Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling.
Chapter Thirty Seven – One Step Forward
*Um passo adiante
Harry observou o amigo de cabelos loiros andar de um lado para o outro em seu quarto. Draco era quem mais falava, enquanto Harry ficava calado, sentado na cama observando o amigo desabafar.
"Eu simplesmente não posso acreditar que ela faria algo assim!" bradava.
"Ela não explicou o motivo?" perguntou Harry.
"Não, ela só me disse que é algo que queria fazer há algum tempo, mas não podia fazer antes." Draco vociferou com raiva. "Mas eu sei que ela está mentindo! Ela nunca quis se juntar à Ordem. Isso é tudo coisa de Marco! Foi ele que fez lavagem cerebral nela para fazer isso!" bradou Draco, seus olhos cinzentos brilhando de raiva
Harry não disse nada. Draco já sabia o que ele achava de seu tio.
"O que você disse quando lhe contaram que tinham ingressado?" perguntou o moreno.
"O que você acha? Eu fiquei furioso! Eu disse à minha mãe que não falaria com ela de novo se ela se tornasse membro da Ordem. Ela ficou falando que era a coisa certa a fazer, se juntar a Dumbledore. Quando eu disse o que pensava de Dumbledore e da Ordem, Marco começou a gritar comigo. Ele disse as bobagens de sempre, como eu era como meu pai, que eu tinha sofrido lavagem cerebral... por, bem, você sabe!" Ele parou de falar.
"Por mim," sugeriu Harry com um sorriso.
Draco começou a andar de novo, murmurando obscenidades com seu tio em voz baixa.
"Eu o odeio! Eu juro que o odeio muito!" disse Draco alto o suficiente para Harry ouvir.
"Draco..."
"Eu sei que ele acha que está no comando agora, mas ele não consegue entender que não é meu dono!" gritou Draco em frustração.
"O que quer dizer?" perguntou Harry.
"Desde que tia Bella... desde o funeral dela, Marco age como se fosse o chefe da família. Ele sempre diz pra minha mãe não ficar chateada com meu pai e que é bom ele ter partido, e ele age como se eu fosse filho dele! Me dizendo o que fazer o tempo todo!" vociferou.
Harry não disse nada. Marco era o mais velho. Pelo que lembrava, o bruxo sempre protegeu as irmãs mais novas, Narcissa e Bella. Harry lembrava-as de sua forma abatida no funeral da irmã. Não era fácil enterrar uma irmã.
Draco ainda andava de um lado para o outro, as mãos apertadas firmemente ao lado do corpo.
"Eu sei que minha mãe nunca teria feito algo assim se tia Bella ainda estivesse viva. Ela não ousaria sequer sonhar em entrar para a Ordem. E tio Marco sempre teve medo do meu pai e de tio Rodolphus. Ele jamais teria inventado essa história!"
Harry não pôde deixar de concordar. Marco realmente tinha problema com os dois cunhados; ambos tinham sido seguidores leais de Voldemort.
Draco suspirou e sentou-se ao lado de Harry, tendo se cansado de andar.
"Eu simplesmente não aguento mais toda essa porcaria. Minha vida toda acabou de virar de ponta cabeça e eu não sei como consertar isso," confessou, cansado.
"Eu sei o que quer dizer," respondeu Harry baixinho.
Draco fitou o amigo, seus olhos se demorando no rosto de Harry. Ele desviou o olhar e balançou a cabeça.
"Quando a vida ficou uma droga?" perguntou Draco.
"Foi sempre uma droga. Nós éramos muito jovens para perceber," respondeu Harry.
"Harry, nós temos dezessete anos, e não quarenta!" repreendeu Draco.
Harry sorriu e lançou um olhar ao outro.
"Então, o que vai fazer agora?" perguntou.
"Eu não sei. Não posso deixar minha mãe se juntar à Ordem. Espero que ela mude de ideia. Eu disse a ela que não vou ficar sob o mesmo teto que os membros da Ordem e então saí, e... vim… pra cá." Draco parou de falar, percebendo o que tinha feito.
"Certo, porque não há membros da Ordem morando aqui," zombou Harry.
Draco amarrou a cara para ele.
"Estou sob seu teto! Você não é um membro da Ordem!" vociferou para ele.
"Você acha que Narcissa vai mudar de ideia?" perguntou Harry, ignorando o olhar furioso do loiro.
