos assuntos muito importantes em Londres para tratarmos.'

A aeromoça aproximou-se novamente e Yanamoto pediu também uma taça de Prosecco. Agradeceu polidamente. Assim que ela se afastou ele continuou o assunto.

'Soube que o rapaz ainda está vivo. Até ontem, você me garantiu que ele estaria morto.'

'Eu lhe garanti que traria uma pessoa capaz de matá-lo e foi isso que eu fiz, no entanto, aquele demônio é mais forte do que todos nós pensamos.'

O senhor tomou um longo gole da bebida. 'Você me garantiu que, com aquela fortuna que eu lhe dei, aquele garoto estaria morto.'

'Continuarei tentando encontrar outras maneiras, mas o senhor tem que entender que não estamos falando de uma pessoa comum e, sim, de um ser das trevas.'

Yanamoto sorriu de leve. 'Ninguém é indestrutível.'

'Exatamente.' Smith concordou. 'Todos nós temos interesse que aquele garoto desapareça.'

'E qual o seu próximo passo, senhor Smith?' Ele perguntou calmamente.

'Temos os pergaminhos e as anotações sobre os treinamentos ao qual todos da família Li, a qual ele pertence, foram submetidos. Se não podemos trazer alguém capaz de enfrentá-lo, acho que nosso possível próximo passo é preparar alguém que possa fazer isso.'

Yanamoto concordou com a cabeça. 'Isso vai levar tempo…' Comentou, tomando mais um gole e finalizando o líquido da taça. '...Mas a vingança é um prato mais apreciado quando frio.'

Smith concordou.

'Quero relatórios frequentes de todos os seus passos e gastos, Smith. Não tente me enganar, tenho gente atrás de você e não há poderes mágicos que o salvarão de mim.'

'Sim, senhor.'

O homem se levantou e cumprimentou-o rapidamente, atravessando o corredor do avião e saindo pela escotilha. Logo depois, a comissária de bordo, finalmente, fechou-a para se prepararem para a decolagem.


Tomoyo olhava para Kurogane que estava a sua frente. Estavam num restaurante para jantar depois de uma peça de teatro que assistiram.

Ela franziu a testa, observando-o mais calado que nos últimos dias. Ele batia de leve o garfo no prato, pegou a taça de vinho e bebeu um gole devagar, olhando para um ponto qualquer do restaurante.

'O que aconteceu? Não gostou da peça?' Tomoyo indagou observando o rapaz que a fitou.

Ele repousou a taça na mesa e suspirou. 'Tem alguma coisa errada com o Li.' Ele falou olhando para Tomoyo. 'Hoje no treino, eu o derrubei umas três ou quatro vezes.'

Tomoyo sorriu docemente. 'Talvez porque você esteja ficando bom.'

O rapaz balançou a cabeça negando. 'Ele estava apático.' Continuou. 'Parecia que estava em outro mundo. Kinomoto não comentou nada com você?'

Tomoyo franziu a testa e ajeitou-se na cadeira, nervosa. Já estava com o pressentimento de que alguma coisa estava errada com a amiga, mas tentava ignorar, apesar do coração alertá-la insistentemente que ela não estava bem.

Soltou um suspiro e desviou os olhos do rapaz. Ela tinha decidido afastar-se um pouco de Sakura e se dar a chance de amar outra pessoa. Abrir seu coração de forma plena, mas sabia de suas limitações. Se continuasse a orbitar em volta da bela ruiva, prejudicaria este processo. Estava sendo egoísta e sabia isso, mas foi uma barreira defensiva que levantou de forma momentânea entre ela e Sakura. Não era perfeita e estava longe de ser.

Kurogane observou a namorada calada por um tempo com o olhar vago. Sorriu de leve, parecia que já a conhecia. Ela tinha se sentido incomodada com o comentário dele.

'Tenho visto pouco Sakura.' Finalmente ela respondeu a pergunta dele, sem o encarar. 'Ela anda estudando muito na biblioteca, provavelmente, para as provas.' A morena fitou a taça de vinho a sua frente e balançou a cabeça de leve. 'Não… ela está estudando para as provas, isso é o que eu gostaria de acreditar que fosse verdade.'

'Então acha que está acontecendo alguma coisa com eles?'

