Alex, eu não posso concordar com isso.

Você não pode, ou não quer?

Eu não acho justo.

Alex levantou de imediato, prendendo o cabelo de qualquer jeito.

O que você está fazendo? – Piper sentiu um buraco abrir em seu peito.

Não é óbvio?

Você vai embora?

Sem dizer nada, Alex caminhou até o banheiro, e segundos depois voltou vestindo uma calça jeans, e uma jaqueta.

Alex, se você sair desse quarto, não precisa mais voltar. – falou, exasperada.

Não se preocupe.

É assim que vai ser? O que aconteceu com suas promessas, porra? – Piper só se deu conta de que estava chorando, quando uma gotícula de lágrima pingou quente entre os dedos de sua mão.

Minhas promessas? – sorriu, dolorosamente. – Jura que você se importa?

Eu me importo! – completou em voz baixa. – Você queria me fazer chorar? Ótimo, conseguiu! Agora quer voltar aqui para conversarmos?

Não entraremos em um acordo, Piper. – parou diante a porta. – Você quer colocar o passado nos nomes de seus filhos.

Alex, eu juro por Deus.. – secou ás lágrimas. – Quer parar de ser dramática? Eu não posso me estressar, por favor, sente aqui. – apontou o lado vago da cama.

Alex se castigou mentalmente. Colocou sua raiva em primeiro lugar, esquecendo a fragilidade de Piper. Mas não queria continuar ali e concordar com aquela ideia ridícula.

Eu posso te escutar daqui. – disse, cruzando os braços.

Ok.. Vai. – Ela deitou, com dificuldade. Se Alex fosse agir igual uma criança mimada, faria isso sem sua contribuição. Curiosamente, ela permaneceu parada feito uma estátua.

Alex cerrou os olhos e respirou fundo.

Piper.. – foi se aproximando, devagar. – Eu não quero que Brad seja o pivô de nossa briga.

Você enlouqueceu? – perguntou, virando o pescoço o suficiente para olhá-la. – Queira você, ou não, Brad biologicamente é o pai dos meus filhos.

Eu prefiro pensar que ele foi somente um doador. – sentou, olhando para a parede. – As crianças não precisam ter o sobrenome dele.

Eu não vou excluir Brad da vida deles. Quero que eles cresçam sabendo que seu pai foi um homem bom, amigo..

Não disse? Não iremos entrar em um acordo aqui. – a cortou, entristecida. – Irei me sentir excluída.

Você só pensa em si mesma. – revidou, interrompendo-a também. – Se você realmente considerou a ideia de ser a mãe dos meus filhos, entenderá que não será nada demais para eles saberem da existência do pai. Nada mudará, porque eu tenho certeza que eles irão te amar do mesmo jeito.

Eu.. bem.. – Alex ficou muda.

Não vou obriga-la a nada. E não mudarei de opinião. Você tem o seu livre arbítrio.. – Comentou, de olho na figura de Alex, que andou em silêncio até o banheiro. O mundo, lá fora, seguia seu curso, como se a morte de Brad nada tivesse significado. Essa era a questão, pensou ela, num suspiro: a vida continuava sempre, mesmo quando se tinha vontade de gritar "não!". Abraçou-se ao travesseiro, sentindo que, em seu peito, uma vaga esperança se desvanecia. Alex retomou para a cama, vestida com o pijama de Piper. Seu rosto estava fechado.

Desculpe se fui infantil. – ela disse.

Piper se manteve calada. Notou que Alex mexia os lábios, como se travasse uma luta interna com as palavras. Ela era sempre assim, quando sentia raiva.

Eu estou chateada, mas não desistirei dos meus filhos. – virou de costas, cobrindo a metade do corpo.

Alex, eu amo você. E quero que entenda que estou fazendo o que é certo. – esclareceu, encostando seu corpo ao dela.

Durma bem, Piper. – desejou, com o corpo rígido.

Xxx

Piper respirou fundo e afastou as cobertas, sentando-se na cama. O céu projetava seus raios claros para dentro do quarto através dos vidros da janela. Alex ainda dormia, do mesmo jeito de sempre: Pernas encolhidas, com as mãos entre as pernas. Na cozinha, Piper preparava uma salada de frutas, de olho nos últimos e-mails que havia recebido de uma livraria da cidade vizinha.

Oi mãe! – Maya estava sorridente, seu dente já estava maior, ocupando o espaço antes vazio.

Bom dia, querida.

Você está bem? – deu a volta na cozinha, chegando perto de Piper.

Sim. Muito bem na verdade. – sorriu, dando uma garfada no seu café da manhã. – Não está com fome?

Estou! – ela apertou o queixo. – Mamãe?

Sim?

Eu posso ter um gato?

Não. – Piper abria uma nova embalagem de cereais.

Maya arrastou o pé no chão, totalmente insatisfeita.

Por quê? Katy Perry tem gatos. – tentou convencê-la.

Você quer morar com a Katy Perry?

Mamãe.. – choramingou, inclinando o pescoço para trás.

Piper gargalhou do drama teatral da criança.

Nós iremos nos mudar em breve. – empurrou o cereal e o leite na direção de Maya. – Coma tudo, em uma hora tio Pete vem busca-la.

Ok! – misturou o leite no cereal colorido. – Por que Sylvia bateu em você?

