Capítulo 35 – O pequeno príncipe
- Severus, Severus, Severus.
- Calma Ana, estou aqui, estou aqui.
A imagem do professor estava embaçada, distorcida. Apenas um borrão, um borrão se distanciando.
- Severus.
- Quando ele volta Alvo?
- Em breve Papoula. Daeron diz que ele ainda precisa de um tempo para se adaptar.
- Então espero que isso seja logo e que ele escute os chamados dela.
- Severus, Severus.
Era frio ali, congelante ou era somente seu corpo, apenas ela mesma em contato com sua própria solidão? Aquele pano não lhe era suficiente, ainda a deixava fria e tremendo.
O frio aumentou quando mãos minúsculas lhe tocavam a face, quando lhe traçaram as linhas perfeitas de seus lábios. Parecia a morte, uma morte lenta que vinha buscá-la na calada da noite quando os corações se aquietavam e a alma vacila.
Mas ela... ela não pode morrer.
Ele estava ali, agora ela podia ver, seus olhos estavam bem abertos, não havia engano.
- Quem é você?
Ele não respondeu. A criança continuava aos pés de sua cama, reservava-se a apenas lhe sorrir fracamente.
Ela levantou-se e seu vestido negro arrastou-se no chão tapando-lhe os pés descalços. O pano preto combinava com seus cabelos e lhe caia bem.
Estava tão bela que por um momento um breve momento esqueceu-se dele e ele já não estava mais ali.
Olhou ao redor, embaixo da cama, em todos os lugares ate que finalmente o achou no final do corredor que levava à escada.
Seus olhos negros eram familiares. Algo perdido a um tempo que lhe fora roubado.
Ele sorriu e aquele sorriso lhe disse que ela sabia quem ele era, conhecia aquela criança, mas de onde?
Tentava, buscava em todos os cantos de suas lembranças, mas não achava.
- Espere, volte aqui.
Ela o seguia pelos corredores vazios em que se encontrava. Seguia-o em desespero de saber, em desespero de encontrar, de finalmente o achar.
- Não! Por favor, volte.
Seus pés a levavam pelos corredores cada vez mais escuros e frios, câmaras escondidas, entradas e saídas secretas, estatuas, quadros, paredes, portas, ate que finalmente parou.
Aquele corredor, aquela porta, aquele frio. Era tudo tão familiar, tão conhecido ao mesmo tempo em que se lembrava de nenhum item.
Era tudo novo e ao mesmo tempo não era. Havia um cheiro no ar, um cheiro que lhe chamava, mas não era forte, não como antes, não quando ela sentia necessidade de ir atrás dele, de estar com ele, de cheirar sua pele, de tocar em seu corpo, gemer em seu ouvido, beijar-lhe o lábio, sugar suas veias.
- Severus.
- Tudo lhe veio como um prédio que desaba, sumindo em apenas alguns segundos, uma avalanche de lembranças que lhe invadiam a cabeça, que lhe tomavam a alma.
- Severus, Severus.
Não havia ninguém. O quarto se abriu para ela, mas a acolheu em um silencio constrangedor.
- Severus? – Chamou recebendo nada mais que um uivo de vento que vinha do corredor.
Olhou para fora desolada em sua solidão, em seu esquecimento. Segurou a maçaneta da pesada porta e começou a fechá-la tentando esquecer aquele quarto, tentando esquecer o dono daquele quarto, tentando deixar as lembranças novamente em um lugar em que ela não tivesse acesso, assim era mais fácil, mais fácil de viver, de passar as eras.
Sozinha
Esquecida
Se remoendo pelos erros cometidos
Tantas mortes
Mortes silenciosas
Mortes cruéis
Lutas e mortes
Sangue e mortes
Morte e morte
Vida, de repente vida
Uma vida que pedia vida
Uma vida que a chamava
Uma vida que gritava naquele quarto
Uma vida que implorava por ela
Uma vida.
Voltou ao quarto e fechou os olhos, ouviu atentamente os inúmeros ruídos, o som vindo do peito nu, peito pequeno que subia e descia.
Tumtum, tumtum, tumtum.
O cheiro era fraco, mas ainda assim reconhecido, ainda assim amado, ainda assim querido.
O chão estava frio embaixo de seus pés descalços. A barra de seu vestido arrastava pelo chão, balançando com o vento que vinha pela fresta debaixo da porta escondida pela grande tapeçaria de cobra.
