POV Jennifer
Sento-me no chão frio de meu banheiro e apoio a cabeça na parede após vomitar mais uma vez, essa noite foi particularmente difícil de suportar. Já era difícil lidar com os problemas nos pulmões, agora com o estomago... – Suspirei limpando o suor da testa. – Seriam longos tempos, mas eu passaria por isso, como sempre passei. Era apenas mais um período ruim.
Eu não queria, mas sabia que teria que acabar falando sobre esses enjoos vez que eles sempre vinham após tomar as poções curativas. Não daria para continuar dessa maneira.
Assim que senti a segurança de que mais nada voltaria, fui tomar um banho, logo as aulas começariam e eu ainda precisava passar na sala dele para a verificação médica, quanto menos problemas, melhor, eu tinha saído ontem da enfermaria depois de longas três semanas, não queria voltar mais lá por um bom tempo.
Assim que sai do chuveiro parei em frente ao espelho e observei meu corpo, cheio de cicatrizes e queimaduras, sem pensar duas vezes peguei minha varinha ocultando cada uma das marcas como sempre fiz, deixando apenas os cortes e as poucas queimaduras que ainda não havia se curado completamente, eu sabia que Severo reclamaria, mas eu me recuso a sair deste quarto com o corpo desta maneira.
Rapidamente me vesti com um vestido de mangas longas e uma meia calça preta, cobrindo o máximo meu corpo para evitar muita briga, trancei meu cabelo e vesti meus sapatos e minha capa, seria meu primeiro dia de volta as aulas, mas eu não me sentia nem um pouco disposta a me arrumar ou mesmo a ir as aulas, contudo era melhor do que ficar na enfermaria. Ao menos com as aulas eu poderia distrair minha cabeça.
Peguei uma bolsa preta coloquei meus materiais e medicamentos e segui para a sala de poções, quanto antes acabasse com isso, melhor. Ainda era cedo, os corredores estavam em sua maioria desertos então chegar a sala não demorou mais do que uns poucos minutos.
—Entre. – Ouvi a voz profunda de Severo assim que bati, ele já me aguardava. Fechei os olhos e respirei fundo tentando me acalmar, meu peito doeu, mas tentei ignorar. Eu precisava seguir em frente.
—Bom dia Professor. – Falei roucamente ao adentrar, surpresa com a falha em minha voz, havia esquecido de usar a bombinha com todo os enjoos.
—Bom dia Jennifer. – Respondeu Severo fazendo meu peito doer novamente, por que ele não podia me chamar pelo sobrenome como fazia com os demais? Seria menos doloroso.
Me aproximei de sua mesa enquanto ele se levantava com a varinha em mãos. – Como passou a noite? – Perguntou ele enquanto fazia um rápido diagnostico com a varinha. Hesitei por um breve minuto, ainda incerta se deveria ou não falar sobre os enjoos, mas foi o suficiente para ele perceber algo errado. – O que houve? – Sua voz era preocupada. Suspirei.
—Meu estomago está no limite de medicamentos. – Expliquei. – Basta-me tomar uma das poções para vomitar.
Seu rosto ficou mais preocupado, ele me sentou em uma cadeira e começou um diagnostico mais aprofundado. – Quando isso começou?
Novamente hesitei sabendo que ele brigaria ao saber que eu estava vomitando as poções a dois dias, mas escondi esse fato de Madame Pomfrey, sabendo que ela não teria me liberado se soubesse.
— Jennifer? – Questionou ele enquanto erguia a sobrancelha aguardando quase impaciente uma resposta.
Engoli em seco. – Faz dois dias...
Eu podia sentir ele tentando controlar a raiva. – A dois dias a senhorita ainda estava na enfermaria, como Madame Pomfrey não me informou nada sobre isso acredito que a senhorita ocultou esse detalhe dela.
Encolhi meus ombros, tentando não parecer muito culpada, embora me sentisse assim. – Eu só queria sair logo da enfermaria. – Expliquei sem olhá-lo.
