CAPÍTULO TRINTA E SEIS: A ESCOLHA

Bill com passos e vozes sussurradas. O medo encravou-se nele, mas ele o reprimiu com força, fazendo-se concentrar na situação. Imediatamente, ele rolou, procurando pelo buraco na parede. "Frank?"

"Estou aqui, garoto," a voz rouca sussurrou.

"Escutou isso?"

"Sim. Está assim já faz um tempo," o outro prisioneiro respondeu. "Acho--"

Houve um barulho de algo arrastando repentino e a voz de Frank desapareceu. Freneticamente, Bill ergueu a voz acima de um sussurro pela primeira vez em dias. "Frank? Frank, você está aí? Frank?"

A porta da cela de Bill abriu-se com um rangido, fazendo sua cabeça levantar-se de supetão. Seu corpo estremeceu de forma instintiva, tentando ganhar forças para o frio e ataque de terror repentinos -- mas não aconteceu nada. Nada de Dementadores, só um homem vestindo vestes negras na porta. O estranho adiantou-se, mas Bill olhou para ele com suspeita, incerto sobre o que pensar sobre essa novidade. Visitantes à meia-noite não eram incomuns em Azkaban, apesar dos Lestrange e companhia tendessem a preferir a luz do dia.

"Está tudo bem, garoto," o estranho disse baixinho. "Estamos aqui para levá-lo para casa." O bruxo continuou adiantando-se, e quando ele se inclinou para ajudar Bill a se levantar, o jovem percebeu a marca dos Aurores nas vestes. Imediatamente, ele aceitou a mão oferecida.

"Quem é você?"

O outro o pôs de pé. "Sirius Black."

"Mas você está morto!" Bill sentiu seu quaixo cair e fitava o estranho, tentando descobrir se estava morto, alucinando ou as duas coisas. O nome marcado na Parede dos Heróis podia ser só uma lembrança, mas ele tinha certeza de que fora real, como fora a trágica história do Auror.

"As pessoas vivem me dizendo isso," Black respondeu com um sorriso curto. "Bill Weasley, não é?" Bill assentiu tolamente. "Consegue andar?"

"Sim."

"Então vamos. Não temos tempo a perder." Black levou Bill até a porta, sua varinha mantida numa posição preparada. Após uma rápida olhada no lado de fora, ele gesticulou para Bill andasse e o jovem Auror ficou mais do que contente em obedecer. Andar parecia ao mesmo tempo bom e doloroso; por um lado, estava simplesmente agradecido por poder fazê-lo, e por outro, lembrava-se de todas as sessões de tortura que sofrera nos últimos meses. Pisando fora de sua cela com seus próprios pés pela primeira vez, Bill olhou em torno e notou pelo menos três outros Aurores, um deles ajudando um bruxo abatido a sair da cela ao lado. Frank.

Um dos Aurores voltou-se para Black. "Temos todos os prisioneiros desse lado, Sirius," Kingsley Shacklebolt disse calmamente. "Agora, tudo que temos que fazer é chagar até o ponto de encontro."

"Ótimo." Black voltou-se e gesticulou na direção do corredor de celas. "Cuidado com aquela direção. Os Lestrange vivem naquele lado--"

"Sirius?" O companheiro de prisão de Bill fitava Black com olhos arregalados e boca aberta. Ele tropeçou e o Auror que o ajudava quase não o pegou.

"Oi, Frank," Black respondeu baixinho. "Alice vai ficar conntente em te ver."

Frack Longbottom piscou os olhos. "Você está morto."

"Quase." O sorriso não chegou os olhos de Black, que dardejavam de um lado para o outro, observando tudo em torno deles. Ele parecia mais tenso do que os outros Aurores, mas mais observador também e eles estavam obviamente voltando para ele por liderança.

"Mas o que está acontecendo aqui?" Frank chioou. "Além do óbvio."

"A Divisão precisava de alguém bem íntimo com Azkaban," o outro replicou. "Sou eu."

