Capítulo 33: Ousadia.
Örebro, província de Närke, Suécia. Um velho depósito trouxa de uma das muitas fábricas de calçados que movimentavam a economia da capital do condado, lugar mal iluminado, precisando de reparos e uma boa faxina. Havia um pequeno escritório no andar superior cuja janela dava para a rua e mais precisamente pro edifício em frente, e era lá que Albus Dumbledore e Robert Bates estavam escondidos desde o dia anterior. O prédio não parecia grande coisa visto de fora, mas ao bater o olho na planta atual sabia-se que deveria ter ao menos uma dúzia de feitiços ampliadores em seu interior e sabe-se lá mais quantos para proteção e ocultação. Sem a carta que John lhes havia levado nunca teriam encontrado o lugar.
Ambos se revezavam na tarefa de observar quem entrava e saía, fotografando e anotando tudo o que podiam sobre os puristas que chegavam para a tão esperada reunião. Trabalho de espionagem. Mas muito em breve o plano de Dumbledore propriamente dito seria posto em prática e as coisas ficariam infinitamente mais complicadas, e perigosas também.
E agora era o turno de Bates, que tamborilava impaciente os dedos na própria varinha, enfadado da espera e do silêncio. Há horas vinha contendo-se para não recomeçar a discussão que tiveram quase ininterruptamente ao longo dos últimos dois dias, mas não conseguiu continuar com isso por mais tempo.
– Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? – perguntou o chefe da sessão de aurores, coçando o queixo barbudo com preocupação, os olhos escuros e experientes medindo Dumbledore.
– Pela última vez, Bob, eu tenho – o professor respondeu com uma determinação que não aceitava contestações, o sorriso subitamente desaparecido do seu rosto.
Mas era mentira. Quem ia querer fazer uma coisa dessas?
Confiava em Bates como em nenhum outro homem do Ministério e também podia chamá-lo de amigo sem ressalvas, mas isso não significava que demonstraria nenhuma dúvida sobre seu ousado plano, que o outro considerou loucura desde o primeiro momento. Mesmo Dumbledore admitia ter escolhido para si um grande risco, mas tanto maior seria a recompensa se desse certo. E quanto a isso se sentia estranhamente otimista e corajoso, além de louco pra voltar pra casa logo e com boas notícias.
Tivera outro lindo sonho na noite anterior, que julgou muito auspicioso e do qual doces lembranças o assombravam a todo instante, colocando suspiros difíceis de reprimir em seus lábios. E mais uma vez acordara sussurrando o nome de sua amada.
– É McGonagall – Bates anunciou, depois de uma longa observação da rua através das sujas vidraças.
Dumbledore, distraído que estava, levantou-se num átimo, o coração pulando uma batida... até se dar conta de que era de John que o outro estava falando. E pouco depois o rapaz adentrou a porta apressado, mas não com seu eu verdadeiro, e sim a identidade que assumira pra si juntamente com a missão: mais baixo, velho e gordo, os cabelos castanho-claros mais longos e um farto bigode que se unia às costeletas, deixando apenas o queixo escanhoado. Foi seguido de um homem loiro e meio careca, com o sorriso alheio característico da maldição imperius.
– O nome dele é Bernard Fergunson. É um sujeito quieto e pouco entrosado, fala claramente e sem nenhum sotaque. Vai te servir bem – explicou John, sob a aparência do homem que atendia por Julian Haggard. – Chegue uns minutos atrasado que com certeza vai pegar o último lugar perto do corredor, porque todos querem estar perto do discurso e terão toda a atenção voltada pra lá.
Era Bates quem estava com a maleta cheia de polissuco e que cuidou de prepará-la para Dumbledore e dar o resto a John enquanto o professor trocava de roupas com o purista ligeiramente catatônico e obediente. Em poucos minutos estava feito, e o mais jovem instruiu o professor como proceder para passar despercebido.
– E você, acha que consegue correr bem rápido quando a coisa estourar? – questionou o irreconhecível Albus enquanto acompanhava McGonagall até a saída do depósito.
– Como o vento. Alastor estará a postos também.
– Espero que ele esteja me odiando um pouco menos hoje.
– Não contemos tanto assim com a sorte. Brincadeira, professor. Dará tudo certo.
– Esperamos que sim.