"Espero que sim," murmurou ele. "Eu só queria que meu pai... se ele estivesse aqui..." Draco parou de falar e se sentou com a cabeça abaixada.
Harry sabia que Draco sentia falta de Lucius, qualquer que fosse o relacionamento deles, ele ainda era seu pai. E em um momento como este, Draco estava fadado a sentir falta dele. Uma parte de Harry também sentia falta de Lucius. Ele era o único remanescente de seu passado.
"Eu preciso de um pouco de álcool," disse Draco por fim, ficando de pé.
"Vou com você," respondeu Harry, seguindo Draco para fora do quarto.
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Assim que Harry e Draco saíram do quarto, ouviram vozes vindo do andar de baixo. Os dois reconheceram imediatamente a quem pertenciam. Draco grunhiu algo que soou como "mãe" e desceu as escadas.
Os dois garotos entraram e encontraram Narcissa e Marco em pé no meio da sala, conversando em voz alta com James e Lily. Damien estava ao lado da mãe. Todos olharam quando os dois apareceram.
Harry observou Narcissa correr para Draco. Ela ficou diante dele, mas não o tocou.
"Draco! O que significa isso? O que você estava pensando, saindo daquele jeito!?" repreendeu sua mãe.
O garoto não respondeu, mas olhou feio para ela. Era evidente que estava lhe custando tudo o que tinha para manter o controle de seu temperamento.
Harry viu Marco parado ao lado de James, com um olhar de alívio no rosto. Ele era tão alto quanto a irmã, mas enquanto Narcissa tinha cabelos loiros, ele tinha cabelos negros, semelhantes aos de Bella. Harry notou o quanto ele parecia mais velho do que da última vez que o viu. Podia ver as linhas finas em seu rosto e seu cabelo estava começando a ficar grisalho. O rapaz sorriu, estava certo de que Draco e suas peripécias eram a razão do súbito envelhecimento do bruxo.
"Por que você saiu daquela forma?" Narcissa perguntou ao filho.
"Acho que devemos discutir isso em casa. Narcissa. Draco, vamos embora," disse Marco em seu jeito costumeiramente seco.
"Não vou para casa com você até que mude de ideia sobre se juntar à Ordem," respondeu Draco, dirigindo-se à mãe.
Narcissa ficou em pé antes de responder.
"Vamos discutir isso em casa," disse ela em um tom amargo.
"Não será mais minha casa se você decidir se tornar membro da Ordem," respondeu Draco com teimosia.
"Draco, pare com essa infantilidade e venha..." começou Marco.
"Eu estava falando com minha mãe!" sibilou o loiro para o tio.
James e Lily de repente se sentiram muito desconfortáveis em sua própria casa. Eles olharam para Damien, que se dirigia à cozinha, pretendendo fugir. Ele testemunhara brigas familiares o bastante em sua própria família para assistir a essa.
Narcissa encarava o filho com os olhos arregalados.
"Eu não posso acreditar que está falando com meu irmão assim!" disse ela.
"Então, seu irmão não deveria me interromper," retrucou Draco.
"O que deu em você?! Foi assim que foi educado para falar com os outros? Está tentando me envergonhar?" perguntou Narcissa, segurando as vestes, os olhos cheios de lágrimas de irritação.
Ao ver sua mãe chateada, Draco se acalmou um pouco. Ele olhou para James e Lily, que pareciam bastante envergonhados também. James dizia algo em voz baixa para Marco e estava levando o homem irritado para a cozinha.
Harry assistiu ao lado de Draco seus pais entrarem na cozinha, levando Marco consigo. Sua atenção voltou-se para Narcissa.
"Sinto muito, mãe, mas ele faz isso toda vez! Sempre que estou tentando falar com você, ele interfere. Estou de saco cheio dele!" retrucou Draco.
"Já basta! Não quero você falando do meu irmão mais velho assim. Ele só interfere porque se preocupa." Narcissa disse isso de uma maneira que mostrava que dissera essas palavras muitas vezes antes.
"Sim, ele se preocupa tanto que fez uma lavagem cerebral para você se juntar a Dumbledore!" sibilou Draco furioso novamente.
"Draco, já discutimos isso! Eu me juntei por um propósito, há uma razão!" disse Narcissa.
"Que razão? Que propósito? Toda sua vida você esteve do outro lado e agora, de repente, quer trocar de lado! Por quê?" perguntou Draco com raiva.
Narcissa ficou calada por longos minutos. Seus olhos estavam arregalados e fixos em seu único filho, e seus lábios pressionados.
