Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling. Essa história também é inspirada em "A Shattered Prophecy", do Project Dark Overlord.

Chapter Thirty Five – Sweet with the Sour

*Agridoce

Harry era um idiota. Pelo menos, era o que dizia a si mesmo. Tinha sido criado com algumas lições, e uma dessas lições era sempre pensar nas consequências de suas ações. Mas, por alguma razão, essa era a única lição na qual sempre falhou. Se tivesse pensado antes de escapar para lutar com seis Daywalkers em Hogsmeade, estaria mais bem preparado para lidar com as consequências, que não foram as lesões, ou o desentendimento com Poppy ou mesmo Damien Potter irritantemente o seguindo novamente, não, não foi nada disso. Foi a reação do restante da escola.

Foi um choque para o rapaz quando muitos alunos se aproximaram dele nos corredores e no Salão Principal, e o felicitaram por ter "lutado heroicamente para salvar o irmão". Aquilo o deixou desnorteado e Harry não gostava da sensação. De modo algum.

- Eles não estão curiosos para saber como eu lutei contra seis Daywalkers? – indagou o jovem enquanto se afastava de um grande grupo de garotas que sorriam e davam risinhos.

- Não – respondeu Damien. – Você passou quase uma semana longe das aulas. A maioria pensa que não lutou tanto.

Harry olhou com raiva para o menino sorridente.

- Idiotas – resmungou ele.

- A maioria acha que levou os aurores para a cabana e eles salvaram todo mundo – explicou Damien.

- Aham – bufou Harry – super acreditável!

Damien deu de ombros.

- É o que todo mundo está falando.

Eles entraram no Salão Principal para o almoço com o mais novo conduzindo o caminho até o final da mesa, onde Ron e Ginny já estavam sentados. Um minúsculo segundanista levantou-se depressa e subiu no banco, levantando a mão e sorrindo para Harry.

"Muito bem, cara!" Ele sorriu.

Harry parou para encará-lo, seu olhar passou ligeiro do rosto sorridente do menino para sua mão erguida, obviamente esperando que ele o cumprimentasse. O garotinho estremeceu.

- Sente-se – disse ele bruscamente.

- Sim, legal! – O menino jogou-se de volta no assento.

Harry virou-se, lançou um olhar de advertência para um Damien sorridente e correu para sentar. Ele sentou-se ao lado de Ginny.

- Qual o problema com todo mundo? – indagou.

- Ah, dê um tempo a eles – respondeu Damien, sentando-se à sua frente. – Todo mundo adora uma boa fofoca, e você é a novidade da semana!

- Quem eu preciso matar para acabar com isso? – perguntou Harry.

Ron e Ginny se engasgaram e olharam assustados para ele.

- Ah, relaxem! – retrucou Harry. – Não estou falando sério! – Ele acrescentou o "ainda" baixinho.

Damien riu enquanto puxava um prato para si.

- Agradeça – disse ele –, pois a maioria dos novatos é observada e apontada, mas nunca é por nada bom. Pelo menos todos estão falando coisas legais sobre você.

- Eu não sou legal – disse Harry –, portanto até mesmo comentários agradáveis me irritam.

- Tudo te irrita – comentou Damien.

Harry o ignorou e olhou em torno da mesa, franzindo o nariz para o cardápio do almoço. Ele estendeu a mão para coçar a cicatriz pinicante. Ela doía e latejava às vezes nos últimos dias. O rapaz se perguntou o que seu pai estava fazendo, mas é claro que não havia como descobrir. Ainda estava pensando sobre o que comer, quando o som sibilante das corujas o distraiu. Ele ergueu o olhar, franzindo a testa.

- Correio? Não vem só no café da manhã? – perguntou.

Mas os demais alunos pareciam subitamente excitados, todos os olhos se voltaram para o rebanho de aves planando acima deles.

- Ah, finalmente chegaram! – exclamou uma garota a dois assentos dele.

- Ah, por favor, que eu receba ao menos um, por favor, que eu receba ao menos um! – implorou outra.

Harry observou as corujas começarem a pousar sobre as mesas. Uma de cor marrom aterrissou bem na sua frente. Ele apenas a fitou, sua mente lhe dizendo que devia ser um engano. Quem o escreveria? Houve um barulho alto quando outra coruja marrom pousou diante dele, derrubando a jarra de suco de abóbora. Harry olhou para as duas corujas à sua frente e ao longo da mesa. Ele viu uma coruja semelhante diante de Damien. Observou o menino desamarrar o pequeno pergaminho da perna da coruja e rapidamente desenrolá-lo, seus olhos grandes e arregalados de excitação. Duas corujas desceram e pousaram perante Ron e Ginny. Harry os viu apanhar ansiosamente seus pergaminhos também.

O rapaz estendeu a mão e pegou o pequeno rolo de pergaminho da perna de uma das corujas e o desenrolou. Seu nome estava, de fato, escrito em letra pequena e alinhada. A carta tinha o selo de Hogwarts. Harry ficou confuso. A carta veio de Hogwarts para Hogwarts? Do que se tratava? Antes que tivesse chance de abri-la, mais quatro corujas voaram em sua direção e pousaram ruidosamente à sua frente.

Harry olhou ao redor do salão, ninguém mais tinha um pequeno exército de corujas lutando para chegar ao seu destinatário. A maioria tinha apenas uma coruja, alguns tinham duas e apenas um pequeno grupo tinha três corujas. Mas ele tinha meia dúzia e todas estavam piando e agitando as penas, tentando chegar mais perto dele para que pudessem entregar os pergaminhos. A algazarra atraiu a atenção dos grifinórios circundantes. Damien sorriu para ele, até Ron lutou para não rir. Ginny, Harry distraidamente notou, se esforçava para não olhar para ele ou para suas corujas. Mais seis corujas pousaram diante dele, lutando para entregar as cartas. As doze corujas se agitavam pela mesa, virando taças e pratos. Uma jarra de suco de abóbora caiu sobre o colo de Harry, fazendo-o se assustar e levantar-se.

- Maldição!

Com um aceno de varinha, suas vestes imediatamente tornaram a secar. Ele olhou para Damien e viu que o menino tinha lágrimas de riso nos olhos. Até Ron ria dele.

- O que foi? – disparou Harry.

- Ora, ora, Harry, você é popular, hein? – Damien riu, antes de ele e Ron se desmancharem em ataques de riso novamente.

- O que significa tudo isso?

- São convites – disse Damien entre risos.

- Convites? Para quê?

- Para o Baile de Natal, o que mais seriam? - respondeu Damien.

Harry sentia-se perdido. Baile de Natal? Convites? Só conseguia se concentrar nas malditas corujas que estavam fazendo todo o salão olhar espantado para ele. Ele estendeu a mão e arrancou grosseiramente os rolos das corujas, para que ao menos pudessem voar para longe e acabar com aquele pesadelo embaraçoso. Após a última coruja decolar, piando continuamente para ele, Harry sentou-se, olhando para os doze pergaminhos com grande desagrado.

- Corujas – sussurrou com raiva –, por que têm que ser malditas corujas?!

- Para ser sincero, não é normal receber tantos convites! – explicou Ron.

- Eu não entendo – disse Harry –, por que fazer dessa maneira? Por que não apenas ir até a pessoa e convidar pessoalmente?

Damien e Ron trocaram um olhar antes de se virarem para encará-lo, e os dois sacudiram a cabeça simultaneamente

- Confie em mim, você não vai querer fazer isso – disse Ron.

- Por que não? – indagou Harry. – Evita essa idiotice.

- Olha, é assim que coisas funcionam para o baile – explicou Damien. – Se tem coragem de chamar alguém diretamente, bom para você. Mas para a maioria, enviar um convite seguro de papel é muito, muito melhor. Não é tão confuso.

- Eu discordo. – Harry fez uma careta ao gesticular para a mesa, onde pratos e taças jaziam destruídos, havia comida derramada e penas de coruja para todo lado.

Damien franziu o nariz.

- Sim, bem, como eu disse... – Seus olhos brilharam para o irmão. - Não é normal.

Harry olhou em volta para os alunos que ainda o encaravam. Alguns tinham sorrisos no rosto enquanto muitos riam de seu evidente embaraço. Outros tinham inveja, clara como o dia, no semblante.

Harry se levantou para sair, não dava para comer nada mesmo agora, a mesa estava uma bagunça. Assim que ficou de pé, ouviu o som de mais pássaros, virou-se e viu mais oito corujas marrons à sua frente.

- Que merda é essa?! – sibilou.

Damien e Ron, dobrando-se em ataques silenciosos do riso, estenderam a mão e arrancaram os pergaminhos, para que Harry não matasse as pobres corujas. Afinal, eram apenas mensageiras. Damien já sabia que a maioria das meninas em Hogwarts gostava dele. Ouvira muitas, muitas fofocas das garotas, falando sobre a aparência do seu irmão, da sua atitude indiferente, e as análises de que a casca dura significava que ele era um ser sensível e doce por dentro. Seu exterior frio, que as garota estupidamente compreendiam como timidez e mistério, significava que ninguém podia chamá-lo pessoalmente para o baile. O menino esperava que ele recebesse algumas corujas, mas aquilo provavelmente quebrou o recorde da escola. Ele silenciosamente prometeu-se jamais deixá-lo em paz com isso.

