Capítulo 37 – Traduzido por Ana Ford

Sawyer levantou a última pá cheia de cascalho e a jogou lentamente em cima do retângulo recém revirado de terra nua. Ele deu umas pancadinhas no chão e parou, levantando o rosto. O céu estava começando a clarear e um leve toque dourado tocava as nuvens à leste. Em mais uma meia hora, mais ou menos, o sol faria sua aparição no alto da montanha. Ele temeu aquele momento, mais do que qualquer outra coisa. Quando acontecesse, tudo aquilo seria real.
Diante da luz clara e pura da manhã, os vestígios da noite passada pareceriam ainda mais distorcidos e assombrosos. O corpo no fundo do lago, o aviso enigmático do garoto esquisito, o pequeno e doloroso túmulo no jardim... Tudo isso pareciam coisas que deveriam permanecer enterradas onde pertenciam, no Halloween. Mas, Sawyer sabia que não seria assim. Elas seguiriam a ele a a Kate, esta bela e pacífica manhã adentro, este plácido novembro adentro, um mês melhor representado por peregrinos e perus do que por corpos e túmulos.

Pelo canto do olho, ele pôde ver Kate, meio carregando e meio puxando um grande seixo na direção dele. Era muito pesado para ela e ele sabia que devia ajudar, mas, parecia que ele não conseguia se mexer.
Finalmente, ela empurrou a pedra para cima do túmulo e se deixou cair no chão, sem fôlego. Ele a olhou de relance, pensando como era engraçado que ela sempre parecesse mais confortável na terra ou no chão do que numa cadeira. Ele estava alivido por ela ter finalmente trocado a maldita fantasia por jeans e um sweater vermelho justo. Embora nenhum deles tivesse dormido, eles, pelo menos, tinham conseguido se limpar um pouco antes de sairem para a última parte de sua terrível tarefa. Mas, pelo amor de Deus, ela tinha que usar vermelho? A mera vista o enervava, especialmente depois de vê-la coberta de sangue por toda a noite. Ele podia apostar que, em sua exaustão, ela havia apanhado a primeira blusa que sua mão tocara, sem nem ao menos, notar de que cor era. Isso, ou ela era irônica em um nível que ele jamais imaginara.

Ela corria os dedos vagarosamente pela terra solta, pegando punhados e soltando aos poucos de volta ao chão. Ele se lembrou de ter visto ela fazer a mesma coisa com areia, uma vez, enquanto fitava as ondas. Seus olhos agora estavam ainda mais tristes do que então.
Depois de alguns segundos, ela falou suavemente, "Acho que devia ter mais alguma coisa. Não levou muito tempo."
"É só uma droga de cachorro." Ele olhou em direção ao Leste de novo, sem encontrar seus olhos.
"Sawyer." Sua voz reprovadora, magoada.
"Foi uma idéia estúpida pra começar," ele murmurou amargamente. "Nunca devia ter trazido ele pra cá."

Olhando para os pés, ele chutou algumas folhas, distraidamente. Kate havia escolhido o lugar, embaixo do bordo que ela admirara algumas semanas atrás da janela, por sua cor brilhante. A cor tinha quase desaparecido agora, o laranja fogo desvanecido em um marrom desbotado e morto. As folhas tinham caído, formado um grosso tapete embaixo dos pés deles. Ele pensou, insanamente, que seria divertido empilhá-las e pular dentro delas. Se eles fôssem pessoas diferentes.
"Não foi uma idéia estúpida," disse Kate, se levantando. Ele podia sentir seus olhos nele e finalmente cedendo, se virou para ela.
Kate o olhava atentamente. Suas feições estavam estampadas com uma combinação de dor, culpa, medo e preocupação com ele. Ele notou pela primeira vez que os cantos de seus olhos tinham delicadas, leves linhas de sofrimento. Outros podiam confundi-las com linhas de risos, mas, ele a conhecia melhor. Havia também um tipo de intensidade em sua expressão que o aterrorizou, porque ele sabia que se continuasse olhando por muito tempo, iria se despedaçar e desmoronar dentro dela.

She was so close that he could feel the warmth from her skin. The desire to touch her, to lean into her, to rest his head against her shoulder was so strong in him that he refused to allow himself to do it, almost by instinct. Backing away as if she posed a danger, he diverted his gaze toward the house.
"Got some errands to run...You should try to get some sleep. I'll be back later," he said shortly.
Heading toward the truck, he left her standing there by the side of their first shared grave, her eyes following him sadly.

