Nota: Angst muito angst.

CAPÍTULO 37

Sawyer acordou lentamente, com a cabeça latejando e a boca amarga. Parecia que um gongo estava sendo batido dentro de sua cabeça a cada cinco segundos.
Mal humorado, mas principalmente, desanimado e se sentindo traído, não queria ver nem falar com ninguém e isso incluía Kate.
Em dez minutos, tomou banho e se aprontou para o trabalho, desprezando até o dia de folga que o Grego tinha lhe dado sem ele nem pedir.
Saiu tão apressado que nem reparou no bilhete de Kate, deixado na mesinha de cabeceira.

Kate também acordou cedo e se arrumou correndo para ver como Sawyer estava e, juntos, tomarem o desjejum antes de ir para a delegacia.
Como era de se esperar, se sentiu extremamente desapontada e perplexa ao perceber que ele saíra sem ao menos ter tido a cortesia de avisá-la!
O dia começara mal e o resto não ia ser muito melhor.
Um enxame de advogados – de Krause, Perkins, capangas e das empresas Widmore – digladiando-se entre si, criando todo tipo de barreiras e levantando tecnicalidades jurídicas absurdas para se protegerem, tornaram os depoimentos num verdadeiro campo de guerra.
E, por baixo disso, bem no fundo de sua mente, a atitude inexplicável de Sawyer a torturava, sem parar.

Mas uma vantagem nasceu de sua crise pessoal: a frustração por não saber o que tinha dado na cabeça de Sawyer a deixou teimosa, irritadiça e intolerante, transformando-a num verdadeiro azougue nos interrogatórios, impedindo brechas para hesitações, destruindo versões frágeis, destroçando a retórica dos advogados, literalmente assustando os defensores dos detidos.
Tripp e Cortez ficaram boquiabertos com sua fria agressividade e sua, até então, desconhecida natureza implacável.
As horas continuaram lentas e desagradáveis.
Seu único momento de descontração se deveu à exagerada demonstração de alegria de Ana Lucia, quando lhe contou que rompera com Jack.

- Jesus, Maria, José! Foi só você chutar o bundão e virou aquele monstro no interrogatório! Dou minha cara à tapa: você nasceu pra interrogar! Quando você fez o defensor do Krause enfiar a língua no rabo, eu quase tive um orgasmo!
Kate deu uma risada.
- É por isso que você ta com essa cara de velório? Ah, por favor, né? Você vai encontrar coisa melhor que o Jack, pode acreditar – assegurou Ana Lucia, sorvendo o café fazendo barulho.
Levando a sério sua promessa de ser uma boa parceira para Ana Lucia daqui para frente, acabou contando sobre o estranho sumiço de Sawyer.
Ana pensou um pouco e comentou por alto.
- Vai ver ele é um "Homem-Caçador".
- O quê?
- Eu li uma classificação de tipos de homens na Cosmopolitan, Sawyer pode ser um "Homem-Caçador".
- Você lê Cosmopolitan? – exclamou Kate, tendo uma improvável imagem mental de Ana Lucia, a dureza em pessoa, lendo revista de mulherzinha.

Fechando a cara, ela retrucou com sua dignidade ferida:
- Sim, eu leio Cosmopolitan e você com isso? Quer saber o que eu li ou não?
- Manda – disse Kate, rindo.
- O "Homem-Caçador" é o tipo que batalha a garota que não pode ter até a exaustão, mas quando ganha ela, não quer mais. É a caçada que excita ele, não a garota em si.
Kate sentiu um aperto no estômago.
- Ele não me ganhou, Ana.
Ana Lucia deu sua habitual cara enfarada.
- Tá, vai repetindo até ser verdade!
Mas vendo o rosto sombrio da parceira, tentou emendar:
- Não liga pro que eu falo. Vai ver foi só alguma emergência e ele não teve tempo de avisar. Liga pra ele!

Na verdade, por várias vezes Kate esteve a ponto de ligar mesmo, mas o orgulho a impediu. Era ele quem tinha que procurá-la.
Por uma ou duas vezes se angustiou imaginando se ele não estaria mais ferido do que pensava e ele tinha precisado correr para o hospital, doente! Metido a machão como era, podia muito bem não ter avisado nem ao Hurley!
Toda essa mescla de emoções fortes só serviu para deixá-la ainda mais impertinente e arredia, para desespero crescente dos detidos e seus advogados e satisfação do chefe Tripp.