"É exatamente por isso," disse ela quase sussurrando. Suas mãos tremiam ao falar. "Toda minha vida me disseram a mesma coisa: 'mantenha a cabeça baixa e os olhos abaixados. Então, talvez, apenas talvez, você sobreviva.' Bem, eu não quero mais apenas sobreviver, já cansei desse tipo de vida! Foi assim enquanto eu crescia. Foi assim quando me casei e tive você. Sempre me disseram para manter a cabeça baixa. Nunca levante a cabeça ou a voz. E onde isso me levou? Estou vivendo a vida de uma viúva mesmo com meu marido vivo! Perdi minha única irmã e não tenho para onde ir a não ser a casa do meu irmão. Eu quero fazer alguma coisa! Eu quero agir contra o que fez minha vida se desintegrar diante de mim."
"É disso que se trata? Você quer encontrar um propósito para sua vida? Merlin, você poderia fazer outra coisa, qualquer coisa! Por que Dumbledore? Por que a Ordem?" perguntou Draco.
"Por que não?" rebateu Narcissa.
"Porque ele é o inimigo," Harry respondeu à pergunta em voz baixa.
Narcissa e Draco se viraram para ele, surpresos. Quase esqueceram que ele estava lá. Narcissa olhou cuidadosamente para ele antes de responder.
"Não Harry, ele não é o inimigo. Ele nunca foi o inimigo. Levei um tempo para perceber isso também," disse ela em voz baixa.
"Você foi enganada por ele. Você caiu em suas palavras e atos de sabedoria. Está falando em assumir o controle da sua vida? Tudo que fez foi trocar um ditador por outro. Dumbledore não é diferente de Voldemort," disse Harry, eliminando a agressão que borbulhava dentro dele desde que a vira na reunião esta manhã.
Mãe e filho o encararam. De repente, Narcissa se virou para encarar Draco, um olhar severo em suas feições.
"Você quer saber qual é o meu motivo para entrar na Ordem? Então, vá buscar seu tio, peça desculpas por insultá-lo e volte para casa. Prometo que vou discutir isso com você. Se ainda assim não concordar comigo, juro que vou repensar minha decisão."
Draco olhou para ela por um momento, pensando em sua promessa. Ele soltou um suspiro desanimado quando percebeu que não lhe restavam mais argumentos. O loiro se dirigiu à cozinha para encarar o tio. Assim que Draco saiu da sala, Narcissa voltou-se para Harry.
"Eu sei que você acha que sabe de tudo, mas a verdade é que não poderia estar mais desorientado," disse ela baixinho para ele.
"Não sou eu que está desorientado. Foi você que trocou de lado," retrucou Harry.
Narcissa o fitou, seus olhos fixos no rosto de Harry.
"Eu sei que muitas pessoas te veem como um herói. Outras te temem por seu passado e suas habilidades. Sei que todo mundo te vê como um bruxo forte, mais poderoso que Dumbledore e possivelmente mais sombrio que Voldemort," disse a bruxa em voz baixa. "Mas depois de te ver hoje na reunião, depois de ouvir você falar com aquele auror, sabe o que vi? Eu vi um menino confuso que não sabe de que lado deveria estar. Eu vejo um menino perdido, e não um bruxo poderoso. Você está tão confuso que nem sabe mais a quem odiar. Defendeu Voldemort, a pessoa que tirou tudo de você, e tratou seus verdadeiros pais como se eles tivessem falhado com você de alguma forma." Narcissa manteve os olhos fixos em Harry enquanto falava.
"Para alguém que não me conhece, você certamente faz algumas observações estranhas," respondeu Harry em um tom sombrio.
Um sorriso triste se formou no rosto dela.
"Eu te conheço mais do que você pensa, Harry. Eu te vi crescer tanto quanto Lucius," confessou, surpreendendo Harry.
"Não me lembro de ter te visto com tanta frequência," disse Harry antes que pudesse se conter.
Então, Narcissa fez algo muito estranho: ela estendeu a mão e gentilmente tocou o rosto de Harry, seus dedos longos se arrastando até a lateral de sua face. Essa foi a primeira vez que ela agiu tão maternalmente com ele.
"Você não lembra porque ele não queria que se lembrasse," sussurrou ela.
Harry sentiu o estômago revirar como se tivesse pulado um degrau ao descer uma escada. Voldemort tirara suas memórias. Ele o obliviara e apagara as memórias de Narcissa.