Ela estava tão próxima que ele podia sentir o calor de sua pele. O desejo de tocá-la, de se apoiar nela, repousar a cabeça em seu ombro era tão forte dentro dele que ele se recusou a se permitir fazer isso, quase por instinto. Recuando como se ela representasse perigo, ele desviou o olhar em direção à casa.
"Tenho umas coisas pra fazer... Você devia tentar dormir. Eu vou voltar mais tarde," disse brevemente.
Se dirigindo a caminhonete, ele a deixou parada ao lado de seu primeiro túmulo compartilhado, olhando-o tristemente.

Kate tentou ficar acordada o máximo que pôde, esperando que ele voltasse. Ela não tinha a menor idéia de onde ele poderia ter ido. Ele não podia ter ido fazer compras, porque ela não fizera uma lista e quando ele fazia as compras, não demorava tanto. Que tipo de coisas ele estava falando? Alguma coisa perigosa? Ela tentou se convencer que não era da conta dela - que ele era um homem adulto que não tinha obrigação de informá-la como passava cada segundo de seu tempo, e que ela não poderia esperar que ele mudasse seus antigos hábitos tão completamente numa questão de meses.
Mas, ainda assim, ela não conseguia deixar de pensar que isso era injusto. Ele sabia que ela não tinha como contatá-lo, nem como deixar a casa... Ele devia perceber que ela não podia fazer nada além de sentar ali e se preocupar. Será que ele sabia? Ela sabia o quanto ele devia estar sofrendo agora, o tormento que o estava dominando. Talvez ele nem soubesse o que estava fazendo, ou por quanto tempo estava fora. Ela apenas desejava que ele voltasse.

Exausta pelo stress da noite anterior e sendo arrastada pela falta de sono, ela finalmente desistiu. Se ela dormisse agora, poderia pular direto as horas extras de ansiedade. Quando acordasse, ele certamente já teria voltado. Se não tivesse... Ela interrompeu esses pensamentos antes que eles avançassem demais nessa possibilidade. Ela não tinha a menor idéia do que faria. E era melhor não ficar remoendo isso.
Ela se esticou em cima das cobertas, porque, de certa forma, isso fazia parecer mais temporário, menos como ir para cama. Eram quase 2 da manhã. Quando ela fechou os olhos, um caleidoscópio vertiginoso de cenas da noite anterior correu por sua mente, tremulando através de sua visão interior como um louco filme mudo. Ela quase se levantou de novo para esperar, desejando, pelo menos, que Sawyer estivesse a seu lado quando essas vinhetas infernais aparecessem de novo. Mas, seu corpo estava pesado, lento. Enquanto tentava se decidir, adormeceu.

Quando abriu os olhos de novo, o quarto estava escuro. Ela se surpreendeu, porque parecia que o tempo não havia passado. Virando seu pescoço para o relógio digital no criado mudo de Sawyer, ela viu que marcava 3:47. A princípio ela pensou que era da tarde. Ela olhou para a janela, confusa e daí percebeu, com choque, que era 3:47 da manhã. Ela havia dormido por quase quatorze horas.
Embora já suspeitasse da verdade, ainda tateou pelo outro lado da cama, para confirmar que Sawyer não estava lá. Ela tentou se manter no controle, dizendo a si mesma que isso não significava nada. Se forçando a fazer movimentos calmos e lentos, ela sentou e acendou o abajur da cabeceira, esperando alguns segundos para seus olhos se ajustarem. A casa estava em silêncio.

Empurrando o cobertor para o lado, ela baixou os pés no chão e procurou por seus sapatos, puxando-os com deliberada paciência, mantendo a mente em branco.
Ela se levantou e andou alguns passos em direção da porta, mas, havia alguma coisa a incomodando, algum detalhe chamando sua atenção, mandando-a olhar de novo. Ela espiou a cama de novo, inquisitivamente, e ao entender o que estava tentando se lembrar, caminhou de volta e se sentou pesadamente na beirada, em meio a seu imenso alívio.
Ela havia dormido em cima das cobertas. E acordado embaixo de um cobertor.

