35. O Disfarce da Rosa

"I'm scared today
More than I told you I was yesterday
Give me a moment to catch my breath
And hold me every second left"*

(*Eu estou assustada hoje/Mais do que eu disse que estava ontem/Me dê um momento para recuperar o fôlego/E me segure em cada momento restante Miles, Christina Perri)


5 de julho de 1993
Mar do Norte, Azkaban

Agora, ela sabia muitas coisas.

Ela sabia que o barco se chamava Caronte, era feito completamente de cobre.

E que se levasse um ramo de acácia em suas vestes, os guardas entenderiam que não estava ali para visitar um prisioneiro, e a apontariam até um guichê apropriado.

Os conhecimentos não a impediam de torcer nervosamente as mãos, enquanto a embarcação cortava o mar cinza e o sol à pino alcançava a sua pele menos e menos, substituído pelo frio sobrenatural emanado pelos seres da ilha, mesmo no verão.

Mantinha, no entanto, os ombros eretos e o queixo erguido, não se permitindo qualquer mostra de hesitação ou incompetência. O cabelo bem preso no topo expunha o pescoço alvo e longo, e desejou ter colocado um cachecol, ou uma blusa de golas mais altas.

Pensamentos sobre roupas mais apropriadas fugiram da sua mente quando avistou a fortaleza, e seu estômago se enrolou num nó apertado.

– Nome?

Diante do painel escavado na pedra, ela disse ao bruxo de uniforme cinza escuro o nome falso, mas que de tão bem treinado, soou verdadeiro. Sua voz nem tremeu, e o leve asco que se sacudiu em seu interior foi apenas isso, leve.

– Varinha.

Entregou o objeto mágico, sem a dor da separação. Não era a sua varinha, afinal de contas, e não tinha à ela qualquer apego.

– Tem outro objeto mágico consigo?

– Sim. – apontou para o colar. Era feito de tiras simples, com uma pedra leitosa em seu centro. Como esperava, o homem fez sinal para o que entregasse, o que ela fez sem pestanejar. – É uma herança de família, não tem nenhum encantamento associado, apenas as propriedades mágicas da própria albita.

– Será analisada e, caso se confirme que não porta nenhum encantamento adicional, devolvida.

Assentiu; nada a fazer sobre aquilo.

– Está de alguma outra forma amaldiçoada, encantada, sob efeito de poções ou implicada com qualquer forma de magia que possa interferir em seu livre arbítrio, manipular suas vontades ou nublar seu julgamento?

– Não, senhor.

Ele lhe olhou atentamente pela primeira vez, tendo dispensado a varinha e o colar para análises. Era um velho de queixo bipartido, olhos apagados e cabelo esparso, e rugas pesadas na testa, mas sua expressão ainda indicava dureza e um certo ensimesmamento profundo.

– Você será levada à sala de detecção de encantamentos, e caso uma de suas respostas se prove falsa, você será submetida à um julgamento e pode ser detida nesta instituição por perjúrio e intenção criminosa. Aceita prosseguir?

Sentiu um arrepio ameaçar a sua coluna, mas não o deixou transparecer.

– Sim, aceito.

A Sala de Detecção de Encantamentos, sobre a qual também lera, era octogonal e coberta de espelhos. Cada um deles era enfeitiçado para encontrar encantamentos diferentes (de transfiguração, de controle da mente, de possessão, de controle remoto, e assim por diante), mas ela sabia que não eram capazes de identificar o efeito de certas poções, nem magias essenciais, aquelas feitas sem varinha.

Ela desviou o rosto, não querendo ver oito vezes multiplicado o corpo que desprezava profundamente. O auror que a acompanhava observou todos os reflexos; em um deles, a parte inferior do seu braço esquerdo estava embaçada e emitindo uma luz difusa.

– Posso ver seu…

– É uma marca de família. Está no meu dossiê, já foi analisada durante a minha contratação.

Ele se calou, pegou uma ficha das vestes e a analisou por alguns segundos, em que ela se balançou nos calcanhares, impaciente.

– Muito bem. – disse o homem por fim – Vamos à próxima etapa.

– Vou ter de passar por tudo isso cada vez que eu vier? – perguntou com certo aborrecimento, quando saíram da sala de espelhos. O homem, no entanto, riu pelo canto da boca.

– Na verdade não, uma vez que receba o selo em sua varinha, terá um acesso direto à fortaleza em seus horários de trabalho.

– Ah. E isso não ameaça a segurança?

– Não. Essas etapas pelas quais está sendo submetida hoje são apenas precauções. Uma vez que esteja próxima aos dementadores, eles são ótimos detectores de mentira.

Seu tom foi ao mesmo tempo zombeteiro e sombrio, deixando claro que o humor de sua piada era negro. Dementadores eram ótimos detectores de mentira – e adoravam beijar os mentirosos, ela pode completar mentalmente, apenas pelo tom do homem. Finalmente chegaram à uma ante-sala escura com uma prateleira longa, e sobre ela, diversas esferas azuis brilhantes presas em correntes.

– Você vai querer escolher uma chama patronal, se quiser ir até o final do seu primeiro dia sem no mínimo uma dor de cabeça terrível.

Eram todas absolutamente iguais, razão pela qual ela não viu porque precisava escolher, mas o fez mesmo assim. No momento em que a colocou em torno do seu pescoço, o persistente frio que tinha grudado em sua pele desde a entrada na fortaleza foi amortecido, e a sua cabeça ficou imediatamente mais leve.

– Vou levá-la à sala de operações agora. Imagino que o restante da sua equipe já está aguardando.

– BD –

Duas semanas antes, início das férias de verão.

Ela estava tendo aquele sonho de novo. O cão latia, parava, se virava em sua direção e latia. Depois corria novamente.

Não importa o quanto corresse atrás, era impossível alcançá-lo. Era frustrante. Tão frustrante que ela se viu abrindo os olhos, irritada, para a penumbra do sótão.

