Capítulo 35 - A Ajuda

Sentei no chão, um cobertor estendido entre o meu corpo e a grama, verde e úmida, coberta do orvalho da manhã. O sol ainda estava baixo no céu, subindo pelo seu caminho de forma deliberada e lenta. Já estava quente, e eu não precisava mais do agasalho leve que eu estava usando para me proteger contra o vento manso que deslizava através do campo.

Alice me ligou cedo naquela manhã, perguntando que horas eu teria que ir para o trabalho. Com um pequeno sorriso, aquele que nascia no meu rosto sempre que alguém mencionava meu trabalho, eu disse a ela que eu não tinha que estar lá até as dez e ela insistiu para que eu viesse às oito; que havia alguém que ela queria que eu conhecesse. Nervosa e mais do que um pouco curiosa, nunca sabendo o que Alice poderia inventar, eu fui até a cabana só para descobrir que o amigo que ela queria me apresentar era um jovem garoto, não mais do que 15 anos.

Quando fiz meu caminho até o celeiro, eu vi os dois parados lá, fora das barracas dos cavalos. O menino era de pele escura e cabelos pretos, sua mão solta e casualmente segurando a extremidade de uma corda, com o cavalo de Jasper, grande e lindo esperando pacientemente atrás dele. Quando Alice me viu, seus olhos brilharam e ela acenou para mim, apresentando o jovem como Seth Clearwater.

"Dou aulas de equitação para Seth de vez em quando." Alice explicou-me. "Eu queria que você viesse assistir".

Concordei imediatamente, tendo almejado ver um outro aluno de Alice por meses, e avidamente segurando o cobertor que Alice ofereceu-me e os seguindo para o campo aberto ao lado da sua casa. Abri o cobertor um pouco longe de onde eles pararam e sentei sem hesitação. Olhei ao redor curiosamente no terreno aberto - quando Alice e eu trabalhávamos com os cavalos ficávamos sempre em seu pasto cercado.

Assisti enquanto Alice guiava Seth através de alguns exercícios de solo com Dash, percebendo que muito do que eles estavam fazendo eu já estava familiarizada. Eventualmente, porém, os seus movimentos tornaram-se mais sutis, pedindo a Dash para mover a cabeça de uma certa maneira, e mover seus pés assim, cedendo à menor quantidade de pressão exercida sobre o seu lado com as pontas dos dedos de Seth. Tanto quanto eu queria entender o que eles estavam fazendo, eu não queria interromper o baixo murmúrio da voz relaxada de Alice, a energia reconfortante que parecia irradiar deles, calmos e sobre grama.

Depois de quase uma hora, Alice e Seth finalmente se afastaram de Dash, que permaneceu completamente imóvel quando seu cabresto foi deslizado sobre suas orelhas. Eu esperava que ele corresse para os outros cavalos, ou andasse, ou, pelo menos, dobrasse o pescoço e começasse a comer a grama sob seus pés. Ele não fez isso, no entanto. Suas orelhas eretas permaneceram à frente e em atenção completa, seus olhos castanhos fixos sem hesitação sobre Seth.

"Pronto para montá-lo?" Alice perguntou, agora eu podia ouvir sua voz.

"Sim!"

Eu assisti com grande interesse e agitação à medida que Alice se abaixou, com as mãos entrelaçadas, oferecendo a Seth um apoio. Sem hesitar, o menino colocou o joelho em suas mãos entrelaçadas e ela o levantou com facilidade, a perna direita dele balançando levemente sobre os ombros largos de Dash. Prendi a respiração por um momento, meus olhos piscando para o cabresto de Dash no chão, e eu esperei por seus músculos tencionarem, para ele se mover ou mudar com o novo peso.

Ele permaneceu completamente imóvel.

"Por que você não o leva para dar uma voltinha?" Alice disse, se afastando e dando tapinhas com carinho no pescoço do cavalo. "Para alongar".

Seth concordou com entusiasmo e de repente Dash estava andando.

Eu não tinha visto qualquer movimento no menino, qualquer chute ou aperto das suas pernas, nem um toque da sua mão. A única coisa que tinha mudado parecia ser a sua energia - a transição de relaxado para animado - e Dash entendeu a sugestão perfeitamente.

Eu era incapaz de arrancar meus olhos enquanto eu assistia Seth guiando Dash, com nenhuma parte visível do seu corpo, em pequenos leves padrões na caminhada. Oitos e serpentinas*, ocasionalmente parando quando Dash decidia que precisava cheirar esta pedra ou aquela. Seth não pareceu dividir interesses com Dash e sorria fácil e balançava as pernas sobre o cavalo a fim de que ele estivesse sentado para trás. Dash retomava a caminhada eventualmente, com Seth voltado para a direção errada, e o menino ria facilmente e continuava, nunca pedindo para Dash interromper o movimento.

*Movimentos com o cavalo.

"Ele é adorável, hein?" Ouvi a voz de Alice ao meu lado de repente, seu pequeno corpo se sentando ao meu lado. Ela cutucou meu ombro com o dela.

Não olhei para ela, não podendo desviar o olhar da confiança simples de Seth e Dash juntos.

"Há... Alice, você tem certeza que ele está bem?" Perguntei baixinho, com medo de falar muito alto.

Alice riu enquanto Seth sentou de lado no cavalo agora, soltando um grito de surpresa quando Dash deu um trote lento e saltou.

"Quem?" Ela quis saber. Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. "Seth ou Dash?"

