Tu me dizes que siga o meu destino;
Que o teu amor na ausência
Ser leal, e fino...
Tomás Antônio Gonzaga
36 Capítulo
Sakura olhava com ternura para o rosto triste de Shoran.Ao vê-lo tão desesperado por notícias de Hanako sentia-se uma das piores pessoas do mundo, já que negara a ele o direito de ter convivido com a menina.Estava altamente preocupada e nervosa imaginando que ele de uma certa forma se sentia culpado pelo o desaparecimento de Hanako. O amava com loucura e não suportava ler nos olhos dele o quanto ele se sentia impotente perante a situação.
-Sakura, por favor, não se culpe pelo o que aconteceu no passado, mais do que ninguém sei que sou o único culpado por nunca ter tido nossa filha entre os meus braços.-falou acariciando os cabelos cacheados da amada.
-Eu... eu devia ter sido mais forte... Devia ter tomado as rédeas de minha vida, e não ter aceitado que o destino brincasse de maneira tão cruel com nossas vidas.
-Shhh, já falei meu amor que o passado não me importa.-falou aconchegando o rosto dela em seu peito.-O que aconteceu deve apenas ficar renegado ao passado, não adianta nada ficar rememorando um fato tão triste que nos atormenta.
-Eu tirei o seu direito de ser pai...
-Isso não me entristece, Sakura.-falou com um olhar distante.-Não posso mentir que não sinto muito por não ter estado a seu lado quando precisou de mim... Deixei as duas pessoas que mais amo no mundo num momento que devia ser mágico, tanto para mim como para você.-concluiu a beijando com candura.-Mas não podemos viver pensando no passado, que foi tão cruel conosco.
Não podia negar que sentia uma dor que o cegava todas as vezes que pensava que dera sua única filha para um estranho cuidar. Deixara Sakura sem saída ao não responder aquela maldita missiva... Pensara que estava fazendo algo digno, mas na verdade estava cometendo o pior erro da sua vida. Perdera muito pensando que estava fazendo o certo...Agora sua única salvação era reencontrar a filha e pedir de joelhos desculpas por tantos anos de ignorância.
-Os fantasmas nunca irão nos deixar em paz Shoran.-disse ela beijando o rosto dele.-Estarei sempre presa a um homem que me trai... Casei-me com um monstro, um poço de vaidade e agora não encontro uma saída.
-Não pense nisso agora.-falou rangendo os dentes.-Tenho ótimos bacharéis que cuidará da anulação de seu casamento... Não há nada que a justiça não resolva nesse caso.
Queria ter a tamanha confiança dele, mas não podia ter... Era proibido. Havia convivido dezessete anos com Yukito e o conhecia muito bem. Se descobrisse que queria o divórcio, com certeza não aceitaria. Yukito era hipócrita o suficiente para conviver com uma pessoa que não amava apenas para não vê-la feliz.
-Queria ter sua confiança, mas acho impossível.-falou se levantando do sofá.-Ele tem poder, e jamais permitiria...
-Ele não tem que permitir, Sakura.-disse levando as mãos na testa.-E eu jamais terei medo de enfrentá-lo para proteger você e Hanako.
Não iria perder pela a segunda vez Sakura. Por ela iria lutar até a morte, ou até mesmo perder o seu último centavo. Mesmo que não conseguisse a anulação desse casamento malogrado, Sakura era sua e nenhum documento iria impedi-los de ficarem juntos... Uma vez deixara o destino brincar com os seus sentimentos, mas agora não era mais um garoto cheio de ideologias falhas e hipocrisia barata.
-Só irei deixá-la Sakura, se caso você me pedir, mas mesmo assim jamais serei capaz de apagar o que sinto por você.
Havia passado por tudo na vida, por medos que a fizeram se fechar no seu mundo. Que a fizera esquecer de que um dia foi feliz em sua medíocre vida de faz de conta, e por isso havia pagado por tantos anos de sofrimentos. Nunca mais seria fraca, nunca mais iria se separar de Shoran.
-Mesmo que quisesse meu amor, jamais seria capaz de mandá-lo embora.-falou sorrindo timidamente.-Uma vez dei as costas para você sem pensar no inferno que iria enfrentar... Errei uma vez e aprendi com o meu erro.