– Droga! – xingou, sentando-se na cama. A primeira coisa em que seus olhos pousaram foi um envelope amarelo, ainda lacrado, sobre a escrivaninha.

Aguardando.

– Está tendo aqueles pesadelos loucos de novo?

A voz no escuro a fez saltar da cama, procurando sua fonte. Mal e mal divisou os contornos de Tonks sentada perto da janela, abraçada ao joelhos, o cabelo todo espetado e amarelo mostarda.

– Diabos, Nimphadora! – reclamou, colocando a mão sobre o peito para acalmar o coração descompassado – Que raios está se esgueirando aqui no meio da noite e ficando parada ai toda macabra? Eu pensei que o propósito de me darem um quarto era ter alguma privacidade!

– Ah, não – Tonks fez um aceno de descarte com a mão, balançando a cabeça – Era pra te fazer se sentir acolhida e bem vinda como parte da nossa família.

– Esqueceram de me avisar que a família tinha uma psicopata invasora de quartos!

– Pare de drama. – A metamorfomaga fez uma careta de pouco caso – Aqui é o melhor lugar da casa para ver uma coruja se aproximando. As outras janelas tem a vista impedida pelas árvores.

Bervely exalou ar longamente, pedindo a Merlin paciência. Desde o minuto que as férias tinha começado, iniciara-se também a Vigília da Correspondência, estrelando Nimphadora Surtando Tonks. Não se falava em outra coisa naquela casa, a não ser o momento em que a carta da Academia de Aurores finalmente chegaria, anunciando o resultado do exame prático da garota.

– É como a carta de Hogwarts, tudo de novo. – a jovem suspirou, deixando sua cabeça cair, a testa batendo no parapeito. – Eu não vou sobreviver à essa agonia. Sinto que não vou. Você vai ao meu enterro, Bervely? Avise à mamãe que eu quero margaridas bem amarelas na coroa de flores do meu funeral.

– Falando em drama – Bervely rolou os olhos, levantando da cama, e pegando um elástico de cabelo em cima do criado mudo e fazendo um rabo de cavalo – Você mesma disse que foi bem nos testes. Você conjurou um patrono corpóreo, pelo amor de Merlin.

– Eu acho que eu estava empolgada com o meu macaco, mas honestamente, ele não era tão corpóreo. Eu não tenho certeza se tinha sequer um rabo…

– É isso, já chega. Levanta, vamos dar uma volta.

Tonks ergueu a cabeça da sua miséria, uma marca linear vermelha na testa, no local que a pressionara contra a quina.

– Como é? À essa hora? Ficou maluca?

– Olha pra ela, nem virou auror ainda e já está toda defensora da lei e da ordem. – zombou – Quem é você, estranha, e o que fez com minha prima?

Estava com a cara enfiada no guarda-roupas, procurando um casaco. Não notou o sorriso que estampou o rosto da mais velha perante a novidade da intitulação.

– BD –

Se existia algo fantástico sobre St. Catchpole no verão eram as noites limpas e profusamente estreladas nas quais se podia vislumbrar o motivo de se chamar a galáxia do planeta Terra de Via Láctea. Aquela era a hora mais escura – a preferida da professora Aurora Sinistra para fazê-los estudar o céu durante o ano letivo.

Infelizmente, só telescópios especiais permitiam que vissem o céu com aquela riqueza, enquanto estavam em Hogwarts. Ter a visão plena e desimpedida do firmamento ostentoso sobre a sua cabeça promoveu à Bervely exatamente o que ela achava que estava precisando: perspectiva.

Após alguns minutos de caminhada, sentia-se com os pulmões mais livres. Algumas certezas se consolidando em sua cabeça, enormes demais para permanecerem engaioladas no pequeno espaço entre as suas têmporas. Ideias que precisavam crescer no escuro da noite.

– Você está estranha. – Tonks lhe avisou, trazendo a Bervely um sorriso torto. A garota ficara em silêncio por dez minutos inteiros, era praticamente um recorde se tratando de Tonks.

– Você não é a primeira que me diz algo assim. – avisou, lembrando-se da conversa que tivera com Tara ainda em Hogsmeade. A ruiva usara o termo "diferente", mas julgava que o sentido das afirmações era o mesmo.

– Mamãe acha que é porque você está namorando. – comentou como quem não quer nada. Bervely rolou os olhos, silenciosa, esticando o tempo para a próxima pergunta que sabia que viria. – Você está? Namorando?

– É sua mãe quem pergunta?

– Acho que é uma dúvida generalizada da família Tonks. – a outra bufou, levemente impaciente. A estranha tranquilidade da Black só lhe trazia uma maior estranheza.

– Eu estou namorando uma ideia, Tonks. – murmurou, estreitando os olhos ao identificar uma estrela em específico no céu.

– Isso não responde bosta nenhuma. – reclamou, deixando os braços caírem em impaciência. Seu cabelo ia ficando roxo-elétrico, no sentido da raiz às pontas. – Tem falado com Oliver?

– Só faz quatro dias que me despedi de Wood na plataforma. Que assunto nós possivelmente poderíamos ter?

Foi a vez de Tonks bufar. Era praticamente impossível conseguir uma resposta direta da prima, principalmente em seu novo estado de humor contemplativo. Às vezes, conversar com Bervely poderia se tornar uma tarefa extremamente frustrante.

– Você tinha um objetivo com essa caminhada? – voltou a perguntar, dali a apenas cinco minutos de silencio.

– Na verdade eu tinha. Estava precisando pensar.

– Já conseguiu pensar?

– Não, você não para de tagarelar nem por um segundo.

Tonks fez uma careta à injustiça da afirmação. Para seu padrão e nível de ansiedade, até que estava segurando a língua um bocado. Chegaram à beira do rio Otter, cujas águas corriam tranquilamente, parecendo prateadas ao refletir o céu luminoso. Bervely se sentou em uma pedra grande perto da beirada ficou olhando para a correnteza, e após um minuto de contemplação daquela cena improvável, Tonks foi lhe fazer companhia.

