Fin
Estava há horas sentado naquele sofá, as pálpebras estavam pesadas, quase se fechando, até Scabior levantar-se e andar até a janela, olhando para a noite escura lá fora. Respirou fundo e sentiu a brisa bater em seu rosto, espantando o cansaço que queria dominá-lo.
Seu corpo estava todo tenso, e ele realmente nunca havia sentido algo tão estranho e de tamanha força. Parecia sugar cada energia existente em cada músculo, golpeando-o e obrigando-o a ficar parado.
Estava sendo tolo.
Ele acreditava nela, mesmo que tentasse pensar o contrário. Ele viu a garota empurrar Krum, e viu-a xingá-lo. Ela não tinha o visto até aquele momento, Scabior pôde perceber a surpresa nos olhos castanhos quando ela se virou e se deu conta da presença dele ali.
E ele a amava.
Ainda tinha aquele maldito sentimento, quese apoderava do corpo dele e fazia sua mente pensar cada vez com mais dificuldade, confundindo-o. Estava ficando louco. Pensar nela nos braços de outros estava deixando-o doente. Notava que o corpo era preenchido por um sentimento de posse, algoque ele nunca havia experimentado. Não gostou de ver um homem que não fosse ele tocando-a.
O rumo de seus pensamentos mudou. Conhecia-a. Sabia que ela nunca faria aquele tipo de coisa com ele. Era séria e correta demais para aquilo. Ela pediria a separação caso quisesse sair com outro, e não daria satisfação de sua vida depois disso. Mas não, ela veio a sua procura para lhe estapear e gritar com ele, o que era mais uma prova de que realmente ela estava correta.
E havia Themis.
Sua filha. Não conseguia nem acreditar que ainda tivesse uma filha. Sentia um carinho enorme por aquela criança. Até mesmo amor.
E as duas únicas pessoas que amava naquele mundo estavam juntas. E ele havia saído do conforto da convivência com as duas para enfiar-se em um buraco e fugir de tudo aquilo que estava pensando e sentindo.
Era um covarde.
Respirou fundo e fez um breve aceno com a varinha. Escutou as poucas roupas mexendo-se dentro do armário, e logo uma bolsa negra estava flutuando ao seu lado. Pegou-a, colocando algumas moedas prateadas em cima da mesa de centro do local.
Scabior passou a mão na jaqueta escura e andou até a porta.
Saiu dali sentindo que estava tomando a decisão certa.
Mas antes ia passar em outro lugar.
Hermione estava sentada no sofá. A lareira estava acesa, as chamas bruxuleantes eram a única fonte de luz, fazendo desenhos estranhos nas paredes claras. Themis olhava tudo com atenção e fascínio, os diversos brinquedos espalhados pelo tapete fofo da sala sendo esquecidos quando a mãe conjurava fadas e as deslocava para as chamas, fazendo as sombras ficarem enormes.
Bichento observava tudo com atenção. Os olhos grandes fixos em Themis e no fogo da lareira. Ele estava vigiando a criança, como se a qualquer momento ela fosse se levantar e se atirar nas chamas.
Hermione agradecia-o por isso. Ela não estava muito atenta. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar, mas as lágrimas já haviam secado há muito tempo. Fungava em todos os minutos e sentia seu corpo todo dolorido, como se tivesse levado uma surra ou tivesse ficado sob efeito da maldição Cruciatus por horas.
O som da campainha reverberou pelo apartamento. Eram quase dez horas da noite. Hermione percebeu que Bichento havia saltado, andando em pequenos círculos por cima do tapete enquanto olhava para a porta. Themis também notou a reação do gato e abriu um pequeno sorriso. A bruxa não precisava pensar muito para saber quem era. Apenas uma pessoa fazia com que aqueles dois tivessem a reação que tiveram. E apenas uma pessoa tocaria na sua casa aquela hora da noite.
Era ele.
Lágrimas brotavam dos olhos dela, correndo pelo rosto. Ela enxugou as bochechas com a manga da blusa que estava vestindo e fungou novamente, tentando melhorar a aparência e o estado quando caminhou até a porta, abrindo-a.
Os olhos se encontraram por apenas alguns segundos, até ele correr os dele pelo corpo dela. Ela esteve chorando. Os olhos dela estavam vermelhos e úmidos. Parecia mais cansada que ele.
- Hermione... desculpe-me...