Ouvi um rosnado contido em sua garganta. Ele estava irritado. – Sua estupidez e falta de amor próprio me impressiona as vezes. – Resmungou ele ao se afastar, olhei-o a tempo de voltar para sua mesa, tomando uma pena e começando a anotar algumas coisas.
Senti-me irritada. – Assim como a sua grosseria. – Rebati ácida. Não ficaria aguentando mais suas crises de raiva calada. Eu precisava superá-lo, antes que isso se tornasse insustentável; para nós dois. No mesmo momento ele parou de escrever e me encarou com a sobrancelha levantada, surpreso com minha ousadia. – Apenas me libere de uma vez... – Pedi cansada de trocarmos farpas, sentindo falta dos dias em que convivíamos bem, sem tensões ou arrependimentos de atos errados.
—Preciso pensar em uma solução para esses enjoos antes. – Severo voltou a escrever. – O certo seria cortar as poções por hora, mas se pararmos agora com o tratamento seus ruins podem entrar em falência. – Seu tom era levemente angustiado, ele não me encarava, talvez tentando não me assustar, essa ideia quase me fazia rir.
Eu deveria me sentir preocupada de saber que meus rins falhariam, mas já tinha necrose em parte dos pulmões, agora o estomago corrido, ossos quebrados, mais de setenta por cento do meu corpo já tinha sido queimado, eu não me abalaria, não mais, morrer não era uma ideia ruim afinal; as dores que o corpo senti não eram nada comparadas as dores que o coração já havia sofrido.
—Vou conversar com Pomfrey, mas acredito que vamos ter que trocar as poções de via oral por injetáveis, seu estomago já está danificado e está recebendo a muito tempo remédios pesados. – Explicou ele ainda anotando. Gemi fechando os olhos. Agulhas! Quando os abri encontrei Severo me encarando com graça. – Tem medo de agulhas, senhorita Kimmel?
Senti meu rosto ruborescer, mas tentei disfarçar ao desviar os olhos. – Vamos experimentar espetar seu braço a cada oito horas para ver se você vai gostar. – Minha intenção era causar-lhe irritação, mas isso pareceu o divertir ainda mais.
—Bom, as aplicações sempre podem ser feitas em uma parte mais... Carnuda da anatomia, se preferir. – Seu tom era divertido, seus braços estavam agora cruzados e o corpo apoiado na mesa, observando com um sorriso irônico no rosto.
Gemi irritada. Era a primeira verificação médica e eu já me sentia quase arrependida de ter concordado com aquilo. – Muito engraçado. – Falei irritada e juntei minhas coisas. – Eu já vou indo, ou vou perder o café da manhã. – Comecei a me afastar quando sua voz me parou.
—Suas refeições serão todas na mesa dos professores até que esteja liberada da dieta. – Parei sem me virar. Era brincadeira, certo? – Conversei com Dumbledore sobre a importância de manter um olhar atento sobre suas refeições e ele concordou comigo.
Fechei os olhos brevemente e suspirei. Eu tentando me afastar dele enquanto ele insistia em me perseguir. – Cretino. - Sussurrei saindo, sem ficar para ver se ele havia escutado e responderia a meu xingamento.
Sai da sala me sentindo mais leve no momento que deixei de ver o professor Snape, suspirei sentindo-me cansada. Como eu desejava que nada daquilo tivesse acontecido. Agora apenas olhá-lo causava-me tantas emoções que era quase sufocante.
Eu queria amá-lo, beijá-lo, assim como eu queria bater nele, odiá-lo.
Seriam logos dias...
Caminhei devagar para o Grande Salão no caminho vi poucos alunos, o que foi bom, ao adentrar o local fui logo abordada por Draco que correu a meu encontro.
—Kimmel! – Gemi internamente, definitivamente seriam logos dias. – É bom vê-la de novo por aqui! – Ele sorriu quando finalmente estava próximo.
Sorri brevemente. – É bom estar de volta.
—Venha, vamos tomar café! – Ele me envolveu em um meio abraço. – Temos muito o que conversar, teremos nossa primeira partida de quadribol daqui a duas semanas!