Eu fui finalmente capaz de arrastar o meu olhar para longe do menino, agora sentado completamente para trás no cavalo trotando, um largo sorriso no rosto quando ele sentiu o movimento em sentido inverso, seu corpo tentando se mover ao ritmo curiosamente novo. Olhei para Alice duvidosa, para encontrá-la já olhando para mim com um sorriso calmante.

"Ele está bem, Bella." Ela me assegurou. "Você sabe disso".

Eu não sei disso.

Eu não disse nada, olhando de volta para o menino, sentindo minha testa franzir em confusão, em conflito. Eu queria tanto acreditar nela, mas cada instinto que eu tinha estava gritando para mim que isso era errado, isso era perigoso.

Seth se machucaria.

Alice deve ter notado a dúvida estampada em meu rosto porque ela gritou com o rapaz um momento depois. "Ei, Seth! Venha aqui um segundo".

Levou um momento, mas Seth se endireitou - nunca pedindo a Dash para parar ou diminuir - com perfeito equilíbrio e virou a cabeça para nós, seus olhos treinados em Alice. Dash pareceu sentir esse movimento, quase como se ele estivesse seguindo o olhar de Seth ao invés de qualquer sentido físico.

Quando a dupla chegou até nós, ouvi Seth exalar alto. Quase imediatamente, Dash parou em frente a nós.

Eles esperaram ansiosamente.

"Seth." Alice disse gentilmente. "Alguma vez você já caiu de um cavalo?"

O rosto de Seth imediatamente irrompeu em um sorriso largo e brilhante.

"Claro, muitas vezes." Ele disse sem hesitação, sua voz alegre.

Não era grande coisa.

"Doeu?" Alice perguntou a ele.

Seth riu um pouco. "Sim!"

Alice se virou para mim, as sobrancelhas levantadas, como se a conduta dele fosse a resposta, como se isso fosse me dar alguma paz de espírito.

"Você não está com medo?" Eu disparei.

Seth se virou para mim, seu pequeno rosto de repente curioso.

"De quê?" Ele queria saber.

"Cair." Eu elaborei, minhas mãos se estendendo impotentes. "Se machucar".

"Claro que tenho".

Ele olhou para mim, não entendendo.

Olhei para ele, sem entender.

"Cavalgar assim não te deixa nervoso?" Perguntei por fim.

Seth balançou a cabeça. "Eu não entendo".

Alice suspirou, mas ela ainda estava sorrindo fracamente. "Seth, Bella quer saber se o fato de que você está montando Dash em liberdade, sem meios de controle forçado, sem sela ou freio, se isso faz você se sentir como se fosse cair".

"Isso?" Seth perguntou, ainda genuinamente confuso. Ele olhou de Alice para mim e encolheu os ombros. "Enquanto eu mantiver o meu equilíbrio eu vou ficar bem. Eu me sinto mais equilibrado em uma sela, porém".

"Você não tem medo do Dash fugir?" Exigi, minha voz calma e certa. "Ou jogá-lo fora?"

Seth deu de ombros novamente. "Por que ele faria isso?"

Eu abri minha boca, nenhuma resposta saiu.

Olhei para Alice, que estava sorrindo para mim exultante, depois de volta para Seth. Ele também estava sorrindo, amavelmente e ainda com uma pequena quantidade de confusão.

Por que ele faria isso?

Quando ficou claro que eu não tinha nada a dizer sobre isso, Seth se inclinou para baixo ao lado do pescoço de Dash e sussurrou algo para Alice. Ela acenou com a permissão.

"Ei, Bella." Seth disse, endireitando-se. "Observe isso!"

Sem outra palavra, ele virou Dash ao redor e de repente eles estavam trotando pelo campo. Eu os assisti correndo para longe de mim, meu coração martelando no meu peito. Então, de repente, eles estavam se transformando em um arco fácil, o movimento de flexão de Dash crescendo ao invés de diminuir, até que estavam galopando fácil dando oitos e voltas, trotando quando pulava. O corpo de Seth se movia em perfeita sincronização com as três batidas contra a terra, o seu lugar nunca deixando as costas do seu cavalo.

"Ele é tão corajoso." Murmurei.

"Ele é apenas inteligente, Bella. Ele sabe que, enquanto Dash compreende suas intenções, ele não tem motivos para jogá-lo fora." Alice respondeu, virando os olhos de seu pequeno aluno de volta para mim. "Acredite ou não, os cavalos têm função cognitiva suficiente para precisar de uma razão para seu comportamento".

Senti-me empalidecer ligeiramente, defensivamente. "Eu não quis dizer que eles são estúpidos..."

"Eu sei." Alice me assegurou rapidamente. Então ela acenou e fez sinal em direção ao campo onde Dash estava trotando novamente. "Pense nisso desta maneira: cavalos se divertem também, quando a pessoa está consciente de montá-los. Isso se torna uma espécie de jogo".

Ouvi os passos pesados dos cascos grandes de Dash, assisti ao rolamento e aperto de seus grandes músculos, deslizando sob as coxas pequenas de Seth. Eu podia sentir sua força sacudir a terra, a energia trovejante e selvagem que parecia pulsar através de cavalos como o ar, ou sangue. Enquanto Seth era pequeno e indefeso, empoleirado nas costas de um animal selvagem.

"Um jogo." Eu sussurrei duvidosa, rolando a palavra na minha boca.

Alice suspirou.