-Então não tem motivo para continuar preocupada com o que Yukito poderá a vir fazer comigo, pois ele não me assusta querida.-disse abraçando ela.-Não irei deixá-la sair do meu lado...nunca mais ouviu.
Como queria ficar abraçada com ele para sempre. Não teria nada melhor no mundo, seria uma mulher feliz, esqueceria de tudo e de todos e se fecharia num mundo onde só Shoran participaria. Trancaria-se e só ele teria a chave, mas a vida era bem mais séria do que podia imaginar. Ainda temia a reação de Yukito... por mais que estivesse decidida a colocar tudo em panos brancos e limpos, não podia deixar de se sentir temerosa com a reação do marido ao descobrir toda a verdade. Afinal foram tantos anos mentindo que estava bem quando na verdade seu marido mal a havia tocado em todos aqueles anos de casamento.
-Como queria poder ficar assim com você para sempre, Shoran.-sussurrou beijando o pescoço dele.-Mas temos que descer...ou alguém pode nos pegar...
-Eu sei.-falou sério.-Você não pode medir o tamanho do meu ciúme...
-Não tenha...Nunca tenha ciúmes de mim com Yukito.-falou sorrindo acariciando o rosto dele.-Nunca fui capaz de sequer dar um beijo no rosto dele quanto mais ter...
-Shhh, não quero saber de sua vida com aquele homem.-beijou-a com paixão enquanto a afastava.-Saber que você carrega o nome dele já é o suficiente para querer matá-lo.
O seu sentimento por Sakura era algo que transcendia o seu bom-senso. Com ela a seu lado tudo perdia a importância, nada mais tinha valor e a qualquer momento o mundo poderia acabar, pois só o fato de tê-la junto de si já o deixava em estado de êxtase, pronto para viver ou morrer desde que estivesse nos braços dela. Odiava saber que um homem era o dono dela, pois no fundo era ele que tinha esse direito... Desde que a perdera evitava ter pensamentos machistas, mas o que sentia por aquela mulher era tão ou mais forte do que seu orgulho e dignidade que chegava até mesmo perder a razão sobre seus atos e pensamentos.
-Mas juro Sakura que não irei perdê-la novamente...se um dia por incompetência de minha parte algo acontecer com você nunca irei me perdoar, e jamais seria capaz de olhar para eu mesmo novamente.
-Nada irá acontecer comigo Shoran.-falou amargamente.-Yukito é um ser quase inofensivo...se ele quisesse fazer algum mal para mim ou para nossa filha oportunidade não teria faltado, o que mais temo é vê-lo mais uma vez prejudicado por minha causa.-concluiu acariciando o rosto dele.-Convivi por quase vinte anos com Yukito...Sofri, mas não quero que nada aconteça com ele... Não viveria feliz a seu lado sabendo que sujou suas mãos com o sangue de Yukito... Seria mais uma cruz para ambos carregarmos...
Shoran sentiu uma onda de ternura invadir seu coração, mais uma vez tinha certeza de que nunca devia abrir seu coração por completo para ela. Afinal fora ele o bastardo que tirara a vida de Touya...Odiaria ter que colocar tudo a perder agora que o destino voltava a sorrir para ele.Seria horrível ter que conviver com aquele peso nas costas, mas seria pior se perdesse novamente Sakura. Os mortos deveriam permanecer mortos, já pagara um preço alto demais por seus atos impensados. Afinal dezessete anos era tempo demais para quem amava.
-Prometa-me Shoran...jure por nossa filha que não tentará nada contra a vida de Yukito.-suplicou beijando uma das mãos de Shoran.-Não agüentaria...
Não queria que nenhum mal acontecesse com Yukito. Não o amava e nem sequer um carinho de irmão sentia por ele, mas nem por isso queria vê-lo morto. Ainda se lembrava com carinho dos momentos de sua infância e a amizade que Touya tinha por Yukito.Não suportaria saber que Shoran fora capaz de assassiná-lo...Seria uma marca muito pesada no relacionamento deles...Uma marca que jamais seria apagada.Via nos olhos de Shoran um ódio mortal por seu marido, não tirava as razões dele, mas nada justificaria a violência que procederia aquela morte. Vivera anos atormentada por um fantasma e não era agora que passaria o restante de sua vida atormentada por outro.
