Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/T: Que jeito melhor de agradecer do que com uma atualização no meio da semana? Esse capítulo é um oferecimento de Litha-chan com cara de gato de botas! XD Eu sempre agradeço os seus comentários de coração, então o mínimo que posso fazer é dedicar mais um capítulo dessa nossa fic querida para tu (resposta do comentário no fim).


Capítulo trinta e cinco: Reunião

Campo de treinamento

Quando chegou quarta-feira, Duo atormentara tanto a doutora Po que ela jogou as mãos para cima e chamou o Capitão para colocar juízo na cabeça do rapaz.

Duo sentava-se na cama da enfermaria, batucando os dedos inquietamente no colchão.

"A doutora me disse que você quer sair," Wufei falou calmo, analisando o humor do garoto.

"É isso aí," Duo confirmou.

"Acha que está pronto para voltar para o time?"

"Acho... por que não?" havia um tom de desafio em sua voz.

"Por que não?" Wufei ecoou. "Você mal se recuperou de seus ferimentos. Mais alguns dias na enfermaria te farão bem."

"Ficar de bobeira na cama olhando pro teto não está me ajudando em nada," Duo discordou.

"Também não vai ajudar abusar da sua condição."

Duo pareceu perplexo. "Não estou planejando correr uma maratona," explicou tranquilamente. "Vou maneirar." Esticou os braços e as pernas experimentalmente. "Viu, Wuffers? Tudo no lugar funcionando. Estou bem."

Wuffers? WUFFERS?! Oras... o deslize do apelido pode ser repreendido mais tarde. Primeiro, tem a questão da saúde dele.

"Fisicamente, sim."

Os olhos índigo se semicerraram. "O que quer dizer?"

Wufei suspirou, forçando-se a manter contato visual. "Você foi estuprado, Maxwell," constatou. "Esse tipo de incidente tem impacto psicológico, queira você admitir ou não."

Duo contorceu o rosto numa expressão de poucos amigos. "Achei que informações médicas fossem confidenciais."

"A doutora não precisou me contar."

"Então como sabe?"

"Não sou burro," o chinês respondeu. "Pude ver pelo seu estado quando fui até a solitária. E conheço a mentalidade desses brutos." Abaixou a cabeça, inspecionando suas unhas casualmente. "Além do mais, conseguia a confissão do monstro que fez isso... com um pouco de incentivo."

O queixo do rapaz de trança caiu. "Qu...? Mas como?"

Chang abanou a mão, num gesto para deixar o assunto para lá, tentando não parecer tão orgulhoso de si mesmo. Não só espremera a confissão do guarda, pessoalmente assinara a ordem para levá-lo a uma prisão de segurança máxima até o julgamento. "Não é importante, Maxwell. O seu estado mental é."

"Só porque você quer que eu ajude o seu 'menino de ouro' a entrar nessa maldita Academia."

"Não, porque quero que vocês dois entrem," Wufei rebateu com franqueza.

A cabeça de Duo se ergueu, sua expressão era de descrença.

"É sério," o Capitão reiterou. "No início, só me importava com o Yuy... mas vi em você e nos outros membros do time as mesmas qualidades que vejo nele. Quero que você tenha sucesso. Por você mesmo."

O rapaz de L2 abaixou a cabeça, sua casca de indiferença se rachando. "Não sei porque você iria querer um fracassado como eu na sua Academia," murmurou desanimado.

"Você não é um fracassado, Maxwell. E nada do que aconteceu não foi sua culpa." Wufei sentou-se na cama ao lado dele. "Quero que você converse com o psicólogo antes de voltar para o alojamento. Você gosta de bancar o durão e pode até achar que está pronto para enfrentar os outros recrutas, mas vai ser difícil, principalmente no início."

"Tudo mundo já sabe?" Duo perguntou temeroso.

"Guardas fofocam... adolescentes nem se fala... acho que o boato já se espalhou para algumas pessoas."

"Merda." O rapaz suspirou, levemente irritado. "Não quero pena de ninguém," grunhiu. "É por isso que fiquei de boca fechada sobre o que aconteceu." Um sorriso irônico surgiu em seus lábios. "Pela primeira vez na vida eu calei a boca. Grande bosta..."

"Se Heero e os outros dois souberem, não vão sentir pena de você, vão te apoiar," Wufei o assegurou. "Quanto ao resto, bem, você pode ter que aguentar algumas provocações... algumas podem ser bem cruéis. Acha que está pronto para isso? Se fosse eu, conversaria com o psicólogo primeiro. Resolva seus problemas e então estará melhor preparado para lidar com os outros."