"Por quê?" indagou o jovem, sua voz soando sufocada.
"Foi quando você era muito pequeno. Eu não suportava te ver machucado. Você tinha a mesma idade que o meu Draco e me dilacerava ver uma criança sofrendo. Eu costumava cuidar de você quando estava ferido. Mas, claro, não era a coisa certa a fazer, então, eventualmente, fui impedida de encontrá-lo e suas memórias foram alteradas para que não se lembrasse de mim," contou ela com tristeza.
Harry podia sentir seu coração batendo dolorosamente rápido. Sabia que Voldemort brincara com sua mente, tirara certas memórias e alterara outras para se adequarem ao seu plano. Mas nunca achou que tinha sido nessa dimensão. O rapaz sentiu um tipo estranho de explosão em sua cabeça. Podia confiar em alguma de suas lembranças?
"Eu sei o que pensa sobre Dumbledore, mas, Harry, você precisa ver que a verdade é diferente. Ele não é como Voldemort, de forma alguma." Narcissa parou de falar quando a porta da cozinha se abriu e Draco saiu com Marco e os Potter.
Ela se virou para eles, mas sussurrou umas últimas palavras para Harry.
"Liberte-se dele, Harry. Ele só vai te causar mais dor. Concentre-se em sua verdadeira família, aqueles que nunca te usaram."
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Luzes brilhantes piscando, jatos de luz voando em todas as direções, gritos de maldições sendo lançadas ecoando no ar ao redor dele. Harry assistia com o coração palpitante o sonho familiar se desenrolar diante de seus olhos mais uma vez. Ele esperou o mais pacientemente possível a aparição de Bella. O rapaz fechou os olhos quando a imagem diante dele ondulou e flutuou, deixando-o tonto. Ele abriu os olhos e viu tudo ao seu redor terrivelmente distorcido. As imagens difusas clarearam momentaneamente e ele viu Bella. Ela brandia a varinha e bloqueava os feitiços antes de disparar alguns.
Harry tinha visto esse sonho tantas vezes que sabia o que aconteceria em seguida. Era sempre a mesma coisa. Bella duelaria com aparente facilidade antes que a imagem do sonho ficasse distorcida. Então, seu suspiro de dor o acordava e ele passaria o resto da noite imaginando o que lhe acontecera.
O garoto desejou desesperadamente ficar no sonho, para ver o que acontecia com Bella. Queria saber por que ele continuava tendo esse sonho em particular. O que o atraía para aquilo?
Como havia previsto, a imagem de Bella começou a se alterar até não passar de cores agitadas e difusas. Harry se preparou para ouvir a voz dela, para ouvir a dor em sua voz. Assim que soou em seus ouvidos, ele ouviu seu nome sendo gritado.
"Harry! Harry!"
O rapaz acordou e viu James balançando-lhe suavemente pelo ombro em um esforço para acordá-lo. Harry piscou para ele, confuso sobre o porquê de ele o estar acordando. Olhou em volta e viu que havia adormecido no sofá da sala. James era a única pessoa na sala com ele. O jovem se sentou e esfregou os olhos. Como conseguira adormecer?
"Você está bem?" perguntou o pai.
Harry acenou com a cabeça.
"Sim, tudo bem," respondeu em voz baixa.
Ele olhou para o relógio na parede e viu que eram apenas dez da noite.
"Você tem treinado muito, provavelmente ficou esgotado," sugeriu James quando viu Harry corar um pouco por ter adormecido tão cedo.
O jovem passou a mão pelo cabelo, mas não respondeu. Desde a conversa com Narcissa, passava o tempo todo em seu campo de treinamento. Era a única coisa que podia fazer para afastar a mente de suas palavras. Tudo sobre seu passado parecia ser uma mentira. Sentia que não podia confiar em nenhuma de suas memórias.
James sentou ao lado dele e viu o olhar no rosto do filho. Ele estava mais reservado e um pouco deprimido desde que Narcissa e Marco apareceram para pegar Draco Malfoy. Tinha sido há alguns dias. James sabia que a mulher devia ter lhe dito alguma coisa, mas não conseguia descobrir o que o afetara tanto. Decidiu não se concentrar muito nisso agora.
"Onde estão mamãe e Damien?" perguntou Harry.