-Tentarei me controlar, meu anjo.-falou afastando as mãos dela de seu rosto.-Tentarei por você e por Hanako, mas não tenho sangue de barata Sakura...
-Shhh...Yukito é uma boa pessoa...
-Pode até ser, Sakura, mas ele não agiu certo com a nossa filha.-falou abrindo a porta.-Tentarei agir pacificamente, mas se caso isso não adiantar não hesitarei em defender com sangue sua honra.-concluiu beijando-a nos lábios com candura antes de fechar a porta.
O seu sangue gelou ao perceber o olhar quase insano de Shoran. Será que ele não percebia que ao defender sua honra estaria cometendo o pior pecado que tinha no mundo. Nada justificava que outro ser humano tirasse a vida de outro...Não julgava seu amado como um anjo, sabia muito bem o que ele tinha feito para defender sua pátria e sua ideologia, mas não queria vê-lo metido naquele maldito meio novamente. Queria apenas viver o restante de sua conturbada vida feliz, sem nenhuma preocupação, ao lado das pessoas que mais amava no mundo. Porém, sabia que Yukito não desistiria dela com facilidade já que um casamento mesmo que arranjado e sem amor era lucro para ele. Ainda mais sabendo do escândalo que seria o pedido de divórcio e o seu casamento com Shoran. Afinal ainda viviam em uma sociedade com valores distorcidos e hipócrita.
Valores como aqueles que a induzia a fazer o papel cômico de esposa conformada com a traição do marido.Valores esse que a havia impedido de ser feliz uma vez, mas que agora não mais interferiria em sua vida...Viveria um dia de cada vez e sempre ao lado de Shoran. Aquela seria a última noite que sentaria na mesma mesa com Yukito como sua esposa...
As mãos de Tao estavam geladas de nervosismo.Mesmo estando tudo preparado para sua vingança e tendo uma bela mulher a seu lado não conseguia parar de pensar em seu futuro e de como seria dali em diante. Valeria a pena arriscar sua cabeça em um plano arriscado? Eram várias perguntas que ficariam sem resposta e só o destino poderia lhe responder mais para frente.Pagaria para ver todos caídos aos seus pés...e seu grande partido no poder expulsando todos os invasores que empestavam a China. Nada daria errado...nem mesmo se Shoran o reconhecesse o que era impossível. Levando em conta de que sempre fora um bastardo para o clã Li.
-Aconteceu algo Hao?-perguntou Yu notando o nervosismo do parceiro.
-Estou bem querida.Apenas um pouco ressabiado, pois não sei onde irei pisar.-confessou beijando as mãos dela.
Achou estranha aquela atitude de Hao.Sabia que ele era misterioso, decidido e que carregava marcas profundas, mas no fundo era uma boa pessoa. Ninguém a ajudara quando realmente precisara, mas agora contava com a ajuda dele mesmo que por pouco tempo... Ganharia a confiança dele. Pela a primeira vez durante anos fora plenamente feliz. Era praticamente outra mulher, mais sofisticada, com perfumes e jóias caras...Que nada lembrava a antiga Yu dos tempos do bordel. Mas o que mais intrigava era o nervosismo de Hao...Afinal aquele era um ambiente comum para ele.
-Pensei que essas pessoas fossem seus amigos...-falou pensativa.
-Não, não, infelizmente não conheço ninguém.-informou abrindo a porta do carro para a dama.-Esse é apenas um jantar oferecido por um senhor, cuja vida salvei.
Yu se sentiu extremamente orgulhosa do digníssimo cavalheiro que a acompanhava. Afinal era um herói e não um vilão como desconfiava. As palavras de Melina não tinham fundamento, afinal que senhor com más intenções iria salvar a vida de outro indivíduo. Admirava o homem que estava a sua frente e jamais teria motivos para duvidar da palavra dele. Um dia quem sabe ele viesse a dar explicações sobre o que queria definitivamente com ela, mas agora estava disposta a desempenhar seu papel com perfeição. Não era nenhuma atriz de teatro, mas sabia como ninguém desempenhar bem seu papel como atriz quando bem queria.
