Capítulo Trinta e Seis

The Patients

(Os Pacientes)

A próxima sala — que também estivera vazia quando Remus estivera ali — tinha um tabuleiro de xadrez enorme. As peças estavam espalhadas por todos os lados — algumas deitadas de lado, quebradas —, outras em pé e um pouco danificadas, e outras completamente intactas. Remus ouviu um ruído abafado e viu uma figura cair no chão de mármore duro. Começou a se aproximar, antes de mudar de direção quando sentiu um cheiro conhecido. Harry, por algum milagre, ainda estava em pé, apesar de estar de costas para eles. Harry deu um passo para frente e parou.

Um momento depois, ele deu um solavanco, como se tivesse sido atingido por algo invisível.

— Harry! — chamou Remus e conseguiu alcançá-lo antes que ele batesse a cabeça no chão. Harry parecia muito fraco e surrado, mas ele estava vivo. — Ele está vivo — contou a Dumbledore, que tinha ido se ajoelhar ao seu lado, parecendo temeroso. — Oh, graças a Merlin, ele está vivo.

Ouviu outro ruído abafado vir da outra pessoa, e Remus a olhou pela primeira vez. Christopher Morton se debateu no chão, uma mão apertando a cabeça, a outra apertando o bolso. O cheiro de Dumbledore foi de cordial e preocupado para preocupado. Hostil, até.

— Severus estava certo — disse Dumbledore. Ele olhou para Harry, que Remus tentava acordar com todos os feitiços que conhecia, e levantou-se. Morton tossiu sangue, antes de conseguiu beber algo. Ele ficou imóvel na mesma hora. Dumbledore acenou a varinha para convocar o frasco que tinha caído da mão frouxa de Morton e o levou ao nariz. Olhou para Fawkes. — Lágrimas de fênix — murmurou.

Rennervate — disse Remus. — Anda, Harry. Por favor. Rennervate. — E Harry acordou. Dumbledore estava inclinado sobre Morton, mas Remus não se importava com isso, porque Harry estava acordado... um pouco.

— Moony — disse Harry, a língua se enrolando ao redor da palavra.

— Harry — disse Remus. — Estamos aqui agora...

— Morto — disse Harry, voltando a fechar os olhos. Apesar de sua expressão não ter mudado muito (Remus achou que ele estava cansado demais), seu cheiro estava impetuoso e por todos os lados. — Padfoot... o Véu. Ele morreu. — O rosto de Harry se enrugou.

— Não — disse Remus, tentando ajudar Harry a se sentar. Roçou a mão nas costelas de Harry, e o garoto rosnou para ele (provavelmente sem querer, e então sua cabeça ficou frouxa). — Não, ele foi encontrado. Ele está vivo. — Harry não respondeu (ele estava inconsciente novamente), mas Remus torceu para que ele houvesse escutado. — Senhor, eu vou levá-lo... Ele precisa da Madame Pomfrey.

— Leve-o — disse Dumbledore. — Eu me juntarei a vocês logo.

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— Está tudo bem? — perguntou Remus a Dora quando ela voltou a entrar na Ala Hospitalar, guardando o Auxiliar. Ela lançou um olhar triste para as cortinas, que escondiam Harry e Madame Pomfrey, e sentou-se ao lado de Remus.

— Sirius acordou e alguém contou a ele o que estava acontecendo aqui — respondeu.

— Ah, não...

— O idiota tentou fugir de St. Mungo's — suspirou Dora. — E aí desmaiou no corredor. Eles gostariam que alguém que ele conhecesse fosse até lá e conversasse com ele quando ele acordar; garantir que ele não tente nada.

— Eu vou — disse Remus. Harry ainda demoraria a acordar (Madame Pomfrey garantira isso) e, apesar de saber que Sirius estava vivo, Remus queria vê-lo, queria conversar com ele e tentar esquecer esses dias atemorizantes, nos quais pensara que nunca mais veria seu melhor amigo.

— Eu vou ficar aqui se não tiver problema — disse Dora. — Pode falar comigo pelo Auxiliar se pedir aos Aurores...

— Vai ficar de olho nas coisas? — perguntou. Draco estava dormindo, e Snape estava sentado na cadeira ao lado da cama, observando-o. Hermione também dormia (seus cortes e hematomas tinham sido curados, e ela recebera uma dose de poção para dormir, na esperança de que ela se acalmasse). Na cama ao lado da dela, Ron estava encolhido e respirando profundamente, com uma mão coberta de curativos aninhada no travesseiro, ao lado de sua cabeça. Além dos sons de Madame Pomfrey trabalhando atrás das cortinas e dos roncos de Ron, a Ala Hospitalar estava silenciosa. Não havia muito que olhar.

