Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/T: Eu tive que terminar a tradução desse capítulo (que estava na gaveta sendo feito aos pouquinhos) só pra dedicar pra nova leitora Ny-chan. Amei ir acompanhando seus surtos com a fic a cada capítulo! Me diverti a beça e me deu saudade dessa história! Menina, seu primeiro sonho yaoi, é motivo para COMEMORAR! E, pra isso, um capítulo saindo do forno! E saiba que essa fic não foi e não será abandonada!

Ai, Litha-chan, você sempre me mata de rir com os seus comentários! Eu também tenho tanta vontade de socar a cara do Trowa dessa fic (e a do Treize também, claro) . Chang PPA kkkkkkkk


Capítulo trinta e quatro: Elucidando

Campo de Treinamento

Duo sentou-se na mesa de exame oscilando de exaustão.

"Tentarei ser breve para que você possa se deitar e descansar," Sally falou gentilmente.

O rapaz assentiu com a cabeça, estremecendo por conta da dor.

A doutora cuidadosamente desabotoou a camisa dele, desaprovando com um profundo suspiro os hematomas ao longo das costelas e do abdômen. "Nossa..." ela sussurrou horrorizada.

"Ah, parece pior do que realmente é," Duo insistiu. Ele deixou a camisa deslizar pelos ombros e cair na mesa. Sally a pegou e a colocou em um saco plástico em que ela escreveu 'evidência' com um pincel atômico. "Me dá um sanduba e uma chuveirada quente que vou ficar novo em folha."

"Você está se esquecendo da parte de duas semanas de descanso," a médica rebateu sem pestanejar.

"Não!" o rapaz protestou. "Isso vai atrasar o time, temos uma competição para ganhar." Ele fez sua melhor imitação de cachorrinho pidão. "Por favor, doutora. Uns dois dias serão suficientes. Juro!"

Ela ergueu uma sobrancelha, descrente.

"Eu nunca minto!" ele afirmou firmemente. "Pergunta pro Chang. E sei que vou estar melhor em um ou dois dias. Melhoro rápido."

"É o que veremos," ela suspirou, jogando uma camisola hospitalar no colo dele. "Vista. Coloque o resto das suas roupas no saco plástico de evidências."

Ele a observou desconfortavelmente. "Doutora, não sou muito acostumado com exames. Não tínhamos acesso a médicos em L2, exceto de vez em quando no orfanato."

Sally afastou do rosto do rapaz algumas mechas da franja, colocando-a atrás da orelha dele. "Sinto muito, mas é necessário, Duo." Ela tocou no queixo do jovem, erguendo o rosto para que a encarasse. "Vou me certificar de que seja o mais rápido e indolor possível."

Duo se rendeu, embora ainda descontente. Não queria contar para a gentil mulher o que acontecera na solitária, mas também não via como evitar. Preferiria mil vezes ficar calado e caçar seu torturador no meio da noite para uma vingança particular. Entretanto, ele sabia que tanto Chang quanto a médica tinham uma boa ideia do que acontecera pelo estado de suas roupas e pelos seus ferimentos.

A doutora Po puxou as cortinas para dar privacidade ao paciente, mas manteve uma conversa enquanto o rapaz se trocava. Embora não fosse psiquiatra, trabalhara com muitos menores infratores e tinha experiência em acalmá-los.

"Oh, a propósito," ela falou num tom mais alegre, preenchendo a ficha de Duo. "Tive notícias do hospital ASMS de que seu amigo Jason está muito melhor."

"Jase? Sério?" A cabeça de Duo apareceu entre as cortinas, olhos ávidos. "Ele está bem?"

"Mais do que bem," ela o assegurou com um sorriso. "Seus ferimentos internos não foram tão graves, então puderam fazer a operação no joelho para recuperar os ligamentos. Ele vai precisar de muletas por algumas semanas e de fisioterapia até se recuperar completamente."

Duo sorriu. "Então ele vai se recuperar completamente. Que bom."

"É ótimo," ela concordou. "Parece que ele perguntou por você também."

A expressão do jovem se esmaeceu. "Não conte pra ele... sobre isso, por favor."