"Você esteve--" Longbottom começou a perguntar, mas então um arrepio frio o atingiu ao mesmo tempo que chegou a Bill. Incapaz de falar, Bill lutou para continuar de pé e viu Frank começar a cair. Black também cambaleava sob a influência -- Bill escutou gritos na sua cabeça--

"Dementadores!" Frank conseguiu arfar enquanto desmaiava e atingia o chão, arrastando o Auror magro junto com ele. Bill cambaleou, colidindo com a parede e encostando-se nela. Sua visão tremeu, escurecendo rapidamente, mas ele conseguia ver uma dúzia de criaturas dirigindo-se a eles. Viu uma delas alcançar Kingsley antes que o bruxo negro pudesse erguer a varinha -- o Dementador pôs as mãos em volta do pescoço de Kingsley e se inclinava -- Black cambaleou, quase caindo e atingiu a parede ao lado de Bill. De repente, contudo, a varinha do Auror ergueu-se e Bill vislumbrou a pura determinação nas feições dele enquanto sua varinha chicoteava adiante.

"Expecto Patronum!"

Uma enorme águia prateada saltou da varinha de Black e envolveu o primeiro Dementador quando esse erguia o rosto de Kingsley; o Dementador voou para trás e então virou e fugiu, derrotado. Imediatamente a água voou em torno para encarar as outras criaturas que avançavam, mergulhando em meio a elas e as espalhando. Um instante depois, a voz de uma bruxa podia ser escutada lançando o Feitiço do Patrono, enquanto ela corria atrás deles. Seu leão juntou-se à águia na perseguição aos Dementadores.

A sensação de frio desapareceu tão rápido quanto tinha surgido e Bill piscou os olhos, afastando-se da parede enquanto o Auror magro ajudava Frank a se pôr de pé. Black tinha se dirigido a Kingsley, apoiando o homem maior enquanto este lutava para se levantar.

"Estou bem," Kingsley disse trêmulo.

Black assentiu; seus olhos estavam estreitados. "Acho que fomos notados."

"Concordo," a mulher respondeu, e Bill virou-se ligeiramente para ela enquanto se afastava da parede. Conhecia Hestia Jones e ficu surpreso por não ter reconhecido a voz ou o patrono dela -- mas essas preocupações eram para depois. Olhando por sobre o ombro dela, ele notou o grupo de prisioneiro que ela claramente tinha reunido antes de correr para enfrentar os Dementadores.

"Boa hora, a propósito," o Auror apoiando Frank disse para Hestia, e Bill de repente reconheceu o jovem magro como Oscar Whitenack, que fora antes um aluno de Frank.

"Não boa o bastante," ela replicou irritada. Os olhos dela estavam em Black, mas ele olhava Frank.

"Acho," Frank disse lentamente, "que você vai ter que sacrificar alguns dos mais lentos de nós para conseguir velocidade."

Bill boquiabriu-se. "Frank--"

"Sem chance," Black interrompeu a ambos com um olhar severo no rosto. Ele se dirigiu direto a Longbottom e olhou o homem abatido direto no olho. "Não vou deixar ninguém em Azkaban; sei muito bem como é esse lugar." Ele estendeu a varinha. "Aqui. Faça isso."

Frank olhou a varinha com dúvidas. "Durarei uma hora se tivermos sorte," ele avisou Black. "E minha perna esquerda está quebrada. Não vou muito longe com Cura Rápida e me recuso a lerdar alguém."

"Se ficarmos aqui mais de uma hora, todos estaremos mortos de qualquer jeito."

Suspirando, Frank pegou a varinha e apontou-a para si mesmo. "Brevisalvum Mali."

Bill sentiu suas sobrancelhas se levantarem enquanto o amigo lançava a magia; ele se lembrava, bem claramente, de aprender o Feitiço Cura Rápida dos Aurores no treinamento e definitivamente se lembrava de Alastor Moody lhe dando um sermão o tempo todo sobre nunca usá-lo a não ser que fosse uma emergência genuína. Bom, se isso não fosse um desastre, não sei o que seria, Bill pensou consigo mesmo. O olhar no rosto de Frank lhe disse que a dor tinha diminuído um pouco, se é que tinha, mas o homem mais velho endireitou-se e foi capaz de agüentar o próprio peso. Bill sabia que a magia não duraria muito e que o dano seria pior quando ela se desfizesse, mas na situação atual, até mesmo isso era uma melhora.

"Obrigado," Frank disse a Black.

