Marcas da Solidão

Kaline Bogard

A manhã bem dormida e a refeição reforçada devolveram toda a energia e o animo de Kiba. Shino preferiu não informá-lo das notícias ruins ainda. Talvez fizesse isso quando tivesse a chance de se encontrar com Naruto. No momento não viu razões para sobrecarregá-lo com preocupações.

Depois do almoço, a primeira coisa que Kiba fez foi pintar as marcas do Clã. Era oficialmente um Inuzuka e nunca se cansaria de tal pensamento!

Então saiu para a área da frente, acompanhado de Shino e foi recepcionado por um animado Akamaru, que fez uma festa dantesca. Parecia até que não via o shifter há anos! Shino sentou-se na beirada do assoalho da varanda, assistindo os dois rolarem pela grama. Foi especialmente engraçado quando começaram a brincar de pique, com Kiba correndo como se fosse um cachorro também, com as mãos apoiadas no chão.

Shino sentia os servos passarem pelos cômodos voltados para a varanda com frequência muito maior do que antigamente. Não os via, sentado de costas para a porta e as janelas, mas sabia que quando a presença demorava uns segundos a mais, era porque paravam rapidamente à janela para espiar a cena lá fora.

Para ver um Ômega brincando com o mascote. E o Alpha assistindo. Uma cena que não se atreviam a imaginar nem nos sonhos mais esperançosos. E era especialmente mais significativo para os servos e servas da casa, que estavam em contato direto com Kiba. Até então, o mais perto que chegaram a essas criaturas foram as idas a Vida da Folha, quando davam sorte de Uchiha Sasuke estar no Conselho, com o companheiro e Hokage. Mas era uma energia que os atingia diferente. Trazia uma sensação boa? Com certeza. Nada comparado ao fato de ter um Ômega vinculado ao Alpha do feudo e, por consequência, vinculado ao Pack.

Exceto pela presença do servo pessoal sentado na sala de entrada, pronto para o caso de precisarem dele. Ele não precisava espiar na surdina, pois era seu dever manter prontidão enquanto o senhor feudal estivesse em casa.

— Ne, Shino? — Kiba chamou, deitado na grama macia do jardim oriental, com os braços abertos e sem fôlego, enquanto Akamaru, grudado na ponta de seu kimono, rosnava e balançava a cabeça como se quisesse arrancar um pedaço do pano.

— Hn.

— Vamos montar uma casinha pra ele?

— Não prefere comprar?

— Claro que não! Tem coisas que um homem deve fazer com as próprias mãos!

— Uma casa de cachorro, por exemplo? — Shino ergueu as sobrancelhas, sem entender a lógica.

— O lar de um amigo — Kiba sentou-se direito. O movimento deu uma folga no kimono puxado. Akamaru não esperava isso, caiu sentado na grama. Latiu para mostrar descontentamento — Desculpa! Foi sem querer!

As sobrancelhas de Shino continuaram erguidas. Ótimo, seu companheiro rolava na grama com o cachorro. Agora conversava com o cachorro! Era bem diferente do que fazia com os insetos. A comunicação com eles tinha mais de instintivo do que qualquer outra coisa. Porém não podia negar uma coisa: a lógica de Kiba tinha seus encantos. O lar de um amigo...

— Vou providenciar madeira e ferramentas — Shino disse, começando a se interessar pela ideia do companheiro.

Quem se moveu foi a presença do Beta, que saiu depressa do lugar para cumprir a ordem que sabia ter sido dada a si.

— Ouviu isso, Akamaru? Você vai ter sua própria casa!

A grande lição do dia: falar é muito mais fácil do que fazer. Kiba descobriu que o projeto de uma casa com vários cômodos estava totalmente fora de questão. Serrar a madeira, lixar e cobrir com um tipo de resina impermeável para que durasse mais às variações do clima dava um trabalhão! Demorou muito para pegar o jeito da coisa, o que encheu Shino de compaixão e o fez ir ajudar.

— Nunca trabalhei com madeira — o Alpha admitiu.

— Nem eu — Kiba resmungou com o dedo indicador na boca. Tinha acabado de acertar uma martelada no dedo que doeu tanto nele quanto em Shino. Bem, doeu muito e literalmente nele. Em Shino foi mais pela questão do vínculo. O que não diminuía a sensação dolorida.

Terminaram de pregar as ripas cortadas com a altura em diagonal, para dar uma caída à água da chuva. Logo tinham quatro blocos de tamanho igual, que seriam as paredes da casinha! Nesse momento uma serva aproximou-se para colocar uma bandeja com chá, bolinhos recheados com pasta de feijão e biscoitos de pêssego.

Deram uma pausa nos trabalhos para degustar o lanche.

—Você só ficava dentro de casa? — Kiba perguntou antes de empurrar um pedaço grande demais de bolinho na boca.

— Sim — Shino respondeu soprando o chá.

— Fazendo o quê? — arremessou um biscoito para Akamaru, que foi comer perto das madeiras espalhadas na grama.