Ela ficou séria. "Informações médicas são confidenciais, Duo. Especialmente em casos assim. Apenas mencionei o prognóstico do Jason porque sei que são amigos e ele gostaria de compartilhar a boa notícia."

Duo curvou os lábios para baixo, tristemente. "É, notícias ruins não precisão ser compartilhadas."

"Não mesmo," ela balançou a cabeça. "Já terminou de se trocar?"

Ele confirmou relutante e a doutora pegou sua prancheta, preparando-se para dar continuidade ao exame.


Wufei foi até a enfermaria cerca de uma hora depois, não tendo sucesso em encontrar o ardiloso diretor. Obviamente o desgraçado não queria dar explicações sobre as condições de Maxwell. Ele quer mesmo é conversar com os guardas para combinarem a história — mentira — que vão contar.

A doutora Po estava atrás de sua mesa fazendo anotações.

"Como ele está?" Wufei perguntou.

"Como é de se esperar, devido às circunstâncias." Quando Chang olhou ao redor e não encontrou ninguém mais, ela apontou para o cômodo adjacente. "Ele está tomando banho. Mal conseguia se levantar e por mais que eu preferisse que ele ficasse na cama com soro, ele falou que não aguentava mais o fedor da cela impregnado nele." Ela piscou com força, controlando as lágrimas. "Coloquei um banquinho no chuveiro para ele se sentar."

Wufei sorriu. "Boa ideia."

"Ele precisava... do banho. Ele precisa se sentir limpo de novo... não que sabão e água vão conseguir limpá-lo totalmente, mas é um começo." Ela apontou para o saco plástico em cima da mesa. "Aqui está sua evidência, Chang. E terei meu relatório pronto até amanhã. Os resultados do laboratório podem levar alguns dias."

"O que quero saber agora é, Maxwell pode continuar no campo de treinamento?"

"Ele parece querer ficar," respondeu evasiva. "Não prometo nada, mas acho que os ferimentos vão se curar com alguns dias de descanso. Ele estava certo quanto a parecerem pior do que realmente são." Ela franziu o cenho. "No entanto, estou estabelecendo dois dias de descanso total com terapia intravenosa e antibióticos. Como ele responder aos medicamentos vai determinar quando vou liberá-lo para voltar ao alojamento e se eu decidir que ele pode continuar no treinamento."

Wufei assentiu com a cabeça. "Em quais dias o doutor G vem?" perguntou, referindo-se ao psicólogo que fazia rondas periódicas.

"Quartas e sextas."

"Se puder falar com ele, agradeço. Gostaria que Maxwell fizesse algumas sessões."

"Claro."

"Oh, e os companheiros de time perguntaram se podem visitar."

A doutora balançou a cabeça em negativa. "Não por no mínimo dois dias. Ele precisa dormir mais do que qualquer coisa. E acredito que vou precisar mantê-lo sedado." Quando o chinês ergueu uma sobrancelha, ela concluiu. "Pesadelos, Capitão."

Ele entendeu, sua expressão se tornando sombria. "Falando em pesadelo, quando descobrir o nome do guarda que fez isso, vou fazer de tudo para me tornar o pior dele."

Sally riu. "Se precisar de ajuda, conte comigo.


A manhã de segunda chegou cedo demais para os rapazes do time Wing e eles fizeram seu caminho para a calistenia com emoções conflitantes. Embora estivessem decepcionados por Duo não estar com eles, estavam aliviados que o amigo não fora para L2.

Ben, Adam e Troy esperavam na beira do campo com os rostos consternados. "E aí, qual a novidade sobre o Duo?" Ben perguntou em nome dos três.

"O Capitão falou que um guarda bateu nele," Heero informou.

"Acontece muito por aqui," Ben comentou sem humor.

"Acham que podem ter sido os mesmos guardas que atacaram o Jason?" Quatre teorizou.

Ben deu de ombros. "Pode ser." Sorriu torto. "Mas o time Norton ainda é de quem mais desconfio. E pode apostar que eles não perdem por esperar, mas aquele soco que você deu no Norton já foi um belo começo, Winner."

"O prazer foi meu," Quatre respondeu, embora com um pouco de culpa.

"É, e vai ser ainda melhor quando ficarmos quites pelo que fizeram com o joelho do Jason."