—Na verdade Draco, - Me desvencilhei de seu abraço, sem saber ao certo o que diria. – Preciso comer na mesa dos professores de novo, por um tempo.
Ele parou de me andar e me encarou. – Está de castigo, hã? – Brincou ele, mas encarou meu pulso sugestivamente, fazendo-me segurá-lo sem graça.
—Pois é... – Respondi desconcertada.
Ele novamente voltou a me envolver em um meio abraço caminhando agora rumo a mesa dos professores comigo. – Preciso dizer que fico mais tranquilo, sei que deve estar difícil para você agora, mas o professor Snape realmente vai te ajudar, ele me ajudou muito. Me ajuda até hoje. – Encarei-o confusa. – Meus pais estão em Azkaban, ele tem cuidado de mim desde então. – Explicou ele com um sorriso de canto.
Levantei as sobrancelhas surpresa, por essa definitivamente eu não esperava. Severo estava terminando de criar Draco? Tentei puxar na minha memoria qualquer demonstração de afeto que tenha visto entre os dois, mas sem sucesso. Sempre me pareceram apenas professor e aluno. Claro, professor diretor da Sonserina e aluno da Sonserina, vez que o tratamento dos sonserinos era de longe desigual em relação as demais casas.
Draco não pareceu perceber minha surpresa, ou se percebeu, nada comentou. – Ele é muito rígido, mas depois de um tempo você se acostuma. – Ele fez uma breve pausa e continuou divagando. – Pelo menos é alguém que realmente se importa cuidado de verdade de você. – Deu de ombros por fim.
Senti-me tonta quando cheguei a mesa dos professores e Draco se afastou, prometendo me encontrar mais tarde para falarmos do jogo de quadribol. Severo cuidava de Draco? Ele não me parecia o tipo de pessoa caridosa disposta a cuidar dos órfãos..., mas... Ele também sempre se mostrou preocupado com questões que ninguém nunca se preocupou. "Dumbledore pode ser condescendente com isso, mas eu não serei. Não vou assistir sentado a você brincar com a própria sorte. Nem que eu tenha que todos os dias verificar e curar seus pulsos." Lembrei-me dele jurando zelar por mim quando estávamos em minha casa no Brasil a tempo atrás.
Meu coração se aqueceu.
Ele era o homem mais honrado e correto que já conheci.
Senti minhas bochechas corarem. Deus, como eu o amava. Lilian Potter fora uma tola por ter desprezado esse homem.
Meus pensamentos foram interrompidos quando senti mãos delicadas taparem meus olhos. Meu corpo automaticamente ficou tenso, mas então, o cheio inconfundível de rosas invadiu minhas narinas. Só existia uma pessoa com o cheio como aquele...
-Você achou que viveria todas as aventuras em Hogwarts sozinha? – Sua voz doce só serviu para confirmar minhas suspeitas.
Levantei jogando-me em seus braços, meus olhos mareados. Pouco me importava se estávamos na frente de outras pessoas. Era tão bom não me sentir mais sozinha. - Mary!
Ela se assustou a princípio com minha reação emotiva demais, mas logo reagiu, envolvendo-me em um abraço acolhedor, rindo levemente. - Ei, também senti sua falta, Jenny! – Suas mãos afagaram meus cabelos com carinho, fazendo eu me sentir amparada pela primeira vez em muito tempo.
—Você está mesmo aqui! – Falei emocionada, ao me afastar levemente para olhar seu rosto. Ela riu, sua expressão suave.
—É claro que estou! – Respondeu ela paciente; voltei a abraçar. Pelo canto do olho vi tanto Severo quanto Dumbledore, os quais eu nem sabia que haviam chegado, nos observando. Dumbledore feliz e Severo neutro como sempre.
—O que está fazendo aqui? – Indaguei sem conseguir tirar o sorriso do rosto ao me afastar novamente.
—Oras... Eu vim cuidar de você. – Ela explicou com tanta naturalidade como se estivéssemos separadas apenas por horários de aulas diferente e não continentes e mundos diferentes. Ela olhou além de mim e sorriu. – Seu pai foi ao Brasil e me pediu para vir passar alguns dias com você.
