Capítulo 37

Victoria ouviu que a porta dos aposentos dela estava a ser aberta.

O coração dela batia rapidamente como se ela temesse a aproximação de um ladrão. Era necessário bloquear o cérebro e tentar acalmar. Fingir que não era com ela que aquilo estava a acontecer. Pensar que aquilo era apenas um dever e que tinha mesmo de ser cumprido. Também não poderia ser assim tão mau. Se ela fosse, de facto, virgem, seria bem pior. Ela já sabia como tudo aquilo funcionava e ela tinha sido iniciada naquilo da forma mais bela possível, e com o melhor homem do mundo. Agora seria bem mais fácil. E isto não era nada, não significava nada. Era apenas um acontecimento sem importância.

Albert bateu na porta do quarto.

Victoria mal conseguiu responder sim. Primeiro a voz não queria sair e depois não se fez ouvir no quarto.

Ele entrou vestido de camisa de dormir e roupão.

O problema era o nojo que ela sentia. Ela tinha nojo de fazer isto com ele! Imaginar aquela pele dele em contacto com a dela…E sentir aquele cheiro dele, enjoativo. Bem, talvez isto não demorasse demasiado tempo. Um dia William tinha dito que com o Príncipe aquilo deveria acontecer rapidamente. E ela estava na penumbra e estava vestida. Ela não iria permitir que ele visse o corpo dela nu. Mas ele teria de lhe tocar. E ele teria de entrar nela…

Mantendo-se imóvel, deitada de costas sobre a cama e com as mãos a agarrarem o limite da roupa da cama que tinha sobre o peito, Victoria olhou para cima.

Albert despiu o roupão, colocou-o sobre uma cadeira e aproximou-se da cama.

"Victoria…" Ele disse baixinho.

Aquele ambiente estranho transmitia-lhe a ideia de que ele deveria falar baixo. Parecia que se ele falasse mais alto ela iria assustar-se.

Ela não disse nada, mantendo os olhos no dossel por cima da cabeça dela. Ela estava petrificada. Se aquilo tivesse acontecido na noite do casamento, emocionalmente teria sido mais fácil. Agora, depois de todo o adiamento e depois de tudo o que tinha acontecido com William, e de todo o significado que ela descobrira que aquilo tinha, era muito mais difícil fazer isto.

"Victoria, eu posso deitar-me com você?" Ele perguntou no mesmo tom baixo.

Ela movimentou a cabeça afirmativamente.

Albert abriu um pouco a roupa da cama, devagar para não a assustar, e deitou-se do lado direito dela com cuidado, tapando-se de seguida.

Percebendo o desconforto dela e a inexistência de qualquer predisposição para que as coisas avançassem, ele perguntou:

"O que é que eu devo fazer agora?"

Victoria rodou a cabeça para olhar para ele e, surpreendida, disse:

"Eu não sei…Você é quem sabe."

"Eu sei…Mas eu não quero assustar você. Eu estou a pedir permissão para…Você sabe."

"Você tem a minha permissão." Ela informou, no mesmo tom régio com que ela falava com os súbditos e com os criados.

Não poderia haver coisa mais desprovida de emoção do que isto. Albert pensou.

"Eu terei de tocar em você…" Ele lembrou.

"Eu sei. Mas você não tem permissão para me ver nua." Ela foi perentória.

"Claro, eu compreendo. Hoje eu não irei ver o vosso corpo."

Hoje? Victoria foi lembrada do triste facto de que isto era apenas o princípio. Não bastaria suportar isto apenas hoje. Poderia ser necessário repetir mais vezes. E se Albert não acertasse no alvo ainda hoje?

"Eu terei de me colocar sobre você…E de levantar a vossa camisa de dormir…" Ele continuou.

"Sim." Ela autorizou.

Albert hesitou um pouco. Depois ele movimentou-se devagar com o intuito de se posicionar de modo apropriado.

Victoria sentiu, desagradada, que o ar frio entrava por baixo da roupa da cama à medida que ele se movia.

Albert ajoelhou-se sobre a cama junto dos pés dela.

"Victoria, desculpe, mas você terá de abrir as pernas." Ele pediu.

Isto era ridículo! Albert pensou. Ele estava a pedir-lhe para ela abrir as pernas. E ainda lhe pediu desculpa! Ele tinha de explicar-lhe tudo e tinha de ser educado. E ele acabava de pedir à rainha de Inglaterra para abrir as pernas! Ele deveria vê-la como a mulher dele, mas porque o casamento deles se tinha tornado incomum não era assim que ele a via. Para ele, ela era a rainha. Isto estava a tornar-se desconfortável. Algo que ele imaginara como entusiasmante, estava a tornar-se um suplício para ele também. Albert também desejou que acabasse rápido.