"Sem problemas. Vamos--"

Luz vermelha lampejou sobre as cabeças deles, quase acertando o delgado Auror que estivera apoiando Frank momentos antes. "Abaixem-se!" Hestia gritou, e os seis Aurores, novos e velhos, se jogaram nos cantos, buscando quaisquer abrigos que pudessem encontrar nas paredes da prisão. Por um momento, Bill considerou mergulhar de volta na cela, mas decidiu que preferia arriscar-se ali. O único jeito de eu voltar para lá é à força.

"Os Lestrange," Frank silvou à direita de Bill, e o ódio em sua voz era óbvio. Mas Bill entendia exatamente como ele se sentia.

"Estupefaça!"

Um jato de luz vermelha saiu do lado deles e de súbito Bill viu um de seus oponentes ensombrecidos cair. Então escutou a voz de Bellatrix Lestrange.

"Ah, é você, primo?" ela caçoou. "Foi idiota o bastante para voltar para Azkaban? Espero que sabia que não vai sair dessa vez!" Ela facilmente bloqueou um feitiço que Kingsley lançou na sua direção e o escudo de Hestia evaporou-se sob a força do ataque de Rodolphus Lestrange.

"Nox Omni," Black silvou baixinho, e de repente todas as luzes no corredor desligaram-se e eles mergulharem na escuridão. Bill achou ter ouvido alguém do seu lado xingar com raiva.

"Acha que pode se esconder, Sirius?" Bellatrix esclamou, rindo. "A escuridão é minha amiga! Avada Kedavra!"

Luz verde lampejou bem acima da cabeça de Bill, impactando na parede e lançando fragmentos de metal pra todo lado. Um instante depois, ele escutou um som de gongo reverberando na prisão, parecia muito com um trovão; assustando-se, Bill percebeu que devia ser o sinal de problemas do time de resgate.

"Isso é o melhor que sabe fazer?" Black gritou em resposta às caçoadas de Bellatrix, mas ela riu.

"Chamando os amigos, Sirius? E aqui estou eu, achando que você era homem o bastante para lutar comigo!" ela riu de novo, e o som fez um arrepio correr pela espinha de Bill. Em algum ponto a sua esquerda, ele ouviu movimento, mas Bellatrix não tinha terminado. "Lumos," ela silvou baixinho e Bill deu uma olhada na silhueta fantasmagórica dela pouco antes de sua varinha mirar na forma agachada de Black. "Ava--"

"Everbero!" ele estivera claramente esperando que ela se revelasse, porque o feitiço de ataque atingiu Bellatrix bem no peito e lançou-a voando para trás, onde ela colidiu na parede, imóvel. "Expelliarmus!"

A varinha dele voou direto para a mão de Black e tudo escureceu quando a magia de Bellatrix extinguiu-se. Um momento depois, as luzes do corredor se acenderam quando Black murmurrou outro feitiço e o Auror voltou-se imediatamente para Frank, que balançou a cabeça. "Dê para Bill," o homem disse trêmulo. Ele claramente ainda sentia dor.

"Tome." Bill pegou a varinha atirada e remexeu-a na sua mão. Parecia estranha, bem diferente da sua própria e... poluída. Mas seria por enquanto. Só precisava lembrar-se de não fazer nada complicado com ela.

"Obrigado."

Black assentiu. "Todo mundo está bem?" Um coro de respostas afirmativas respondeu a pergunta enquanto Aurores e prisioneiros levantavam-se do chão. "Ótimo. Vamos sair daqui antes que algo mais dê erra--"

"Olha lá!" Hestia gritou, girando na direção de onde os outros prisioneiros se aproximavam. Por instinto, Bill sentiu a varinha erguer-se e virar na mesma direção e ele mal conseguiu segurar o Feitiço de Estuporamento que estava em seus lábios quando ele reconheceu o novo grupo de pessoas. Alice Longbottom estava na liderança, o que fez alívio escorrer pela voz de Hestia. "Alice!"

Os olhos castanhos da outra Longbottom observou os dois Lestrange inconscientes. "Estou vendo que estiveram ocupados," ela comentou.

"Um pouco," Kingsley resmungou.

Alice alcançou o marido e Bill desviou os olhos, permitindo-lhes um momento à sós para se abraçarem. Mas estavam ficando sem tempo e Black falou logo em seguida.

"Quantos você encontrou?" ele perguntou a Alice.

"Quinze," ela respondeu imediatamente, ainda do lado de Frank. Bill notou que seu companheiro parecia anos mais novo agora e a determinação em seu rosto estava claramente misturada com alegria. "Encontramos Rabastan Lestrange no caminho, mas ele ficará fora de circulação por um tempo."