— Não — falou Dora. — Acho que está tudo sob controle aqui, e Olho-Tonto está cuidando da maior parte da papelada... Eu só tenho que assinar e adicionar meu relato amanhã. Não, estava pensando em roubar a cama no seu quarto e tentar dormir por algumas horas. — Remus não tinha percebido como a ideia de dormir era agradável até ela tê-la mencionado. — Se não tiver problema?

— É claro — respondeu, beijando sua testa.

— Ainda bem; eu teria a usado de qualquer jeito, mas é mais legal com sua permissão — falou Dora com um sorriso atrevido. Remus sorriu de volta e ergueu seu queixo para que pudesse beijá-la direito. O cabelo de Dora estava num tom claro de rosa quando ele se afastou. — Voltará hoje?

— Dormir parece ótimo — falou. — Eu me atrevo a dizer que vou me deitar ao seu lado em uma ou duas horas.

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Albus conjurou uma cadeira para si e sentou-se a alguns metros de onde Christopher começava a acordar. Já havia selado as portas que levavam para fora da sala de xadrez e pegara o que sobrara da varinha de Christopher, mas ainda parecia prudente tomar precauções.

— Dumbledore — disse Christopher.

— Christopher — respondeu Albus, acariciando Fawkes, que estava acomodado no encosto da cadeira. — Como se sente? — perguntou num tom brando.

— Melhor agora — respondeu no mesmo tom. Sentou-se lentamente, até estar com as pernas cruzadas, de frente para Albus. — Pode não acreditar, mas eu sinto muito pelo que fiz com seu pássaro... Mas não posso dizer que me arrependo. As lágrimas dele já me salvaram duas vezes.

— De fato — falou, observando Christopher com cautela. Fawkes mexeu-se, inquieto, atrás dele, e Albus ergueu a mão para acalmá-lo.

— Está aqui para me matar? — perguntou ele. Albus notou quando ele apalpou o bolso, antes de seu rosto se contorcer no que podia ter sido medo ou irritação. — Você deve estar bastante insatisfeito comigo.

— Assassinato não é como se resolve os problemas do mundo — respondeu. — Eu o tenho aqui, desarmado e impossibilitado de escapar. Eu gostaria de algumas respostas, se você não se importar.

— E se me importar? Não pode me obrigar a falar com você, porque é ilegal usar Veritaserum em menores de idade, e o mesmo vale para Legilimência. — Christopher sorriu arrogantemente. — Mesmo se usasse, eu conseguiria te impedir de entrar.

— Oh, disso eu não duvido — falou Albus. — Se não conseguisse, teria sido descoberto como uma ameaça há muito tempo.

— Eu não quis ser uma ameaça — murmurou Christopher. — As coisas... saíram um pouco do controle.

— É o que geralmente acontece quando Lorde Voldemort está envolvido — disse Albus em voz baixa. Christopher não se encolheu ao ouvir o nome, apenas suspirou. — Você estava o ajudando, não estava, Christopher? — Ele não respondeu. — E atrevo-me a dizer que de livre vontade.

— Ele me possuiu — falou Christopher.

— Se você consegue se defender de Legilimência ou lutar contra a Veritaserum, acredito que você teria conseguido conter Voldemort tempo o bastante para contar a alguém que ele estava aí. — A expressão de Christopher virou uma amargurada. — Pode não ter gostado...

— Gostado? — perguntou. — Ele estava na minha cabeça. Ele podia ouvir tudo no que eu pensava. Ele podia tomar o controle do meu corpo quando bem entendesse...

— Você pode não ter gostado, mas permitiu — falou. — Não foi? — Christopher olhou para o chão de mármore. — Então, por quê? O que ele ofereceu? Poder? Trazer seu pai de volta?

— Potter também achou que tinha algo a ver com meu pai — contou.

— E teve?

— Engraçado — falou — como, ao tentarem adivinhar minha fraqueza, as pessoas parecem revelar as delas. Potter disse ver o padrinho morto no espelho. Quem você vê, Dumbledore? Alguém que você perdeu, certamente. — Dessa vez, não foi pelo bem de Fawkes que Albus o acariciou. Pensou rapidamente, procurando em sua mente por algo que pudesse abalar o garoto a sua frente.

— Sirius está vivo — falou suavemente.

