Arco II
~Os anos de sofrimento de Tomoyo~
Capítulo XXVI
~A marca do Sakurazuka~
"No aeroporto, a vida de Tomoyo passou como um flash por sua mente quando se deu conta que Sakura, Kero, Syaoran e Chitatsu se aproximavam a cada minuto…"
Aeroporto internacional de Barajas, Madrid, 10 de julho de 2015
O carro de Tomoyo dirigia, com Marcela ao seu lado, até o estacionamento subterrâneo do aeroporto.
Durante o percurso, as duas observaram um menino de cerca de 15 anos, feições árabes, cabelo pintado de loiro, camisa branca com o número 17 atrás dela, onde se lia claramente em alfabeto latino "Syaoran Li", carregando um imenso bandeirão branco para o salão do aeroporto, reunindo-se com os demais seguidores do time branco, que eram muitos e portavam faixas, cantando feito loucos. Ele era só um exemplo do tipo de pessoa que esperava por Syaoran. A polícia teve que criar um cordão de isolamento e ficar de vigia no trajeto do jogador no aeroporto para que nenhum incidente acontecesse.
Era o dia da chegada de Syaoran na Espanha para os exames médicos.
A apresentação seria no dia 15 de julho, no estádio Santiago Bernabeu. Todos os assentos do estádio já estavam ocupados para vê-lo. Antes de chegar, o jogador fez uma sessão de autógrafos na loja da Adidas, um de seus patrocinadores, em Xangai e fez um amistoso em Cantão como jogador do Real Madrid Castilha, time secundário do Madrid, recheado com os jogadores da base do time, contra o Guangzhou Evergrande Taobao, time que ofereceu 100 milhões de euros para repatriá-lo que Syaoran recusou. Tudo para promover sua imagem no continente e para deixar a torcida madridista mais feliz ainda, o time secundário do Madrid venceu po melhor time da China com ajuda dele.
O Madrid recheou a cidade que lhe dá o nome com banners e faixas no trajeto do aeroporto até seu complexo esportivo em Valdebebas com a imagem dele, que passaria pelo seu estádio e pela fonte da Cibele, palco da comemoração dos títulos do time.
Dentro do carro, o coração de Tomoyo saltitava de expectativas com a chegada de Sakura, de Kero, Chitatsu e Sakura. Marcela cruzava os braços, indiferente com aquilo.
Tomoyo estacionou o carro, virou-se para Marcela e perguntou:
– Você vem?
– Eu vou ficar um tempo aqui, depois eu vou… – Disse Marcela, sem olhar para ela.
Tomoyo fechou a porta do carro e teve que caminhar sozinha até aquela plataforma de desembarque. Trouxe Marcela para apoiá-la, mas foi em vão. Tinha que atravessar o mar de madridistas que lotava aquele aeroporto, seus arqui-inimigos mortais (se pensasse como os torcedores da organizada do Barça).
Um mar de espinhos antes de se encontrar com o castelo da princesa que era protegido pelo dragão. Sakura era a princesa e Syaoran o Dragão? Sorriu com essa tolice em mente e continuou a caminhar, em meio aos merengues que gritavam em alto e bom som "Hala Madrid!", seu grito de guerra.
Para ela, ela era apenas uma pessoa qualquer, num dia qualquer, segurando uma placa nas mãos para orientar a chegada dos amigos que não via há quase oito anos.
A vida de Tomoyo até aquele ponto passou como um filme pela sua mente ao olhar para a luva que cobria a sua mão. A marca do Sakurazuka continuava lá, invisível, onipresente.
S&T:FJ
Era um dia nublado, quase querendo chover. Ainda faltava que os raios cortassem as nuvens daquele céu, mas o negrume das nuvens preenchia tudo.
Do topo de um dos prédios da Todai, Tomoyo tomava uma decisão que praticamente jogava a sua vida do topo do abismo que era formado por aquele prédio de vários andares e o chão que estava abaixo de si:
Estava acompanhada de sua mãe e Seishiro, um homem de roupas pretas por todo o corpo com um imenso colar em forma de cruz, preso ao pescoço por uma corrente de metal:
– Eu, como promotor da autoridade mágica da comunidade mágica do Japão e também, um Sakurazuka, ouço da descendente dos Daidouji que você quer continuar a linhagem dos Sakurazukamori, é isso que eu ouvi?
Tomoyo o encarou sem hesitar:
– Sim, é isso que eu ouvi, me faça uma Sakurazuka como você, como a minha mãe, como o meu pai também o fora.
Sonomi apertou a mão contra o peito ao ouvir a confirmação da filha:
– Tomoyo, minha filha, tem ideia do que você esta fazendo? Nem eu, nem seu pai queriam que você seguisse por esse caminho!
– Eu sei mamãe, eu sei. Eu sei que a energia negra dos Sakurazuka vai ser forte o bastante para repelir a Sakura de mim…
Sonomi correu e agarrou os pulsos de Tomoyo:
– Afastar a Sakura de você? Que ideia é essa?