"Conte com a gente para ajudar," Quatre falou com firmeza. "Depois de tudo o que fizeram por mim ontem, estou devendo vocês."

"Nós devemos vocês," Heero salientou. "Somos um time, Winner. O que fizemos ontem foi um ótimo exemplo."

Trowa bufou levemente irritado. "Eu não ajudei em nada," murmurou. "Estava no centro de visitas quando vocês precisaram de mim... quando Duo precisava de mim."

"Tudo bem," o líder concedeu. "Na verdade, já que Kushrenada foi com você para transferir a propriedade do cachorro, ele ficou distraído."

Trowa desviou o rosto, engolindo seco. "É, 'tá bom."

Os olhos verde azulados do loiro se semicerraram. Novamente, ele sentia uma angústia vinda de Trowa, e culpa. "Ei, Trowa, não se sinta culpado por ter que tomar conta de Nanashi ontem. Era importante."

"Mas não deveria ter sido mais importante do que o Duo."

"Ele vai entender," Quatre insistiu. "Ele também gosta do Nanashi."

Não tanto assim. Não o suficiente para justificar ele ser torturado pelo cachorro. "Merda, ele não merecia nada disso!" Exclamou frustrado.

"Não se preocupe," Heero falou seguro. "Vamos ser mais eficientes em vigiar a retaguarda um do outro de agora em diante."

Os companheiros do time Jason assentiram com a cabeça, concordando. "Vamos ajudar," Adam ofereceu. "Parece que os times que estão indo melhor na competição são os mais atacados, então é vantagem nos juntarmos por segurança."

"Me parece um bom plano," Heero concordou.


Após os exercícios matinais, Wufei chamou o time Wing para uma conversa particular e os informou que Duo passaria os próximos dois dias na enfermaria sem poder receber visitas. Após esse período, a doutora informaria sua decisão se e quando ele receberia alta.

"Mas ele vai ficar bem?" Quatre perguntou ansioso.

"Parece que sim."

O loiro sorriu aliviado. "Que bom."

"Sem visitas?" Heero perguntou para confirmar.

"Ele precisa descansar... dormir," o Capitão explicou.

O time agradeceu educadamente, mas no momento em que Chang estava longe o suficiente, Heero se virou para os outros dois. "Quando as luzes se apagarem hoje à noite, eu vou me esgueirar até a enfermaria," anunciou repentinamente.

"Não é melhor seguir a orientação da médica?" sugeriu Trowa.

"Eu sei, mas quero ver como ele está," o líder clarificou. "Confio no Chang, mas ainda quero confirmar pessoalmente o estado do Duo." Preciso ouvir da boca dele que ele vai voltar para o time... que ele quer voltar.

Quatre abriu um pequeno e contente sorriso. Você está tão apaixonado, Yuy... mesmo que não perceba.

"Para de me olhar assim, Winner," o líder pediu rispidamente. "É... bizarro."

O árabe riu. "Bizarro? Foi isso mesmo que você falou? Caramba, o Duo ia adorar ouvir isso."

O líder não conseguiu conter seu próprio sorriso sabendo que o rapaz de trança realmente o provocaria. Ele sentia falta da risada do amigo. Perguntou-se quando fora a última vez que ouvira aquela risada. O clima entre eles estivera tenso antes da prova de cruzarem o rio e, mesmo com saudades de Duo, não sabia se o sentimento era recíproco. Até onde sabia, o outro rapaz poderia não dar a mínima para ele.

"Pare com as dúvidas," Quatre murmurou ficando ao lado do líder enquanto caminhavam.

"O quanto você pode adivinhar do que está acontecendo na minha cabeça, Winner?" Heero perguntou desconfiado.

O loiro balançou a cabeça. "Apenas sentimentos, já te falei. Mas quando mencionei Duo, captei insegurança e dúvida. Não coloque obstáculos que te evitem seguir suas emoções, Heero."

"Hn."


Wufei finalmente encontrou Kushrenada na hora do almoço quando entrou de supetão no escritório do homem e o encontrou em sua mesa. "Trate de me explicar por que um dos seus guardas espancou e estuprou um dos recrutas?" exigiu bruscamente, ainda com tanta raiva quanto quando encontrou o rapaz enrolado em uma coberta na solitária.