Talvez tivesse servido de consolo para Kate saber que o dia estava sendo igualmente miserável para Sawyer.
Também canalizando sua frustração no trabalho, ele recapturou dois fugitivos em poucas horas.
E apesar de ter três fugitivos recapturados em menos de vinte e quatro horas ser geralmente motivo de gratidão e contentamento para o Grego, o homem acabou expulsando Sawyer de seu escritório aos berros, ordenando-lhe que não se atrevesse a dar as caras enquanto estivesse insuportável e intragável daquele jeito.
Chutado e deprimido, passou o finzinho da tarde rodando com o carro sem destino, temeroso de voltar para casa e topar com Kate arrumando sua mudança, como uma boa menina.

Chegou em casa cansado e melancólico, esperando pelo pior, mas tudo parecia em ordem. Kate ainda não tinha chegado. Espiando pela janela do apartamento dela, verificou que tudo estava nos devidos lugares e não havia caixas de papelão à vista.
Pelo menos ela não começou a organizar a mudança ainda...
Tranquilizado por esse pensamento entrou em casa mais bem disposto.
Se arrependeu de não ter telefonado para Kate e quase torceu para ela ficar bem zangada por isso, só para ter certeza de que ela ainda se importava com ele.
Hurley já havia chegado e conversava com alguém na cozinha.
Ao ver Sawyer entrando, o chamou:
- Sawyer, vem aqui, quero te apresentar um amigo...
Passando direto para o quarto, respondeu de má vontade:
- Tá, já volto!

Tirou a jaqueta de couro e se jogou na cama pesadamente. Ainda com dor de cabeça resolveu tomar outro comprimido para estar bem quando fosse enfrentar Kate. Ao se virar para pegar o remédio na mesinha, deu com um papelzinho encostado numa garrafa de água que não se lembrava de ter trazido na noite anterior.
Com surpresa, reconheceu a letra de Kate:
"Sawyer, estive aqui, mas você estava dormindo. Estou preocupada com seus machucados, não estão muito roxos? Não é melhor você ir a um médico ver isso?
Me liga assim que acordar, Kate"

Se pegou sorrindo tolamente.
Tinha agido feito um idiota na noite anterior. Se o que queria era que ela ficasse, se esconder dela não era a melhor tática.
Suspirou percebendo que não precisava torcer para Kate estar zangada com ele, porque, com certeza, ela devia estar uma fera!
Pensando em maneiras de consertar o estrago, lembrou da champagne largada em cima da mesa e correu para lá, para verificar se o encostado do Charlie não tinha se metido a besta e enxugado a garrafa.
Ao chegar na cozinha, porém, uma sensação de reconhecimento o aturdiu ao ver um homem de costas, sentado à mesa, conversando com Hurley.
Lembrava alguém que a mente de Sawyer se recusava a aceitar como estando ali, em sua casa.
Era impossível!
Mas a voz... a voz era dele.

Se aproximou lentamente, como que andando em um pesadelo, até ficar frente a frente com o visitante.
Era ele – era verdade!
Aturdido como poucas vezes em sua vida, Sawyer se deparou, sentado tranquilamente em sua cozinha, com Gordy, seu antigo e mais perigoso comparsa de golpes.
Com o estômago virado de susto e antes que tivesse tempo de voltar a respirar, Hurley o saudou alegremente:
- Sawyer, esse é o sr. Gordon, um novo amigo!
- É um prazer conhecê-lo, sr. Sawyer – disse ele com um ar tímido.
Mas seu olhar... seu olhar não enganava Saweyr – era de pura ameaça.

Kate entrou pisando duro no pátio do condomínio.
Estava esgotada e furiosa.
Ia mandar io orgulho às favas e dizer para aquele traste tudo que estava entravada na garganta. Sawyer não esperava por esperar!
Culpa dela ter confiado tanto naquele enrolador, mas ele ia ver só!
Entrou em casa quase chutando a porta e jogou a bolsa de qualquer jeito no sofá.
Ao se virar, soltou um som engasgado de susto ao ver Sun parada na porta segurando um cesto de roupas.
- Que susto, Sun!
- Desculpe! Vim trazer umas roupas que Claire esqueceu na máquina de secar.

Claire! Mas que droga!
Se esquecera completamente dela!
- Entre, Sun, por favor.
Respirando fundo,comentou:
- Meu Deus, faz dois dias que não na maternidade. Claire está bem? E o bebê?
Sun estranhou:
- Claire está ótima, eu até contei isso ao Jack, ele não te disse?
Kate ficou vermelha.
- Não, não me disse. Você falou com ele quando?
- Ontem, ele estava lá fora te esperando. Sawyer e eu fizemos companhia pra ele.