Assim que a última coruja partiu, Harry jogou a bolsa sobre o ombro e virou-se para sair. Em seguida, Damien pegou os vinte convites enquanto ele saía.

- O que está fazendo? – Harry virou-se para o mais novo. – Dê fim a isso!

- Nem a pau! – Damien riu. – Se não quer saber quem são suas admiradoras, tudo bem. Mas eu preciso ver quem são essas malucas que te convidaram para sair.

Harry apenas o encarou, mas deixou que colocasse todos os convites em sua mochila.

- Quando é esse baile idiota, afinal? – perguntou Harry enquanto se dirigiam às portas.

- Dia vinte de dezembro – respondeu Damien, fechando o zíper da bolsa, – um dia antes das férias de Natal.

Harry não disse nada, mas viu-se rezando. Esperava muito não estar mais em Hogwarts dentro de três semanas.

xxx

A aula após o almoço era Herbologia. Harry ficou para trás, aguardando o restante das garotas animadas, risonhas e que lhe lançavam olhares de admiração passarem, antes de começar lentamente a fazer seu caminho até as portas da frente. Preferia andar sozinho. Até James Potter o seguia de longe desde a última conversa que tiveram.

O rapaz enfiou as mãos nos bolsos ao caminhar, perdido em seus pensamentos sobre escapar daquele lugar e sobre o que aconteceria se não conseguisse. Seus pensamentos mudaram depressa quando reconheceu o homem que estava de guarda nas portas. Ninguém menos que Alastor "Olho-Tonto" Moody.

O auror fortemente marcado sorriu quando Harry chegou mais perto, seu olhar díspar fixo no garoto.

- Boa tarde, Sr. Potter – disse Moody e sorriu.

O jovem passou por ele, as mãos ainda nos bolsos, esforçando-se para ignorá-lo. Mas o auror não facilitou muito as coisas. Ele se virou e seguiu atrás dele.

- Como tem passado? Alguma dor de cabeça recentemente?

- Vá se ferrar – respondeu Harry.

- Não seja assim – insistiu Moody, mancando atrás dele. - Como é que vamos impedir o que seu pai anda planejando, se você não compartilhar?

- Você não teria a mínima chance de impedir meu pai, mesmo que ele estivesse bem na sua frente – replicou Harry.

- É mesmo? – Moody franziu os lábios. – Então, por que ele está se escondendo? Se ele é tão poderoso, por que não vem e nos enfrenta?

Harry parou e virou-se, ao menos para encarar o olhar díspar de frente.

- Por favor, acha que ele está se importando com gente tipo você? – indagou Harry. – Você e sua preciosa Ordem não são nada mais do que moscas irritantes, que serão esmagadas com um simples aceno de mão do meu pai. – Seus olhos se estreitaram e um sorriso apareceu em seus lábios. – E parece que até mesmo seu líder Dumbledore tem você abaixo dele. Colocando-o de cão de guarda, fazendo segurança da porta da frente e tudo mais.

O rosto de Moody contorceu-se de raiva. Seu aperto intensificou sobre a varinha e ele a ergueu para apontar para o garoto. Mas Harry já estava farto de Moody. Seus olhos se estreitaram perigosamente. Com um movimento de seu pulso uma bola de fogo apareceu, pairando sobre a palma de sua mão. Moody parou, os dois olhos na bola de fogo conjurada silenciosamente e sem varinha.

- Vá em frente – sussurrou Harry. – Me dê um motivo!

A contragosto, Moody baixou a varinha. Harry apagou a bola de fogo, mas ambos continuaram se encarando. James finalmente os alcançou, seu olhar desconfiado indo de um para o outro.

- O que está acontecendo? – perguntou, seu tom duro e implacável, olhando para Moody.

O auror não disse nada. Ele se virou e saiu mancando, fazendo Harry se virar e dirigir-se às estufas para sua aula de Herbologia.

xxx

Era hora do jantar, mas Albus Dumbledore permaneceu sentado à sua mesa, a cabeça curvada, pensativo. A carta, que ele já tinha lido dez vezes até então, permanecia aberta sobre a mesa. Olhos azuis conturbados a examinavam novamente, relendo as linhas que o atingiram tão forte, que teve que desviar o olhar.

Houve uma batida na porta antes de ela se abrir para revelar James Potter. O auror entrou com os olhos brilhantes e um sorriso largo.

- Finalmente consegui! – James sorriu, vasculhando o bolso interno de suas vestes e puxando um envelope para fora.

Ele chegou à mesa e o jogou diante de Dumbledore. O diretor o pegou, franzindo a testa.

- O que é isso? – indagou.

- Instruções para a remoção imediata e permanente dos dementadores dos terrenos de Hogwarts – disse James com um sorriso. – Diretamente do ministro – adicionou.

Dumbledore parecia surpreso.

- Como foi que Cornelius concordou com isso? – perguntou o diretor, retirando o pergaminho dobrado do envelope.

- Não foi fácil. – James suspirou. – Mas quando foi que desisti de alguma coisa? – perguntou, com um sorriso insolente, e Dumbledore foi fortemente lembrado do travesso encrenqueiro que outrora fora seu aluno. – Eu o procurei semana passada. Disse a ele que os dementadores tinham atacado Harry quando ele estava sendo supervisionado fora da escola, mas Fudge não estava disposto a recuar. Não me deu ouvidos quando eu disse que os dementadores tinham que ir embora. – O auror se endireitou, uma faísca de orgulho em seus olhos. – Então, naturalmente, agi por trás dele, consegui que a maioria dos membros do conselho escolar assinasse a petição que surgiu misteriosamente e soltei fortes insinuações de que alguém avisaria ao Profeta Diário sobre dementadores em torno da escola e Fudge não teve escolha. Como explicaria a necessidade de dementadores na escola, sem revelar a verdade sobre Harry? Ele cedeu e assinou os papéis da remoção.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto cansado do mais velho.

- Muito bem, James. Tenho que admitir. Você sabe como torcer o braço de alguém.

- Um dom natural. – James balançou a cabeça em aceitação.

Dumbledore largou a carta do ministro.

- Removerei os dementadores imediatamente – disse o bruxo com um aceno. – Será um alívio quando essas criaturas se forem. Mal consegui tolerá-los em torno de minha escola.

- Sei o que quer dizer – concordou James.

Ele não dormira desde o incidente na semana anterior, revivendo o terrível momento em que todas aquelas figuras encapuzadas se puseram sobre Harry. O medo nos olhos de seu filho o assombraria para sempre. Sacudiu a cabeça para clareá-la.

- Harry vai ficar aliviado ao saber que os dementadores se foram.

Pela maneira como Dumbledore falou, soou mais como uma pergunta do que como uma declaração. James fez uma careta.

- Ele não pode saber.

Dumbledore assentiu.

- Imaginei que Cornelius preferisse assim.

- O que importa é que não haverá mais dementadores perto dos meus filhos - disse James. – Tudo bem Harry continuar acreditando que há. – Mas sua expressão mostrava o oposto.

- Talvez não seja uma má ideia ele acreditar que os dementadores ainda estão por aqui – disse Dumbledore. – Vai desencorajar qualquer tentativa de fuga.

James não respondeu, mas sua expressão dizia ao diretor que não estava feliz com aquilo. Dumbledore sentiu a compaixão borbulhar dentro de si. Tinha notícias que fariam o auror se sentir ainda pior.

- Eu também recebi uma carta hoje. – Ele apontou para o pergaminho aberto sobre sua mesa. – Suponho que lembre que escrevi a um amigo, o que eu mencionei ter amplo conhecimento sobre marcas de nascença?

A expressão de James mudou de repente. Ele confirmou com a cabeça.

- Você ia perguntar sobre a cicatriz de Harry.

Dumbledore assentiu, sua expressão solene como de costume.

- Talvez queira se sentar.

James permaneceu de pé.

- O que foi? – questionou o auror, com medo. – O que ele disse?

Dumbledore o encarou, escolhendo as palavras com cuidado.

- Receio que seja o que eu temia – sussurrou o bruxo com um suspiro profundo. – Quando você me procurou pela primeira vez dizendo que Harry tinha uma cicatriz, eu não tinha nada mais do que uma pequena suspeita do que poderia significar. Eu não queria alarmar ninguém, especialmente você e Lily. – Dumbledore fez uma pausa, seu olhar correu de volta para a carta antes de encontrar o rosto pálido de James. – Eu escrevi a Aramous, meu caro amigo, e em quem confio completamente. Queria ter absoluta certeza antes de dizer qualquer coisa...

- Dumbledore – James o interrompeu –, por favor, apenas... apenas fale. O que a cicatriz significa?

Dumbledore encarou os olhos avelãs preocupados.

- Significa que a profecia é, de fato, sobre Harry e Voldemort.

James não esperava isso. Ele parecia confuso.

- Profecia? – O auror sacudiu a cabeça. – Mas nós já sabíamos disso.

Dumbledore assentiu.

- Sim, sabíamos – concordou o bruxo. - No entanto, havia aspectos da profecia que eu não compreendia, que ninguém conseguia entender, mas agora, com a cicatriz, faz sentido.

James foi perdendo a paciência depressa.

- Dá para você explicar? – perguntou, irritado. – Não estou entendendo nada do que está dizendo.

Dumbledore respirou fundo.

- Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima... nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar do sétimo mês... e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece... e um dos dois deverá morrer na mão do outro, pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver... aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar... -Dumbledore sustentou o olhar de James. – A cicatriz na testa de Harry é a marca que Voldemort lhe deu, o que o marca como seu igual.