– Você não tá pensando em se jogar nem nada assim, né? – perguntou, preocupada. – Um dia mamãe falou que as pessoas ficam meio estranhas quando estão pensando em…

– Suicídio? – completou, divertida. Tonks mordeu o lábio, um tanto sem graça.

– Bem, sim. Não que eu ache que você vá, nem nada, é só que…

– Nem sempre se jogar é suicídio, sabe?

Tonks pareceu horrorizada.

– Mas você não sabe nadar!

Bervely se pegou rindo. Rindo, algo que a outra garota tinha lhe visto fazer pouquíssimas vezes em sua agora não tão breve convivência.

– Essa literalidade ainda vai matar você, Nimphadora.

– Ora, não me chame… argh! É a segunda vez hoje, Bervely! – reclamou, assombrada com o que acabara de acontecer, mas nem por isso incólume a menção do seu nome de batismo.

A manhã dava o primeiro anuncio de sua chegada, tingido o céu de lilás e apagando as estrelas. Com a cabeça inclinada, Bervely acompanhou os pontos luminosos irem sumindo no firmamento, um após o outro, até que o mais brilhante sumiu das suas vistas em meio a tons de magenta e alaranjado pálido.

– Ali! Ali! Eu estou sonhando? Aquilo é uma coruja? Ela veio atrás de mim! Como será que sabia…?

A ave marrom escura e branca desceu até onde elas estavam. Era enorme, e estendeu seu pé dignamente para a garota de cabelos (agora) azuis, entregando-lhe um pergaminho oficial com o selo da Academia de Aurores. Selo este que foi partido em quatro pedaços tal era o seu nervosismo.

Bervely observou enquanto ela lia o conteúdo da carta, seus olhos se arregalando mais e mais, tornando impossível saber se as noticias eram boas ou ruins. Isso até Tonks soltar um grito agudo, dando um salto e sacudindo a carta como se estivesse pegando fogo, tudo ao mesmo tempo.

– EU PASSEI! – gritou – EU PASSEI, EU PASSEI, EU PASSEI!

– Ok, isso é ótimo. – rebateu Bervely, um pouco preocupada com a reação histérica – Felicitações, apenas evite…

Tarde demais. Uma Tonks ensandecida jogou seus braços em torno dela, lhe apertando, gritando e quicando, em completo e descontrolado júbilo de vitória. O seu abraço desajeitado por pouco não as levou para o fundo do rio, o que seria uma ameaça à integridade de Bervely.

Afinal Tonks estava certa, ela não sabia nadar, e na situação literal se jogar era morte certa.

– BD –

A Vigília da Correspondência deu espaço ao Esquadrão de Celebração tão logo o resto da família soube da aprovação de Nimphadora para a Academia de Aurores. Naquele mesmo dia houve um almoço especial ao ar livre, onde Ted fez questão de erguer uma tenda e montar um aparato trouxa estranho que usou para assar hambúrgueres e salsichas.

– É churrasco, um jeito trouxa de celebrar – Andrômeda explicou, ao encontrar a sobrinha olhando o móvel metálico de quatro pernas finas que soltava fumaça no jardim. – Não é tão terrível quanto parece.

– Ele não poderia simplesmente usar um encantamento assador? – torceu o nariz, olhando toda aquela fumaça e bagunça. Com magia, ela já vira Andrômeda conjurar uma bolha de calor que envolvia a carne e a deixava dourada em poucos minutos.

– Isso tira toda graça do processo… segundo ele diz.

– Ted deve ter um dicionário diferente do meu.

Andrômeda sorriu, olhando o marido de forma condescendente enquanto ele explicava para Tonks os princípios de um churrasco bem feito. Entregou à Bervely uma taça de vinho de fadas, que recebeu e estranhou o conteúdo. Normalmente os tios eram bem estritos ao uso de bebida alcoólica dentro de casa.

– O quê? Ora, você já é quase maior de idade, precisa arranjar alguma resistência. Antes beber aqui sob a minha supervisão do que cair em alguma sarjeta porque nunca teve a chance de saber qual é o seu limite.

Ela balançou a cabeça e não disse nada, sorvendo um gole experimental. A bebida era melhor do que uísque de fogo Ogden e cerveja amanteigada juntos, e desceu por sua garganta feito veludo.

Desde que voltara para as férias no chalé, Andrômeda jamais trouxe à tona a briga que tiveram sobre Sirius no Natal, o que para Bervely era um posicionamento muito bem vindo. Conseguira superar o fato de a tia ter escondido a identidade do seu pai dela, apenas superficialmente e admitindo que talvez ela realmente acreditasse que estivesse sendo "protegida", mas sabia que se precisassem de conversar sobre isso, diria coisas que tinha entaladas em sua garganta, e provavelmente o clima harmônico que se estabelecera entre ambas seria quebrado.

E ela faria perguntas que Andromeda não ia querer responder, ou acabaria confessando que tinha ido à Azkaban para vê-lo, e no lugar disso, vira Bellatrix. Desconfiava que nenhuma das duas coisas seriam aprovadas por Andrômeda, e a conversa tomaria um rumo tenso e potencialmente desastroso.

– E ai, Bervely – Andrômeda chamou, ainda olhando para Ted e a filha, tendo as pernas cruzadas, a de cima balançando num ritmo constante. – Planos para as férias?

– Hum… – supunha que se infiltrar em fortalezas protegidas por criaturas sugados de alma não eram uma boa resposta – Nada demais. Fazer minhas tarefas, passar no exame de aparatação…

– Você precisa de roupas novas. – avisou-lhe, severa – As suas antigas estão se desmanchando.¹

– Não, eu realmente…

– Não ouse me contrariar sobre isso. – retrucou, lhe dando uma olhadela seca – Minha sobrinha não vai ficar andando por ai usando trapos, ponto final.