Kate arregalou os olhos.
- Sawyer e você? Ele e Jack conversaram?
- Só uns minutos, Sawyer entrou logo em casa.
Tensa, Kate ficou imaginando o que Sawyer e Jack poderiam ter conversado e se aquilo teria alguma coisa a ver com o comportamento de Sawyer. Mas pela expressão neutra de Sun, nada de anormal devia ter acontecido.
- Acho que Sawyer ficou meio triste... eu também fiquei.
Sem entender, Kate indagou:
- Como é?
- Ficamos tristes por você se mudar – explicou Sun – Sawyer é meio rude, mas é uma boa pessoa. Dá pra ver que ele se apega aos vizinhos.
Irritada com a língua solta de Jack, Kate afirmou:
- Sun, eu... eu não vou me mudar!
- Mas Jack disse...
- Nós rompemos. Ele vai pra Boston, eu vou ficar. Minha vida é aqui.
- Sinto muito por vocês romperem. Tem certeza que não tem mais volta? Vocês podem continuar juntos à distancia.
- Tenho certeza. Não estava dando certo, vai ser melhor assim. Jack vai ser muito mais feliz em Boston, vai conhecer outra pessoa, tenho certeza.
- Nesse caso, Kate, fico contente por você ficar.
- Brigada, também estou satisfeita com minha vida aqui.

As duas conversaram mais um pouco sobre Claire e Aaron, antes de Sun voltar para casa.
Fumegando de raiva, Kate começou a entender a veneta de Sawyer.
Que dia mais azarado!
Ela nem imaginava o quanto.

Sawyer olhava fixamente para Gordy, sem acreditar no que via.
Este, por sua vez, tranquilamente sentado tomando refrigerante, devolveu o olhar, cínico.
Hurley, hospitaleiro como sempre, encheu o copo do homem e explicou:
- Eu trouxe o sr. Gordon pra cá pq ele não tem para onde ir. Imagine que assaltaram ele bem no-
Sawyer i interrompeu abruptamente:
- Deixa eu adivinhar: o sr. Gordon foi assaltado e espancado bem no dia que chegou do interior, com o dinheiro de uma vida inteira de trabalho duro, para abrir uma floricultura pra filha cega, acertei?
Hurley se virou surpreso para Sawyer:
- Quase isso... a filha dele não é cega, ela precisa de um transplante de medula!

Gordy fez uma cara de consternação:
- Sim, roubaram o dinheiro do tratamento de minha menina, estou desesperado agora! Não sei com que cara vou ao hospital agora. Mas Hugo está sendo um anjo, ele me trouxe até aqui para eu descansar e comer alguma coisa.
Hurley confirmou:
- Não sobrou nem um trocado pra um lanche... mas a gente vai dar um jeito, não vamos deixar sua filha sem tratamento!
Furioso, Sawyer franziu a testa e deu um soco na mesa:
- Fora daqui! Fora daqui, Gordy! – gritou ele

Atônito, Hurley tentou interferir, mas Sawyer não fez caso:
- O rancho acabou! Fora! Fora, Gordy, e não volte!
Gritou ele, sacudindo a cadeira e enxotando o invasor pela casa. Fingindo humildade, Gordy respondeu:
- Oh, tudo bem, eu já vou! Sinto muito por ter incomodado o senhor! Muito obrigado por sua ajuda, Hugo, Deus o abençoe!
Hurley, sem saber o que dizer, reclamou:
- Não, não vá! Meu amigo é doido! Cara, pede desculpas, ele precisa de ajuda!
- Cála essa boca, Hurley! – gritou Sawyer, empurrando Gordy para fora.
Os dois homens se entreolharam sérios.
- Não volte aqui, Gordy! – Sawyer recomendou entre os dentes, batendo a porta com força.

Hurley estourou:
- Cara! Qual é o seu problema? Você não tinha o direito de fazer isso com um convidado meu! Essa casa é minha também! Você tá emaconhado, é?
Fora de si, Sawyer rosnou, tentando manter a voz baixa:
- Aquele cara é um golpista! Ele veio aqui dar um golpe do vigário em você, crânio! O golpe do "caipira assaltado" é um clássico!
- Você pirou? Ele foi roubado, tava machucado e tudo! – teimou Hurley.
- Isso faz parte da armação, Hugo, pra ganhar a confiança do otário!
Assustado, Hurley perguntou:
- De onde você tirou isso?
- Da vida, Hugo! Tá na hora de você sair dessa bolha de fantasia em que vive e começar a se defender sozinho!
Hurley o enfrentou zangado:
- Eu sei muito bem me defender sozinho!

