E finalmente — depois de muitas idas e vindas, de muitos sumiços inexplicáveis e mudanças repentinas — estamos aqui, com o último capítulo dessa fic mágica. Sei que essa não foi, nem será, a melhor história do universo... mas ela foi (e é) especial para mim. Cometi erros e aprendi com eles, vivi coisas que nunca pensei que viveria, descobri coisas que só a experiência pode mostrar e tudo isso torna Feitiço Falho extremamente especial.
Diadorim — Sua sugestão foi anotada, considerada e selecionada com sucesso! Vou fazer uma fic 18 (+) do Loki com os Vingadores... a única diferença é que dessa vez vou pegar leve nas torturas e caprichar mais nas gostosuras kkkkk. O título dessa história será "Apenas a verdade". Pretendo postá-la quando metade da história estiver escrita, assim os bloqueios da vida não vão atrapalhar tanto (ou ao menos é o que torço para acontecer). E eu acho que o Loki vai sair dos cristais... querendo ou não kkkkk. Beijos e obrigada por tudo! :3
Srta. Maga — Entendo bem desses percalços então não se preocupe, e usar palavrões é uma segunda forma de arte, então os use com toda alegria XD. Ah... a Sweet Poison... eu amo essas garotas, mas confesso que escrever sobre elas era um desafio terrível (muitos nomes, personalidades muito particulares, um monte de referências... francamente, eu precisei bater palmas para o titio Martin depois de criá-las). Aí o Loki pensa: minha vida está mudando para melhor. E a Vida sorri de diz: tem certeza, amorzinho? *imagine aqui a Vida arqueando as sobrancelhas e cruzando as pernas*. Mas, com muito amor no coração, vamos ter esperanças de que a Vida vai cansar da brincadeira e finalmente dar um desconto pro Loki. Nessa história nós temos três grandes pedidos que mudam a vida do lindo príncipe. Temos o pedido da mamãe Frigga, para que Thanos nunca mais chegue perto de Lokito e para que o Odin entenda melhor o próprio filho; temos o pedido egoísta das Norns, porque elas não suportavam a ideia de deuses superiores mexendo as cordinhas da vida; e temos o pedido que começou tudo isso... o pedido da Hela para que o Loki jamais fosse submetido a dor novamente (eu suspeito que até hoje a Hela não entendeu como um pedido tão simples acabou resultado no Ragnarök... mas enfim, quem mandou pedir ajuda a Ag?). A Hela terá uma aparição mais explicita no final da história (ou talvez num bônus extra, tudo vai depender do tamanho desse capítulo) Sobre a Amora... no início pensei em colocá-la na história. Sério. Queria vê-la como colaboradora da Rainha e alguém em quem o Loki confiou segredinhos do passado e etc... mas então busquei referências sobre ela (vi episódios, li umas duas HQs...) e descobri que não ia conseguir gostar dela porque, embora Amora fosse uma mulher genial, com talentos e habilidades muito superiores, ela estava desesperadamente tentando conquistar o Thor... e o cara nem tratava ela bem! Foi um golpe tão feio na moral feminina que eu simplesmente tive um surto de pelanca e descartei o plano (já viu o Hobbit? Lembra quando o Bilbo diz "Não" e desmaia no chão da sala? Então, quase isso, só que com papeis rasgados). No fim a Amora virou só uma referência avulsa õ.o o que foi uma pena. A-há! Então, os dados dos computadores não foram apagados não XD Tá tudo lá para quem quiser ver... o problema é que a maioria deles nem sabe que deveria procurar alguma coisa. Tirar a pista do pessoal da S.H.I.E.L.D. foi moleza. O banco de dados deles foi transferido para aquele supercomputador e sem as senhas certas os dados não rolam... o Jarvis, por outro lado, foi uma coisa que me rendeu cabelos brancos. Eu sabia que o AI ia perguntar, que eventualmente ele acharia estranha a ausência de Loki e tocaria no assunto... e aí, como mágica, lançaram o filme do Ultron kkkkk. Eu juro que ri como louca quando o Jarvis quase foi destruído e tudo mais, porque isso me dava a desculpa perfeita para o Tony evitar usar Jarvis. Mas você notou uma coisa ótima: o Thor sentiu que algo estava errado. Entre todas as pessoas, ele foi o único que sentiu que aquilo não era o certo. Pode se dizer que ele realmente ama o irmãozinho, porque a mente dele tentou ao máximo resistir ao feitiço... e isso deu um trabalho extra pro Loki, porque eles precisavam da batalha do Ragnarök pras coisas ficarem certas. O lance dos guardiões de memórias foi uma coisa que tirei dos livros de ocultismo (uma colega minha era apaixonada por isso e acabei lendo uma ou duas coisas sobre o tema), mas também apliquei algumas coisas de psicanalise e voilà. Mas a ideia de colocar um corvinho alegre como guardião foi em referência ao Ikol, uma pega que acompanhava o Kid Loki nos quadrinhos. Tenho conta no Nyah e no Social Spirit também (não criei uma no Wattpad porque não consegui gostar das histórias que tinha por lá, então fazia sentido entrar)... mas histórias do jeitinho que gosto só consegui encontrar aqui mesmo kkkkkk. Então, a monografia correu bem e consegui uma nota ótima dos examinadores (embora interiormente eu estivesse chorando por ver meu tema destruído para agradar a orientadora). Me formei em Pedagogia (Yeeh), mas agora ando pensando que teria sido mais divertido me tornar Bacharel em Letras D= bateu uma sensação de vazio quando percebi isso... Depois de me formar tentei trabalhar, mudei de cidade, consegui um trabalhinho de meio período enlouquecedor, daí me mudei de novo e consegui outro trampo... e aí me demiti (sim, sou louca, mas de jeito nenhum eu ia trabalhar nos domingos sem receber pagamento extra)... agora voltei ao status de desempregada e estou pleiteando concursos públicos (se isso é um ciclo sem fim queria saber onde está Mufasa). Kkkkk beijos de pseudo-fantasma são sempre bem vindos XDD
Motoko Li — cá entre nós... tive certa dificuldade em enquadrar o Loki da Marvel (especialmente o dos filmes) como o Loki mitológico. Nos quadrinhos ele tem uma relação de amor e ódio muito intensa com alguns dos filhos (Hela que o diga), mas nos filmes não rola nenhuma brecha! Então imagine as dúvidas que tive sobre eles na história. Trabalhar temas obscuros como tortura e estupro também foi uma coisa complicada. O tema é terrível por si só e para completar eu não tinha nenhuma experiência literária relevante para ajudar... Se o resultado foi bom devo isso aos enfermeiros que concordaram em responder minhas perguntas =3. Sobre essa repetição... eu poderia dizer que é um ciclo simbólico e lá-lá-lá... mas a verdade é que não percebi o que tinha feito até ser tarde demais para voltar atrás. Trágico D=. Sobre o Ragnarök... eu estou acostumada à versão mitológica (lobos gigantes, batalha sangrenta, todo mundo morto) etc., etc... mas não faço ideia de como ocorreu o fim dos deuses na Marvel... então para não cometer nenhum pecado mortal eu meio que... pulei essa parte (sry). Bem, obrigada por comentar, pelo elogio e por acompanhar! Abraços e até a próxima!
Então, muito obrigada a todos que leram, acompanharam e comentaram essa história — vocês, tanto quanto os personagens dessa aventura, são o motivo pelo qual chegamos aonde chegamos. Obrigada.
O relógio sobre o console da lareira marcava precisamente quinze para as seis quando os arranjos para o breakfast começaram a ser organizados no refeitório do hotel. A fragrância cítrico-adocicada das frutas tropicais importadas do Brasil se misturava deliciosamente aos aromas inconfundíveis de ovos mexidos, damper[1] recém-saído do forno e café quentinho passado na hora. Naquele momento, desde límpido trinar dos pássaros silvestres ao marulhar hipnóticos das ondas contra os recifes de coral, tudo parecia conspirar para criar uma atmosfera idílica sobre o Green-Lemon Hotel.
O sol despontava na linha do horizonte, colorindo o firmamento com tons delicados de dourado e azul-cerúleo cristalino, enquanto a brisa morna, acompanhando a dança das vagas, soprava gentilmente através das janelas amplas. O amanhecer ensolarado prometia aos habitantes locais e aos turistas de plantão um dia perfeito para longas caminhadas pelo litoral, ousados passeios nas reservas florestais e, para quem gostasse, algumas horas tranquilas ao sol nas espreguiçadeiras ao redor da piscina.
Era evidente, porém, que nem todos os viajantes podiam arcar com as despesas de uma estadia prolongada no litoral australiano. Praias paradisíacas tendiam a atrair comerciantes demasiado ansiosos por dinheiro, muitos deles dispostos a cobrar preços exorbitantes por quinquilharias absolutamente inúteis, e os visitantes se viam forçados a escolher entre ter uma refeição decente e comprar um bibelô charmosinho para os amigos. Foi por essas e outras que o Green-Lemon Hotel decidiu oferecer aos seus clientes produtos únicos, perfeitos para quem tinha excesso de entusiasmo e pouco dinheiro no bolso. Se um hóspede conversasse com a pessoa certa podia ser guiado para uma untuosa butique interna, onde produtos de alta qualidade eram vendidos a preços desmesuradamente pequenos, e ainda podia ganhar alguns perfumes raríssimos de brinde; ou, se a vontade do hóspede fosse viver uma aventura, podia conversar com o pessoal da recepção e agendar um passeio exótico no pátio interno do hotel – área restrita e particular – e lá encontraria legítimos crocodilos do Nilo, insetos multicoloridos e cangurus de origem duvidosa, além de tigres e pumas especialmente ranzinzas; e ainda, para os que tinham um senso de diversão mais "peculiar", a hospedaria fornecia passeios noturnos assustadores pelas encostas, onde FVEs[2] eram gravados em alta qualidade.
Portanto, se o hotel tinha fama de extraordinário, com excelentes críticas nas redes sociais e inúmeras recomendações nas revistas de hotelaria, não era para menos. Existia alguma coisa mágica sobre a simpática pousada e seus misteriosos atendentes que levava os clientes a jamais reconsiderarem a estadia... era como se estivessem apaixonados, completamente enlevados pelo carisma do local, e se sentissem muito satisfeitos com isso.
Aquela manhã, no entanto, prometia ser especial por uma razão bastante ímpar e mudaria a vida de pessoas bem diferentes. A única questão é que ninguém sabia disso ainda... mas as coisas estavam prestes a mudar.
Focada em reorganizar a agenda de clientes, amaldiçoando internamente os números que insistiam em não colaborar, Viper caminhou para o saguão de entrada pronta para abrir as portas de vidro fosco, virar a plaquinha de aviso para "aberto" e passar uma manhã enervante anotando reservas e torcendo para ninguém perguntar o porquê de algas marinhas terem surgido na piscina interna... ou ao menos era o que pretendia fazer até avistar Ag correndo pelo vestíbulo com um caracal[3] hiperativo em seus calcanhares.
Um tique nervoso ameaçou começar e rapidamente a cantora o suprimiu. De maneira nenhuma ela ganharia rugas de estresse por culpa das maluquices de Ag. Ignorando o gatão saltitante Viper se sentou atrás do balcão de atendimento e ligou o computador. Abrir as portas de vidro estava fora de questão no momento, então só lhe restava conferir a lista de itens que precisariam para o jantar de réveillon e atualizar o cadastro dos clientes que decidiram prolongar a estadia.
"O mais importante é não mostrar interesse nas coisas da Ag. Não olhe diretamente, não faça perguntas e aja naturalmente. Em algum momento ela vai ter de sair", ladainhava sem parar. Tentando se manter firme Viper fixou os olhos na tablet, acessou o site oficial do Green-Lemon, respondeu a solicitação de agendamento de um casal canadense e fingiu estar ocupada demais para ler o pedido de um crítico maníaco que estava tentando se hospedar gratuitamente há meses. Ao fim de trinta minutos não havia nada mais a fazer além de assistir o caracal arruinar o sofá Amsterdam novinho, ver as cortinas de linho serem retalhadas sem dó e se perguntar o que eram aqueles trapos que Ag largara sobre as cadeiras de vime.
Oh, a quem ela queria enganar? Precisava fazer a pergunta mágica:
— Ag, meu amorzinho, o que é isso aí?
— Isso? — a mulher indagou apontando para o gatão.
— Não! Isso. — replicou indicando os tecidos suspeitos sobre as cadeiras.
— Ah, isso? — a vidente sorriu com satisfação particular. Era impressão sua ou Ag estivera propositadamente esperando essa pergunta? — Esses são itens que vocês vão precisar na próxima missão.
O tique nervoso voltou com todas as forças.
— Que missão?
— Daqui a pouco eu conto. — prometeu com um sorrisinho cretino. — Aliás... — ela olhou por cima do ombro. — quando a hora chegar todas vocês vão saber o tópico da missão. Vai ser tão emocionante...
— Ag, eu não sei se gosto de coisas "emocionantes" a essa hora da manhã... — contestou fracamente, a sensação de mal-estar ficando cada vez pior. — Será que você não pode me dar uma dica do assunto?
— Nup. — ela riu.
Rilhando os dentes para conter a frustração, e prometendo a si mesma que esganaria Ag pessoalmente caso não gostasse da tal "missão", Viper se obrigou a continuar trabalhando como sempre, atendendo telefonemas e mandando avisos para as companheiras sobre os pedidos dos clientes para o dia. Os retalhos de tecido negro, contudo, atraiam seu olhar a cada poucos minutos e ela não podia deixar de se perguntar o que diabos iria acontecer.
Às sete horas em ponto, no exato momento em que as portas do refeitório foram abertas e os primeiros hóspedes começaram a descer as escadas, Ag tangeu o caracal saltitante para fora do vestíbulo e abriu as pesadas portas de vidro. A brisa marítima, salgada e com cheiro de algas, balançou os cabelos da vidente arrancando-lhe um suspiro satisfeito.
— Não falta muito agora. — Ag comentou de repente. Lançou um olhar displicente para a companheira e alargou o sorrisinho perverso. — Nós vamos ter notícias de Loki em dois minutinhos.