Dumbledore? Dumbledore havia feito isso? Busquei no rosto de Mary qualquer indicio de brincadeira, mas só encontrei verdade em suas palavras. Sem conseguir conter a felicidade ou pensar em coerência virei-me para Dumbledore e o abracei.
—Obrigada! Muito, muito, muito obrigada! – Senti o corpo do diretor se surpreender, mas logo retribuir o abraço. – Significa muito para mim, obrigada!
—É tão bom te ver sorrindo de verdade novamente, minha menina! – Dumbledore falou com a voz embargada pela emoção. – Estou feliz que tenha gostado da surpresa!
Só então percebi o que estava fazendo, era a primeira vez na vida que abraçava Dumbledore, envergonhada, me separei. A emoção de ter Mary ali comigo me fez agir impulsiva. Dumbledore não pareceu perceber.
—Nesses primeiros dias você precisa seguir à risca a dieta de Madame Pomfrey... – Dumbledore explicou com um sorriso grandioso no rosto.
—E adivinha quem será sua sombra em todos os cantos para garantir que você siga tudo direitinho? – Mary cantarolou feliz ao me envolver em um meio abraço.
Ri abertamente, feliz, muito feliz por tê-la ali. Toda a carga dos últimos meses se dissipando de meus ombros pela primeira vez. – Ei! Era para você estar feliz e não chorando! – Mary falou bem-humorada ao limpar as lágrimas de meu rosto, as quais eu nem sabia que estava derramando.
Ri novamente e a abracei novamente. – É tão bom te ter aqui Mah!
—É bom estar aqui também. – Declarou ela colocando uma mecha de cabelo atrás de minha orelha. Ela olhou além de mim e sorriu calidamente. – Espero que não se importe de ter mais uma aluna em suas aulas, professor Snape. – Olhei para Severo procurando saber sua reação. – Prometo não causar problemas.
—Será bom ter alguém olhando a senhorita Kimmel enquanto eu cuido dos demais cabeça-ocas. – Seu tom era neutro, enquanto sua cabeça fazia um leve aceno.
—Sentem-se, meninas, sentem-se! – Gesticulou Dumbledore para nós. Obedecemos prontamente. – Quero que se alimentem bem antes de seguirem para a primeira aula.
—Você vai estudar aqui agora? – Perguntei esperançosa, Mary havia começado a picar algumas frutas em uma taça.
—Não, vou ficar apenas alguns dias. – Explicou ela paciente. Senti meu sorriso diminuir, por um momento pensei... – Mas sabe que sempre estou por perto. Você não vai conseguir se livrar de mim. – Ela terminou de picar uma taça cheia de frutas variadas. – Aqui, coma tudo!
Revirei os olhos. – Não sou uma criança de cinco anos! – Reclamei enquanto garfava a primeira fruta. Mary riu abertamente e começou a preparar um pão.
—Considere isso parte do seu castigo por ter assustado a todos nós. – Ela colocou o pão na minha frente. – A menos que o diretor Dumbledore e o professor Snape tenham alguma coisa contra... – Ela os encarou novamente fazendo-me fazer o mesmo.
—Estou perfeitamente confortável com isso. – Declarou Snape quase divertindo-se enquanto comia, o fuzilei com os olhos.
—Também não me incomodo nem um pouco. – Dumbledore declarou feliz; revirei os olhos. Ótimo, algo me dizia que eles me puniriam pelas estribeiras.
Depois do café da manhã e de Mary receber algumas orientações de Snape e Dumbledore seguimos para a primeira aula a qual seria história da magia, com um duplo horário até o horário do almoço seria apenas esta aula; como era uma aula teórica, realmente não houve grande diferença para mim, vez que eu não podia usar magia, o mais emocionante da aula foi ver os alunos agitados e curiosos pela presença de Mah, embora ela usasse roupas pretas e capa preta, tentando se passar o mais neutra possível, era visível que não era dali.