Ele colocou toda a sinceridade que possuía naquelas palavras, mas ela não parecia apta a desculpá-lo com tanta facilidade. Tentou fechar a porta, mas um choro ecoou pela sala. Era Themis, e chorava olhando para os dois. Na verdade, os olhos escuros estavam focados no pai. Hermione respirou fundo e abriu a porta para que ele entrasse, o que ele fez sem pensar duas vezes, jogando a pequena mala no chão e caminhando para a filha. Pegou-a no colo com afago, e beijou o topo da cabeça dela com carinho.
A criança parou de chorar e pousou a cabeça no ombro do homem, fechando os olhos e apertando a pequena mão no pedaço da gola da blusa dele. Parecia cochilar quando ele virou-se para Hermione, olhando-a com um pouco de receio. Bichento observava tudo com atenção.
- Quando vai me perdoar?
- Quando você me respeitar de verdade. E descobrir que não sou igual àquelas prostitutas que você costumava dormir.
Ele ficou sem respostas. Ela não lhe deu direito de discutir. Olhou-o com fúria e caminhou para o corredor.
- Coloque Themis para dormir.
Mandou, antes de fechar a porta do quarto atrás de si. Scabior ficou ali parado por alguns minutos, apenas escutando a respiração da filha ficar mais pesada à medida que ela caía em um sono mais profundo.
Ele caminhou para o corredor, entrando no quarto dela, sendo seguido por Bichento. Colocou-a no colchão e conjurou o Patrono, esperando o gato enrolar-se na poltrona fofa ao lado do berço. Cobriu-a e esperou alguns segundos, fitando-a com afeição.
Merlin, como havia sentido falta daquela criança.
Ela estava deitada há quase uma hora na cama. Não escutava nenhum barulho a não ser o das chamas da lareira do próprio quarto agora crepitando. Respirou fundo, pensando seriamente que ele devia ter voltado para aquele cortiço que chamava de hotel e que outrora chamava de lar. Havia percebido a mala preta, mas aquilo poderia significar nada.
Aconchegou-se melhor no cobertor. Minutos se passaram até que ela escutou o barulho da porta se abrindo. Seu coração se acelerou um mínimo, mas ela tentou controlar essa reação involuntária em seu corpo.
Scabior observou-a com atenção. Estava deitada no meio da cama, ignorando o lado que geralmente ele dormia. Os olhos castanhos pareciam cansados, mas ela os focava na janela grande do apartamento. A noite estava clara, parte da luz da lua cortava a cama. As cortinas estavam abertas e parte da janela também. Ele sentia uma brisa gelada correr pelo quarto, mas ela parecia não se dar conta de como o cômodo estava frio.
Andou até a cama, parando do lado esquerdo, em frente à janela. Sentou-se no colchão, ao lado dela, praticamente obrigando-a a olhá-lo. Mas ela não o fez. Fitou o vazio a sua frente. Scabior enfiou a mão no bolso interno da jaqueta e tirou dali uma caixinha negra de veludo, colocando-a em cima do travesseiro, praticamente em frente ao rosto dela.
Com isso, ele conseguiu despertar a curiosidade dela. A garota fitou a caixinha sem conseguir se conter.
- O que é isso?
Ela perguntou. Scabior sorriu minimamente e gesticulou com a cabeça.
- Apenas abra.
Ela sentou-se na cama e pegou a caixinha com mãos trêmulas. Respirou fundo e a abriu. O que viu ali lhe deixou sem palavras, o que era inédito, visto que era difícil alguém a surpreender com algum tipo de presente. Normalmente lhe davam livros achando que uma garota como ela gostava apenas de ler. Mas o que estava ali, dentro daquela caixinha, estava longe de ser um livro.
Um anel flutuava por cima de uma almofadinha negra de veludo. Um grande rubi apontava daquela joia, totalmente trabalhado. A pedra preciosa fez com que Hermione sentisse vontade de tocá-la, de colocar o anel no dedo e ficar observando a pedra reluzir devido à luz, como se sustentasse fogo-maldito dentro dela.
- Você... – não sabia o que dizer. – Como conseguiu isso? Você não pode pagar por isso...
Sabia que tal pergunta era rude. Por que não conseguia ser alguém normal e agradecer tal presente fascinante? Por que não conseguia simplesmente ser sincera e dizer que foi o presente mais lindo que havia ganhado em toda a sua vida?