Ela não estava ali para lhe facilitar a vida. Ele teria de conquistar cada permissão e cada gesto dela! Com as pernas esticadas sobre a cama, Victoria abriu-as ligeiramente.

Albert agarrou o limite da camisa de dormir dela e empurrou o tecido para cima, descobrindo-lhe as pernas.

Aquilo era muito incómodo para ela.

Quando a camisa chegou um pouco acima dos joelhos ela reclamou:

"Você não pode ver o meu corpo!"

"Mas eu tenho de levantar a vossa camisa de dormir para cima. Victoria, se você fletir as pernas e permitir que eu me coloque o meio delas, eu poderei depois acabar de levantar a sua camisa de dormir sem ver a vossa nudez. Os meus olhos ficarão ao nível do vosso rosto."

Ela fletiu as pernas e permitiu que ele se ajustasse no meio delas. Enquanto isso ela virou o rosto para o lado esquerdo para não permitir contacto visual com ele, o que era demasiado embaraçoso e repugnante.

Victoria sentiu então que as mãos dele faziam subir mais a camisa de dormir. E agora as mãos dele passavam pelas ancas nuas dela. Que nojo!

"Você não tem cuecas…" Ele notou.

"Eu sabia o que eu vinha fazer. Eu não sou estúpida." Disse ela desagradada.

"Desculpe…"

Albert iniciou um movimento sobre si mesmo com a mão direita.

O que é que ele estava a fazer? Oh, não! Ele estava a entusiasmar-se a si próprio para ficar na condição adequada para o efeito pretendido. Ela poderia ajudar Albert a alcançar uma boa condição. Mas, obviamente, ela não iria fazer isso. Ela era virgem, ela não sabia como essas coisas se faziam. E, além disso, ela nunca faria isso para ele! As mãos dela e a boca dela não tocariam naquela coisa! Ela nem queria ver aquilo!

Isto era mais difícil do que Albert tinha imaginado. Ele tinha uma mulher seminua debaixo dele e ele deveria estar excitado por causa disso. Mas ele não estava. Ela parecia meio morta e toda esta situação era estranhíssima.

Victoria estava a achar isto repugnante e ela só desejava que ele passasse à fase seguinte e fizesse o que tinha de ser feito rapidamente. Ele deveria entrar dentro dela e depositar semente e sair.

"Você vai demorar muito?" Ela perguntou.

A pergunta dela piorou ainda mais as coisas para Albert. Ele não estava a conseguir atingir o estado ideal.

Com um suspiro, Albert retirou-se de cima dela, tendo o cuidado de puxar a camisa de dormir dela de novo para baixo, para cumprir a promessa de não a ver nua.

Depois ele colocou-se aos pés dela, apoiado sobre os joelhos e disse:

"Victoria…Eu preciso de atingir a condição ideal para fazer isto e esta situação embaraçosa que você criou não está a ajudar."

"Eu é que criei a situação embaraçosa?" Ela reclamou, apoiando os cotovelos sobre o colchão para poder encará-lo melhor.

"Foi você que se recusou a consumar o nosso casamento na nossa noite de núpcias. Mas eu peço desculpa pelo que eu disse, eu não quero discutir com você agora."

Ela não disse mais nada. Ela estava expectante para ver o que ele faria a seguir. Se ele não estava a conseguir atingir o ponto ideal talvez ele desistisse.

Então ele informou:

"Eu preciso de ficar sozinho para conseguir melhorar as coisas. Eu vou para a sala ao lado, mas eu voltarei dentro de alguns minutos."

Albert saiu de cima da cama e depois ele pegou no roupão e saiu do quarto.

Victoria ficou sozinha, surpreendida pelo que estava a acontecer. Ela não podia sair do local onde estava ou o truque que ela tinha preparado iria ser descoberto.

Alguns minutos depois Albert voltou a entrar, deixando a porta do quarto meio aberta.

Victoria podia ver que agora a camisa de dormir dele cobria algum volume que se evidenciava por baixo do tecido. Parecia que ele tinha atingido o ponto adequado.

Ele despiu o roupão de novo e voltou a colocá-lo sobre a cadeira.

Depois ele voltou a entrar na cama e a colocar-se sobre ela. Desta vez ele não pediu autorização para fazer isso.

Victoria achou a atuação dele desrespeitosa, mas ela não disse nada e agiu em conformidade. Ela fletiu e abriu as pernas.