-Que ato nobre...-sussurrou entrando no imenso jardim.
-Pode até ter sido um ato digno, mas não acho que seja esse o motivo para ter orgulho de meus atos.-falou amargamente sentindo o estômago retorcer quando adentrava a mansão.-Não fiz isso para ser recompensado, o salvei por uma questão de ética, princípio e honra.
-Nunca foi minha intenção julgar que por de trás de um ato digno tivesse uma segunda intenção de sua parte. Além do mais sei que você não precisa agir de uma forma tão vil para conseguir atingir algum objetivo seja ele qual for.
Yu falava com tanta propriedade que o assustava. Agira de forma maquiavélica para atingir um objetivo na vida que era mostrar ao mundo e aos próprios chineses que seus ideais não estavam mortos e que nada que aqueles bravos guerreiros fizeram no passado foi em vão. Havia sido como muitos vítima de uma sociedade mesquinha que adorava julgar o semelhante, mas que nunca olhavam para os seus próprios problemas. A China virara área de interesse das grandes potências mundiais. Ali todo mundo entrava e pegava, enquanto o povo era vítima de doenças escabrosas. Não, não agia apenas por vingança, mas também por justiça. E não agira de forma aleivosa com ninguém... Estava agindo conforme foi lhe passado há muitos anos. E não iria por nada naquele mundo desistir agora que estava próximo do fim.
-Linda residência...-sussurrou Yu ao pé de seu ouvido.-Nunca em toda a minha existência pensei que iria sequer pisar em uma casa de tamanho porte como essa.
-É realmente belíssima.-disse amargamente retirando a estola dos ombros dela.
Era tudo imponente, belo e riquíssimo. Afinal depois da eminência falência os Li não podiam deixar vestígios de seus tempos de pobreza. Embora aquela imponência toda se devia a apenas uma pessoa, que era Shoran. Fora ele que reerguera a família e até hoje a carregava nos braços sustentando o sobrinho e a prima...Realmente não queria nada do clã Li... O dinheiro e nome daquela estirpe já não tinham mais tanto valor... já não era mais uma criança desprotegida que fora esquecida no tempo e no espaço por aquela linhagem.
-Bem vindo a minha residência provisória Hao.-a voz mesquinha e falsa soou em suas costas fazendo olhar para aquela estirpe horrenda.-Espero que tenha sido fácil o acesso até...
-Nunca seria difícil localizar uma casa de tamanho porte e imponência, ainda mais sabendo que vossa excelência está morando temporariamente na casa do respeitoso Shoran Li.-falou indolente reparando que o soberbo homem estava sozinho.
-Realmente não deve ter sido muito difícil levando em conta que sou um "corpo não muito grato" nessa cidade.
Apenas fez um gesto com a cabeça notando que os olhos do avarento senhor caiam sobre o decote ousado de Yu. Realmente nunca errava em seu raciocínio lógico, mesmo mal conhecendo aquela moça o velho Yukito já se mostrava atraído por ela. Agora mais do que nunca tinha certeza que seria muito mais fácil terminar aquela missão do que imaginava.
-Quem é essa belíssima dama que está a seu lado?-perguntou sugestivamente sem tirar os olhos da bela visão do busto quase exposto de Yu.
-Bem, essa é minha mulher Yu...
-Então é casado! Que boa surpresa.-falou imediatamente mudando sua postura.-Com certeza minha senhora adoraria te conhecer, senhora...
-E eu muito mais a ela, senhor Tsukishiro.-falou com gracejo social.
Aquela sim era um belo exemplar de beleza feminina. Tinha classe, educação, além de tudo era linda como nenhuma mulher que em toda sua longa vida tinha sequer conhecido. Sakura agia da mesma forma, mas não era vibrante como aquela moça parecia ser... Era uma pena que tamanha beleza já tivesse um dono, que parecia possessivo e cruel.
