Chad desceu do carro às pressas e correu até a porta da casa. Não bateu, tinha uma cópia da chave, apenas entrou. Jared estava na sala encolhido num sofá branco que se estendia por quase todo o cômodo. Parecia estranhamente pequeno e frágil. Tão diferente do gigante espalhafatoso que sempre ocupava mais espaço que o necessário com o qual todos estavam acostumados... Chad se perguntou que desgraça havia sucedido.

Fora acordado de madrugada por uma ligação desesperada de Jared dizendo que Jensen havia ido vê-lo. Ao menos essa foi a única parte de toda a falação de Jared que Chad foi capaz de entender. O resto foi muito confuso, tanto que Chad simplesmente se levantou, se vestiu e correu para a casa do amigo. Agora, ao vê-lo ali, como se o mundo tivesse acabado, Chad não se arrependia de ter ido encontrá-lo.

– Jay, o quê houve? – Chad perguntou já temendo o pior.

– Jensen esteve aqui. – Jared disse num fio de voz.

– Vocês brigaram? – Chad perguntou com cautela indo se sentar ao lado do amigo.

– Não. Nós transamos.

– Transaram?! – Chad ficou confuso. – Isso é bom, não é?

– Nããão! – Jared lançou um olhar aflito ao amigo. – Não é nada bom. Não o sexo. O sexo foi ótimo. Sexo com o Jensen é sempre ótimo. O que não é nada bom é o jeito como tudo aconteceu... Como se tudo nõ passasse de... Sexo. Sexo puro e simples.

Chad franziu as sobrancelhas em sinal de confusão.

– Mas não era isso o que você queria? – Chad o lembrou. – Ao menos foi isso que você disse a ele no estacionamento.

– Eu sei que disse, mas... – Jared engoliu em seco.

Chad suspirou profundamente.

– Eu lhe avisei, não avisei? Eu disse que isso ia dar merda, não disse? Você mentiu tanto para si mesmo e para o Jensen que agora a mentira está te comendo pelos tornozelos.

– Eu sei que fui eu quem disse ao Jensen que só queria o corpo dele, mas... O Jensen se recusou tão firmemente e do nada ele aparece na minha porta me pedindo para usá-lo... Eu não entendo! E pior... Eu não gostei do modo como as coisas ficaram...

– Então converse com ele. Explique que não quer só sexo. Se ele lhe ama, vai ficar aliviado e se atirar em seus braços rapidinho.

– Mas e se ele não me amar?! – Jared perguntou desesperado. – E se depois de tudo o que eu disse e do modo como agi ele não me amar mais?

– É um risco que você vai ter que correr, cara. – Chad deu um tapinha no ombro do amigo. – Se você não se importa, tenho que recuperar algumas horas de sono e acho que você precisa de um tempo sozinho para pensar. A gente se vê no escritório.

Jared continuou no mesmo lugar horas depois de Chad ter lhe deixado. Em sua mente imagens distintas de Jensen confundiam-lhe o senso. Era quase como se existissem dois Jensen's. Um Jensen frágil e irresistivelmente sincero, gentil e apaixonado que fizera Jared cair de quatro por ele e outro Jensen, um Jensen egoísta, cínico, manipulador que havia jogado com ele. Jared sabia racionalmente que os dois Jensen's eram o mesmo e único Jensen, mas seu lado irracional simplesmente não podia conceber um Jensen tão ambíguo. Dentro dele o amor e o ódio ameaçavam rasgá-lo por dentro e atirar seus pedaços num abismo escuro.

Por que Jensen tinha que ser tão complicado? Por que gostar de Jensen tinha que ser tão complicado?!

Na manhã seguinte, Jared chegou ao trabalho mais atrasado que o normal. Não havia conseguido pregar os olhos, mas mesmo sem dormir foi fazer sua caminhada matinal costumeira esperando que Jensen fosse emboscá-lo na esquina de sempre, mas ele não apareceu. Jensen tão pouco deu as caras na loja de doces e Jared se dirigiu ao escritório se sentindo frustrado e extremamente mal humorado. Será que Jensen, no fim das contas, só queria um transa com ele?