Ele não pareceu se sentir ofendido com a pergunta e afirmação dela. Um sorriso dançou no canto dos lábios dele.
- Graças a você, eu tenho um trabalho...
Hermione olhou-o sem conseguir expressar nada. Apenas sabia que ele devia ter gastado todo o seu dinheiro naquela joia. Não sabia se o beijava em agradecimento ou se o xingava por ele ter sido imprudente. Mas isso era o que ele era... imprudente. Atos impensados, bem vividos, espontaneidade. Tudo aquilo era ele.
- Eu posso comprar qualquer coisa pra você, Hermione. – ele a olhou com atenção. – Basta me dizer o que quer.
- Você, seu idiota. Eu quero você.
Ela pegou a gola da blusa surrada dele e puxou-o de encontro a si, plantando os lábios macios nos lábios secos dele. E a reação de ambos os corpos foi imediata. Ela sentiu cada pedaço de pele do seu corpo se arrepiar com o toque dele, o coração se acelerar, a respiração tornar-se pesada à medida que ela sentia os lábios dele de encontro aos seus. Scabior não estava diferente. Planejou ter uma conversa com ela naquele momento, dizer que estava arrependido de ter pensado tais coisas dela, dizer que a amava.
Mas não conseguiu ignorar o desejo que se apoderou de seu corpo quando ela se aproximou dele, enfiando os dedos longos pelos cabelos embaraçados e arranhando parte da nuca no processo.
Ele plantou a mão direita no colo dela, empurrando-a com delicadeza para que ela ficasse deitada. Subiu no corpo dela e Hermione sentiu o membro já duro dele lhe prensar as coxas. Ele jogou o peso do corpo dele por cima do corpo dela e ela arfou. Sentia falta daquilo, do peso dele, do cheiro amadeirado dele, dos cabelos bagunçados roçando levemente os ombros dela quando ele se aproximava e mordia com desejo seu pescoço.
Fechou os olhos, sentindo a boca dele explorar cada canto que conseguia alcançar, as mãos retiraram as alças finas da camisola, descendo-a para que os seios ficassem expostos. A boca dele sugou um dos seios, provando o gosto ali com tamanha ânsia que fez Hermione achar que ele não o fazia há anos.
Ele começou a descer a camisola por todo o corpo dela, da mesma forma que ela começou a desabotoar a blusa que ele vestia. O casaco foi retirado com facilidade, e quando se deram conta, já estavam nus um de frente para o outro, as roupas espalhadas por todo o chão do quarto.
Scabior olhou com fome para Hermione, aproximando-se dela. Lembrou-se da primeira vez que havia tomado aquele corpo perfeito. Com desejo. Um desejo tão puro e brutal que ele apenas achou que era momentâneo. Mas aquilo ainda permanecia. Ele desejava o corpo dela, mas reconhecia ali a mulher por trás de tudo aquilo. A pessoa que ele amava.
Empurrou-a para o colchão novamente, dessa vez com mais brusquidão. Ela deitou-se ali, olhando-o se aproximar. Estava mais que claro que seu corpo nunca mais sentiria desejo por outro homem. Era apenas ele que ela queria. Apenas ele que ela desejava dentro de si.
Foi com esse pensamento que ela abriu as pernas para recebê-lo e direcionou o membro dele para sua entrada. Com um movimento rápido de quadril, ele a penetrou. Ela fechou os olhos quando o sentiu ali, no lugar que apenas ele visitaria. A respiração dele estava pesada quando ele se distanciou e bateu novamente no quadril dela, encontrando-a. Ela enlaçou-o pela cintura e Scabior desceu o rosto até o pescoço dela, mordendo-o ali para depois se aproximar do ouvido dela, dizendo tudo o que pensava enquanto a penetrava.
- Você não sabe como senti falta disso. Do seu corpo. Do seu cheiro. Das suas pernas me apertando. De você...
Ouvir aquilo sendo dito de forma tão sensual e entre respirações pesadas fez com que Hermione se sentisse excitada e gemesse em resposta, entregando-se a ele como sempre fazia, esquecendo-se de tudo o que ele havia lhe dito horas atrás. Ela o amava. E nada poderia mudar isso.
- Mais forte.