"Ótimo," Black respondeu. Seus olhos ainda verificavam o corredor. "Temos doze, então isso significa que achamos todo mundo. Jones, Alice, peguem a retaguarda. Bill, Oscar, fiquem comigo. O resto fique por perto."

Eles sairam andando no corredor o mais depressa que podiam, o que, infelizmente, não era em grande velocidade. Várias feridas atrasavam os prisioneiros e Bill viu alguns apoiando uns aos outros enquanto os Aurores se alternavam entre dar uma mão e ficar de vigia. Parecia levar uma eternidade para cruzar o longo corredor das celas de segurança máxima, mas enfim o grupo tropeçando chegou à primeira curva e entrou no longo corredor das Salas de Interrogatório que Bill vira vezes demais. Caminhando à esquerda de Black, ele podia ver a careta no seu próprio rosto refletida no do Auror e começou a se perguntar se Black realmente fora um prisioneiro de Voldemort em algum momento.

Contudo, algo lhe disse que essa não era hora de perguntar. Em vez disso, ele perguntou, "Para onde estamos indo?"

"Esgostos," Whitenack respondeu à direita de Black. "A entrada é logo depois da próxima curva. Os canos levam até a doca, onde temos um barco esperando."

Liberdade. O pensamento era quase bom demais para se contemplar e de início Bill achou quer era só sua imaginação quando um vento gélido varreu o grupo enquanto se aproximavam da curva.

Black deteve-se, esticando um braço para obrigar os outros a pararem. Seus ombros estavam tensos e a varinha ainda imóvel a seu lado enquanto ele ficava paralisado -- Um arrepio horrível correu pela espinha de Bill.

Estavam encurralados.

Era uma sensação vagamente familiar para Bill e ele sabia que havia algo logo depois da curva, algo entre eles e a liberdade -- a voz de Oscar Whitenack estava seca. "O que é?"

Black piscou o olho. "Voldemort."

"Impossível. Ele está--"

"Eu o sinto. Ele está ali." Ele piscou de novo e de repente sua varinha levantou-se. "Corram."

Sirius Black virou a esquina.

A calma que fluía dele não podia existir. Sentia-se anormalmente relaxado para alguém que estava se dirigindo para a própria morte, e o tempo parecia se mover em câmera lenta. Cada passo levava uma eternidade; era como se o destino lhe estivesse dando a oportunidade de perceber exatamente o quão idiota ele estava sendo. Mas ele sabia o que fazia. Fizera sua escolha. O tempo se acelerou e seu coração latejava nos ouvidos com uma batida estranhamente irregular, calma e preparada.

Sirius virou no corredor. Sentiu suas vestes girando em volta das pernas com o vento artificial, mas sua concentração estava na figura delgada parada a doze metros de distância, usando vestes negras com olhos vermelhos malevolentes. Uma longa mão branca extendeu a varinha em sua direção, mas nenhuma magia saiu dela.

"Sirius Black. Achei que seria você."

Foi a primeira e única vez que fora capaz de enfrentar o Lorde das Trevas como igual. Quando falou, porém, sua voz era bem mais calma do que Sirius sentia que tinha direito de estar, mas estava estranhamente em paz consigo mesmo. Essa era sua escolha. "Voldemort."

Um segundo.

"Avada Ke--"

Ele sabia antes que a varinha do Lorde das Trevas se levantasse, sabia o que viria. Sirius mergulhou de lado, mandando um pedaço da parede próxima voando na direção de Voldemort, que foi desviada com trejeito da varinha do bruxo. Do mesmo modo, Sirius bloqueou a contra-maldição e viu os olhos vermelhos se estreitarem perigosamente antes da luz verde estalar no ar.

Mas Sirius já se movimentava, e um gesto de sua varinha arrancou uma porta das dobradiças; a maldição da morte fez a porta explodir e pôs fogo no chão entre Sirius e Voldemort , dando uma luz estranha aos acontecimentos.

E então o duelo começou com tudo. Sirius mal teve tempo de pensar, só reagia do modo que anos de treinamento martelavam na sua mente. Luzes brilhantes lampejavam no ar, cruzando e desviando os dois. No fundo, Sirius ouvia os gritos e pensou que vinha de seus companheiros, mas não tinha tempo para se certificar. Só podia se concentrar nas reações de Voldemort e descobriu que, de algum modo, sabia qual magia o Lord das Trevas lançaria pouco antes dele fazê-lo. Não era uma sensação consciente, só instinto, mas ainda assim podia sentir as respostas queimando dentro dele.