– Mamãe, durante um bom tempo, eu me afeiçoei demais à Sakura, eu sempre fiquei grudada nela, até que eu não mais consegui desgrudá-la da minha cabeça, sabe? Isso é ruim, isso é terrível; pode uma garota gostar de outra garota e viver nesse mundo cheio de preconceitos ao lado dela feliz?
– Isso é um absurdo, Tomoyo! – Sonomi esbravejou contra a filha.
– Absurdo nada! No nosso país, todo mundo acha uma amizade muito íntima entre homens e mulheres da infância até a adolescência a coisa mais bonita. Até nossos banhos nas termas de água quente são coletivos. Mas quando um homem e uma mulher crescem e tem idade pra se casar, é necessário abandonar esse tipo de comportamento e se tornar adulto…
– O que você está querendo dizer?
Aos prantos, Tomoyo disse:
– Eu nunca vou deixar de amar a Sakura-chan como eu amo ela! Isso parece uma doença crônica dentro de mim! Eu quero me livrar disso, quero ser feliz e eu quero que ela seja feliz também!
Sonomi soltou os pulsos da filha e se afastou dela, cabisbaixa, triste com o que ouvia. Ela, no seu tempo, também amou muito Nadeshiko e jamais conseguiu ser feliz com ela; Nadeshiko sempre profetizara a sua morte prematura, por isso, sonhava em ser mãe; não era possível serem felizes.
– Porque você não luta por ela, Tomoyo? Porque não? – Perguntou Sonomi.
– Porque ela já escolheu com quem vai ser feliz a vida toda…
– É com esse pensamento pouco ambicioso que você pretende, um dia, assumir as indústrias Daidouji? – Sonomi agarrou os ombros de Tomoyo e a garota não disse mais nada. Seishiro interveio:
– Devo avisar que a energia negra dos Sakurazuka trazem consequências para qualquer um, membros da comunidade mágica ou não. Também não significa que a sua energia mágica e a de Sakura vão se repelir. Se houver um afeto mútuo entre vocês, se ela for de um tipo mágico que aceite e seja receptivo com muitas energias mágicas, ou pior, se ela se associar aos Sumeragi, o que eu acho impossível, o efeito da marca será nulo. Fora que a marca traz efeitos colaterais, como pesadelos, dores no corpo, de cabeça… náuseas… pode te levar a morte se ela te rejeitar… está certa disso?
– Sim, senhor Seishiro, me faça uma Sakurazukamori, dê-me o poder mágico suficiente para me afastar da Sakura!
– Tudo bem. – Seishiro retirou um livro negro do sobretudo que usava e começou a recitar algumas palavras. Um círculo mágico vermelho com um pentagrama invertido surgiu abaixo dos pés dele e nos de Tomoyo.
Um vento forte varreu aquele teto e Sonomi se afastou para não ser arrastada pelas poderosas energias daquele ritual mágico.
– Os espíritos do norte, do sul, do leste e do oeste. Eu sou o inascido que ruminou nos abismos da Terra antes de ela se formar. Eu reúno aqui, neste local, os assaltantes da primavera, verão, outono e inverno. Somente aqueles que são capazes de assaltar as tumbas que são as cerejeiras e assassinam essas sugadoras de sangue podem ganhar a marca daqueles que usam os meios mais ilegais para proteger o Japão nas sobras da luz, sob a luz da lua negra!
O corpo de Tomoyo flutuou no ar e o de Seishiro também.
– Espíritos arcanos e primitivos, forças que construíram e destroem os céus e a terra, eu vos ofereço em sacrifício o coração daquela que resolveu assassinar a flor de cerejeira que habita em seu coração! Extirpe suas raízes, remova suas folhas para dar lugar a mais um guardião das tumbas de cerejeira! Renasça, Tomoyo Daidouji, agora como uma de nós! Que a magia arcana e primitiva circule nas veias daquela que nunca foi contemplada por esse dom!
Veias vermelhas e brilhantes se espalharam pela pele de Tomoyo e um pentagrama invertido num vermelho luminoso foi inscrito nas costas da mão dela. A dor que Tomoyo sentia era descomunal, mas ela nem gritava, mas se contorcia bastante; aguentava como podia. Seishiro pôs os dedos em riste e continuou a conjurar:
– Em nome dos 1001 espíritos que se manifestaram aqui, apareça círculo mágico!
O círculo da estrela, com duas estrelas de cinco pontas sobrepostas de Sakura, com a lua e o sol em suas extremidades, os signos do zodíaco na borda, um círculo externo e outro externo e as 12 pontas, apareceu debaixo dos pés dela.
– Uma versão modificada do círculo de Clow! Como é possível! Isso só pode acontecer quando se tem contato com tal energia por muito tempo! Isso é muito poder pra ela e ela não vai conseguir controlar! – Seishiro virou as páginas do livro e murmurou um feitiço – Círculo mágico declinado, apareça! – Um outro círculo mágico com o símbolo da lua no centro e outro símbolo da lua nas extremidades, cercando a lua maior, com as 12 pontas e os signos do zodíaco ao redor apareceu.