Cumprimentaram-se e o rapaz saiu discretamente, rumo ao prédio do outro lado da rua. Meia-hora depois foi a vez de Dumbledore. Já havia estudado o bastante a planta do prédio para saber que o melhor lugar para comportar a reunião seria o saguão, tomando a primeira porta a direita do hall, mas como não sabia se Bernard Fergunson também deveria saber disso, teve a prudência de seguir uma dupla de retardatários apressados, que pelo cheiro de cigarro tinham ido alimentar um pouco seu vício do lado de fora. Um paradoxo interessante esse, que pessoas empenhadas em assassinato em massa e segregação dos chamados "sangues-ruins" tivessem a delicadeza de não fumar em ambientes fechados.
O saguão era circular, com o teto altíssimo, em cujas paredes subia uma escada circular por sete andares, terminando num teto trabalhado em gesso e com um grandioso lustre. Sobre piso em mosaico azul escuro estampando uma bonita rosa-dos-ventos dourada estavam organizados dois blocos de cadeira onde acomodavam-se por volta de sessenta bruxos, e mais a frente erguia-se um pequeno palco com um púlpito enfeitado com um também dourado símbolo das Relíquias da Morte.
Como esperado, a única cadeira vazia era a mais distante de todas, e Dumbledore tomou assento bem a tempo de escutar a primeira onda de aplausos recebendo aquele que fora anunciado como Dominic Toole. Sua aparência surpreendeu um pouco o professor, destoando bastante dos patriarcas representantes das mais tradicionais e antigas famílias do leste europeu, mostrando-se um bem afeiçoado rapaz que não deveria ter passado da casa dos vinte. Isso somado a seu sorriso simpático e a recepção calorosa dos colegas deixou evidente a Dumbledore que Grindelwald já tinha um discípulo.
– Agradeço a presença e o apoio de todos – ele disse, com uma naturalidade invejável. – Tenho a honra e o prazer de transmitir esta noite as palavras de nosso líder, nosso mestre, Gerllert Grindelwald.
Mais aplausos, ainda mais animados, então um profundo e respeitoso silêncio.
– Boa noite, meus amigos. Meus camaradas. Meus irmãos. Todos vocês se uniram a nós pela mesma vontade de fazer do mundo um lugar melhor para as futuras gerações e para nós mesmos. Já são heróis e visionários, homens de coragem e iniciativa. Por isso lhes felicito e me rejubilo por ter-vos comigo nessa jornada rumo ao futuro.
A eloqüência de Toole era impressionante, mas não devia esperar menos do homem a quem Gerllert delegara a tarefa de manter unido seu rebanho. E também curioso que o grande líder dos puristas não o fizesse pessoalmente. Qual seria o significado disso? Estaria ele com receio de se expor? Isso seria tão inoportuno quanto reconfortante, porque sua prudência podia torná-lo muito mais difícil de apanhar, mas também demonstrava medo.
– Todos vocês vem da mais nobre e pura linhagem de sangue, todos você compreendem a magia, seu valor e seu preço – conforme discursava, as palavras de Dominic tornavam-se mais e mais sérias. – Mas até quando? Tem sido fácil para vocês arranjarem bons casamentos para suas famílias? Quantos de vocês não vivem com medo que sua linhagem se acabe?
Houve um breve silêncio dramático, no qual o interlocutor do discurso fez uma pausa para lançar um olhar grave sobre a platéia, para deixá-los se entreolharam, anuírem e sussurrarem exclamações de apoio revoltado contra a situação absurda a que foram submetidos. E Albus se perguntou, contendo o próprio escárnio, se as instruções para proceder assim também estavam escritas no papel. "Cale-se. Olhe-os. Instigue-os."
– Por que nós temos que nos esconder? Por que deixamos os trouxas decidirem por nós, quando podemos tomar o controle em nossas mãos? Por que deixamos matarem-se uns aos outros e lutarem contra fome, doenças e todo o tipo de tragédias quando poderíamos conduzi-los a um futuro pacífico? E quanto a nós mesmos? A cada criança mestiça enfraquecemos mais, a cada gota de sangue impuro nossa magia esmorece. Nós estamos sumindo, extinguindo a nós mesmos. E eles querem que continuemos de cabeça baixa aceitando tudo isso.