As mãos da cantora tremeram visivelmente antes de pararem por completo, os longos dedos pairando a poucos centímetros do teclado. De certa maneira parecia que seus membros superiores estavam fracos demais para continuar trabalhando ou, quem sabe, estivessem simplesmente resguardando toda a essência daquele momento há muito esperado numa imobilidade estática intraduzível. A aragem gentil se transformou numa ventania desconfortável, uivando lastimosamente ao passar pelas frestas das janelas antigas, empurrando grãos de areia para o carpete de boas-vindas na entrada do hotel.
Loki.
Há quanto tempo ela vinha esperando por esse momento? Por quantos anos ficou ali, obrigada a suportar a posição de observadora, contentando-se em sonhar com o dia em que a missão suicida do deus chegaria ao fim? Quantas vezes – e sabia ela que foram vezes demais – não tentara burlar as restrições impostas por Ag e interferir diretamente nos planos do príncipe? Foi tempo demais, foram vezes demais.
No período de duas décadas Viper e muitas outras garotas como ela se viram obrigadas a manter silêncio sobre os atos dos Vingadores, se esforçaram para não contestar o acordo de Hela e, acima de tudo, lutaram consigo mesmas para não interferir na jornada do príncipe caído. Durante anos elas – as mais fervorosas defensoras de Loki – acompanharam o calvário mudo do deus trapaceiro; observaram-no enquanto preparava Asgard para a derrocada final, seguiram-no enquanto pelejava para ajustar e proteger a vida daqueles a quem amava; e choraram por ele quando o homem se arrastou em meio aos destroços do mundo, caminhando sozinho pela trilha de destruição que criara para si. E nesse meio tempo muitas coisas aconteceram. Algumas eram esperadas – como a criação dos inúmeros Martelos Uru, a libertação de Surtur, e a Guerra Civil que devastou o país – e outras aconteceram num acaso suspeito – a Invasão Skrull, a chegada dos Guardiões da Galáxia, a criação dos Vingadores Sombrios[4]—, mas no fim das contas tudo levara ao momento decisivo em que Loki cumpriria seu destino e reescreveria a história de Asgard com o tão aguardado Ragnarök.
A parte mais complexa da missão, no entanto, foi convencer Thor a permitir o fim dos deuses. Dos vinte anos gastos por Loki nos cuidadosos preparativos do Ragnarök dez foram dedicados inteiramente a fazer o deus do trovão compreender a natureza amaldiçoada do Reino Eterno e consentir na morte final dos orgulhosos senhores de Asgard. Não foi tarefa fácil, já que o homem podia ser terrivelmente teimoso quando queria, mas no fim tudo correu como o esperado. E considerando que esse "pequeno" pormenor estava resolvido, era apenas questão de tempo até Loki ganhar sua vida e sua liberdade de volta... Então por que Viper sentia um arrepio desconfortável descendo pela espinha enquanto via o amplo sorriso estampado no rosto da vidente?
A resposta chegou dois minutos depois, quando Diadorim irrompeu no saguão de entrada segurando os restos mortais das sacolas de compras do mercado, lutando para respirar e parecendo completamente apavorada.
— Loki não saiu! — ela gritou com o pouco fôlego que ainda tinha.
Durante cinco segundos inteiros o mundo entrou em suspenso. O vento interrompeu seu triste lamento, as gaivotas silenciaram seus queixumes e mesmo o tilintar dos copos e talheres no refeitório desapareceu. E então, como se uma enorme bolha de sabão houvesse estourado diante de seus olhos, Viper ouviu uma profusão descomunal de vozes iradas ecoando pelos corredores, os gritos furiosos subindo aos céus e assustando cada criatura viva na região, enquanto passos rápidos anunciavam a aproximação de um bom número de pessoas. Em poucos segundos o saguão estava lotado, dominado por uma centena de garotas furiosas prontas para pôr o mundo abaixo.
— Como assim ele não saiu!? — Leatrice foi a primeira a chegar. Arrancou o avental rosa e lançou um olhar furioso tanto para Ag quanto para Diadorim. — Você disse que os cristais eram seguros! — acusou.
— E são! Mas eu nunca pensei que Loki mudaria a essência do feitiço! — a mulher se defendeu depressa, os olhos perolados lançando chispas de ódio. Se ela estava furiosa com a acusação ou com a ideia de alguém mexendo em seus feitiços Viper não saberia dizer. — Eu nunca pensei que ele conseguiria fazer isso... — admitiu numa voz fraca.
— É do Loki que estamos falando. — Drica apontou num tom conciliador. — Se havia alguém capaz de entender nossos feitiços era ele.
— Como ele fez isso não é a questão. — March afirmou numa voz mansa, perigosa. — Achar um jeito de impedir o plano dele é que importa...
Dominando a frustração crescente Viper levantou da cadeira macia, se inclinou sobre o balcão de atendimento e, torcendo os lábios num sorriso cheio de veneno, encarou Ag sem hesitar:
— Oh, nós não precisamos nos preocupar... A Ag já tem um plano.
Milhares de olhos se voltaram para a vidente.
— Você sabia que isso ia acontecer? — o sussurro de Diadorim foi cheio de incredulidade.
— Eu posso ter imaginado a possibilidade. — a vidente admitiu. — E por isso eu preparei um plano C.
Sobrancelhas foram franzidas, resmungos foram feitos e suspiros exasperados escaparam dos lábios das garotas. Elas estavam mesmo tendo essa conversa?
— Legal... mas qual era o plano B? — uma vozinha perguntou no meio da multidão.
— No plano B nós salvaríamos o lindo príncipe pessoalmente.
A resposta animada arrancou exclamações alegres de todos os presentes... até se lembrarem de que Ag queria seguir o plano C. E isso levava a questão: o que era o plano C?
Sentindo uma dor de cabeça monstruosa se avizinhando Viper esfregou as têmporas e respirou fundo.
— Tudo bem, Ag... E por que o plano C é melhor que o plano B?
Essa, elas perceberam, era a pergunta de um milhão de dólares.
A vidente abriu o pesado casaco e remexeu o bolso interno pacientemente. Parecia que não encontraria nada ali até que seu rosto subitamente se iluminou.
— O plano C é lindo porque nós podemos usar isso!
E num gesto amplo, cheio de teatralidade, a mulher ergueu uma esfera vermelha, do tamanho de uma bola de handebol, que brilhava como se estivesse sob a luz de um holofote particular.
Ao reconhecer o item Viper engasgou e fez menção de pular a bancada.
— Essas são as memórias que você roubou! — acusou.
— Eu não roubei nada... só guardei num lugar bem longe dos donos legítimos. — a vidente desconversou depressa. Deu um peteleco no globo carmesim e anuiu para si mesma. — Continuando: eu pensei que, sim, seria fantástico irmos até o covil do lindo príncipe, resgatá-lo das garras da morte e trazê-lo para cá, onde viveríamos felizes para sempre e etc., etc... mas cheguei a conclusão de que seria muito mais gentil de nossa parte deixarmos o Loki ser resgatado pelas pessoas que ele realmente quer ver... por isso acho que o plan melhor.
Embora nenhuma delas estivesse disposta a admitir o fato em voz alta, todas sabiam que Loki escolheria mil vezes ser resgatado pelos Vingadores – e ouvir deles próprios que estava perdoado pelos crimes que precisara cometer – do que reencontrar o excêntrico grupo que o ajudara no início de sua jornada. Pessoalmente Viper se sentia muito enciumada com todas aquelas atenções e preferências... mas o que fazer se o homem precisava tanto rever os amigos? O jeito era ter paciência e aguardar a próxima oportunidade.
Sem esperar convite Helena tomou a frente do grupo, alongou os músculos desusados, e esfregou as mãos ansiosamente.
— Por onde começamos?
Empolgada pela resposta positiva Ag jogou o receptáculo para Helena – que o segurou com máximo cuidado – e agarrou os retalhos de tecidos horrorosos que estavam sobre as cadeiras.
— Primeiro, eu preciso que quebrem esse globo. Acho que uma ou duas machadadas dão conta do recado. — anunciou tranquilamente. — Depois disso preciso que March transforme esses tecidos em roupas très chic...
— Sem querer cortar o seu barato e tudo mais, mas... por que? — Leatrice estranhou.
— Porque nós vamos nos apresentar. — a vidente respondeu no mais cínico dos tons.
Torcendo o nariz para o que prometia ser mais um plano maluco criado pela mente distorcida da vidente, Viper arrastou a cadeira para perto do computador e voltou a abrir a caixa de e-mails – talvez fosse uma boa ideia cancelar as reservas para os próximos meses, só por garantia. Escutou a algazarra de vozes estridentes e pedidos contrariados com o esboço de sorriso dançando nos lábios.
Se algum dia Ag criasse um plano simples o mundo acabaria... mas, honestamente, qual era a graça das coisas simples?
Ж
A espaçosa suíte de hóspedes, organizada com o esmero meticuloso de um bibliotecário obcecado, exalava o aroma sutil de flores do campo e cera para móveis; as finas cortinas de linho balançavam ao sabor do vento, lançando fachos de luz ocasionais sobre os livros na mesa de cabeceira. A porta lateral, que levava ao banheiro adjacente, abriu sem fazer alarde e passos suaves, abafados pelo carpete macio, anunciaram o retorno do ocupante do quarto. Recolhendo o primeiro livro que viu à mão – uma gasta edição em capa dura de A Guerra dos Mundos – Tony esboçou um comentário cretino sobre o gosto literário duvidoso de seu hóspede, ao que foi respondido com toda a mordacidade que merecia. O homem avançou para ele num passos arrastado, lentidão justificada pelas bandagens que mantinham o joelho estável e os curativos que lhe envolviam os pés, e estendeu a mão para receber o livro de volta. O sorriso discreto no rosto de Loki era uma das coisas mais agradáveis que Tony já presenciara, especialmente porque isso o fazia sentir que estava tomando a decisão certa.
— Eu tenho uma proposta para você. — afirmou de repente, olhando para o lado, agindo como se não estivesse morto de ansiedade por dentro. Notando que tinha a atenção do deus das trapaças respirou fundo, juntando um pouco mais de coragem, e lançou o grande convite: — Não volte para Asgard. Aconteça o que acontecer, não volte. Fiquei aqui, comigo, com os Vingadores, por quanto tempo quiser. Não somos uma companhia muito saudável, é verdade, mas... bem... fazemos o que podemos.
Ergueu o olhar quase timidamente e se surpreendeu ao ver o choque estampado no rosto pálido. O deus tropeçou nas palavras, aclarou a garganta e, sem nunca desviar o olhar, respondeu o que achava ser verdade:
— Você tem certeza disso, Stark? Sou um causador de problemas, um hipócrita, manipulador, mesquinho...
— E quem não é? — Tony retrucou impaciente. — Eu fui um negociante de armas e por muitos anos não dei a mínima para como minhas criações estavam sendo usadas. Indiretamente sou um assassino, e a maioria das pessoas me considera uma causa perdida. Steve tem um grande coração, e talvez seja o melhor de nós em muitos quesitos, mas ele tem sua cota de mortes para carregar nas costas. Bruce queria recriar uma das descobertas científicas mais importantes de nossa história, isso porque era um ambicioso de escrúpulos duvidosos. E quanto a Clint e Natasha eu nem preciso comentar. Os dois, juntos, tem o histórico mais negro do grupo. Então, você acha mesmo que ligamos para o que você fez no passado? — apertou os ombros do deus e o encarou seriamente. — Loki, tudo o que importa é o que você escolherá fazer no futuro...
Num súbito repelão Tony sentou na cadeira de espaldar alto e olhou em torno como se temesse ver Mephisto[5] em pessoa emergindo das sombras. Tinha o fôlego entrecortado, rápido demais para seu próprio bem, e cada parte de seu corpo parecia dividida entre o agradável torpor do sono e os tremores inquietos do medo. Apesar de sentir os músculos do pescoço enrijecidos, prometendo um bruto torcicolo, ele continuou a esquadrinhar os arredores como se sua vida dependesse disso. Não sabia o motivo, mas algo ali – ou talvez no mundo inteiro – parecia estar fora do lugar.
Parte de seu cérebro, ao menos aquela que conseguira despertar razoavelmente, lhe dizia que as estranhas visões e pensamentos a atormentá-lo eram consequência da bebedeira na noite anterior e que o porre passaria tão logo tomasse uma grande, quente e maravilhosa xícara de café; a outra parte, a que fingia não possuir porque muitas mulheres reivindicam o "sexto sentido" como sendo particular à categoria feminina e não seria ele a contradizê-las, lhe sussurrava persistentemente que aquilo não era um sonho bizarro ou produto da ressaca, que as visões não desapareceriam e que ele não encontraria descanso enquanto não descobrisse a origem daquelas imagens estranhas.
"Devo estar no meio de um surto psicótico ou coisa do tipo. Faz sentido. Estou ficando louco, vendo coisas que não aconteceram e me sentido todo amiguinho de gente que nem gosto. Talvez Doctor Strange[6] tenha mexido onde não devia quando invadiu minha mente... não que eu esteja reclamando, adoro ter minha sanidade de volta, mas ter alucinações do Loki como brinde é... urr! Assustador!", empurrou a cadeira para trás, fazendo menção se levantar, e congelou no meio do movimento. "Não estou alucinando. Alucinações são insanas. Essas imagens... elas são memórias... lembranças de coisas que aconteceram há muito tempo... mas quando? E por que Loki estava lá? Por que eu o convidei a ficar?"
Conforme analisava o cenário à frente, assumindo como ponto de partida o sonho e daí em diante se aprofundando em cada pequeno rastro de memória que conseguia encontrar, Tony se viu bombardeado por situações desconexas e emoções inconfessáveis que simplesmente não faziam sentido. Lembrou-se de coisas relacionadas aos Vingadores originais, algo sobre um plano de combate ao Dr. Doom, uma missão envolvendo Loki e a descoberta revoltante de... De quê? Ele não lembrava. Assim como não se recordava dos motivos para Loki sempre aparecer vestido de múmia, mancando de um jeito que causaria inveja no assistente do Frankenstein. Sentimentos conflitantes – ora cheios de amargura e desespero, ora otimistas e confiantes – causavam impressões tão fortes em Tony que ele quase enlouquecer na procura da resposta. E então reconheceu a paisagem de seus devaneios. Identificou a Torre Stark, mais tarde transformada em sede dos Vingadores e posteriormente destruída pelo ataque de Ultron. Se todos estavam reunidos na Torre, sob sua supervisão, então...