-Com certeza irá conhecê-la senão hoje ou outro dia qualquer.-falou sentando no sofá.-Infelizmente Sakura está indisposta e não descerá hoje.
-Realmente é uma pena, senhor...-falou graciosamente.
-Eu sei... mas viagens longas sempre mexem com o seu equilíbrio físico e mental.-desculpou-se sorrindo.-Mas não tenha dúvidas que não faltarão oportunidades para conhecê-la.
-Assim espero.-falou sedutoramente.
Tao observava tudo com prazer quase palpável, era impressionante presenciar o talento artístico daquela mulher. Realmente ela não devia ser prostituta e sim uma atriz. Mesmo não sabendo nenhuma vírgula sobre o seu plano ela atacava o grande homem com perícia melhor do que se ele tivesse contado como queria que ela agisse. Só podia ter pena daquele senhor e nada mais... Com certeza a indisposição da mulher se dava ao fato do desaparecimento da filha dela com Shoran, e não dele. Odiava pessoas hipócritas que faziam da própria vida um inferno para se manterem bem perante uma sociedade pior do que eles. Seria melhor assim, sem Sakura ou até mesmo sem a sua "família" como testemunha, embora fosse muito melhor ver a cara de susto de cada um deles, mas infelizmente nada era perfeito.
-Vamos até a sala de jantar.-falou Yukito indo até a porta.-Lá está o senhoril e a sua prima, acho melhor jantarmos com eles, afinal acho que vossa excelência tenha um grande prazer em conhecê-los.
-Não tenha dúvidas, senhor.-Tao falou sorrindo sarcasticamente.
Afinal iria conhecer realmente sua família. Iria adorar ver os olhos confusos de Shoran quando percebesse que o seu primo e empregado que antes o servia agora iria jantar na mesma mesa que ele. Seria um prazer que não teria palavras para descrever.
Shoran entrava no recinto com o rosto frio. Era quase inumano compreender a feição tão decidida dele. Meiling mesma não entendia e jamais compreenderia o primo... Nem ao mesmo sabia o que a trazia ali naquela sala sabendo que fora escorraçada daquela casa por ele.
-Por que a refeição não foi servida?-perguntou Shoran de mau-humor.
-O seu digníssimo hóspede convidou alguns indivíduos para jantar em nossa casa, e infelizmente já não moro mais aqui para dar ordens aos empregados.-respondeu friamente com a cabeça baixa.
Shoran não respondeu, era o cúmulo que em tão pouco tempo aquele senhor pensasse que poderia mandar em sua casa. Já não bastava ter tirado Sakura dele.
-Isso não vai ficar assim...
-E o que você irá fazer, meu amor? Expulsar o marido de sua amante ou simplesmente em um ato heróico de livros românticos matará o vilão para ficar com a mocinha.
-Poupe me de suas ironias, Meiling.-falou secamente sentando-se à mesa.-Estou em minha casa, portanto quem manda aqui sou eu e assim será sempre.
-Não foi bem isso que lhe perguntei, meu primo.-rebateu sorrindo sarcástica.-Mas compreendo que tenha o dever de proteger sua amante já que a sofrida Sakura é um ser quase intocável, sofrido que acaba de perder a filhinha. Mas sabe que o mais estranho é o fato do digníssimo marido trazer outros hóspedes e não comunicar nem mesmo a esposa...
-Onde está querendo chegar com essas insinuações caluniosas, Meiling?
A expressão nos olhos dele já não mais a assustava. A deixava cada vez mais tentada acabar com aquela expressão de felicidade que irradiava daquele homem frio. Já havia perdido tudo, não era mais necessário ela medir suas palavras ou poupar quem quer fosse...sua máscara já havia caído por diversas vezes.Nem mesmo com o seu amor poderia voltar atrás no seu destino...Amanhã estaria renegada a solidão.
-Em nenhum momento insinuei nada, meu primo, apenas estou falando algo que presenciei...-falou ironicamente.-O nobre senhor e a sua mais nova amante...Desculpe-me, quer dizer hóspede.