"Você aprendeu muito sobre cavalos, Bella, mas você ainda está perdendo o conceito mais básico." Ela fez uma pausa e me virei para olhar para ela. Ela não estava olhando para mim com maldade, e ela deu de ombros como se a minha incapacidade de compreender não fosse importante. "Não é de surpreender. Adultos têm sempre mais dificuldade para apreender, com todos os seus preconceitos e traumas do passado." Ela acenou para Seth, como se a sua juventude fosse a razão da sua facilidade. "Pela mesma razão que é mais fácil ensinar cavalos novos também".

"O quê?" Eu queria saber.

Desesperadamente.

"Há uma barreira que você colocou entre você e esses animais." Alice me disse, desenhando uma linha imaginária sobre o cobertor entre nossos corpos. "A questão física contra a mental; você se vê como inferior a eles fisicamente e superior a eles mentalmente".

Eu balancei minha cabeça. "Mas isso é verdade".

Alice assentiu.

"É verdade, mas é irrelevante." Em seguida, ela inclinou-se para perto de mim, soltando sua voz como se ela estivesse me dizendo um segredo. Seus lábios estavam sorridentes e brincalhões. "Não nenhuma barreira".

Eu olhei para ela, querendo acreditar. Mais do que isso, querendo entender; querendo saber.

Ela parecia sentir isso.

Alice explicou, "Não importa o quão forte ou grandes eles sejam, eles nunca vão saber o máximo sobre seus próprios corpos, sobre o que eles são capazes de fazer, como nós sabemos. E não importa o quanto nós os estudemos ou aprendamos com eles, nós nunca saberemos o máximo sobre o que se passa em suas mentes como eles sabem".

"Isso não é uma barreira?" Perguntei, mordendo meu lábio. Meus olhos passeando pelo campo além de Dash e Seth, para o campo na frente da cabana onde eu podia ver o pêlo vermelho e brilhante de Santana, vibrante do sol quente. "Nós nunca vamos entender um ao outro".

"Esse é o ponto, Bella." Alice disse, sorrindo enquanto seguiu o meu olhar. "As nossas diferenças nos tornam iguais, e juntas elas nos fazem mais fortes do que jamais poderíamos ser sozinhos. Nós os ensinamos, eles nos ensinam".

Houve uma pausa enquanto eu considerava suas palavras.

Antes que eu pudesse responder, ela estava falando novamente. "Todo relacionamento é assim - com um cavalo ou outro ser humano. Confiança, Bella. Isso é no que tudo se resume. Você tem que confiar neles, mas, mais do que isso, você tem que confiar em si mesma. Você tem que confiar que o que você sabe é verdade".

Você tem que confiar em si mesma.

Meus olhos permaneceram fixos em Santana, em seus movimentos fáceis, no gracioso arco do seu pescoço quando ele se abaixou para pastar contra o verde. Eu o observei e senti minha mão pressionar inconscientemente contra meus lábios.

"Eu estive errada antes." Eu disse lentamente, baixinho. "Eu estive errada a vida toda".

Eu podia sentir Alice olhando para mim. Eu podia sentir o calor subindo pelas minhas bochechas, sabendo que ela entendia. Sabendo que o que eu tinha dito a ela sobre o que havia acontecido entre Edward e eu há mais de duas semanas estava correndo em sua mente tão claramente como estava correndo na minha.

"Basta falar com ele." Eu a ouvi dizer, sua voz correspondendo à minha.

Senti minha respiração travar no meu peito quando a ouvi falar dele.

Eu sabia que ela estava certa, que eu deveria falar com ele, assim como eu sabia que eu queria falar com ele. A sua ausência tornou-se mais e mais pronunciada, quanto mais eu continuava sem vê-lo. Em vez de esmorecer, encontrei-me pegando o telefone de manhã e à noite, quando eu estava fazendo o jantar. Eu olhava para os números que meus dedos tocavam levemente contra aqueles que me ligariam a ele, sem pressionar a tecla. Então eu colocava o telefone no gancho e me afastava dele.

Na noite passada tinha sido o mais próximo que eu tinha chegado.

Eu tinha finalmente discado o número dele, pressionando cada tecla com um senso de urgência. Com cada uma eu senti a minha confiança cair e cair para nada. Quando ouvi o telefone tocar, minha mão esquerda sobre a minha coxa cerrou, meus dedos cavando o jeans. Quando eu o ouvi atender, sua voz calma e familiar através da linha de telefone, minha garganta fechou.

Bati o telefone de volta no gancho, sem dizer uma palavra.

"Eu tenho que ir trabalhar." Eu disse a seguir, sem responder.

Senti Alice ficar um pouco tensa e me perguntei se ela protestaria. Ela tinha se tornado mais e mais confortável comigo, mais e mais direta. Ela tinha conseguido tirar detalhes curiosos de mim delicadamente, extraindo o veneno das minhas veias. Toda vez que eu lhe dizia alguma coisa, algum pequeno detalhe da minha vida que eu sempre senti a necessidade de esconder, eu me sentia melhor. Em vez de forçar-me a ficar, em vez de exigir que eu falasse com ela, sua tensão relaxou em um pequeno suspiro resignado.

"Tudo bem, vejo você mais tarde, Bella".

"Tchau." Eu ofereci, minha voz um pouco apologética.

Eu me levantei para partir, endireitando o meu suéter quando eu me empurrei para fora do cobertor. Olhei para o menino e o cavalo.

"Tchau, Seth!" Eu gritei, alto o suficiente para ele ouvir.

Ele olhou para cima e para mim.

"Até mais tarde, Bella!" Ele gritou com um sorriso e um aceno.

Acenei de volta.