Ela assentiu com a cabeça. 'Devem estar…' Sorriu de forma triste. 'Eles sempre estão com problemas.'

'Vocês costumavam almoçar juntas pelo menos…'

'Ela mal tem aparecido no refeitório para almoçar. E quando o faz sempre está correndo. Ontem nos esbarramos na saída, mas ela só tinha ido comprar um sanduíche e precisava ir se encontrar com Eriol.'

Kurogane franziu a testa. 'Sabia que tinha o dedo do cabeludo nisto.'

'Acho que já está na hora de você se dar uma chance de conhecer Eriol ao invés de julgá-lo tempo todo, não acha?'

'Não.' Ele respondeu de forma seca. Arrependeu-se, rodando os olhos. 'Talvez um dia.' Observou Tomoyo sorrindo de leve para ele. 'A questão aqui não sou eu, e sim Li e Kinomoto. Tenho certeza que estão com problemas. Li sempre foi caladão, mas nunca foi indiferente a tudo. Tem alguma coisa muito errada nisso.'

'Você gosta muito dele, não?' Ela perguntou com a voz doce.

'Ele é um cara legal.' Respondeu. 'Acho que a vida não foi muito justa com ele.' Viu Tomoyo concordando. 'Esse lance de magia não deve ser muito legal mesmo. Traz muitos problemas.'

Tomoyo meneou a cabeça, Kurogane tinha certa razão. Fazendo uma rápida análise da vida de todos os amigos feiticeiros, a vida deles não era mesmo muito fácil. Lembrou-se com pesar das vezes que teve que consolar Sakura chorando por causa de Li. Primeiro pela ausência e depois pela morte dele. E também de consolar Eriol por conta de decisões tomadas em sua vida passada.

'Quando soube desse negócio todo…' O rapaz começou a falar. 'Achei que até poderia ser uma vantagem enorme. Ser como um super-herói… Mas o que eu vejo são só problemas para os dois. E problemas bem barra pesada.' Completou, bebendo um gole do vinho devagar.

Tomoyo observou o namorado a frente e pensou que nunca tinha visto a situação por aquele ângulo. Sempre esteve tão empolgada com as aventuras dos amigos que havia deixado de ver este lado negro da história ou talvez, simplesmente, tivesse ignorado-o.

'Li não falou nada para você?'

Ele balançou a cabeça negando. 'Você sabe como ele é. Não fala nada. Quando eu ainda brinquei que estava dando uma surra nele, ele só deu de ombros, sem nem retrucar.'

Ela fechou os olhos brevemente e soltou um suspiro. Teria que colocar Sakura contra a parede. No fundo, ficava triste por saber que a amiga estava com problemas, mas não a procurara para falar deles. Ponderou que a ruiva era mais esperta do que aparentava. Percebeu que Tomoyo e Yuo precisariam de um tempo para eles, sem a interferência de ninguém.

Não podia negar que sentia muita falta de conversar com Sakura. Principalmente agora que Meilyn havia retornado, de forma repentina, para Hong-Kong com Hyo Ling. Na verdade, a decisão não foi repentina, ela é que se viu de repente sozinha no alojamento da faculdade.

'Vou conversar com Sakura amanhã sem falta. Nem que seja na biblioteca.'

'E sabe o que é o mais chato disso tudo?' O rapaz perguntou, fitando a morena e a viu negar com um gesto. 'Mesmo que a gente saiba o que está acontecendo, provavelmente, não teremos como ajudá-los.'

'Não é bem assim, Yuo. Você ajudou muito a Sakura quando ela estava desorientada e também ajudou Li naquele processo todo da morte do Yanamoto.'

'Bem, era o mínimo que eu poderia fazer, considerando que eles salvaram o pescoço de todos nós, não?'

Ela concordou com a cabeça. Observaram a refeição a frente dos dois. Nenhum dos dois tinha mais vontade de comer, estavam preocupados.

Tomoyo levantou o rosto e observou Kurogane, sorriu percebendo que ele era um amigo fiel. Uma qualidade inestimável atualmente. 'Você é uma pessoa incrível, Yuo.'

Ele desviou os olhos do prato e fitou a jovem a sua frente. 'Incrível é você, minha princesa.'

Tomoyo sentiu as faces aquecerem; não pelo elogio em si, mas pelo pronome possessivo antes do princesa.


