Você me ajuda?
Uma multidão de feridos.
Rios de sangue a escorrer pelo chão. Todos a gritar, a estender suas mãos, a pedir ajuda.
E Ami não sabia para que lado correr, a quem ajudar em primeiro lugar.
Socorro!
Vozes, centenas delas, pedindo-lhe ajuda.
Quem atender primeiro? Como proceder em meio àquela confusão?
Ela decidiu ajudar uma senhora de idade bem avançada. Enquanto se dirigia a ela, tentando atendê-la, as demais pessoas no chão agarravam-lhe as roupas, choravam e gritavam.
Que lugar é este?
– Sua... Sua mulherzinha maldosa. Não quer nos ajudar! Por que nos deixa de lado?
E as pessoas se levantavam furiosas.
– Esperem! Por favor, eu quero ajudar... Mas...
– Mas é uma fraca que não sabe o que fazer!
Sailor Mercury ficou confusa com aquele diálogo. Na verdade, começou a se sentir tonta, enferma.
– Por favor, parem! Eu preciso pensar.
Pensar, pensar, pensar.
Concentre-se.
– Você precisa sentir! Você não sente. Só calcula. É uma mulherzinha fria! Seu coração é feito de gelo!
– Por que dizem essas coisas? – Perguntou Ami cada vez mais confusa, o sangue da mulher a quem tentara ajudar em suas mãos.
– Porque você precisa ouvir! Porque precisa saber...
Ami tentou se afastar, as lágrimas escorriam por sua face, que se sujou com o sangue que tinha nas mãos.
– Você é fraca! Não pode ajudar ninguém. Mas isso pode mudar. Pode ser forte e decidida! Se esquecer daquela princesa estúpida, nunca mais ficará numa situação dessas.
– O quê?
– Aceite Nyx como sua senhora e terá como ajudar a todos.
– Não vejo como Nyx vai permitir que eu ajude as pessoas.
Aquelas criaturas se agarravam a Ami, todas a se lamentarem, a gemerem.
– Você pode ser uma guerreira forte, confiante! Ao contrário do que é hoje, uma fraca, que não honra o uniforme de sailor que veste!
– Isso não é verdade!
– Você sabe que é!
Por que me sinto tão confusa?
Enquanto a criatura que falava segurava a cabeça de Ami, outra adentrava as mãos em seu peito. Ela gritou de dor.
– É verdade que existe um coração dentro desse peito? É difícil de acreditar! É mecânica, é calculista... É perfeita para servir a Nyx!
Meu amor pelos estudos...
– Meu amor pelo conhecimento não me deixa cega! Eu amo meus amigos e jamais os trairia!
E uma aura azulada envolveu Sailor Mercury.
A luz que irradiava de si era cálida e brilhante.
Uma fina chuva caía e lavava o sangue que se agarrara a seu corpo.
E viu as criaturas desaparecendo uma a uma, sem gemidos ou lamentações.
Quando tudo terminou, só havia ela naquele local. Nenhuma voz mais perturbava sua mente.
Meus amigos... Quero muito voltar pra vocês.
Seu corpo agora pesava. Os olhos teimavam por fechar. Primeiro caiu de joelhos, depois deitada...
Eu não gostaria de ficar presa aqui.
Meus amigos... Eu quero encontrar vocês.
Os olhos se fecharam.
E adormeceu.
Cinzas.
O local parecia um cenário de destruição.
Vida que se convertera em morte.
Sailor Saturno caminhava sem saber em que direção seguir. Tudo à sua volta lhe trazia um gosto amargo, a lembrança do que seus poderes significavam, de quem ela poderia vir a ser.
Uma criança se aproximou dela.
– Me ajude, por favor.
Ela dirigiu um olhar de piedade àquela misteriosa criaturinha.
– O que você está fazendo aqui?
– Estou perdida! – Dizia a menina, que de alguma forma lhe lembrava Rini.
– Não se preocupe. Eu vou ajudar você.
E, mesmo diante daquele cenário tão hostil, Sailor Saturno sorria ao andar de mãos dadas com aquela menina; a sensação de estar ajudando alguém aquecendo-lhe o coração.
O que Nyx pretende?
Uma saída, preciso encontrar uma saída.