Tony afastou a cadeira num ímpeto brusco e, correndo para os fundos da oficina, começou a vasculhar as prateleiras afastando freneticamente as peças de reposição e engrenagens descartadas que estavam no caminho, ignorando o rastro de caos que deixava para trás e o barulho estrondoso das placas de metal atiradas ao chão.
Retirando a maior parte do entulho encontrou uma caixa de papelão mediana, nada espetacular, onde guardava os discos rígidos de todos os protótipos de Inteligência Artificial que criara nos últimos anos. O material estava incompleto. O banco de dados principal se encontrava disperso na rede, criptografado em linhas de comando que apenas os respectivos AI's eram capazes de acessar; bastava acionar a programação primitiva – salva nos discos rígidos – que as máquinas inicializavam as diretrizes de base, atualizavam o banco de dados geral e, a partir desse ponto, funcionavam como sempre. Codificar o sistema e dispersá-lo na web se revelou bastante prático quando Tony se viu obrigado a adotar uma vida nômade, sendo particularmente útil no momento em que conseguiu ser expulso do quartel dos Vingadores, e agora parecia ser sua melhor chance de obter uma resposta sobre o passado.
"Eu sei que você está aqui... vamos, seja legal e venha com o papai... Ah!" com um grunhido de satisfação Tony puxou um drive simples, menor que um HD externo padrão, e estudou a casca externa, conferindo de havia algum dano aparente. Nada. Tudo em ordem. Até as letras garrafais, coloridas em vermelho e amarelo, continuavam intactas.
— Olá, Jarvis. — cumprimentou com um pequeno sorriso.
Desde a quase aniquilação mundial envolvendo um Ultron muito zangado e uma cidade europeia despencando dos céus sem controle Tony decidira não mais acessar Jarvis. Em primeiro lugar, era mortalmente constrangedor conversar com Visão imaginando que parte do banco de dados de seu AI particular podia estar gravado na memória do sintozóide, e que o maldito conhecia todos os seus segredinhos mais podres. Em segundo, ele não precisava de duas máquinas chiando em seus ouvidos cada vez que fizesse uma bobagem tremendamente perigosa. Simples assim. E em terceiro, Jarvis podia ser sua criação, seu mordomo virtual e guarda-costas sem corpo, mas acima de tudo ele era seu "grilo falante" particular. Tony sempre pensara nele como uma segunda consciência e depois do que fizera, dos erros que cometera, sentira-se com pouco mérito para lidar com sua própria invenção.
— Preciso tirar você da rede, Charlie. — anunciou para o alto.
Os microfones instalados no teto captaram o áudio e, com um atraso considerável no processamento, a máquina ativa respondeu:
— Por que, meu brother? Problemas?
— Não, sem problemas. — respondeu depressa. Da última vez que admitiu estar com "problemas" Charlie lançou suas fotos particulares em dezenas de perfis de encontro, argumentando que Tony precisava "se amarrar" em alguém. A partir de então, perto de Charlie, ele nunca tinha problemas.
— Mas cê parece que levou o mó caldo, brother. — discretamente o bilionário franziu as sobrancelhas. De quem foi mesmo a ideia brilhante de implantar uma personalidade surfista em seu AI?
— Não dormi noite passada. — mentiu. Checou o painel de controle onde o drive estava instalado e iniciou o código de remoção. — Boa noite, amigo.
— Cê que sabe, brother. Se precisar conheço umas paradas cabulosas...
Para consolação de Tony a voz de Charlie morreu lentamente, desaparecendo na oficina espaçosa como o sussurro distante de um fantasma. Franzindo a testa – fingindo não estar curioso sobre o tipo de "paradas cabulosas" que seu nada sensato AI poderia sugerir – ele colocou o drive de Jarvis no lugar e digitou a senha de inicialização. Não demorou muito para que a programação atualizasse e o sistema respondesse. O painel de controle ganhou vida, colorindo-se de laranja e amarelo enquanto a programação corria e testava os componentes da máquina. Com um pequeno sorriso Tony apoiou o quadril na bancada de trabalho e cruzou os braços.
— Bom dia, Sr. Stark. Em que posso ajudá-lo? — o cumprimento de Jarvis, cheio daquela impessoalidade tranquila que lhe era característica arrancou um suspiro de alívio do bilionário.
— É bom ouvir sua voz outra vez, meu amigo.
— Também estou feliz pela sua decisão de me ativar novamente, senhor. — não havia um grama de ressentimento no comentário de Jarvis, mas mesmo assim Tony estremeceu. — Vejo que não estamos na Torre.
— Não, não estamos.
— Os Vingadores se dispersaram. — aquela foi uma constatação óbvia já que o AI tinha acesso a toda sorte de informações sobre a cisão do grupo. — O Sr. Loki causou muitos problemas.
A observação casual fez Tony erguer o olhar depressa.
— Jarvis, desde quando você trata Loki como "Sr. Loki"?
— Desde sua estadia na Torre, senhor. Recebi instruções claras para não tratá-lo por "Odinson" ou "Laufeyson".
— Quem lhe deu essas instruções?
— O senhor.
Se uma pedra de duas toneladas tivesse caído sobre o estômago de Tony o efeito teria sido menos devastador. Se pensasse no que sabia e comparasse com o que não sabia era capaz de perceber que sempre houve uma lacuna em suas memórias. Existia um grande vazio entre a chegada de Loki à Terra e sua subsequente partida como foragido da lei, uma brecha que agora, lentamente, estava sendo preenchida por esses flashbacks aleatórios.
— Por quanto tempo o "Sr. Loki" esteve na minha Torre?
— Aproximadamente dois meses, senhor. — o AI respondeu prontamente.
Dois meses! Ele havia perdido dois meses?!
— Eu não me lembro de nada, Jarvis. — admitiu. Sentia como se estivesse afundando na areia movediça. — Quero dizer... lembro de umas coisas estranhas que não fazem o menor sentido... eu não sei se são sonhos ou... eu não quero que sejam verdade, Jarvis.
— O senhor sofreu um lapso?
— Eu... É, algo assim.
— Isso explica porque não consultou meus relatórios sobre Loki nos últimos anos, nem tentou encontrá-lo quando soube de sua presença na Terra, e porque tentou seriamente matá-lo nos últimos combates. — cada afirmativa era um golpe certeiro, esfacelando as forças do bilionário, fazendo-o duvidar de suas maiores certezas. Alheio à profunda consternação de seu criador Jarvis seguiu adiante: — Os primeiros relatórios são bastante desagradáveis, devo dizer. O senhor não gostou deles antes, duvido que vá apreciá-los agora. As gravações também estão funcionais, caso queira conferi-las. Os balanços mais recentes são curiosos. O comportamento do Sr. Loki se tornou bastante errático nos últimos anos, mas sua saúde física melhorou supreendentemente, considerando os danos anteriores. Sua saúde mental é algo que não me atrevo a explorar. O senhor deseja ver o material agora?
Tremendo da cabeça aos pés Tony se esforçou para manter a postura tranquila. O pânico gelado gradativamente foi substituído pela raiva borbulhante, depois veio o desespero profundo que deixou para trás apenas um grande e inexplicável vazio. Fracasso. Ele sentia que tinha fracassado novamente. "Quem foi o filho da puta que mexeu nas minhas memórias?!", queria gritar. Loki, Wanda, Strange. Tantas possibilidades lhe passaram pela cabeça. Ao invés de amaldiçoar o nome de cada um deles deu um passo a frente e acenou para a tela vazia do painel de comando.
— Mostre seus arquivos, Jarvis.
Ж
Puxando o capuz do moletom para se proteger das rajadas de vento cortante Nick Fury digitou o último conjunto de coordenadas no celular e enviou a mensagem de texto para o número que Natasha Romanoff lhe fornecera dias antes. Caso o governo ainda estivesse rastreando as linhas telefônicas encontraria em seus registro o inocente recado de Clarence Hall, o proprietário de um canil na parte baixa de West Valley City, para a gentil Janine Madox, uma cuidadora de cães que morava na área leste de Salt Lake City, esclarecendo algumas questões simples sobre os pesos e valores de rações para cães de grande e pequeno porte.
Contemplando a paisagem congelada o velho coronel se perguntou quanto tempo levaria para os capangas de Washington perceberem que os números fornecidos não batiam com nenhuma tabela de rações conhecida no país e que o Sr. Clarence Hall se encontrava demasiado distante de sua residência em West Valley. Ele provavelmente tinha mais três ou quatro minutos antes de o governo rastrear o número, triangular sua posição e enviar um comboio de soldados em seu encalço... era tempo mais que suficiente.
A resposta de Natasha chegou de imediato.
Os cães acabam com td em 5 min. Ñ é grande negócio afrouxar a forquilha.
Que, em outras palavras, significava: "Chegarei em 5 minutos. Estou acompanhada. Destrua seu telefone, eles ainda estão vigiando".
Franzindo os lábios num esgar desafiante Fury apalpou os bolsos do casaco até encontrar o frasquinho com ácido sulfúrico que sempre carregava consigo para casos de emergência. Considerando seus padrões pessoais — onde dentes postiços cheios de cianureto eram perfeitamente aceitáveis, e as solas dos sapatos tinham de conter C4 em pasta ou no mínimo lâminas retráteis funcionais — manter pequenas doses de produtos químicos altamente corrosivos à mão representava o básico do seu quite de sobrevivência clandestina.
É como dizem, os velhos hábitos são os mais difíceis de perder.
Seguindo o costumeiro ritual de segurança Fury removeu a bateria do celular — guardando-a num bolso à parte, caso precisasse explodir alguma coisa mais tarde — e largou as peças restantes do aparelho no chão coberto de neve. Derramou o conteúdo do frasco sobre as partes principais e afastou-se para uma zona segura, apenas por garantia. No momento essa era a maneira mais eficiente que conhecia para se desfazer de aparelhos eletrônicos sem deixar rastros.
Friccionando as mãos na esperança de trazer algum calor aos dedos gelados, ele saiu da Long Meadow Lake Trail e seguiu reto para o sul, em direção ao lago, parando apenas ao avistar as ruínas de uma antiga casa de caça abandonada. Três paredes ainda resistiam bravamente ao clima severo e o assoalho, se houvesse algum, estava soterrado por uma camada espeça de neve. A construção de tijolos que outrora servira de abrigo aos caçadores agora jazia no meio do nada, abandonada e congelada no tempo, as paredes tomadas pelo musgo e esburacadas pelas chuvas forneciam pouca proteção. Era impossível enxergar àquela distância, mas o coronel sabia que a Interestadual 494 se encontrava a alguns quilômetros ao norte e que a oeste estava o Hilton Minneapolis, uma sólida construção de concreto e vidro cercada por um estacionamento monstruoso. Entre sua posição atual, naquele descampado, e a entrada do Minnesota Valley National Wildlife Refuge[7] havia uma distância de quase um quilometro e meio. Um quilômetro e meio de terra hostil, livre da presença humana.
Desnecessário dizer que esse último aspecto é que tornou o refúgio tão conveniente às excêntricas necessidades do coronel. Se durante boa parte do ano o local funcionava como projeto de preservação ambiental, abrigando os mais variados espécimes animais e recebendo os mais diversos tipos de visitantes; no inverno o vale se transformava num gigantesco cemitério branco, perigoso demais para os campistas frequentarem e excessivamente desagradável para os próprios funcionários vistoriarem a área. O lugar perfeito para alguém como Fury esconder um bunker.
Resistindo às brutais rajadas de vento, atuando como se não sentisse a friagem se insinuar através de suas roupas e mordiscar sua pele, o ex-diretor da S.H.I.E.L.D. seguiu em frente, entrando nos restos decadentes da casa de campo. Por instantes parou à soleira da porta, calçou um segundo par de luvas e, contando cinco passos para a esquerda, começou a cavar a neve o mais depressa que podia. A tarefa se revelou mais exaustiva que o esperado, com as camadas mais profundas compactadas e enrijecidas pelo tempo, mas eventualmente Fury conseguiu abrir um pequeno caminho até o pavimento abaixo. A visão do assoalho amarelo-acinzentado desgastado pela exposição constante ao clima indócil da região arrancou o primeiro sorriso honesto do coronel.
Ergueu o olhar para os céus, na esperança de avistar o sol da tarde, mas se deparou com o cinza chumbo inclemente das nuvens acima. Vistoriou a trilha que levava a casa e meneou a cabeça com desânimo. Ele só podia torcer para Natasha encontrar o caminho antes de a tempestade cair.
Sacou a faca de caça que trazia presa ao cinto e, usando a lâmina como alavanca, despregou e removeu a maior parte dos ladrilhos que estavam visíveis. Um painel de metal fosco, equipado com um leitor biométrico, o saudou tão logo removeu a última peça de madeira; e, sem querer perder tempo, Fury tirou as luvas e estendeu a mão sobre a tela cristal fria. Nada aconteceu.
— Que diabos... — resmungou para si mesmo. Esfregou as mãos e tentou mais uma vez, agora pressionando com mais força o leitor. — Você não quer fazer isso do jeito difícil, quer?
Como se reagisse à sua ameaça o chão vibrou intensamente e o ranger das engrenagens no subsolo estrondearam floresta adentro. O coronel torceu os lábios num sorriso escarnecedor.
— Imaginei que não. — calçou as luvas novamente.
A poucos metros de distância, onde outrora talvez estivesse a sala de jantar, a grossa camada de neve sacudiu e esfacelou conforme a plataforma oculta baixava para o interior da terra. Abanando os flocos de neve que grudavam em suas roupas Fury marchou para a entrada da passagem subterrânea.
O bunker continuava exatamente como ele se lembrava de tê-lo deixado: sombrio, desolado e com tanta umidade que os pulmões pareciam encharcar a cada fôlego. As grossas paredes revestidas de chumbo absorviam a luz e o ar pesado, saturando pelas décadas de confinamento, escapou para o alto numa baforada morna atordoante. Por instantes o velho coronel teve a sensação de estar vendo uma besta sonolenta despertar, bocejando preguiçosamente para o mundo exterior, e estremeceu ao dar-se conta de que estava prestes a entrar naquele mar de sombras.