Quando fiz meu caminho de volta para a casa da fazenda, hesitei ao lado da cerca onde o resto dos cavalos estava pastando tranquilamente, aproveitando o dia quente. Santana estava perto da cerca, tão perto que se eu tivesse andado em sua direção e me inclinado sobre a madeira, meus dedos poderiam facilmente ter escovado contra o seu revestimento macio, que se derramava e ficava brilhante e elegante no verão. Eu considerei isso por um momento antes de balançar a cabeça e decidir não fazer isso.

Fiz um movimento para continuar a ir para casa quando Santana levantou a cabeça de repente.

Seus olhos se encontraram com os meus, suas orelhas apontando para a frente, seu corpo imóvel e fixo com a atenção em mim.

Eu sorri para ele e continuei caminhando.

Quando cheguei à garagem, decidi não me trocar. Decidi que eu parecia bem o suficiente, que o tempo gasto fora não tinha me deixado suja ou suada, entrei na cabine da minha caminhonete e liguei o motor, arrancando e indo para a loja.

Cheguei 10 minutos mais cedo.

"Ei, Bella!" Mike me cumprimentou com um sorriso no momento em que entrei pela porta.

"Oi, Mike".

Caminhei até o balcão onde ele estava, sorrindo de volta para ele.

Era quarta-feira, e eu tinha vindo à loja todos os dias durante os últimos quatro dias, treinando e aprendendo e trabalhando.

Mike era um chefe maravilhoso, atencioso e prestativo. Ele realmente se importava com a loja, sobre o seu bom funcionamento, e isso se refletia na forma como ele trabalhava, na sua atenção aos detalhes. Ele estava constantemente ensinando, contando-me tudo o que havia para saber sobre o que eles vendiam, onde conseguiam, como eles faziam. Ele era paciente quando eu estava no caixa, rindo dos meus erros e me permitindo praticar até que eu tivesse feito certo. Ele me deu dicas sobre como falar com os clientes, sussurrando pequenas idéias sobre cada pessoa que entrava.

Eu ainda ficava muito nervosa sempre que um cliente entrava pela porta, mas mais e mais eu achava que eles eram simpáticos e amáveis, e curiosos sobre mim - a nova garota.

E, da minha parte, Mike tinha me informado que eu estava aprendendo rápido e estava trabalhando duro. Não era um trabalho difícil, mas era o meu primeiro, meu único. Meu desejo de fazê-lo bem, para merecer tudo que me era dado, para me destacar em qualquer tarefa que eu tinha para realizar, parecia ser a resposta perfeita para o seu amor pelo seu próprio trabalho.

Nós trabalhamos bem em conjunto, respeitando um ao outro, e nos demos bem pessoalmente.

"Então, eu estava pensando." Mike disse quando eu encostei no balcão em frente a ele. "Talvez hoje seria um dia bom para lavar algumas janelas? Então talvez poderíamos reabastecer um pouco, fazer um inventário, coisas desse tipo. Todos estão ocupados hoje com o trabalho, tenho certeza".

Eu sorri para ele, lembrando dele resmungando ontem sobre como as quartas-feiras eram sempre muito lentas.

Eu balancei a cabeça em resposta. "Claro".

Mike sorriu e encolheu os ombros, quase pedindo desculpas.

"Há algum limpador de vidro e panos contra a parede." Ele disse, apontando para o banco perto da parede esquerda da loja.

"Certo".

Fui até lá e peguei o balde cheio de panos e a grande garrafa de produto de limpeza, recolhendo-os nos meus braços antes de fazer o meu caminho até a porta e as janelas de vidro gigantes que compunham a fachada.

"Eu estarei nos fundos se você precisar de mim." Mike me chamou. Parei e me virei para encará-lo quando ele apontou o polegar por cima do ombro, apontando para a porta que dava para o escritório. "Eu tenho algumas encomendas de última hora para terminar".

"Ok".

"Tenho certeza que você será a primeira a saber se chegar clientes." Ele acrescentou com um sorriso. "Só venha me chamar se alguém chegar e posso ficar de uma forma irritante em cima de você enquanto você os atende".

Eu ri um pouco, leve e feliz. "Parece bom".

Pousei o balde com panos ao meu lado, puxando um fora quando ouvi Mike fechar a porta do escritório atrás dele. Levantei a garrafa e pulverizei uma generosa quantidade do líquido limpa-vidros no vidro na minha frente. Limpei-o, distraída, o ranger do pano limpando com uma fricção suave.

Esfregada após esfregada passou facilmente quando eu peguei um ritmo. Eu me movi com rapidez e eficiência, o tempo todo olhando para a rua do outro lado do vidro. De vez em quando, um carro continuava a dirigir lentamente, ou uma pessoa estaria andando pela rua. Mesmo que estivesse ensolarado, tudo continuava tranquilo em Hartsel.

Eu podia sentir-me relaxar em meus movimentos, meus pensamentos derivando de volta para Alice e a manhã que passei com ela e Seth. Eu me vi imaginando como seria montar Santana da maneira que Seth tinha montado Dash. Sem rédeas, sem nada para me segurar além de mim, sem nada para me manter segura além da minha confiança nele. Sua força, sua velocidade, dadas livremente a mim para me ajudar a impulsioná-lo pelo campo, para a frente e mais rápido, ajudando-me a montar. Fechei os olhos por um momento, imaginando como seria a sensação de ter tanto poder debaixo de mim, sabendo que isso era permitido e dado livremente. Sabendo que era sem força ou manipulação, através da confiança total e absoluta em quem eu era, que o cavalo queria me levar com ele. Eu poderia ser sua amiga, sua parceira de passeio. Não apenas algo que ele carregava nas costas.