- Mas... você disse que era uma cicatriz produzida por feitiço – retrucou James.

- E é – disse Dumbledore –, mas não é apenas uma simples cicatriz produzida por feitiço. É uma marca negra, feita pelo próprio Voldemort. Você se lembra de quando Harry chegou aqui? Que ele ficou furioso ao ser colocado na Grifinória? – James assentiu. – Naquele dia ele deixou escapar algo sem perceber. Ele afirmou que pertencia à Sonserina, pois era o herdeiro de Slytherin. Aquilo me pareceu estranho, mas à época minha mente estava ocupada com outras coisas e nunca mais tornei a pensar nisso – desculpou-se. – Ao dar a Harry aquela cicatriz, Voldemort o marcou como o último descendente de Slytherin, como seu herdeiro, seu igual, é por isso que Harry não se curva diante dele, ele fica ao seu lado, porque Voldemort escolheu marcá-lo como seu igual.

A cabeça de James estava girando. Ele sabia, desde o momento em que a profecia foi feita e seu Harry nasceu, que seu filho era a criança que a profecia apontava. Mas vendo o link dessa forma, ter seu filho ligado de tantas maneiras ao seu pior inimigo, fez o auror sentir-se enjoado.

- Você não vê, James? – indagou Dumbledore. – Essa é a razão de Harry possuir uma magia tão excepcional. É por ele vir de duas linhas ancestrais, Gryffindor e Slytherin. Com dezesseis anos, ele tem força e habilidades que superam a maioria dos adultos. Ele tem poderes que se tornarão lendário quando for maior de idade.

James ainda estava se recuperando do fato de seu filho ser a último descendente de Slytherin. Não conseguia compreender como um ser humano podia estar ligado a Gryffindor e Slytherin. As duas linhas ancestrais não poderiam ser mais diferentes.

- Então, se essa cicatriz, marca, ou seja lá o que for... – James acenou irritado com a mão. – Se for simplesmente um sinal de sua herança sonserina, por que dói?

Dumbledore ficou mais solene. Seu rosto empalideceu e ele evitou os olhos de James. O auror sentiu seu coração acelerar de pavor.

- Foi por isso que busquei a ajuda de Aramous. Eu queria a opinião de um especialista. Francamente, queria que ele dissesse que eu estava errado, que minhas suspeitas eram infundadas. – O bruxo sacudiu a cabeça, os olhos fechados. – Mas ele as confirmou.

- Que suspeitas? – questionou James.

- Harry sente dor quando Voldemort está particularmente feliz ou irritado. Ao menos foi isso que confidenciou a Poppy. Ele também disse que a dor era mais forte quando estava fisicamente perto de Voldemort. – O bruxo fez uma pausa por um instante, reunindo coragem. – Cicatrizes produzidas por feitiços causam reações, mas não desse tipo, não a este ponto e a proximidade do causador do feitiço não tem relação com a dor. Aramous confirmou isso.

- O.k. – começou James –, então, por que isso está acontecendo com Harry?

- A profecia diz que Harry e Voldemort não podem coexistir ao mesmo tempo – respondeu Dumbledore calmamente –, "nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver". Harry está sendo enfraquecido. Ele ainda não é maior de idade, então Voldemort é quem domina, o que significa que Harry é quem sofre. Estar perto do ser com o qual ele não pode coexistir o está matando.

Os olhos de James se arregalaram, um ruído abafado de protesto escapou dele e o auror sacudiu a cabeça.

- O que significa isso? – bradou.

- Significa que se Harry não cumprir a profecia, a dor que sente só vai piorar – respondeu Dumbledore em um tom grave, mostrando a tensão que cada palavra lhe causava. – A dor vai continuar crescendo e intensificando até o coração e o corpo de Harry não aguentarem. No fim, se ele não matar Voldemort, a agonia causada pela cicatriz vai matá-lo.

James sentiu suas pernas enfraquecerem de repente. O auror sentou-se lentamente no banco às suas costas, sua mente em chamas com o que ouvira. Ele balançou a cabeça e forçou-se a falar.

- Como podemos consertar isso?

- Não há nada que possamos fazer – respondeu Dumbledore, descontente. – Eu sinto muito, James. Não há como reverter o feitiço que Voldemort lançou. A cicatriz não está apenas no corpo de Harry, está impressa na sua mente e na sua alma. É irreversível.

- Bobagem! – disparou James. – O que quer dizer com "é irreversível"? Nada é irreversível quando se trata de magia! Deve haver alguma coisa! Uma poção, um feitiço, qualquer coisa!

Mas no fundo ele sabia que era impossível. Se houvesse uma solução, Dumbledore teria encontrado.

- Eu verdadeiramente sinto muito, James – disse Dumbledore calmamente, em contraste aos altos gritos do outro. – A única coisa que poderia salvar Harry seria a morte de Voldemort.

James se levantou, incapaz de permanecer sentado. Ele começou a andar diante do diretor, correndo os dedos pelos cabelos bagunçados, tentando desesperadamente conter as lágrimas. "Como aquilo podia estar acontecendo? Como aquilo podia estar acontecendo!?"

- Será que Voldemort sabe? – indagou. – Será que ele sabe que está matando Harry?

- Não creio que saiba – respondeu Dumbledore. – É claro que é impossível ter certeza disso, mas, pelas minhas suspeitas, acredito que ele não saiba que essa dor provavelmente matará Harry em algum momento. Pelo que Harry contou a Poppy, Voldemort se esforça para não ficar irritado quando ele está por perto. A razão de Harry estar sofrendo aqui em Hogwarts é porque Voldemort não sabe que a dor se intensificou tanto, que já não precisa estar fisicamente perto dele.

James assentiu. Era um conceito estranho, acreditar que o bruxo mais maligno de todos os tempos estava realmente se preocupando em manter seu temperamento sob controle por conta de Harry. "Mas ele ainda o está matando!" pensou James amargamente.

Ele fez uma promessa silenciosa de fazer o que fosse preciso para salvar a vida do filho. Se apenas a morte de Voldemort poderia salvá-lo, então que assim fosse.

xxx

Draco tinha deixado outro bilhete para Harry. Eles deveriam se encontrar depois do jantar, no mesmo banheiro de antes. Harry comeu rápido e levantou-se da mesa. Damien ergueu uma sobrancelha para ele, mas não disse nada. O mais velho sentia que, pelo brilho irritante em seus olhos, o menino sabia exatamente onde ele estava indo e com quem se encontraria. Mas não se importava. Esgueirou-se para fora do Salão Principal e, sob olhar atento de Kingsley, caminhou até o final do corredor e entrou no banheiro masculino.

O amigo o aguardava, apoiado contra a parede, os braços cruzados e os olhos endurecidos.

- Oi – cumprimentou Harry, andando até ele. Ele parou de repente. – Qual o problema?

Draco inclinou a cabeça para o lado, os olhos se estreitando ainda mais.

- Bato palmas por você sequer fazer essa pergunta! – rugiu.

Harry levantou as duas mãos de forma defensiva.

- O que houve? O que eu fiz?

- Daywalkers! – disparou Draco. – O.k., malditos Daywalker! Isso é o que você fez!

- Ah, isso! – Harry acenou com a mão, fazendo pouco. – Você ainda está nessa?

- Isso não tem graça, Harry! – Draco se afastou da parede, chegando mais perto. – Você quase foi morto ao combater aqueles Daywalkers, após eu especificamente te dizer para não fazê-lo!

- Tudo bem. – Harry ergueu uma mão. – Você está exagerando um pouco. Eu não faço o que você diz, lembra?

Draco ficou imóvel, seu rosto pálido contorcido de raiva.

- Sim, eu lembro. Lembro perfeitamente. Mas você se lembra? – perguntou, dando mais um passo, de modo que ficou bem diante do amigo. – Você se lembra de que lado deveria estar?

- Sério, cara, o que deu em você? – perguntou Harry, balançando a cabeça. – Tomou algum firewhiskey vencido ou o quê?

- Você se jogou de cabeça contra aqueles... aqueles animais! – vociferou Draco. – Mas fez isso por nós? Não! Foi por quem? Pela sangue-ruim? Os dois traidores do sangue? Ou o maldito Damien Potter?!

Harry ficou imóvel, o sorriso desapareceu de seu rosto e ele olhou para Draco, cujo rosto pálido estava tingido de rosa devido à raiva.

- Draco...

- Acha que não consigo ver? – O loiro o cortou – Você o protege. Você o protegeu no jogo também. Todos os artilheiros machucados, esse era o plano, certo? Então, por que mudou de ideia quanto a Damien Potter?

Harry não respondeu.

- Você voltou para Hogsmeade, encarou seis Daywalkers, tudo isso por quem? – Ele balançou a cabeça com raiva. – Por Damien Potter?

- Ele é uma criança – sibilou Harry entredentes. – Sabe que eu teria feito o mesmo por qualquer um.

Draco riu, uma risada irritada e sombria.

- Não, não teria – disse ele. – Não o mesmo que fez por ele e sabe disso!

- Tudo bem – sussurrou Harry, chegando mais perto, de modo que estava a centímetros do sonserino. – Me diga, Draco. Por que estou protegendo Damien? Diga, já que parece saber mais do que eu!

Draco hesitou apenas por um momento, antes de endireitar os ombros.