Kushrenada ergueu uma sobrancelha. "Que recruta seria esse?"

"Você sabe muito bem que estamos falando do Maxwell."

"Ah... houve um incidente," o Diretor deu de ombros. "Acredito que quando o guarda noturno foi esvaziar a privada, o garoto o atacou, jogou o balde nele..."

"Não me importo se o Maxwell jogou merda na cabeça do guarda!" rosnou Wufei. "Isso não dá a ninguém o direito de espancar e estuprar o moleque!"

"É o que Maxwell está alegando?"

"É o que a doutora Po e eu estamos alegando de acordo com as evidências de uma criança traumatizada!" Os olhos negros faiscaram. "Quero o nome do guarda e todos os outros que estavam monitorando a cela enquanto Maxwell ficou lá."

"Não é da sua conta..."

"Eu vou ter os nomes ou estou indo agora falar com o comitê administrativo para abrir uma sindicância."

Kushrenada mostrou-se claramente descontente com a ideia. "Tudo bem, Chang, vou te passar os nomes!" Ele escreveu em um papel e o empurrou. "Acredite em um lixo das ruas de L2 ao invés de um profissional veterano trabalhando honestamente a mais de vinte anos."

"Eu acredito em uma médica certificada e nos meus próprios olhos," Chang rosnou em resposta. "Não estou nem aí com o quanto você odeia o Maxwell, mas aquilo..." sua voz engasgou e ele engoliu para se recompor. "Pode dar adeus ao seu veterano honesto. Ele vai pra cadeia assim que eu terminar a investigação." Inclinou-se na mesa. "E se eu descobrir que ele estava agindo sob ordens..."

O carcereiro levantou-se de uma vez. "Não ouse entrar sem ser convidado em meu escritório e acusar a mim, Chang! Te levo para o Tribunal Militar por isso!"

"E se eu for julgado culpado por falar a verdade, então essa faixa de Capitão não me serve de nada." Wufei não se intimidou. "Isso não acabou." Pegou a folha e saiu pisando firme com a intenção de encontrar o guarda antes que Kushrenada tivesse a chance de sequer pensar em avisá-lo.


Assim que as luzes se apagaram após o toque de recolher, Heero se preparou para sua escapada noturna.

"Tem certeza que quer fazer isso?" Quatre perguntou em voz baixa. "É um risco muito grande. Dobraram a segurança depois que Duo e eu saímos à noite da primeira vez."

Trowa vigiava a janela, esperando a mudança de turno na torre dos guardas. "Estão acabando a troca, Yuy. Assim que os guardas que estão assumindo o turno fizerem a ronda no perímetro, você terá quinze minutos."

Heero registrou a informação e abriu a janela; era mais discreto do que sair pela porta. Estava prestes a pedir para que Quatre lhe desejasse sorte quando se lembrou de dizer a mesma coisa para Duo antes de descerem a montanha. Também se lembrou do momento em que o rosto de Duo se avermelhou e não conseguia deixar de imaginar o que encontraria na enfermaria. O pensamento de que alguém machucara o seu belo e tempestuoso companheiro de time fazia seu sangue ferver. E se descobrisse quem fora, faria a pessoa pagar com juros.

"Volto em quinze minutos," sussurrou e pulou a janela.

Para o jovem taciturno, não foi complicado chegar à enfermaria sem ser notado e entrou por uma janela deixada aberta para ventilar. Andou silenciosamente seguindo o som do monitor cardíaco até o quarto onde Duo descansava.

Tinha a intenção de abrir o armário e ler o relatório médico, mas se distraiu com a visão do jovem de cabelos compridos dormindo na cama de hospital com tubos intravenosos espetados no braço e o monitor bipando ao lado.

Respirando fundo, Heero se aproximou da cama olhando para o rosto ferido e por pouco se segurou em acariciar a franja caindo pela testa.

Não sabia o que esperava, mas não estava preparado para a realidade de ver Duo em tal estado deplorável. Sua garganta comprimiu ante a emoção e piscou com força tentando conter lágrimas. Não dá pra acreditar... quem faria algo tão terrível com alguém como ele? Sem perceber, sua mão se moveu para tocar suavemente a trança caída ao lado da cama.