"Se eu falar com o psicólogo, posso ir para o alojamento depois?"

"Se ainda quiser, pode."

"Promete?"

"Juro pela minha honra," Wufei falou seriamente.

Duo respirou fundo. "Tudo bem. Faremos do seu jeito. Vou fazer uma visita ao psicólogo."

"Achei que fosse," Chang sorriu. "Ele está te esperando. Vamos."

O rapaz de trança se levantou e se alongou, esfregando os olhos, depois seguiu o Capitão para fora da enfermaria. Enquanto andavam lado a lado, virou-se para o militar curioso. "Que tipo de incentivo precisou para conseguir a confissão?"

"Um bem..." o chinês estalou os dedos de uma mão, "convincente," concluiu convencido.

"Ótimo."

Um sorriso apareceu no rosto de Wufei. Preferira não contar para Duo que o guarda infeliz estava agora entre presidiários que poderiam muito bem se lembrar dele, afinal, ele fora um veterano já no ramo há vinte anos. Sem contar que ser preso por estupro não era bem visto nem mesmo entre bandidos. Se tudo fosse de acordo com o que o Capitão previa, o guarda descobriria em primeira mão como era ser brutalizado da mesma forma que Duo fora.

"Qual a razão do sorriso?" o recruta perguntou.

"Nada não." Wufei percebeu o sol brilhando pelas janelas no corredor. "É um belo dia," comentou amenamente... um belo dia para a justiça ser feita.


Duo estava aliviado em descobrir que os outros estavam na calistenia quando chegou ao alojamento. Não que não estivesse feliz em estar de volta, mas não estava pronto para encará-los. Como Wufei havia dito, fofoca se espalha como fogo em rastro de pólvora e era bem possível que eles já soubessem o que havia acontecido realmente. Falara a verdade para o Capitão quanto a não querer pena nem tratamento especial. Estava ansioso em deixar todas essas lembranças desagradáveis para trás.

Já que tinha o dia livre até o jantar, pegou as cartas da Hilde e do Howard que chegaram enquanto ele estava preso e se estirou em sua cama para lê-las, acreditando que seria o melhor modo de se manter ocupado. E estava certo.

Quando Quatre entrou algumas horas depois, Duo ainda estava concentrado em sua leitura.

"Duo! Você voltou!" Quatre correu até o amigo com um grande sorriso no rosto delicado. "Nossa, senti tanto a sua falta!"

"Não foram nem cinco dias, Quat," Duo sorriu de volta, inclinando-se para bagunçar o cabelo loiro. Cinco dias que pareceram cinco eternidades... do rio para a solitária para a enfermaria... essa porcaria de alojamento parece até lar doce lar.

Quatre afastou a mão na sua cabeça. "Nem pense nisso, você não vai escapar tão fácil. Pode tratar de descer aqui e me dar um abraço descente."

Duo obedeceu, deixando o amigo apertá-lo com toda a força que podia. "Não precisa exagerar." Afastou o árabe. "Admita, você não tinha certeza da minha inocência." Seu rosto, com um sorriso brincalhão, não o traia, mas seus olhos continham uma faísca de rancor que não passou despercebido pelo loiro.

"Me desculpa," Quatre falou com a voz fraca. "É verdade, por um segundo, tive dúvidas. Mas só por um segundo. Nem isso, um milésimo! Você mal me deu as costas quando percebi que nunca teria feito aquilo." Encarou o amigo timidamente. "Eu deveria ter dito alguma coisa pra você saber disso antes de te levarem."

Duo abriu um sorriso genuíno. Era impossível duvidar da sinceridade de Quatre. "Águas passadas, meu caro." Abraçou o loiro mais uma vez, batendo em suas costas.

"Maxwell?" uma voz chamou da porta.

Por cima do ombro do loiro, o jovem de trança encontrou Heero recostado no batente de braços cruzados. Trowa estava logo atrás, parecendo contente.

"Cadê o meu abraço?" o líder brincou.

Duo corou fervorosamente e encobriu a vergonha com humor. "Ah, mas olha pra essa carinha fofa de ursinho de pelúcia," apertou as bochechas do loiro. "Não dá pra resistir."

Foi a vez de Quatre corar e ele se desvencilhou dos braços do rapaz de trança. "Garotos não são 'fofos', Duo."