Mas a sensação não era perfeita, e Sirius foi atingido pela Maldição Cruciatus de Voldemort ao mesmo tempo que seu Feitiço de Ataque atingia o bruxo das trevas. Sirius voou para trás com um grito, atingindo a parede a apenas alguns centímetros dos pés espantados de Bill Weasley, mas ficou satisfeito de ver Voldemort também no chão, embora temporariamente, o que quebrou a maldição sobre ele. Weasley tentou agarrar seu braço e puxá-lo dali, mas Sirius rolou para longe dele, terminando agachado na sua velha pose de duelo.

"Cadovallum!" ele berrou, mas um aceno da varinha de Voldemort desviou a magia para o alto, fazendo uma porção do teto desabar com um estrondo. Sirius imediatamente lançou um Feitiço Estuporante, esperando que o esforço de evitar as rochas caindo distraísse seu oponente, mas não teve tanta sorte e quase não escapou de ser atingido por outra Maldição Cruciatus.

Enquanto isso, Voldemort conjurou uma cobra negra gigantesca que posicionou-se para atacar Sirius, parecendo querer engoli-lo inteiro -- uma rápida Maldição Inceneradora fez a cobra explodir em chamas, mas custara momentos preciosos, e uma Maldição Quebra Ossos passou pelos escudos negligenciados de Sirius. Arfando, ele se dobrou, sentindo as costelas racharem e quebrarem; mal havia tempo para sair do caminho antes que outro jato de luz verde chegasse no espaço em que ele estivera. Ainda em movimento, Sirius ergueu a varinha depressa, sabendo que não havia tempo para a dor.

Não havia tempo para pensar ou reagir. Não havia tempo nem para respirar. Só para agir.

O corredor entre seus companheiros e a fuga estava se tornando um palco de um show de luzes. Maldições cruzavam o ar e Sirius bloqueava algumas por puro instinto e evitava outras; fumaça se espalhava em torno deles, fazendo o duelo parecer absolutamente surreal. Sirius bloqueou uma Maldição Impedimenta e arrancou outra porta das dobradiças e mandou-a voando na direção de Voldemort. Imediatamente, a porta explodiu em chamas, mas Sirius já se movia para o lado, antecipando a Maldição da Morte antes que ela fosse lançada. A parede atrás de Sirius explodiu, e ele escutou alguém gritar.

Rapidamente, ele agitou a varinha e um pequeno tornado engolfou Voldemort, erguendo-o no ar e fazendo-o girar -- mas a reação de Voldemort fora rápida demais e logo Sirius voava no ar. Ele caiu com um estrondo, e bateu com força a cabeça contra o concreto, mas o instinto o fez rolar a tempo de evitar outra Maldição Cruciatus. Posicionando-se agachado e vendo estrelas, ele formou um escudo que interceptou a maldição seguinte de Voldemort e então Sirius pôs-se de pé num salto, agindo por puro instinto e esquecendo-se de leis ou regras e até de mesmo do bom senso.

"Imperio!"

"Imperio!"

Eles lançaram as magias simultaneamente e Sirius viu Voldemort cambalear enquanto ele mesmo dava um passo para trás, lutando contra a repentina onda de poder que o engolfou. Calor e frio envolviam Sirius de modo alternado, e Azkaban desfez-se em nada enquanto ele ficou preso numa batalha de vontades. Podia sentir Voldemort lutando para manter o controle e ao mesmo tempo podia ouvir uma vozinha insistente lhe dizendo para largar a varinha, para simplesmente se render...

Tudo ficou borrado. Não conseguia mais ver, não conseguir mais sentir ou ouvir nada além do puxão da vontade de Voldemort e o poder atacando suas defesas como um aríete. A importância do mundo lá fora se desfez, substituída por uma sensação de paz. Não precisaria se importar, não precisaria pensar...