E continuava a andar com a menina na mão, sem saber ao certo para onde seguir. E não se deu conta quando a face angelical da criança ganhou contornos diabólicos.
Somente quando ela se agarrou a si e lhe mordeu os braço, percebeu a metamorfose que se operou naquela criatura.
– O que significa isso? – Perguntou enquanto atirava a criatura para longe, o sangue escorrendo por seus braços.
– Não há bondade. Há somente morte e destruição!
E a criança foi tragada pela terra, deixando Sailor Saturno ferida.
E novamente sozinha.
Ela continuava sua caminhada, o sangue escorrendo pelos braços.
Não há bondade. Há somente morte e destruição.
...
Isso é mentira! Há amor e amizade no mundo.
... E em meu coração.
Seus pensamentos foram interrompidos por um grito de socorro. Logo à frente, um senhor estava caído no chão. Seu primeiro instinto foi o de passar direto por ele, mas não conseguiu. Tinha de o ajudar.
– Senhor, o que posso fazer para lhe ajudar?
– Minha filha, que alma generosa a sua! Ajude este pobre homem a se levantar.
E Sailor Saturno o apoiou em seus ombros a fim de buscar uma saída para os dois.
No entanto, aquele homem trazia um estranho sorriso nos lábios e um maligno brilho nos olhos. Quando a sailor percebeu isso, já era tarde. Ele investiu contra ela, desferindo-lhe um choque elétrico com as mãos.
Diante do olhar perplexo e assustado de Saturno, o homem se transformou em cinzas, não sem antes dizer:
Não se pode confiar em ninguém!
Não há amor, nem justiça na Terra.
Extremamente confusa, ela continuava a andar...
... rumo a lugar nenhum.
Ela procurava desenfreadamente por uma saída, quando começou a ouvir o choro de uma pessoa.
Ela decidiu ignorar aquele barulho e seguir sua caminhada. Porém, quanto mais andava, mais fortemente aquele choro ecoava em sua mente, até que se deparou com a imagem de uma mulher que sangrava muito.
– Por favor, me ajude. Não me deixe aqui!
A sailor olhou para o ferimento da mulher e, em seguida, olhou para o próprio sangue que ainda escorria de seu braço e decidiu seguir em frente.
Porém, não conseguia esquecer aquela figura e resolveu voltar atrás.
– Tudo bem, eu ajudo você – Disse com um quê de medo no olhar.
A mulher se agarrou nela, o sangue das duas se misturando.
– Por que ainda acredita, guerreira? Não vê que só há maldade nos corações?
Sailor Saturno se libertou rapidamente daquele abraço que se tornou opressor e caiu de joelhos no chão.
– Minha cara, você é a guardiã da destruição. Como pode insistir em ser algo que você não é? Ajudar? Não entende? A palavra é destruir!
– Isso não é verdade! Eu acredito nas pessoas!
– Não seja tão tola! Não seja fraca! Junte-se a Nyx...
– Me deixe em paz!
E Hotaru correu a toda velocidade, enquanto aquela mulher, antes de aspecto tão frágil e sensível, parecia deslizar sobre o chão, alcançando-lhe rapidamente.
– Saia da minha frente! – Gritou a sailor.
– Não! O que vai fazer a respeito?
Hotaru ergueu sua lança:
– Silence...
Mas interrompeu o ataque diante do sorriso maléfico de aprovação de sua oponente.
Não. Não posso fazer isso.
– Continue, guerreira. Mostre seu lado furioso. Não há amor, há somente destruição.
– Você está errada! – Disse, jogando sua lança no chão.
"Eu perdoo vocês", prosseguiu, "Eu perdoo por todo o mal que me fizeram"!
Uma luz começou a irradiar de dentro da mulher que se opunha à sailor.
Era o brilho da bondade que havia dentro de Hotaru, brilho que estava a eliminar aquela semente maligna que tentava se embrenhar na alma da guerreira.
Há amor e justiça nesse mundo, pensava em enquanto via aquela criatura se desfazer na luz.
E também nesse meu coração.
Sailor Saturno sorria. Pegou sua lança e continuou andar.
– Vou encontrar vocês. E, juntas, sairemos daqui, minhas amigas!