Na hora do almoço, Mah e eu seguimos para a sala de Severo para a nova verificação e como esperado, ele já havia conversado com Madame Pomfrey e decidiram trocar os medicamentos para injetáveis, para o deleite de Snape e compaixão de Mah. Ele me verificou rapidamente e pediu que eu continuasse com os medicamentos apenas mais uma dose e a noite ele me entregaria os novos para substituí-los.
Almoçamos no Grande Salão sobre os olhares atentos dos professores e curiosos dos alunos, mas pouco me importei. Não conseguia parar de perguntar a Mary sobre como andavam as coisas no Brasil e ela pacientemente me respondia tudo enquanto colocava cada vez mais comida na minha frente.
Antes de seguirmos para a tarde de aula de poções, paramos em meu dormitório para que eu tomasse as doses das poções e novamente os enjoos me atingiram. Mary segurou meu cabelo e me ajudou quando finalmente parei de vomitar.
—Definitivamente, seu estomago não aguenta mais medicamentos novos. – Mah falou com pesar enquanto limpava o suor de minha testa com um pano úmido trazendo-me uma sensação boa. – Talvez devêssemos pular as aulas da tarde. – Sua voz era preocupada. Neguei com a cabeça.
—Estou bem. – Mah riu fracamente e me estendeu um copo de água.
—Isso tudo é desespero para ver o professor Snape de novo? – Seu tom malicioso se desfez no momento em que meu rosto assumiu uma careta. – Oh-ouw... O que houve?
Neguei com a cabeça forçando meus sentimentos a não se deixarem levar, eu realmente queria conversar com Mary sobre Severo, mas agora não era a hora, não queria me atrasar para a aula. – Eu passei três semanas na enfermaria, não quero A mais faltar a aula nenhuma, mesmo elas sendo repetitivas.
Mary ficou uns minutos em silêncio, refletindo até que decidiu não insistir e me estendeu a mão para levantar. – Venha, vamos levar esse rosto e essa boca seguir para as masmorras então.
Na aula de poções, me sentei na mesa em frete a de Severo, conhecidência ou não, era a única mesa vaga quando chegamos. Próxima a minha mesa, havia uma cadeira confortável a qual com certeza não estava ali na última vez que assisti a poções; Mary sem dizer nada se acomodou ali, me assistindo de longe ao mesmo tempo que estava perto o suficiente.
No início da aula, Severo instruiu todos os alunos a preparem uma poção, quando todos já haviam começado seus preparos ele se aproximou me estendendo um livro. – Quero que leia todo o capítulo vinte e quarto e vinte e cinco deste livro e depois faça um resumo de no mínimo trinta centímetros sobre eles. – Seu tom era neutro, mas seus olhos estava com um brilho estranho, preocupado? Eu não sabia dizer.
Logo ele se afastou de minha mesa e se aproximou de Mary, os dois conversaram baixo por alguns instantes enquanto Mah me observava pelo canto do olho e Severo fazendo algumas expressões sérias.
Senti-me estranha com os dois visivelmente falando sobro mim, mas tentei ignorar e começar a leitura, não consegui chegar no fim da primeira página quando os dois se aproximaram da minha mesa. Encarei-os aturdida.
—Esta dispensada, senhorita Kimmel. – Severo declarou. – Quero este resumo em minha mesa para a próxima aula.
—O que... ? – Perguntei aturdida. Mah já juntava meu material.
—Vamos Jen... – Ela me puxou pelo braço me ajudando a levantar.
—Por quê? – Indaguei ainda confusa quando já estavamos deixando a sala. Mesmo sem olhar eu podia sentir os olhos de Severo nos acompanhando.
—Eu disse a Snape que você havia vomitado novamente e ele achou prudente te deixar descansando esta tarde, - Explicou ela quando já andavamos de novo para meu quarto. – Ele vai trazer os novos medicamentos no início da noite.
—Mas... – Tentei argumentar, mas Mary me calou envolvendo-me em um meio abraço enquanto caminhavamos.