Ele estava a puxar a camisa de dormir dela para cima, de novo, quando Victoria ouviu uns pequenos passos na madeira do chão do quarto.

Ela rodou a cabeça para a direita e viu Dash, parado no meio do quarto a olhar para eles em cima da cama.

"Albert." Ela chamou.

"O quê?"

"Você deixou a porta aberta e Dash entrou."

Albert rodou cabeça também, para ver o cão, e disse:

"Deixe-o estar. Não tem importância."

"Eu não consigo fazer isto com Dash a olhar para nós!"

"E o que é que você quer que eu faça?"

"Você tem de ir colocá-lo lá fora e fechar a porta."

Albert suspirou, visivelmente desagradado, saiu da cama e caminhou até junto do cão.

"Dash, saia!" Ele exclamou, esticando o braço na direção da porta.

O cão sentou-se.

"Vamos, Dash, lá para fora!" Albert insistiu com voz de comando, voltando a esticar o braço na direção da porta.

Para desespero de Albert, Dash deitou-se no chão do quarto.

"O vosso querido cão não me obedece!" Ele reclamou virando-se para Victoria.

"Saia daqui Dash!" Victoria pediu, sentando-se na cama.

O animal olhou para ela e para a altura tremenda de Albert, logo acima dele, mas permaneceu imóvel.

"Ele está habituado a dormir na minha cama. E ele nunca viu você aqui antes. Ele deve estar a achar tudo isto muito estranho, coitadinho." Disse Victoria.

"Coitadinho?" Albert perguntou indignado. "Você está com pena dele? E de mim você também tem pena? Você também lamenta pela minha situação? Ele dorme na vossa cama todos os dias e hoje ele não pode fazer isso! Qual é o problema? Eu, que sou o vosso marido, nunca dormi com você durante todos estes meses depois do casamento!"

"Albert, por favor…Eu permiti que você viesse aqui hoje. Você só tem de pegar nele ao colo e de colocá-lo lá fora. Depois você poderá voltar para a cama."

Albert debruçou-se para pegar em Dash. Mas quando ele tocou no dorso dele, o cão colocou-se pé e começou a recuar e a ladrar furiosamente na direção dele.

"Dash!" Victoria gritou para que ele se calasse.

Mas o animal continuou a ladrar ameaçadoramente, mostrando que não queria obedecer.

Ela não poderia sair da cama, e ir resolver aquele assunto, porque desse modo Albert descobriria o truque que estava montado para enganá-lo.

Vendo que não conseguiria pegar no cão, por medo que este lhe mordesse nas mãos, Albert resolveu usar o pé para empurrá-lo na direção da porta.

Quando o Príncipe aproximou o pé dele do corpo do cão, Dash agarrou a bainha da camisa de dormir com os dentes e puxou.

Querendo libertar-se, Albert recuou, e puxou a camisa de dormir em sentido contrário.

Dash firmou os dentes e a camisa de dormir de Albert abriu um grande rasgão debaixo para cima, até à cintura.

Perante este acidente inesperado, e ainda agindo no sentido de se libertar, Albert não conseguiu evitar que a definição da masculinidade dele se mostrasse através desta nova abertura da camisa de dormir.

Victoria fechou os olhos.

Finalmente, Albert sentiu que o cão soltara a camisa de dormir. Mas ele estava furioso com tudo o que estava a acontecer! Aquela noite era um caos e ele já tinha perdido todo o pouco entusiasmo que ele tinha conseguido obter na sala ao lado. Com o desejo de vingança superando todas as emoções dele, Albert deu um pontapé em Dash com o objetivo de colocá-lo violentamente fora do quarto.

"Albert!" Victoria gritou abismada.

Desprevenido, Dash ainda foi atirado até à porta. Mas ele não ultrapassou a abertura da porta e voltou rapidamente para retaliar.

Dash mordeu o Príncipe no tornozelo direito.

Albert gritou de dor e começou a reclamar:

"Maldito cão! Você vê o que o vosso cão fez comigo?"

"Dash!" Victoria tentou agora repreender o cão.

O animal saiu do quarto, finalmente, depois de ver que tinha feito asneira.

"Eu estou a sangrar! Eu preciso de um médico!" Albert continuava lá a gritar.

Victoria não sabia o que deveria fazer. Ela não podia sair da cama.

Mas antes que ela tivesse de fazer alguma coisa, Albert vestiu o roupão e saiu aflito do quarto para ir à procura de ajuda.