"Na cozinha," respondeu James. "Sinto muito por acordar você. Eu teria te deixado dormir, mas parecia que você estava tendo um pesadelo." James parou de falar, sem saber se Harry diria a verdade ou se iria se recusar a falar sobre isso, como de costume.
Para sua surpresa, ele respondeu.
"Não foi um pesadelo, ao menos não acho que tenha sido," disse ele.
James tentou esconder a surpresa e decidiu apelar para sorte e questioná-lo mais.
"Sobre o que você estava sonhando?"
Harry ergueu os olhos para o pai, imaginando se deveria falar sobre aquele sonho bizarro e recorrente.
"Foi... não foi nada. Só um sonho bobo," disse sem jeito.
James sabia que ele estava mentindo.
"Não parecia que você estava gostando," comentou James em voz baixa.
Algo em Harry gritava para que falasse com o pai sobre esse sonho. Mesmo que nenhuma solução viesse da conversa, poderia fazê-lo se sentir melhor. Respirando fundo, Harry começou.
"Papai, você já viu uma lembrança que não era sua?" perguntou Harry, sua voz tensa e receosa.
"Muitas vezes," respondeu James calmamente.
"Mesmo?" perguntou Harry, surpreso.
"Sim. Eu vi muitas memórias usando uma penseira," respondeu James.
"Não, eu quis dizer, sem penseira. Como em um sonho?" perguntou o rapaz novamente.
Desta vez, James entendeu e seus olhos castanhos se arregalaram de surpresa.
"Ah, hum, não, Harry. Eu nunca experimentei isso," respondeu James baixinho. "Isso aconteceu com você." Não foi uma pergunta, mas ainda assim o jovem assentiu.
"Eu já tive esse mesmo sonho várias vezes, mas não consigo entender nada. Eu sei que o que eu vi aconteceu antes, mas a memória não é minha," ele tentou explicar.
"De quem é a memória?" perguntou James, pouco à vontade.
Harry olhou para o pai e por um momento debateu se deveria dizer ou não. Decidindo que se começara a conversa embaraçosa, poderia terminar, Harry respondeu.
"Eu acho que é de Bella."
James não disse nada, mas ficou aliviado. Podia lidar com Bella, Voldemort era uma história diferente.
"O que você vê?" perguntou o pai.
"Ela está num duelo. Parece uma batida ou algo do tipo. Posso ver aurores em todo canto. Ela está... duelando com eles e, então, eu acho que ela se machuca, mas não consigo ver claramente. Tudo fica meio confuso e a memória parece distorcida, como se eu estivesse vendo através de um redemoinho de cores. Eu sempre acordo logo depois de ouvi-la ofegar como se estivesse com dor," concluiu Harry com pesar em sua voz.
James ficou sem fala. Ele não sabia como responder àquilo.
"Você tem certeza de que não é uma de suas memórias? Talvez uma memória mais antiga?" indagou. Era pouco plausível sugerir que Harry estava de alguma forma acessando as memórias de uma pessoa morta. Não era possível.
"Acho que não," respondeu Harry, pela primeira vez questionando a memória. Ele esfregou a cabeça, seus dedos traçando a velha cicatriz. "Acontece que não posso ter tanta certeza quanto às minhas memórias," disse o rapaz com amargura na voz.
"O que quer dizer?" perguntou James.
Harry contou ao pai o que Narcissa lhe dissera. James sentiu como se algo tivesse perfurado seu coração quando descobriu que Voldemort havia tirado as memórias do seu filho. Ele não sabia que a memória de Harry havia sido violada pelo bruxo. A única coisa que sabia era das memórias alteradas que o menino acreditava serem lembranças de sua infância com os "Potter". James não sabia que Harry tinha sido obliviado.
"Eu sinto muito, Harry," disse seu pai, sentindo-se idiota ao dizer isso, mas o que mais havia para dizer?
Harry descartou o pedido de desculpas.
"Pelo que você sente muito? Não foi sua culpa," disse Harry.
James abaixou a cabeça e sentiu a vergonha invadi-lo.
"É minha culpa. Eu não procurei por você quando deveria. Se tivesse procurado, talvez pudesse ter te trazido para casa, para longe dele e de todo abuso! É tudo culpa minha," disse ele, com a voz cheia de remorso.
O rapaz olhou para James, não sabia que seu pai ainda se sentia culpado por isso. Houve um tempo em que esses mesmos pensamentos passaram pela mente de Harry, mas ele rapidamente os afastou. Não responsabilizaria James quando a culpa era de Voldemort. Ele havia colocado a culpa pelos erros de Voldemort em James a vida toda. Não ia mais fazer isso.