Com um suspiro, eu abri meus olhos.

Terminei o interior de ambas as janelas grandes e, recolhendo o balde e os panos, andei para a porta para que eu pudesse começar do lado de fora. Eu agarrei a garrafa de produto de limpeza, agora escorregadia por eu pegá-la com as mãos molhadas. Meu aperto nela foi fraco e ela saltou das minhas mãos, rolando para fora na frente da porta. Resmungando, eu me movi para a frente e inclinei-me para pegá-la.

No exato momento em que eu fiz isso, a porta se abriu.

Eu senti a madeira me bater no ombro levemente, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para me desequilibrar. Perdendo o equilíbrio, eu tropecei para trás com um grito, incapaz de recuperar o meu equilíbrio e me salvar da queda. Meu corpo caiu no chão, sem cerimônia e achatado, enquanto os panos que eu estava segurando se derramaram atrás de mim, o balde rolando para o lado.

"Merda." Eu murmurei, meu corpo dolorido enquanto eu olhava para o teto, exasperada por um momento.

Com um suspiro, eu lentamente empurrei meus cotovelos debaixo de mim e levantei a minha parte superior do corpo.

Olhei para cima e senti tudo ficar imediatamente rígido.

"Você está bem?"

"Edward?" Eu disse silenciosamente.

Edward estava olhando para mim, a mão ainda na porta que ele tinha acabado de empurrar aberta para me derrubar, seu rosto uma mistura de horror, surpresa e preocupação. Ele ficou olhando para mim, imóvel, mas ouvir o seu nome pareceu estimulá-lo a se mover. Imediatamente ele se curvou, suas mãos segurando meus ombros, deslizando pelas minhas mãos para ajudar a puxar-me para os meus pés.

"Sinto muito." Ele disse com veemência, sinceramente, enquanto eu me esforçava para conseguir mover minhas pernas debaixo de mim, nem uma vez tirando meus olhos dele.

Assim que eu estava de pé, ele me soltou imediatamente, seus olhos varrendo sobre o meu corpo com um senso de preocupação frenético.

Houve um ligeiro rubor de vergonha em seu rosto que eu não tinha visto em anos.

Escovei minhas mãos sobre as minhas roupas, meu suéter, antes de perguntar com serenidade, tanto quanto eu consegui, "O que você está fazendo aqui?"

Edward olhou ao redor, como se ele estivesse percebendo pela primeira vez onde ele estava.

Então ele se virou de volta para mim, parecendo um pouco nervoso. "Eu estava no meu caminho até a casa da fazenda e pensei em parar e comprar alguma comida".

Senti meu coração parar.

"Você estava indo para a casa?" Perguntei calmamente.

"Sim." A afirmação de Edward foi curta, fortemente defensiva.

Eu lutei para esconder a confusão do meu rosto.

"Você não foi para lá no fim de semana passado." Eu comentei, não tendo certeza de como eu queria que ele respondesse.

Saiu como uma acusação.

Edward abaixou a cabeça.

"Eu sei." Ele disse, desculpando-se. "Eu pensei que você não queria me ver. Essa foi a impressão que eu tive, pelo menos." Então, ele acrescentou rapidamente, "Eu não culpo você. Nem um pouco. Eu não fiquei chateado. Eu estava apenas... esperando".

"Esperando?"

Ele deu de ombros. "Até que você estivesse pronta para me ver".

Pisquei para ele, ainda confusa.

Uma expressão muito insegura, vulnerável, cruzou suas feições, um verdadeiro momento de dúvida. "Você me ligou, não foi?"

Minha boca se abriu por um momento.

Então, obviamente, a minha voz muito fraca, "Eu desliguei".

Edward sorriu um pouco com isso, seus olhos se iluminando. "Tudo bem".

Não era grande coisa.

Ficamos em silêncio por um momento, nos encarando, a porta aberta, panos em toda parte.

Eu relutantemente permiti que meus olhos viajassem sobre ele, quase desesperada depois de não vê-lo por tanto tempo. Ele parecia bem, descansado e limpo. Ele estava vestindo o jeans que ele normalmente usava quando ele ia trabalhar na casa, e um suéter preto que eu nunca tinha visto. Ele estava com seus ombros firmes, o peito, a força que ele tinha conseguido em meses de trabalho manual na casa da fazenda claramente visíveis por baixo da lã. Ele não parecia que tinha vindo do trabalho.

Depois de alguns segundos, eu podia ver seus olhos começarem a vagar. Eles finalmente caíram ao chão, onde eu tinha caído e ele olhou curiosamente para os panos que estavam espalhados ao acaso.

"Então." Edward começou, correndo a mão pelos cabelos. "Você normalmente não vem aqui durante a semana".

"Oh... sim." Eu respondi, um pouco assustada com o comentário, de repente muito nervosa. "Eu estou, bem... eu não estou aqui para comprar nada. Eu meio que... trabalho aqui agora".

Edward piscou. "O quê?"

Eu fiz sinal em torno de mim, mordendo meu lábio.

"Eu consegui um trabalho... aqui." Eu disse, simplesmente.

Minhas palavras foram tensas e desconfortáveis, meus olhos procurando os seus para uma reação. Essa não era a maneira que eu tinha imaginado dizer a ele, não era o anúncio orgulhoso e confiante que eu tinha pensado na minha cabeça no sábado quando eu estava pronta para sair da minha caminhonete e dizer a ele o que eu estava fazendo com a minha vida, dizer a ele que eu havia mudado. E que, mesmo que ele não me quisesse, eu ainda me queria. Entregando-lhe notícias do meu emprego como se eu fosse anunciar um amante.

