Capítulo XXXV
Colinas Errantes, Escócia
Castelo do Cisne
As velas pairaram ao redor da biblioteca por alguns segundos até que caíram no chão ateando fogo depressa no recinto. Bernard e Sawyer atiraram cobertores nas chamas para pará-las, mas Ana-Lucia apenas piscou os olhos e o fogo cessou.
Sawyer olhou para a esposa, assustado. Ana-Lucia também estava assustada com o que acabara de acontecer e ela certamente não tinha uma explicação para aquilo. Bernard estava tão pasmo quanto eles.
- Eu não sei o que houve.- disse Ana-Lucia com sinceridade.
- Foi a pedra?- Sawyer questionou vendo que a luz que emanava da joia agora era branca e brilhante.
Ana-Lucia tocou a pedra.
- Tudo bem.- disse Sawyer. – Lidamos com isso depois. Bernard, tu dissestes que o Paulo foi encontrado?
- Sim.
- E onde ele está?- Ana perguntou.
- Na casa de Jordan Macallister.- respondeu Bernard.
- Preciso ir vê-lo.- anunciou Lorde Sawyer.
- Eu vou contigo.- disse Ana-Lucia.
- Não tu ficas aqui. Pode ser perigoso.- disse Sawyer.
Ana-Lucia cruzou os braços diante do peito. Bernard revirou os olhos e disse, deixando a biblioteca:
- Encontro vocês nos portões.
- O Paulo é meu irmão.- insistiu ela. – Eu preciso vê-lo. Saber se ele está bem.
- Tu vais vais vê-lo, minha senhora, mas primeiro eu preciso certificar-me de que é seguro.
- Eu irei contigo!- disse Ana. – Vou só buscar minha capa.
- Não, tu não irás!
- Irei sim!- ela bradou.
- És minha esposa, tens que obecer-me!
- Pro diabo que eu vou obedecer-te!
Sawyer alargou os olhos, surpreso com as palavras dela.
- Ouça, eu não tenho tempo para chiliques femininos agora. Eu vou ver o Paulo com o Bernard e mais tarde conversaremos.
Ele caminhou até a porta e continuou falando:
- É melhor que estejas calma quando eu voltar, Lady Sawyer. Por que não procura um bordado para distrair-te?
Naquele exato momento as portas duplas da biblioteca fecharam-se com um estrondo que fez Sawyer dar vários passos para trás. Ele voltou-se para a esposa e Ana-Lucia sorria triunfante.
- Não vais à lugar nenhum, senhor meu marido. Não sem mim!
- Ana-Lucia, seja lá o que esta pedra enfeitiçada esteja fazendo, faça parar agora mesmo!
Sawyer tentou abrir a porta, mas esta permaneceu fechada. Ele tentou forçar a fechadura, mas não obteve sucesso. Chutou a porta várias vezes, mas ainda assim não conseguiu abrir.
- Ana-Lucia, eu estou falando sério, desfaz esse negócio...
Ele olhou para a pedra no pescoço dela que agora estava vermelha.
- Lorde Sawyer!- chamou Tomasso do outro lado da porta. – O senhor precisa de ajuda?
- Tomasso, atire na porta!- ordenou ele.
- Tomasso, se tu atirares nesta porta vais arrepender-te.- Ana-Lucia ameaçou o guarda.
- Tomasso, obedeça à minha ordem!- insitiu Sawyer.
- Tomasso, eu avisei...- falou Ana-Lucia.
- Desculpe, Lorde Sawyer. Vou aguardar nos portões com o Bernard.- disse Tomasso deixando-os sozinhos novamente.
- Maldição, Tomasso!- esbravejou Sawyer chutando a porta mais uma vez. Ele se voltou para Ana-Lucia. – Eu preciso ir, Ana. E eu vou sair agora.
Ele tocou na maçaneta, mas a porta continuava trancada.
- Tu precisas entender que eu também sou parte dessa revolução e que eu não vou aceitar ficar para trás. Estamos juntos ou não estamos?
Sawyer aproximou-se dela e agarrou-a pela cintura encarando-a nos olhos. Ana-Lucia o encarou de volta. Ele abaixou o rosto e sussurrou ao ouvido dela:
- Teimosa!
Ana sentiu um arrepio de satisfação ao sentir o hálito morno dele em sua pele. Sawyer enterrou o rosto no pescoço dela, beijando-o.
- Agora nós temos tempo pra isso?- ela o provocou. – Pensei que estávamos com pressa.