"Papai, olhe para mim," disse Harry tão suavemente quanto pôde. Ele se sentiu muito desconfortável fazendo isso. James olhou para ele com olhos cheios de culpa.
"Não foi culpa sua. Eu não culpo você. Eu sei que às vezes parece que sim, mas eu juro que não. O que aconteceu foi culpa de Voldemort. Culpa dele e de Peter," acrescentou.
Ao ouvir o nome do ex-melhor amigo, James se irritou. A culpa desapareceu de seus olhos e, em vez disso, Harry os viu se encher de raiva. O garoto nunca contou ao pai sobre conhecer Peter. James sabia que tinha sido ele que contou a verdade a Harry, mas eles nunca haviam discutido o assunto antes.
"Não fale nele!" disse James com raiva. "Eu não quero ouvir o nome dele na minha casa."
"Papai…"
"Não, Harry. Eu não quero pensar nele. Ele me causou danos suficientes para uma vida toda. Não quero ouvir o nome dele!" disse James. Harry podia detectar a imensa dor em sua voz disfarçada por toda a raiva.
"Papai," disse Harry, aproximando-se um pouco mais dele. Podia ver que o pai estava realmente chateado. Ele estava com a cabeça abaixada e as mãos apertadas.
"Eu o tratei como um irmão," sussurrou James, a cabeça ainda abaixada. "Eu o protegi, eu, Sirius e Remus sempre cuidamos dele. Achei que ele preferiria morrer a me trair, e viu o que fez? Ele levou você embora, sabendo o que te perder faria comigo." James não falava sobre Peter com ninguém há muito tempo. Toda a sua raiva e confusão a respeito da razão de seu amigo o vender assim estavam trancados dentro de si e agora tudo veio abaixo.
Harry sabia por que Peter fizera o que fez. Ele lhe disse antes de morrer. Decidindo que seu pai tinha direito de saber por que seu amigo o machucou, Harry falou.
"Ele estava tentando te proteger."
James o encarou, surpresa e confusão em seu rosto.
"Quê?"
"Peter, ele estava tentando proteger você e mamãe," explicou Harry. James apenas o encarava, incapaz de falar. "Quando eu o conheci, no ano passado, ele me contou tudo. Ele achou que eu fosse você," explicou Harry, acessando a memória daquele dia terrível. O dia que mudou sua vida para sempre.
"Ele pensou que você era eu?" James conseguiu falar com a voz embargada.
"Ele não estava exatamente bem da cabeça. Esteve preso por seis anos. Forçado a viver como... bem, um rato." Harry não queria entrar em muitos detalhes. Ele ainda se lembrava da terrível cela em que havia encontrado Peter.
"Ah," disse James em voz baixa.
Harry sabia que embora seu pai odiasse Peter, não queria imaginá-lo em tal estado.
"Peter me disse que Voldemort o forçou a me tirar de Godric's Hollow. Ele prometeu a Peter que se eu fosse levado até ele, pouparia a sua vida e a da minha mãe."
James não sabia o que dizer. Ele ficou em choque. Seus olhos estavam fixos no chão, as mãos tremendo ligeiramente
"Isso não torna o que ele fez certo," disse James por fim, em uma voz sem emoção. "O que ele fez, ainda assim não foi certo, sacrificar sua vida para salvar a minha ou a de Lily. Ele não deveria ter escutado Voldemort. Deveria ter nos contado, deveria ter me contado! Eu não teria deixado que ele se machucasse. Eu o teria protegido!" disse James com raiva.
"Por quanto tempo?" perguntou Harry. Ele sabia que se Voldemort tivesse intenção de destruir alguém, essa pessoa não duraria muito tempo.
"Harry! Não o defenda! Peter te levou para longe de casa. Estava disposto a deixar você morrer! Eu não me importo com quantas pessoas ele queria salvar em troca da sua vida, ele não tinha qualquer direito de te levar embora!" James respirava com dificuldade, lágrimas não derramadas brilhando em seus olhos.
"Eu não o estou defendendo. Ninguém pode odiá-lo mais do que eu. Eu só queria te dizer que ele não te traiu. Ele estava tentando salvar sua vida. Ele sabia que o que fez foi errado," disse Harry tão calmamente quanto possível.