'Que cara idiota!' Syaoran soltou rindo, enquanto lia.

Sakura tirou os olhos do livro que estava lendo na biblioteca e observou o namorado à sua frente. Estava sentado na cadeira inclinado para trás com as pernas em cima da mesa. A bibliotecária já tinha pedido duas vezes que ele as abaixasse, mas Li a ignorou.

Tinha pegado um mangá de Kurogane no quarto que eles dividiam antes. Leu o prólogo, achou interessante e resolveu começar a ler apenas por diversão. Nada de estudos e coisas importantes… Apenas entretenimento.

Não teve como ela não sorrir de leve, observando-o distraído e relaxado. Pelo menos ele não estava com aquele semblante preocupado e pesado. Tentou voltar a ler o livro sobre artes das trevas. Tinha o livro a sua frente, um dicionário de sânscrito à direita e um terceiro livro sobre símbolos e sinais à esquerda. Todos eles cheiravam a mofo o que lhe rendia constantes crises de espirros.

Syaoran riu alto novamente, chamando não só a atenção dela, mas de algumas outras pessoas.

'Syaoran…' Ela o chamou e ele tirou os olhos do que lia para fitá-la. Sakura fez um gesto com a cabeça, apontando as outras pessoas que olhavam feio para ele.

O rapaz deu de ombros. Voltou a ler.

'Você deveria estar me ajudando…' Ela resmungou.

Ele franziu a testa, mas não a fitou. 'Eu aceitei que, se você encontrasse uma maneira de sobreviver lá, iria comigo, mas não significa que eu concorde com essa ideia.'

**I can't call you from hell
(Não posso ligar do inferno)

At the end of the day
(No final do dia)

To tell you that I am well
(Para dizer que estou bem)

No, I'd have to say
(Precisaria admitir que não estou)

'Humph…' Ela murmurou. 'Igual a Touya-nii-san.'

'Vai ver somos parecidos mesmo.' Ele comentou sem dar muita atenção. 'Este garoto é uma piada. É muito besta mesmo.' Emendou, rindo e voltando a ler o mangá.

Sakura semicerrou os olhos nele. Quem passasse por ali, vendo o rapaz se entreter com um mangá, de forma tão descontraída, imaginaria que ele fosse um jovem normal, fazendo faculdade e acompanhando a namorada CDF que estudava enquanto ele se divertia. Um casal completamente normal. Por que eles não podiam ser assim?

'Já pensou se a gente não tivesse magia?' Ela perguntou de repente, lembrando-se de um comentário de Tomoyo mais cedo naquela semana a respeito de seus poderes só terem lhes trazido problemas.

Li tirou os olhos do mangá e a fitou. 'Provavelmente, a gente não teria se conhecido. Eu estaria em Hong Kong e não teria porque vir para Tomoeda.' Ele comentou.

Ela sorriu. 'Eu acho que nos encontraríamos de qualquer maneira, por algum outro motivo.'

Syaoran franziu a testa. 'Não sei… Talvez.' Ele falou. 'Talvez nossas vidas fossem bem diferentes do que são agora, não?'

'Diferentes como?' Ela o indagou.

Ele deu de ombros. 'Não sei. Acho que eu ainda estaria no clã, provavelmente brigando com aqueles anciões e tentando me esquivar de um casamento arranjado, enquanto eles me encheriam o saco para assumir o posto de patriarca da família, sem nem perguntarem se eu o queria.'

'Teria muitas pretendentes, não?' Ela perguntou, rindo.

'Você sabe que eu sou tímido demais para estas coisas.' Ele respondeu, voltando a ler o mangá.

'Acha que nos apaixonaríamos?'

'Tenho certeza.' Ele respondeu.

Ela sorriu e o viu fitá-la novamente.

'Eu voltaria a me apaixonar por você. Já falei isso.'

Sakura concordou com a cabeça. 'A vida seria mais fácil, não é?'

'Talvez.'

Ela suspirou. 'Nós nos apaixonaríamos, namoraríamos, depois nos casaríamos e teríamos filhos…'

'Cinco.' Ele completou.

'Cinco?!' Ela perguntou, assustada.