- Eu estava com pressa até a senhora me desafiar e trancar-nos na biblioteca com a sua pedra enfeitiçada.- ele a beijou na boca e Ana-Lucia correspondeu. – Agora, já que estamos aqui temos tempo para o que a senhora quiser. Só diga-me que vai abrir a porta.
Ana-Lucia colocou o dedo indicador nos lábios dele. Sawyer beijou e mordiscou o dedo dela. Ela sorriu maliciosa e disse:
- Se o senhor levar-me consigo vou abrir qualquer porta que quiseres.
Sawyer ergueu uma sobrancelha e disse:
- Vou dar-te o teu próprio cavalo.
Ana deu uma risadinha e ele beijou-a com vontade, esmagando seus lábios com os dela. Havia uma pilha tapetes de pele no chão de pedra perto de uma das estantes de livros. Sawyer a deitou lá ao mesmo tempo em que a beijava e a agarrava. Ele abriu depressa os botões da frente do vestido dela e deu um jeito de colocar um dos seios arrepiados dela para fora do espartilho. Ela colocou a mão dele em seu seio sentindo-o apertá-lo delicadamente.
- Aonde a senhora queria que eu a tocasse hoje mais cedo?- ele indagou tratando de erguer o vestido e as três outras saias que ela usava por baixo.
Ela riu e o ajudou com as saias. Sawyer abriu os botões da calçola dela e abaixou-se para beijá-la intimamente. Ana gemeu e suspirou com os carinhos dele.
- Vai abrir a porta pra mim, amor?- ele perguntou tocando-a com seus dedos e língua.
Ana-Lucia relaxou-se inteira e escancarou as pernas para ele que não perdeu tempo e levantou seu kilt, abaixando as ceroulas para tomá-la. Ela gritou e o abraçou com suas pernas enquanto ambos moviam os quadris freneticamente um contra o outro entre suspiros e gemidos de satisfação.
Tomasso tinha retornado ao corredor a pedido de Bernard para ver se as coisas entre os senhores da castelo já estavam resolvidas quando ouviu os sons que vinham da biblioteca. Resolveu voltar e dizer à Bernard que era melhor eles aguardarem mais um pouco.
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Jack desmontou de seu cavalo Sky e o entregou para Karl nos estábulos. Kate esperava-o do lado de fora e ele ficou feliz em vê-la.
- Senhor meu marido.- disse ela, sorrindo aliviada ao ver o capitão sã e salvo.
- Senhora minha esposa.- disse ele tomando-a nos braços e beijando-a.
- Tu estás bem, Jack? Eles fizeram alguma coisa contigo?- Kate indagou quando eles se separaram.
- Não, minha querida, eu estou bem.- respondeu ele agarrando-a e a beijando de novo.
- Como foi? O que eles perguntaram a ti?
- Vamos conversar dentro do castelo, meu amor.- sugeriu Jack. – Matos tem olhos.
- Aye!- Kate concordou e os dois seguiram de mãos dadas para os portões.
Encontraram Bernard junto com os homens da vigília.
- Estás fazendo a vigília agora também, Bernard?- perguntou Kate.
- Não, Lady Shepard. Estou aqui aguardando Lorde e Lady Sawyer para sairmos.
- E onde eles estão?- retrucou Kate. Ainda na biblioteca?
- Sim, senhora.- respondeu ele.
Kate revirou os olhos imaginando o que eles estavam fazendo e seguiu pelos portões
com Jack para dentro do castelo.
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- Ohhhh!- Ana-Lucia exclamou quando Sawyer rolou para o lado dela no tapete de peles.
Ele sorriu.
- És insaciável, meu cordeirinho.
Ana sorriu também e começou a botar as roupas no lugar enquanto seu marido fazia o mesmo.
- Então vais mesmo dar-me meu próprio cavalo, marido?- ela indagou depois que ajeitou o vestido e começou a arrumar os grampos de volta nos cabelos. Sawyer a ajudou.
- Aye! Eu te prometi, não prometi, Lady Sawyer?
Ela assentiu beijando-o nos lábios enquanto ele refazia uma parte das tranças do cabelo dela.
- Vamos então?- disse ele dirigindo-se para a porta.
Ana deu um passo atrás.
- O que foi? Não vai abrir?
- Eu...
Sawyer piscou sem entender.
- Eu pensei que tivéssemos um trato, Ana-Lucia. Tu vens conosco e abres a porta. Simples assim.