Dumbledore conhecia muito bem aquele argumento preconceituoso e absurdo. Era comum ouvir-se falando que a miscigenação destruía a magia, e que a cada geração nasciam menos bruxos poderosos. Facilmente comparavam a bruxandade atual com os tempos áureos de seus primórdios quando havia mais magos e bruxas notáveis e incrivelmente poderosos. Mas esqueciam-se facilmente que o próprio Merlin era mestiço de uma camponesa e um bruxo obscuro sem linhagem alguma.
– Não temos que aceitar isso! Não temos que fingir que não existimos, nem suportar sangues-ruins em nossos hospitais, nossas escolas, nosso governo. Não temos que nos misturar a eles, temos que nos unir e vencê-los!
A indignação e determinação de Toole crescia enquanto falava, e estava contagiando a platéia. Por onde olhasse Albus via cabeças anuindo, cenhos franzidos e punhos cerrados, posturas tensas e mandíbulas trincadas. A impressão que dava era que a qualquer momento armar-se-iam de tochas e forcados, a perseguir e linchar algum monstro qualquer no meio da noite escura.
– Um dia contaremos a nossos filhos sobre a revolução e eles irão sorrir, incapazes de crer no caos que era o mundo antes de nos levantarmos da letargia em que fomos criados. E vocês poderão dizer que estiveram lá. Dirão que limparam a imundície da nossa sociedade com as próprias mãos, que lutaram com bravura contra toda injustiça a que nosso povo foi submetido desde o início dos tempos. Porque todos nós faremos isso, não importa o que custe. Estamos dispostos a tudo – o rapaz esticou o braço numa saudação bem característica – pelo bem maior.
Era lamentável o modo como Grindelwald justificava todas atrocidades que os puristas cometiam, chamando-os de atos de heroísmo e coragem. Era revoltante como todos ali acreditavam ou fingiam acreditar nisso.
– Pelo bem maior! – os outros repetiram em uníssono, aos brados, levantando-se e repetindo o gesto do outro. – Pelo bem maior! Pelo bem maior!
Escondido pelas vivas e aplausos dos demais, Dumbledore aproveitou-se daquela oportunidade para lançar um imperius em dois dos bruxos na fileira da frente. E assim que os ânimos se acalmaram e os membros mais proeminentes do grupo foram cumprimentá-lo o ruivo colocou o primeiro de seus "escravos" em ação:
– E como vamos derrotar o Ministério? – perguntou o homem na frente de Dumbledore, dirigindo-se em voz alta à aglomeração junto ao púlpito.
As sobrancelhas de Toole ergueram-se e todos os outros viraram-se para trás boquiabertos de surpresa. Aparentemente ninguém esperava por um questionamento, ou nada menos que obediência cega e devoção total.
– O Ministério está confuso, não sabe sequer por onde começar – Dominic explicou com um sorriso de desdém, tendo recuperado rapidamente sua confiança. – Abatemos seus homens todos os dias, fechamos para sempre seus olhos e ouvidos dentre nós. Somos mais numerosos do que pensam e seremos ainda mais quando nossa mensagem tiver chegado adiante.
Aquele era um bom eufemismo para o assassínio de seus inimigos, ao menos o bastante para fazer os demais proclamarem sua superioridade aos gritos. Então foi a vez de usar o outro bruxo enfeitiçado, bem a seu lado:
– E quanto à Albus Dumbledore?
Novamente a atenção se voltou para o fundo, e dessa vez Toole não conseguiu esconder sua perplexidade.
– Como?
– Os amantes dos trouxas dizem que ele pode derrotar Grindelwald – sussurrou um homem ao lado do palestrante, a quem Dumbledore já conhecia por fotografias graças ao bom trabalho de sua equipe como John Dekker, um dos mais ricos patrocinadores da causa deles.
E era bom mesmo que ele fosse bem precioso ao grupo, porque o olhar que Toole lhe deu em resposta não foi nada amigável.
– Então são todos tão tolos quanto ele por isso – Dominic troçou e todos riram junto com ele, como se fossem ensaiados. – Nossa causa é mais forte, nós somos mais determinados, e nosso mestre é o mais poderoso bruxo que já viveu.