"Pelo amor de Deus! Eu construí esse maldito bunker, não vou ficar com medo dele agora!" disse a si mesmo com toda a veemência que podia empregar. Um ronco baixo veio das profundezas da terra e Fury se flagrou recuando, ansioso por dar meia volta e fugir dali o mais depressa possível. Só que ele não podia voltar atrás, não se quisesse uma resposta para as datas desconexas em seus arquivos ou uma explicação para os sonhos que ele e seus agentes mais antigos vinham tendo nas últimas semanas. Ele devia isso aos seus companheiros... e devia a si mesmo.
Espanando a neve dos ombros Fury desceu as escadas e lutou contra o impulso crescente de olhar para trás. Conforme avançava, seus passos ecoando amplamente no recinto cavernoso, as luzes nos spots embutidos nas paredes acendiam. As lâmpadas menos resistentes emitiam um zumbido baixo e longo antes de se apagarem com um clarão, as outras brilhavam debilmente, pouco fazendo em favor do visitante além de lançar sombras estranhas nas paredes.
Próximo ao fim do corredor o coronel virou à direita e abriu uma pesada porta de aço avistando o formato indistinto de um conjunto de escadas que desaparecia na escuridão abaixo. Deixando a porta aberta ao passar, já que Natasha precisaria saber qual caminho tomar para encontrá-lo, Fury começou a descer as escadas. Indiferente aos rangidos da estrutura metálica sob seus pés e fazendo pouco caso do número reduzido de luzes a clarear sua passagem, ele cruzou os quatro lances de escada em tempo recorde chegando a uma segunda porta de metal. Retirou as luvas mais uma vez e estendeu a mão para o scanner biométrico. O mecanismo respondeu estalando baixinho, parou e então destravou a porta, liberando a passagem.
Crispando os lábios numa carranca desgostosa, fulminando a escuridão com seu único olho, o coronel aprumou a coluna e avançou para dentro do recinto. As luzes acenderam obedientemente, lançando um brilho pálido sobre o cubo negro no centro da saleta. Fury parou. Sua postura era rígida, calculada, enquanto ele examinava a misteriosa caixa negra como se estivesse diante de seu nêmesis pessoal.
A Caixa Tetra, como os agentes veteranos costumavam chamá-la, gerou incontáveis teorias conspiratórias durante os anos em que permaneceu na S.H.I.E.L.D. Suposições infundadas e especulações duvidosas nasceram e desapareceram nos corredores de Helicarrier descontroladamente, criando uma mística que chegou quase ao nível do fanatismo sobre a máquina, até o coronel decidir que já bastava daquela bobagem insana e ocultar a Caixa em seu bunker particular.
A boataria a respeito do supercomputador podia ter minguado, caindo no esquecimento a que todas as coisas estão fadadas, mas as perguntas continuavam ali, insondáveis e inexoráveis como a própria morte.
Quem criou o Caixa? Qual o seu propósito? De onde veio essa tecnologia? Qual o objetivo de seu criador? Como a máquina chegou à Helicarrier? Quem transferiu os arquivos da S.H.I.E.L.D. para o cubo?
Ninguém sabia a resposta... Até agora.
"Sempre há um plano maior para cada pequena coisa", o ex-diretor meditou acidamente, seu olho bom esquadrinhando a estrutura cúbica como se quisesse entender a razão de sua existência apenas contemplando-a — ou, e isso era o mais provável, desejando que a máquina entrasse em combustão instantânea sob o peso de seu olhar. Ele odiava o supercomputador. Ver aquela monstruosidade e vislumbrar o fundamento de seu propósito o fazia sentir-se inútil, um joguete simplório nas mãos de forças superiores desconhecidas, e isso Fury não podia perdoar.
Jamais lhe ocorrera que a Caixa Tetra fosse uma "compensação" pelos danos materiais causados por uma invasora anônima — uma mulher aparentemente invulnerável, avessa à violência desnecessária e com o poder de desaparecer em pleno ar —, assim como nunca lhe passara pela cabeça que o propósito da intrusa fosse interferir em suas investigações sobre as ações de Victor Von Doom, abrindo espaço para o ataque massivo à Torre Stark.
Essa falha imperdoável em seu raciocínio não era sua culpa, no entanto. Por anos ele tateou na escuridão, cego e alheio aos pequenos eventos que poderiam tê-lo guiado para a verdade. Mas o que mais poderia ter feito? Sem suas memórias para guiá-lo, sem saber onde procurar pistas — e sem saber que haviam pistas a serem seguidas —, ele se viu obrigado a aceitar a realidade que via como única assertiva concreta.
Ou talvez fosse essa a mentira que queria contar a si mesmo.
Coulson sempre pressentiu que algo estava fora do lugar nessa história, por anos tentou convencer Fury e outros agentes de que aqueles misteriosos dois meses perdidos precisavam ser investigados. Seus apelos, evidentemente, caíram em ouvidos surdos e aos poucos o próprio Phil desistiu da batalha. Agora o coronel percebia que devia ter dado mais atenção aos comentários do amigo sobre o diretório que a Caixa Tetra insistia em manter criptografado. Aquela única e inexplicável pasta de arquivos que continuava inacessível.
O murmurinho indistinto de vozes e o barulho cadenciado de botas contra o metal atraiu a atenção de Fury e prontamente o coronel deu as costas à Caixa, enfiando a mão bolso interno do casaco onde um rasgo mínimo no forro lhe permitia alcançar o detonador que poria o bunker abaixo. A tensão o deixou somente ao avistar os cabelos ruivos de Natasha Romanoff e a expressão severa que sempre estivera no rosto de Clint Barton — e que ele parecia ter aperfeiçoado após sua aposentadoria. Além deles Fury identificou o rosto normalmente inquieto de Bruce Banner e a carranca desgostosa de Steve Rogers.
— Quantos bunkers você tem afinal? — o Capitão perguntou aborrecido.
— Não o bastante, eu diria. — tranquilamente Fury tirou a mão do bolso. — E não me lembro de você reclamar sobre meus bunkers quando o salvei do Homem-de-Ferro.
— Se a memória não me falha você pagou um maluco homicida para atirar em mim. — retrucou com amargura.
Embora o soro tenha salvado sua vida no último minuto Steve ainda achava difícil esquecer a sensação lancinante da bala estraçalhando sua carne, do sangue escapando de suas veias e de como seu coração quase foi atingido nessa brincadeira. Ele preferia mil vezes agradecer à sua boa sorte a acreditar nas boas intenções do coronel.
— Quer maneira mais eficiente de continuar vivo que fazer o mundo acreditar que está morto? — Fury deu de ombros. — Isso funciona muito bem para mim.
O soldado abriu a boca, pronto para protestar, quando Bruce tomou a frente atropelando as palavras em sua ansiedade de falar:
— Você sabe... sabe mesmo... a origem dessas... desses pesadelos?
Bastou passar uma rápida vista no grupo de heróis para Fury reconhecer os mesmos sintomas que vinham atormentando tanto a ele quanto aos seus agentes nas últimas 72 horas. A ansiedade incontrolável, o cansaço persistente, os pesadelos constantes a cada cochilo e as visões... Deus, as visões eram o pior.
— Se estão vendo o mesmo que eu, então vocês já deviam saber quem é a origem desses "sonhos". — a afirmação incisiva de Fury fez o grupo se remexer desconfortavelmente.
— Loki. — Steve crispou os lábios. — Mas não faz sentido. Por que ele tentaria nos fazer acreditar que éramos amigos? E depois de tudo o que ele fez...
— Eu não creio que ele esteja interessado em nos fazer acreditar em qualquer coisa no momento, Rogers. — dito isso o coronel se afastou do quarteto, caminhando lentamente até o cubo negro no meio da sala. — Talvez ele nem saiba o que está acontecendo...
— Espere aí, Fury! — Natasha avançou, decidida e mal-humorada. — Você acabou de dizer que Loki era a origem desses pesadelos...
— Certo... Só que eu nunca disse que ele era a causa.
A expressão fechada no rosto do arqueiro se tornou ainda mais grave quando ele franziu os lábios num rosnado surdo; ao lado dele o Capitão cruzara os braços e exibia uma expressão tanto contrariada quanto frustrada. O cientista, parado atrás dos dois, não ensaiava qualquer reação além de massagear distraidamente as têmporas na esperança de afastar a dor de cabeça — e isso, no caso de Bruce, era um gesto bastante preocupante. Dentre eles a menos inquieta era a assassina, jogos de palavras, por mais irritantes que fossem, faziam parte de seu trabalho.
— E você conhece a causa? — Natasha indagou desafiadoramente.
— Não realmente. — o coronel não pôde evitar rir ao ouvir os xingamentos furiosos dos heróis. — No entanto... eu talvez saiba quem pode explicar o quê nós estamos vendo.
— Quem? — Steve instou.
— A Caixa. — nisso Fury indicou supercomputador.
— Mais um dos seus brinquedinhos? — o soldado zombou.
— Quem sabe. — descartou com um dar de ombros. — Computador, aqui é Nick Fury. — anunciou em voz alta.
Em resposta a máquina zumbiu baixinho enquanto a tela holográfica surgia acima do cubo.
Bem vindo, Nick Fury, em que posso ajudar?
— Computador, exiba todos os arquivos relativos à Loki de Asgard.
Obedientemente a Caixa Tetra aceitou o comando e exibiu na tela todos os diretórios relacionados ao deus das trapaças. A maioria dos arquivos era familiar ao coronel e forneciam dados básicos sobre a fisiologia asgardiana — mais tarde atualizada para "fisiologia jotun" —, fichas com informações detalhadas sobre técnicas e habilidades conhecidas, pontos fracos possíveis e a cronologia de cada batalha detalhadamente descrita. Contudo a única coisa que lhes interessava no momento era a pasta LOKI 2.0 que só poderia ser acessada com uma senha... uma que ninguém dentro ou fora da S.H.I.E.L.D. sabia.
Até agora.
Sob a pálida luz verde da tela holográfica os quatro heróis se aproximaram do ex-diretor e assistiram, juntos, o inexorável desenrolar da pesquisa. Viam números e estatísticas, diretórios e pastas, fotos aleatórias e recortes de jornal. Lentamente a ansiedade crescia junto a uma sensação inquietante de que, fosse o que fosse que Fury tinha a lhes mostrar, eles não iriam gostar.
Finalmente a última pasta surgiu na tela, encerrando a busca com um bip agradável.
Fury moveu os pés, desconfortável com o silêncio.
— Computador, acesse LOKI 2.0.
A resposta foi imediata:
Entre com a senha.
— Informe dica de senha.
Quando nos reunimos, como amigos, pela última vez?
Saber a resposta da pergunta o fez engasgar, surpreendido por um súbito nó na garganta. Isso porque dessa vez ele se lembrava de um quadro diferente. Dessa vez ele via os Vingadores originais parados no deque da fortaleza, cabeças baixas, roupas rasgadas, sem orgulho ou coragem, e via Thor aos prantos apertando nos braços o que parecia ser um corpo sem vida. O céu estava nublado e a chuva se misturava ao choro.
— 4 de Setembro. — Fury respondeu com uma voz que mal parecia a sua.
Acesso permitido.
Bem-vindos ao banco de dados sobre Loki e sua estadia na Torre Stark.
O que desejam saber?
Dessa vez o velho coronel não encontrou forças para falar. Finalmente compreendia o motivo de ter hesitado em entrar no bunker sozinho, porque precisara tão desesperadamente contatar Natasha e atraí-la até lá: ele tinha medo, medo do que a Caixa revelaria. E ele teria permanecido em silêncio pelo resto da eternidade se a voz de Clint, baixa e decidida, não tivesse rompido a escuridão:
— Nós queremos a verdade.
Ж
Ela não conseguia respirar. As lufadas de ar morno adentravam pelas janelas, vindas das cordilheiras ao norte, mas eram incapazes de acalmar seu coração torturado. Fugir para a sacada, quase se jogando parapeito abaixo, também não ajudou a acalmá-la. Insensível ao toque do vento, cega pelo desespero, sentia o corpo lutar em vão para recuperar o fôlego enquanto ao longe os campos de trigo ondulavam placidamente, destacando os clarões pálidos das janelas de vidro e as gloriosas torres brancas da Nova Asgard. Nada ali, porém, parecia capaz de serenar o espírito ou poupá-la do horror.
Debruçada sobre o peitoril de aço, ofegando dolorosamente, a deusa ignorou as lágrimas derramadas, os soluços alquebrados e os lamentos ininteligíveis que murmurava. Tudo que sabia — tudo que era capaz de entender no momento — se resumia a agonia indescritível que a dominava. Sentia-se ferida, como se algo dentro dela sangrasse, gemesse e se retorcesse, esvaindo-se lentamente até restar o silêncio oco e frio. Queria lutar, fugir, negar, qualquer coisa!, menos admitir o que sabia ser verdade... pois nada podia ser mais atroz para uma mãe do que se descobrir falhando monumentalmente com os próprios filhos.
E ela falhara.
Duas vezes.
"A culpa é minha! A culpa é toda minha! O que eu fiz?! Oh, meus queridos, o que fiz a vocês?" os lamentos espocavam em sua alma, se aglutinavam na garganta e morriam antes de cruzarem a linha dos lábios. Que direito tinha ela de implorar perdão? Nenhum! Não depois de fazer aquele acordo, de se deixar enganar por um feitiço, de instigar a guerra contra Loki e descumprir suas promessas.
Sofreu em silêncio, sem ousar pedir ou esperar clemência, amortecida pela culpa.
Veio-lhe à mente cada palavra cruel que proferira; cada sentimento aversivo e vicioso que cultivara; cada gota de sangue que assistira ser derramada... Mas acima de tudo ela se lembrou do sorriso. O sorriso enviesado, meio riso meio choro, que frequentemente surgia no rosto de Loki no fim das batalhas.
Estava tudo tão claro agora.