— Eu admiro a fé que tem no homem, ele é bastante obstinado, mas, dessa vez, Dumbledore, não há como voltar...

— Ele está em St. Mungo's — contou. — Exausto, mas bastante vivo, garanto. — A expressão de Christopher vacilou.

— Como? — Não havia medo na voz de Christopher, apenas curiosidade. — Não devia ser possível...

— Dizem ser impossível fugir de Azkaban — retorquiu Albus —, mas Sirius conseguiu. — Ficaram em silêncio por vários segundos, antes de Christopher suspirar.

— O que você quer, Dumbledore?

— A pergunta, Christopher, é o que você quer? Irá procurar por seu mestre assim que estiver livre...

— Meu "mestre" me deixou para morrer agora mesmo. Só não morri porque achei que ele poderia fazer isso e vim preparado. — Albus o observou atentamente. — Não, ele acha que estou morto, e considerando que eu falhei hoje, ele não ficará feliz se descobrir que ainda estou vivo.

— Entendo — respondeu Albus.

— Não é agora que você me oferece uma segunda chance? — perguntou Christopher, olhando feio para Albus.

— Não tenho certeza — respondeu. — É?

— Sim — disse, raivoso. — Não vou voltar para Voldemort, acabei de explicar isso. Então, desde que eu não machuque mais ninguém, nunca mais, você me deixará seguir com a minha vida, certo?

— Christopher — disse Albus tristemente —, você abrigou o maior inimigo do mundo bruxo na minha escola por um ano e, ao fazê-lo, arriscou centenas de vidas. Você atacou Fawkes, Severus, Harry e até a mim aquela noite na floresta, e tentou roubar a propriedade de um dos meus amigos mais querido...

— Cometi alguns erros.

— Um erro é comer um feijãozinho sabor urina em vez de um de limão — falou suavemente.

— Severus cometeu os mesmos erros! — disse Christopher. — Ele se juntou a Voldemort, ele tem a Marca! Ele matou e torturou pessoas...

— E se arrependeu antes de ser pego — falou. — Foi ele quem me procurou. — Estudou Christopher por trás dos óculos. — Uma segunda chance é um privilégio, não um direito.

— Você acha que eu não mereço — falou lentamente. — Albus Dumbledore, o bruxo mais gentil a viver — e havia um tom de zombaria nas últimas palavras —, não acha que vale a pena me salvar. O fato de eu estar falando com você não conta como algum tipo de demonstração de boa vontade? Eu não o ataquei...

— Mesmo se houvesse atacado, realmente acha que teria ganhado? — perguntou. — Você está sem varinha, mas eu estou com a minha. Mas mesmo sem ela, não sou um bruxo comum. — A expressão de Christopher era amargurada. — E sim, você falou comigo, mas não verdadeiramente.

— Eu falei...

— Você não me disse seu verdadeiro nome — falou, e a boca de Christopher se torceu. — Mas você se gabou de suas habilidades em Oclumência. E não importa quão desesperado Lorde Voldemort estivesse, ele não passaria um ano inteiro na cabeça de uma criança de onze anos. Possui-la brevemente, é claro, ou manipulá-la a fazer sua vontade, mas dividir uma mente e um corpo... Não. Nem você teria considerado a possibilidade de ser traído. — Albus balançou a cabeça. — Eu não sei onde o verdadeiro Christopher está, mas eu sei que você não é ele.

— Esperto — zombou, mas não disse mais nada sobre o assunto. — Então, quem sou eu, Dumbledore?

— Alguém que tomou várias decisões ruins no último ano — respondeu.

— Isso não é um nome — falou.

— Não, mas eu acredito que as ações de uma pessoa dizem mais do que uma combinação de letras — falou. — Não me importo de continuar a chamá-lo de Christopher, se é o que o preocupa.

— Não vai me dar uma segunda chance, vai? — perguntou ele, desviando os olhos pela primeira vez.

— Você afetou muitas vidas esse ano para que eu decida isso sozinho — falou. — Voltaremos a nos falar quando você acordar.

— Quando eu acordar...?

Dormio — falou Albus, usando tanta força na palavra quanto possível. Os olhos de Christopher se reviraram e ele caiu de lado no chão.

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Draco correu os olhos pela página do livro que Severus lhe emprestara sem realmente ler o que estava escrito. Severus tinha descido pelo alçapão e ele estivera na Ala Hospitalar quando Draco acordara, mas ele fora embora pouco depois, e Draco não tivera a chance de conversar com ele.