—Ora Jen, vai dizer que esta decepcionada por ser liberada de uma aula repetitiva de poções para passar a tarde conversando comigo? – Seu tom era bem-humorado, mas seus olhos eram preocupados. – Assim você vai ter tempo de sobra para me contar o que houve entre você e Snape.
Senti meu estomago embrulhar e dessa vez eu sabia que não tinha nada a ver com os remédios. Uma parte de mim queria tanto desabafar, conversar com Mary, contar-lhe tudo e ouvir seus conselhos sábios que sempre me ajudaram, mas a outra parte tinha tanto medo de fraquejar novamente.
Parecia que tudo que envolvia Severo Snape era demasiado difícil para mim.
—Ei... Calma. – Ouvi a voz de Mah pedir carinhosa enquanto suas mãos tocavam minha face, limpado as lágrimas que começaram a cair. Então, antes mesmo de chegarmos à meus aposentos eu a abracei, deixando-me chorar em seu ombro.
Todo o peso, toda a dor, toda a carga que senti nesses últimos dois meses finalmente deixando meu corpo através daquelas lágrimas. Mah me abraçou protetora, suas mãos afagaram meus cabeços e de seus lábios palavras doces sairam, sem que eu nem mesmo conseguisse assimilar quais eram.
Não sei dizer como Mary havia feito isso, mas quando dei por mim, já estavamos dentro de meu quarto, ela estava deitando-me na cama, apoiando minha cabeça em seu colo sem se preocupar com o quão enxarcadas estavam suas vestes.
—Você pode me contar Jen. – Sussurrou ela carinhosa enquanto afagava meus cabelos em um cafuné muito similar ao que minha mãe fazia quando era viva. Isso só fez meu choro intensificar. – Sabe que sempre vai poder confiar em mim. Eu sempre vou estar aqui.
Então eu lhe contei.
Contei tudo que havia acontecido com Severo e eu desde que deixamos o Brasil naquele feriado. Mesmo em meio as lágrimas e aos soluços desmedidos, Mary nunca me interrompeu; ouviu toda a história com atenção, sem nunca deixar de fazer aquele cafuné em meus cabelos.
Não tenho certeza por quanto tempo falei, ou mesmo se havia falado demais, mas uma vez que comecei eu não consegui parar, sem pensar se aquilo poderia trazer alguma consequência para mim ou para Severo. Eu apenas me sentia mais leve a cada novo episódio contado.
Mah ficou visivelmente surpresa quando lhe contei sobre nosso beijo e sobre nossa noite de amor; senti seu corpo ficar tenso ao ouvir sobre a rejeição de Severo e um suspiro escapou de seus lábios quando contei sobre seu amor por Lilian Potter, mas isso foi tudo que ela demonstrou.
—Ele concordou em estabelecer um relacionamento com Harry Potter? – Indagou ela surpresa quando terminei de contar, as lágrimas jorrando livremente.
—Ele disse que tentaria. – Repeti em meio a um soluço. – Ele é um homem tão incrível Mah, em todos os aspectos. – Funguei o nariz em meio a um novo soluço. – A melhor pessoa que já conheci e... Eu não posso tê-lo! – O choro novamente se intensificou. Meu peito doia tanto. – Por que doi tanto Mah? – Indaguei agarrando-me com mais força as suas vestes.
—Ah querida... – Seu tom era materno e paciente. Suas mãos intensificando os carinhos em meus cabelos. – Doi porque você o ama... E preciso te dizer que quando amamos alguém, sempre vai doer. – Soltei um soluço mais sofrido ao ouvir aquilo. – Shh.. Sempre que nos importamos de verdade com alguém vai doer Jen, independente de serem amigos, irmãos, namorados ou qualquer outro envolvimento. Ver a outra pessoa sofrer sempre vai ser doloroso.
Era tão bom ser acolhida por Mah, era bom por pra fora toda aquela dor que guardei por tanto tempo. Era bom ter minha amiga ali. – Por que eu tinha que me apaixonar por ele? Por quê?
