Olá queridos leitores, nossa história prossegue. Ainda que a passos lentos. Obrigada pelo carinho.
Os dias se sucediam. Intermináveis. Tanto para Frigga quanto para seu marido. Os motivos eram distintos. A ausência de notícias para ela. A expectativa de um ataque iminente ainda não concretizado para ele.
Thórin refletia, deitado junto à carroça, mirando as estrelas, sem conseguir adormecer. O Único deveria estar brincando com ele. Justamente no momento em que se livrara dos pesadelos, fora privado de passar as noites em companhia da esposa.
Algumas horas após o raiar do terceiro dia de viagem, uma aproximação chamou a atenção da comitiva. Contudo, esta não despertou mais do que contentamento entre os khazâd.
- É Frerin, sem dúvida – constatou Dwalin do alto de sua montaria.
Thórin abriu um sorriso largo. Há vários meses não tinha a oportunidade de desfrutar da companhia do irmão mais novo, envolvido com os negócios da família em Esgaroth. O rapazote muito se agradava das viagens à cidade dos homens e o acompanhar das caravanas. Enfadava-se com o dia-a-dia monótono da fortaleza.
- Viva para sempre a linhagem de Dúrin, meu irmão – cumprimentou formalmente ao acercar-se.
- Que viva! – respondeu Thórin apeando, no que foi imitado pelo caçula.
Um longo abraço se seguiu. Frerin também sentia falta do companheiro de infância a quem admirava e respeitava.
- Confesso que para mim é uma surpresa encontrá-lo – disse o mais novo.
- Vim verificar pessoalmente a questão dos ataques que têm perturbado a paz das viagens de nosso povo.
A expressão do caçula se alterou, revelando no olhar o receio de que uma censura seguisse a declaração de Thórin. Este percebeu.
- Dwalin me passou seus relatórios – disse com a mão no ombro de Frerin – e pude constatar que tem tido bastante trabalho, meu irmão. E o melhor de tudo. Que tem se saído muito bem.
Frerin relaxou, olhando o irmão nos olhos. O reconhecimento do mais velho era de grande importância para o jovem khuzd. A diferença entre ambos era de apenas dois anos, contudo, como primogênito, Thórin recebera responsabilidades tantas que já não se parecia em nada com o companheiro de travessuras de sua infância. Ambos empenhados em atormentar, carinhosamente, é claro, a mais nova, Dis.
- Atacam em trechos onde a estrada é cercada de árvores – prosseguiu Frerin – Lugares assim são relativamente abundantes até chegarmos a Esgaroth. Resquícios de um passado longínquo quando a floresta chegava até essas paragens.
- Escondem-se nas árvores? – indagou Thórin.
- Sob os capuzes gritam e nos ameaçam. Mascarados, atacam com espadas e se afastam. Nunca conseguimos pegar um sequer. Parecem conhecer como ninguém os segredos destes caminhos, melhor do que nós mesmos que tantas vezes já os percorremos.
- Covardes.
Os irmãos caminharam abraçados, compartilhando o momento de intimidade familiar, sem esquecer, contudo, que não eram uma família comum. Eram membros da família real de Erebor e, por tal feita, portadores de muitas obrigações para com seu povo.
- Os ataques têm sido constantes – comentou Frerin – contudo, temos conseguido evitar as baixas.
- O que já é motivo de satisfação para mim, e creio que também para nosso pai.
- Tem se esmerado muito em me ensinar sobre os negócios do reino. De minha parte, tenho feito o possível, embora confesse que, algumas vezes, minha cabeça doa. Aluguei para mim uma casa em Esgaroth para tentar conseguir um pouco de paz, longe do movimento das pousadas e tavernas no centro comercial. Já que agora vivo mais aqui do que em Erebor, pareceu-me uma boa solução.
Thórin parou, observando o mais novo. Lembrando-se de como também fora difícil para ele abandonar uma adolescência tranquila para abraçar a vida adulta.
- Você se acostumará, uzbad – disse, dando tapinhas no ombro do irmão – pensa que os títulos nos vêm facilmente?
- Este, contudo, cabe a você, meu irmão, como primogênito, antes que a mim.
O mais velho segurou o caçula pelos ombros.
- Nem pense em me deixar sozinho! Está se preparando para ser meu braço direito, Frerin – disse com uma seriedade que surpreendeu o mais novo – sou de carne e osso e não há como pensar em comércio, exército, administração, tudo ao mesmo tempo. Será uzbad da Montanha Solitária tanto quanto eu.
Frerin quis sorrir ante a demonstração de afeto e confiança do primogênito da família. Este percebendo, sorri em resposta. O caçula fitou Thórin. Um questionamento se acercando, sem que o mesmo conseguisse resistir.
- E ainda precisará de tempo – disse desvencilhando-se das mãos de Thórin – para manter sua esposa ocupada e feliz, não é meu irmão? – indagou afastando-se aos risos antes que o mais velho o cobrisse de pancadas.