Jensen não saiu de seu escritório uma única vez, nem mesmo para buscar café. Sem poder vê-lo e sem coragem de ir bater a sua porta, Jared apenas ficou em sua mesa se remoendo por dentro E por mais que Chad insistisse que ele deveria ao menos tentar falar com ele, Jared não ousou se aproximar do homem.

Ao fim do expediente, Jared recusou o convite para ir beber com Chad e foi direto para sua casa se perguntando se Jensen realmente iria ali às dez como haviam combinado. Como não tinha nada para fazer a fim de matar o tempo até a hora em que Jensen ficara de ir vê-lo, Jared preparou sanduíches se perguntando se o homem chegaria com fome. Quase imediatamente após terminar de preparar os sanduíches, Jared os jogou no lixo. Por que deveria preparar um lanchinho para Jensen? Por que deveria se preocupar com ele? Mas quando viu os sanduíches de rúcula, azeitonas pretas e queijo prato, os favoritos de Jensen, no lixo, sentiu um aperto no peito e não era por estar desperdiçando comida. Não entendia como conseguia se sentir daquele modo: como se não devesse nada a Jensen e ao mesmo tempo como se sua vida pertencesse àquele homem.

Jensen fazia uma bagunça em seu peito, sua mente, sua vida. Então Jared apenas ficou parado na cozinha olhando atentamente para o relógio na parede. Às dez em ponto, a campainha tocou. Jared correu para atender, mas quando ia se aproximando da porta se forçou a parar, respirar fundo e contar uns vinte segundos antes de abrir a porta. Jensen estava mais pálido que na noite anterior, se é que isso era possível. Embora estivesse em sua aparência impecável de sempre, seu semblante traia uma dor profunda. Seu olhar baixo e suas mãos enfiadas no bolso da calça realçavam sua imagem de pessoa desamparada. O que fez Jared puxá-lo imediatamente para seus braços e enchê-lo de beijos.

Se seria só sexo ou se seria algo mais ou por que Jensen estava daquele modo não importava à Jared naquele momento. Tudo o que importava era tê-lo embalado por seus braços e consumido pelo seu amor. Por que Jared o amava. Não importava se parte dele odiava Jensen por tê-lo enganado ou se odiava a si mesmo por continuar a gostar dele. Uma parte enorme de Jared amava Jensen com todas as forças e faria tudo por ele.

Jensen retribuiu os beijos com o mesmo ímpeto e se deixou conduzir para dentro da casa. Jared teve vontade de jogá-lo no chão e voltar a fodê-lo ali mesmo, mas não queria que a situação se repetisse. Não queria apenas sexo. Não podia ser só sexo, não é?

Jared guiou Jensen até seu quarto sem parar de beijá-lo e acariciá-lo como se quisesse decorar cada pedaço de seu corpo. As roupas foram ficando pelo caminho e quando seus corpos tombaram sobre os lençóis de seda da enorme cama de Jared, não havia nenhum tecido entre suas peles suadas e quentes que se esfregavam com força atiçando-lhes o desejo. Jared o beijava sem parar como se houvesse passado uma eternidade sem provar de seus lábios, como se estivesse faminto por seu gosto. As mãos de Jensen percorriam todo o seu corpo e suas pernas roçavam nas de Jared. Se desejavam tanto!

Quando Jared ergueu-se sobre os braços separando seu tórax do de Jensen e rompendo o beijo, seus olhos se encontraram. Os olhos de Jensen estavam escuros de desejo, mas molhados de uma dor tão profunda que Jared quase podia senti-la. O corpo de Jared implorava para se colar ao corpo de Jensen e tirar de seus olhos aquela dor apenas com o fogo do seu amor. Mas Jared não queria ver novamente Jensen se levantar após o sexo e ir embora. Queria perguntar o que Jensen queria dele. Se era só se ou algo mais. Porém a pergunta ficou entalada em sua garganta.

– Ah, Jensen!