A multidão agitou-se, explodindo em novos gritos de "Grindelwald!" e "Pelo bem maior!" enquanto Albus subia discretamente a escada, antes tendo a cautela de deixar seus dois camaradas enfeitiçados atravancando os primeiros degraus. Quando estava alto o bastante para ser visto por todos elevou a voz e disse:
– Lamento, mas vou ter que discordar – usou de um feitiço para cortar o efeito da poção, revelando-se em sua verdadeira aparência perante todos –, sobre tudo.
Então deu-se a confusão.
Albus abaixou-se bem a tempo de esquivar-se do primeiro feitiço, correndo escada acima, enquanto cerca de sessenta bruxos corriam empurrando-se e acotovelavam-se, brigando pelo direito de poder matá-lo. Clarões voavam cada vez mais próximos, e uma cacofonia de feitiços gritados atrás de si vinha da turba raivosa.
Quando alcançou o corredor do terceiro andar teve tempo de virar-se e com um vislumbre reconheceu o disfarçado Alastor em frente aos demais, com a varinha em riste. O professor levou um tremendo susto quando ouvi-o gritar "Bombarda!" apontando em sua direção, mas só compreendeu o que ele estava tentando fazer quando o feitiço atingiu a parede logo atrás dele, que explodiu com tamanha força que encheu o caminho de escombros.
Já sem meio fôlego da perseguição, encontrou a sala que estava procurando, cuja janela era grande o bastante para dar-lhe uma fuga. Sem tempo de abri-la como deveria, pulou através dela enquanto usava um feitiço convocatório para a sua Comet-qualquer-coisa, que havia deixado no telhado do depósito justamente para essa ocasião. Montou-a em pleno ar, rindo-se do próprio desvario, antes de um clarão verde passar perigosamente próximo de si e outro, amarelo, atingir a parte de trás de sua vassoura e deixá-la em chamas. "Que beleza de vôo inaugural", pensou consigo enquanto perdia altitude e o controle da direção, passando raspando pela chaminé de uma casa.
Mesmo sem sequer dar-se ao luxo de olhar para trás, sabia que deveriam estar perseguindo-o, mas acabou por colidir com uma árvore, evitando sofrer completamente a queda com um perfeitamente bem colocado aresto momentum.
Do chão, viu cerca de uma vintena de vassouras mergulhando em sua direção como urubus brigando por uma carcaça. Mas felizmente a essa altura estava longe o suficiente das proteções que eles haviam colocado em torno do prédio para poder desaparatar para longe.
Foi somente quando encontrava-se em segurança a quilômetros dali que notou que sua capa também estava pegando fogo.
n/a: Novamente me desculpo pela demora, e sei que isso não justifica, mas estive trabalhando em outras fics e sofrendo com a pós-graduação e uma conexão de internet terrível (só consegui postar isso aqui depois da 1:30 da manhã). Fico imensamente feliz que continuem por aqui e por favor sintam-se livres para puxar minhas orelhas e mandar berradores se eu for relapsa com essa história tão querida novamente. Deixo também um beijo enorme a vocês e quero que saibam que todos tem um lugarzinho especial no coração dessa autora.
Um beijo e até muito breve.
Uhura: Você acaba de vislumbrar o ousado plano do professor Dumbledore colocado em prática, embora o desenrolar disso tenha ficado pro próximo capítulo. Espero que não esteja muito zangada por eu tê-lo soltado no ninho das cobras, mas nosso bravo herói escapou ileso e vitorioso.
Mia Lima: Perdoe meu atraso novamente, mas esse foi um capítulo difícil. Toda essa ação e aventura exigiu um pouco demais da minha humilde capacidade, mas estamos em guerra aqui e eu tenho que agitar as coisas. E garanto o reencontro dos dois pro mais perto possível, Albus tá merecendo muito isso.
Paullinnha: Viu só que loucura? O plano foi posto em prática, mas o sucesso da missão e sua verdadeira natureza ainda não foram revelados. Então fique de olho que em breve teremos mais!
Mellie E: Sim, teremos mais ação, aventura, e estou planejando um pouco de suspense mais pro futuro também. Mas tudo isso sem deixar de lado o humor e o romance, claro.
Mamma Corleone: Também adoro meu Flamel, tanto que tenho outras fics rascunhadas com ele para o futuro, e aliás estou morrendo de saudades de escrevê-lo por aqui tbm.