Puxando a colcha que ele devia ter tirado do armário do hall, e se aconchegando nela por alguns segundos, a largou outra vez na cama, se dirigindo para a porta de novo. Ela checou a cozinha primeiro, mas, ele não estava lá. O que estava lá, entretanto, a fez parar e se mover dentro do aposento com um medo crescente.
Arrumadas de maneira quase artística na mesa da cozinha, estavam, pelo menos, quinze garrafas de vários tipos de bebida, de diferentes formatos, tamanhos, cores e marcas. Tinha o ubíquo whisky, claro, entre outras variedades. Havia também vodca, gim, tequila, conhaque, sherry, vinho e até rum. Ela pegou a última garrafa, imaginando, carrancuda, se aquilo havia sido inspirado pela fantasia de pirata.

Parecia, por mais bizarro que fôsse, que ele estava planejando uma festa. Uma tigela de salgadinhos e uma pilha de guardanapos teria completado a ilusão perfeitamente. O que a perturbava tão profundamente não era o fato dele ter comprado tanta bebida (embora isso fôsse bastante perturbador), mas, o fato dele ter exibido todas ali na mesa, aparentemente indiferente se ela veria ou não, abstraído do que ela poderia pensar daquilo. Era como se a vista de tudo aquilo, ali, junto, num só lugar, pudesse lhe dar um conforto tão profundo, que a opinião dela não significasse nada na comparação.
Apesar de se sentir péssima por ele, ela experimentou um leve toque de raiva ao pensar nisso. Depois de tudo que eles passaram, era assim que ele ia lidar com a tragédia? Talvez ela estivesse errada ao pensar que a queima da carta sinalasse o fim de algo. Talvez, ao contrário, fõsse o início de alguma coisa ainda pior.

Ela deu meia volta e se dirigiu à sala de estar, sem saber o que esperar. Ela ficou quase aliviada ao ver que ele havia apagado no sofá, outra garrafa de Jack Daniels, quase vazia, no chão, perto dele. Havia outro garrafinha, menor, ao lado, e ela se moveu para pegá-la, alarmada. Apanhando-a, ela viu a prescrição que Jack havia feito para ela - os analgésicos que ela quase não precisara, depois da primeira noite. Ela rapidamente tentou estimar quantos ela mesma havia tomado e quantos haviam sobrado. Mais do que estavam agora no frasco, isso era bem óbvio.
Olhando para Sawyer de novo, ela o observou respirar, segurando sua própria respiração para melhor detectar o lento subir e descer de seu peito. Ele parecia estar dormindo bem, mas e se ele entrasse em coma? Seu pensamento racional lhe dizia que ele não havia chegado nem perto da quantidade suficiente de pílulas para provocar algum dano sério, mas seu nervos já estavam abalados. Se curvando sobre ele, ela deu leves tapinhas em seu peito e gradualmente aumentou a pressão, batendo nele.

"Sawyer! Acorde!"
Ele abruptamente deu um solavanco e uma careta de aborrecimento apareceu em seu rosto. Empurrando as mãos dela, ele se virou para as costas do sófá e murmurou zangado, "Quer dar o fora daqui e me deixar dormir?"
Ela se magoou com suas palavras, mas ficou grata por elas, ao mesmo tempo, já que elas faziam sentido e foram ditas com relativa clareza.
Se afastando do sofá, ela o observou atentamente por mais alguns segundos e então, voltou para a cozinha com uma corajosa determinação. Carregando as garrafas de duas em duas até a pia, ela entornou o conteúdo de cada uma pelo ralo.

Quando ele finalmente apareceu na cozinha, ainda segurando a garrafa semi-vazia de whisky, era quase 8 da manhã.
Kate estava sentada à mesa limpa, tomando café. Ela abaixou a xícara cautelosamente e o seguiu com os olhos. Primeiro ele olhou para a mesa, as garrafas desparecidas começando a fazer sentido para ele, gradualmente. Ele examinou a cozinha, piscando confuso. Parecia estar com dor, provavelmente devido ao álcool evaporando.
Seu olhar surpreso pousou na pia, onde Kate havia empilhado as garrafas vazias. Ela pensou em jogá-las no lixo, ou mesmo embrulhá-las e levá-las para fora, mas, por alguma razão, ela queria que ele as visse.
Se arrastando até elas, ele levantou uma, segurando-a e examinando-a, notando com um choque que estava vazia. Ele tentou outra e mais outra. Finalmente, se virando em direção a Kate, a quem ele estava fingindo não ter notado até agora.