Suspirou, dando mais um longo gole no vinho de fadas. Se alguém lhe dissessem há dois anos atrás que estaria tendo uma conversa como aquela com uma traidora de sangue, sobre banalidades como o estado das suas roupas, ou mesmo que estaria de boa vontade passando as suas férias na casa de uma família de sangue-ruins, ela teria dado uma risada incrédula, e acusado a pessoa de estar sob o efeito de um Confundus bem aplicado.

"Você está diferente."

Ela suspirou, endurecendo seu maxilar. Nada disso importava, realmente. Precisava admitir a utilidade dos Tonks, bem como o fato e que aquelas regalias estariam chegando ao fim em breve. Quando aquele verão terminasse… quando se tornasse maior de idade… já não haveria desculpa para permanecer no chalé.

– Bevy, experimenta só isso! – Tonks veio correndo, uma salsicha espetada no garfo.

Obviamente ela tropeçou num ramo, aterrissou em seus joelhos e a salsicha se desprendeu do talher, fez um arco no ar e aterrissou no chão, rolando até os pés de Bervely, completamente besuntada de terra.

– Humm. Acho que não. Fica pra próxima, Tonks.

– Tanto para a mais nova auror da família – murmurou Andie ao seu lado, desoladíssima – Merlin a proteja nesse treinamento…

– BD –

– O que você pensa que está fazendo nessa cama enfiada em pijamas e com esse monte de livros abertos e essa pena na mão?

– Humm. Panquecas pirotécnicas?

Tonks lhe olhou feio, mas sua tentativa de intimidação foi minimizada pela sua aparência geral. Basicamente, ela parecia ter sido vomitada por um arco-íris: usava calças justas amarelo gema, uma blusa magenta brilhante, jaqueta azul turquesa e não satisfeita, tênis de cano baixo, branco e rosa. Seu cabelo combinava com a blusa, mas do lado esquerdo, ela providenciara mechas brancas "descoladas". Os olhos violentamente azuis faziam par com a jaqueta.

– Eu pensei que você tinha sido aprovada na Academia de Aurores, não no circo?

– Não tente ser engraçadinha, você devia estar pronta! – quando a prima fez uma expressão vaga, ela franziu o rosto – Minha comemoração, Bervely!

– Eu já fui ao seu chumasco hoje, ou não fui?

– É churrasco, e isso não conta, foi no quintal de casa! Agora à noite será no Catch's No Saint, você sabe, aquele pub no vilarejo? Acho que nunca foi lá, mas é bem legal, eles tem uma junkebox!

Ela fez uma careta que Tonks interpretou como uma reação à menção do aparato trouxa, mas na verdade Bervely estava pensando na última vez que estivera no lugar. Tara e ela tinham bebido um monte de vodka e atirado dardos, Tara a beijara, e ela tinha gostado…

– Eu vou ter que dispensar o convite. – retrucou, afastando as lembranças inoportunas das transgressões do passado – Tenho muita tarefa de poções acumulada.

– É o quarto dia de férias! – ela desafinou. – Anda, você tem que ir.

Algo no tom de urgência soou um alarme na sonserina, que ergueu seu rosto com uma expressão desconfiada no rosto.

– Como assim eu tenho que ir? – ela pescou imediatamente a expressão pega-no-flagra da garota, e uma leve mordida em seu lábio inferior, que fez o alarme soar ainda mais forte. – Tonks, o que você fez?

– Eu posso ter, talvez, convidado um certo capitão para a minha comemoração… e posso ter mencionado a possibilidade de talvez, só que com certeza, uma certa prima minha minha estar lá também. – a garota colorida confessou para o teto, paredes, qualquer lugar, menos na direção da Black.

– Você NÃO fez isso. – bradou, sentando-se reta na cama, empunhando a pena como se fosse uma arma branca – Porque você FARIA isso?

– Eu achei que poderia dar um empurrãozinho, vocês são tão bonitinhos juntos, mas tão ridiculamente lentos.

– Venha aqui, Tonks. – ela disse mansamente, acenando para um espaço vago da cama. – Para que que eu possa te dar um empurrãozinho rumo ao descanso eterno.

– Não fique zangada comigo. Era para ser surpresa! Eu não pensei que você ia se recusar a ir à minha festa de comemoração no bar… trouxa… do vilarejo… trouxa. – sua voz foi abaixando ao constatar aqueles pormenores, o tom indo de ultraje à constatação derrotada.

– Pois é, será que já fomos sequer apresentadas? – bufou. – Pelas abotoaduras de Slytherin!

– Então você não vai? Vai dar o bolo no capitão? Droga, Bervely, ele vai ficar inconsolável.

– BD –

Se o Catch's No Saint funcionava como um refúgio para os deslocados e sem-rumos no inverno, o verão o tornava ponto de encontro para os jovens do vilarejo e dos arredores, e como único point que combinava musica, bebida e jogos no mesmo ambiente, estava invariavelmente lotado.

Quando Nimphadora Tonks entrou no recinto sozinha, alguns olhares se viraram para ela. St. Catchpole era um local relativamente conservador, onde as pessoas ainda se espantavam com cabelo colorido, especialmente em tons que nenhuma tintura trouxa já conseguira alcançar. Sem ligar – e até gostando – da atenção angariada, deu uma volta no ambiente, se desviando de grupos muito empolgados e algumas cantadas bregas ("Seu pai é mecânico?" nunca ia colar pra ela, nem se proferida pelo príncipe trouxa da Inglaterra), até encontrar caras familiares.

– Charles Weasley! – gritou, se jogando nos braços do amigo de infância. Não o via desde o natal, o que parecia uma eternidade, e tinha lhe parecido difícil que ele pudesse largar os dragões em um prazo tão curto para comparecer à sua comemoração. – Você conseguiu, eu nem acredito!