"Então, ele poderia ter se redimido! Poderia ter trazido você de volta para casa. Poderia ter roubado você de Voldemort, como te roubou de mim!" disse James com raiva.
Harry não disse nada de imediato. Ele desviou o olhar e tentou afastar aquela terrível memória. Peter no chão, convulsionado de dor enquanto Lucius o segurava, continha-o e Voldemort alterava sua memória.
"Ele fez isso," disse Harry em voz baixa. "Ele tentou me trazer de volta quando eu tinha dez anos. Mas foi pego e aprisionado, e minha memória foi apagada."
"Como sabe disso?" perguntou James em choque.
"Peter me mostrou essa memória. Eu me vi sendo obliviado. Eu pensei que aquela tinha sido a única vez que minha mente foi apagada, mas pelo que Narcissa disse, parece que isso aconteceu a vida toda," disse Harry com amargura.
James o encarou, incapaz de imaginar como Harry conseguia lidar com tudo isso sozinho. Ele não sabia o que dizer para reconfortá-lo, então resolveu envolvê-lo suavemente com um braço. Pela primeira vez, Harry não se afastou nem pareceu desconfortável. Em vez disso, ele se aproximou do meio abraço e parecia estar um pouco à vontade.
Apesar da conversa deprimente que acabaram de ter, James não pôde deixar de se sentir mais feliz do que se sentia há algum tempo.
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No dia seguinte, Harry entrou na sala e encontrou os pais e o irmão sentados com Sirius, Remus e Tonks. O rapaz notou imediatamente que Tonks estava sentada ao lado de Remus e parecia com antigamente, feliz e confortável. Ele suspirou mentalmente de alívio. Parecia que Remus estava bem com ela. Notara que Remus estava um pouco frio com ela durante a reunião da Ordem, mas eles deviam ter resolvido as coisas agora.
Harry sentou ao lado de Damien e se juntou à conversa sobre a identidade do "Príncipe Negro".
"Você devia ter ficado na reunião. Poderia ter reconhecido a voz dele na memória de Ginny," disse-lhe Sirius.
Harry se incomodou com a menção de Ginny, mas não disse nada.
"Acho que poderíamos pedir a Dumbledore para mostrá-la a Harry novamente. Tenho certeza que ele não se importaria," disse Lily pensativamente.
"Algum de vocês não poderia me mostrar a memória? Quero dizer, vocês viram, então, poderiam me mostrar também," disse Harry depressa. Não queria pedir nada a Dumbledore.
"Sim, acho que pode funcionar," disse Lily, olhando à volta para os outros para confirmação.
James notou que o filho parecia desconfortável com a perspectiva de ver a lembrança do ataque a Ginny. Não o culpava. Foi bastante perturbador. Harry estava fadado a se sentir culpado por colocar a vida dela em perigo. Essa provavelmente era a razão de não ter pedido para ver essa memória ainda.
James também teve dificuldade em assisti-la. Foi horrível ver como Ginny quase perdeu a vida. Ele agradeceu a Deus por ela sobreviver e não ficar gravemente ferida. Mas essa não era a única parte perturbadora. A semelhança do agressor com Harry era assustadora.
James observou Harry sentado diante dele, seus olhos cor de avelã inspecionaram o rosto do filho, observando cada detalhe. Um olhar estranho apareceu em seu rosto enquanto o examinava.
"Que foi? Por que está me olhando desse jeito?" perguntou Harry, sentindo-se desconfortável.
"Desculpe, é só que ele parece muito com você. Essa foi a única coisa que foi reforçada com a memória de Ginny. Se eu não soubesse..." James não conseguiu terminar. "Ele deve estar usando poção polissuco, é só o que consigo pensar," disse seu pai, passando a mão pelos cabelos.
"Acho que não," opôs-se Harry depressa. "Para começar, o que ele usaria para fazer a poção?"
"Talvez devêssemos conversar com Dennis. Ver se aquele idiota fanático cortou seu cabelo enquanto você dormia," sugeriu Damien. "Quero dizer, sejamos francos, não há como perceber," disse o menino, apontando para o cabelo bagunçado do irmão.
Harry olhou feio para o mais novo, mas reflexivamente passou a mão pelo cabelo. Damien sorriu com a tentativa do irmão de achatá-lo. Sirius disfarçou o sorriso com a mão. Ele costumava provocar James com o cabelo o tempo todo também.
"Eu teria acordado se algo assim tivesse acontecido," respondeu Harry.