Ainda que o dever os forçasse ao amadurecimento rápido, o irmão mais novo guardava dentro de si algo do menino travesso inseparável de Thórin. E o herdeiro de Erebor era grato a Mahal por tal fato.
A comitiva de Frerin uniu-se à caravana em direção à cidade lago. Os irmãos tiveram bastante tempo para colocar todos os assuntos em dias. O caçula colocou o mais velho a par de suas dificuldades, de seu dia a dia, do bom relacionamento com o pai, que se estreitava devido a longa convivência entre ambos.
Thórin contara como o casamento o favorecera, sem contudo entrar em detalhes. Nada sobre as dificuldades com os pesadelos. Focara nas virtudes recém descobertas da esposa.
- Luta como um varão? – indagou Frerin.
- Não chega a tanto, meu irmão, contudo, não é totalmente indefesa.
- Não se zangou quando descobriu sobre o estabelecimento dado à mulher?
- A princípio, sim. Depois, admirei-a pelo desprendimento. Tem um coração magnânimo. Será uma boa rainha.
- Como é boa esposa? – indagou, divertido.
- Não comece – alertou.
Não haveria tempo hábil, de qualquer forma, para que os irmãos iniciassem qualquer disputa. Uma flecha atingiu o pescoço da montaria de Frerin levando-o ao chão. Não fosse a agilidade do jovem anão, teria sido esmagado pelo peso do animal.
Os Khazâd desembainharam as espadas e empunharam seus machados. Fechas começaram a ser disparadas por arcos incógnitos, oriundas de todas as direções. Os bandidos, contudo, recusavam-se a aparecer.
- Larguem a segurança das árvores e mostrem-se, covardes! – gritou Dwalin.
Os soldados defenderam-se como puderam, ante a covardia do inimigo oculto. Estranhamente, o ataque não durou muito tempo. O suficiente apenas para ferir alguns animais. O míthril impediu que os anões sofressem maiores danos.
Uma movimentação em um trecho da mata atraiu a atenção dos soldados de Dúrin.
- Peguem-nos! – gritou Thórin.
Frerin, já recuperado da queda, solicitou a montaria de outro khuzd, por haver sido privado da sua, e comandou a parte dianteira da comitiva que o seguiu, enquanto os de trás assumiam a guarda.
- Baruk Khazâd*3! – o grito de guerra na boca do jovem príncipe foi repetido pelos demais soldados.
O príncipe mais velho também tinha ganas de perseguir os infames, contudo algo chamou a atenção do rapaz que, ao agachar-se examinando as flechas, sentiu um torpor inédito tomar conta de sua mente. Um mal estar tamanho, que só poderia ter origem no profundo ódio que brotava do coração do khuzd.
Dwalin aproximou-se, verbalizando a infeliz constatação.
- É uma flecha élfica – disse segurando o objeto nas mãos antes de parti-lo.
Thórin andou em meio à caravana, colhendo os artefatos eldar e juntando-os em uma das mãos, enquanto os pensamentos tortuosos seguiam tomando forma em sua mente.
'Malditos', refletia lembrando-se do episódio da estrada do rio. 'Falsos', murmurava para si mesmo. O sangue queimando nas veias ao pensar em como confiara no filho de Thranduil. Deveriam ter rido muito, desde aquele dia. Que feitiço o infeliz lhe teria lançado para que os pesadelos cessassem? As mãos de Thórin apertavam as flechas. A raiva que lhe rasgava o peito sem conseguir encontrar uma maneira de ser extravasada.
Frerin retornara sem, contudo, ter obtido sucesso. Percebera tarde demais terem sido vítimas de uma digressão. Ladinos, os bandidos os atraíram para a uma perseguição infrutífera em uma direção equivocada utilizando-se de uma isca qualquer, provavelmente algum animal.
- Parecem fantasmas, esses infelizes – explicou-se, enquanto desmontava próximo ao irmão mais velho.
- Fantasmas, não, meu irmão – disse mostrando as flechas.
- Elfos! – contatou o mais novo.
Thórin não conseguia pensar claramente. A ira crescendo no peito. Montou um dos animais que não foram feridos e manobrou o pônei.
- Aonde vai, meu príncipe? – indagou Dwalin receoso das atitudes do enfurecido senhor de Erebor.
O rosto do khuzd não deixou dúvidas.
- Thórin... – começou a dizer Frerin adivinhando o que ia pela cabeça do irmão.
O mais velho, contudo, não fez caso das solicitações e iniciou o galope em direção à Mirkwood.
- Vá o mais rápido possível até Esgaroth, alteza – solicitou Dwalin – traga os soldados que puder e dirija-se até a floresta dos elfos. Iremos precisar de ajuda – finalizou antes de conduzir o pequeno contingente na trilha do príncipe de Erebor.