– Peguei uma chave de portal de vinte e quatro horas – ele sorriu enormemente, o lado esquerdo do rosto marcado por uma recente queimadura que descia pelo pescoço e sumia sob a gola da camisa.

– Vinte e quatro horas dá pra fazer um monte de coisa. – ela sussurrou em seu ouvido em resposta, fazendo o rapaz de um metro e oitenta corar.

Outras pessoas tinham comparecido; seus amigos de Hogwarts e alguns ali do vilarejo. Desde que avisara por carta à parcela bruxa que estariam em ambiente trouxa, deviam ficar todos bem. Cumprimentou o restante deles efusivamente, adorando os parabéns e se sentindo nas nuvens com toda a atenção, isso até cumprimentar Wood, que apesar de parecer feliz por ela, não podia evitar olhar ao redor especulativamente.

– Então ela não veio? Eu sabia. Estava fácil demais para ser verdade. – concluiu, fazendo de conta que estava tudo bem, até dando de ombros, mas ela não conseguiu evitar rir do derrotismo fácil dele.

– É, ela se recusou a entrar no "recôndito de trouxas embriagados", palavras dela. – Oliver assentiu, a cabeça baixa, perdendo o sorriso de Tonks – Mas ela nunca disse que não queria ver você, especificamente.

– BD –

Estava procrastinando, e sabia disso.

O relógio na parede lhe avisou que já faziam duas horas desde que Nimphadora saíra para segunda etapa da sua comemoração no bar trouxa de St. Catchpole. Um aperto leve de remorsos persistira ao longo daquele par de horas, ao se lembrar de que talvez Wood estivesse lá, mas o que podia fazer? Ele certamente não esperava encontrá-la num local trouxa para o qual sequer lhe avisara que iria. Se queria vê-la, era melhor que marcasse com ela ao invés de esperar se encontrar casualmente em alguma emboscada preparada por Tonks.

Agora já era tarde, ele já sabia que ela não ia aparecer e devia ter ido embora. Melhor assim, disse à si mesma. Precisava se manter focada em outras coisas naquelas férias. Tarefas de poções. ContratosDe relance, olhou para o envelope pardo sobre a escrivaninha, no mesmo local e posição que o deixara desde que chegou para as férias.

E agora o seu relatório sobre Poções Inalantes, requisitado por Snape como dever de casa estava pronto, e não havia mais desculpas. Respirando fundo, se preparou para atravessar o quarto de um lado a outro e iniciar o que poderia ser o grande erro ou decisão mais ousada da sua vida.

Toc, toc, toc.

Vinha do lado de fora, e interrompeu seu movimento. Bervely franziu o rosto para o objeto não identificado que batia em sua janela repetidamente, pedindo para entrar, pequeno demais para ser uma coruja. Quando a abriu, descobriu que era uma pedra encantada e trazia uma mensagem.

"Acordada?"

Ela se inclinou para a janela, identificando duas figuras lá embaixo. A primeira era Tonks, inconfundível pelas nuances das suas roupas. A segunda, inconfundível por outros motivos, e provocou uma contração inesperada de surpresa em sua barriga. O que diabos Wood estava fazendo ali embaixo com Tonks?

Ele olhava de volta, tinha as mãos nos bolsos, e sorria despreocupado. Bervely estreitou os olhos para tamanha displicência; pegou sua varinha, fez um aceno e transformou as palavras: "Agora eu estou.", e enviou a pedra de volta.

Ele leu e franziu as sobrancelhas. Encantou novas palavras e mandou sua pedra flutuando para cima.

"Ops."

Ela bufou, e floreou a varinha mais uma vez.

"Isso era tudo?"

A pedra voltou para a mão do capitão, e Tonks, visivelmente impaciente, se inclinou sobre o ombro dele para ler. Era praguejou alguma coisa, arrancou a pedra mensageira das mãos dele e escreveu suas próprias palavras.

"Desça logo, sua bocó."

Bervely estreitou seus lábios. Wood deu de ombros, como quem diz "ela tem um ponto". Atrás dele, Tonks fez um gesto ameaçador que queria demonstrar o que ia acontecer com ela se não descesse logo. A Black não funcionava bem com ameaças, mas dessa vez rolou os olhos e se afastou da janela.

Correu para o espelho, ajeitando o cabelo, calçou uns sapatos e na saída, agarrou um dos casacos pendurados nos ganchos ao lado da porta.

– BD –

– Hey. Wood.

Ele a esperava na parte traseira do chalé, perto da porta da cozinha por onde Tonks certamente entrara. Usava, ela reparou, um cardigã preto bem quente e jeans. As roupas trouxas lhe caíam excepcionalmente bem, não o deixavam parecendo estúpido, que era como ela julgava os trouxas em suas vestimentas.

– Desculpe por aparecer sem avisar. – disse um pouco sem jeito, um sorriso brincando em seus lábios. Ela soube que estava sendo analisada também quando os olhos dele pararam na sua combinação de camisola e botas de caminhada (que foram as primeiras que achou pela frente antes de descer). Felizmente sua camisola não era constrangedora. Era de cetim e roxo escuro, e podia admitir que estava um pouco curta, porque a ganhara quando tinha uns quatorze anos.

– Bem, a sua pedra avisou. – encolheu os ombros. Pensando bem, era muito, muito estranho ter Wood na porta da cozinha do chalé. Um frio de ansiedade na boca do seu estômago era o sinal de que estava sem saber como agir propriamente.

Aparentemente o mesmo para ele, que ainda tinha as mãos nos bolsos e agora trocava o peso do corpo de um pé para o outro.

– Pensei que ia aparecer na festa da Tonks. Foi legal… – começou a puxar papo.

– Pensou mesmo?

O tom incrédulo dela o fez rir.

– Não, não de verdade, mas mantenho minhas esperanças em alta.

– É um modo arriscado de levar a vida.