Injusto, Sawyer riu dele:
- Ah, ta bom! Tava escrito "vigarista" na testa daquele sujeito e você nem viu! Você não enxerga um palmo à frente do nariz, pote de banha! Se bobear, alguém tem que amarrar seus sapatos pra você!
Profundamente ofendido, Hurley o encarou em silencio, chocado.
Percebendo que tinha ido longe demais, mas sem condições de voltar atrás e se desculpar, Sawyer saiu, intempestivamente.

Kate o viu saindo do apartamento e resolveu ir atrás dele imediatamente, antes que sumisse outra vez.

***

Alerta, Sawyer esquadrinhou o pátio.
Tinha certeza que Gordy não tinha ido embora e estava ali, à espera dele, traiçoeiramente.
Sawyer tivera muitos parceiros de golpes, todos escória, é claro – como ele.
Uns, mais espertos. Outros, refinados. Alguns, pé-de-chinelo. Um ou outro, mais truculento.
Mas Gordy era perigoso!
Chegara a ameaçá-lo de morte,anos atrás, quando pensara em desistir do esquema para ficar com Cassidy. Não estava brincando: Gordy ia matar a ele e a Cassidy, se não tivesse ido em frente com o golpe.
Como lhe devia dinheiro, ainda trabalhara com ele mais umas vezes, mas tão logo ficaram quites, passou a evitá-lo sistematicamente.
Gordy e Hibbs, o imbecil de Tampa, foram os principais motivos de Sawyer querer se afastar dos esquemas por um tempo.
A presença de Gordy ali era encrenca e representava perigo para Hurley.

Como esperava, Gordy estava nas sombras, perto do portão.
- Olá, garotão! Sentiu saudades?
- O que você quer? – indagou Sawyer empurrando-o contra a parede.
- Só vim visitar um velho amigo... ver como você estava. Sabe que muita gente andou dizendo que você tinha morrido? Você sumiu, rapaz!
- Como me achou?
- Lembra do Phil, que participou daquele esquema-
- Eu lembro daquele mané.
- Ele esteve aqui em Los Angeles, te viu e me avisou. Na verdade, ele me contou que estava sendo preso e viu você na delegacia. Ele achou que você também estava entrando em cana, mas quando prestou atenção, percebeu que você estava prendendo alguém! Quando ele contou isso, eu não acreditei! Como você, dentre todas as pessoas, ia entrar pra policia?
Sawyer não respondeu.
- Então, tive que vir te procurar, saber o que tava acontecendo! E não é que quando chego aqui, descubro que você virou o rei do castelo? Com empreguinho, dividindo casa com atendente de lanchonete chulé, fazendo churrasco com vizinho... que decadência, Sawyer! Isso não é você!

Alarmado, Sawyer o agarrou pelas roupas e o sacudiu:
- Você anda me seguindo?
Gordy fez um movimento para se soltar, sem resultado.
- E você nem notou. Você ta perdendo o dom... a vida mansa tá te amansando!
Sawyer teve vontade de chutá-lo ali mesmo.
- Mas aí, comecei a desconfiar de tanta honestidade e descobri tudo. Você me enganou direitinho! O garoto Reyes... tirou o meu chapéu: é o esquema mais bem montado que eu já vi, mas o retorno compensa! Você ainda é o melhor, Sawyer!
- Do que é que você tá falando?

- Do garoto Reyes, que ganhou todos aqueles milhões na loteria! Você deve estar cozinhando ele há quanto tempo? Um ano? Mas valeu a pena: ele te adora, ele come na tua mão. O que você aplicar pra cima dele, ele cai. Eu sabia que você não tinha mudado tanto assim.
Sawyer franziu a testa, processando o que escutava.
Gordy continuou:
- Então, qual vai ser o esquema? Não vai deixar seu velho companheiro de fora, não é?
Estarrecido com as conclusões que Gordy havia tirado, Sawyer o encarou sem expressão, tentando arrumar aquela confusão de maneira a salvar Hurley.
Gordy, entretanto, percebeu a hesitação dele e exclamou:
- Não acredito! Você caiu nessa outra vez. Você não aprende, não é? Você é o melhor golpista que eu conheço, mas quando dá pra ser sentimental, vira o cara mais idiota do mundo!