Ela deveria sair atrás dele ou ela deveria ficar ali? Ela deveria repreender Dash ou ela ainda deveria agradecer-lhe pelo que ele tinha feito? Victoria riu. Depois disto era impossível não rir. Ela lembrava-se do caricato da situação e da aflição de Albert… Era demais para suportar sem rir! E ela tinha sido salva por Dash!

Victoria achou melhor ir atrás de Albert para saber qual era a gravidade da situação.

Ela saiu da cama, vestiu o roupão para tapar a sujidade da camisa de dormir e tapou a mancha de sangue no lençol com a colcha da cama. Também ninguém entraria no quarto dela agora.

Dash estava agora deitado na almofada dele, na sala ao lado.

Victoria aproximou-se do cão e baixou-se para lhe fazer uma carícia.

O cão estava um pouco apreensivo, mas recebeu com agrado o carinho da dona.

"Você está bem?" Ela perguntou.

O animal reagiu com contentamento ao toque da mão dela. Parecia que estava tudo bem com ele.

"Mas o que você fez está errado!" Victoria exclamou, agora num tom que revelava alguma repreensão, e retirando a mão de cima do pelo do cão. "Você não pode morder nas pessoas, mesmo quando você não gosta delas."

Dash pareceu entender o que ela estava a dizer.

Victoria colocou-se de pé e concluiu:

"Mas eu agradeço a vossa ajuda! Você também prefere Lord M, não é?"

Albert estava agora nos aposentos dele com o pé direito elevado sobre uma cadeira enquanto o Dr, Clark tentava desinfetar o ferimento.

Victoria entrou.

"Obrigada por ter vindo, Dr. Clark." Ela agradeceu. "É grave?"

O médico baixou a cabeça e respondeu:

"A mordedura não é profunda."

"Aquele cão nunca gostou de mim!" Albert reclamou.

"Dash é um pequeno cão amoroso. Ele não poderia provocar um grande ferimento. Mas ele ficou nervoso quando você tentou agarrá-lo…"

Na frente do médico Victoria não quis falar sobre o facto de Albert ter agredido o cão antes de ser atacado.

"Está terminado Alteza!" Disse o médico. "Agora eu aconselho que vá repousar. Amanhã de manhã eu voltarei para ver como passou a noite."

"Obrigado, Dr. Clarck." Albert agradeceu.

O médico fez uma vénia quando passou pela rainha e Victoria disse:

"Boa noite."

Albert e Victoria ficaram sozinhos um com o outro.

Houve um momento de silêncio.

Então Victoria disse:

"Desculpe…"

"Você não teve culpa." Ele respondeu sem olhar para ela. "A culpa não é vossa…"

Victoria percebeu de que ele falava das circunstâncias, do destino de ambos moldado por outras pessoas, de como era fatídico pertencer a uma linhagem real.

"Mas o que você fez foi desprezível!" Ela disparou agora de forma indignada.

"Desculpe!" Ele pediu.

"Pobre Dash! Ele só reagiu à violência que você usou sobre ele!"

"Desculpe!" Ele voltou a pedir.

Ela parou se falar e tentou acalmar a respiração. Mas depois ela acrescentou, agora de modo mais moderado:

"Você não voltará a bater em Dash. Se você fizer isso eu não sei o que eu poderei fazer com você."

"Eu perdi o domínio da razão. A nossa situação já ultrapassou todos os limites." Albert justificou-se. "Eu não voltarei a fazer isso."

"É bom que assim seja." Victoria concluiu e saiu.

O dia tinha amanhecido chuvoso e Victoria olhava lá para fora através da janela da sala de estar.

Havia uma concordância entre a aparência do dia lá fora e o estado de espírito dela. Onde é que William estaria a esta hora? Ontem as coisas tinham sido adiadas, mais uma vez. Mas aquilo teria de se repetir. Albert voltaria.

Emma entrou.

Victoria estava distraída e não percebeu que havia outra presença na sala senão quando ela se colocou ao lado dela, também olhando através do vidro, e perguntou:

"Está tudo bem, ma'am?"

"Sim." A rainha respondeu pouco convicta. "As coisas voltaram a ser adiadas…Entre mim e o Príncipe…"

"Eu ouvi dizer que o Príncipe foi mordido por Dash quando ele estava no vosso quarto…"

"É verdade. E isso impediu, mais uma vez, a consumação do casamento…Foi um alívio para mim, mas eu sei que terá de acontecer em outro momento."

"Ao menos agora as pessoas sabem que foi no vosso quarto que Dash mordeu no Príncipe. Pelo menos, para a opinião pública, Vossa Majestade e Sua Alteza dormem juntos." Disse Emma.

"Você tem razão."