Ele concordou. 'Cinco. Como a minha mãe! Mas teriam que ter as idades próximas. Eu praticamente me senti filho único. Minhas irmãs eram muito mais velhas que eu.'

'Que tal… Dois? Dois filhos é um bom número, não é?' Ela argumentou.

'Nós vamos fazer isso, Sakura.' Ele falou, fitando-a profundamente. 'Quando eu voltar. Nós vamos nos casar e vamos ter filhos. Eu vou voltar humano.'

Ela suspirou e concordou. 'Mas seria mais fácil e menos penoso se não tivéssemos que passar por tudo isso, não?'

Ele concordou. Voltaram a ficar em silêncio.

'Será que você me acharia uma tonta se me conhecesse de outra maneira?' Ela estava gostando daquela conversa de faz-de-conta. Era uma maneira de esquecer, momentaneamente, que estavam naquele pesadelo sem fim.

Syaoran sorriu. 'Provavelmente.'

'A gente poderia se conhecer numa viagem que eu faria a Hong Kong, ou em que você viesse para o Japão.'

'Daqui a pouco você estará escrevendo um roteiro de filme.' Ele riu.

'Oras… Você poderia me conhecer na Torre de Tókio e, quando olhasse para mim, iria se apaixonar perdidamente.'

Ele gargalhou. 'Sim, eu me apaixonaria pela bela moça de olhos de esmeralda.'

'E poderia até ter música!'

'Claro! Fogos de artifício também!' Ele completou, brincando.

'Isso! E então eu o veria e, quando os nossos olhares se cruzassem, eu me sentiria perdidamente atraída pela forma como você olharia para mim.'

'Você quase se escondeu debaixo da carteira quando nos encontramos pela primeira vez.' Ele riu.

'Ah! Mas isso foi porque eu achava que você ia pular no meu pescoço.'

'Eu não queria pular no seu pescoço.' Ele se defendeu. Meneou a cabeça. 'Está bem… Talvez só um pouquinho, sim… Mas isso você não precisa colocar no seu roteiro de filme romântico, não é?'

Ela riu, negando. 'Tem razão. Podemos melhorar as coisas.'

'Claro.'

'Então… Hum… Deixa eu pensar…' Ela falou, colocando um dedinho no queixo de forma pensativa.

Syaoran observava a jovem com um sorriso.

Ela arregalou os olhos e abriu mais o sorriso. 'Ah já sei! Você se aproximaria de mim e diria que eu sou a garota mais linda do mundo.'

Ele riu. 'Eu poderia até me aproximar de você, mas estaria mais vermelho que um tomate.'

'Syaoran… Você também tem que colaborar.'

Ele arregalou os olhos, levantando as mãos ao lado do corpo. 'Estou sendo sincero. Está bem… Eu me aproximaria de você e diria que você é a garota mais linda do mundo…' Ele franziu a testa. 'Depois eu viraria e sairia correndo.' Completou, rindo.

'Hei! Você não é mais um garoto! Quando nos reencontramos você foi bem direto.' Ela falou, lembrando-se dele simplesmente a chamando do nada, dando dois passos, enlaçando-a pela cintura e a beijando de surpresa.

'Ah, mas eu sabia que você retribuiria.'

Ela franziu a testa. 'Como assim?'

'Você estava louca para que eu a beijasse.'

Ela inclinou o corpo a frente, encarando-o de perto. 'E eu posso saber como o senhor sabia disso se eu tinha dito que não queria mais vê-lo?'

'Eu sabia que você estava chateada, mas seus olhos não mentem, Sakura. Você é transparente demais.'

'Humph…' Ela murmurou. 'Você é bem pretensioso.'

'Vai dizer que é mentira?' Ele a indagou, semicerrando os olhos nela.

Ela desviou os olhos dele. 'Talvez.'

'Se você se fizer de difícil assim no seu roteiro romântico, vai ficar complicado para mim.' Ele falou brincando. 'Sendo um garoto normal, acho que não chamaria sua atenção.'

Sakura sorriu de leve. 'Impossível.' Ela o viu erguer uma sobrancelha. 'Impossível você me olhar e eu não sentir as pernas bambas.'

Ele sorriu de lado. 'Isso eu não sabia.'

'Uhm… Talvez eu me aproximasse de você, então.' Ela mudou o roteiro.