"Eu discordo," o recruta de L2 sorriu. "Eu sou fofo pra caramba." Deu uma piscadela exagerada. "E você também." Heero se aproximou e Duo o observou. "Veio pelo seu abraço? Você não gosta nem de aperto de mão."

"Besta."

"Vou tomar isso como um 'sim'." Duo puxou Heero e o envolveu em seus braços antes que perdesse a coragem. Quando sentiu o líder corresponder, suspirou em contentamento. Era incrível o quão perfeito os dois se encaixavam. E sentir as mãos de Heero acariciando suas costas suavemente o fez querer ficar daquele jeito para sempre.

Trowa limpou a garganta e Duo lhe mostrou a língua. "Com inveja, Barton?"

"Nem um pouco," o acrobata declarou, "se tentar isso em mim, vou quebrar seus braços."

"Ui, machão."

Heero sorriu aliviado por Duo ainda manter suas tiradas e o senso de humor. Afastou o rapaz para contemplar os hematomas já menos visíveis no belo rosto. "Você está melhor," comentou, tentando não soar afável mesmo com a mão ainda pousada no ombro do rapaz na sua frente.

"Não dava pra ficar pior do que estava," Duo deu de ombros, seu contentamento se esvaindo com repentinas memórias de como seu rosto ganhara aquelas marcas.

"Amanhã temos corrida de obstáculos. Acha que dá conta?"

Duo se endireitou com sua melhor pose. "Claro, 01. Você trate de não ficar pra trás." Bateu uma continência.

"Sabia que não ia me decepcionar," Heero murmurou para si mesmo.


Os rapazes se aprontavam para dormir quando ouviram uma batida na porta. Quatre abriu para recepcionar a doutora Po.

"Posso falar com Duo?" ela pediu, encontrando o paciente na cama lendo.

"Claro." Quatre deu um passo para o lado liberando o caminho, deixando-a entrar.

A médica sorriu tentando acalmar a apreensão de Duo. "Não estou aqui para exames, Maxwell. Apenas para fazer uma visita."

Ele ergueu uma sobrancelha, sentando-se no colchão. "Desculpa, doutora, você não faz meu tipo."

Ela rodou os olhos. "Sempre com as piadas. Como está se sentindo, Duo?"

"Estou bem," afirmou sem espaço para dúvidas.

Po se aproximou observando-o atentamente. "Você jantou?"

"Vigiamos enquanto ele comia," Heero revelou. "Sopa, sanduíche, fruta, gelatina e um copo cheio de leite. Trouxemos do refeitório para que ele pudesse continuar descansando."

Duo sorriu para a doutora. "Viu? Estou em boas mãos." Não me importo em estar nas mãos habilidosas de Heero.

"Estou vendo," ela respondeu, notando Quatre rondando e o olhar preocupado de Trowa. "Falei com o doutor G e ele pareceu satisfeito com a sua visita." Afetuosamente afastou a franja do rosto dele para que pudesse ver os olhos índigo. "Se precisar de alguma coisa, algo pra te ajudar a dormir, analgésico ou só conversar, pode ir me ver na enfermaria, de dia ou de noite, Duo. Entendeu?"

"Sim senhora," ele suspirou, tentando não encontrar o olhar dos outros companheiros por vergonha.

A médica se afastou e incluiu os outros recrutas quando falou, "Isso vale para vocês também. Sempre que precisarem de alguma coisa, podem ir à enfermaria. Me acordem se necessário."

Heero abaixou a cabeça em uma rápida reverência de agradecimento. "Vamos cuidar bem dele, senhora. E o levaremos até você se precisar de alguma coisa. Obrigado."

Ela pareceu satisfeita. "Durmam bem, rapazes." Com um último olhar tranquilizador para Duo, ela saiu.

Quatre sorriu maliciosamente quando a porta se fechou. "Olha só quem é o preferido da doutora," provocou.

Duo fez-se convencido. "E com muito orgulho." Seus olhos se arregalaram. "Ei! E o Nanashi? Não era pra ele ter ido embora por esses dias?" Perguntou para Trowa.

O moreno alto assentiu com a cabeça. "A Catherine levou ele no domingo."

"Aw, eu nem me despedi," lamentou. "Ela pode trazer ele nos dias de visita?"

"Não!" Trowa exclamou sem querer. "Foi mal. Mas é melhor ele não voltar, Duo. Kushrenada quase o sacrificou, lembra?"