Emma virou as costas e preparava-se para voltar a sair da sala quando a rainha, sem tirar os olhos da janela, disse:

"Eu sinto a falta dele."

Emma voltou para trás, para se colocar ao lado da rainha, de novo, e assegurou:

"Eu tenho a certeza que ele também sente a vossa falta."

"Você sabe se ele está bem? Você viu-o ou ouviu alguém falar sobre ele?" Victoria perguntou ansiosa. Parecia que ele tinha saído do palácio há muito tempo atrás.

"Ontem o meu marido disse que se encontrou com ele no Parlamento." Emma informou.

"E ele estava bem?"

"Eu acho que sim, ma'am…Dentro das circunstâncias…"

"A minha vida é uma tragédia." Victoria declarou com angústia.

"William é teimoso, eu sei."

"Se ele concordasse em casar comigo…"

"Eu já tentei convencê-lo…" Confessou Emma.

"Você fez isso?" Victoria perguntou surpreendida, olhando para Emma.

"Sim, mas até agora eu não fui bem-sucedida. Em vez de ele decidir avançar nesse sentido, vejo que ele saiu do palácio para vos deixar sozinha com o príncipe…"

"Obrigada por ter tentado Emma!

"Eu só queria que ambos fossem felizes."

Victoria moveu-se pela sala e disse:

"Ele acha que é demasiado velho para mim. Ele receia deixar-me sozinha…"

"Ele está a ser prudente e a proteger-vos."

"Eu sei, mas eu preferia poder viver com ele em liberdade."

"Eu compreendo."

"Não existe nenhum outro homem no mundo como ele, e eu não trocaria William por nenhum homem jovem. Para mim ele é perfeito exatamente como ele é." Victoria afirmou com determinação, voltando a aproximar-se de Emma.

"Eu sei… Eu sei como ele é perfeito…"

"Você conhece William muito bem, não é?" A rainha perguntou de maneira intrigada.

"Há muito anos. Quase como a palma das minhas mãos." Emma declarou confiante.

"Você também esteve apaixonada por ele?" Victoria perguntou direta.

Ela sempre achara a relação de ambos demasiado próxima. Durante muito tempo isso parecia normal, ela não desconfiava de nada. Mas um dia tinha havido um despertar no cérebro dela. Ela tinha-se questionado, pela primeira vez, se alguma coisa de mais profundo tinha existido entre os dois. Afinal de contas a lista de mulheres na vida de William Lamb era extensa. Ela sempre tinha sido advertida para isso. Desde o primeiro dia em que ela o conhecera.

"Ma'am…eu…" Emma respondeu atrapalhada e em choque. Ela não esperava esta pergunta.

"Diga a verdade!" Victoria insistiu de forma um pouco agressiva.

Não era habitual que ela usasse este tom de voz, nem esta expressão, para falar com Emma.

"Eu estive…" Emma confessou. "Mas foi há muitos anos atrás!" Ela apressou-se a adicionar com uma aflição visível por fazer esta revelação.

"E ele?" A rainha perguntou com a ansiedade.

"Oh, não, ele nunca me amou! Eu posso assegurar-vos! Ele sempre quis ser apenas meu amigo. E nunca aconteceu absolutamente nada entre nós! Eu juro!" Emma explicou com a mais notória aflição expressa no rosto e na voz.

"Mas ele sabe disso…"

"Ele sabe. Mas ele nunca retribuiu."

"Você ainda o ama?" Victoria perguntou agora num tom menos agressivo.

"Não dessa forma, ma'am. Ao longo dos anos o que eu sentia por ele transformou-se. Eu gosto muito dele, mas não mais dessa forma. E eu desejo verdadeiramente que ele seja feliz. E se a felicidade está ao vosso lado então eu sou a primeira pessoa a apoiar."

Houve um silêncio entre as duas mulheres.

"Eu acreditarei em você. Pode sair." Victoria declarou secamente.

Emma queria dizer mais alguma coisa, mas não sabia o que poderia ser dito que pudesse melhorar as coisas.

Com o coração a bater fortemente ela saiu.

A dúvida permanecia lá. Ele queria saber se ela já tinha feito aquilo.

Não, ele não queria saber!

Porque é que ele se matava com isto? Mas era impossível obrigar o cérebro a pensar em outra coisa.

Embora ele já não estivesse a viver no palácio, ele deveria voltar lá com regularidade para reunir com ela sobre assuntos políticos. No entanto, ele não iria fazer isso. Se ele fosse lá isso iria estragar tudo. Agora ela ir-se-ia agarrar a ele e suplicar para que ele ficasse. E eles não podiam passar por isso. Ele só voltaria lá quando ele tivesse a certeza de que ela já tinha cumprido o dever. Ela deveria informar. Não?