'E o que você faria?'

'Não sei…' Ela fez uma pausa e depois arregalou os olhos. 'Ah! Já sei! Eu perguntaria se era sua primeira vez no Japão, visitando a Torre de Tókio, e você responderia que sim. Então eu perguntaria de onde você é…' Ela fez uma outra pausa, Li acompanhava a narrativa dela, sorrindo de leve. 'E você responderia que era de Hong Kong. E eu perguntaria se você não poderia me ensinar mandarim.'

'Mandarim?'

'Isso! E você olharia bem nos meus olhos e diria que sim, pelo resto de nossas vidas.'

'Na cama?' Ele perguntou baixinho para ela com olhar maroto.

'Hei! É um filme romântico!'

'Oras… Mas os filmes românticos que vocês adoram são os que possuem mais cenas de atores na cama.'

Ela o fitou em censura, mas depois sorriu de leve, sentindo as faces rubras. 'Está bem… Está bem…'

'E então eu responderia que lhe ensinaria com o maior prazer.' Ele concluiu.

Ela suspirou um pouco cansada. 'Tudo poderia ter sido tão perfeito, não é? Tão mais fácil e tão menos penoso.'

Syaoran respirou fundo, soltando o ar devagar. 'Acho que sim.'

Now does it feel painful
(Agora só sinto dor)

But it still feels strange
(E ainda é estranho)

Because I want you with me
(Porque eu quero estar com você)

And that's what's changed
(E foi isso que mudou)

Ficaram em silêncio novamente. Ela olhou desanimada para o livro que tinha a sua frente. Faltavam apenas alguns dias e ela não tinha achado nada que pudesse ajudá-la a sobreviver no mundo das trevas sendo humana. Não queria chorar na frente dele, mas estava começando a entrar em desespero com a proximidade da lua nova.

Eriol estava tentando ajudá-la, mas todas as anotações que ele tinha achado de Clow eram taxativas em afirmar que os humanos não sobreviveriam à atmosfera hostil do mundo das trevas. No final, só confirmavam o que os anjos disseram e jogavam mais areia nos planos da feiticeira.

Mas tinha que haver uma maneira. Shyrai tinha sobrevivido lá depois que passou pela brecha que ele e Clow abriram e, depois, ele voltou mais poderoso do que nunca, segundo o relato de Eriol. Então existia uma maneira, sim, ela só tinha que descobrir qual.

Syaoran observou a namorada olhar para o livro, ela estava se esforçando. Sorriu de leve, pensando que seria realmente muito bom se o roteiro de filme meloso de Sakura fosse verdade e não mera fantasia.


You're in the doorway
(Você está onde eu a deixei)

You're still on the phone
(Ainda esperando por notícia)

Now, do you feel alone?
(Também se sente sozinha?)

Sakura caminhava devagar ao lado de Syaoran pelo parque do Rei Pinguim. Estavam de mãos dadas, dedos entrelaçados. O sol estava se pondo no, horizonte pintando o céu de um vermelho alaranjado. Em alguns instantes seria noite. Noite de lua nova.

Syaoran a puxou, enlaçando a cintura da namorada e beijando-lhe a cabeça. 'Vai ficar tudo bem.' Ele murmurou. Ela apenas acenou com a cabeça.

Continuaram a caminhar devagar pelo parque. Conforme a noite se aproximava, o local ficava cada vez mais vazio. Sakura não tinha como controlar as batidas cada vez mais rápidas do coração a medida que a noite ia caindo na cidade.

Syaoran tinha a respiração tranquila, estava calmo até demais para a situação. Não seria a primeira vez que faria aquela travessia. Uma das coisas que ele aprendeu com a vida era aceitar as dificuldades e desafios de forma serena, manter a cabeça fria para ser capaz de enfrentá-los.

Oh ho…

You are what tears me the most
(Você é o que mais me desestrutura)

And it's every time I leave I miss you the most
(E toda vez que eu parto, é o que mais me faz falta)

The thought of losing you is what scares me the most
(A ideia de perder você é o que mais assusta)

And so you…
(Então você…)

It's only you…
(É só você...)