Mas isso era um campo de batalha que ambos conheciam e entendiam. Já estivera nisso antes. Sirius lutou contra, fazendo seu caminho através do elo deles com pura força de vontade e tentando forçar o Lorde das Trevas a render-se. Tinha a vantagem agora e sabia disso. Sirius duvidava que alguém já tivesse ousado virar a Maldição Imperius no próprio Voldemort e nessa área cinzenta entre a derrota e a vitória, Sirius aprendera há tempos como manter a alma. As maldições unidas formavam um elo entre eles; o poder não era mais uma questão, somente a vontade.

Voldemort, contudo, era muito forte. Dor passou por ele quandos suas mentes colidiam e ele atacou de volta só para ver o que aconteceria. A fúria em resposta foi tão grande que queimava e Sirius quase perdeu sua segurança. Um nada caloroso rastejava nele e ele lutava contra isso, lutava a crescente sensação de derrota e desespero. Ainda assim, a desesperança da situação veio ainda mais forte e conseguia sentir o Lorde das Trevas começar a saborear o prazer da vitória.

Não!

Pouco a pouco, Sirius rastejou para fora da derrota. A fúria de Voldemort mandava dor para seu cérebro, mas ele lutava contra. Não perderia. Não cederia.

Estava usando força que nem mesmo sabia que possuía.

O elo entre eles estava se tornando assustadoramente forte. Sirius sentia como se se ele desse mais um passo, poderia dar uma olhada direto na alma de Voldemort -- e de repente percebeu que o Lorde das Trevas teria a mesma oportunidade de ver a dele. A situação fora bem além do perigo incompetente. Isso estava se tornando mortal. Só teria segundos antes que Voldemort percebesse o que o elo significava e Sirius duvidava que sua psique danificada podesse agüentar a pressão. Concentrando-se, ele empurrou com toda força, lutando para libertar-se do elo antes que fosse tarde demais--

E então tudo ficou preto.

"—nverate."

Os olhos de Sirius abriram-se e ele piscou contra a luminosidade repentina. A linha de fogo que tinha formado uma barreira entre ele e o Lorde das Trevas tremeluzia não muito longe e havia passos no corredor, pessoas se movendo em torno dele -- a cabeça de Sirius ergueu-se de supetão e se descobriu olhando nos olhos negros de Kingsley Shacklebolt. Rapidamente ele se apoiou nos cotovelos, olhando em volta. Pelo menos metade dos prisioneiros resgatados reuniam-se em torno fitando onde Sirius estava deitado com olhos ansiosos. Ele olhou para Kingsley, tentando anuviar as brumas que estavam lentamente desaparecendo de sua mente.

"O que aconteceu?"

"Nós estuporamos vocês dois," o Auror respondeu. "Era a única maneira que conseguimos pensar para romper a maldições dos dois."

"Voldemort--?"

Alguém atrás dele na escuridão deu um gritinho com o uso do nome do Lorde das Trevas.

"Ainda inconsciente. Estamos tentando descobrir como--"

Bum.

Pedaços de rocha quebrada chuveram sobre eles e Alice Longbottom, na dobra do corredor, gritou, "Temos visitas!"

Sirius pôs-se de pé num salto enquanto pedras grandes começavam a cair do teto. O chão chocoalhou insistentemente sob ele, porém, enquanto ele se inclinava para pegar a varinha que caíra quando ele fora estuporado. Não tinha tempo para pensar sobre o quanto sua cabeça doía. "Faça-os andar!" ele gritou para Kingsley, acima do barulho. Faíscas e maigas estavam voando em torno da esquina onde Alice e seus companheiros estavam. "Não temos muito tempo!"

Ele saltou na direção da porta e a multidão de prisioneiros e Aurores dividiu-se para dar-lhe passagem. Ao alcançar a porta de metal enferrujada, porém, ele notou que ela estava fechada e uma sensação de frio começou a se formar em seu estômago. Não seja idiota, Sirius pensou consigo mesmo. Alice deve ter fechado a porta atrás dela. Sem pensar duas vezes, ele abriu a porta.

E se descobriu cara a cara com um muito espantado Severus Snape.

"Incendio!" Snape gritou, e Sirius caiu sobre a parede atrás dele, sentindo a maldição queimá-lo no ombro esquerdo. Ele enfiou a varinha pela abertura.

"Estupefaça!" Ele não teve tempo para descobrir se a magia atingiu antes de ter bater a porta, repondo-se de pé o mais depressa possível.

"Colloportus!" Sirius selou a porta e acenou para que os outros, sua mente acelerada. "Não podemos ir por aqui!"