- É que eu não sei como.- ela confessou.
- Ora, como? Do jeito que tu fechastes.- retorquiu Sawyer apontando a pedra dela que voltara a ficar azul.
- O problema é que eu não sei como eu fiz para fechar.
- Não sabe também como fez para fazer as velas fluturarem e o fogo se apagar?- perguntou Sawyer, surpreso.
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.
- Só sei que teve algo a ver com as minhas emoções e eu não sei como controlar.
- Bloody Hell!- Sawyer exclamou e gritou em seguida: - Tomasso, venha agora mesmo abrir essa porta!
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Vila de Lósda, Escócia
Estalagem Widmore
Naomi pegou um pilão de madeira e colocou uma porção de ervas misturadas lá dentro prensando-as juntas até que virassem um pó de coloração avermelhada. Desmond assistia ao processo.
- Tens certeza de que é seguro dar isso à Lady Shepard? Não irá causar-lhe nenhum mal?
- Certeza absoluta.- respondeu Naomi. – Irá apenas fazê-la dormir muitas horas e mesmo acordada a dama ficará letárgica até que o marido pare de administrar as doses que deverão ser de apenas uma colher de chá uma vez ao dia. Se ele der mais do que isso a ela pode fazê-la cair em um sono tão profundo que ela não acordará por um bom tempo.
- Quanto tempo?- indagou Desmond.
- Não sei, semanas, meses, anos. Não sei ao certo, depende da pessoa. Por favor, não te esqueças de alertar teu primo sobre isso.
Desmond assentiu.
Naomi colocou o pó em um pequeno saco de tecido e amarrou-o com um barbante. Entregou-o a Desmond. Ele apontou para ela um pedaço de papel no criado-mudo escrito com caneta tinteiro.
- O endereço de minha residência em Paris.
Naomi sorriu e beijou Desmond.
- Muito obrigada por essa oportunidade.
- Espero vê-la em breve na França, senhorita...
- Dorrit.- Naomi respondeu.
Desmond pegou a mão dela e beijou-a delicadamente.
- Au revoir madmoiselle Dorrit.
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Castelo do Cisne
- Um jantar em Isenwood?- retrucou Kate, surpresa depois que Jack lhe contou sobre seu interrogatório no acampamento inglês.
- Sim.- disse Jack. – O General Rochester deseja ser apresentado à ti e tua família. Mas eu sei exatamente qual é o artifício dele. Ele quer saber tudo sobre mim, descobrir minhas fraquezas para então denunciar-me por traição. Mas se conseguirmos convencê-lo nesse jantar que não temos nada a esconder, que o Bakunin é um bufão e que a endiabrada está à milhas de distância da Escócia ele não terá um caso para apresentar à Côrte.
Kate concordou com ele.
- E quando seria esse jantar?
- Rochester quer que seja amanhã.-revelou Jack.
- Bllody hell!- exclamou Kate. – Nós não temos muito tempo então. Precisamos avisar minha mãe em Isenwood, temos que organizar tudo, escolher o menu do jantar, comprar suplementos mas não temos dinheiro suficiente para organizar um jantar fino para um general em tão pouco tempo...
- Acalme-se, querida.- disse Jack tocando o ombro dela. – Não te preocupes com o dinheiro, eu cuidarei dessa parte, mas tu precisas ir para Isenwood ter com tua mãe.
- Sim, irei ainda esta tarde. Pedirei à Ana-Lucia que acompanhe-me.
Nesse momento, Sawyer e Ana-Lucia apareceram na sala de visitas, ambos vestidos com suas capas de lã.
- Capitão Shepard.- disse Sawyer ao ver Jack. – Folgo em ver que retornastes. Como foi o interrogatório?
- Temos muito que conversar, Lorde Sawyer mas vejo que estás de saída.
- Estão indo para a vila?- perguntou Kate.
- Sim.- respondeu Sawyer. – Precisamos fazer umas compras.- mentiu ele. - Bernard e Tomasso estão nos aguardando.
- Ana-Lucia, precisamos ir à Isenwood falar com mamã.
- Por que?- indagou Ana. – Aconteceu alguma coisa com ela?
- Na bi (não).- respondeu Kate. – Mas tem um assunto muito importante e urgente que precisamos tratar com ela.
Ana-Lucia trocou olhares com Sawyer. Ele nada disse.
- Irmã, eu realmente preciso acompanhar meu marido até a vila, mas estarei de volta muito em breve e irei contigo à Isenwood.