- Porque ele é seu irmão – disse em voz baixa. – Ele é seu sangue e, obviamente, significa algo para você.

- Isso não significa nada para mim! – rosnou Harry.

- É o que você diz, mas suas ações dizem o contrário.

Harry fez um som sibilante e afastou-se, os punhos cerrados.

- Draco, eu estou me esforçando para me convencer de que você não precisa de uma boa surra! Não prove que estou errado!

Draco hesitou. Sua raiva lhe dera força para chegar até ali, mas ver a raiva nos olhos do amigo fez sua coragem desabar e sumir.

- Eu só... preciso entender – disse ele, olhando para Harry. – Você odeia os Potter.

- Odeio – respondeu Harry.

- Então, por que tolera Damien? Por que o protege?

- Eu te disse, porque ele é apenas uma criança.

Draco desviou o olhar, insatisfeito com a resposta, mas estava muito exausto para lutar. Ele tornou a olhar para o amigo.

- Eu recebi uma carta do meu pai. – O loiro mudou o assunto para o motivo de tê-lo chamado ali. – Os escudos foram resolvidos.

O humor de Harry mudou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram, todos os resquícios de raiva e irritação se dissiparam. O moreno se aproximou.

- Os três círculos?

Draco sacudiu a cabeça.

- Só o segundo e o terceiro – respondeu. – Meu pai mandou te informar. Os escudos foram resolvidos. Agora, tudo que têm que fazer é começar a trabalhar para enfraquecê-los sem disparar os alarmes. Ele disse que em poucos dias me enviará a chave de portal. Eu te entrego e você a utiliza quando eles enviarem o sinal, que não deve demorar mais que uma semana.

Harry soltou um suspiro de alívio. Era isso, em uma semana iria para casa. Ele olhou para Draco com um sorriso enorme.

- Você falou todas essas bobagens quando poderia ter me dado a notícia boa? – acusou.

Draco deu de ombros.

- Agridoce, não é melhor assim? – indagou o sonserino.

Harry sorriu.

Certamente era.

xxx

Harry encontrou Damien, Ron, Hermione e Ginny na escadaria enquanto saía do banheiro e os outros deixavam o Salão Principal. Eles não disseram nada, mas subiram a escada juntos. A mente de Harry estava agitada. Uma semana, só mais uma semana ali e voltaria para casa, para o pai, para Bella. Lutou para esconder o sorriso. Francamente, mal podia esperar para aquele pesadelo chegar ao fim e poder ir para casa.

Estava tão perdido em seus pensamentos, que não prestou muita atenção ao grupo de sonserinos que se aproximava da outra extremidade. Quando subiu as escadas, um dos garotos esbarrou nele de propósito. O ombro do menino colidiu com seu ombro machucado, e a dor de repente disparou por todo ombro de Harry, correndo para seu braço. Ele engasgou com a dor. Com uma mão, agarrou seu ombro, e com a outra agarrou o sonserino pela garganta.

Damien, Ron, Hermione e Ginny tinham sacado as varinhas e apontavam para o grupo, que também tinham as varinhas apontadas para os grifinórios.

Os olhos de Harry cintilaram para o menino em suas mãos, antes que o reconhecesse. Seu sobrenome era Nott. Conhecia seu pai, era um dos Comensais da Morte do círculo íntimo de Voldemort. Isso não ajudou a acalmá-lo, já que o Nott sênior era um Comensal com o qual tivera muitos, muitos problemas. Mas ele não era de vingar os erros do pai no filho, não importa o quanto o garoto merecesse. Harry lançou-lhe um olhar irritado antes de empurrá-lo para longe. Não ia revidar o ataque, não valia a pena.

Damien, todavia, gritava insultos com os sonserinos.

- Seus baixos! Não podem sequer caminhar sem causar problemas?

- Caiam fora antes que eu deduza pontos por arrumarem briga intencionalmente – acrescentou Ron.

Os sonserinos discutiam de volta quando avistaram James Potter se aproximando deles. O grupo rapidamente se virou para ir embora, murmurando ameaças.

- Não aja como se fosse dono do pedaço, herói! – sibilaram para Harry. – Comece a lidar melhor com sua popularidade, ou vamos dar um jeito nela por você.

Em meio à dor, Harry sorriu para eles.

- Acho que lido com as coisas bem o suficiente – respondeu. – Suas namoradas pareceram amar o tratamento que lhes dei mais cedo.

Os sonserinos ficaram com os rostos vermelhos e os olhos em chamas, mas não podiam fazer nada, já que o auror James Potter estava quase chegando até eles. Eles se afastaram, fuzilando Harry com os olhos.

O moreno os encarou. Daria um jeito neles mais tarde. Afastou a mão do ombro dolorido e xingou quando viu o sangue manchando seus dedos.

- Merda! – sussurrou quando notou a mancha escura cobrindo suas roupas depressa.

Por acaso, Ginny também percebeu o sangue.

- Ah, Deus! Você está bem? – perguntou ela, fazendo careta para o sangue que manchava suas vestes escolares.

- Sim, está tudo bem – respondeu Harry.

Ron e Damien de repente estavam à sua frente, examinando seu ombro ensanguentado.

- Não era para ainda estar sangrando – falou Ron, balançando a cabeça.

- Quanto tempo o veneno permanece no organismo? - perguntou Damien.

- Alguns dias – murmurou Harry, olhando para o ombro.

- Faz uma semana, o veneno já deveria ter desaparecido – retrucou Damien, preocupado.

- Desapareceu – respondeu Harry, fazendo careta quando a dor se espalhou do ombro para o braço esquerdo. – Mas ainda leva tempo para sarar.

Damien percebeu que não foi o veneno, mas a pancada do sonserino que abrira a ferida ainda em cicatrização e causara o sangramento. Uma raiva descomunal queimou na boca do seu estômago.

- Eu juro que quando colocar as mãos naquele Nott, eu vou...!

- Ei, pessoal, qual é o problema? – James chegou por trás dele. Ele olhou para Damien antes de seu olhar disparar para Harry e pousar sobre as vestes cobertas de sangue. – Harry? O que aconteceu?!

O rapaz o ignorou e se virou para ir embora.

- Harry? Harry! – chamou James.

- Me deixe em paz, Potter – respondeu ele. – Não é da sua maldita conta.

James ficou nas escadas, completamente arrasado com a contínua rejeição do filho. Especialmente após sua conversa com Dumbledore, sentia necessidade de estar mais ainda com ele, mas como? Se Harry não tolerava sua presença por um momento sequer? Ele sentiu a mão de Damien deslizar contra a sua e dar-lhe um aperto.

- Está tudo bem – assegurou o menino calmamente. – Eu estou com ele, vou me certificar de que esteja bem.

James assentiu para ele, forçando um sorriso para seu bem. Damien subiu as escadas, os três amigos seguiram silenciosamente atrás dele.

xxx

Harry já estava em seu quarto quando Damien e os outros três o alcançaram. Ele retirara as vestes, a camisa e sentara em sua cama, rodeado dos suprimentos que precisava para limpar e fechar a ferida. Ron começou a trabalhar de imediato, limpando e examinando o ferimento.

- Já era para estar cicatrizando – dizia o ruivo. – Os cortes em seu braço e na costela já estão fechados e quase completamente curados. – Ele afastou a gaze e olhou para a ferida da mordida. – Com certeza é uma ferida mais profunda, mas, ainda assim deveria estar um pouco fechada.

- Estava – ofegou Harry. – Foi... foi a pancada, ela abriu o corte novamente. – Ele fechou os olhos, gemendo de dor.

Ginny e Damien fizeram careta ao mesmo tempo e desviaram os olhos. Ron afastou a gaze cheia de sangue e colocou uma nova sobre a ferida, pressionando para ajudar a conter o fluxo de sangue.

Hesitante, Hermione se aproximou de Harry.

- Você já tentou "Episkey" nela? – perguntou em voz baixa.

Harry abriu a boca para fazer um comentário sarcástico, mas parou quando percebeu que sequer pensara em usar o singelo feitiço cicatrizante. O veneno desaparecera do seu corpo, mas será que um feitiço simples como o "Episkey" funcionaria contra a mordida de um Daywalker? Ele achava que não.

- Não – respondeu ele, enquanto Ron tirava a segunda gaze e examinava a ferida.

Hermione respirou e puxou a varinha. Harry imediatamente ficou tenso.

- O que está fazendo? – perguntou à garota, incrédulo.

- Se você não tentou, como sabe que não vai funcionar? – indagou ela. A garota mirou a varinha na ferida. – Episkey!

De imediato, a ferida parou de sangrar e uma sensação engraçada de formigamento invadiu seu ombro. Harry olhou para baixo e viu que o sangue tinha realmente começado a coagular. Ergueu os olhos para a garota, com uma expressão de surpresa.

- Eu nunca pensei que algo tão simples funcionaria – admitiu.

- Às vezes, a mais simples das coisas pode ajudar – respondeu Hermione calmamente. – Você só precisa estar pronto para aceitar.

xxx

Lorde Voldemort estava próximo às janelas altas em forma de arco, observando o pôr do sol. Algo para distraí-lo, ajudá-lo a se acalmar. O mantra que o fizera seguir tão longe sendo repetido incessantemente em sua cabeça, o pensamento do que sua raiva poderia fazer a Harry o ajudava a manter um controle firme sobre o temperamento. Mas era difícil na maior parte do tempo, e naquele dia estava se revelando impossível.