Os estratagemas confusos que beneficiavam Thor das maneiras mais imprevisíveis, as gentilezas inesperadas e súbitos surtos de boa vontade que os salvavam de problemas maiores, até mesmo a luta encarniçada que arruinara Asgard teve seu lado bom ao libertá-los do controle doentio dos Deuses Antigos. Atos inexplicáveis, indícios sutis. No fim todos os caminhos levavam a um único destino, apontavam para um único propósito, e eles — ela em especial — cegos e tolos, ignoraram todos os pequenos fatos em prol de ver apenas o que queriam ver.
Era óbvia a interferência dos dedinhos pegajosos da Sweet Poison nas partes mais obscuras da história — em particular no que concernia às memórias roubadas e sua repentina devolução —, todavia Frigga reconhecia que "as alfaiates" tinham pouca culpa naquela babel de infortúnios. Se quisessem teriam notado os pequenos sinais, teriam questionado e investigado mais... mas eles prefeririam perder a fé em Loki. De novo.
Fracassos e enganos se entrelaçavam gerando a mais arrasadora das acusações.
— Oh, Loki... meu pequeno e doce Loki... — ergueu os olhos para os céus, buscando a consolação que imaginava não merecer, e se surpreendeu ao descobrir o azul-cerúleo cristalino engolido pelas nuvens cinza-chumbo.
Frigga quase não sentiu os primeiros respingos da chuva, mas logo a garoa lenta se transformou numa torrente incontrolável, furiosa e selvagem. Os ventos cortantes mordiscavam a pele exposta e quando os raios cortaram o horizonte, seguidos por trovões estrondosos, ela percebeu que não era a única a sofrer.
Como se respondesse a um chamado silencioso as finas portas de aço polido foram abertas de par em par e Thor entrou no quarto parecendo tão turbulento quanto a própria tempestade. A longa capa vermelha esvoaçando às suas costas — resquício dos tempos de glória da velha Asgard — e a armadura parcialmente removida lhe diziam que Thor estivera adestrando novos recrutas no pátio de treinamento ou, no mínimo, patrulhando as novas fronteiras, antes de ser surpreendido pelo retorno súbito de suas lembranças.
O assombro no rosto franco do jovem deus era familiar demais e a rainha precisou de todas as forças para se manter firme.
— O que está acontecendo, mãe? — pediu numa voz rasgada. — Que visões são essas? Que tipo de bruxaria...
A deusa saiu da tempestade, oferecendo um sorriso desolado ao filho.
— Sortilégios e maldições são coisas fáceis de resolver, Thor. — não sabia se era o banho de água fria ou a culpa crescente que a fazia tremer, mas sentia seus dentes começando a castanholar. — No entanto, tudo o que está vendo, meu filho, são suas memórias. Estão sendo devolvidas.
— Minhas memórias...? — repetiu confuso.
Viu-o franzir as sobrancelhas, juntando as peças daquele confuso quebra-cabeça, e não demorou muito para que percebesse o sentido macabro daquela constatação aparentemente inocente. Thor empalideceu, cambaleou para trás e fixou em Frigga um dos olhares mais sofridos e angustiados que a deusa já tivera o azar de enfrentar.
— NÃO! — negou furiosamente.
— Thor...
— Não é real... nada disso é real...
— Thor. — ela implorou.
— Ele me odeia, sempre odiou, e deixou isso muito claro nos últimos anos. Nunca houve esperanças quanto a isso e nem houve a menor chance de ele mudar. Essa é a verdade... por favor, diga que essa é a verdade... — quanto mais profundo se tornava o silêncio da deusa maior era o terror que o consumia, e quando enfim a convicção de Thor quebrou o deus desabou se joelhos. — Eu tentei... eu realmente quis matar Loki... e quase o fiz. — o brilho desvairado nos olhos claros esfacelou o coração de Frigga. — E eu prometi... jurei por tudo que amava que nunca mais permitiria que ele fosse ferido... mas fui eu quem ergueu a mão contra ele. Fui eu e eu quis!
As últimas palavras se transformaram num grunhido furioso enquanto ele, debruçado sobre si mesmo, esmurrava o chão com todas as forças.
— Também fiz uma promessa, Thor. — afirmou vagarosamente, quase distraída, recordando da resolução que a movera antes e rezando para encontrar essa mesma força mais uma vez. — Jurei que vingaria Loki e faria justiça em seu nome... mas tudo que consegui foi atrair mais ruína e dor à nossa casa. Ambos falhamos.
O tempo abrandou. Os trovões se tornaram ecos abafados; os relâmpagos, reflexos indistintos. E embora o temporal insistisse em afogar cada criatura viva nas proximidades num desaguar inclemente nenhum dos deuses ousou se mover.
— Vou encontrá-lo. — a voz de Thor, rouca e grave, trazia uma nota determinada, régia e firme, como ela jamais ouvira antes. — E quando eu o encontrar vou enfiar algum juízo naquela cabeça teimosa, vou arrastá-lo para casa... e nunca mais vou perdê-lo de vista. — levantou-se, solene, apertando o cabo de Mjölnir entre os dedos calejados.
Para Frigga o homem que se erguia não era um reles príncipe nobre ou um rei assoberbado com responsabilidades, mas um deus — um legítimo deus — que jamais se renderia às adversidades ou se permitiria fracassar em seus intentos, que traria de volta seu filho perdido e, de algum jeito, consertaria aquilo que ela deixara quebrar. Vendo-o assim, sem hesitação, perguntou-se se poderia de fato ter esperanças. Tinha muita fé em Thor, verdade, no entanto querer que as coisas fossem melhores a partir de agora não era abusar da sorte?
Nesse momento, enquanto os estrondos dos trovões morriam à distância e os lampejos finais dos raios cortavam o firmamento, lançando sombras fantasmagóricas nas paredes caiadas, a rainha flagrou uma terceira presença no quarto — frágil como um sussurro — e sentiu que quem quer que fosse o intruso não queria ser notado e estava próximo demais para seu próprio bem. Bastou uma fração se segundos, uma breve troca de olhares com o filho, para que ela girasse sobre os calcanhares e puxasse a adaga de estimação da cintura ao mesmo tempo em que Thor desprendia o martelo de guerra e avançava para tomar sua defesa.
Postados lado a lado eles formavam uma visão deveras intimidante, digna de nota em qualquer registro histórico, e mesmo assim a garota à soleira da janela parecia pouco ou nada impressionada pela ameaça crua de dois deuses guerreiros prontos para atacar. Na verdade a mocinha lhes sorriu carinhosamente antes de fazer uma reverência discreta.
— Drica, aos seus serviços. — apresentou-se confiante e, com um olhar incisivo, acrescentou: — Trago notícias de Loki.
Pego de surpresa Thor conteve a respiração e baixou o martelo de guerra quase que de imediato. A esperança que nutria na desconhecida, tão franca e apaixonada, chegava a ser dolorosa de assistir. Frigga, por ouro lado, firmou o aperto no cabo da adaga e tencionou o corpo, pronta para atacar. Se Drica pertencia à Sweet Poison — era esta sua base de suposição — e estava ali, então coisas catastróficas certamente iriam acontecer.
— Nosso acordo chegou ao fim, e todas as dívidas estão quitadas. Já não há motivo para lamentações e mentiras, nem para guerra e rancor. O que foi tomado deve ser restituído e os laços rompidos, renovados. — como o esperado as palavras enigmáticas desnortearam Thor e enviaram Frigga a um frenesi de emoções desencontradas. — É tempo de Loki voltar para casa e viver em paz. Ele está escondido nos ramos mais profundos de Yggdrasil, numa região pouco afetada pelas guerras entre mundos. Dir-lhes-ei como encontrá-lo... e então devem buscá-lo o mais rápido possível.
Havia um aviso sinistro nas últimas palavras, um sentido oculto macabro, que seu coração captou antes de sua mente e fez a rainha estremecer e arrepiar de medo.
— Por quê? Por que é tão urgente encontrá-lo? Por que ele não vem até nós? — Thor avançou, impaciente.
Drica balançou a cabeça, profundamente consternada, e lutou para manter-se firme. Os cabelos escuros, adornados com flores silvestres, ressaltaram a melancolia em seu olhar e lágrimas cristalinas ameaçaram cair.
— Loki está morrendo e vai usar minha magia, a magia de minhas irmãs e amigas, para se matar. E isso dói. Dói muito. — suspirou. — Vocês podem salvá-lo. Sempre puderam. Então, me digam, você querem Loki de volta ou não?
O sangue nas veias de Frigga pulsou furiosamente.
E por acaso havia dúvidas quanto à sua resposta?
Ж
No pátio interno do castelo, onde a grama macia ainda cintilava com o orvalho da tempestade e o ar carregava aquele sutil aroma de terra molhada, Odin sentou pesadamente no banco de madeira sob o caramanchão e, estremecendo vez ou outra, lutou para conter o pesar enlouquecedor que vinha ameaçando sua sanidade. Não muito longe dali, na fonte de mármore rodeada por esculturas de arenito, o sol do fim da tarde lançava reflexos tremeluzentes nas paredes, um jogo hipnótico de luzes que o velho deus acompanhava cegamente. Não sentia as gotículas de água que deslizavam pelas pétalas das glicínias e caiam em seus ombros, nem se importava com a umidade que atravessava as roupas e enregelava seus ossos. A presença inocente dos pássaros nos galhos do salgueiro, o límpido céu azul acima e a agitação tranquila dos empregados em serviços, toda aquela rotina imutável azedou o humor do antigo rei.
Os grandes senhores de Asgard, com seus preciosos salões dourados e sua lendária bravura frente à batalha, desapareceram de repente, numa única noite de terror, devorados pelas sombras, fogo e gelo. Os Antigos, governadores ocultos da vida e da morte, senhores dos destinos de cada homem e mulher vivente naquele reino, ergueram-se mais uma vez e, rugindo injúrias para os quatro cantos do mundo, anunciaram a derrocada final do outrora glorioso Reino Eterno.
Ao sul Hela estendia seu reino gelado, no norte Surtur incendiava a terra, os uivos de Fenrir rasgavam o firmamento e, sob pés de todos, Jörmungandr[1] cavava seu caminho.
E apenas três deuses ousavam resistir.
Dois deles prontos para lutar.
Um pronto para morrer.
Assustados pela chegada de um novo intruso nos jardins os pássaros voejaram para longe, ignorando o abrigo das árvores e já esquecidos da boa comida que lá encontravam. Restou o murmúrio da fonte e o ciciar do vento nas paredes.
Sem proferir uma única palavra, apenas juntando as mãos no colo para esconder as unhas roídas pela ansiedade, Frigga sentou ao lado do marido e acompanhou, com olhos cansados e cheios de pesares, a dança inquieta das águas lucilantes.
E assim como ela respeitou seu silêncio ele estendeu a mesma cortesia à esposa.
Afinal, eles tinham muito em que pensar.
A ventania se tornou uma foice impiedosa para os vivos. Fria demais, afiada demais. Nas ruas e travessas os corpos mutilados formavam um tapete informe, sangrento, que se estendia para além do horizonte. Guerreiros e valquírias, gigantes de gelo e fogo, elfos e anões. Qualquer criatura tola ou corajosa o bastante para se levantar e guerrear jazia agora por terra, aguardando o inexorável julgamento do tempo e o lento esquecimento do vazio.
Odin foi o primeiro a cair. Thor veio em seguida. Ambos estavam feridos, exaustos pela batalha, e seus espíritos amargurados pela guerra infinita. Loki, porém, resistia. Que poder o mantinha de pé e que motivos impulsionavam seus passos, eles não sabiam, mas o desprezavam da mesma maneira.
— Deixe-os vencer. — o trapaceiro sussurrou de repente.
— Você está louco?! — o deus do trovão vociferou. Se lhe restasse algum ânimo teria golpeado Loki com Mjölnir. — Não podemos entregar Asgard a eles!
Loki olhou para trás, as sobrancelhas franzidas numa expressão indecifrável.
— Não precisamos salvar Asgard. — apontou para os corpos empilhados nas ruas. — Só precisamos salvar aqueles que fazem deste reino o que ele é.
Fazia parte da natureza de Loki ser astucioso e calculista — um autêntico gênio da malícia, se lhe desse o devido crédito —, e suas estratégias, tanto no combate quanto nas negociações, tendiam a ultrapassar os limites do pensamento comum. Se os conselheiros perdiam tempo analisando eventos históricos, então cabia a Loki encontrar as razões intrínsecas aos eventos ignorados. Seu dom para a manipulação nada mais era que o reflexo de uma inteligência rápida, capaz de entender os desejos mais íntimos dos inimigos e voltá-los contra eles próprios.
Odin sempre acreditou que enxergava além dos embustes do filho. Encontrou vaidade, e por isso o considerou indigno; viu escuridão, e o julgou perdido. O que ele não viu, oculto por uma miríade de pequenos defeitos e receios, foi o coração gentil que batia naquele peito. E quem o enganou nessa história? Loki ou ele mesmo?
Honrar o sacrifício dos valorosos defensores do Reino e caminhar para a morte certa de cabeça erguida era tudo o que passava pela cabeça de Thor quando este se ergueu mais uma vez contra os Antigos e lançou seu último grito de guerra para os céus decadentes.
O primeiro golpe do martelo de guerra contra a armada inimiga ressoou nos ossos e desencadeou tamanha onda de choque que os deuses deixados para trás foram obrigados a curvar os corpos para se proteger da enxurrada de destroços. O palácio dourado, já em ruínas, gemeu e oscilou perigosamente sobre os alicerces frágeis; o chão abaixo tremeu, rachou e cedeu revelando o vazio profundo de suas entranhas.
Morrer em batalha ou passar o resto da eternidade servindo demônios? Encarar a realidade finita ou encenar uma farsa interminável? No fim havia apenas a lógica crua em contraposição ao caminho mais fácil e Odin nada podia fazer além de assistir e agonizar, rezar por um milagre e esperar o melhor.
E em meio ao caos, às chamas e o gelo, Loki continuou de pé. Mantinha os olhos fixos no horizonte, acompanhando o desenlace do combate, embora o sangue fresco em seu rosto atrapalhasse a visão. Nem as costelas quebradas nem o joelho esfacelado eram capazes de mantê-lo quieto.