-Não me interessa saber sobre a vida íntima do senhor Tsukishiro ou muito menos de quem ele traz para o seu convívio pessoal.-falou contendo a ira que ameaçava explodir a qualquer momento.-O que não desejo é que minha casa vire uma baderna, e conversarei com aquele senhor para que isso não volte a acontecer.
-Com certeza ira tomar a atitude certa Shoran, aliás, como sempre você está com a razão.-falou ela dissimulada.-Apenas espero que note a minha ausência quando àquela mulherzinha for embora com o adúltero do marido...
-Jamais sentirei falta da senhora.-disse sorrindo sincero.-Tinha uma dívida com Chao que foi paga há muito tempo, o meu comprometimento com Chang e você acabou...Tenho uma grande estima pelo o menino, afinal ele foi criado como se fosse realmente meu filho, mas por você, Meiling, só posso sentir desprezo pela figura patética que a sua ambição a transformou.-falou em tom de repugnância.-Juro que irei sempre pensar em você com carinho, mas jamais com orgulho, pois uma pessoa tão desprezível e cruel só merece o respeito de ninguém nem mesmo do próprio filho.
Era enternecedor olhar para a figura arrogante de Meiling, que com uma pose de rainha de si e do mundo pensava que poderia saber mais do que ele. Havia por muitos anos tampado o sol com a peneira, colocara uma venda para não ver as barbaridades que a prima cometia quando alguém ousava sequer atravessar seu caminho. Jamais poderia amar uma pessoa cuja vaidade era maior do que o amor pelo o próprio filho. O destino escrevia certo por linhas tortas, como sempre dizia o secular ditado popular... Talvez fora certo ele passar por anos de solidão. Aprendera muito com isso, não teria sido um bom pai ou um bom marido para Sakura e Hanako. Era arrogante e cruel... No fundo Meiling era reflexo do que fora no passado. Uma pessoa tão cruel que fora incapaz de perceber que a felicidade estava ao alcance de suas mãos.
-Talvez tenha razão meu primo, mas pode escrever... Não me arrependo de nada que fiz, e jamais irei me arrepender, jamais...-sussurrou ela com um brilho audaz nos olhos.
-Nunca pensei ao contrário, minha prima.-falou seco, sem expressar sentimento algum.
O silêncio era constrangedor. Talvez porque tanto ele como Meiling já tivesse uma noção de aquela seria a última vez que falariam sobre o passado e como tudo parecia voltar à tona. Ambos permaneciam sem demonstrar sentimento nenhum, embora ambos estivessem atormentados com os seus problemas. Ela pela incerteza do destino e ele ansioso para conseguir a tão esperada felicidade.
Meiling fora a primeira que viu o grande e fabuloso Yukito entrar na sala acompanhado por um jovem casal chinês, que demonstrava sentir um terrível constrangimento por estar ali naquele momento. A mulher muito bonita tinha porte de imperatriz e o homem elegante tinha a fisionomia conhecida... muito conhecida. Por um momento jurou que fosse Chao adentrando mais uma vez pela aquela porta, mas não era...Chao havia morrido e aquele moço era bem diferente. Mas mesmo assim não pode controlar o frio que subiu a sua espinha quando deparou com o olhar melancólico e frio que o rapaz lhe direcionava.
-Desculpa a demora, atrasamos um pouco pois queríamos que o digníssimo doutor Hao avistasse sua belíssima residência, Shoran.-falou Yukito com uma certa cerimônia.
-Espero que seu amigo tenha gostado da casa de meu primo.-Meiling foi a primeira falar, pois Shoran ainda não havia sequer se dignado a olhar para a cara de Yukito.
-Não há residência tão bela em toda a China.-falou Tao sorrindo para a mulher.
-Ficamos muito felizes que tenham gostado.-falou ela agindo como anfitriã.-Por favor, sentem-se vou mandar Lin servir a refeição.-concluiu se levantando.-Não, não, por favor, permaneça sentado.-falou ela vendo o jovem se levantar em um gesto que um cavalheiro faria.
Shoran observava tudo com desprezo e pouco caso. Não havia sequer encarado os "convidados" de Yukito, aliás, preferiria agir dessa maneira. Afinal não era sua obrigação ser educado com aquele homem, sua obrigação era sentar e resolver os problemas diplomáticos que havia entre os dois países.