Um grito de dor seguido por um lampejo de luz brilhante veio da outra ponta do corredor. Sirius olhou em torno feito louco, esperando descobrir uma saída, mas sabia que não havia nenhuma. Os Comensais da Morte deviam ter descoberto a passagem subterrânea por pura sorte, porque Sirius não contara a ninguém exceto James, antes da reunião com os Aurores no Dama Furada -- mas aquilo dificilmente importava no momento. O corredor curto tinha acabado de se tornar um campo de matança. Estavam encurralados.

"Kingsley! Bill! Oscar!" ele gritou, gesticulando depressa para os três Aurores mais próximos -- normalmente, ele nem teria pensado em chamar um dos prisioneiros em fuga, mas Weasley tinha uma varinha e isso teria que servir -- "O teto! Explodam agora!"

"Por quê?" Oscar gritou.

"Faça isso!" Sirius gritou, apontando a varinha no teto de pedras e deixando sair a maldição mais destrutiva que conseguia pensar. Sua tentativa anterior de derrubar as paredes sobre Voldemort tinha-no enfraquecido consideravelmente, mas Azkaban era uma estrutura vigorosa. Os outros seguiram seu exemplo, atirando magias direto no teto e o chão começou a balançar mais uma vez --

Destroços.

Craque.

"Cuidado!" Bill gritou, e Sirius mal ergueu seu escudo a tempo de proteger os prisioneiros antes das pedras começarem a cair em volta deles. Sentiu outros escudos fortalecendo o seu, e então subitamente o ataque terminou e ele escutou feitiços sobre a porta que ele selara anteriormente. O tempo estava acabando.

"Comecem a levitar os prisioneiros para o telhado!" ele ordenou a Kingsley e então se apressou para onde Alice, Jones, Dawlish, Striker e Christa estavam lutando para manter afastado outro grupo de Comensais. Sirius mal chegara a virar na esquina quando foi foirçado a mergulhar atrás de abrigo quando uma luz vermelha quase arrancou sua cabeça.

Ele vislumbrou pelo menos seis Comensais além da barreira temporária que os Aurores tinham criado, feita de portas, pedras e fragmentos de metal. "Muito ruim?"

"Muito ruim!" Alice gritou em resosta, lançando um Feitiço Estuporante num Comensal da Morte que avançava. Ele desviou para a direita e ela errou e então os dois Aurores abaixaram as cabeças abaixo do nível da barreira. "Não podemos agüentar por muito mais tempo!"

"Quem você pode me emprestar?" Sirius detestava perguntar, mas precisava. Precisavam da ajuda.

"Dawlish!" ela gritou imediatamente, esticando a mão para agarrar o ombro do Auror com a mão esquerda. "Volte com Sirius!"

Assentindo como um agradecimento rápido, Sirius olhou para Dawlish e juntos ele saíram correndo para o centro do outro corredor, onde Kingsley, Oscar e Bill estavam levitando os prisioneiros sozinhos ou em duplas. Infelizmente, levitar objetos sólidos e grandes era um trabalho muito cansativo e todos os três pareciam fatigados, principalmente Bill, que parecia pronto para desmaiar. Sirius e Dawlish combinaram seus esforços com os dos outros.

"Oscar!" Sirius ordenou. "Venha até aqui e fique de vigia. Grite se ver qualquer coisa!"

O jovem Auror assentiu e então se foi, voando pela brecha no teto e se juntando aos doze prisioneiros já lá. Um grito de dor veio da direção de Alice, contudo, e Sirius achou que soava como a voz de Christa. Aqueles abaixo dobraram seus esforços. A exaustão começava a preossionar com força em Sirius após alguns instantes, mas ele ignorou-a e viu os outros fazendo o mesmo. Enfim, os últimos dois prisioneiros voaram para o alto e passaram pela abertura e Sirius virou-se para chamar a outra equipe de volta.

"Alice!" Sirius gritou. "Recue!"

A reação foi imediata. e ficou satisfeito em ver as quatro figuras regredindo, ainda lançando magias no caminho. Christa parecia estar arrastando a perna direita e o rosto de Striker estava coberto de sangue, mas todos estavam se movendo. Sirius e os outros deram apoio a eles, mandando feitiços voando sobre as cabeças dos companheiros e tentando atrasar o inimigo de qualquer maneira possível. Um Comensal da Morte caiu, mas o feitiço de outro errou Alice e acertou Kingsley. O Auror negro gritou de dor e cambaleou, mas Bill, embora exausto, pegou-o e o ajudou a recuperar o eqüilíbrio.