Aparentemente resignado com sua má sorte o deus das trapaças moveu as mãos pelo ar, traçando círculos amplos e pequenos, floreando gestos complexos e símbolos indecifráveis, ao mesmo tempo em que murmurava numa voz monocórdica um cordel de mantras e sortilégios desconhecidos ao velho deus.
Linhas de prata, delicadas como as teias das aranhas e leves como o sopro do vento, surgiram dos corpos caídos. Algumas brilhavam intensamente, outras quase desapareciam na escuridão, mas todas elas convergiam para um único lugar: as mãos de Loki.
— O que está fazendo? — Odin rosnou acidamente.
— Dando a vocês a única e última vida que terão agora e para sempre. — o malandro respondeu enigmaticamente.
Levaria semanas e um abrupto despertar num corpo mortal desconhecido para que Odin compreendesse o significado daquelas palavras; entretanto ali, diante do reino arrasado, a afirmação singela lhe soou como uma ameaça ao seu povo e ele reagiu como sempre:
— O que você quer Loki? Um tapinha nas costas? Ouvir o povo aclamar seu nome como se fosse um herói?
— Oh... — apesar de a estola de peles puída esconder as feições de Loki o sorrisinho irônico era bastante evidente. — Um dia você ainda vai lamentar essas palavras.
Odin forçou uma risada amarga.
— Você quer que eu o agradeça e me ajoelhe aos seus pés, ó, grande o poderoso Loki?
— Isso pode ser uma surpresa... — e novamente a atenção do trapaceiro estava em Thor. — mas não estou lutando por você, bode velho.
Genialidade ilimitada, escrúpulos questionáveis, poderes devastadores. Não fosse o amor desregrado que nutria pelas pessoas que ocupavam seu coração Loki seria um oponente imbatível e tirânico no campo de batalha.
— Não mereço estar aqui. — a constatação, feita numa voz baixa, parecia carregar todo o remorso do mundo.
Ainda em silêncio a rainha franziu os lábios e cerrou os punhos. Se ela queria esmurrá-lo para descontar a zanga ou se preferia ser deixada em paz Odin não saberia dizer, mas estava disposto a aceitar o que viesse.
— Nenhum de nós merece. — ela admitiu afinal.
— Loki estava certo. Eu nunca o reconheci, jamais valorizei suas qualidades ou aceitei seus métodos. Eu o neguei desde o principio e... e mesmo assim ele arriscou tudo... — olhou o perfil sóbrio da esposa. — Por você e por Thor.
— Nossa família tem o péssimo hábito de subestimá-lo. — a deusa concordou num tom que variava entre a seriedade e a ironia.
— Onde está Thor?
A postura da mulher mudou sutilmente. O maxilar relaxou e seus ombros caíram, as mãos, no entanto, continuavam fechadas sobre o colo.
— Ao que me parece todos que estavam relacionados aos eventos de vinte anos atrás recuperaram suas memórias. Os Vingadores, é claro, não foram exceção e eles vieram até nós em busca de respostas.
— Pensei que a Guerra os havia separado...
— Acho que eles encontraram um bom motivo para uma trégua. — um pequeno sorriso surgiu nos lábios da rainha. — Salvar um amigo é razão mais que suficiente para esses mortais deixarem as diferenças de lado.
— Isso é bom... — Odin voltou a encarar a fonte. — Loki provavelmente gostará de reencontrá-los.
As crianças do reino, aproveitando o fim de tarde, entraram aos borbotões no jardim, saltando canteiros de flores e escalando as macieiras numa movimentação febril. Os gritinhos eufóricos se misturavam aos risos e as perninhas curtas enfrentavam o desafio de saltar, correr, engatinhar e escalar com toda a graciosidade comum àquela fase.
O passado e o futuro do reino, reunidos em um único lugar.
— Eu devo partir de Asgardia.
— E partir para onde? — a deusa perguntou sem se alterar.
— Para o mais longe que puder! Não mereço andar por esses corredores, Frigga, assim como não posso impor minha presença ao Loki...
— Você ainda não pediu o perdão dele.
— Eu passaria o resto da eternidade implorando seu perdão se isso mudasse o passado... — o nó que se formou na garganta de Odin o calou.
— Então implore. — ela disse duramente. — Peça clemência. Se ele aceitar sua oferta, jamais se esqueça de valorizá-lo e amá-lo; se negar, então cabe a você fazer por merecer esse perdão. Mas não fuja e nem busque saídas fáceis. Nem você nem eu temos esse direito.
Sem perceber as lágrimas que derramava ou o quanto parecia humilde naquele banquinho ordinário cercado por crianças Odin segurou as mãos de Frigga entre as suas e, numa voz que mal reconhecia, lançou o juramento que mudaria sua vida:
— Eu aceitarei a decisão de Loki, seja ela qual for. Jamais o abandonarei novamente e se eu tiver de me esconder nas sombras, ou sacrificar minha vida e felicidade por ele, eu o farei sem hesitar.
Frigga apertou suas mãos carinhosamente.
— Agora você entende o que os pais são capazes de fazer pelos filhos, homenzinho tolo?
Ж
As paredes de pedra negra, cobertas pelas mais vistosas tapeçarias e mais esplendidos murais, giravam sem parar, envolvidas numa dança tão enérgica que teria ameaçado a força de vontade do mais empedernido dos deuses. A claraboia acima do trono banhava o salão com uma luz mortiça branco-azulada, vinda de um mundo que sobrevivia à sombra da inexistência, perdido num paradoxo infinito entre a matéria e o tempo. Ali, sentado na câmara solitária, Loki mantinha os olhos fixos num ponto qualquer entre os pés, esperando pacientemente o momento em que sua magia falharia por completo e o corpo do fantoche pararia de funcionar.
Os encantos que sustentavam sua vida e o atavam ao boneco vinham fraquejando há anos. Antes de iniciar o Ragnarök sentira os primeiros sinais de desgaste — a dificuldade crescente em realizar feitiços simples e a facilidade com que sua mente se desligava do corpo substituto — e depois, enquanto criava situações impossíveis para garantir a permanência dos asgardianos em solo mortal, agravara os sintomas — perdera o domínio da magia, as doenças se tornaram mais frequentes e o fantoche entrara em lenta decomposição, mesmo com o coração artificial batendo forte em seu peito.
Ele cumprira sua sina — lutara pelo futuro dos homens, mudara o destino dos deuses e fizera o impensável para equilibrar as leis do universo — e agora sentia que merecia ser deixado em paz. Estava cansado, mas satisfeito em ver o novo mundo que ajudara a construir.
Nos vinte anos que lutou contra Thor, preparando-o para o gran finale, teve a chance de vê-lo crescer, aprender com os próprios erros e se tornar um bom líder. Ainda era um tolo sentimental, péssimo com feitiços e uma lástima como negociante; porém finalmente aprendera que nem todas as verdades eram puras, que os grandes amigos é que faziam os piores inimigos e que mesmo a mais profunda escuridão podia conter um raio de esperança.
Caso perguntassem o que pensava do futuro rei, agora, teria de responder que Asgard enfim encontrara um senhor à altura de seu povo — e sua única queixa seria não poder estar lá para vê-lo assumir o trono.
Mas, é claro, nem todas as mudanças foram para melhor.
A repulsa de Odin por sua pessoa continuou implacável como sempre — embora mais brutal, dado o ensejo certo — e ele finalmente aprendeu a ignorar as observações mesquinhas do velho rei, descobrindo que a aceitação ou negação daquele homem já não importavam mais. Nada, todavia, o preparou para suportar a reprovação e o desprezo nos olhares de Thor e Frigga. Muitas vezes quis desculpar-se, justificar seus atos, explicar-lhes que fazia o que fazia porque não havia outra maneira e, sabendo que não podia, sentiu-se morrer um pouco. A única coisa que o manteve firme, seguindo em frente sem fraquejar, foi o pensamento constante de que seu silêncio os salvaria e, no fim, tudo ficaria bem.
E havia os Vingadores.
Testemunhar a maneira como os laços de amizade foram corroídos pela desconfiança e presenciar uma das guerras civis mais despropositadas de todos os tempos o tornou bastante amargurado, especialmente por saber-se em parte responsável pela tragédia. Uma paga cruel para toda a gentileza que demonstraram ao ajudá-lo.
Os pesadelos com a tentativa de assassinato contra Rogers ainda assombravam seus sonhos, a visão catastrófica de Banner sendo banido para o espaço o fazia suar frio, a lembrança do olhar maníaco de Stark quando tentou implantar uma nova ordem mundial o deixava nauseado e ele preferia nem pensar na S.H.I.E.L.D. porque isso significava relembrar da fuga desesperada dos agentes enquanto Barton e Romanoff lutavam para ganhar tempo contra o governo.
Os mortais costumam dizer "sempre fica pior antes de melhorar" e Loki rezava, de todo coração, para este não ser um daqueles ditados vazios e sem sentido que ouvira ao longo da vida. As coisas tinham de melhorar.
O murmúrio de vozes abafadas o arrancou dos devaneios e, embora não conseguisse distinguir de quem eram ou o que diziam, ele se pegou torcendo para que não fossem as Norns.
Na semana anterior, tão logo decidiu pôr fim àquela pantomima desastrosa que chamava de vida, as três megeras o visitaram na esperança de dissuadi-lo, afirmando que sua vida era valiosa demais para ser perdida e prometendo um futuro que estava longe de ser real. Ele podia estar no fundo do poço, mas ainda não chegara ao nível de acreditar em contos de fadas só para tornar a realidade mais suportável. Vinte anos de derrelição, sacrifícios e culpa arrancavam de qualquer um os sentimentos fúteis como sonhos e esperanças. No fim queria apenas dizer adeus aos problemas, acabar de vez com a solidão.
As vozes ficaram mais altas conforme se aproximavam e, sem mais nem menos, desapareceram num sussurro espantado. Estranho. Até onde sabia as Norns não se surpreendiam fácil. Loki ergueu o olhar, crispando os lábios contra o enjoo persistente, e ficou chocado ao descobrir Thor parado à soleira da porta.
"Estou louco" o pensamento lhe ocorreu por um breve instante, "Completamente louco, ao que parece". Inclinou o corpo para frente, dominado pela vontade de rir e chorar como se não houvesse amanhã "Que seja. Alucinações são divertidas, às vezes". Evitando pensar no quanto devia estar deprimido para considerar uma alucinação boa companhia Loki decidiu receber a presença imaginária com a mesma satisfação silenciosa e escárnio que teria dirigido ao verdadeiro Thor.
— Irmão... — o chamado hesitante quase pareceu verdadeiro. Quase.
— Thor. — Loki respondeu ao cumprimento com um pequeno sorriso.
Nesse ponto, para seu puro contentamento, o delírio atingiu um nível inteiramente novo ao mostrar não apenas um afobado Bruce Banner entrando na câmara às pressas, mas também um desnorteado Tony Stark e um severo Steve Rogers vindo em seguida. O trio parou, congelado sob seu olhar, antes de avançar com expressões que variavam da raiva à consternação.
— Seu merdinha, mentiroso, canalha...
— Sabe que não somos deuses, Loki. — Banner franziu os lábios. — Nós nunca tivemos chances de adivinhar seus planos da primeira vez, como esperava que fizéssemos isso agora?
— Idiota, miserável, cretino... — os xingamentos continuavam a fluir
— Você tem ideia de quantos problemas nos causou? Tem noção de como nos sentíamos quando éramos atacados e nem sabíamos o motivo? — Rogers ergueu o olhar, um pedido de desculpas mudo dançando em seu rosto.
— Filho da puta manipulador... — os insultos perderam a força, a voz de Stark era instável demais para continuar. O homem chutou o primeiro degrau da plataforma. — Eu o considerei um amigo... Foda-se, eu ainda o considero um amigo, seu imbecil!
Absorto em contemplar a visão agridoce de seus velhos amigos reunidos, consumido pela mais enlouquecedora forma de saudade e — oh, como ele desejava que fosse verdade! — emocionado pelas palavras (xingamentos inclusos), Loki demorou a perceber que sua alucinação dera uma nova guinada, trazendo lady Romanoff, Clint Barton e mesmo Fury para dentro de seu esconderijo.
Se tivesse sabido mais cedo que sua mente podia criar ilusões tão agradáveis ele teria se entregado mais depressa à loucura. Que forma melhor de morrer havia, se não vendo as pessoas que mais desejava rever em sua vida? E a melhor parte era a inquietude de seus olhares, uma mescla quente de terror e preocupação, como se todo o ódio do passado precisasse ser remediado e eles sentissem que não lhes restava muito tempo.
"Tão realista", dizia a si mesmo.
— Irmão... — o deus guerreiro avançou novamente, ultrapassando os companheiros. — Viemos levá-lo para casa.
— Oh... — delírios tinham de ser agradáveis, é verdade, mas ele não queria chorar ali, não na frente deles. — Mas estou em casa. — indicou o salão. — Este lugar é tudo que tenho.
— Não! — a voz de Thor, embora trêmula, ressoou assustadoramente nas paredes de pedra. — Seu lugar é em Asgard!
— Nas masmorras? — caçoou.
— Ao meu lado, irmão. Como deveria ter sido desde o princípio.
As lágrimas que Thor derramou naquele momento brilhavam como joias no salão assombreado.
"Por que está chorando irmão?", Loki franziu a testa severamente. "Eu salvei o reino. Salvei você e nossa mãe. Para mim isto basta. A felicidade de vocês basta. Eu não fiz o que fiz para vê-lo chorar".
Empurrando-se para longe do trono, apoiando todo o peso do corpo no cetro, o deus das trapaças desceu o pequeno lance de degraus e parou ao lado do irmão. À distância, sem que ninguém além dele pudesse ouvir, a voz da sacerdotisa cantora assumiu um crescendo eufórico.
— Não seja ingênuo, Thor. As coisas são como são. Você será o rei e eu... bem... vou pensar em alguma coisa.
Rindo da própria insanidade e calculando que já atingira sua cota anual de diálogos inúteis Loki estendeu a mão para dispersar a ilusão... só para sentir seus dedos baterem contra uma armadura surpreendentemente sólida.