O silencio pairou entre eles, só que ao invés de desconfortável, era preenchido de expectativa. Bervely estava curiosa para o que viria a seguir (o que ele tinha ido fazer ali, ela se perguntava), mas percebeu que prolongá-lo estava deixando Wood nervoso.

– Quer dar uma volta? Sinto que eu vou congelar se ficar aqui parada.

– Ok. Tudo bem. – adiantou-se, depois parou, fazendo um gesto cavalheiresco para ela ir na frente.

Aquele pedaço de St. Catchpole, onde os Tonks escolheram construir o chalé, tinha como principal atrativo o pomar, e foi para lá que ela caminhou. A noite estava mais fria que a anterior; acontecia às vezes no bosque, mesmo no verão.

– E as férias? – ele perguntou de novo, andando ao lado dela entre as árvores espaçadas da orla, acompanhando o caminho que a garota ia escolhendo entre as raízes. – O que Bervely Black faz para se divertir no verão?

– Ah, você sabe… sacrifico uns animais, faço uns bonecos de vodu para os meus inimigos novos, enfio uns alfinetes nos antigos… o de sempre.

Ele deu uma sonora gargalhada que ecoou entre as macieiras. Ela sentiu um arrepio de prazer estranho ao ouvir aquele som.

– Eu espero não ter um espaço em sua coleção de bonecos.

– Não tem sentido as alfinetadas? Droga, preciso rever meus encantamentos então. Isso devia funcionar perfeitamente.

– Não dá pra dizer que sinto muito.

Um vento gelado inesperado soprou vindo sabe infernos de onde, se infiltrou pelas suas pernas descobertas, e ela tremeu.

– Parece que a sonserina não é tão indefectível ao frio assim, afinal de contas. – ele pontuou, se aproximando com as mãos ainda nos bolsos.

– Grande surpresa pra você, Wood, sonserinos são humanos também.

– Sempre tive essa duvida.

Ela sorriu, ciente de que ele chegava mais perto. Mas ao contrário do que imaginou, ele não se ofereceu para esquentá-la nem nada assim.

– Eu não posso demorar muito aqui. – confessou, sem jeito – Prometi cuidar da Megs hoje, é a noite da semana que a minha mãe sai com as amigas loucas do trabalho dela. Mas eu esperava te entregar uma coisa, e desde que você não foi para a festa…

Ele catou no bolso até achar um pedaço de papel liso que entregou à Bervely, esperando pra ver a reação dela.

A garota franziu; nunca tinha visto algo parecido. A origem trouxa era evidente, pois possuía impressões de letras e números, algum tipo de marca com inúmeras barras verticais, um monte de informação aleatória.

– O que é?

Ele deu um sorriso arteiro.

– Você vai descobrir sozinha, é uma garota esperta.

Wood… – se tinha uma coisa de que não gostava, era de ser alvo do deboche velado dele.

– Só presta atenção para não perder o prazo.

– Que prazo?

Outro sorriso, e viu que não ia conseguir esclarecimentos. Olhou zangadamente para o papel e depois para ele.

– Você podia ter mandado isso por coruja!

– Mas eu queria te ver. – foi a resposta macia, que contorceu os insetos loucos em seu estômago. O arrepio não foi culpa do frio, dessa vez.

– Muito grifinório da sua parte. – resmungou, desviando o rosto. Wood diminuiu a distancia entre eles ainda mais um pouco, uma mão pousando em seu queixo e virando seu rosto de volta suavemente para o foco dos seus olhos de chocolate.

– Eu poderia usar um feitiço de aquecimento pra te esquentar, mas posso tentar de outro jeito?

Ela abriu a boca para protestar o atrevimento, mas o movimento mais pareceu um convite. Ele se inclinou, a puxando pelo quadril contra seu corpo com a outra mão, e capturou sua boca. Bervely tentou se afastar, relutante.

– Wood, estamos visíveis do chalé!

– Ninguém vai nos ver nesse escuro, Rose. Sua honra está a salvo.

Estreitou os olhos – tinha certeza de que pelo menos Tonks estaria espiando por uma das janelas do chalé – mas Oliver derreteu sua resistência com pequenos beijos nos cantos de sua boca, que estavam definitivamente servindo ao propósito de espantar o frio. Cada toque dos lábios provocava um choquinho na base da sua coluna, e o atrito áspero da barba contra a pele do seu queixo era apenas… Bervely suspirou quando o rapaz mordeu seu lábio inferior, quebrando a sequencia de beijos, e o som foi um convite para ele segurá-la mais forte e enfiar a língua em sua boca.

Foi bem aceita, se enroscando preguiçosamente na sua, numa dança lenta e secreta, completamente inapropriada para o local, mas quem estava se importando? Ela experimentava sensações estranhas; de repente só existia eles dois, e o seu corpo estava todo aceso. Era super-consciente de cada atrito, cada parte em que se tocavam, do calor de suas mãos e do movimento de sua boca. Agarrara a parte de trás dos cabelos dele, na altura da nuca, entranhando seus dedos ali, e a outra mão pegara uma porção do pulôver grosso, os nós dos dedos sentindo a firmeza dos músculos das costas dele. Aliás, a única razão pela qual segurava-se às roupas dele era pra não cair na tentação de testar a pele por baixo delas.

Sentindo-se atrevida, testou devolver a mordida no macio lábio inferior do capitão. A reação foi a melhor possível: ele suspirou rouco, seu peito se contraindo com a leve surpresa, tendo inicio uma batalha de línguas muito mais intensa e intrincada. Oxigênio passou a ser coisa da mínima importância. Wood acabara de colocar as mãos em seus quadris, o toque perceptível através do tecido fino, e quando ele a trouxe contra si mais uma vez, ela sentiu algo inconfundivelmente rígido contra a base da sua barriga.

Como se fosse um sinal de alarme, eles se separaram, ofegantes. Wood estava corado, e Bervely se perguntou se estava também. Provavelmente tinha os lábios vermelhos e inchados, pois podia senti-los pulsando.