"É mesmo... é melhor ele ficar longe." O jovem de trança deitou-se novamente, encarando o teto antes de se virar para Trowa. "Ei, Tro, se sairmos daqui, posso ir ver o vira-lata no circo?"

Trowa estremeceu. "Claro, Duo."

"Ele é ótimo cachorro," comentou saudosamente.

O acrobata rangeu os dentes, querendo revelar que era por causa do cachorro que Duo tinha ido para o inferno. Mas não era culpa do Nanashi. Trowa sabia, no fundo, que era culpa dele mesmo por não ter encontrado outra maneira de salvar o cão. Rolou para o outro lado, ficando de frente para a parede. "Boa noite."

Apenas quando estava prestes a cair no sono que Duo percebeu que Trowa passara a chama-lo pelo primeiro nome. Ora, vejam só. Gostei...


Os sons vindos da cama de cima acordaram Heero no meio da noite. Ele não precisou de muito tempo para perceber quem era e o que significava. Levantou-se, checando se Quatre e Trowa ainda dormiam.

"Duo," sussurrou. "Acorda, é só um sonho!"

O jovem de trança se debateu, murmurando incoerências enquanto ofegava.

"Acorda 02," Heero comandou com uma voz um pouco mais alta.

Duo abriu os olhos de repente, inspirando profundamente como se estivesse prestes a gritar. Mas então focou sua atenção em Heero e soltou um gemido descontente. "Que merda..."

"Tudo bem. Respira fundo," o líder o acalmou. Embora seu tom fosse constante e calmo, seus pulsos estavam fechados com força enquanto pensava no que acontecera com o amigo. "Quer que eu acenda a luz?"

"Não," Duo negou rapidamente, virando-se para os outros dois ainda dormindo. "Não acorde eles. Já é vergonhoso demais que te acordei."

Heero relaxou um pouco, a raiva pelo guarda lentamente se esvaindo por hora. "Eu sou o líder. É o meu dever," comentou tentando um sorriso reconfortante.

Duo sorriu de volta, balançando a cabeça. "E Quatre falou que garotos não são fofos," brincou. "Você devia sorrir mais, Yuy."

Heero apenas deu de ombros. "Quer conversar sobre o que te acordou?"

O recruta de cabelos compridos estremeceu. "Você leu o meu relatório médico, não leu?" recriminou o companheiro de time. "Depois de me encher o saco porque eu fucei nos pertences dos outros, mesmo assim você não pensou duas vezes e invadiu a minha privacidade na primeira oportunidade."

"Foi," reconheceu o óbvio.

"Não quero falar sobre isso," sibilou. "Chang me fez falar com um psicólogo antes de eu voltar, então já tive toda a terapia que precisava, muito obrigado!"

"Não estou oferecendo terapia, Maxwell."

"Então o quê?"

"Amizade... um ombro pra se apoiar."

"Não preciso chorar no ombro de ninguém..."

"Eu disse 'apoiar'. Não estou aqui pra te fazer abrir o seu coração. Mas eu sei pelo que você está passando."

Os olhos de Duo se arregalaram e sua boca ficou entreaberta por longos momentos antes de fechá-la de novo e conseguir articular palavras. "Quando?"

"Por boa parte da minha infância," admitiu.

O recruta de L2 engoliu em seco, balançando a cabeça instintivamente. "Eu sinto muito." Torceu o canto da coberta num gesto de nervosismo. "Quem?"

"Meu tutor."

"Que tipo de desgraçado..." Duo controlou sua raiva e balançou a cabeça, como se tentasse apagar a imagem da cabeça, e respirou fundo. "Espero que ele se ferre."

Embora o líder não soubesse se o companheiro estava falando do guarda ou do seu tutor sádico, respondeu de forma neutra. "Ele se ferrou. Está no hospital em coma de tanto apanhar."

Duo considerou por alguns segundos. "Então é por isso que você está aqui. Pra mim, parece autodefesa."

"Depende do ponto de vista."

O jovem de L2 suspirou e bateu no colchão ao seu lado. "Vem cá, vamos conversar."

Heero seguiu a instrução e Duo se afastou para lhe dar espaço, depois jogou a coberta por cima deles e colocou o travesseiro no meio para que ambas as cabeças ficassem confortáveis. Embora ambos estivessem sem camisa com a pele roçando, nenhum dos dois pensava em intimidade física.

"Por que não acha que foi autodefesa?" Duo perguntou baixinho, sabendo que teria que insistir para conseguir respostas.