— Você é o Draco Malfoy, não é? — Draco ergueu os olhos para ver uma garota o observando. Ela tinha o cabelo vermelho, sardas, olhos castanhos e usava uma saia bastante colorida e um suéter com um "G" enorme nele. Sua aparência, junto com o fato de que Weasley estava sendo cuidado por sua mãe gordinha, significava que ela só poderia ser uma pessoa.

— Você deve ser a Garota-Weasley — falou. Ela cerrou os olhos.

— Garota-Weasley? — perguntou ela, erguendo o nariz.

— Claro — falou, deixando o livro de lado. — Tem o Weasley — indicou Weasley —, os Weasley Um e Dois... — Indicou as camas mais afastadas, nas quais os gêmeos conversavam com Madame Pomfrey; eles tinham sido encontrados pela Monitora-Chefe fora do Salão Comunal de Grifinória, afundados até a coxa no chão. Eles diziam que não conseguiam sentir as pernas, mas Draco achava que era uma trama para ver como Weasley estava. — E o Monitor Weasley. — Ele estava na cama mais próxima a Weasley, e tinha (se Draco entreouvira corretamente) sido tratado por uma concussão leve.

— Meu nome de verdade é Ginny — ofereceu a Garota-Weasley.

— Eu sei — respondeu, dando de ombros. Ela apertou os olhos para ele, antes de também encolher os ombros e olhar para a cama escondida por uma cortina, a mais próxima ao escritório de Madame Pomfrey.

— É onde o Harry está, né? — perguntou ela.

— Sim — respondeu, abaixando o livro. Potter ainda não tinha acordado (sendo justo, Granger também não acordara, mas ela tinha tomado uma poção do sono fortíssima) e, por mais que Madame Pomfrey houvesse dito que ele ficaria bem, o fato de terem o escondido atrás de uma cortina preocupava Draco.

— E aquela deve ser a Hermione? — perguntou a Garota-Weasley, olhando para Granger.

— É a Granger, sim — respondeu. — Não devia estar com o resto da sua família?

— Achei que você parecia solitário — falou, parecendo ofendida. — Todos os outros estão dormindo, menos Ron, a mãe, Percy e os gêmeos, então pensei em vir te dar um oi.

— Você não me deu um oi — comentou Draco.

— Oi — disse a Garota-Weasley num tom inexpressivo, e Draco não conseguiu evitar o sorriso. Ela o tomou como um convite para puxar uma cadeira e sentar-se perto da cama. — Como machucou a cabeça? — perguntou.

— Eu... eu não sei se posso falar sobre isso — falou, pressionando uma mão no curativo. — Acho que deve ter um segredo.

— Não tem problema — falou ela. — Eu vou fazer Ron me contar depois. — Draco sentiu uma súbita pontada de inveja pela aparente proximidade entre Weasley e a Garota-Weasley. Se tivesse sido Hydrus a descer pelo alçapão, ao invés de Draco, ele não teria lhe contado nada, e Draco tinha certeza de que não contaria muito do que acontecera ao seu irmão. — Como é a Grifinória? — continuou ela, distraída. Draco a olhou por um momento, tentando se focar no que ela dizia. — Você não gosta? — perguntou, entendendo errado seu silêncio.

— Não, gosto, eu... É... O Salão Comunal é meu lugar favorito. Todos meus amigos estão lá, e meu irmão e seus amigos não podem me incomodar, e é quente... mas muito vermelho. Eu achei medonho quando vi pela primeira vez, mas você acaba gostando...

— Espero ir para Grifinória — disse a Garota-Weasley.

— Nunca teria adivinhado — respondeu. Ela revirou os olhos e ele sorriu. Então, a Garota-Weasley olhou para algo atrás de Draco.

— Foi bom te conhecer — disse ela, parecendo apologética, e praticamente correu para o lado de sua mãe.

Draco se virou, já suspeitando o que — ou melhor, quem — veria. Severus estava lá, guiando o pai e a mãe por entre as outras camas. Draco tentou não olhar para sua perna falsa.

— Draco — disse a mãe, e Draco achou que ela estivera chorando.

Opa, pensou.

— Como se sente?

— Claramente não muito mal, se está fazendo amigos — disse o pai friamente. Ele observava a Garota-Weasley, que claramente não os observava. — Ou talvez ele tenha batido a cabeça com tanta força, que agora acha que um Weasley é uma companhia aceitável.

— Lucius — disse a mãe em voz baixa, colocando uma mão no braço do pai. Ele a olhou, antes de suspirar e olhar para Draco. Sua expressão se suavizou um pouco, e Draco viu mais emoções do que achava que era para ter visto.