"O que diabo é isso!" Ele perguntou alto, com uma expressão espantada no rosto.
"Acabou. Eu entornei tudo fora," disse ela num tom baixo, encarando-o firmemente.
Por um segundo ele ficou tão perplexo que não teve o que responder. Levou um tempo para ele conseguir falar.
"Você fez o quê?? Acho que não ouvi direito, Freckles, porque, por um segundo, eu podia jurar que escutei você dizer que entornou minha bebida fora!"

Ela não respondeu.
Seu olhar estava tão perplexo e desorientado que se a situação fôsse menos séria ela teria rido. Ele continuou. "Você está fora de si? Você perdeu a noção do perigo, querida?"
"Na verdade, eu acho que quem perdeu foi você," disse ela amargamente, incapaz de se conter. "A menos que você tenha alguma prescrição médica para tomar analgésico com whisky, o que eu duvido."
De novo, ele ficou mudo, incapaz de responder às palavras dela. Ele finalmente murmurou "Inacreditável,", olhando ao redor como para ganhar apoio de um auditório invisível.
Lançando-lhe um último olhar letal, ele se dirigiu à porta com o Jack Daniels ainda seguro pelos dedos, parando para procurar suas chaves no gancho perto da porta. Elas não estavam lá.
Ele apalpou os bolsos e ela pôde perceber que ele estava pensando. Mesmo através da ressaca, ele sabia que não as tinha deixado na caminhonete. Ele nunca fazia isso.
Kate se levantou da mesa, lentamente. "Você não vai encontrá-las."
Ele se virou para encará-la. Eles olharam um para o outro em confrontação, Sawyer parecendo perigosamente irritado. "Aonde estão?" perguntou ele numa voz cuidadosamente contida.

Quando ela o ignorou, ele deu um passo para perto dela, ameaçadoramente. Ela olhou para o chão, mas, se recusou a recuar, nem um centímetro.
"O que você fez com elas, Kate?" Sua voz baixa, com uma mal-controlada raiva. "Me diga onde elas estão, agora."
"Não," disse ela, num sussurro rouco e dolorido.
"Eu não vou pedir de novo." Ele se encontrou mais uma vez na posição de impedir suas mãos de tocá-la, mas, o impulso, dessa vez veio de uma fonte inteiramente diferente.
Quando ela finalmente ergueu os olhos para ele, ela estava lutando contra as lágrimas. "Sawyer," disse ela carinhosamente.

Fugindo rapidamente daquele olhar, ele passou os olhos descontroladamente pelo aposento, e depois, com um gesto violento e impulsivo, lançou a garrafa de whisky na pia com toda a força. Ela bateu na beirada da bancada e se estilhaçou com um terrível barulho, os cacos ricocheteanco pelo cabinete e chão. Kate fechou os olhos apertados.
Saindo pela varanda, Sawyer bateu a porta atrás dele com um bang ensurdecedor. Kate finalmente abriu os olhos e o observou pela janela descendo os degraus da varanda.
Depois que ele desapareceu da vista dentro da grossa neblina da manhã, ela permaneceu parada por alguns segundos. Depois, secando seus olhos com a manga, foi atrás de uma vassoura.

Sawyer deu outra tragada em seu cigarro, tentando se convencer que o gosto era bom depois de todo esse tempo. Ele estava tão certo que seria que quase conseguia se convencer disso.
As tábuas da doca estavam úmidas e frias embaixo de seus jeans e ele não conseguia ver quase nada pela grossa e pesada névoa que repousava como uma manta sobre o lago e o vale.
A cada poucos segundos, ele enfiava a mão no bolos, quase por instinto. A falta do papel era uma coisa à qual ele não conseguia se habituar. Sua mão sentia falta da carta com uma dor quase física. Era como parar com uma droga ou perder um membro. Ele ainda podia senti-la perto, mesmo com ela não mais existindo.