De novo aquele assunto? Piper não queria mais ter que tocar no assunto, por pelo menos mil anos.

Ela estava bêbada, May.

Ela gosta da tia Alex. – mastigou, movendo a cabeça, em negação. – A Rose gosta do meu namorado. Ele gosta de Lady Gaga, e sabe cantar todas as músicas dela. – buscou ar para continuar. – Rose é minha melhor amiga, eu não quero brigar com ela, mas não é certo ela gostar do meu namorado.

Namorado? – Alex parou no meio da cozinha. – Piper, você ouviu isso?

Maya, quem é seu namorado? – Piper a olhou, prestes a bronqueá-la.

Maya deixou seu cereal de lado e olhou para as duas.

É o Mathew.

Piper!

Alex, espere. – ela calmamente respirou fundo. – Maya, você é muito nova para namorar.

Você uma vez disse que para se amar não tinha idade. – enfrentou-a.

Piper Chapman! – Alex exclamou.

Alex. – Piper abriu os olhos, sorrindo, voltando-se para Maya, deixou o sorriso sumir. – Você está certa, filha. Não tem idade certa para se amar. Mas você ainda é uma criança, e crianças não namoram.

Eu a levo na escola hoje. – Alex disse, ao chegar até Piper. – Bom dia. – Beijou sua testa.

Não será necessário, Pete vem busca-la.

Eu faço questão.

Alex, eu te conheço. Sei que você quer ir atrás do menino e tirar satisfações. – ela a olhou e acrescentou. – Maya já entendeu que não se deve namorar em sua idade. Não é querida?

Maya fez uma cara de deboche para Alex, e concordou com Piper.

Eu não quero ouvir você falando de namorado, ou um bicho amarrará seus pés e de Mathew de noite. – falou com a voz terrivelmente assustadora. Maya paralisou, com medo.

Você a está assuntando, Alex. – Piper riu, confortando a filha. – É mentira, amor.

É verdade. – enfatizou, Alex.

Depois não reclama.

Eu te amo também, Piper.

Maya rumou para a escola, deixando Piper e Alex na companhia de Benjamin. O menino ainda dormia, Alex teria que voltar para Manhattan, viajaria para Inglaterra em dois dias, para a última reunião antes de abrir uma filial no país. No decorrer do dia, Alex se manteve fechada, Piper estava sempre tentando chegar a um assunto mais ameno, mas ela sempre respondia as perguntas, e se calava na sequência.

Xxx

Alguns dias depois.

Puta merda, você está tão abatida. – Polly disse, segurando dois cafés espresso macchiato. Piper empurrava o carrinho de Brinn, que mordia um brinquedo para bebês.

Muito observadora.

É Alex?

Ela não quer que eu dê o sobrenome de Brad aos bebês.

Que bobagem. – Polly deu uma golada em sua bebida. – Tome. – Passou o copo para Piper, que rapidamente o apanhou.

Eu já não sei o que fazer.

Você já fez sua escolha, e eu estou do seu lado.

Claro, levando em conta de que vocês se odeiam.

Não é bem assim.

Claro. – ironizou. – Eu preciso ir, Nicky me espera com as crianças em casa.

Você sairá em vantagem se teu apartamento estiver de pé ainda.

Eu espero estar em vantagem! – abraçou-a. – Te vejo em breve.

Se anime, Piper.

Qual é? Eu estou animada.

Vai se foder. – acenou, com petulância. – Até amanhã.

Piper deu uma risada de lado. Antes de ir diretamente para casa, parou para comprar alguns legumes, estava com uma vontade absurda de comer cenouras. Ao entrar no local viu Alex, o susto inicial piorou quando viu ao seu lado a mesma mulher com quem a viu conversando no hospital. Ela segurava uma cesta para a outra ir colocando uns tomates dentro. Uma súbita raiva foi tomando um espaço maior a cada sorriso que ela direcionava a mulher. Piper tirou o celular da bolsa e discou o número dela, escondendo-se atrás de uma pilha de uvas. Alex puxou o aparelho do bolso e o olhou, mas não atendeu. Piper tentou outra vez, outra, outra, em todas às vezes Alex se recusou a atendê-la. De repente toda sua vontade de comprar os itens, desapareceu. Ela caminhou lentamente para o outro lado, ignorando as pessoas que esbarravam em seu corpo. Alex ajeitou os óculos, sorrindo novamente. Em uma olhada rápida, a viu parada. Todo o sangue de seu corpo se concentrou em sua face. Ela não esperava encontrar Piper ali.

Merda! – disse, para si.

Piper se retirou no modo automático.

Piper! – Alex gritou, correndo atrás dela. – Piper! – chamou-a dessa vez mais alto.

Piper nem olhou para trás, entrou no carro, e o ligou o mais rápido que pode. Seu modo robô estava ativado. Acelerou o veículo até se afastar daquele lugar. Soube que Alex a seguiria, então fez um caminho diferente, sempre olhando pelo retrovisor. Notando o sinal verde, não tardou e novamente acelerou o carro. De repente ela observou uma BMW cruzando a avenida em alta velocidade. Por puro instinto, ela pisou no freio com os dois pés e ouviu o cantar dos pneus deslizando no asfalto. Ela gritou e então sentiu tudo escurecer ao seu redor.