Ele se virou, seu olhar pousando sobre Bella. O bruxo acenou uma vez para ela e a Comensal deu um passo adiante em silêncio.

- Mais uma vez, Bella – ordenou Voldemort.

Bellatrix olhou fundo nos olhos de seu mestre, dando-lhe livre acesso a todos os cantos de sua mente e memórias. Era a terceira vez, só naquela noite, que ele praticara Legilimência e vira a lembrança de seu encontro com Harry. Ela havia perdido a conta de quantas vezes ele a assistira na última semana. Repetidamente, Voldemort observou o breve encontro no banheiro do Três Vassouras para que pudesse ver o filho novamente, ouvir sua voz.

O bruxo assistiu a memória se desenrolar, estudando o garoto de perto quando se virou para sair e encontrou Bella em seu caminho. Seu filho parecia esgotado, até mesmo fadigado. Os tênues círculos sob seus olhos mostravam que não estava dormindo. Seria intencional da parte de Dumbledore? Seria uma técnica de interrogatório comandada pelo ministro para retirar-lhe informações? Ou seria simplesmente porque o rapaz não conseguia descansar estando cercado por inimigos? Os três cenários faziam a raiva se espalhar dentro dele.

"Eu estou tendo um péssimo dia, então eu sugiro que você não mexa comigo."

Esta parte sempre arrancava uma risada silenciosa de Voldemort. Harry e suas ameaças, ele nunca conseguia resistir a elas. O bruxo viu quando Bella baixou o capuz e o reconhecimento cruzou o rosto de seu filho. Poderia ver o alívio nos olhos esmeralda e, quase instantaneamente, a preocupação e raiva, já que temia pela segurança dela.

"O que você está fazendo aqui? Você quer ser pega?"

Voldemort assistiu, ficando mais irritado ao ver a exaustão em seu herdeiro, o ligeiro tremor de suas mãos ao agarrar o braço de Bella e a palidez de sua pele. O garoto sempre tivera um brilho saudável, Voldemort certificara-se disso. A comida em sua mesa era da mais alta qualidade, as horas que tinha que estudar eram bem pontuadas por intervalos e o bruxo fizera tudo que podia para garantir que ele dormisse tranquilamente à noite, livre de pesadelos e inquietações.

Ele assistiu à lembrança, sua raiva ficando mais difícil de controlar com o garoto parecendo cada vez mais vulnerável.

"Bella... eu... eu não posso."

Era sempre neste preciso momento, quando Harry se recusava a ir com ela, que Voldemort perdia a batalha de manter a calma. Mas ele sempre insistia, forçando-se a continuar assistindo, até o ponto em que o garoto levantava a manga da camisa e mostrava o Bracelete Bartra. A primeira vez que assistira à memória, o bruxo saiu da mente de Bella, gritando de raiva. Um Bracelete Bartra. Tinham colocado um Bracelete Bartra em seu filho. Eles pagariam muito caro, garantiria isso.

"Eles te machucaram?"

"É claro que não, eles não são loucos."

"Harry."

"Apenas... trabalhe nos escudos. Tirem-me logo daqui."

Voldemort retirou-se da memória, libertando Bella. Ele esperou a mulher se recuperar. Ser submetido a Legilimência repetidamente era demais para o corpo suportar, mas Bella nunca se queixava. Ela jamais o faria.

- O que Severus disse? Quando é que Dumbledore vai tirar o bracelete? – questionou Voldemort.

- Depois de amanhã – lembrou-lhe Bella.

Voldemort assentiu e se afastou dela.

- Eu pensei que Dumbledore tinha aprendido – disse ele. – Parece que ele e o ministro cometeram um equívoco. Eles pensam que podem escapar de ter ferido meu filho.

Seu olhar cruel caiu sobre a figura no canto, amarrotada no chão, deitada em uma poça de seu próprio sangue. Com um estalar de dedos, dois de seus Comensais da Morte a agarraram e arrastaram até os pés do bruxo. O Lorde das Trevas sorriu quando o homem maltratado e sangrando foi erguido e colocado de joelhos. Usando a varinha, Voldemort levantou sua face, de modo que pudesse olhar em seus olhos petrificados. Um olho inchara tanto que estava quase fechado, o sangue escorrendo de vários cortes em seu rosto. O que antes eram cabelos loiros, agora era um emaranhado de sujeira e sangue ressecado. Voldemort sorriu.

- Você vai me ajudar, não é, Paul Jackson? Vai me ajudar a mostrar ao mundo o que acontece com aqueles que machucam o Príncipe Negro?

O homem gorgolejou, o sangue pingou do canto de sua boca. Não conseguia falar, sua mandíbula tinha sido quebrada.

Voldemort sorriu friamente. Ele agarrou um punhado de cabelo do homem e puxou sua cabeça para trás, os olhos vermelhos queimando ao lançar Legilimência nele de novo, pelo que devia ser a décima vez no espaço de poucas horas. Ele assistiu a memória do encontro de Harry com o guarda de Nurmengard. Precisava chegar a uma parte específica, uma que o enchia de muita raiva, só então se permitiria acabar com ele. Não desejava uma morte fácil para o guarda da prisão.

O bruxo percorreu por imagens da prisão de Harry, mas desacelerou quando viu homens o prendendo em uma cadeira de metal. Viu Jackson interrogá-lo com uso de Veritaserum, viu Jackson perder a cabeça, forçou-se a assistir Jackson erguer o punho e bater em Harry duas vezes. Viu Harry virar a cabeça para o lado após o segundo soco para cuspir sangue. Voldemort olhou para as gotas de sangue que manchavam o chão. Para o sangue de Harry. Jackson tinha feito seu filho sangrar. O bruxo saiu da memória e elevou-se sobre o homem machucado, os olhos rubis queimando ferozmente. Jackson estava prestes a pagar.

xxx

- Eu não entendo! – protestou Harry. – Por que tenho que esperar pela vantagem de sete gols?

- Porque precisamos dos pontos – explicou Angelina. – Ganhar não basta, precisamos estar sete gols à frente antes que você possa pegar o pomo, caso contrário, ainda perderemos.

- Basta fazer o Angie diz – sussurrou Ginny do outro lado. – Vai facilitar a vida.

Harry acenou para ela, mas evitou encarar Damien, enquanto todos voltavam do treino de quadribol. Ainda se sentia estranhamente desconfortável quanto ao assunto. Tinham jogado por quase três horas seguidas. A próxima partida contra a Lufa-Lufa era a última chance de a Grifinória ganhar a taça. E, como Angelina dizia constantemente, estava tudo nas mãos dele. Tinha que pegar o pomo, mas não podia pegá-lo logo e, absolutamente, sob nenhuma circunstância, poderia deixar o outro apanhador pegar. Em resumo, aquilo estava lhe causado dores de cabeça.

- Nós nos preocuparemos com os sete gols – disse-lhe Ron. – Tudo que precisa se preocupar é sobre quando pegar o pomo.

- Honestamente, toda essa comoção por conta de um jogo tolo – interveio Hermione. – Se você tivesse com seus estudos a mesma dedicação e paixão, jamais tiraria um T em nada.

- Hermione, se não vai apoiar, não compareça aos treinos! – retrucou Ron.

- Pessoal, escondam as garras, está bem? – interveio Damien antes que os dois começassem outra sessão de suas briguinhas famosas.

O grupo atravessou o lago, caminhando depressa para dentro do castelo. O frio congelante de dezembro estava deixando suas faces e mãos cor-de-rosa. Antes que pudessem entrar, cruzaram com a equipe lufana a caminho do campo para treinar.

- O treino foi bom? – gritou a capitã da Lufa-Lufa para Angelina.

- Um dos melhores! – respondeu a capitã. – Boa sorte para vocês.

- Obrigada! – respondeu a garota e o grupo passou correndo por eles.

Angelina fez uma pausa para olhar para eles.

- Que vadia! – murmurou.

Harry olhou surpreso para ela. Hermione e Ginny soltaram risadinhas, chocadas.

- Angie! – surpreendeu-se Fred.

- Ela é – insistiu Angelina. – Toda aquela falsidade de "o treino foi bom"?! Eles acham que são bons demais! Esperem até limparmos o campo com eles!

- Vamos deixar para nos vangloriar quando realmente ganharmos! – disse Damien.

- Nós vamos ganhar – disse Harry, fazendo o irmão olhar em volta para ele. – Sem dúvidas, vamos ganhar este jogo.

Damien não disse nada, mas um sorriso se espalhou por seus lábios. Seus olhos brilharam para Harry.

- Isso! É essa a animação que eu quero! – Angelina deu um tapinha nas costas do apanhador. – Bom trabalho, Harry. – Ela se voltou para os demais. – É o que dizem, pensar positivo, agir positivo! Tudo que temos que fazer é... – Ela fez uma pausa, seus olhos se estreitaram quando avistou algo nos céus. - Quê...? O que é isso?

Então, Harry e os demais sentiram, uma sombra passou sobre eles, indo tão rápido quanto chegara. Harry olhou para cima e avistou uma forma estranha dissipando-se no céu. Seu olhar se estreitou. Parecia um enorme pássaro, as asas totalmente abertas e algo enroscado em suas garras. O pássaro disparou para o alto, atraindo a atenção dos numerosos alunos nos gramados, até que todos os olhos estivessem sobre ele.