Mas ele não tinha vindo no sábado.

Eu não tinha ligado.

E assim eu tinha mudado sem ele.

Edward não pareceu nem animado, nem chateado. Ele simplesmente olhou para mim, em silêncio, por um longo tempo com uma expressão que era ilegível.

Depois, ele disse calmamente, "Eu entendo".

Foi isso.

Depois de tudo o que tínhamos passado, depois de tudo o que tinha acontecido, eu tinha tomado, talvez, o maior passo para mudanças da minha vida de uma maneira positiva. E ele ficou ali, me olhando, sem reação. Sem emoção ou felicidade ou raiva ou julgamento.

Eu entendo.

Minha expressão endureceu um pouco.

Não querendo que ele me visse pálida, eu me abaixei e recolhi os panos do chão, joguei-os no balde e peguei o limpa-vidros. Coloquei todos debaixo da janela e saí do caminho, consciente dos olhos de Edward seguindo os meus movimentos.

Ainda em silêncio.

Eu finalmente me virei para ele novamente. "Então... posso ajudá-lo a achar alguma coisa?"

Os olhos de Edward agarraram aos meus. Seus olhos suavizaram um pouco, só um pouco. Ele deu um passo mais para dentro da loja e fechou a porta atrás dele.

"Claro." Ele respondeu, sua voz ainda calma.

Eu andei para a frente, sentindo-o bem atrás de mim.

Eu tentei desesperadamente acalmar meu coração acelerado.

Tomei respirações profundas e calmantes em meus pulmões e me forcei a jogar o seu jogo de fingir.

Eu disse a ele que massas seria bom. Nós conversamos sobre molhos, falamos sobre os lados. Eu o guiei através da loja, mesmo que ele soubesse o caminho de tudo muito bem, e eu disse a ele sobre o que tínhamos. Eu disse a ele todas as coisas que tinha aprendido sobre cada produto, enquanto ele me ouvia e seguia e fazia observações em todos os lugares certos. Passamos por cada corredor único, jogando ideias ao ar, pegando caixas e frascos aqui e lá, pesando as opções. Nós andamos por lá, fingindo que estava tudo bem entre nós novamente, porque da última vez que eu tinha dito a ele que eu não queria fingir, ele tinha desaparecido por mais de uma semana.

E eu não queria perdê-lo.

Finalmente, quando ele tinha tudo o que parecia precisar, eu o levei até o caixa.

"Espere." Eu disse a ele, colocando o pote de molho e o parmesão que eu estava carregando em cima do balcão. "Eu só tenho que ir chamar Mike".

"Você tem?"

"Eu ainda estou tecnicamente em treinamento, por isso ele precisa me supervisionar... claro." Expliquei com um aceno de mão. "Eu já volto. Não roube nada, por favor".

Edward riu ligeiramente. "Eu vou tentar resistir à tentação".

Quando eu trouxe Mike, pude ver a mudança no comportamento de Edward imediatamente. Seu corpo inteiro pareceu endurecer inconscientemente. Mike, completamente inconsciente, cumprimentou Edward com um sorriso e imediatamente voltou sua atenção para mim.

Eu podia sentir seus olhos em mim, um me incentivando e um tenso enquanto eu fiz a contagem de cada item. Digitei o total, mas antes que eu pudesse dizer a Edward qual era, ele estava deslizando o seu cartão através do balcão. Eu o passei e o entreguei de volta para ele antes de pedir com uma simpatia exagerada se ele queria sacolas de papel ou de plástico.

Seu sorriso saiu como um careta.

Todos nós sabíamos que a loja só tinha sacolas de papel.

Mordendo meu lábio desconfortavelmente quando ele não respondeu, eu rapidamente ensaquei seus mantimentos. Eu me vi desejando que Mike parasse de ficar tão perto, parasse de me lembrar de colocar as coisas mais pesadas no fundo do saco. Desejando que ele saísse, sentindo Edward observar todos os seus movimentos, e cada movimento meu.

Em um ponto, olhei para Edward, que ainda estava olhando para mim com muito cuidado.

Forcei um sorriso amigável no meu rosto quando terminei de ensacar tudo.

Mike bateu a mão no meu ombro e disse-me que fiz um ótimo trabalho. Ele balançou a cabeça para Edward e depois me disse que voltaria para o escritório, para eu chamá-lo se eu precisasse de mais alguma coisa. Sorri para ele, incapaz de dizer qualquer coisa.

Edward e eu fomos deixados sozinhos de novo com o clique da porta do escritório.

Eu de repente ansiava pelo fingimento fácil, mesmo com a preocupação provisória e a consideração silenciosa.

Qualquer coisa, menos a tensão que parecia descer, pesada e dolorosa.

"Obrigado." Edward disse com um aceno de cabeça, agarrando uma das sacolas.

Impulsivamente, sem pensar duas vezes, passei meus braços firmemente em torno da outra sacola e a puxei no meu peito e para longe dele. "Deixe-me ajudá-lo a levar isso." Eu disse rapidamente, já fazendo o meu caminho de volta para o outro lado do balcão.

As sobrancelhas de Edward subiram, mas sua resposta foi tranquila e firmemente indiferente. "Isso não é necessário".

Eu não entreguei a sacola para ele.

Não me rendi.