Jared chamou antes de voltar a beijá-lo, mas logo abandonou seus lábios e começou a lamber-lhe o pescoço e a arranhar com a ponta dos dentes sua pele salpicada de sardas. Jensen gemeu baixinho enquanto rebolava sob Jared fazendo seus quadris se encaixarem, seus sexos se friccionarem. Jared, então, desceu seus beijos pelo peito de Jensen parando para chupar um mamilo intumescido depois o outro. Jensen levou as mãos aos cabelos de Jared deixando seus dedos se afundarem entre os fios castanhos e compridos. Quando a língua de Jared deslizou pelo seu abdômen até alcançar os pelos pubianos, Jensen arquejou e retesou as costas. Jared ainda passou um tempo apenas com o nariz enfiado nos pelos de Jensen, apenas aspirando seu cheiro, apenas provocando-o. Quando, enfim, seus lábios se fecharam em torno do sexo pulsante de Jensen, o homem já estava completamente ofegante e suas mãos puxavam com força os cabelos de Jared.

Jared amava ver como eram violentas as reações de Jensen quando era provocado na cama. No escritório Jensen podia ser o Sr. Auto-controle, mas em sua cama ele era completamente descontrolado e adorável. Jared deixou que Jensen deslizasse inteiro para dentro de sua boca e começou a fazer uma sucção suave, bem lenta. Apenas um aperitivo... Jensen rebolava cheio de tesão, louco para se enterrar com força dentro da boca de Jared, mas sabia que do jeito que o homem fazia era mais gostoso: adiar o prazer para aumentar o gozo... Mas Jared não pretendia adiar demais. Logo ele apertou seus lábios com força em torno do sexo de Jensen e começou uma sucção mais forte enquanto sua cabeça subia e descia indo de encontro a sua virilha para logo afastar-se e voltar a afundar o nariz em seus pelos.

Jensen soltou um gritinho quando as mãos de Jared agarraram seus testículos apertando-os com força, mas não forte o bastante para machucá-los, apenas na medida certa para levá-lo à loucura. Jared tirou o sexo de Jensen de sua boca e levou a ponta da língua à pequena entrada rosada e apertada do homem.

– Sim, Jared, sim... – Jensen gemeu.

Os dedos de Jared se juntaram a sua língua na deliciosa tarefa de preparar Jensen que gemia e rebolava ansioso por receber algo maior. Assim que o sentiu preparado, Jared se ajoelhou na cama e levou as pernas de Jensen até seu ombro enquanto posicionava-se em sua entrada. Jensen o olhou nos olhos com um brilho cheio de desejo, expectativa, entrega total e incondicional.

– Está pronto para mim, baby? – Jared perguntou cheio de luxuria na voz. Jensen o apenas moveu a cabeça afirmativamente.

– Sempre.

Jared, então, se empurrou com força para dentro de Jensen sentindo como o corpo do homem se abria lentamente para recebê-lo. Jensen jogou a cabeça para trás e seus dedos se fecharam com força no lençol, como se quisesse rasgá-lo. Não havia nada que Jared amasse mais que vê-lo assim tão entregue. Quanto mais Jared se empurrava com força, entrando e saindo de seu corpo, mais Jensen se abria e se entregava. E ao vê-lo jogar a cabeça para trás e gemer descompassadamente, Jared se sentia cada vez mais fora de si. Como se estivesse voando. Não demorou para Jensen gemer alto e se derramar no próprio abdômen. Jared veio pouco depois. Seu corpo tremeu todo enquanto ele preenchia Jensen com seu gozo. Mesmo após o orgasmo, ele não se retirou de dentro do homem. Queria aproveitar o máximo possível o contato com o homem de sua vida.

– Uau... – Jensen murmurou. Seus olhos estavam meio fechados, quase como se ele mal pudesse mantê-los abertos.

– Vou entender isso como um elogio. – Jared sorriu, finalmente, saindo de dentro do homem e indo se espichar ao seu lado. Queria que Jensen fosse se aconchegar contra o seu corpo, então, ele passaria o braço em torno de suas costas. Seus lábios roçariam a testa suada de Jensen e os dois dormiriam abraçados. Mas isso não aconteceu. Jensen se sentou na cama e respirou fundo antes de se levantar.

– Posso tomar um banho? – Perguntou sem olhar para Jared.

– Claro. – Jared respondeu secamente.

Enquanto escutava o barulho do chuveiro, Jared chorou em silêncio. Apenas as lágrimas caindo. Em sua dor, ele não fazia ideia de que sob a água morna da ducha, as lágrimas quentes de Jensen escorriam.