De repente, as garras se abriram e seja lá o que carregava foi despencando. À medida que se aproximava, Harry reconheceu o que era, e a visão revirou seu estômago violentamente. Ao mesmo tempo, os outros também entenderam do que se tratava.

Uma garota gritou de horror com a visão de um corpo mutilado caindo do céu. O corpo bateu nas barreiras invisíveis dos escudos e ricocheteou, cortando o ar e pousando do lado de fora dos portões de Hogwarts, com um baque nauseante.

Gritos ecoaram por todo lado quando inúmeros alunos viram o corpo sem vida deitado próximo aos portões da escola. Antes de ter consciência do que estava fazendo, Harry correu na direção dos portões principais, o resto do time de quadribol no seu encalço. Já havia um grupo de estudantes reunido ao redor do corpo caído.

Harry chegou ao canto dos portões e parou, lembrando-se dos dementadores que agiriam caso colocasse o pé para fora. Ele encarou a confusão de membros e carne cobertos de sangue que estava espalhada a poucos passos. Seu olhar disparou para o rosto, mas era impossível descobrir quem era o homem. Seu rosto estava muito machucado e cortado. Ele estava sem camisa, machucões e cortes espalhados por seu abdômen. O olhar de Harry se estreitou para os cortes, e ele percebeu, com uma guinada nauseante em seu estômago, que formavam palavras.

- Saiam da frente! Afastem-se, por favor! Afastem-se! Saiam da frente!

Aurores tinha aparecido de repente e empurravam os alunos para longe dos portões. Um grupo deles encobriu o cadáver, mas Harry ainda podia visualizá-lo.

- Afastem-se! Voltem para dentro do castelo!

Os aurores vociferaram as instruções, mas quase ninguém os deu ouvido. Os alunos estavam em choque. Muitos se viraram, cambaleando alguns passos antes de cair de joelhos, vomitando.

- Todos vocês! Afastem-se! Entrem no castelo, agora!

Os alunos foram conduzidos de volta para dentro. Enquanto aurores se moviam para ajudá-los, Harry finalmente teve uma visão clara do corpo. Sentiu o sangue congelar quando leu as palavras no abdômen e compreendeu tudo. Tornou a olhar para o rosto e, através do sangue, cortes, contusões e do olho inchado, o rapaz reconheceu o homem.

- Jackson – murmurou o nome.

James, que era um dos aurores ainda em volta do corpo, ouviu o sussurro. Ele virou-se em estado de choque para olhar para o filho, que ergueu os olhos para encará-lo. James olhou de Harry para o corpo, e também, vendo além das contusões e do sangue, viu o rosto do guarda da prisão de Nurmengard. Seu olhar desceu do rosto para o corpo nu, onde as palavras foram esculpidas na carne do homem, e entendeu o seu significado.

Derrame o meu sangue, e eu derramarei o seu!

xxx

Todo mundo deveria permanecer nos dormitórios. Ninguém tinha permissão para sair, não até a hora do jantar. A sala comunal da Grifinória estava com lotação máxima, com todos os alunos, do primeiro ao sétimo ano. Apenas um pequeno número de estudantes estava nos terrenos quando Paul Jackson foi violentamente jogado nos portões de Hogwarts. Dentre eles, os únicos grifinórios que lá estavam eram os membros da equipe de quadribol e Hermione Granger, então os demais companheiros de casa estavam amontoados ao redor deles, tentando obter todos os detalhes.

- Estava esculpido na carne dele? – perguntou uma menina horrorizada.

Angelina assentiu.

- Foi... foi horrível. – Ela inclinou-se para frente em sua cadeira, as mãos sobre a boca. – Acho que vou vomitar mais uma vez – murmurou contra as mãos.

- Ele era um guarda da prisão – disse George. – Ouvi um dos aurores falando sobre ele.

- Ele devia estar na prisão na qual o Príncipe Negro é mantido! – engasgou Colin.

- Óbvio! – Lee revirou os olhos.

- Ele deve ter machucado o Príncipe Negro – disse Seamus. – É o que as palavras significavam, certo?

- "Derrame o meu sangue, e eu derramarei o seu" – repetiu Dean, balançando a cabeça em desgosto. – É claramente uma mensagem de Você-Sabe-Quem, mas por que aqui? Por que em Hogwarts?

Damien lançou um olhar aflito para Harry, mas o rapaz mal prestava atenção neles. Ele parecia perdido em seus próprios pensamentos.

- Eu não acho que era para o... o corpo cair aqui – disse Hermione com dificuldade. Sua pele ainda estava acinzentada e ela parecia prestes a vomitar a qualquer momento, mas prosseguiu independentemente. – Eu acho que... eu acho que era para ser jogado em Hogsmeade. Como um... um aviso, como os outros funcionários do Ministério, lembram?

Os alunos ao redor assentiram, murmurando em concordância.

- Deve ter caído por acidente – falou Angelina.

O buraco no retrato se abriu e a diretora da Grifinória, Professora McGonagall, entrou. A sala comunal se calou de imediato.

- Favor me seguir ao Salão Principal para o jantar, após o qual todos vocês voltarão aos dormitórios imediatamente.

Ninguém protestou. Eles se levantaram e começaram a sair. A Professora McGonagall permaneceu de pé ao lado da porta, observando os alunos.

- Vocês vêm? – perguntou Angelina ao se levantar, mas Ron e Ginny permaneceram sentados.

- Acho que não consigo comer agora – disse a ruiva, fazendo uma careta quando a memória do corpo mutilado ressurgiu.

Angelina assentiu em compreensão. Ela ainda parecia um pouco verde, mas deixou Fred conduzi-la de mãos dadas. A Professora McGonagall voltou o olhar para os únicos alunos remanescente, Ron, Ginny, Hermione, Damien e Harry.

- Venham – chamou a bruxa. – Vocês devem querer comer alguma coisa, mesmo que seja para dar apenas uma beliscada na comida.

- Obrigada, Professora – respondeu Hermione –, mas eu não consigo comer nada hoje à noite.

- Digo o mesmo – acrescentou Ginny. – Mas obrigada.

A diretora assentiu com firmeza para eles, seu olhar afiado cintilando de um rosto a outro, demorando-se em Harry.

- Muito bem – disse ela –, mas nada de escapulirem após o toque de recolher. Não me importa quão famintos se sintam, se não comparecerem ao jantar agora, terão que esperar pelo café da manhã de amanhã.

- Tudo bem, professora – todos, exceto Harry, responderam.

McGonagall saiu, fechando o retrato ao passar. O silêncio caiu sobre a sala comunal, o único som era o fraco crepitar das chamas na lareira. Os quatro ficaram em silêncio, mas olhavam para o ainda silente Harry, todos querendo saber o que dizer e como dizê-lo.

Por fim, Damien pigarreou.

- Aquele... aquele homem... – começou ele. – Você o conhecia?

Harry não respondeu, não de imediato. Relutantemente, ele deu um aceno.

Damien trocou um olhar com os amigos.

- Então, é verdade? – indagou o menino. Harry virou-se lentamente para encarar o irmão. – O que dizia... no corpo dele... – Ele apontou sem jeito para seu próprio abdômen, fazendo uma careta. – Ele... Ele te machucou?

O rapaz desviou o olhar, sua mandíbula apertada e as mãos enroladas em punhos.

- Harry?

Ele balançou a cabeça, apenas um ligeiro movimento para ambos os lados.

- Nada além do que outros já fizeram – respondeu ele em voz baixa.

Se Harry tivesse levantado a cabeça e olhado para o irmão mais novo, teria visto a expressão de tristeza em seu rosto. O jovem de treze anos compartilhou outro olhar com seus igualmente chocados amigos.

O buraco do retrato de repente se abriu e um grupo de homens entrou correndo. Harry virou-se e a primeira pessoa que viu foi Alastor Moody. O auror fortemente marcado parecia lívido, a varinha já estava firme em sua mão, o olho mágico girando como louco. Atrás dele estavam mais membros da Ordem e aurores.

Moody foi direto para Harry, que se levantou ao vê-lo.

- Seu filho-da-mãe! – bradou Moody ao se lançar sobre ele. Ele agarrou o garoto pelo colarinho e o sacudiu. – Você acha que está bancando o esperto! Acha que vai nos assustar!

Harry lutou contra ele, tentando se libertar.

- Do que está falando? – perguntou, irritado.

Os outros quatro se puseram de pé, a memória do que aconteceu da última vez que Moody o atacou ainda fresca em suas mentes.

- O que você está fazendo?! – berrou Ron.

- Não toque nele! – Damien correu na direção deles, mas, como da última vez, um dos outros aurores o agarrou, impedindo-o de alcançá-los.

- Está tudo bem – disse o auror suavemente para Damien. – Só estamos aqui para conversar.

- Tirem as mãos de mim! - Damien lutou, mas o aperto permaneceu forte.

Hermione e Ginny se viraram e correram, passando pelos aurores e saindo da sala comunal.

- Acha que pode nos assustar? – vociferou Moody. – Quem você pensa que é?

- Alastor, espere! Controle-se! – Sturgis e outro auror tentaram puxá-lo de volta, mas foram empurrados. Sua interferência fez Harry se libertar das garras de Moody.

- Qual é o seu problema? – perguntou o rapaz, irritado.