Ele também estava zangado e desgostoso consigo mesmo, e fazia o máximo para manter sua mente longe de pensamentos importantes, especialmente da cena que acabara de acontecer na cozinha. Estes esforços foram, na maior parte, infrutíferos. Provavelmente por isso a voz dela, a princípio, pareceram vir de sua própria cabeça, de sua própria consciência.
"Você tá fumando de novo, também?"
Ele evitou se virar, sabendo que não conseguiria vê-la pela neblina até que ela estivesse bem perto.
"Tem algum problema com isso?" ele perguntou numa voz cansada e desinteressada, como se não tivesse mais energia para se aborrecer.
"Não," disse ela quieta, quando chegou a seu lado. Ela parecia cansada também.

Sentindo o estômago virar quando deu outra tragada, ele jogou o cigarro na água com desprezo. O cigarro sibilou com um pequeno chiado e ambos ficaram observando ele ser carregado para longe pelas pequenas e suaves ondas.
"Te trouxe uma jaqueta," disse Kate, jogando uma camisa de flanela em seu colo. Ela se abaixou na doca ao lado dele.
Depois de esperar alguns segundos, ela perguntou, "Não vai dizer que eu não devia estar aqui fora?"
"A essa altura, você acha mesmo que isso faz muita diferença?" ele perguntou num tom triste, ainda olhando para a água.

Ela se virou para ele, que pôde sentir seu desapontamento. Num tom estranhamente amargo, ela replicou, quase rindo, "Provavelmente não." Ela pareceu pensar. "Mas, pelo menos o tempo parece estar do meu lado."
Depois de alguns segundos refletindo, ela continuou, num tom distante e pensativo. "Sabe quando você é uma criança e ouve falar do céu... como é no céu... e você imediatamente pensa que as pessoas devem viver nas nuvens lá em cima? Eu pensava, pelo menos," disse ela, quando ele não respondeu. "E eu ainda lembro do dia que meu pai me contou o que era a neblina... que eram apenas nuvens baixas, do mesmíssimo tipo dos que você vê no céu. Eu fiquei tão desapontada, eu quase chorei. Quer dizer, como as pessoas podem viver assim? Não é balouçante ou fofo ou suave. É só... fumaça úmida." Ela sorriu tristemente, parando por um segundo. "Eu nunca mais acreditei no céu depois disso."

"Eu não me preocuparia com isso," disse Sawyer secamente. "Não acredito muito que acabe lá, algum dia, de qualquer forma."
Ela suspirou, divertida. "Bem observado."
Numa voz ligeiramente mais séria, ela perguntou, "Você acredita nisso?"
"Eu não acredito em nada." Seus olhos estavam assombrados e ele finalmente se virou para ela. "Tudo que eu sei é que nós dois devíamos estar numa cela de prisão. Já te ocorreu que nós não merecemos nada disso?" Ele fez um gesto para o lago, varrendo o cenário e o caminho para casa com o braço.

Ela olhou para ele, surpresa. "Merecemos isso?" ela perguntou cortante. "Claro que nós não merecemos isso. Nunca merecemos. O que aconteceu noite passada não muda isso." Ela pensou um pouco. "Esse é o problema? É por isso que você quer se afogar até esquecer? E eu pensando que você estava mal por causa deles." Ela balançou a cabeça.
"Você acha que eu não estou?" ele perguntou, zangado.
Ela desviou o olhar, apologeticamente. "Não foi o que eu quis dizer." Ela suspirou.
"Você quer se entregar, Sawyer? É isso o que você quer? Você acha que a gente deve ir junto, como uma coisa de casal? Quem sabe, talvez eles nos façam uma promoção dois-por-um."
"Você é muito engraçada, Freckles."

"Não estou tentando ser engraçado," disse ela, amargamente. "Sabe, uma vez você me disse uma coisa que eu nunca vou esquecer. Você disse, que eles nunca poderiam me punir mais do que eu já faço sozinha." Ela olhou para ele atentamente. "E sabe de uma coisa? Você tava certo."
Sawyer estava silencioso. Ele detestava quando as pessoas usavam suas próprias palavras contra ele.

Ela olhou para o lago outra vez. "Então... eu sei que é egoísta e injusto e que eu não mereço nada disso. Eu provavelmente não mereço felicidade nenhuma." Sua voz ameaçou traí-la. "Mas, esta é a primeira vez na minha vida que tenho alguma alguma coisa parecida com isso." Seu tom ficou firme, quase zangado. "E eu não desistir tão fácil... eles vão ter que arrancar isso de mim à força. Porque eu NÃO vou abrir mão disso." Ela olhou para ele. "E não importa o que você diga... não importa o quanto você se sinta culpado... Eu não acredito que você vá desistir também."