Jensen se apoiou na parede para não cair enquanto seu corpo tremia agitado por um choro sofrido. Pela terceira vez, em menos de um ano, sua vida dera uma guinada. Dessa vez, novamente, para pior. Havia decidido ser o senhor de sua vida e não fazer nada que viesse a lhe causar arrependimentos. Amava Jared e o desejava loucamente, mas tinha tomado a decisão de que não ficaria com o homem sob suas condições. Jensen errara. Era verdade. Mas isso não justificava Jared querer tratá-lo como um objeto. Isso apenas faria os dois sofrerem. De qualquer modo, Jensen tinha certeza de que o tempo e a dedicação que vinha tendo em demonstrar-lhe seu amor fariam Jared ceder.

Aí recebera a ligação do hospital. Kenzie havia conseguido, finalmente, atingir seu objetivo desde que fora internada ali. Aproveitando-se da falha da segurança, ela conseguira uma lâmina e cortara os pulsos fugindo definitivamente da vida que não queria mais. Jensen ficou arrasado, se sentiu culpado.

Havia estado com a irmã pouco antes de se reencontrar com o irmão. Não notara nela nada fora do normal. Kenzie era sempre depressiva e sempre falava da morte como se fosse um desejo dourado. Jensen não desconfiou de nada. A segurança ali era eficiente e durante anos impediu sua irmã de cometer suicídio. Antes de voltar para Vancouver, Jensen pensou em visitar a irmã de novo, mas logo descartou a ideia por que estava com pressa de rever Jared e tentar reatar com ele. Pensou que poderia ver a irmã em outra ocasião. Talvez até levar Jared para conhecê-la. Agora era tarde demais. Não haveria próxima vez.

Se Jensen, ao menos tivesse ido vê-la antes de voltar ao trabalho... Talvez ele pudesse ter notado algo diferente, talvez pudesse ter lhe feito mudar de ideia... Jensen nunca saberia. Ele também nunca diria a ela o que vinha guardando dentro de si. Nunca lhe confessaria que a amava muito e que nunca desistiria dela. Mas Kenzie desistira dele e de todo o resto.

Jensen se sentia tão culpado e tão desesperado. Por achar que teria outra oportunidade, perdera a oportunidade de passar mais tempo com a irmã e dizer-lhe o tanto que a amava. Viver sem contar com o amanhã... Ouvira isso em algum lugar. Antes da morte da irmã, Jensen achava que poderia convencer Jared. Achava que era apenas uma questão de tempo. Mas e se ele não tivesse tempo?

Jared só o queria como uma boneca de foda. Jensen não queria se submeter aquilo, mas como ele viveria sem nunca mais tocar ou ser tocado por Jared? Se sentindo um lixo, mas tendo total certeza de que preferia aquela migalha a não ter nada do homem de sua vida, Jensen recuara e cedera. Agora estava ali se sentindo um trapo sujo e rasgado. Não que o sexo tivesse sido ruim. Fora ótimo. Sexo com Jared era sempre o ótimo. Mas o vazio que vinha depois à certeza de que fora só aquilo o deixava em mil pedaços.

Jensen fechou a ducha e puxou a toalha para se secar. Ela estava impregnada pelo cheiro de Jared e Jensen o aspirou profundamente antes de começar a passá-la pelo corpo desejando que fossem as mãos do homem no lugar do tecido. Quando terminou, saiu do banheiro usando apenas a toalha em torno da cintura. Jared estava deitado de lado, o rosto virado para o outro lado do quarto de um modo que Jensen não sabia dizer se ele estava acordado ou não. Jensen decidiu se vestir o mais silenciosamente possível e sair dali sem despertá-lo. Suas roupas estavam espalhadas por toda a parte, então, ele começou a juntá-las.

Se estivesse menos concentrado em sua tarefa de juntar as roupas pelo chão, talvez tivesse notado que Jared o espiava em silêncio. Os olhos brilhando com as lágrimas que ele não queria que Jensen visse. Mas Jensen não olhou para Jared quando se vestiu e saiu do quarto se sentindo a mais baixa das criaturas.

Ambos estavam dolorosamente vivendo um engano.