Mas e depois? Quando ele tivesse de voltar a vê-la depois disso? Como seria esse primeiro encontro? Um reviver do primeiro encontro depois do casamento dela com Albert. Nessa época ele tinha pensado que ela tinha consumado o casamento, claro. E isso tinha sido terrível. Agora seria duplamente pior porque se, nesse caso, ele descobrira depois que ela permanecia virgem por causa dele, agora ele teria a certeza de que ela se tinha deitado com Albert, e porque ele mesmo a tinha empurrado para isso.

Como é que ele conseguia fazer sempre a escolha errada? Aquela que mais o fazia sofrer. Primeiro ele tinha recusado o amor dela em Brocket Hall e deixara-a casar com aquele idiota. Depois ele tinha-a obrigado a cumprir o dever de esposa para com o Albert. Sempre sacrificando o coração dele próprio. O que é que o futuro reservaria para eles e até quando é que ele aguentaria isto?

Agora Albert não falava com ela. Contrariamente ao que Victoria tinha pensado ele não voltou a procurá-la para pedir para retomar o que tinha ficado em suspenso. E agora ele nem lhe dirigia a palavra. Isso era desagradável e bom ao mesmo tempo. Enquanto ele estivesse amuado pelo que tinha acontecido, ou melhor, pelo que nunca tinha acontecido, ela estava a salvo. Mas viver naquele palácio era como viver numa prisão. Ela sentia-se interdita da liberdade dela. Ela não tinha liberdade de escolha. Ela não podia escolher como viver a própria vida. Ser rainha era, com certeza, o pior destino que alguém poderia ter. Ela só queria poder fugir dali e ir para um sítio que ela sabia muito bem qual seria…

"William!" A voz de Emily soou a partir do hall de entrada.

Ele não podia crer que, além de tudo o mais, ele ainda teria de suportar a ingerência de Emily!

Houve uma batida na porta da biblioteca, mas quase antes disso ele respondeu:

"Pode entrar!"

William estava sentado à secretária tentando fazer alguma coisa útil, o que se revelava extremamente difícil, para não dizer impossível.

Emily caminhou até ele e debruçou-se para que se pudessem beijar.

Depois ela puxou uma cadeira, sentou-se perto dele e perguntou:

"Você saiu do palácio?"

"Se eu estou aqui…"

"Mas esta casa está cheia de pó e de outras porcarias."

"Eu convivo bem com isso."

"Você poderia ter ido para minha casa até que as obras ficassem realmente concluídas."

"Eu não quis vos incomodar."

"Você sabe que não nos incomoda! Eu e Henry iríamos gostar imenso de ter você connosco."

"Eu sou um lobo solitário…você sabe."

"Eu sei. Mas isso preocupa-me. Eu sei que essa é a vossa maneira de ser, mas por vezes eu sinto que você está a afundar-se."

Ele olhou nos olhos dela, mas não disse nada.

Houve um momento de silêncio.

"E eu não quero que você se afunde." Emily acrescentou.

William sentiu a ternura de Emily para com ele nestas palavras dela, e isso deu confiança a ele.

"Às vezes é difícil…" Ele confessou.

Ele estava a abrir uma pequena brecha numa armadura intransponível. Emily sabia. Ele nunca permitia isso.

"Porque é que você saiu do palácio?" Ela perguntou calmamente.

Ele não foi capaz de verbalizar uma mentira.

"Não faz sentido. As obras na vossa casa ainda não terminaram e você e a rainha partilham uma relação única." Emily analisou.

Ele desmoronou perante as últimas palavras dela. William apoiou os cotovelos sobre o tampo da secretária e levou a mãos ao rosto para esconder os olhos em lágrimas.

Emily colocou a mão direita sobre o ombro esquerdo dele com ternura e perguntou:

"Você teve uma desavença com a rainha? Ela expulsou você do palácio?"

Ele virou-se para ela e abraçou-a.

Emily retribuiu o abraço.

Ele precisava que ela o abraçasse, mas ele não queria que ela visse os olhos dele.

"Não faça perguntas, Emily! Por favor, não faça perguntas. Eu não posso responder." Ele soluçou.

"Não há problema William, você não tem de me contar nada." Ela assegurou, usando a mão direita para afagar o cabelo dele.

Ela nunca o tinha visto tão vulnerável exceto no dia em que Caroline tinha morrido.

Victoria estava a desenhar Dash para tentar distrair-se.