– Isso é ainda muito poder! Isso vai matá-la!
Enquanto falava, Tomoyo começava a ter convulsões como um epiléptico e Sonomi se desesperou:
– Seishiro, a minha filha, minha única filha que eu pedi aos deuses para se parecer com a Nadeshiko! Salva ela!
– É muita energia mágica! Vou tentar!
O círculo mágico de Sakura voltou aos pés de Tomoyo e as convulsões pararam. Seishiro finalizou o ritual com palavras desconhecidas em Japonês e qualquer língua da terra, com o dedo indicador e médio em riste por cima do livro.
– E assim, acaba-se o ritual! Está feito! Erga-se Tomoyo Sakurazuka!
O corpo de Tomoyo caiu no chão, duro, tão pálido quanto era Tomoyo em vida. Veias vermelhas formavam um caminho regular em sua pele como se fosse uma árvore de fractais. Sonomi acudiu desesperada para a filha e abraçou seu corpo. Estava frio e o coração não batia mais.
– Tomoyo! Tomoyo! Está morta! – Sonomi voltou-se para Seishiro, gritando e desesperada, ajoelhada no chão. – Minha filha, Seishiro! O presente da Nadeshiko!
Seishiro olhou friamente para o corpo dela.
– Você acredita em milagres? Acredite no poder do Mago Clow que circula no corpo dela, sem ela perceber. Se ela ama mesmo essa Sakura, ela vai voltar… ela vai voltar… – O mago segurou os braços dela e olhou para os desenhos tatuados na pele dela. – Essa menina tem reunidos no corpo dela a herança mágica de todos os Daidouji! Ela é tão talentosa quanto eu ou você podemos pensar!
Chorando, com o rosto em lágrimas para a única pessoa que demonstrou fraqueza na vida, Sonomi olhava impotente para o corpo morto dela, justo ela que sempre conseguia o que queria nos negócios:
– Tomoyo… era necessário isso pra se esquecer da Sakura? – Sonomi colocou as mãos debaixo do vestido dela, sentindo sobre a pele dela se o coração ainda bateria. Nada durante quatro minutos até que uma leve pulsação apareceu. As veias vermelhas desapareceram da pele, restando apenas a marca vermelha do pentagrama invertido dos Sakurazuka nas costas das mãos.
Tomoyo abriu lentamente os olhos, sentindo imensa dor no corpo, com a cabeça latejando. Tudo doía, até um simples toque doía. Sonomi abraçou a filha com tudo e ela gritou de dor, pela primeira vez que realizou aquele ritual:
Seishiro tirou dos bolsos um par de luvas brancas femininas e deu-as para Tomoyo:
– Use isso! Isso vai te proteger dos nossos inimigos, os Sumeragi.
– Mas ela vai ter que usar essas luvas pela vida toda?
– Sim! É uma cicatriz eterna! Diferente de você que apenas durou sete meses e a marca ficou por mais sete dias depois que a energia negra dos Sakurazukamori é usada, ela tem muita energia mágica no corpo, ela passou muito tempo do lado de uma pessoa com muita carga mágica. Isso é como se fosse contaminação por chumbo ou radiação. Fica no corpo que a gente nem percebe…
– Não! – Sonomi se desesperou e chorou muito depois de um tempo. Depois, as primeiras gotas de chuva começaram a cair e Sonomi entendeu que aquilo que a filha fizera foi algo de sua vontade, colocou lentamente as luvas na mão dela, pois a dor que ela sentia era imensa.
– Seishiro… isso é seguro? Ela realmente vai se esquecer da Sakura? – Perguntou Sonomi, abraçada à Tomoyo no chão,
– Não sei; eu só seu que vocês duas devem agradecer a Sakura por deixar um resquício da energia dela no corpo da Tomoyo; foi isso que a salvou, senão ela teria morrido. Esquecer ou não de uma pessoa não depende de magia, mas do coração de cada um.
Seishiro colocou um chapéu e se teleportou, deixando um rastro de poeira vermelha.
A chuva caía cada vez mais forte na Todai e os relâmpagos rugiam com força nos céus.
Continua…
Notas finais: Acena do aeroporto foi terna, mas agora, quero falar um pouco mais da Tomoyo. Começo aqui um novo arco que eu falo mais sobre como a Tomoyo se tornou o que foi, da mesma forma que no arco anterior eu mostrei como a Sakura e o Syaoran vieram a ser o que eram. Esses dois não vão aparecer muito por aqui, agora é só Tomoyo e os colaboradores! Esse arco vai ter muita ação e vai ser menos cenas famílias do que o anterior, começando pelo ritual de magia onde Tomoyo ganhou a marca do Sakurazuka! O que vai acontecer? Prometo falar mais dela aqui, quando eu chegar na parte da Itália, por hora, não vou falar muito dela, mas quando a Tomoyo se encontrar com o Syao na Espanha… se preparem!