- Meu problema? Meu problema! – Moody estava lívido, cada pergunta era acompanhada de um empurrão brutal em seu peito, que faziam Harry tropeçar para trás.

- Alastor, não! Você disse que só queria conversar! – Sturgis tentou puxá-lo para longe, mas Moody resistiu, seus olhos furiosos focados apenas em Harry.

- Você não vai se safar dessa! Acha que pode matar qualquer um! – disparou Moody.

- Você acha que eu fiz aquilo? – questionou Harry, os olhos esmeralda arregalados de descrença. – Eu estou preso aqui, seu retardado!

Moody o agarrou pelo colarinho novamente.

- Foi você! – sussurrou ele, tão perturbado, que literalmente espumava pela boca de raiva. – Você fez aquilo! - Ele o sacudiu. – E eu não vou deixar que faça isso com mais ninguém! Não vai sobrar nenhum pedaço seu quando eu tiver acabado!

Harry estava prestes a acertá-lo bem na cara, mas descobriu que não precisava. James tinha chegado, seguido por Ginny e Hermione.

- Alastor! – James entrou disparado e pegou Moody, jogando-o para longe de Harry. Ele se colocou diante do garoto, protegendo-o, a varinha em mãos.

- Que diabos você pensa que está fazendo?! – vociferou James.

- Dando um jeito no bastardo que assassinou brutalmente outro bruxo! – respondeu Moody.

- Do que você está falando?! – indagou Harry, furioso.

- Como é que Harry pode ter alguma coisa a ver com o que aconteceu? – questionou James.

- Puta merda! Pense, Potter, pense! – Moody apontou um dedo retorcido contra a própria têmpora, parecendo absoluta e totalmente fora de si. - Jackson aparece, mutilado e assassinado! Por quê? Porque tentou obter algumas respostas dele! – O bruxo acenou na direção de Harry. – Como foi que Voldemort descobriu sobre como Jackson o tratou, hã? – perguntou ele. – Esse garoto contou! – acusou, apontando o dedo para Harry. – Ele está se comunicando com Voldemort!

- O caramba que estou! – explodiu Harry, parecendo lívido.

- E como foi que ele descobriu sobre Jackson, então? – gritou Moody.

- Havia outros guardas lá – disse James. – Ao menos outros dois estavam lá quando Harry quase se afogou por causa de Jackson – disparou, com raiva. Ainda não perdoara o guarda por quase matar seu filho, acidentalmente ou não. – Qualquer um deles poderia ter contado como Jackson o tratou. Existem mil maneiras de Voldemort obter essa informação, mas não foi de Harry.

- Os guardas fazem juramento! – argumentou Moody. – Ninguém poderia ter dito nada sobre o que se passa por trás dos muros da prisão. – Ele olhou para Harry. – Foi ele que se queixou a Voldemort sobre a maneira como Jackson o tratou! Ele o matou!

- Acredite, se eu tivesse me comunicando com meu pai, não seria Jackson que teria aparecido morto! - vociferou o rapaz.

- É mesmo?! – Moody tornou a investir contra ele, mas James foi rápido em afastá-lo, a varinha ainda apertada em sua mão.

- Você perdeu o juízo, Moody – disse James. – Sua paranoia te deixou maluco.

- Não fui eu quem perdeu o juízo – sibilou Moody. – Você não quer abrir os olhos, mas para mim já chega de tentar te fazer enxergar. Quer continuar cego? Tudo bem, continue assim! – Ele olhou com ódio para Harry. – Mas eu não vou ficar parado e deixar que esse assassino tirar outra vida!

- Vá se ferrar! – xingou Harry. – Eu não tenho nada a ver com Jackson!

Moody atacou, golpeando Harry com tamanha força que ele caiu de lado, sendo jogado em uma das mesas sobre a qual ainda havia a lição de casa de alguém. Harry perdeu a paciência. Ele bateu o punho com raiva contra a mesa. Seus olhos captaram o movimento de uma pena que saltou com o impacto e ele a agarrou. O rapaz saltou de pé, a pena em sua mão transformada em uma faca de lâmina curta. Harry foi direto para Moody, sem se importar mais com as consequências.

- Não!

James o agarrou, uma mão em torno da mão que segurava a arma, e a outra em torno de sua cintura. Sturgis ajudou agarrando o rapaz, mantendo-o longe de Moody, que fora cercado pelos aurores ao redor quando atacou Harry.

- Se você tocar em mim mais uma vez...! – ameaçou Harry.

- O que você vai fazer?! Hã? O quê? – rosnou Moody de volta.

Sturgis manteve Harry preso enquanto James retirava a faca de sua mão.

- Acalme-se! Todos vocês, se acalmem! – James estendeu a mão para o filho.

Harry respirava pesadamente, ainda contido por Sturgis. Ele se libertou, olhando o tempo todo para Moody. Tendo certeza de que o jovem não iria até Moody novamente, James voltou os olhos irritados para o auror.

- Você! – Ele apontou o dedo para Moody. – Saia! – mandou.

- Não sem obter respostas! – Moody também se libertou.

- Que respostas? – perguntou James, incrédulo. – Você perdeu todo o senso e a razão! Está acusando Harry de se comunicar com Voldemort? Diga-me, como? Ele não envia qualquer correspondência, não pode usar a lareira para fazer chamadas, diga, como raios ele está falando com Voldemort?

- Correio Coruja e lareira não são as únicas maneiras de se comunicar! – vociferou Moody com raiva. Seu olhar voltou para Harry. – Ele está usando alguém, provavelmente um sonserino que tem um pai Comensal da Morte, para enviar mensagens a Voldemort.

- Quantas vezes tenho que te dizer? – sibilou Harry. – Eu não conheço ninguém na Sonserina!

- Como se eu fosse acreditar em algo que você diz! – cuspiu Moody.

- Nós não o vimos falar com qualquer aluno da Sonserina – disse Sturgis, tentando chegar até Moody. – E nós o vigiamos o tempo todo.

Moody virou-se para ele.

- Nem sempre! – sibilou. Ele virou-se de repente para os quatro adolescentes espantados e horrorizados. – Vocês quatro estão sempre perto dele – disse o auror. – Já o viram falando com algum sonserino?

Harry engoliu em seco e os olhos esmeralda preocupados dispararam para Damien. O menino estava de pé, olhando para Moody, como se não tivesse entendido a pergunta. Lentamente, os olhos cor de avelã moveram-se para seu irmão e ele o encarou. Harry sustentou o olhar, preparando-se mentalmente para o momento em que Damien entregaria Draco. O menino enrijeceu e voltou a olhar para Moody.

- Não – declarou. – Eu nunca o vi conversando com qualquer sonserino.

Atrás dele, Ron ergueu os olhos em surpresa. Ele compartilhou um olhar com a irmã e Hermione, mas manteve-se em silêncio.

- Nunca? – perguntou Moody, avançando na direção dele. – Você nunca o viu falando com qualquer sonserino?

- Você quer que eu escreva? – retrucou Damien. – Eu disse que não!

Moody o encarou por um momento, antes de seu olhar ir para Hermione.

- E você? – perguntou ele. – Já o viu falando com algum sonserino?

- O que vai fazer? Interrogar toda a Grifinória? – questionou James.

- Eu lhe fiz uma pergunta, menina! – retrucou Moody, ignorando James. – Responda!

Hermione ficou ereta sob o olhar afiado e duro do auror.

- Não – respondeu ela. – Posso dizer com sinceridade que nunca vi Harry conversar com ninguém da Sonserina.

Moody olhou para ela com desapontamento.

- Antes que pergunte – adiantou-se Ginny. – Nós também não vimos. – Ela apontou para si e para o irmão. – Harry quase não fala com nenhum grifinório, que dirá com alunos de outras casas.

Harry ficou atordoado. Jamais achou que os quatro o encobririam. Ele escondeu o espanto, olhando friamente para Moody quando o homem se virou para encará-lo.

- Satisfeito? – indagou James com tanta raiva que suas mãos tremiam. – Agora – disse ele baixinho –, saia!

Moody virou-se para fitar Harry, cada linha de seu rosto mostrava seu ódio.

- Espero que esteja se sentindo orgulhoso, rapaz – rosnou o auror. – Jackson tinha uma família, uma mulher e um filho.

Harry não disse nada, mas o sofrimento cintilou em seu rosto antes de ele lutar para escondê-lo.

- Mas é isso que você e seu pai fazem, certo? – questionou Moody. – Destroem famílias e depois dizem que não fizeram nada. – Ele sacudiu a cabeça. – Vão voltar, cada lágrima, cada gota de sangue que derramaram dos outros, elas vão voltar e te afogar.

- Alastor, já chega! – Sturgis foi até ele para forçá-lo a sair, mas Moody ergueu a mão, sinalizando que sairia. Ele lançou um último olhar para Harry.

- Durma orgulhoso hoje à noite – disse ele. – Você deixou mais uma criança órfã.

Com essas últimas palavras, Moody se virou e saiu, sem olhar para trás. Os aurores e membros da Ordem que vieram com ele também se viraram para sair, lançando olhares de desculpa para James, que só tinha olhos para o filho. Ele se virou para ele, estendendo a mão para o menino, que visivelmente fora afetado pelas palavras de Moody.

- Harry...