Não demorou muito para os dois feiticeiros sentirem a presença de Gabriel. O anjo caminhou e parou a frente deles, tinha o semblante sério. Syaoran se afastou de Sakura. Sorriu para ela de leve, tentando passar tranquilidade. Sabia que ela estava no seu limite. Não queria que ela estivesse com ele, mas conhecia a namorada.

O rapaz encarou o anjo, sério. 'Preciso de algumas respostas antes de ir para lá.' Gabriel assentiu com a cabeça. 'Quero saber quantas brechas exatamente existem e se todas devem ser destruídas?'

O anjo franziu a testa. Ele queria avaliar o tamanho do problema. Nada mais justo. 'São cerca de quinze.'

'Quero saber exatamente.' Ele foi taxativo.

'Eram quinze. A que você passou para voltar a este universo já foi destruída e a que você passará agora também será. Então serão exatamente 13 brechas que você deverá fechar.'

'Qual o nível dos demônios que eu terei que enfrentar?'

'Todos são considerados demônios superiores.'

'Como o cara de chifre?'

'Exatamente, como Tichondrius.'

'Humph…' Ele murmurou. Tinha sido difícil aquela luta. Se ele não tivesse recebido o poder de Luthor, provavelmente teria morrido. 'Quero uma garantia de que realmente voltarei como humano e vocês não vão inventar mais nada depois.'

Gabriel encarou Li, mas ponderou que ele tinha razão. Olhou de relance para Sakura que acompanhava o diálogo com atenção. Parecia calma. Calma demais. Voltou a encarar Li. 'Não sei como lhe dar uma garantia.'

'Então tenho que acreditar na sua palavra? De novo?' Ele perguntou, em tom irônico.

Gabriel deu um passo a frente, encarando-o. 'Sim. Acredite em mim, se eu pudesse ir no seu lugar, eu faria isto.'

'E por que não vai, então?'

'Por que eu não tenho como sobreviver lá. É por isso que eu sou o Guardião do plano superior e você do plano inferior. Nossas naturezas são opostas.'

Sakura olhou de um para o outro e quase soltou uma risada irônica. Eram de naturezas iguais, dois cabeças quentes.

'Sei…' Syaoran murmurou.

Gabriel se afastou dele. 'Você terá ajuda.'

Li ergueu uma sobrancelha. Uma das coisas que aprendeu muito bem no inferno era que não poderia confiar em ninguém. 'Ajuda?'

'Sim. Três outros demônios que estão em busca do perdão de Enma Daiyoh o ajudarão. Um deles você já conhece: Arthas.' Viu Syaoran assentir com a cabeça. 'Mas você sabe muito bem que…'

'Não devo confiar em nenhum'. Ele interrompeu e viu Gabriel concordando. 'É… Eu aprendi isso no tempo que estive lá.'

'Os outros dois são Tadmoth e Midoriko.' Gabriel continuou a explicar. 'Midoriko é o demônio responsável pela brecha pela qual você passará. E Tadmoth será o guia até as outras brechas.'

'Certo.' Syaoran falou, respirando fundo. 'Então, assim que eu chegar à última brecha e derrotar o seu guardião, eu a atravessarei e eles a destruirão. É isso?'

'Exatamente.' Gabriel confirmou.

'As brechas são muito distantes umas das outras?'

'Pergunta difícil...'

'Preciso de tudo esclarecido agora, Gabriel.' Ele foi seco.

'Elas possuem, sim, uma certa distância umas das outras. Até porque demônios superiores não gostam de dividir o mesmo território.'

Ele concordou com a cabeça.

Sakura sentiu um distúrbio mágico no ambiente, a energia aumentou e se concentrou em um ponto a alguns metros de onde estavam. Uma esfera luminosa multicolorida apareceu. Ela sentiu o coração fisgar e engoliu em seco. Lutava para não começar a chorar como uma criança.

You get lonely
(Você fica sozinha)

You get pulled apart
(Perde o controle)

You console me
(Você me consola)

You still bring me around
(Você ainda me inspira)

Syaoran observou a luz desanimado. A última vez que vira uma daquelas, estava a ponto de se desesperar até ouvir Sakura chamar por ele. Agora ali estava ele: olhando novamente para uma brecha, ao lado dela, mas tendo que se afastar.

'Está na hora de você ir.' Gabriel falou. 'Não podemos deixar a brecha aberta por muito tempo. Você sabe que elas são instáveis.'