"Tem um corpo nesse lago. Que nós colocamos lá," disse ele suavemente.
Kate segurou o fôlego diante da menção. "É, você tem razão. Tem. Mas, como você disse na outra noite, ele fez isso a si mesmo. Eu não o matei e nem você. Ele se matou. Assim como ela, pra falar a verdade. Você pode ter desencadeado tudo isso, mas os dois fizeram a decisão final por eles mesmos."
"Quer ouvir uma coisa engraçada?" perguntou Sawyer apaticamente, como se ele estivesse conversando casualmente. "Ela costumava falar sobre fazer isso, mesmo antes de ter um motivo. É uma das poucas coisas que lembro sobre ela... que ela tinha essa fascinação sobre se matar. Eu pensava que era só o tipo de merda estúpida que as mulheres falam pra te impressionar, fazer você pensar que elas são... excitantes e perigosas. Sem ofensa," disse ele, olhando para Kate. "Você tem as credenciais verdadeiras. Mas, quem diabos ia adivinhar que ela estava falando sério?"

Kate olhava para ele, atônita. "Então..." ela parou. "Talvez ela tivesse feito isso de qualquer maneira. Talvez os dois tivessem."
"Este ´talvez' é uma palavrinha bem conveniente, não é?" disse ele sarcasticamente. "Você pode tornar realidade qualquer coisa que quiser jogando alguns 'talvezes' por aí. Droga, talvez o FBI deixe você escapar na próxima semana e decida te oferecer um emprego."
Ela quase sorriu. "Eu não aceitaria," disse ela.
Ele virou os olhos. "Yeah."
Ela observou seu rosto. "Se sentir miserável não vai trazê-los de volta, Sawyer. Não faz diferença pra eles você se torturar ou não. Tudo que a gente pode fazer é ir em frente e não cometer os mesmos erros de novo."
"E quais são as chances disso acontecer?"
"Eu não sei," disse ela honestamente. "Mas, não vou ficar chateada se você encontrar outro ramo de trabalho."
Ele balançou a cabeça em exausto desprezo.

Ela sorriu levemente, então ficou mais séria. "Sinto muito pela bebida," disse ela mansamente. "Mas, eu faria de novo sem pensar." Ela fez uma pausa. "Ver todas aquelas garrafas ali na mesa, daquele jeito... você faz idéia do quanto aquilo me assustou? Ou quando você não voltou pra casa ontem... o que fez comigo? Eu nunca senti esse tipo de medo antes. E eu odiei isso. Eu não quero me sentir assim nunca mais."
Parecia que ela estava se esforçando para não chorar. Ele sentiu como se alguém estivesse cravando uma ponta de gelo em seu coração, mas suas palavras o estavam assustando. Era o mesmo tipo de medo que ele sempre sentia em relação a ela. Ele sabia que ela não podia depender dele. Por que ela simplesmente não aceitava isso?

"E o que é que você esperava?" ele perguntou, evitando cuidadosamente seus olhos. "Com tudo que você sabe sobre mim, você pode mesmo me dizer que tá surpresa?" Finalmente encontrando seus olhos, ele se forçou a desafogar as palavras mais difíceis que ele podia dizer a ela. "Eu não posso cuidar de você," ele sussurrou roucamente.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela segurou o olhar dele. "Eu nunca te pedi isso. Mas, naõ vou mentir e dizer que eu não preciso de você. Porque eu preciso." Ela engoliu em seco. "Eu acho que não posso voltar a fazer isso sozinha. Não agora."
Ele olhou para a água, sentindo sua garganta se apertar de emoção. Ela se esticou e repousou a mão no braço dele, o primeiro contato físico substancial que eles tinham desde que ele queimara a carta.

"Ei," ela sussurrou, forçando-o a olhar para ela. "Se nós dois vamos pro inferno mesmo, bem que podíamos rachar um taxi, certo?" Ela sorriu para ele através das lágrimas.

Desistindo da luta que estava travando consigo mesmo há dias, ele foi em direção dela, puxando-a para si enquanto ela se inclinava ao mesmo tempo, no mesmo movimento. Ele a beijou, suavemente a princípio, se deliciando com a diáfana textura da pele dela contra seus lábios, o gosto salgado de suas lágrimas, o delicado aroma que sempre a acompanhava, que era simplesmente parte de sua essência, independente de qualquer tipo de xampú ou sabonete. Ele o reconheceria instantaneamente mesmo que ficasse separado dela por cinquenta anos.