"Esperei até que ele desmaiasse de bêbado."

"Ah." Os olhos índigo fitaram o teto. "Me conta uma coisa. Quantos quilos a mais que você ele tinha?"

"Pelo menos uns quarenta."

"E por quantos anos ele... abusou de você?" o jovem de trança estremeceu por se aproximar de um assunto tão desconfortável.

"Sete."

"Você não merece estar aqui, Yuy".

Heero desdenhou. "Um júri achou o contrário."

"É, mas aposto que você não contou tudo."

"Não, não contei."

"Por quê?"

"Porque quando percebi o que fiz, tive medo... de mim mesmo," Heero reconheceu com dificuldade. "Eu não sabia que era capaz de tanto ódio... e violência. Foi um crime friamente calculado, Duo. Eu sabia exatamente o que estava fazendo." Ele pausou, criando coragem para o que diria a seguir. "E o que me assustou foi que parte de mim gostou."

A expressão de Duo se tornou curiosa. "Você acha que é errado eu querer ver aquele guarda filho da puta esmurrado e depois empalado? É errado querer encher ele de porrada eu mesmo?"

"Claro que não, Duo! Aquele maldito..." Heero se calou senão não pararia de soltar xingamentos. "Depois do que ele fez, ele merece todo tipo de sofrimento."

"Não te entendo. Se acha meus pensamentos justificados por querer mal àquele cara..." deixou no ar o resto da frase, pois seu ponto estava claro.

"Eu sei o que quer dizer," respondeu, mas não muito convencido.

"E você teve mais razões para odiar o seu tutor." Duo ponderou. "Capitão Chang falou que bateu no guarda até arrancar uma confissão."

Heero sorriu mais uma vez, dessa vez genuinamente. "Wufei é o cara."

"Estou começando a acreditar. Desde quando se conhecem?" Quando viu a expressão desentendida de Heero, ergueu uma sobrancelha. "Fala sério. Está na cara que vocês se conhecem faz tempo."

"Frequentamos a mesma escola... até o colegial. Wufei foi para a academia militar e em dois anos graduou com honras e ganhou um cargo. Ele virou Capitão há pouco tempo, mas não me surpreende o quão rápido ele está sendo promovido."

"Você devia ter ido com ele para a Academia," concluiu.

"Eu não podia ir embora. Tinha outras crianças no prédio em que eu morava... tive medo que ele..."

"Caralho," Duo praguejou, parecendo enjoado. "Yuy... que doideira! Se você tivesse falado com a polícia, eles teriam feito alguma coisa."

"Ele era policial."

O rapaz de trança arfou como se tivesse recebido um soco no estômago. Quando recuperou o fôlego, só conseguiu soltar uma continuidade de palavrões.

"Quer saber o resto?" Heero perguntou, interrompendo o acesso de raiva do outro.

"Não, mas me conta mesmo assim."

"O que finalmente me fez chegar ao limite," Heero começou, a voz geralmente calma estava tensa, "...encontraram uma garotinha do meu prédio morta... estuprada e estrangulada."

"Puta merda."

"É... foi ele. Eu sabia que tinha sido ele." Heero sentiu a garganta comprimir. "Eu tentei contar. Mas ninguém quis acreditar."

A voz do líder falhou na última palavra e Duo jogou os braços ao redor dele, puxando-contra si. "Sinto muito, Heero. De verdade."

Mesmo trêmulo Heero retornou o abraço, fechando os olhos e enterrando o rosto no peito de Duo sentindo a longa trança caída por cima do ombro. "Por que sente muito?"

"Porque... porque..." Duo procurou uma razão, mas não conseguiu encontrar apenas uma. "Sinto muito pelo mundo ser uma merda."

O líder deu uma risada abafada, embora tenha soado como um soluço. "Eu também."

Após a explosão de emoção, ambos estavam exaustos e o calor de outra pessoa de confiança junto com a sensação de segurança dada pela coberta os deixaram sonolentos.

"Heero?"

"Hn?"

"Obrigado."

"Disponha, Duo."

Duo sorriu e, dessa vez, quando caiu no sono, não teve pesadelos.


"Que meigo…" Trowa murmurou zombeteiro.

"Estou com dó de acordá-los..." Quatre opinou.

"É, mas a calistenia..."

"Aw, mas estão tão fofos, como dois filhotes enrolados dormindo..."

"Eu 'tô acordado," um dos filhotes rosnou. "Podem parar com a gracinha."

"Mas Heero não..."