Ele recuou.
— Você é real? — murmurou descrente.
— É claro que sou. — as sobrancelhas de Thor se uniram em confusão.
— Não, não, não! — ele vacilou. Enfrentar manifestações alucinógenas criadas por sua mente era uma coisa, estar entre eles de verdade era outra bem diferente. — Impossível... Ninguém sabe que estou aqui. Ninguém...
Esgotado além do limite — tremendo de exaustão e pela súbita consciência de que seus planos estavam seriamente ameaçados — Loki se deixou escorregar para o chão, sentando pesadamente nos degraus de frios enquanto lutava para entender como ou quando o mundo resolveu virar do avesso mais uma vez. Ele mal notou a aproximação de Thor, não obstante, sentiu um contentamento quase constrangedor quando os braços dele o cingiram num aperto firme.
— Você nunca foi afeito a desmaios, irmão. — a provocação carinhosa o fez grunhir.
— Eu não desmaiei.
— Eu sei. — mãos quentes roçaram seu pescoço, extraordinariamente gentis ao fazê-lo erguer o rosto, e Loki enfrentou o azul turbulento dos olhos de Thor. — Chega de mentiras, irmão. O tempo dos disfarces, das guerras e dos sacrifícios acabou. É hora de voltar para casa.
— Eu posso voltar...? — a esperança frágil em sua voz o teria envergonhado no passado, mas ali, à beira do precipício, ele abandonou por completo o orgulho.
Um abraço de quebrar os ossos foi toda resposta que Loki conseguiu obter antes de o irmão se afastar, dando espaço para Banner e os outros Vingadores se acercarem. Palavras suaves foram murmuradas, pequenos risos surgiam sem explicação e toques gentis foram distribuídos sem reservas. A tagarelice incontrolável do bilionário, a ladainha preocupada do cientista, as reprimendas carinhosas do soldado e mesmo os sorrisos cumplices da assassina e do arqueiro... dizer que Loki sentira saudades desse estranho sentimento de pertencer a algum lugar era eufemismo. O coração do trapaceiro parecia quase flutuar em seu peito e nem mesmo o medo persistente de que algo iria dar monumentalmente errado a qualquer momento podia embotar sua alegria.
Quando uma nova onda de vertigens o atacou Loki lembrou, com certo pavor, que aquele encontro não duraria para sempre. Seu tempo tinha esgotado.
— Você está bem? — Banner perguntou depressa, avaliando-o de cima abaixo.
— Estou. — mentiu.
— Loki... — Rogers repreendeu.
— Não há nada que possam fazer por mim.
— Uma vez você disse que não podíamos ajudar. — Stark deu de ombros. — Nós ajudamos. Podemos fazer isso de novo. Só precisamos tirar você da parede.
O riso começou e terminou antes mesmo de Loki assimilar o que havia de tão sinistro na piada. Eles não tinham como saber do feitiço, certo? Não havia como saberem dos cristais ou do corpo escondido lá, não é?
Sentindo o sangue gelar nas veias Loki torceu o corpo o máximo que podia para se esquivar dos heróis e, com a pouca força que tinha, contornou o trono no alto da plataforma. Longe dali, iluminado pelos insetos sonolentos no teto da caverna, Thor avaliava a parede vazia com uma intensidade alarmante.
O martelo de guerra foi erguido.
— Não! — Loki gritou o mais alto que podia.
E Mjölnir atingiu a pedra com um baque ensurdecedor.
— Pare! Pare agora! — pediu em desespero, lutando contra as mãos que tentavam ampará-lo e detê-lo.
Mais um golpe.
Depois outro.
E no quinto assalto a pedra cedeu.
Lá — intocado pelo horror, livre da magia negra que desfigurara o fantoche — estava o verdadeiro Loki. A figura congelada no tempo apresentava os mesmos traços leves da juventude. Os cabelos negros, esmeradamente penteados para trás, exibiam um rosto de traços finos e angulosos, demasiado frágil para a paz de espirito dos homens. Os únicos sinais óbvios de sua morte lenta eram a palidez cadavérica e a magreza doentia dos membros.
Ver aquela imagem minou a resistência do trapaceiro.
Houve um silêncio profundo na caverna.
— Perdoe-me, irmão. — o pedido de Thor, feito numa voz baixa, denotava uma humildade dolorosa. O deus sequer tinha coragem de olhá-lo, fosse o fantoche ou o real Loki.
— Não há o que perdoar. Você nunca foi bom com feitiços. — e aquela era sua maneira de dizer que tudo estava bem. — Deixe-me morrer, Thor. Eu mal suporto pensar no que fiz, todos os dias são um tormento... e eu sou covarde demais para continuar com isso...
— Você não é covarde! — o fogo nos olhos do deus surpreendeu Loki. — Covardes não aceitam se sacrificar pelos outros, não se importam com nada e nem tem coragem de suportar o que você suportou. — o tom ameaçador abrandou lentamente. — Eu falhei com você irmão. Muitas vezes. E sinto muito se o fiz pensar... acreditar... que sua vida era irrelevante. É um dos muitos pecados que terei de carregar comigo. Mas... aconteça o que acontecer... eu não vou deixá-lo para trás, não vou abandoná-lo. Nunca mais.
Natasha Romanoff parou ao lado de Loki, o brilho gélido em seus olhos desmanchando num alívio sereno.
— Ainda não terminamos aquela partida de xadrez.
As vontades de rir e chorar o estavam sufocando.
Verdade seja dita, ele não queria morrer. Era demasiado vaidoso para aceitar uma coisa tão mundana quanto a morte em sua vida; mas também não conseguia conviver com a ideia de passar o resto de seus dias sozinho, repudiado por todos que conhecia. Afinal ele conheceu um pedaço do paraíso, um sopro de esperança entre amigos, e perder tudo não era diferente de ser lançado no inferno.
Então talvez — só talvez — aquele fosse o momento certo para ter esperança e pensar que as coisas podiam sim ficar melhores.
— Eu odeio vocês. — murmurou sem convicção.
O riso de Thor foi ligeiramente aguado.
— Imagino. Mas prefiro que você diga isso pessoalmente.
E num gesto reverente as mãos de Thor tocaram os cristais. O encantamento, criado para ceder à vontade de quem o manipulava, oscilou perigosamente e então se desfez sem qualquer alarde.
A última coisa que o fantoche registrou antes de a mente de Loki se desligar daquele corpo maltrapilho foi a imagem de Thor envolvendo o irmão nos braços e o apertando contra o peito como se temesse perdê-lo na escuridão, enquanto a voz da cantora recitava o último verso de sua canção.
Though you know, we wish we could
No there ain't no rest for the wicked
Until we close our eyes for good[2]
Ж
— Ansur! — Hulda, o pequeno corvo negro, avocou desesperadamente. — Ansur! Ansur!
Atendendo ao chamado o Guia surgiu diante dos companheiros. A face sombria, carente de expressão, dizia pouco sobre suas intenções ou estado de espírito, porém a leve queda em seus ombros bastou como reconhecimento do que estava acontecendo.
Nadezhda lhes dirigiu um olhar solene, repleto de satisfação, que não denunciava em nada a agonia que sentia enquanto a corrente de prata ao redor de seu pescoço a destruía. Sangue negro gotejava das rachaduras, desaparecendo antes mesmo de tocar o chão.
Hulda, que vinha voando em círculos, pousou sobre o elmo do velho Guia, grasnando baixinho no que devia ser o choro mais horrível que já se ouvira.
— É assim que acaba? — Ansur perguntou.
Nadezhda meneou a cabeça.
— Não. É assim que começa. — ela estendeu a mão, acariciando as penas do corvo inconsolável, fazendo um breve afago nos ombros de Ansur. Despedia-se silenciosamente, sem lágrimas ou arrependimentos. — Vocês se lembrarão de mim?
— Sempre. — o corvo soluçou.
— Para toda a eternidade. — o Guia jurou.
— Bom. — afastou-se. Cravou as unhas nas paredes, puxou as pesadas correntes que prendiam suas asas e destruiu tudo que havia ao redor, apagando as memórias que tão cuidadosamente protegera naqueles longos vinte anos. — Muito bom...
E assim a implacável guardiã se tornou pó.
Ж
O corpo em seus braços era fino, mal chegando ao peso de um adolescente médio, e parecia tão delicado quanto as bonecas de porcelana chinesa que vira em exposição no Metropolitan Museum of Art[3]. Era difícil acreditar que aquela criatura etérea, tão terrivelmente frágil em suas mãos, tinha um coração batendo em seu peito e sangue correndo nas veias; e Thor não sentiu nenhum remorso em tocar e apertar contra si cada pedacinho de pele que encontrava a vista. Porque a simples ideia de perder Loki, ali e agora, o apavorava.
Dormindo a sono solto Loki franziu as sobrancelhas, murmurando baixinho enquanto buscava no irmão qualquer traço de calor que o confortasse em seus sonhos. O deus do trovão não teve o mínimo pudor em beijar-lhe a fronte antes de erguê-lo nos braços. Ainda não se perdoara por todas as vezes que desejara ter o sangue do irmão nas mãos e nem pelas inumeráveis vezes que o desprezou abertamente, mas no momento suas dores particulares eram pouco relevantes se comparadas ao que precisava ser feito.
Thor ainda não entendia como Loki acabou envolvido numa trama milenar para eliminar os Deuses Antigos e muito menos compreendia como essa tal Sweet Poison se meteu na história, mas sabia que forças externas poderosas haviam agido a favor e contra eles por muitos anos, influenciando suas decisões, manipulando os resultados nas sombras. E agora, livres enfim, chegara o tempo de refazerem suas vidas.
"Você é um imã para problemas, irmãozinho", meditou quietamente, retornando para a plataforma no centro da câmara. Os Vingadores se aproximaram da dupla, preocupados, um pouco confusos, embora indubitavelmente aliviados.
— Ele está bem? — a pergunta de Steve Rogers, cheia de ansiedade, transbordava os sentimentos de todos.
Um pequeno sorriso dobrou os lábios de Thor.
— Vai ficar.
Os dias seriam longos; as noites ainda piores. Conflitos precisavam ser resolvidos, palavras deviam ser ditas e as velhas desavenças esquecidas. Ninguém sabia exatamente como Loki reagiria ao amanhã que se avizinhava, mas, sim, as coisas iam mudar. E para melhor.
Era uma promessa.
Ж
O inferno cristão era — por falta de definição mais criativa — uma algazarra constante de lamentos e choro que jamais tinham fim. Os sons dos chicotes ressoavam nas paredes dia e noite, imutáveis, e a mistura de sal com enxofre feria os pulmões de qualquer visitante tolo o bastante para descer ao submundo em busca de acordos levianos com os demônios inferiores. Lugar dramático e muito quente. O inferno nórdico, por outro lado, era sempre silencioso, cheio de sussurros misteriosos e pintado por uma brancura inumana. As almas lá confinadas não necessitavam de carcereiros ou juízes, pois eram conscientes de seus fracassos e desejavam expiar seus pecados. E graças a isto Hela tinha muito tempo livre para administrar seu reino.
Bufando de cansaço Ag subiu os últimos degraus e chegou à ravina onde a deusa infernal erguera seu trono.
— Hel! — a vidente cumprimentou feliz.
— Ag de Agartha. — a mulher retribuiu friamente. — Você nos causou muitos problemas. Cheguei a acreditar que tinha se esquecido de seu compromisso comigo.
— Uh... Eu precisei articular algumas coisas, fazer ajustes. Foi complicado. — desculpou-se. — Mas, como já deve saber, a última parte de nosso trato foi posta em andamento. Seu pai está a salvo e eventualmente encontrará uma felicidade que dificilmente poderá ser roubada dele.
— Eu soube. — Hela cruzou as longas pernas, deixando um lento sorriso lhe dobrar os lábios. — E por isso não a matei quando entrou em meus domínios.
A observação caustica teve pouco efeito sobre a visitante. Sacudindo a neve das roupas e ajustando o pesado cachecol de gatinhos ela mudou o assunto da conversa:
— Então também sabe por que estou aqui. — Ag apontou para a escuridão às costas da soberana. — A alma do carcereiro é sua. O mesmo para o Outro. Mas Thanos precisa ser devolvido ao Universo.
A rainha inclinou a cabeça num gesto calculado, quase gracioso.
— Meu tempo com ele acabou, então?
— Infelizmente. — concordou. — Quero minha agente de volta. Sohan não gosta de assumir papéis tirânicos.
— Eu percebi. — a deusa levantou em toda sua glória. A capa de pele ondulou ao sabor da brisa gélida. — O verdadeiro Thanos jamais perderia a Guerra do Infinito.
Ag torceu o nariz.
— Os Vingadores e Peter Quill não precisam saber desse detalhe. Não vai fazer diferença mesmo. — e, recordando-se de algo realmente importante, a vidente se aproximou de Hela. — Você ainda se lembra dos termos do acordo, certo?
A rainha do submundo inclinou a cabeça e recitou modestamente:
— Jamais mencionarei seu nome, buscarei por você ou revelarei o conteúdo de nosso negócio. Caso eu falhe perderei o poder sobre meus domínios e me condenarei à vida mortal por toda a eternidade. Você concederá ao meu pai liberdade e felicidade e em troca conferirei a você, Ag de Agartha, livre acesso a Helheim e a todas as almas a mim confiadas.
— Bom. — Ag aprovou. Olhou para o inferno congelado, para os espectros silenciosos e o céu sombrio e riu. — Diga-me, você se divertiu "brincando" com o Thanos?
— Oh... você não faz ideia.
Ж
Meses depois...
Thor acompanhava o passeio do irmão pelo Central Park com a mesma energia obsessiva de uma galinha choca protegendo o ninho. Estudou o mendigo que comia hot dog com cobertura extra de cebola e mostarda, estreitou os olhos para o chihuahua de sexualidade dúbia nos braços de uma garotinha e encarou acusadoramente um grupo de adolescentes barulhentos numa via próxima. Não tinha certeza sobre o tipo de ameaça que pretendia manter afastada — ou se existia mesmo uma ameaça —, mas sempre que o assunto era a segurança de Loki ele ligava o piloto automático e se transformava numa muralha humana intransponível.