Syaoran concordou novamente com a cabeça. Não conseguia falar mais nada com o bolo enorme que tinha na garganta. Virou-se para Sakura que estava ao seu lado, lutando para não chorar. Ela tentava ser forte, assim como ele.

Contemplaram-se de forma profunda até ela não conseguir mais segurar as lágrimas e se jogar nos braços dele, abraçando-o forte. Ele a envolveu em seus braços, apertando-a entre eles.

Oh ohh!

You are what tears me the most
(Você é o que mais me desestrutura)

And every time I leave I miss you the most
(E toda vez que eu parto, é o que mais me faz falta)

The thought of losing you is what scares me the most
(A ideia de perder você é o que mais assusta)

And so you…
(Então você…)

It's only you…
(É só você...)

'Eu vou voltar. Eu prometo.' Syaoran sussurrou e a sentiu confirmar com a cabeça.

Não queria se afastar dela, mas Gabriel sinalizou que precisava ir. Tentou se afastar, mas Sakura segurou as roupas dele se recusando a soltá-lo. Droga. Ele não queria mostrar fraqueza na frente dela, mas aquele maldito bolo na garganta o estava sufocando.

Segurou os ombros dela e forçou o afastamento, abaixou o rosto, fitando-a. 'Eu vou voltar.' Ele repetiu

Ela balançou a cabeça, mordendo o lábio inferior para evitar que os soluços fossem ouvidos e soltou as roupas dele, dando um passo para trás. Ela também precisava mostrar que confiava nele. Que acreditava em seu retorno. Ela o estaria esperando, como sempre esteve.

Syaoran deu um passo em direção a brecha, mas se reteve. Voltou-se para trás, vendo Sakura por sobre seu ombro direito. Os olhos dela brilhavam de forma belíssima. Sentiria uma falta enorme dela, estava deixando ali uma parte de si. Novamente fitou a brecha e trincou os dentes.

Virou-se e envolveu a cintura da namorada, abaixando o rosto e a beijando. Queria, nem que fosse pela última vez, sentir o gosto dos lábios da garota que sempre esteve na sua cabeça e no seu coração.

Sakura entreabriu os lábios, envolvendo o pescoço do amor da sua vida. Queria que ele nunca se afastasse dela novamente. Queria-o sempre ao seu lado. Inferno! Por que com eles tudo tinha que ser tão difícil?!

Syaoran sentiu o gosto salgado das lágrimas dela misturado ao sabor doce dos lábios. Afastou-se e segurou o rosto da amada entre suas mãos. 'Tudo vai terminar bem.' Falou, tentando sorrir e a viu tentar fazer o mesmo.

Sentiram uma presença diferente vindo da brecha que ainda se mantinha aberta. Gabriel franziu a testa e Syaoran virou-se, colocando-se à frente de Sakura. O vulto de uma mulher com longos cabelos vermelhos apareceu.

'Por que a demora?' Ela perguntou, encarando-os.

Com um alto estrondo, Trovão se manifestou a frente de seus mestres em sua forma original, rosnando ferozmente para a figura desconhecida.

Sakura arregalou os olhos, vendo Trovão se revelar sem ter sido convocada. Gabriel olhou para os dois Feiticeiros, percebendo que eles também foram pegos de surpresa pela interferência.

A mulher olhou para a criatura mágica que se mantinha entre ela e casalzinho. Franziu a testa, mostrando-se irritada. Deu um passo à frente, mas Trovão aumentou sua presença, lampejando raios em sua direção e fazendo-a recuar. Ela tirou os olhos da fera e fitou o casal.

Sakura semicerrou os olhos, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. Elas se encararam por alguns segundos até Gabriel se manifestar novamente, lembrando-os que era necessário fechar a brecha.

Trovão ainda se mantinha todo eriçado e com os dentes à mostra, pronto para defender seus mestres. O anjo não se arriscava a se aproximar da fera.

Li deu alguns passos, alcançando-a e parando ao seu lado. Lembrou que aquela fora a primeira carta que Sakura havia capturado com a ajuda dele. A fera virou-se para ele e Li estendeu a mão, acariciando-a de leve; não tinha receio de ser eletrocutado. Sorriu de lado, entendendo que ela tinha se colocado ali para protegê-los.