—Não escolhemos quem amamos, querida, apenas aceitamos esse sentimento e vivemos ele intensamente. – Sua voz era suave e reconfortante.
—E quando não podemos viver esse amor? – Indaguei sentindo o choro aumentar novamente.
—Shh... Quando não podemos realmente viver o amor, o coração entende e conforma, segue em frente. – Mah beijou minha testa e retornou o carinho. – Mas esse não é o seu caso, querida.
Levantei-me bruscamente olhando-a desesperada. – Como não? Ele ama Lilian! Ele não me quer!
—Sim, ele ama Lilian, mas Lilian não esta mais aqui a muito tempo, ele ama apenas uma lembrança, seu coração esta conformado, pronto para seguir em frente, ele só não percebeu isso ainda. – Ela acariciou meu rosto sorrindo docemente. – E ele te quer Jen, e muito! Tenho certeza disso! Caso contrário ele não teria lhe beijado ou se deitado com você! Ele só esta confuso, tudo isso é muito pra ele, vai contra boa parte de seus valores e ideologias, sem contar que ele, como você mesma disse, não se acha digno de nada, quem dirá de uma mulher linda e encantadora como você.
—Eu não posso vencer Lilian, Mah! – Rebati asperada, como ela não podia ver que não havia como fazê-lo esquecer Lilian e se apaixonar por mim?
Mah segurou meus ombros com firmeza. – Você não percebe Jen? Você não tem que vencer Lilian, você não tem que fazer absolutamente nada! Lilian é apenas uma lembrança, não existe competição alguma aqui, Jen! Você só precisa conquistar Snape!
—Eu não sei como! – Respondi desesperada, Mary achava que eu não havia tentado? Deus sabe como eu tentei seduzir esse homem e nada havia conseguido além de um coração partido.
—Sim você sabe! – Mah retrucou séria, a mudança de atitude foi tão repentina que fez meu choro e desespero cortarem instantaneamente, deixando apenas alguns soluços comedidos. – Você é mestre na arte de seduzir, você sempre teve todos os homens e mulheres a seus pés, o que te deu? Você sabe perfeitamente como seduzí-lo, e vai fazer isso!
Fiz uma careta, não era simples assim. - Ele não é como os homens que conhecemos, Mah. Não se abala fácil.
—Ah tá. – Mah desdenhou. – Até parece. – Fiz menção de rebater, mas ela me impediu. – Você sabia que quando você atraiu aqueles comensais no bar com aquele show de sensualidade, Severo quase te atacou? – Minhas sobrancelhas arquearam em surpresa. – Tivemos que literalmente segurá-lo para ele não ir até você. Parecia um cãozinho no cio. – Ela rio abertamente fazendo-me ruborizar.
Será verdade? Severo havia ficado mexido comigo naquele dia? Foi bem antes de qualquer envolvimento nosso. Mas... Mary não tinha porque mentir para mim, certo?
—E se ele me ridicularizar? – Indaguei constrangida. Eu não suportaria novas rejeições.
Mary revirou os olhos. – Ora vamos, não estou falando para você se atirar nos braços dele, sabe bem que os homens não gostam disso, eles gostam da conquista. – Ela riu. – Deixe-o louco, provóque-o, esnóbe-o. Faça ele perder completamente a sanidade como só você sabe fazer. - Mary sorriu. – Lembre-se que ele só voltou a perseguir e te cercar quando você o mandou se afastar. – Ela piscou sapeca.
Ponderei, Mary tinha razão nesse ponto. Severo só havia falado comigo quando decidi esquecê-lo. Será que conseguiria conquista-lo? E se não conseguisse?
—Pegue seu homem pra você, mulher! – Mary me chacoalhou levemente pelos ombros, divertida agora. – Lembre-se, não existe disputa entre você e Lilian, ela é só uma lembrança, você é real. - Ela fez uma pausa. - Ela é passado, você é presente e se realmente quiser ele, será futuro também. Sorri contida, Mah era realmente incrível.
Bom dia queridos!
Espero que tenham gostado do capítulo, vai ter capítulo duplo!
Beijos,
Marry Black.*