-Espero não tê-lo feito esperar...
-Claro que não, Yukito.-falou calmamente encarando o homem.-Estava aproveitando para pôr os assuntos em dia com minha prima e ler alguns jornais.-era irônica a forma que se expressava.
-Espero que as novidades sejam boas.-Yukito falava com a maior naturalidade, como se conhecesse Shoran há anos.
-Algumas sim outras nem tanto, mas a vida é assim. O mundo não é feito apenas de notícias boas, mas também de desastre e fome.-disse mostrando o jornal.-Essa guerra impensada não foi um grande negócio para nenhum país europeu, aliás, essa guerra enriqueceu mais as potências mundiais, como o seu país e os fabricantes europeus.-concluiu sorrindo cinicamente.
Yukito ficou sem compreender o sentido daquela frase solta de Shoran, que havia soado mais como uma provocação do que um elogio. Mas o que podia cobrar daqueles porcos chineses que não davam sequer valor pelo o que o Japão havia feito em favor da China durantes anos. Tinha que admitir que eram inimigos seculares, não era hipócrita ou ignorante. Entendia muito bem sobre a política de seu país e dos outros que o cercavam. Mas o fato era de que os chineses nunca foram audaciosos... Era em vista a superioridade japonesa em vários aspectos da economia e da organização social.
-Infelizmente o mundo é manipulado pelo o dinheiro, Shoran.-rebateu ele sem esconder sua contrariedade.-Sei que vocês chineses pensam iguais alguns descendentes russos... Querem uma sociedade mais justa e igualitária, mas isso é praticamente impossível. O capitalismo não vai morrer tão cedo.
-Concordo com você, Yukito.-Tao falou exultante para chamar a atenção.-Idéias utópicas foram apenas para ficar nos livros de filósofos bêbados, que pensam que o mundo é um paraíso.Devo defender com unhas e dentes a permanência do capitalismo na China.-concluiu se odiando por ter que concordar com aquele energúmeno.
Shoran finalmente olhou para o jovem menino que sentava a sua frente. Como um raio foi atingido... Não podia ser possível que fosse Tao que estava ali! Um menino pobre que até hoje não tinha tido dinheiro para sequer sobreviver agora se sentava a sua mesa. Só podia ser ele e ninguém mais... Uma imitação perfeita de Chao.
-Cada um pensa conforme sua ideologia, o que acha que seja certo.-rebateu Shoran sorrindo para o jovem.-Pouco sei sobre a situação da Rússia com relação a sua quase inevitável guerra, mas acho que se o ideal comunista for empregado com rigorosa semelhança do que foi proposto por Marx, aquele país tem grandes chances de se libertar.-disse não escondendo seu ideal político.-Mas infelizmente o dinheiro é o grande dono desse mundo como falou jovem...
-Nenhuma nação é capaz de sobreviver só de ideologia, Shoran.-cortou Yukito com os olhos fechados.
Shoran já não mais prestava atenção no que Yukito falava, tinha a visão e a mente voltada para a mulher que entrava no recinto com graça e elegância de uma dama. Seu coração estava batendo de forma descompassada... que era quase impossível respirar. Sakura era realmente bonita, a mais linda mulher que conhecera em toda a vida.
-Pensei que estivesse indisposta, minha querida esposa.-Yukito falou beijando a mão da mulher.
-E ainda estou, mas não queria fazer uma desfeita a seus convidados, além do mais meu marido, é minha obrigação ficar a seu lado enquanto ainda estivermos juntos.-disse ela resignada.
-Eu agradeço pela a sua delicadeza, mas não era necessário...
-É obvio que era, Yukito.-cortou cumprimentando Tao e Yu com um sorriso afável nos lábios.-Além do mais nunca gostei de ficar trancada no quarto.
Sakura olhou para Shoran com carinho e ternura, pedindo desculpas silenciosamente por estar ali ainda como esposa de Yukito. Sabia que aquela situação o magoava mais do que qualquer coisa, mas era a sua obrigação, aquela seria a última noite como esposa de Yukito. Sua sina já não era mais pagar seus pecados ao lado de seu marido. Merecia ser feliz. Mas ainda tinha que fazer o certo, e no momento era representar aquele papel ridículo.