Então foi até o armário e habilmente o abriu, na esperança de que o relatório o acalmaria. Não foi o que aconteceu e, após ler, guardou o relatório, fechou o armário e voltou ao lado de Duo, dessa vez afastando os fios de sua testa pálida para pousar um beijo cálido e breve.


Duo acordou de repente, tentou se sentar e a dor o fez quase cair para trás. "Merda!"

"Shh," uma voz o acalmou próxima ao seu ouvido.

O rapaz de L2 virou a cabeça rapidamente, seus olhos arregalados encontraram os equivalentes azuis de Heero Yuy. Ele piscou atordoado, perguntando-se se estava dormindo.

"Só posso ficar por alguns minutos. Vão checar os alojamentos em dez."

"Heero?" a voz de Duo estava rouca, ele precisou deitar-se novamente e fechar os olhos para controlar a dor. "O que está fazendo aqui?"

"Wufei não conseguiu convencer a médica a te deixar receber visitas, esse foi o único jeito que encontrei de poder te ver."

"Mas por quê?" Duo persistiu.

Quando não ouviu resposta, o jovem de trança abriu os olhos e viu Heero o analisando com uma expressão estranha. Tentou se concentrar em ver que emoção era aquela estampada no rosto do outro. Se não o conhecesse pensaria que era... preocupação? Afeição? Desistiu, cansado.

"Vai logo, Yuy, desembucha. Por que veio?"

"Queria saber quando vai se recuperar para voltar ao time," Heero, por fim, falou. "Qual a sua situação?"

"Quer dizer, o quanto eu estou fodido?" Duo perguntou amargamente e virou o rosto. "Eu virei saco de pancada, só isso. Vou sair em dois dias se conseguir convencer a doutora que estou bem."

"Então faça," Heero comandou.

Duo suspirou e lançou um olhar nada amigável para o líder. "Para o bem do time, né, Yuy?"

"Como assim?"

"É só por isso que quer que eu me recupere? Para te ajudar a ganhar a sua preciosa competição?"

Heero hesitou, emoções confusas passando tão rápido pela sua face que Duo não conseguia identificá-las. "Por que não? Não quer provar para o Kushrenada que somos melhores do que ele pensa?"

Duo encarou o teto. "Yuy... o único pra quem quero provar alguma coisa..." ele parou, interrompendo o que ia dizer. "Ah, deixa pra lá. Fala pro Quat e pro Tro que vou sair daqui em dois dias de qualquer jeito."

"Ótimo." Heero colocou a mão no ombro de Duo e o rapaz de trança tentou não interpretar o gesto como nada demais. "Te vejo em dois dias."

Heero passou pela porta e saiu do prédio tão silenciosamente quanto entrara.

Duo murmurou um xingamento, percebendo que se esquecera de agradecer Heero por tê-lo inocentado. Mas esse pensamento foi substituído pela sensação da mão em seu ombro. O gesto fora reconfortante o suficiente para fazê-lo voltar a dormir.


Heero retornou ao alojamento e encontrou os outros dois companheiros o esperando.

"Como ele está?" O loiro perguntou.

"Ele disse que vai sair em dois dias. Ele está... bem."

"O que isso significa?" Quatre pressionou. "O que fizeram com ele?"

"Ele disse que apanhou." Heero deu de ombros, sem olhar para Quatre. Foi até sua cama, afundando pesadamente no colchão. "Vão dormir... todos nós precisamos de uma boa noite de sono."

Trowa esperou Quatre ir ao banheiro e sentou-se na cama do líder. "O que dizia na ficha médica?" Seu tom era casual, mas a intenção era clara.

Heero esfregou o rosto, apertando a têmpora como se a cabeça doesse. "O que te faz pensar que olhei?"

Trowa não se deixou enganar. "Te conheço. Você olhou." Heero estremeceu. "Fala de uma vez."

"O que acha que dizia?" Heero se irritou. "Um guarda desgraçado sozinho com o Duo... puto o suficiente para encher ele de porrada. Acha que o cara parou por aí?"