Com um suspiro, Edward me seguiu até seu carro, o prata estacionado e brilhando ao sol. O clique da fechadura soou e eu abri a porta de trás, colocando a sacola no chão e afastando-me para que Edward pudesse passar por mim.

Ele fechou a porta e se virou para mim. "Obrigado." Ele disse novamente.

Eu ainda podia ver a tensão em todo o seu corpo, a quietude que tinha estado lá desde que eu disse a ele que estava trabalhando na loja, isso havia se intensificado e mudado quando ele tinha visto Mike, e havia permanecido, uma rachadura no seu joguinho de fazer crer. Eu podia vê-lo controlando suas feições, mantendo-se incisivamente estóico.

Eu não sabia o que eu tinha feito, o que ele queria de mim, o que ele esperava que eu dissesse a ele. Eu não sabia se ele entraria no carro agora e iria para casa, ou se ele estaria esperando na casa da fazendo por mim, ou se ele me faria o jantar, ou exigiria que eu assinasse aqueles papéis. Eu não sei por que eu senti que não poderia deixá-lo partir agora, raiva, sentimentos sem nome que deveriam ter sido normais, mas não eram porque ele não tinha mais que estar aqui. Eu não sabia por que ele tinha me pedido o divórcio, por que ele o queria, e por que isso ainda não parecia ser o suficiente para ele. Deixar-me ir, forçar-me a sair, odiar-me, ou amar-me. Pura e simplesmente.

Eu não sabia de mais nada.

E esse era o problema.

Era só falar com ele.

Ele começou a se mover por mim, andando para o lado do motorista.

"Você está seriamente com raiva de mim?" As palavras brotaram dos meus lábios sem aviso, altas e fortes.

Edward parou em seu caminho e se virou para mim, sua expressão dando lugar à confusão. Alguma surpresa.

Seu cenho franziu. "Claro que não".

"É porque eu estou trabalhando para o Mike?" Exigi, caminhando em sua direção.

Edward ficou em silêncio por um momento antes de balançar a cabeça.

"Eu acho que foi muito gentil da parte dele contratá-la." Ele disse suavemente, genuinamente. "Imagino que ele seja um empregador muito bom".

"É porque eu não te liguei?"

"Você tinha todo o direito de ter algum espaço por algum tempo. Quando eu dei a você aqueles papéis, eu sabia que não tinha mais o direito de ter qualquer expectativa".

Senti um solavanco de frustração enquanto ele respondeu a cada pergunta, calmo e sensível e muito fodidamente verdadeiro.

Ele não estava mentindo para mim, ele não estava me dizendo palavras vazias porque elas eram o que eu queria ouvir.

Ele não estava me dizendo nada.

Edward encolheu os ombros com a minha pausa, aceitando, e eu podia vê-lo se mexendo, movendo-se para partir mais uma vez. Sua mão desceu para descansar sobre o capô do seu carro, seus ombros torcendo quando ele começou a se retirar.

"Você não vai falar comigo?" Sussurrei, desespero e saudade claros em minhas palavras.

Edward pareceu congelar, cada membro, cada músculo em seu corpo se acalmando.

Exceto seu rosto.

Seus olhos levantaram para encontrar os meus, encarando-me muito lentamente.

Então, foi como se um interruptor tivesse sido invertido. O olhar apático desapareceu. Não desapareceu, foi varrido imediatamente. Emoção inundava suas feições, desenfreada e violentamente. Seus lábios curvaram para baixo, seu rosto exausto e olhos cansados de lutar. Suas feições desmoronando e, de repente, agonizantemente triste.

"Sinto muito".

Sua voz era tão calma, tão arrependida.

Eu não sabia por que ele estava se desculpando.

Havia tanta coisa que eu não sabia mais.

Não havia nada que eu pudesse pensar em dizer.

Mas eu tinha que impedi-lo de partir, máscara no rosto, mãos no volante.

Você tem que confiar no que você sabe que é verdade.

Então eu respondi as palavras que ele tinha falado comigo no último sábado. "Eu não quero simplesmente cortá-lo fora da minha vida também." Eu disse a ele, minha voz tremendo ligeiramente.

Edward deu um passo em minha direção, olhos verdes culpados e comprimidos.

"Eu nunca quis dar aquilo a você daquele jeito. No carro, com você já chateada. Quando você tinha..." Ele parou. Eu estava feliz que ele não tivesse terminado a frase, conhecendo cada cenário, cada palavra que poderia ter pintado o retrato do que eu tinha feito. Em vez disso, ele simplesmente disse, "Foi muito diferente na minha cabeça".

Eu sorri para ele fracamente, ironicamente. "Como você acha que deveria ter sido?"

"Eu não sei." Edward balançou a cabeça, os olhos caindo. "Eu imaginei que você ficaria... feliz".

Engasguei uma risada amarga e sarcástica. "Receber papéis de divórcio dificilmente é uma experiência feliz".

"Houve um momento em que teria sido." Ele estava me olhando novamente, seus olhos firmes nos meus, lembrando-me. "Você teria dado as boas-vindas a isso".

"Eu mudei".

Houve uma pausa deliberada, em seguida, um suspiro.

"Eu sei disso." Ele balançou a cabeça, concordando comigo. "Eu pensei que você ficaria feliz por outra razão." Então ele encolheu os ombros. "Talvez você teria, se eu tivesse esperado até que você estivesse pronta".

"Talvez eu nunca esteja." Respondi, tentando desesperadamente não chorar.

Não na frente dele.