- Promete?- questionou Kate.
- Sim, pequena Kate. Eu prometo que volto logo.
Sawyer e Ana deixaram o castelo. Desmond adentrou a sala minutos depois.
- Boa tarde, Lady Shepard, sempre um prazer vê-la.- disse ele fazendo uma mesura.
- Boa tarde, Sir Hume.- disse Kate. - Eu vou preparar uma lista de providências para o jantar enquanto aguardo pelo retorno de Ana-Lucia.- ela disse a Jack.
- Sim, amor.
- Gaol (amor).- ela disse ao marido beijando-o na face enquanto deixava a sala.
- Com sua licença, cavalheiros.
- Que jantar?- questionou Desmond.
- Por onde andou, Des?- perguntou Jack.
- Por aí e acolá.- respondeu ele, irônico. – Mas consegui tudo o que me pedistes.
- Vamos conversar na biblioteca.- pediu Jack arrastando o primo pelo braço.
- Au!- gemeu Desmond.
Eles subiram os andares até a biblioteca e encontraram as portas duplas quebradas, a maçaneta destruída.
- O que foi isso?- perguntou Desmond.
- Não faço a menor ideia.- disse Jack.
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Linconshire, Inglaterra
Andre Gaultier abriu um mapa no meio de uma grande mesa redonda que estava rodeada por Hugo e seus amigos revolucionários. Já estavam na propriedade de Gaultier em Liconshire há cerca de três dias. Tinham tido a oportunidade de descansar bastante, de comer bem e de se preparar para o que estava por vir. Chegara a hora deles retornarem às Colinas Errantes.
Gaultier traçou uma linha com a caneta tinteiro no mapa feito de papel de seda. O mapa tinha sido preparado dois anos antes em 1727 por cartógrafos franceses. A linha que ele traçara começava em Londres e seguia pelo interior passando por Sulfolk e chegando até Liconshire para depois seguir para Nothingham, Manchester e Liverpool. Quando chegassem à Carlisle esperariam dois dias para cruzarem a fronteira para Edinburgo que era extremamente vigiada pelos ingleses.
- Partiremos para Nothingham ao nascer do sol.- anunciou Gaultier. Nos dividiremos em dois grupos. Hugo, Max e mais alguns homens virão comigo para Nothingham, os outros seguirão para Leeds, assim se um dos grupos for pego pelo exército inglês, o outro grupo continuará seguindo para a fronteira em Carlisle.
Os homens aprovaram o plano de Andre Gaultier.
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Condado de Sheryl Frasier
Residência de Jordan Macallister
Tomasso ficou esperando do lado de fora enquanto Bernard, Sawyer e Ana-Lucia entravam na casa de Jordan Macallister para falar com Paulo. Charlie ainda estava lá quando eles adentraram a sala de visitas com o chão de pedra coberto por um carpete de pele de lobo. Paulo estava sentado em uma poltrona de couro, segurando uma xícara de chá. Ana-Lucia ficou emocionada ao vê-lo e correu até ele, ajoelhando-se em frente à poltrona.
- Meu irmão, sua benção.- ela pediu.
- Quem és tu?- indagou Paulo, confuso.
- Não te lembras de tua irmã, Austen!- bradou Sawyer, sem entender.
- Ele está com aminésia desde que chegou aqui.- contou Charlie.
- É mesmo?- retrucou Sawyer. – E quando pretendiam contar-me isso?
- Sou eu, tua irmã, Paulo. Teu sangue.- insistiu Ana-Lucia segurando a mão dele. Somos do clã Austen, filhos de Samuel e Diana do Castelo de Isenwood. Somos filhos das terras altas.
Os olhos dele continuavam confusos. Ana-Lucia tomou a mão dele e colocou sobre sua pedra que tornou-se cor de âmbar. Assim que tocou a superfície polida da pedra de cristal Paulo viu a si mesmo aos dez anos de idade, brincando nas Colinas Errantes com Ana-Lucia que tinha oito anos. O chão estava coberto de neve e ele a empurrava em um trenó de madeira morro abaixo. Ela gritava de alegria.
- Mais rápido, Paulo! Mais rápido!
Ela se voltou para ele e os olhos infantis se conectaram, de repente ele viu os olhos escuros dela fitando-o de volta, mas ela já não era mais uma criança.
- Ana-Lucia... – ele disse reconhecendo a irmã finalmente.
Continua...