"Merda." O moreno alto apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu o rosto nas mãos.

"É." Heero se levantou, tirando a camisa para dormir. "Eu estava falando sério, Trowa. Precisamos descansar. Temos que estar preparados para ajudar Duo a aguentar o resto da competição... sem que ele perceba que estamos ajudando. Sabe como ele é orgulhoso."

Trowa concordou e analisou Heero longamente. Um leve sorriso despontando nos lábios.

"Que é?"

"Nada."

Heero desconfiou. "Que foi?"

Trowa manteve seu ar misterioso. Mesmo sem habilidades empáticas, podia perceber o apego de Heero pelo outro rapaz. "Boa noite, Yuy." Foi até a porta do banheiro assim que Quatre saia.

O loiro olhou confuso de um para outro antes de se jogar em sua cama e se enrolar na coberta.


Às cinco da manhã, os três integrantes do time Wing rolaram da cama e foram cumprir os exercícios matinais. Depois, pegaram seus pertences e foram para o chuveiro como de costume.

Tão logo entraram no vestiário, Austin e seus três companheiros apareceram.

"Ei, Yuy... é impressão minha ou está faltando um?" o líder dos encrenqueiros zombou.

Heero apenas lançou um olhar ameaçador, mas continuou organizando seu armário.

"Oh, espera... quis dizer, está faltando uma," Austin acrescentou. "Ouvi que a boneca acabou indo para a solitária."

"Sua informação está desatualizada. Ele saiu da solitária e está na enfermaria."

"Então conseguiu se safar mesmo depois de sabotar o próprio time."

Quatre estava farto. "Vai se foder, Pritchard. Aposto como você teve alguma coisa a ver com isso."

Austin fingiu-se surpreso. "Eu? Bem que eu queria. Admita, não dá para confiar no Maxwell. Ele é a escória de L2 e sempre vai ser."

O loiro se lançou no provocador, mas Trowa agarrou o amigo pela cintura e o pressionou contra os armários. "Para, Quatre! É o que ele quer. Se começar uma briga, vai acabar se encrencando!"

"Ele não pode falar assim do Duo!" O árabe insistiu, os pulsos trêmulos. "Você sabe que eles que devem ter cortado a corda para sacanear com o Duo!"

"Pode ter sido qualquer um," Trowa comentou tenso.

"Pode," Austin escarneceu. "Ou foi culpa de ter crescido em L2. De qualquer jeito, ele teve o que mereceu," abriu um sorriso convencido.

Trowa soltou Quatre para poder controlar Heero que segurava um Pritchard assustado pela camisa. Os companheiros dele se preparavam para uma briga e outros recrutas se aproximavam. "Solta, Heero!" Trowa pediu, segurando as mãos do líder e o puxando com força.

"Eu vou matar esse desgraçado!" ameaçou.

Austin tentou se recompor, ainda abalado. "Nossa! Esse cara é um maluco! Sai de perto de mim!" Pela primeira vez, o encrenqueiro parecia mesmo aterrorizado, talvez por ver a sinceridade na promessa de vingança em Heero. "Mas que merda, eu só estava brincando."

Trowa ficou bem perto do Austin, deixando Quatre conter o líder e puxá-lo para trás. "Um dos guardas estupraram Maxwell, Pritchard!" sussurrou tão ameaçadoramente quanto Heero. "Se achar graça nisso, eu mesmo vou te matar, seu babaca." Afastou-se e levou tanto Quatre quanto o líder para trás de uma fileira de armários.

Austin e seus companheiros sumiram rapidamente, olhando por cima do ombro, deixando o banho para depois.

Heero tremia, as mãos fechadas em punhos. "Me solta, Quatre! Deixa eu acabar com a raça daquele maldito!"

"Não!" Trowa negou, prestes a estapear o líder até que ele voltasse à razão. "Isso não vai ajudar em nada. E não vai fazer a gente ganhar a competição."

"Mas ele..." Heero ofegou, deixando-se suas costas baterem contra o armário e fechou os olhos. "Porra!"

Quatre entendia os sentimentos do amigo perfeitamente, mas... "Trowa está certo. Socar a cara do Austin não vai resolver nada e ainda vai te garantir uma passagem só de ida para a cadeia e o resto de nós vai ficar aqui sem um líder. Duo vai ficar aqui sem você."