Ele lhe olhou absorvido enquanto recuperava o ar. Não lhe tinha soltado completamente, e ela deu um passo atrás, temendo que o calor das mãos dele fosse tentação o bastante para fazer com que entrassem numa segunda etapa daquela pequena batalha.

– Eu… – ele respirou.

– Precisa se mandar. – ela completou, por sobre o fôlego acelerado. – Agora mesmo.

Ele abriu um sorriso grande, não tomando aquilo como uma rejeição, muito pelo contrário.

– É, acho que sim. – puxou mais um pulmão inteiro de ar, um pouco atordoado. – Não esquece do que eu te dei.

– A sua charada – fez uma careta, acenando o papel.

– Isso. Então… tchau.

– Boa noite, Wood.

Ele fez que ia, mas voltou e segurando os dois lados de seu rosto lhe plantou um beijo, pressionando os lábios com firmeza e expressando o mesmo tanto de urgência e vontade que ela também estava sentindo. Mas Bervely ficou bem quieta, porque se ela se movesse um centímetro na direção dele…

– Você é linda. – Oliver disse de repente. – Devia usar roxo mais vezes, outras cores… vermelho e dourado, quem sabe? Acho que te cairia bem.

Bervely sentiu o seu rosto esquentar.

– Nos seus sonhos!

Ele sorriu mais uma vez, hesitou, talvez pensando se valia mesmo à pena voltar para casa e cuidar da irmãzinha a noite inteira quando ela estava ali e claramente não ia à lugar algum, mas enfim fez um aceno e desaparatou.

Sozinha, Bervely constatou que não sentia mais frio. Na verdade, talvez não fosse sentir frio nunca mais na vida, desde que mantivesse aquele beijo em mente.

– Isso é insano. – disse para si mesma, em voz alta. Não adiantou nada, porque havia um estúpido sorriso implícito em seus lábios que não ia à lugar algum – Bastardo infeliz, já não basta tudo, tem a empáfia de me deixar com um enigma trouxa na mãos. Que diabos isso significa?

Olhou para o papel mais uma vez, e como da primeira, não entendeu muita coisa.

CENTURY 8

JURASSIC PARK
RATED: PG
FRI, 7:40pm 07/10/93
Adult Evenin $9.75
Room: 5, Seat: J12

TKT02730897

– BD –

Naquela mesma noite, assim que voltou e encontrou a casa silenciosa e o bilhete de Tonks sobre a sua escrivaninha ("Fui encontrar o Charles, ele só tem essa noite no país, não conte à mamãe") ela se trancou no sótão e pegou o envelope amarelo que Tara lhe entregara no Expresso de Hogwarts.

Estava adiando abrí-lo, e sabia o porquê. Uma vez que o fizesse, não havia mais volta para a normalidade que vinha tomando conta da sua vida agora. Se mantivera longe de problemas por quase três meses inteiros (desde sua desastrosa visita à Bellatrix, em abril), e estava começando a fazer coisas que adolescentes normais faziam.

Mas no momento que partisse o selo, haveria a real possibilidade. E passara os últimos quatro dias pensando se arriscar tudo valeria à pena. Tomara a decisão na noite passada, os olhos no céu, absorvida na constelação Canis Major ofensivamente brilhante. Mas precisava agradecer a injeção de adrenalina que Wood lhe trouxe com a sua visita: sentia-se corajosa.

Sentou-se na cama, as pernas dobradas sobre o corpo, o envelope no colo, e partiu o selo com o símbolo do Olho de Hórus.

Descobriu que havia muita coisa dentro do envelope, mas só podia puxar duas delas: um maço de papel com letras pequenas, numeradas, numa linguagem formal e complicada, e uma pena de ponteira bem afiada. Não se surpreendeu; lembrava de Tara comentando alguma coisa sobre só poder ver o que o Olho de Horus lhe arranjara após assinar o contrato.

"Na verdade, acho que não deve assinar nada"

Ela o leu. Era longo, enfadonho, repetitivo, lhe deu sono. Cobria todas as brechas e deixava suas condições claras, ou assim ela pensava.

Deveria guardar segredo sobre os serviços prestados pelo Olho de Hórus, fossem eles materiais ou relacionais.
Deveria usar o material oferecido apenas para o fim a que se destinava.
Deveria pagar pelos serviços com uma quantia pré-determinada, no caso, o valor integral que ela receberia no programa de avaliação prisional do ministério.

"Tudo bem", pensou, "Ate lá eu terei acesso à minha herança. Dinheiro não vai ser um problema."

Em caso de não pagamento, os termos de sua dívida seriam renegociados pelo contratado.

Ela rolou os olhos nessa parte, provavelmente essa negociação envolveria pagar o dobro do dinheiro com juros. Mas dinheiro não seria o problema.

"Caso esteja de acordo com todos os termos desse contrato, assine da linha pontilhada ad sanguinem."

Bervely pegou a pena, sabendo bem o que a expressão em latim significava. Os bruxos mais tradicionais fechavam seu contrato com sangue, porque promessas seladas com sangue mágico eram essencialmente inquebráveis, portanto, uma melhor garantia que a palavra ou um rabisco de tinta. Só podia ser quebrada se uma das partes viesse a falecer.

Espetou seu dedo com força, e esperou uma bolha de sangue suficiente subir à superfície da pele para molhar a ponta da pena com ela. O sangue foi imediatamente absorvido.

Bervely Rose Black, escreveu em vermelho brilhante.

As palavras foram incorporadas ao pergaminho e o restante do envelope se desfez, lhe dando acesso a uma fina caixa de madeira que, ironicamente, só podia ser destrancada se absorvesse um pouco do seu sangue. Era o sistema anti-invasor perfeito.