— Treinando caligrafia. Lendo. Meditando.

— Você fazia isso todos os dias? E não enjoava?! Eu ficaria entediado.

— Não, eu não enjoava.

— E eu não estou te atrapalhando? Não prefere ir ler um livro? Ta tudo bem mesmo ficar aqui comigo? — Kiba perguntou com curiosidade genuína. Até parou de comer enquanto esperava a resposta.

— Não me atrapalha. Pelo contrário.

— Que bom! — o garoto exclamou antes de recomeçar a comer — Eu ia sentir a sua falta se não estivesse aqui. Vou terminar esse lanche e continuar a casinha do Akamaru, pra dar tempo de ir no vilarejo falar com Danzo-san.

Shino observou em silêncio, tolhido em cheio pela confissão inesperada. Era certo que o garoto não se deu conta do que disse, assim como não se dava conta de como a essência de morangos passou se ser propagada muito de leve no ar. Um jogo de sedução pueril que era nada menos do que irresistível.

Cumprindo a palavra dada, Kiba redobrou os esforços com a casinha. Estava pegando o jeito! Shino também aprendia rápido, o trabalho rendeu.

Pelo final da tarde, Alpha e Ômega sentados na grama, observavam a obra completa. Uma casinha meio torta, com um ou outro vão entre as ripas mal encaixadas, mas perfeitamente habitável. Akamaru latiu feliz e foi deitar dentro do novo lar.

— Por nada! — Kiba riu pela alegria do filhote — Ficou linda, não ficou?

Shino observou o resultado: aquela casa de madeira que em nada combinava com seu refinado jardim oriental. Casinha que não colocaria em nenhum outro lugar, se não o escolhido por seu companheiro.

— Sim, ficou perfeita.

Kiba estufou o peito. Comentou algo sobre ser um ótimo mestre marceneiro, caso tivesse nascido Beta, mas Shino não prestou atenção, inebriado pela felicidade que o atingiu através do vínculo.

Antes de partirem para o vilarejo, Ino foi a casa principal e conversou brevemente com Shino. Informou que Naruto poderia jantar com eles no dia seguinte. Revelou que já começou a seleção dos jovens Betas que seriam treinados para o posto de ninjas. E, por fim, que o memorial estava sendo organizado e seria realizado em cinco dias.

As coisas estavam acontecendo. Diferente da estagnação em que o feudo vivia mergulhado até agora. Coisas boas, coisas ruins. Mas estavam acontecendo, como se a vida retomasse o curso, exatamente como deveria ser.

A intenção de Kiba ao procurar Danzo-san foi pedir informações sobre uma casa desocupada que pudessem ceder para sua irmã. Quando morava no vilarejo, Kiba não prestava atenção nesses detalhes. Nem passou pela sua cabeça oferecer um lugar na casa principal. Tinha certeza que Shino aceitaria sua irmã morando lá. Mas Kiba não era assim tão sem noção.

Hana tinha sua lojinha, seus animais e a intenção de atender clientes por ali. Ela precisava de um espaço para ficar a vontade e isso seria impossível na casa de Aburame Shino.

O casal montou os alazões e seguiu com calma até o vilarejo em que os camponeses moraram dentro do feudo. Era um lugar bem menor do que uma vila, com trinta ou quarenta casebres e dois prédios maiores que serviam como dormitório para os shifters solteiros e sem família. Kiba, quando viveu escondido como Beta, morou ali. Isso lhe custou o dobro do trabalho para não ser descoberto! Todas as construções estavam agrupadas ao redor de um poço e fazia divisa com uma pequena floresta.

Danzo-san, recém-chegado das plantações, ficou estupefato em receber o senhor feudal e seu companheiro em casa. Fez o possível para tratá-los de acordo, apesar da humildade de seu lar. Logo as mulheres e crianças se agruparam ao redor da casinha, curiosos. Os homens, que iam chegando da lavoura, também sentiam a presença e iam somar aos demais.

O velho shifter ouviu o pedido de Kiba e informou que não restava nenhuma casa vazia. Mas tinham muita gente disposta a construir uma novinha para a irmã do Ômega. Então Kiba teve a falta de tato de se oferecer para ajudar e Danzo-san quase caiu para trás. Aceitou que o garoto viesse supervisionar a obra, mas ajudar? Jamais. Seria desonroso para os Betas.

Kiba acabou com um bico de contrariedade, não tendo opção além de aceitar. Era isso ou ofender os camponeses.

— Não foi bem como eu planejei, mas deu tudo certo — o garoto disse enquanto voltavam pra casa — Conseguimos o lar para a minha irmã e para Akamaru!

— De fato.

— Que dia!

— Que dia — Shino concordou. Tinha sido um dia atarefado. Nem parecia que tinham regressado ontem mesmo do país distante! Na verdade, Sunagakure e os acontecidos lá pareciam a anos de distância! Bastou algumas horas para que readaptassem a rotina interrompida.

E o dia, claro, chegou ao fim. Porém o mais importante estava prestes a começar...