Ela pediu e ele obedeceu ao pedido prontamente, começando a aumentar a velocidade e a força dos quadris. Ele mordeu o pescoço dela novamente, fazendo-a puxar os cabelos dele. Ela tentou lutar pelo controle, queria controlá-lo, mas não conseguia. Ele a dominava em todos os sentidos, então ela desistiu, deixando-o fazer o trabalho divino que estava fazendo.
Chegaram juntos ao orgasmo, os corpos tremendo e os sentidos praticamente anulados por alguns segundos, até ele desabar em cima dela e plantar um beijo lascivo e macio no colo dela, olhando-a com mais desejo do que antes.
Hermione sorriu abertamente para ele, puxando-o para perto, abraçando-o com tamanha força, como se ele fosse embora daquela casa a qualquer momento igual havia feito.
Mas ela estava enganada.
Scabior nem pensava em deixá-la. Havia feito aquilo uma vez e fora o suficiente. Agora, nunca mais.
Os dois estavam deitados juntos na cama, ela apoiando o rosto no peito dele, ele acariciando o ombro dela. O corpo dele a deixava relaxada. Sentia-se segura com ele ali, apenas escutando o coração dele bater, sentindo sua respiração fazer com que o peito subisse e descesse.
- Eu nunca mais vou lhe deixar, lindeza.
Ele declarou. Ela não respondeu, apenas aconchegou-se melhor no corpo dele e beijou-o onde a boca conseguia alcançar.
- Desculpe-me. Eu realmente não devia ter ido àquela reunião sem você...
Ele a apertou contra o corpo e plantou um beijo no cabelo dela, inalando o cheiro de baunilha que ele tanto amava.
- Não vamos falar disso.
Ela concordou. Ambos ficaram quietos por alguns momentos, até o Patrono de Scabior chegar ao quarto, trazendo consigo um leve choro.
Hermione levantou-se na mesma hora, colocando a camisola novamente e andando até o quarto onde a filha dormia. Themis estava inquieta no berço, mas logo quando viu a mãe esticou os bracinhos rechonchudos, pedindo colo.
Hermione pegou-a e sentou-se na poltrona. Bichento estava nos pés dela, ronronando à medida que o choro da criança diminuía. Mas o bebê estava inquieto. Olhava para os cantos do quarto, parecendo procurar algo. A garota pensou em fazer uma mamadeira, mas sabia que Themis não se alimentava naquele horário. Havia aprendido a fazer leite materno com magia, porém, aquilo não parecia ser um interesse da filha.
Scabior entrou no quarto minutos depois. Vestia uma calça verde escura de malha. E só. Estava descalço e havia amarrado o cabelo de qualquer jeito. E mesmo assim o maldito conseguia ficar bonito. Ela correu os olhos pelo peito descoberto, gravando cada linha ali que desenhava o corpo dele. As linhas mais profundas do quadril descendo e sumindo quando o cós da calça as encontrava. Ele se apoiou no batente, sorrindo ao ver Hermione com Themis no colo. A criança observou-o e depois fechou os olhinhos, cochilando no mesmo momento.
Ele se aproximou e sentou-se no braço da poltrona, observando a criança dormir. Hermione percebeu que ela queria apenas os pais juntos. Não teve isso por dias e parecia sentir necessidade de vê-los ali, mesmo que agora estivesse dormindo.
- Você conseguiria amar alguém mais do que ama Themis?
Ele perguntou. Hermione fez uma pequena careta.
- Eu te amo na mesma proporção.
Scabior sorriu, pegando a criança do colo dela. Voltou-se para o berço e recolocou- a ali. Themis não se mexeu, apenas continuou dormindo profundamente. Ele a cobriu.
- Não digo isso. O amor que você sente por mim é diferentedo amor que você sente por ela. Digo amar alguém da forma mais pura, como a ama.
Hermione sentiu que aquela era a hora perfeita para dizer o que pretendia dizer. Sorriu com isso e olhou para ele.
- Mas eu já amo alguém assim.
Scabior não entendeu, até ver que a garota passava a mão na barriga com delicadeza e carinho. Ficou ali apenas observando-a fazer aquilo. Aquilo era sorte demais caso acontecesse. Ela não podia... mas como? Não. Não podia ser verdade.
Mas quando ela o olhou novamente e sorriu. Scabior compreendeu que aquilo podia sim, ser verdade. Apenas esperou-a falar.
- Scabior, eu estou grávida.
Nota da Autora: Para quem não reconheceu o anel que Scabior deu para Hermione, releiam o capítulo 21 (Problemas).