"Se não é poção polissuco, então o que é? Como ele está fazendo isso?" perguntou Lily.
Harry refletiu. A resposta não podia ser tão complicada quanto parecia. Era sempre assim.
"Quem quer que seja esse cara, ele é bom em se disfarçar. Foi ele quem se disfarçou do auror Davis e foi à Mansão Riddle atrás da minha varinha. Há algo que ele está usando para se disfarçar. Pode ser poção no caso dos aurores, mas tenho certeza de que não tirou nada de mim. Ele deve estar se disfarçando de outra maneira," disse Harry pensativo.
Ele olhou para Tonks e de repente a resposta o atingiu como um golpe. Seus olhos viajaram para James e sustentaram seu olhar.
"Ele é um Metamorphmagus!" disse Harry sem acreditar que não tinha pensado nisso antes.
"Quê?" perguntou James com os olhos arregalados de surpresa.
"Pense nisso! Faz sentido," disse Harry, saltando de pé. "Isso explica tudo. Se ele estivesse usando polissuco, não teria que se esconder atrás da máscara. Ele teria meu rosto e causaria o dano que quisesse. Mas ele não está usando polissuco. Tudo que faz é mudar o cabelo e a cor dos olhos. Talvez também esteja mudando sua altura e o corpo. É por isso que mantém o rosto escondido atrás da máscara. Quando foi pegar minha varinha, manteve o rosto escondido. Os outros aurores só o viram de costas. Não viram seu rosto. Ele deve ter se transformado para parecer com Davis, mas não pôde mudar as feições completamente para ficar iguais as dele." Harry olhou para Tonks para confirmar se o que estava dizendo estava certo.
"Isso mesmo. Eu posso mudar minhas feições, mas não posso ficar igual a outra pessoa. Por exemplo, posso imitar o cabelo e os olhos de Lily, sua altura e tal, mas não posso parecer com Lily sem a ajuda da poção polissuco." Para comprovar o que dizia, Tonks mudou o cabelo para o ruivo de Lily e seus olhos mudaram para um par de idênticos olhos verdes, mas o rosto ainda era de Tonks.
"Se ele é um Metamorphmagus, então podemos encontrá-lo. Eles não precisam ser registrados?" perguntou Damien, animado com a descoberta.
"Não, Metamorphmagus não são como Animagus. Eles nascem Metamorphmagus, não treinam para se tornar um. Mesmo assim, os Animagus não precisam necessariamente ser registrados. Nós não fomos registrados por pelo menos oito anos," acrescentou Sirius com um sorriso travesso.
"Mas, deve haver algum tipo de documentação, algum registro em algum lugar de quem nasceu como Metamorphmagus!" disse Lily, irritada por não poder usar isso para identificar o culpado.
"Em alguns casos, quando a criança mostra sinais de que é um Metamorphmagus, pode ser registrado na certidão de nascimento. Com outros, que não mostram nenhum sinal até ficarem mais velhos, não é documentado. É para ser, mas se os pais não se incomodarem em registrar, então ninguém fica sabendo. Esse é o problema. Como Sirius disse, não há esse tipo registro, então não tem como rastrear quem é Metamorphmagus e quem não é. A maioria dos aurores que trabalhou por anos com Tonks não sabia que ela era Metamorphmagus até recentemente," disse Remus.
O silêncio reinou por um tempo. Todos pareciam desanimados.
"Então, o que fazemos com essa informação?" perguntou Tonks baixinho.
"Começamos a procurar," disse Harry. "Temos um ponto de partida. Temos as iniciais C.B. e sabemos que ele é um Metamorphmagus. Podemos começar a pesquisar pelos registros de nascimento dos Metamorphmagus cadastrados que tenham essas iniciais."
Era um tiro no escuro e as chances de encontrá-lo eram pequenas, mas era alguma coisa.
"Pegaremos o que pudermos nos registros do Ministério. Tenho certeza de que podemos tirar alguns arquivos de cada vez," disse Remus, levantando-se da mesa.
"Bom trabalho, Harry," falou Tonks com um sorriso.
Harry não respondeu. Tinha um longo caminho a percorrer antes de ser parabenizado.
"Veja a memória o mais rápido possível. Espero que consigamos mais pistas," disse Sirius antes de sair também.
Harry assentiu, seu coração torcendo dolorosamente ao pensar em vê-la ser atacada e quase morta. Tinha que assistir a memória de Ginny, já que podia lhe trazer mais respostas.
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