Ao ouvir o nome de Duo, Heero pareceu voltar a si e conformou-se. "Vocês... estão certos." Seus ombros caíram, desanimado. "Podem me soltar."

Trowa buscou confirmação com Quatre, que sorriu, sabendo que o líder estava de volta no controle de suas próprias ações. "Não se preocupe, Yuy. Vamos fazê-los pagar."

"Eu prefiro descontar no guarda!" Heero rosnou, percebendo que sua raiva precisava de um foco.

Trowa não queria que o inocente rapaz de L4 soubesse o que realmente acontecera ao companheiro na solitária. O fato de que Duo não contou para Heero e o próprio Heero não contaria se não tivesse sido pressionado convenceu Trowa de que era melhor não espalhar. E por essa razão, agora se arrependia de ter revelado algo tão delicado para Austin, mas queria que o valentão soubesse como ele estava sério em sua ameaça. Ele podia até ser uma desculpa patética de amigo e companheiro, mas estava determinado a se redimir e começaria não deixando ninguém nunca mais machucar Duo. De modo algum eles ficariam quites, mas era um passo na direção certa.

O time Pritchard categoricamente evitou o time Wing pelo resto do dia, sentando-se do outro lado do refeitório nas refeições e o mais longe possível nas arquibancadas durante as atividades ao ar livre.


No jantar, Heero deixou os outros dois no alojamento e foi fazer uma caminhada até o escritório do Capitão. Quando recebeu permissão após bater na porta, entrou, fechando-a atrás de si e ficou na frente da mesa onde o chinês estava sentado.

"O que tem em mente, Yuy?" Wufei perguntou fatigado.

"Quero saber quem estuprou Duo," Heero falou sem rodeios.

Chang ergueu a cabeça surpreso. "Como você..." Sua testa se franziu em uma careta. "Você entrou na enfermaria escondido, não foi?"

Heero apenas afirmou com um breve meneio de cabeça.

"Seria difícil imaginar o próprio Maxwell te contando, considerando como ele está relutante em discutir o fato com a doutora." Seus olhos negros se semicerraram. "Você desobedeceu ao toque de recolher, invadiu a enfermaria e fuçou em arquivos médicos confidenciais."

"Pode me mandar para o quinto dos infernos... depois de me dizer quem é o responsável."

"Já cuidei disso, Yuy."

"Como?"

"O culpado está em custódia. Teremos uma confissão logo. Tem muita evidência contra ele."

Heero bufou insatisfeito. "Mas que merda, Wufei..."

"Eu sei," o militar falou com o tom mais brando. "Eu sei..."

"Como Duo está realmente?"

"Você leu a ficha. Você o viu..."

"Eu sei. Mas você sabe o que quero dizer. Ele fala que está bem, mas..."

"E ele vai ficar," o Capitão afirmou. "Como falei antes, ele é de rua, é durão, resistente."

"Quanta bobagem," murmurou o líder do time Wing. "Você não conhece ele como eu, Chang. Ele tem o coração mole debaixo de toda aquela atitude. Ele pode se machucar feio."

"E foi o que aconteceu," Wufei confirmou. "Não vou negar. Mas confio na força dele, ele vai superar." Ele parou por um segundo, e voltou sua preocupação para o amigo de longa data. "E você?"

"Eu?"

"Toda essa situação deve trazer lembranças ruins para você, Yuy."

"Isso não é sobre mim," Heero respondeu rapidamente, apreensivo.

"Não, mas já que Duo é alguém próximo... um amigo... vai acabar te afetando."

"Já afetou."

Wufei olhou para o amigo com apreço. "Pode ser bom você ser o líder do time do Duo. Você está em uma posição única para entender como ele se sente. Acho que pode ajudá-lo muito, se conseguiu superar seus próprios traumas."

"Superei no dia em que coloquei Odin no hospital," constatou séria e friamente. "E quanto ao nome daquele guarda?"

"Não tem chance nesse mundo de você ficar sabendo." Wufei falou com um sorriso sem humor. "Ele é todo meu, Yuy."

Continua...