A hostilidade franca dos mortais abrandara nas últimas semanas até atingir uma indiferença calculada confortável... só que ninguém se esquecia das pequenas tentativas de assassinato ou das restrições impostas pelo governo para aceitar a permanência de Loki no país. Se eles conseguiam andar livremente pelas ruas de Nova Iorque agora — alimentando o transtorno compulsivo de Thor pela segurança do irmão — era graças à interferência sutil de Steve Rogers e a manipulação descarada de Tony Stark.
E justo por isso os únicos capazes de burlar a vigilância do deus eram os Vingadores, porque Thor sabia que Banner surraria até a morte o primeiro canalha que levantasse a mão contra Loki; e Frigga, porque ela o surraria até a morte se tentasse impedi-la de chegar perto do filho.
Mantendo-se a uma distância razoável da dupla Odin a seguia discretamente, fingindo ler o Daily News ou jogar comida para os pombos, e o disfarce teria funcionado extraordinariamente bem se o velhote não usasse um tapa-olho sob os óculos-de-sol e nem medisse dois metros de altura. O velho rei tentara se desculpar, chegando ao ponto de jurar lealdade e dar sua vida por Loki, mas tudo que conseguiu foram umas poucas respostas indiferentes e um olhar vago nada promissor. Ao invés de se abater pelas respostas apáticas Odin se convertera num tipo bizarro de stalker e continuara sua jornada pela redenção.
Thor ergueu o polegar para o pai, esboçando um meio sorriso cumplice. "Você ao menos está tentando, meu velho", pensou desolado. Um grande rei reduzido a um perseguidor... Loki definitivamente tinha um dom para o caos.
No breve instante que Thor levou para avistar e pai e cumprimentá-lo Loki seguiu adiante, obrigando-o a correr para alcançá-lo. Loki não corria. Não mais. As dores fantasmas, Banner explicara, iriam persistir por mais algum tempo e talvez jamais sumissem. Ao que parecia o cérebro do malandro não conseguia assimilar a ideia de que seu corpo estava inteiro e intacto e por isso o presenteava com dores súbitas inexplicáveis. Era algo que todos compreendiam, dadas as circunstâncias, mas isso não impedia Loki de se ressentir contra essa fraqueza. Homenzinho teimoso.
Na saída do Central Park, próximo a um grupo de charretes decoradas, Loki parou e torceu as sobrancelhas numa expressão curiosa, quase confusa. Tropeçando em seus calcanhares Thor olhou em torno, perguntando-se o que poderia ter atraído sua atenção.
— Você consegue ouvir a música? — ele perguntou de repente.
— Música? — questiona preocupado.
Em meio a todos os carros, pessoas e sons aleatórios Thor não consegue ouvir nada que mereça atenção.
— Eu já ouvi essa música antes. — explica cauteloso. O olhar, perdido no horizonte, de repente focaliza algo interessante. — Aquela loja não estava ali antes.
— Que loja? — esticou-se sobre os ombros do irmão na esperança de ver o mesmo que ele.
Chamar aquela monstruosidade de "loja" era elogio.
O prédio do outro lado da rua nascia de uma combinação medonha de arquitetura pós-moderna com art nouveau, decorada com vitrais coloridos e luzes dançantes perturbadoras — como se os balões e bandeirolas já não causassem estrago o bastante. Doía só de olhar. E, mesmo assim, uma pequena multidão de curiosos se aglomerava na entrada, esticando os pescoços na esperança de vislumbrar o interior do estabelecimento ou simplesmente colhendo os panfletos presos na estátua de urso panda na entrada.
Notas de uma melodia distante, cantada num idioma estranho, escapavam pelas janelas entreabertas no andar superior e Thor suspirou em alívio ao descobrir a fonte da música.
— Devem ter aberto recentemente. — concluiu tranquilo. Foi fácil ignorar a vozinha lógica que lhe dizia ser absolutamente ilógico acreditar nisso, já que ontem mesmo a loja não existia ali. — Quer ver?
— Claro.
Loki permitiu que Thor passasse o braço por sobre seus ombros e juntos cruzaram a avenida movimentada. O trapaceiro deliberadamente ignorava os olhares especulativos dos transeuntes, mas o deus do trovão fazia questão de estampar uma expressão maníaca para cada pessoa encrenqueira que se aproximasse demais. Eles pararam na calçada tempo o bastante para ler o anúncio "Cosplay Café — Onde suas fantasias se tornam reais" no alto do prédio e então foram empurradas para frente pelo fluxo de visitantes.
Uma mulher baixinha, de aspecto plácido e sorriso languido, recepcionava os clientes e informava quais atividades que podiam ser realizada no interior do estabelecimento.
— Contamos com uma sala de jogos no andar superior, uma lanchonete com música ao vivo no térreo e uma biblioteca no subterrâneo. Temos competições de fantasias e alugamos o espaço para festas particulares nas sextas-feiras, das 19 às 22 horas.
Após explicar mais algumas regras importantes — coisas como "se estiverem perdidos na biblioteca sigam os gatos" ou "todos os funcionários estão autorizados a cortar os dedos de quem tentar assediá-los" — a atendente permitiu que a nova remessa de fregueses entrasse; entre eles Thor e Loki.
Toda a excentricidade da fachada ficou para trás quando cruzaram o cortinado de musseline azul e ouviram as pedrarias decorativas tilintarem delicadamente às suas costas. À direita, separando o ambiente em dois espaços, ficava um pesado balcão de mármore onde os lanches eram ofertados e os pagamentos feitos; à esquerda duas escadas, uma levando ao andar superior e outra ao inferior; e logo em frente o palco de shows, onde guitarras, baixos e baterias aguardavam os corajosos amadores que quisessem tentar a sorte. Mesas orientais, com espaço para até quatro pessoas cada, ocupavam toda a área visível exceto pelos poucos espaços onde cestos de vime ofereciam cardápios e revistas em quadrinhos.
Os funcionários, porém, vestiam-se a caráter.
Guerreiras orgulhosas, vestidas com armaduras de couro flexível, se divertiam ao intimidar os rapazes suarentos espalhados pelas mesas, e ninfas sorridentes fingiam ouvir os galanteios amorosos de um grupo de senhores de meia-idade. Um cavaleiro excessivamente leniente permitia que uma garota apalpasse o peitoral de sua armadura enquanto um homenzinho barbado roubava comida dos pratos dos clientes.
O clima festivo agradou tanto a dupla de deuses que em poucos minutos já tinham escolhido uma mesa e esperavam um dos atendentes se aproximar — Thor esperava que uma das ninfas viesse, ou mesmo uma das elfas que avistou descendo as escadas, qualquer um seria bom, menos o cavaleiro de peitoral brilhante. Ele não.
Quem os atendeu foi uma moça alta, de cabelos longos e matizados. Seus olhos brilhavam intensamente e seu sorriso tinha um quê eufórico.
— Nunca pensei que veria vocês aqui! — ela cumprimentou alegre. — Como encontraram esse lugar?
— A música. — Loki começou a explicar. Achou suspeita a familiaridade da garota, mas preferiu manter o comentário para si. — Mas vejo que não há ninguém cantando no momento.
— Oh... — a moça lhe deu um sorriso cúmplice. — Se tiverem paciência nossa cantora voltará em breve. Ela vai adorar saber que estão aqui.
Um pouco desconfortável Thor estreitou os olhos para a mulher.
— Nós já nos encontramos antes?
— Talvez. É meio difícil não saber que vocês são. Qualquer pessoa no mundo sabe. — ela piscou para eles. — Mas, voltando ao assunto, o que vão querer?
— Torta de limão. — Loki pediu animado.
Thor crispou os lábios e cutucou as costelas do irmão.
— Dr. Banner disse que você precisa maneirar nos doces.
— Mas...
— Não. Nada de doces. — cortou.
— Eu posso sugerir uma de nossas sobremesas naturais. — a atendente interviu depressa. — Frutas cítricas com cobertura cremosa. Não fazemos com frequência porque ninguém parece ter paciência para frutas nos dias de hoje, mas é uma sobremesa deliciosa, de baixa caloria e pouco açúcar.
Thor ponderou a oferta e anuiu.
— Duas porções, por favor.
— Claro. — ela anotou os pedidos. — Se precisarem de mais alguma coisa chamem por Mari e eu venho correndo, certo?
Sem pressa a garota contornou o balcão de mármore e gritou alguma coisa incompreensível para o pessoal que trabalhava na cozinha. O que quer que tenha sido dito causou uma comoção infernal atrás da porta branca.
Pouco depois duas atendentes, uma vestindo um quimono azul-celeste e outra um vestido de paetês negro, passaram por eles, cumprimentando-os com a mesma familiaridade e simpatia da primeira garçonete. Explicaram para Thor as diferentes modalidades de jogos que estavam disponíveis no andar superior e comentaram com Loki sobre os tomos mais recentes na biblioteca. Provavelmente fazia parte da política da empresa os funcionários tratarem os clientes como velhos conhecidos, mas Thor desconhecia uma única empresa que exigisse que seus funcionários trocassem sorrisos misteriosos quando achavam que ninguém estava vendo. Era enervante. E para piorar Loki não se importava nenhum pouco.
Antes que Thor sugerisse que saíssem dali o mais rápido possível — ele queria ter um argumento lógico para a fuga, mas a lógica desistira dele minutos atrás — um grupo subiu ao palco e uma garota de jeans rasgado e camisa dos Ramones assumiu o microfone.
— Soube que alguém especial para mim veio aqui hoje. — ela afirmou séria, cuidadosamente evitando manter contato visual direto. — Então, como estou realmente feliz, vou dar a vocês o melhor dia de todos!
Mesmo achanando a declaração incomum Thor se pegou acompanhando o ritmo da música, e até cantarolando junto, enquanto uma sensação de extrema tranquilidade tomava conta dele. Olhou para o irmão, esperando que estivesse se divertindo também, e para seu horror descobriu que Loki parecia à beira do pranto.
— Loki? Qual o problema?
— O que? Oh, não, nenhum problema. — ele enxugou as lágrimas e esboçou um sorriso torto. — Eu me lembrei de uma coisa boa. Só isso.
No alto do palco a banda passou para a música seguinte.
Os clientes não sabiam ainda, mas as canções daquela tarde foram escolhidas de maneira a homenagear o deus das trapaças sentado na mesa número 23 e Thor tampouco podia imaginar que seu irmão acabara de reencontrar as únicas pessoas que conseguiriam explicar, do começo ao fim, como aquela história começara. O mais extraordinário, porém, era que dali a 14 minutos, quando a apresentação acabasse e Loki reunisse coragem o bastante para abordar Viper, o Universo mudaria de uma maneira que ninguém jamais previra.
Ou quase ninguém.
Afinal, fazia parte do trabalho de Ag saber desse tipo de coisa.
—Ж—
[1] Damper— tradicional pão australiano – que pode ser degustado com carne frita e chá. Antigamente seu modo de preparo exigia que o fogo fosse amortecido e a massa colocada sob as chamas e coberto pelas cinzas... se você acha isso estranho lembre-se que algumas tribos nômades, no deserto, usam esterco de camelo para preparar suas refeições.
[2] FVE (Fenômeno de Voz Eletrônica) – são sons de vozes humanas, ou semelhantes a elas, captadas por meios eletrônicos de forma não intencional. Tais gravações são normalmente são relacionados às comunicações paranormais com espíritos desencarnados e se tornaram populares no meio paranormal. Um conselho prático: nunca pergunte a um espírito o que ele quer a menos que você esteja disposto a pagar o preço... e se eles ficam irritados quando você reza é melhor pensar duas vezes... a coisa pode não ser humana.
[3] Caracal— também conhecido como lince-do-deserto. Costuma habitar a África e a Ásia Menor. Embora se assemelhe muito aos linces possui maior parentesco com o serval. Sua pelagem varia do avermelhado ao acinzentado, podendo ser completamente negra às vezes. É um animal relativamente fácil de domesticar e é utilizado em caçadas no Irã e Índia
[4] A criação dos Martelos Uru, a libertação de Surtur, a Guerra Civil, a Invasão Skrull, e a criação dos Vingadores Sombrios são eventos que ocorreram nos quadrinhos e que podem, direta ou indiretamente, serem relacionados à queda de Asgard. A chegada dos Guardiões da Galáxia ocorre num futuro bem recente, então não sei se eles poderiam se relacionar diretamente aos eventos... mas não resisti a chance de mencioná-los.
[5] Mephisto— demônio responsável pela terra extradimensional dos mortos (ou Inferno, se preferir). Foi ele quem criou o Motoqueiro Fantasma... e também foi ele quem mexeu os pauzinhos durante os eventos da Guerra Civil, apagando o casamento de Peter com Mary Jane.
[6] Doctor Strange— ou Doutor Estranho é ninguém menos que o mago supremo da terra (deixa o Loki ouvir isso), e quando Tony se viu em maus lençóis após a Guerra Civil foi ele quem o ajudou. O bom mago atualmente faz parte dos Vingadores Secretos e já lutou contra a Feiticeira Escarlate (isso foi spoiler dos quadrinhos? Espero que não)
[7] Minnesota Valley National Wildlife Refuge— esse refúgio existe, e sua localidade realmente é próxima ao Hilton Minneapolis e a Interestadual 494. E sua trilha principal de fato se chama Long Meadow Lake Trail. A única coisa errada nisso são os cálculos de distância, porque eu simplesmente não me dou bem com números e coordenadas.
[8] Jörmungandr — segundo a mitologia nórdica essa grande serpenta habita os mares de Midgard e dificilmente "cavaria" seu caminho para Asgard... mas como estamos falando da Marvel e de uma ficção, resolvi aproveitar a licença poética e reunir todos os irmãos.
[9] Trecho de Ain't no rest for the wicked, do Cage The Elephant. Pode ser traduzido como "Embora você saiba, nós bem que gostaríamos./ Não, não há descanso para os mal-intencionados,/ até que fechemos os olhos para sempre".
[10] Metropolitan Museum of Art – localizando em Nova Iorque e fundado em 13 de abril de 1870, é um dos maiores e mais importantes museus do mundo e abriga uma importante coleção de pinturas e obras de arte das mais diversas partes do mundo.