Ele a sentiu empurrando-o contra a doca, e cedendo, se deitou nas tábuas. Para sua surpresa, embora não para seu desapontamento, ela começou a abrir seu jeans. Ele levantou os olhos para a névoa sombria e descorada, o tempo parecia parado.
Quando sentiu seu corpo coberto pelo dela, ele fechou os olhos, flutuando num estado quase de sonho. Ela se movia ritmada e graciosamente e seus cabelos roçavam sedosos no rosto dele. Ele a deixou escolher seu próprio ritmo, somente intervindo algumas vezes para puxar seu rosto para perto do dele e sentir seus lábios nos dela de novo. Em certos momentos ele parecia esquecer de onde estava. Sem noção de quanto tempo havia se passado, ele escutou seu próprio e sufocado gemido final como se viesse de uma grande distância, de alguma outra pessoa. Desconectado dele.

Quando a consciência da realidade voltou a ele, sentiu que a cabeça dela estava enfiada embaixo de seu queixo, o corpo dela ainda repousando em cima dele, quente e relaxada. Ele vagarosamente abriu os olhos e viu uma minúscula nesga de céu azul. A neblina devia estar se dissipando. Eles deviam vestir as calças, ele pensou com um sorriso. Só o ato de pensar uma coisa dessas o fez se sentir melhor, mais como ele mesmo.
Ele apertou mais os braços em volta de Kate, se maravilhando, como sempre, de como ela era pequena. Por que havia lhe dito que não podia cuidar dela? ele se perguntou. Claro que podia. E ele iria provar isso a ela com seu último suspiro, se precisasse. Tudo parecia diferente agora.

Ela suspirou contente e se ergueu, olhando para ele. "Está feliz agora?" perguntou ela com um brilho nos olhos. "Podemos riscar a doca da lista."
"Nada como o sentimento de realização, não é mesmo?" ele replicou, puxando-a pra beijá-la novamente enquanto ela ria.
Se movendo para o lado, ela recolocou os jeans, olhando em direção da água, one as picos das montanhas mais próximas começavam a ficar visíveis através da neblina fina. Ele abotoou os jeans, mas permaneceu reclinado, observando-a. Com uma das mãos ele corria os dedos por suas costas, de alto a baixo. Agora que ele havia, finalmente, se permitido a tocá-la de novo, ele não queria mais parar.

Kate suspirou profundamente, sem se virar. Ela parecia estar tentando decidir alguma coisa. "Posso te pedir uma coisa?" Sua voz parecia nervosa, presa de preocupação.
"Vai em frente," disse ele, curioso mas relaxado.
"Você acha que dá pra ir pra cidade de novo, hoje?"
Ele estava confuso. "Não sei... Por que? Tem uma lista?"
"Não. Não é isso. Eu só..." Ela se interrompeu. "Tem uma coisa que eu preciso que você traga pra mim." Ela ainda não havia se virado.

"O quê? Tampões?" ele perguntou, achando que tinha adivinhado. Droga, por que ela estava tão constrangida com isso? Ele já tinha comprado isso antes, não tinha?
"Não," disse ela, soando como se estivesse reprimindo um sorriso. "Não é isso. Pode acreditar."
"O que, então?" O suspense estava o estava matando. O que poderia lhe causar tamanha hesitação?
A menos... que tivesse alguma coisa a ver com sexo, ele pensou. Sua mente correu excitadamente pelas possibilidades. Mas ela não havia dito que não era dessas coisas?
Ela suspirou de novo, tremulamente. "Eu não sei mesmo como dizer isso," disse ela, mortalmente séria. Então, provavelmente não tinha nada a ver com sexo, afinal. Ele esperou, tenso.

Ela finalmente virou a cabeça, olhando para ele. Havia um novo tipo de medo, completamente diferente do que ele sempre vira em seus olhos antes, o tipo ao qual ele já estava acostumado. Este era diferente.
Num tom de voz suave, mas claramente audível, ela falou.
"Eu preciso que você me traga um teste de gravidez."
Vagarosamente, ele se levantou da doca.

Os dois se entreolharam.