"Estou sim. Eu estava acordado antes das duas criancinhas chegarem." Heero falou ranzinza, virando-se para fulminar os intrusos com um olhar mal-humorado.

"Alguma explicação, Yuy?" Trowa perguntou com um sorriso.

Duo apoiou-se em um cotovelo. "Quer que eu desenhe?" abriu um sorriso malicioso. "Não dá pra ficar mais óbvio do que isso. Eu sou irresistível." Deu uma piscadela brincalhona. "Né não, Yuy?"

Heero parecia tenso, percebendo que ter o corpo seminu de quem ele desejava encostado no seu era incrivelmente erótico.

"Eu falei," Duo reforçou, "né não, Yuy?"

O líder percebeu os olhos índigos mirados nele. "Hn," grunhiu ambiguamente. Para ele próprio, soou como um gemido.

Duo estranhou e então arregalou os olhos em compreensão. "Oh... ah, é, então. É melhor, hum, levantarmos."

Trowa riu em uma rara demonstração de emoção. "Não acha que pulou umas palavras nessa frase, Maxwell?"

"Trowa!" Quatre admoestou fingindo-se horrorizado. "Que mente suja!"

"Olha só quem fala," o moreno alto rebateu.

"Ele te pegou, Quat" Duo interferiu. "Você entendeu do que ele estava falando."

"Você também!"

"Mas eu nunca falei que não era um pervertido, falei?"

"Você..." o loiro balbuciou, por fim jogando as mãos para o alto e dando meia volta para pegar sua toalha e kit-chuveiro. Antes de se virar para a porta, voltou-se para os seus três companheiros de time sorridentes, sem conter um sorriso próprio. "É bom ter você de volta, Duo."

"É bom estar de volta," o jovem de trança concordou. Sem mencionar que estava pressionado contra o corpo sarado de Heero Yuy depois de passarmos à noite agarradinhos. É, a vida parece que está melhorando.

Heero se contorceu inquieto, certo de que se continuasse naquela posição, seria impossível esconder a reação que Duo lhe causava. "Hora do banho."

Duo sorriu para ele. "Admita, Yuy, você está gostando."

Heero rolou repentinamente, quase fazendo Duo despencar para fora da cama, mas, no último segundo, agarrou-o pela cintura, deixando-o pairando na beirada. "Não admito nada, Maxwell. Você tem sorte de estar machucado, senão tinha te deixado cair."

O rapaz de L2 se contorceu até se apoiar seguramente para que o líder pudesse soltá-lo. "Você só late, cachorrinho," falou sarcasticamente. Percebeu que Trowa ainda assistia e voltou para o tom malicioso. "Obrigado por ontem à noite, 01."

Heero grunhiu novamente, escondendo o rosto no travesseiro. "Trowa, pare de pensar o que está pensando e Duo, vai dar cobertura para o Quatre!"

O jovem de trança percebeu que o amigo loiro ainda o esperava na porta. "Ah é. Falou!" Saltou da cama e correu para o banheiro, saindo momentos depois, pegando suas coisas apressadamente e saiu acompanhando Quatre.

"Qual é a do Maxwell?" Trowa perguntou seriamente enquanto Heero descia da cama logo depois da porta ter se fechado. "Pesadelos?"

"É. Mas acho que o pior passou."

"E aposto como, hum, confortá-lo foi um sacrifício para você," falou ainda sério, mas com clara ironia.

O moreno alto foi recompensado com um leve rubor nas faces do líder. "Quatre está certo... você tem uma mente suja, Barton."

"Igualmente." Trowa se encostou contra a parede, toalha no ombro, esperando por Heero para que pudessem continuar com a política interna de nunca deixar um membro do time sozinho.

Continua...


Resposta:

Litha-chan, o nome desse guarda está valendo ouro XD Pena que não chegamos a ver realmente como o Wufei "incentivou" ele a confessar. Eu teria medo do Doutor G como psicólogo... A imagem mental de Quatre com pompons, super feliz, com glitter e flores ao redor gritando "SEJA GAY" não quer mais me abandonar por culpa sua! Heero, escute o poder dos pompons! Mas vamos dar um desconto para os dois tapados que são Heero e Duo nessa fic porque estão passando por um momento bem... delicado. O Trowa está em uma avalanche de escolhas erradas na vida, né? Impressionante, acho que só o seu chicotinho com espinhos dava jeito. Beijos e obrigada sempre pelo apoio, motivação e risadas!