"Ma'am…Eu peço desculpa por interromper." A voz de Emma soou na sala.

A rainha não levantou os olhos do desenho. Ela apenas disse:

"Diga o que você quer."

"Eu quero esclarecer melhor as coisas Vossa Majestade. Eu não posso permitir que exista qualquer tipo de dúvida sobre a natureza dos sentimentos que eu nutro por William."

"Eu disse que eu acreditaria em você." Vitoria declarou, levantando finalmente a cabeça do desenho para olhar para Emma.

"Mas Vossa Majestade ficou incomodada com a minha revelação. Eu sinto."

"Claro que eu fiquei incomodada. Que mulher gosta de saber que outra mulher teve um interesse amoroso no homem que ela ama. Sobretudo quando se tem essa pessoa como uma amiga."

"Mas eu sou vossa amiga. Eu sou amiga de ambos. E eu só desejo o vosso bem."

"Eu tenho pensado sobre isso, Emma."

"Sim? E o que é que Vossa Majestade pensou?"

"Eu fiz uma revisão de todos os momentos em que você esteve connosco desde que eu vos conheci."

"E o que é que Vossa Majestade concluiu?"

"Eu concluí que você é sinceramente nossa amiga. Se você não fosse você não teria feito as coisas que você fez."

Emma sorriu em alívio e disse:

"Eu fico feliz por saber disso, ma'am. Eu preferiria que Vossa Majestade nunca tivesse tido conhecimento deste assunto, mas perante a vossa pergunta eu fui honesta, eu não quis mentir."

"Você tomou a opção certa, Emma! E eu também apreciei isso."

"Então eu posso ter a certeza que as coisas entre nós voltarão a ser como eram…"

Victoria levantou-se da cadeira e caminhou até Emma.

Depois a rainha agarrou nas mãos dela e disse:

"Você pode ter a certeza."

Embora, por vezes, Emily pudesse ser irritante, William gostava muito dela e sabia que ela gostava muito dele. Sempre tinha sido assim desde a infância. Por isso, foi muito reconfortante ter o abraço de Emily. E depois disso ele não poderia negar o convite dela para jantar. Ele começou por dizer que ele preferiria ficar em casa. Mas perante a segunda insistência dela ele teve de aceitar.

Palmerston recebeu Melbourne calorosamente, manifestando o desejo de que ele aceitasse mais vezes os convites que ele lhe dirigia para um convívio.

Depois, os dois deslocaram-se para uma saleta para conversar e beber antes do jantar, longe do olhar e dos ouvidos de Emily.

"Você parece um monge! Pelo menos você vive como um!" Provocou Henry, enquanto estendia um copo de bebida para William que já se encontrava sentado numa poltrona.

"Sempre encerrado em casa e, que nós saibamos, ultimamente sem companhia feminina." Henry completou enquanto se sentava também. "Esse nem parece William Lamb!"

William esforçou-se para sorrir. No entanto, não havia nada que ele pudesse dizer sobre este assunto. Se eles soubessem a verdade…

"E você já foi visitar o Príncipe?" Perguntou Palmerston.

"Albert?" William perguntou sem entender. "Porque é que eu deveria ir visitá-lo?

"O Príncipe está ferido."

"O Príncipe?"

"Sim, você não leu os jornais?"

"Entre ontem e hoje, não…"

"Albert of Saxe-Coburg and Gotha está em convalescença. Ele foi mordido pelo próprio cão da rainha."

"Dash? Mas ele não é agressivo…"

"Ele mostra ser um verdadeiro cão inglês, mordendo naquele alemão que vive do nosso dinheiro!" Palmerston exclamou com satisfação visível.

"Talvez o príncipe tenha feito algo que fez Dash sentir-se ameaçado…" William declarou intrigado.

"Isso eu não sei, mas o acidente aconteceu em hora avançada da noite quando o príncipe estava no quarto da rainha." Palmerston informou.

O estômago de William sofreu um aperto violento e ele sentiu uma tontura. Felizmente ele estava sentado.

"No quarto?" William perguntou. Existiram mais pormenores sobre aquele acontecimento que ele devesse saber?

"Parece que, contrariamente às más línguas que se movem em surdina, o principezinho alemão afinal vai lá fazer alguma coisa…"

William deveria rir da piada. Uma alusão jocosa à sexualidade do casal real, trocada entre dois homens na privacidade de quatro paredes. Mas ele não riu. O assunto era demasiado cortante para que ele pudesse rir. A forma como aquela frase o apunhalou deve ter-se notado na expressão do rosto dele porque Palmerston disse:

"Desculpe…Eu esqueço-me de como você é tão próximo da rainha. Talvez você não goste que falemos sobre isto desta forma."