Alice e os outros os alcançaram bem quando a pesada porta de metal abriu de supetão e Comensais da Morte encheram a entrada.

"Cuidado!" Dawlish gritou, arrastando Sirius para fora do caminho de uma Maldição da Morte. Não havia tempo para agradecer-lhe.

"Vão para o telhado!" Sirius ordenou.

Christa e Striker foram primeiro, era uma doutrina padrão dos Aurores fazer com que os mais feridos saíssem em segurança antes de se preocupar com os outros. Com a ajuda deles, Kingsley se lançou pela abertura e então da sua esquerda, Bill gesticulou para Voldemort, que se mexia ligeiramente, chamando,

"E ele?"

"Deixe-o!"

Simplesmente não tinham tempo. A guerra poderia ter terminado ali, mas Sirius não podia arriscar mais vidas tentando capturar o Lorde das Trevas -- e mesmo enquanto começava a pensar duas vezes na sua decisão, Snape lançou-se adiante e arrastou Voldemort para fora do caminho. Outra magia quase acertou Jones, mas aí os últimos cinco Aurores foram pegos pelos feitiços de seus companheiros e foram levados para longe do perigo.

Sirius aterrissou no telhado com um impacto. Levou-lhe um bom tempo para levantar-se, mas ele forçou sua mente a funcionar apesar da dor e exaustão e pôs-se de pé. Seus Aurores já estavam se afastando do buraco, e os prisioneiros já estavam numa distância segura. Oscar e Christa estavam com eles, ele notou -- feitiços dos Comensais da Morte lá embaixo voavam cegamente, mas Kingsley e Jones lançaram feitiços de escudo sobre a abertura, permitindo-lhes continuar a se afastar. Os Aurores espalharam-se imediatamente, verificando o chão em torno de Azkaban e procurando por ameaças. Naquele momento, tudo parecia calmo, mas Sirius sabia que isso não duraria. Logo, os Comensais se aventurariam do lado de fora, e a menos que pudessem contactar Arthur antes que isso acontecesse, estariam acabados. Mas mesmo enquanto aquele pensamento mórbido lhe ocorreu, um espirro d'água gigante engolfou a todos.

Sirius ergueu os olhos, sorrindo largo.

O Dama Furada estava descendo do céu, gotejando água do mar sobre os Aurores e prisioneiros reunidos, o que, embora fria, era uma das melhores sensações que Sirius já tivera na vida. Devagar, o Dama Furada desceu, parando no nível do telhado da prisão, e sua rampa de embarque lançou-se para fora para que eles a cruzassem.

"Ótimo!" Oscar Whitenack gritou em triunfo, e o sorriso em seu rosto disse a Sirius que fora o jovem bruxo quem sinalizara para Arthur Weasley.

Ele deu um tapinha no ombro do Auror. "Bom trabalho!"

Alice já estava mandando os prisioneiros pela rampa; aqueles que conseguiam estavam saltando o espaço entra a lateral do Dama Furada e o telhado. Sirius virou a cabeça lentamente, dando uma última olhada e se assegurando de que ninguém se aproximava -- mas não havia Comensais da Morte à vista. À sua direita, porém, ocorreu um barulho agudo e o telhado chocoalhou, derrubando vários prisioneiros. O feitiço do escudo sobre a abertura fora rompido, mas Sirius apenas riu. Era tarde demais.

Ele saltou para o Dama Furada, o último a embarcar e se dirigiu para a popa enquanto o iate se afastava da prisão. Enquanto ganhavam altitude, Sirius notou várias figuras saindo do comlexo -- e reconheceu quem liderava.

"É melhor se apressar," Sirius comentou suavemente, alcançando o lado de Arthur. "Ele não está muito feliz conosco agora."

Arthur sorriu de volta. "Certo."

Enquanto o Dama Furada subia mais ainda no céu, um impulso repentino tomou conta de Sirius. Ele se inclinou sobre a popa e acenou alegremente para Voldemort.

Título Original: Promisses Unbroken - Chapter 36: The Choice
Autora: Robin
Tradução: Rebeka