O Lobo ganiu de forma interrogativa, quebrou o contato visual com Li, voltando-se para Sakura que estava mais atrás e, depois, voltou a encará-lo. As Cartas sabiam que não queriam se separar.

Oh, You are what tears me the most
(Oh, você é o que mais me desestrutura)

And it's every time I leave I miss you the most
(E toda vez que eu parto, é o que mais me faz falta)

The thought of losing you is what scares me the most
(A ideia de perder você é o que mais assusta)

It's only you…
(É só você...)

'Eu sei, mas preciso ir.' Ele explicou, ainda acariciando o Lobo elétrico. 'Cuidem dela até eu voltar.'

Syaoran levantou o rosto e respirou fundo. Caminhou em direção à brecha. Reteve-se por alguns segundos, franzindo o cenho e encarando o demônio feminino, mas voltou a caminhar, atravessando finalmente a esfera de luz. Sentiu vontade de se virar e ver Sakura uma última vez, mas seria bem capaz de, realmente, desistir se o fizesse.

Sakura observou a silhueta de Syaoran desaparecer dentro da luz, antes que o portal se fechasse. Fechou os olhos, derramando lágrimas silenciosas enquanto Trovão ressoava com um uivo sofrido.

It's only you…
(É só você...)

Continua.


Música do capítulo: What Tears Me the Most (O que mais me desestrutura), de Richard Stirton.

Trilha sonora de FEITICEIROS no spotify: https(:/) user/22rlnulqqvg674k2ys6fjo35y/playlist/7k4ae3qiQIE2y8l0Mv4Nv4

obs.: *trechos da letra alterados para se encaixarem melhor no enredo.

Letra original:

*Singing please, just leave (Pedindo que eu apenas vá)

––––

**I'm calling from a hotel (Estou ligando de um hotel)
At the end of the day
(No fim do dia)
You're hoping that it went well
(Você espera que tudo esteja bem)
No, I have to say
(Tenho que admitir que "Não")


Notas da Autora:

Sem muitos comentários sobre este capítulo… Culpa da Yoru que resolveu fazer "o barco falar", neste caso, "o barco até cantou…" e eu chorei! E culpa do Trovão tb! Não tinha nada que ter aparecido! Culpa também da minha TPM provavelmente… Enfim… Este capítulo foi um dos piores para mim.

Obrigada a todos que estão acompanhando a história.

Beijos

Notas da Colaboradora:

Eu adoro a carta Trovão! A cumplicidade das Cartas com os seus mestres é algo sem igual. É muito lindo de se ver. Este capítulo é crucial para a história. Se o relacionamento de Sakura e Syaoran fosse um pouco mais frágil, essa separação deles poderia causar um golpe irreparável. No entanto, mesmo durante uma discussão em que socos e xingamentos foram desferidos, os dois continuam firmes e fortes. Eles brigaram, mas isso também faz parte da comunicação entre um casal. Um casal que nunca discute, principalmente sobre as coisas mais importantes, não existe.

E, para quem estava perguntando: aí está a Midoriko. Espero que estejam satisfeitos agora. Essa… &$%§$ £! Não teve mesmo jeito de nos livrarmos dela… Argh! Que raiva!

Agora é esperar para ver como as coisas se desenrolarão nos próximos capítulos! F2 está chegando ao fim, minha gente!

Beijinhos! Até a próxima.

Notas da Revisora:

AAAHHHH Kath! Pode ter sido terrível para você, mas foi um dos capítulos que eu mais gostei. Eu amei a explosão da Sakura, dizer tudo que tinha direito e um pouco mais… Adorei!

É legal ver como as duas cabeças pensam diferente sobre o mesmo assunto… É bem uma relação de casal mesmo, por isso sempre, sempre, conversar.

Eu não sei o que acontece para frente, mas eu gostaria de ver a Sakura encontrando uma forma de ir para o Inferno, mesmo porque… Jesuis… Midoriko… Eu lembro dela… (quer dizer, lembro que ela existiu na primeira versão e que eu não gostava dela)... Personagem marcante que você criou, porque infernizou a vida de todos, até de nós pobres leitores.

E eu consegui… Rô não é nada sem internet, apesar de não ter surtado nenhuma vez nos últimos 5 dias.

Bjs People.