Tentando disfarçar, Sawer exclamou:
- Fica longe do Reyes, Gordy! Ele é o meu pato e não vou dividir o lucro com ninguém! Não te devo mais nada, não somos mais parceiros, meu show é solo, agora!
Gordy riu, cruel:
- Papo furado! Ele não é seu pato. Você caiu, de novo, na fantasia de ter uma vidinha normal. Foi assim com aquela garota, Cassidy, que você queria desistir de depenar porque achou que tava apaixonado por ela. E tá fazendo tudo de novo. O seu problema é que você acredita que se tiver emprego, amigos, namorada, vai mudar quem você é!
Sawyer abaixou os olhos, inseguro e raivoso.

- Não adianta, garoto, você é um golpista, um escroque, um ladrão de quinta categoria! Isso tudo aqui, não passa de faz-de-conta, estória da Carochinha. Você acha mesmo que aquela morena gostosa que mora aqui, vai mesmo ficar com você sabendo quem você é? Quanto tempo isso vai durar?
Sawyer fez um movimento de revolta, mas Gordy colocar a fundo o dedo na ferida, tantas vezes aberta e que mal começava a cicatrizar.
Todos os seus maiores temores, suas maiores dúvidas, seus sentimentos de inadequação e inferioridade, que tentava, com esforço, enterrar, voltaram à tona com força, afogando-o, cegando-o.
Humilhado, ressentiu todo o ódio e repulsa que tinha por si mesmo por ser o que era.
- Um tigre não muda de pele – sentenciou Gordy com uma suavidade impiedosa.
Sawyer o olhou,o sangue fervendo de ódio.
- Deixa de besteira, Sawyer. Cai na real. Vamos depenar esse pato, como nos velhos tempos!

Enceguecido pelo ódio e pela desesperança, Sawyer rugiu, para surpresa de Gordy.
Agarrando-o pela camisa, esmurrou-o várias vezes até derrubá-lo no chão.
Se ajoelhando ao lado do homem, continuou a golpeá-lo, sentindo prazer e vindicação a cada soco violento que arrancava sangue e gritos de dor, até que uma voz o trouxe de volta à realidade.
- Sawyer, Sawyer! Pare, pare! Você vai matá-lo! Vai matá-lo, pare... agora, pare!
Seguindo o som da voz, viu Kate, pálida e desfigurada pelo susto, tentando segurá-lo.
- Deixe ele ir, deixe ele ir!
Se controlando à custo, ele levantou Gordy do chão e jogou com força para a rua.
- Não volte mais aqui! Se afaste de nós ou eu te mato! – ameaçou entre os dentes.

Kate o puxou para dentro, deixando Gordy cambaleante e ensangüentado na calçada, com vingança no coração.

Sawyer entrou direto em seu quarto, envergonhado demais para encarar Kate, colada em seus calcanhares.
- Quer me dar licensa, por favor? Quero ficar sozinho.
- Não, não vou dar licensa. Você machucou a mão? – indagou ela, notando os dedos esfolados.
- Estou bem-
- Está nada! – interrompeu ela – Fala comigo!
- Você tava escutando? – perguntou ele, sombriamente.
- Foi sem querer... eu vinha aqui falar com você e peguei vocês dois conversando.
Ótimo! Não faltava mais nada para humilhação ser completa!.

Ela se aproximou suavemente dele.
- Você fez bem em proteger Hurley. Acha que ele vai desistir?
Apesar de não conseguir fitá-la nos olhos, sentiu alivio pelas mãos dela pousadas em seus braços.
De que adiantava?
Com a cabeça rodando, de repente tudo que Gordy falara, fazia sentido.
Óbvio que Kate ia acabar indo embora com o médico rico!
Ele era um ninguém! Um escroque sem futuro!
Não tinha sido feito para ter amigos, para ser pai ou para ser namorado de ninguém. Tem gente que foi feita para ser sozinha, mesmo.
Gordy tinha razão, era tudo um conto de fadas que ele fora otário o bastante para acreditar.
O que estava fazendo ali? Já devia ter ido embora.