— Eu... Eu fico feliz que você esteja bem — disse o pai, e Draco esperou pela pequena voz que lhe dizia mentira, mas ela não veio. Draco se sentiu culpado por pensar isso do pai. Olhou-o novamente, esperando que ele visse isso em seu rosto (já que o pai não tolerava abraços), mas o pai observava a Garota-Weasley com uma expressão nada impressionada. Severus franzia o cenho para o pai.

— Mas você terá que ouvir — avisou a mãe, chamando a atenção de Draco para ela. — Seu comportamento ontem à noite foi tolo de modos que você nem pode começar a entender. — Draco abriu a boca para protestar, mas Severus balançou a cabeça levemente, e Draco voltou a fechá-la. — Você ainda não sabe muito — ela tinha uma expressão estranha no rosto ao dizer isso, e Draco perguntou-se do que se tratava —, mas a ignorância está ficando perigosa... para você, mas também nós, como uma família, e quando o semestre terminar, vou me sentar com você e seu irmão e explicar algumas coisas.

— Sim, mãe — disse Draco em voz baixa. A expressão da mãe foi de fria para gentil em menos de um segundo e, por um momento, Draco achou que ela o abraçaria. Mas ela não o fez; em vez disso, ela se aproximou de Madame Pomfrey, querendo algum tipo de opinião profissional sobre a saúde de Draco. O pai ainda observava os Weasley, e Draco fez o mesmo; a Mãe-Weasley estava sentada na cama de Weasley, cuidando de sua mão machucada e enchendo-o de abraços, tapinhas e beijos, enquanto a Garota-Weasley falava animadamente.

Draco queria ser abraçado e cuidado — na noite anterior, achara que ia morrer, e que seus amigos iam morrer e, então, fora atacado por uma peça de xadrez enorme e ficara inconsciente e sangrando —, mas não achava que isso fosse acontecer.

Como se lesse sua mente, Severus ergueu uma mão e a pousou em seu ombro, e Draco — apesar de estar bravo com Severus por o ignorar há semanas — inclinou-se na direção do contato, sentindo-se um pouco melhor.

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— Só estou feliz que você esteja bem — disse Hermione. Harry sorriu para ela e ajeitou-se na cama, tentando não bater as costelas. Recebera uma dose de Esquelesce e, por mais que fosse grato por só precisar lidar com o gosto residual, a poção deixara suas costelas doloridas. Desejava que ela houvesse usado um feitiço para curá-las, mas ela provavelmente usara a poção como uma punição por fazer coisas perigosas, assim como uma cura.

Mas Harry não conseguia se obrigar a se importar; tinha visto Moony e Dora brevemente ao acordar à tarde, e eles lhes contaram que Padfoot estava vivo. Ele ficaria em St. Mungo's por um tempo — pelo menos um mês, os Curandeiros diziam, ainda que só para ter certeza de que ele não ia trabalhar até que estivesse pronto —, mas ele já estava acordado e reclamando de estar preso a uma cama, e que ele estava desesperado para ver Harry. Moony tinha prometido levá-lo assim que Madame Pomfrey lhe desse alta, e tinha prometido buscar o espelho de Harry em seu escritório (onde Harry o deixara na noite em que desceram pelo alçapão) nesse meio tempo. Harry não parara de sorrir desde então.

— Mas você tinha tanta certeza de que era King — comentou Ron, servindo-se de um sapinho de chocolate da enorme pilha que tinha se acumulado no criado-mudo de Harry.

— Bem, sim — falou Draco, mastigando a ponta de uma varinha de alcaçuz. — Nós convivemos com Morton por um ano, e Potter disse que ele estava fazendo algo para que ninguém soubesse...

— Oclumência, caro menino — disse Dumbledore, afastando a cortina.

— Professor Dumbledore! — exclamou Hermione.

—Como estão se sentindo?

— Melhor — respondeu Ron, antes de se apressar a adicionar: —, senhor. — Draco assentiu.

— Bem melhor — falou Hermione.

— Fico feliz em ouvir. — Dumbledore sorriu gentilmente para eles, mas Harry achou que seu cheiro era cansado. — Por mais que eu saiba que Harry provavelmente gostaria mais da companhia de vocês do que da minha, importam-se se eu pegá-lo emprestado por um momento? — Os amigos de Harry saíram, e Dumbledore fechou a cortina atrás deles, antes de acenar a varinha. O som de seus passos e de Madame Pomfrey curando a tosse de uma garota sumiram. — Primeiro, Harry, devo elogiá-lo por seus esforços ontem à noite. — De repente, Harry se lembrou do motivo de sequer ter descido.