Ela meio que gostava de como o Olho de Horus trabalhava, pensou, sorrindo. A impressão só aumentou quando, folheando o conteúdo da caixa, percebeu que ele realmente cobrira todos os detalhes, garantindo sua perfeita inserção em Azkaban sem levantar suspeitas.

Só quando Bervely viu o último documento – onde constava a identidade que usaria para se disfarçar, afinal ela não podia entrar lá usando seu próprio rosto – sentiu que perdeu um batimento cardíaco. Teve de reler uma, duas, três vezes para se certificar de que não estava ficando maluca.

O nome escrito ali lhe trouxe repulsa, e nojo, e então confusão. Mas como era sequer possível?

Leu o dossiê anexado com avidez, tentando retirar dali qualquer explicação. Havia uma história de vida anexada, mas não era a verdadeira: formada em Hogwarts, obteve seis NOMS, cumpriu formação em medibruxaria por três anos era tudo mentira, e impossível…

Na caixa havia um vidro de poção marrom e pastosa escrita "Polissuco", com um bilhete:

"Você precisará providenciar as próximas doses de poção, mas imagino que não será um problema, estou ciente da sua habilidade neste campo do conhecimento. Caso tenha dificuldades em conseguir os ingredientes, me deixe saber. Deve haver material humano suficiente para o programa inteiro, também."

Com uma nova onda de náuseas, Bervely puxou o que ele estava chamando de "material humano" para fora da caixa. Um chumaço de cabelo loiro, amarrado com uma fita azul brilhante.

– BD –

Abordou a prima no primeiro momento que a encontrou sozinha, no dia seguinte. No caso, a prima estava ajudando a fazer o almoço, porque Andrômeda estava de plantão e Ted atolado de trabalho na oficina.

– Eu preciso da sua ajuda.

Tonks quase arrancou um dedo com a faca de cortar legumes. Não que fosse incomum acontecer: Bervely ouvira mitologia Tonkesca o bastante para saber que Nimphadora já cortara seus dedos parcial ou completamente um total de sete vezes. Andrômeda a certo pronto aprendera a manter uma garrafa grande de Esquelecresce guardada em casa.

– Se for pra fazer saturação de raiz de lona de novo, nem morta que eu…

– Não, não tem nada a ver com losna. – adiantou-se, um pouco afobada – É uma coisa de metamorfomagia.

Os olhos hoje dourados de Nimphadora se acenderam como lâmpadas.

– Ah, finalmente, pensei que esse dia nunca ia chegar! Na verdade eu andei preparando um módulo de treino iniciante pra a gente praticar…

Ela deixou a prima falar, só para deixá-la feliz. Nem morta ia usar polissuco com material humano da pessoa na qual precisaria se transformar, não se tinha outra opção tão boa quanto ao seu alcance.

– BD –

5 de Julho de 1993

Azkaban Sala de Operações

Treze bruxos se sentavam em torno de uma mesa de pedra; sisudos, de aparência importante e claramente infelizes com o local onde estavam e tarefa que tinham à frente. A bruxa loura que fora a última a tomar o seu lugar se destacava entre eles; era certamente a mais jovem, mas procurava não chamar atenção especial. Ficou quieta, evitando encarar os "colegas" de programa. Não era suposto a conhecê-los, afinal de contas.

– Senhores, eu sou o Quarter Theodor, e fui designado para acompanhar o Projeto de Avaliação Interventiva do Conselho à nossa instituição. Hoje cobriremos alguns pontos principais da organização de Azkaban, e à isso se seguirá um tour de apresentação…

– Estávamos aguardando a presença do Sr. Shadowtamer em pessoa. – um bruxo com um chapéu verde escuro e nariz poderoso o interrompeu. Era o coordenador do programa, um auror importante que trabalhava para o Conselho Internacional dos Bruxos e fora designado a liderar a operação em questão.

– O Sr. Shadowtamer pede desculpas por não estar presente pessoalmente, ficou preso em algumas obrigações administrativas, mas eu lhes garanto que sou o seu melhor representante… sendo o filho dele.

Ela olhou com mais interesse para o Quarter jovem que falava. Para a sua surpresa, percebeu que o reconhecia de sua visita anterior à prisão. O pensamento foi interrompido quando o coordenador resmungou seu descontentamento de novo.

– Eu creio que não há qualquer motivo para perdermos tempo em delongas, então. – ele anunciou, se levantando. – Eu sou Hominos Criodillus, auror à serviço do Conselho Internacional dos Bruxos e Chefe da Operação Orcus. Participei da seleção de profissionais que estariam à frente deste projeto, portanto, sei quem são. Ainda assim gostaria que se apresentassem para os seus colegas, explicando que função foram escolhidos à desempenhar no projeto.

Os bruxos e bruxas começaram a se apresentar, e Bervely acompanhou as apresentações tentando decorar a posição de cada um dentro do Projeto; ela foi a penúltima a ser passada a palavra, e os doze rostos se viraram em sua direção.

– Charlotte Summers – anunciou, a voz segura, suave, mais aguda que a sua voz de todos os dias. – serei Auxiliar de Avaliação da Integridade Física e Psicológica dos Prisioneiros.

O bruxo ao seu lado, o único que ainda não tinha se anunciado, estendeu-lhe a mão. Para o seu choque, a sua compleição era não só sorridente, como familiar. Como não o tinha reconhecido antes, Bervely só poderia julgar que fora em razão do seu nervosismo.

– Nesse caso, penso que sou seu supervisor, Srta. Summers. Sou o medibruxo Encarregado da Avaliação de Integridade nessa operação… muito prazer, Ian Fritz.

(Continua)


Nota: Segurou o forninho?

Percebam que esse é um capítulo de transição. Percebam que muitas coisas vão acontecer nessas férias. =)

Para quem ainda está confuso com o Projeto Orcus, no qual a Bevy está se infiltrando, explicações mais detalhadas serão dadas nos próximos capítulos.

¹Dedicado à Grazy que colocou a Bevy pra fazer compras.