Mas o jovem não quis ouvi-lo. Ele saiu correndo e deslizou para fora do retrato.

xxx

Severus Snape conduziu os alunos de volta para a sala comunal após o jantar e deixou-os lá com instruções precisas de que fossem para a cama. Dumbledore insistiu que cada diretor de casa acompanhasse os estudantes, já que alguns deles tinham visto a mensagem horrível de Voldemort. Outros só ouviram falar, mas aquilo poderia ser traumatizante o suficiente. Snape balançou a cabeça, Dumbledore não tinha noção que os filhos de Comensais da Morte tinham a infelicidade de crescer ouvindo e talvez até mesmo vendo as lições e mensagens de Voldemort. Mas, ainda assim, um cadáver mutilado próximo aos portões da escola violava o ideal de um lugar seguro, e por isso a maioria dos alunos estava chateada. Afinal, Hogwarts era a casa deles, e era a única casa na qual Voldemort não podia entrar.

O bruxo se fechou em seu escritório com a intenção de corrigir as últimas dissertações antes de se recolher para dormir, mas congelou assim que entrou e avistou o garoto de cabelos escuros o aguardando.

- Potter? – Snape fechou a porta atrás dele, encarando-o com os olhos estreitados. – Como foi que entrou na minha sala?

- Não faz diferença – respondeu ele irritado. – Eu preciso falar com Draco. Vá buscá-lo.

Os olhos de Snape se estreitaram com o tom de voz.

- Como é que é? – sibilou o mais velho.

Harry, que tivera sua paciência mais do que testada naquele dia, avançou sobre Snape.

- Vá. Buscar. Draco. Malfoy – repetiu com frieza. – Ou pode ter que explicar ao meu pai por que desobedeceu a uma ordem direta que eu dei.

O rosto pálido de Snape se contorceu para mostrar sua raiva. Receber ordem de um garoto de dezesseis anos de idade, ainda mais um Potter, era um golpe duro demais.

- Eu não fui instruído a seguir suas ordens – sussurrou o homem. – Ainda não, de qualquer maneira.

Os olhos de Harry brilharam para o outro, e ele cerrou a mandíbula.

- Acredite, você não vai querer receber instruções formais, pode não sobreviver a elas.

Snape se calou. Ele encarou o jovem por um longo momento antes de assentir, bastante relutante.

- Como queira – sibilou. O bruxo se endireitou. – Vou chamar Draco.

Ele deslizou pela porta, voltando momentos depois com Draco em seu encalço. O loiro parecia surpreso e um pouco confuso.

Harry não lhe disse nada. Ele se virou para Snape.

- Saia – mandou.

Snape se eriçou, como se as palavras de Harry tivessem lhe queimado, mas se virou e saiu, fechando a porta ao passar.

-Harry, o que...? – começou Draco, mas o moreno colocou um dedo sobre os lábios.

Ele fez um gesto para a varinha do loiro, que a retirou do bolso e entregou ao amigo. Harry a apontou para a porta e lançou um feitiço silenciador. Ele jogou a varinha de volta e o sonserino a pegou, parecendo surpreso com o comportamento frio e incomum do outro, com ele pelo menos.

- O que está acontecendo? – perguntou.

Harry avançou para ele, os olhos ardendo e os punhos fechados.

- Você contou ao seu pai sobre Jackson? – indagou o moreno.

Draco fez uma pausa, aparentemente tentando descobrir como responder à pergunta. Seu silêncio foi como uma confirmação para Harry.

- Droga, Draco! – sussurrou, afastando-se para não atacá-lo.

- Eu não entendo – disse o loiro. – O que foi que eu fiz de errado?

- Você contou a Lucius! – Harry se virou. – E ele foi direto contar ao meu pai! – O rapaz apontou um dedo para a porta. – O corpo que caiu do céu era de Jackson!

De repente, os olhos de Draco se arregalaram e ele empalideceu um pouco.

- Era Jackson? – Ele sacudiu a cabeça. – Eu achei que poderia ser, com todos os rumores rondando por aí, mas eu não tinha certeza...

- Só porque eu te digo alguma coisa, não significa que tem que ir correndo para contar ao seu pai! – sibilou o moreno.

- Harry, não foi uma decisão consciente – explicou Draco. – Eu o encontrei em Hogsmeade, ele queria saber alguma novidade e o assunto de Nurmengard surgiu, então eu mencionei o guarda que quase te afogou. – O sonserino enfatizou a palavra. – Não vejo problema algum.

- O problema é a merda dos aurores, que suspeitam que estou falando com alguém da Sonserina que está passando as mensagens para meu pai! – sussurrou Harry, tão furioso que tremia. – Sua boca grande quase custa a sua liberdade e a do seu pai! Se descobrirem que foi você, Lucius iria para Azkaban antes do amanhecer!

Draco deu de ombros, sem jeito.

- Tudo bem... desculpe, eu sinto muito.

- Vá se ferrar com suas desculpas! – rosnou Harry. – Agora escute e faça exatamente o que eu disser! – disse ele. – De agora em diante, você não fala comigo, você sequer olha na minha direção. Você não me conhece, e eu não te conheço, entendeu?

Draco assentiu.

- Entendido.

- Os aurores vão estar me vigiando ainda mais agora, então você vai me ignorar e tudo o que eu fizer. Você só vai me procurar quando estiver com a chave do portal, bem como quando souber o dia e a hora que tenho de usá-los – prosseguiu Harry.

Draco assentiu novamente.

- Meu pai disse que vai enviar a chave do portal em três dias. Eles estão trabalhando nela enquanto conversamos.

Harry soltou um suspiro de alívio. Finalmente aquele pesadelo ia acabar.

- Então, nos próximos três dias fique fora do meu caminho e eu vou ficar fora do seu – disse Harry.

Draco assentiu novamente. Ele olhou para o moreno, a testa franzida ao notar o amigo ainda irritado e agitado.

- Se eu não te conhecesse melhor, acharia que não ficou impressionado com a vingança de seu pai.

Harry virou-se para encará-lo, incrédulo.

- Impressionado? – indagou. – Eu estou puto!

- Por quê? – perguntou o sonserino. – O cara te torturou, quase te afogou, você não queria se vingar?

- Sim, eu queria me vingar – respondeu Harry, com raiva. – Posso lidar com meus próprios problemas, não preciso e não quero meu pai envolvido nos meus problemas!

- Mais uma semana – respondeu Draco com um sorriso. – Então, você poderá dizer isso cara a cara a ele.

- Não se preocupe – disse Harry. – Eu direi.

xxx

- Ele tem que ir embora.

- James...

- Não. – O auror o interrompeu antes que o bruxo arranjasse desculpas para Moody novamente. – Você prometeu que Moody não cruzaria o caminho de Harry de novo – lembrou-lhe. – Você disse que ele ficaria longe.

- Alastor será repreendido – disse Dumbledore. – Eu dou minha palavra.

James ficou imóvel, antes de sacudir a cabeça com determinação.

- Não é o suficiente – disse ele. – Você vai repreendê-lo, ele ficará afastado por um ou dois dias, mas depois vai voltar para aterrorizar Harry. – James manteve-se ereto, desafiante. – Ele está fora – exigiu. – Tem que mandá-lo embora, para longe de Hogwarts, o mais longe do meu filho possível.

- James, eu já lhe disse, não posso mandá-lo embora, preciso dele aqui.

- Ele invadiu a sala comunal e atacou Harry na frente de outros alunos – disse James, com raiva. – Aconteceu de todos os presentes saberem a verdade sobre ele, mas e se outras pessoas estivessem lá? Como explicaríamos a reação de Moody a eles?

Dumbledore ficou em silêncio. Não podia defender Moody. Não importava o quanto quisesse fazê-lo.

- Eu compreendo – começou –, mas você sabe como Alastor é.

- Não importa! – bradou James. – Estou falando sério, Dumbledore – argumentou com teimosia. - Eu dei uma chance a ele, porque você pediu, mas Moody provou que não é confiável. Ele está fora.

Dumbledore considerou James silenciosamente antes de soltar um suspiro cansado.

- Sinto muito, James, a resposta é não. Alastor não vai a lugar algum.

James ficou calado. Ele se aproximou de modo a ficar bem diante de Dumbledore.

- Ou você manda Moody embora, ou eu pego Harry e saio daqui.

Dumbledore olhou para James, sem acreditar.

- Perdão?

- Você me ouviu – respondeu James, calmamente. – Já chega. Já expus meu filho a muita coisa, tendo que lidar com aquele maldito paranoico! – Ele encarou de cabeça erguida os surpresos olhos azuis. – Ou você manda Moody para longe de Hogwarts por bem, ou eu pego meus filhos e minha esposa e parto.

- James...

- Estou falando sério – interrompeu o auror. – Vou fazer isso, vou embora e você, o Ministério, até mesmo Voldemort, não serão capazes de nos encontrar.

"E você pode lutar sua maldita guerra sozinho!"

Isso não foi dito, mas James sabia que Dumbledore entendera as palavras não ditas. Por um breve momento, o auror viu a raiva perpassar o rosto do velho bruxo, os calmos olhos azuis de repente ficaram em chamas. Mas o outro se manteve firme, recusando-se a desviar o olhar. A raiva se dissipou e Dumbledore assumiu uma expressão cansada e, de alguma forma, mais desgastada. Ele respirou fundo e encontrou os olhos de James.

- Vou mandá-lo embora – cedeu. – Pela manhã. Alastor será afastado de Hogwarts.

xxx

Texto original

Sugira uma tradução melhor