Porque eu poderia ver isso agora, ver o que ele estava tentando dizer-me o tempo todo. Eu podia ouvi-lo dizer-me que ele pensava que isso me faria feliz, e eu entendia. Pela primeira vez desde que ele tinha me entregado aqueles papéis no carro naquela noite, eu entendia.

Cedo ou tarde você vai perceber que nem todo mundo está procurando por uma maneira de abandonar você.

Ele esteve esperando até que um divórcio não significasse que ele estava me abandonando. Ele queria me ajudar, de uma forma que eu mesma tinha sido incapaz de compreender.

Empurrando e puxando-me para os meus pés, querendo que eu vivesse minha própria vida, não tinha sido sua intenção original quando ele me trouxe para cá. Gritando em um quarto e passando fome em uma casa e tremendo durante as noites e eu sabia disso. Mas eu não era a única que tinha mudado. Em algum lugar na tortura e na miséria que ele alegou deleitar-se, ele tinha mudado e crescido, ele tinha mudado tanto quanto eu tinha. E eu não tinha sequer notado.

Ele não esteve carregando aqueles papéis para me derrubar.

Ele esteve esperando até que eu pudesse suportar, até que eu pudesse abraçar isso, até que eu pudesse me alegrar com a minha independência e prosperar em meus próprios termos.

Eu o tinha colocado na parede quando o beijei, eu o tinha prendido na parede até que tudo o que ele pôde fazer foi jogar o divórcio aos meus pés, pronta ou não.

Porque nós não poderíamos voltar atrás.

Ele não queria me abandonar, ele não queria dar uma tacada e deixar-me girar como todas as pessoas na minha vida. Ele queria me fazer inteira, da única maneira real que ele sabia.

Eu podia sentir as lágrimas, quentes e salgadas, escorrendo pelo meu rosto em trilhas e riachos, implacáveis.

"Eu não os assinei." Eu disse a ele calmamente.

"Leve todo o tempo que você precisar".

"E se eu precisar de meses?"

"Eu não me importo".

"Anos?"

"Se isso é o que você precisa".

Eu respirei.

"O resto da minha vida?"

Edward desviou o olhar de mim então, seus olhos caindo para a sua mão, descansando contra o capô do seu carro. "Bella..." Ele começou e parou, seu tom de voz em torno do meu nome por um tempo.

Eu balancei minha cabeça, sabendo. "Sinto muito".

Outra respiração profunda e eu andei em direção a ele, fechando o espaço entre nós. Eu vi seu corpo inteiro tencionar, afastando-se de mim levemente, mas ele não se moveu. Ele relaxou quando eu parei há vários centímetros de distância dele, quando eu simplesmente parei ao seu lado, olhando para ele.

Ele olhou para mim.

"Posso perguntar uma coisa?" Eu estava perto o suficiente para sentir o calor do seu corpo, aquecendo o meu corpo.

Ele assentiu silenciosamente, aceitando.

"O que você quer?" Perguntei a ele sinceramente, quase desesperada para ouvir sua resposta.

"Eu quero que você seja feliz." Ele respondeu imediatamente.

"Eu sei disso." Balancei a cabeça. "Você já disse isso antes. Mas você sempre quis que eu fosse feliz. Às vezes parece que é tudo que você sempre quis. Antes do nosso casamento e agora, no final dele." Eu tentei desesperadamente ignorar a culpa batendo na minha cabeça, a necessidade de liberá-lo, a necessidade de me agarrar a ele com cada centímetro de força que eu ainda possuía. Então eu lhe perguntei, "O que você quer para si mesmo?"

Edward abriu a boca levemente, nenhum som emergindo.

Seus olhos piscaram enquanto olhavam para mim e eu podia vê-lo pensando, compreendendo o que eu estava perguntando a ele.

Reconhecendo - nós dois - que era algo que eu nunca tinha lhe perguntado antes.

"Eu não sei." Ele disse finalmente.

"Só que você quer que eu seja feliz?"

Eu o vi hesitar, observei seus ombros subirem e descerem, seu corpo inteiro inclinando no capô do seu carro para um apoio, como se ele tivesse ouvido as palavras que eu não tinha falado.

Eu posso ser feliz com você.

O tempo todo seu olhar permaneceu fixo sobre mim, nas minhas lágrimas, na minha espera.

"Eu quero corrigir de alguma maneira onde eu te machuquei." Ele disse calmamente, de forma significativa. "Eu quero colar cada pedaço quebrado".

Não era o mesmo que me fazer feliz.

"E quando eu estiver curada?" Minha voz estava trêmula, chocalhando e agitada. "Então o quê?"

Ele ficou em silêncio.

Nós dois sabíamos a resposta.

Amarrados com tanta força, minha liberdade seria a sua própria.

Senti o braço de Edward, lento e reconfortante, envolver em torno dos meus ombros.

Eu me inclinei nele, pressionando meu rosto, molhado e lágrimas, em seu peito.


Nota da Irene: Agora vcs entenderam? Entenderam o Ed? O que ele tem feito? Pq ele pediu a separação? Eu estava louca pra chegar nessas partes.

E esse capítulo foi um bom extra essa semana, não? Estou postando mais cedo pq meu chefe chegou hj de viagem e amanHã vou estar "naquela" correria.

Mas o próximo... *cof cof*...

A cada um que passa a fic fica melhor.

Obrigado a todas pelo carinho e obrigada a Juliana por todas as reviews.

E se não for atrapalhar... cof cof cof... deixa a sua!

Beijos e até amanhã em FaN, que tbm virá com um extra.