"De facto… É melhor não. Eu tenho muita estima pela rainha e eu não gosto que falem sobre ela dessa forma."

Palmerston voltou ao assunto, mas sob outra perspetiva:

"Agora a sério. Todos nós reconhecemos como já está a demorar para que o anúncio de que há um herdeiro a caminho seja feito."

William suspirou e disse:

"Talvez…Mas você sabe que nem todas as mulheres respondem a isso da mesma forma. Algumas demoram bastante para conceber."

"É verdade. Mas enquanto não há uma boa noticia as pessoas ficam nervosas."

"Como você pode supor eu não falo sobre essas coisas com a rainha. Isso é algo do domínio da privacidade do casal real."

"Talvez o problema esteja no Príncipe…Imagine que ele não consegue…Você sabe…"

"Eu não sei nada sobre isso!"

Agora a resposta de William foi mais agressiva e Henry achou por bem mudar de assunto.

Na carruagem, de volta a casa, depois do jantar com Henry e Emily, William pensava no que Palmerston tinha dito.

O Príncipe tinha sido mordido em hora avançada da noite no quarto da rainha. Obviamente, se ele estava no quarto de Victoria e àquela hora, ele só poderia ter ido lá para fazer uma única coisa. Se ele estava lá era porque ela tinha permitido. E se ela tinha permitido a presença dele o objetivo só poderia ser um. Então aquilo já tinha acontecido!

Porém, Dash teria mordido em Albert antes ou depois de…? Provavelmente depois…

Como é que ele iria conseguir adormecer hoje?

Longe ia o tempo em que Victoria era uma menina. Nessa época as coisas não eram fáceis porque ela vivia presa e sozinha, mas agora também não eram fáceis. Ela continuava a sentir-se presa e, sem William junto dela, ela sentia-se sozinha outra vez.

Victoria lembrou-se do dia em que eles se conheceram. E isso fê-la lembrar da boneca 123. William tinha pegado na boneca com cuidado. Um homem que pegava assim numa boneca só podia ser um homem gentil.

Então ela lembrou-se do toque das mãos dele sobre o corpo dela e da forma como ele a agarrava. Não havia coisa mais enternecedora do que isso. Ele pegava nela como se ela fosse uma boneca. Ele era sempre carinhoso e nas mãos dele ela sentia-se sempre nas mãos de Deus. Mesmo nos momentos de maior arrebatamento, mesmo quando o desejo o fazia ser mais vigoroso na forma como ele agarrava a carne dela, as mãos dele eram sempre um presente de amor indescritível.

Ela desejou ver a boneca que ela tinha guardado numa caixa há muito tempo atrás. Quando ela tinha considerado que ela já não era uma menina. Afinal nesse momento do passado ela já era uma rainha. E ela acabava de descobrir o amor. Mas William sempre dizia que ela era uma menina. A menina dele…

Victoria dirigiu-se ao armário e tirou a caixa. Depois ela abriu-a e tirou a boneca. As mãos dela acariciaram com cuidado o vestido e a coroa. William tinha falado sobre a coroa… Era uma boa recordação. Mas a boneca teria de voltar a ser guardada.

Ela voltou a guardar a boneca. No entanto, hoje ela estava nostálgica e tinha vontade de revisitar o passado com outras coisas. Havia os diários antigos e os desenhos que ela tinha feito havia muitos anos atrás, as histórias que ela tinha escrito…

Victoria abriu uma gaveta de uma cómoda para procurar mais coisas antigas.

Os olhos dela bateram em algo que ela já não se lembrava que guardava.

"Emma!"

A Lady of the Bedchamber apressou-se para o quarto da rainha.

"Sim, ma'am!"

"Eu preciso da vossa colaboração."

"O que eu puder fazer por vós deixar-me-á muito satisfeita."

"Eu preciso de usar a vossa carruagem para ir a um sítio!" A rainha informou-a.

Emma baixou a cabeça em concordância.

"E é necessário que você vá comigo e espere lá até que eu possa regressar."

"Claro, ma'am."

"Pode demorar algum tempo…"

"Não se preocupe." Emma tranquilizou a rainha e depois acrescentou: "Eu vou então pedir que eles preparem a minha carruagem."

Emma já ia quase a sair da sala quando Victoria chamou:

"Emma!"

A mulher virou-se para trás, para olhar para a rainha.

Victoria declarou:

"Você é uma boa amiga."

Emma sorriu e saiu da sala.