— Senhor, a Pedra! Eu a escondi...

— Eu sei — falou ele, calmo. — Demorei duas horas, mas acabei recuperando-a; já conversei com Nicholas e concordamos em destrui-la. — Harry ergueu as sobrancelhas ao ouvir isso, mas a destruição da Pedra não era a primeira pergunta em sua mente.

— Duas horas para encontrar?

— Às vezes, os esconderijos mais simples são os melhores — falou Dumbledore ironicamente. — Passei a maior parte do tempo vagando pelo pântano, achando que talvez você tivesse a jogado lá ou a enterrado.

— Desculpe...

— Não é preciso se desculpar, Harry. Nem um pouco. Christopher nos enganou e se você não estivesse lá, ele certamente teria conseguido o que queria.

— Christopher? — perguntou Harry. — Você não sabe?

— Ah — disse Dumbledore. — Assumo que em algum momento, ao confrontá-lo, ele se apresentou a você?

— É Quirrell — falou. Dumbledore não parecia completamente surpreso, mas também não parecia que ele esperara ouvir esse nome.

— Uma pena — suspirou.

— Ele está...

— Não, Harry, ele está vivo — falou. — E seguro sob meu cuidado no momento. — Algo em sua expressão deve ter mostrado sua preocupação com a vigilância dos cuidados de Dumbledore (afinal, ele estava com Harry, e Quirrell não estava ali), porque ele sorriu e tirou uma cartinha do sapinho de chocolate do bolso. O nome de Morton estava nela, e o próprio garoto estava adormecido dentro da moldura. Harry riu, deleitado, mas franziu o cenho.

— Posso entender como ele passou pelos obstáculos de Flitwick e McGonagall — falou —, mas não sei como ele sabia o que fazer para passar pelo de Moony. Digo, não era para ser... Era para ser segredo.

— Eu não te conto isso levemente, Harry, e ficarei desapontado se souber essa informação foi passada adiante... mas eu sei que você, acima de todos os outros, será tolerante... Remus não foi o último aluno para quem tivemos que preparar acomodações especiais. Quando Quirrell era um professor, ele sabia do propósito do Salgueiro, e certamente deduziu sua origem.

— Há outros lobisomens na escola agora? — perguntou. — Quem? — Dumbledore apenas balançou a cabeça, sorrindo. Harry não ficou surpreso. — Senhor, mais uma coisa... Quando Quirrell ou Voldemort, ou seja lá quem me tocou, ele... eu o queimei.

— Sua mãe morreu para te salvar, Harry, e Voldemort nunca entendeu o amor, principalmente não nessa magnitude. O amor que ela sentia por você ainda sobrevive, te protegendo... Foi como eu ergui as proteções na casa dos seus tios, há tantos anos... E esse amor está dentro de você. Quirinus estava corrompido, dividindo a mente, o corpo e a alma com Voldemort e quando ele tentou tocar em você, alguém tão inerentemente bom, alguém marcado por algo tão bom, ele não conseguiu.

— Mas ele vai voltar, não vai? — perguntou Harry. — Ele não conseguiu pegar a Pedra, mas ele vai achar outro jeito, ou vai tentar. Não vai?

— A noite de ontem foi um atraso e tanto para ele, então devemos encarar esses eventos como uma vitória... Infelizmente, você nos ganhou mais tempo, não a guerra. — Dumbledore suspirou. — Sim, Harry, ele vai tentar de novo.

E de novo e de novo, até que a profecia seja cumprida, de um jeito ou do outro, pensou Harry, suspirando.

— Agora — disse Dumbledore depois de alguns momentos de silêncio —, não seria uma verdadeira visita ao hospital sem uma dessas, seria? — Ele tirou um deque de cartas de Snap Explosivo do bolso com um sorriso. Harry sorriu de volta, pegando a caixa mais próxima de Feijãozinhos de Todos os Sabores. — Tem tempo para algumas partidas?

Continua.

N/T: Obrigada pelos comentários!

Semana que vem é o último capítulo! Como passou rápido, socorro. Então, a partir de agora, quem quiser o PDF dessa fic também, me manda um e-mail: serena(ponto)bluemoon(arroba)gmail(ponto)com. Eu encaminho o PDF no dia que começar a postar a continuação! :)

Até semana que vem!