A tapeçaria voou, a porta se abriu e de dentro do quarto, um choro se ouviu.
Uma criança
Pequena criança
Chorando quietinha em seu cantinho no berço
Pequenas mãozinhas que lhe chamavam com caricia.
Grandes olhinhos tão negros quando o véu da noite.
Chamava, chamava e queria. Queria.
Ela se aproximou, paralisada, encantada com os sorrisos que apareciam em meio às pequeninas e ralas lagrimas do choro a muito já esquecido.
Um sorriso puro.
Atreveu-se a tocá-lo. Era quente, ou ela que era gelada demais. Podia sentir, correndo pelas pequenas e finas veias, o sangue quente daquele ser vivo, daquela criatura indefesa, de seu filho. O sangue correu cada vez mais rápido quando se arriscou a levantar-se no pequeno berço, seu sorriso aberto e suas perninhas balançando.
Afastou-se
O cheiro
Aquele cheiro que sabia conhecer
Afastou-se mais
Era terrível o pensamento de atacá-lo, de mordê-lo.
Seu filho
Só porque ele não era um vampiro. Afinal, havia sangue em suas veias e esse sangue a chamava.
Vampiros não tem sangue, vampiros são frios.
Virou-se para ir embora tapando os olhos, não querendo vê-lo, não querendo senti-lo.
Queria apenas ir embora, apenas fugir para longe, apenas ir.
Mas braços fortes a impediram de se movimentar, a seguraram, a abraçaram, a consolaram.
- Calma, já passou – Disse a voz aveludada em seu ouvido tentando lhe acalmar - É forte não é? Ela concordou ainda escondendo seu rosto nas negras vestes dele – Eu sei, passei um tempo grande tentando me acostumar, mas agora o cheiro do sangue dele já não me incomoda mais, já consigo ate mesmo segurá-lo por um bom tempo.
Ele foi ate o berço e de lá trouxe a pequena criança que segurava em seus cabelos.
- Viu, não é tão difícil assim.
Ele acariciou a bochecha vermelha das crianças e esta, em resposta ao seu carinho feito, fechou suas mãozinhas em torno de seus cabelos.
- Tenta.
Ela temeu e mais uma vez recuou.
- Você tentou uma vez, quando foi comigo e conseguiu. Eu tentei agora e consegui também, tente novamente agora.
Seus olhos piscaram em resposta ao dele. Aproximou-se devagar, temerosa, mas se aproximou. Estendeu a mão e novamente acariciou a macia pele dele.
O sangue fluía dentro do corpinho, mas aos poucos foi sumindo, sumindo, como uma freqüência de radio que fica sem sinal.
Sorriu.
- Eu disse que não era tão difícil.
Ela o abraçou, ela os abraçou.
Ela o beijou apaixonadamente, beijou desesperadamente, beijou com medo de perdê-lo e mais uma vez sentir o beijo da brisa da madrugada.
- Severus? – chamou quando ele colocava a pequena criança de volta no berço azul dado por Dumbledore.
- Sim.
- Você me disse que já superou o cheiro do sangue dele...
- Exato
- Severus, humanos não sentem cheiro de sangue
- Exato
Se aproximou. Ele estava de costas. Ela o virou, encostou seu ouvido no peito dele e esperou.
Esperou
Esperou
Nada
Nem um único ruído
Nem uma única batida
Silencio
Nada
Levou a mão ate o nariz proeminente e mais uma vez nada.
- Severus...
As palavras fugiram quando suas mãos escorregaram para o seu pescoço afastando a gola de sua blusa.
Embaixo de seus cabelos, contrastando com sua pele mais pálida que o normal, dois pequenos furos, quase impossíveis de se ver enfeitavam seu pescoço como duas pequenas pintas que lhe davam arrepios ao passar a mão.
- Quem?
- Daeron – Respondeu mostrando quão gelada estava sua pele ao segurar seu rosto entre suas mãos.
- Por quê?
-O porquê não importa.
- Mas...
- Shh, não existe o por que. Existe somente nós, essa criança dormindo e aquele quarto e o que mais quero agora,depois de mais de um ano sem te ter em meus braços, é você a noite toda, só para mim.
Seus olhos brilharam de malicia ao pegá-la no colo e levá-la para a grande cama onde mataram a saudade do corpo colado, suado, tremendo.
Tinham a noite inteira, o tempo inteiro, tempo que não se esgotava para eles, que não acabava, apenas continuava eternamente.