-Bem, minhas roupas são simples, mas acho que algumas servem para você, Hanako.-Marien falou sorrindo entrando no quarto.-Ainda mais você que sempre teve as melhores roupas.-concluiu ao colocar uma trouxa de roupa em cima da cama.
-Não há porque de tanta ambição. Pouco realmente importa a roupa que visto no momento, Marien.-falou limpando as lágrimas que teimavam a escorrer pelo o seu rosto.-Agora sou pobre, e nem ao menos dinheiro tenho para comer...
Marien notou as lágrimas que escorriam pela a face pálida de Hanako. Não era nem ao menos difícil compreender o motivo que levava a garota chorar, era evidente de que o dono daquelas malditas lágrimas era Chang. Tinha a alma romântica...sonhava com o amor eterno ou até mesmo a primeira vista. E havia algo naquelas duas almas que a fazia pensar que ambos tinham nascido um para outro. Talvez fosse o olhar sofrido que carregavam, que brilhavam a cada vez que se olhavam. Havia percebido tudo no momento em que o jantar decorrera num silêncio constrangedor. A única que parecia estar feliz com aquele mal-estar era Marta, a cobra.
-O que aconteceu,menina?-perguntou sentando ao lado dela.-Não é a primeira vez que a vejo chorar hoje, mas gosto tanto de você a ponto de estar preocupada por não saber o motivo...
-Não, estou bem Marien... infelizmente tento esquecer, mas não consigo.-confessou olhando para o céu estrelado.-Às vezes penso que seria melhor que Sakura tivesse me dado para um orfanato...talvez fosse mais feliz.
-Não fale assim, Hanako.-disse passando a mão pelo os ombros dela.-Não conheço sua mãe, mas ela deve te amar demais, pois...
-Ela não me ama... se me amasse não teria me enganado por dezessete anos.
-Talvez ela tivesse seus motivos que você por determinada razão não saiba, mas não se esqueça que amor de mãe é incondicional. Você já não pensou no desespero dela a esse momento?-perguntou triste.
Não havia parado para pensar nessa questão, mas o fato era de que na certa não fazia falta a ninguém. Talvez fosse até um alívio se verem livre dela, que sempre fora uma pedra no caminho daquele casal.
-Não, mas não estou preocupada com o que minha mãe esta pensando nesse momento.
-Ela merece saber, ainda mais de se explicar...
-Eu já sei de toda a verdade, Marien. Não há nada que ela tenha para me falar do que eu não saiba.-falou com convicção.
-Será, Hanako?-perguntou notando a presença de mais alguém no quarto.-Agora preciso ir, tenho que ajudar Kaho nos afazeres domésticos...
Chang estava parado na porta com os braços cruzados no peito olhando para Hanako que mantinha os olhos baixos como se tivesse vergonha de encará-lo. Estava da mesma maneira que havia ficado no jantar. Era como se ele nada fosse para ela a não ser um desconhecido. Odiava sentir o que sentia por ela, mesmo sabendo que para Hanako, ele não passava de um nada. Era orgulhoso demais para admitir que sentia mais do que uma simples atração por aquela garota estranha e cheia de mistério.
-Posso ajudá-la em alguma coisa?-Hanako perguntou. Não querendo em hipótese alguma ficar sozinha com Chang.
-Não, infelizmente você pode ajudar mais tarde, pois agora precisamos conversar.-ele cortou as palavras de Marien dando espaço para a menina passar por ele com um olhar de interrogação.
-Não tenho nada a falar com você, Chang.-falou secamente.
-Ai que se engana.-rebateu sarcástico.-Preciso e exijo explicação de sua parte, Hanako.-concluiu fechando a porta em suas costas.
O olhar determinado dele a assustava. Rezava para que Deus a livrasse de um encontro dolorido entre ela e aquele belo exemplar de homem. Depois do que tinha visto no quarto dele, nada mais seria pior do que ficar ao lado dele sofrendo, sabendo que ele ama outra.