- Não, ele não vai desistir. Gordy veio atrás de mim.
Se soltando bruscamente de Kate, ele abriu o armário e tirou do fundo umas malas verdes, meio gastas.
- O que está fazendo? – Kate perguntou.
- Não está vendo? As malas.
Sem entender, Kate exclamou:
- Malas? Para quê?
- Vou embora. Não tenho mais nada a fazer aqui. A brincadeira acabou, Kate.
Incrédula, ela o observou, sem ação.
Arrancando as roupas dos cabides de qualquer jeito e embolando na mala, ele pensava tumultuadamente no quanto havia sido estúpido. Ele tinha acreditado demais... por tempo demais.
Fim de jogo

Kate o puxou com força:
- Quer parar com isso e falar comigo?
- O que você quer falar? Escutou tudo...
- Escutei um criminoso falando um monte de mentira!
Ele finalmente a encarou, intenso:
- Eu fui parceiro daquele "criminoso" por anos, Kate, o que isso me torna?
Ela retribuiu o olhar:
- Torna você uma pessoa que tomou outro rumo na vida. Torna você uma boa pessoa – replicou ela, se lembrando das palavras de Sun.
Ele deu uma risada desdenhosa:
- Eu não sou uma boa pessoa, Kate! Eu nunca fiz uma coisa que prestasse na vida!

Exasperada com a teimosia dele, ela bufou:
- Pára com isso! Até você sabe isso não é verdade. Agora mesmo, você protegeu Hurley desse cara.
- E como você sabe que ele não tava certo, que não fiz amizade com Hugo pra roubar os milhões dele?
- Se fosse assim, só o fato de ter desistido já ia valer alguma coisa. Mas eu sei que não foi assim, tá na cara que vocês são amigos!
- Não mais. Hurley ta puto comigo, eu ofendi os brios latinos dele!
Ela respondeu filosófica:
- Sawyer... quando se convive com você, se sabe que,mais cedo ou mais tarde, vai acabar puto contigo. É normal... mas continuamos aqui, não é?
As palavras dela o tocaram absurdamente. Temendo fraquejar, continuou atulhando a mala com suas roupas de forma compulsiva. Tinha que dar o fora dali.

- Gordy veio atrás de mim, se eu for embora, ele deixa Hurley em paz. É o melhor, Kate!
Estourando por sua vez, ela gritou:
- Não é o melhor! Hurley precisa de você. E desde quando você me chama de "Kate"?
Se aproximando dele, argumentou:
- Esse Gordy está tentando te manipular, Sawyer. Não deixa ele fazer isso. Ele está aplicando um golpe em você! Sua vida é aqui agora, com a gente.
Confuso, ele parou, sem saber o que pensar.
Mas com medo de acreditar no que ela insinuava, resolveu cortar o sonho que renascia antes voltasse a criar raízes.
- Então você quer que eu fique? Vamos ver – desafiou ele.
Tirou um envelope do bolso, aquele que tanto despertava a curiosidade de Kate.
Arrancando a folha de papel de dentro do envelope, o enfiou nas mãos de Kate com uma certa brutalidade, enquanto a acuava na parede com uma expressão terrível no rosto.

- Leia! – ordenou ele.
Temerosa do que tinha no papel, ela puxou a mão com força, zangada com ele.
- Leia alto! – repetiu ele.
Ela começou:
"Caro Sr. Sawyer, Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem voc que você fez. Você fez sexo com a minha mãe e você roubou o dinheiro do meu pai. Ele ficou tão nervoso que matou minha mãe e se matou também. Tudo o que eu sei é o seu nome. Mas um dia desses eu vou encontrá-lo e vou te dar essa carta e você vai se lembrar do que fez comigo. Você matou meus pais, Sr. Sawyer."

Aquilo era a coisa mais terrível que já tinha lido.
Respirando com dificuldade, ela ficou calada, com os olhos baixos.
Se sentia enojada, da carta e dele. Quis fugir dali, correndo.
Sua mente girava com emoções exacerbadas e mesmo assim, bem no fundo, o teor da carta lhe lembrou alguma coisa que naquele momento de angústia, lhe escapava.
Com o rosto bem junto ao dela, rosnou amargo:
- Ainda quer que eu fique? Acho que não!
Se afastando dela, lhe mostrou a porta, grosseiro.
- Posso ter minha privacidade de volta, por favor? Tenho uma mudança para fazer. Você também, não é? Pra agradar o noivinho... – provocou ele.
Ela o encarou magoada e saiu trêmula do quarto.

Na sala encontrou Hurley e Charlie, pálidos e amedrontados.
- Ele não vai mesmo embora, vai? – indagou Hurley fazendo beicinho.
- Que que deu nele? – secundou Charlie.
- Não sei... não sei! – disse Kate tristemente, tentando conter as lágrimas.

Correu para casa, totalmente arrasada.