Onze anos depois...

Fazia frio naquela manhã de setembro. Ventos cortantes varriam a cidade de Londres, arrastando folhas e sacudindo os cabelos de quem andava pelas ruas.

A estação de King's Cross estava lotada. Várias pessoas indo ou vindo, embarcando e desembarcando, e muitas crianças empurrando carrinhos com malões enormes. As menores eram as mais empolgadas, falando sem parar e com sorrisos de orelha a orelha.

Scorpius Malfoy era uma delas. O menino olhava animado para todos os lados, tagarelando, com seus olhos brilhando de animação. Ele andava de mãos dadas com seu pai, que pacientemente respondia às suas perguntas e tirava suas dúvidas sobre como seriam seus próximos meses longe de casa pela primeira vez. Sua mãe seguia ao lado, empurrando o carrinho com seus pertences.

Ainda não eram nem dez horas quando chegaram à parede entre as plataformas 9 e 10. O menino olhou com olhos arregalados, como se não acreditasse que chegara sua vez de passar por ali. Astoria sorriu, cheia de orgulho, enquanto Draco instruía o menino: "Segure o carrinho, corra diretamente para a parede e não tenha medo. Estaremos logo atrás de você."

Scorpius assentiu, abriu um sorriso enorme para os pais e então segurou o carrinho. Respirou fundo... correu... e então... já não era mais visível. Os pais sorriram, animados.

Draco estendeu uma mão para Astoria: "Vamos?" Ela hesitou por um instante, mas segurou a mão dele e juntos passaram pela parede.

Astoria usava vestes bruxas, a despeito de ter tido que andar entre os trouxas. Queria estar tradicionalmente vestida no momento de embarcar seu filho para a escola de magia. Draco ostentava um visual igualmente bruxo, com vestes escuras e elegantes. Quando os dois apareceram do outro lado da plataforma, atrás de Scorpius, a família chamou a atenção e todos os que estavam presentes se voltaram para observá-los. Eles, no entanto, não perceberam. Estavam olhando o filho, e ele, encantado demais para reparar em qualquer coisa.

Astoria e Draco encontraram Scorpius parado, boquiaberto, encarando o enorme Expresso de Hogwarts. Seu rostinho expressava a enorme felicidade por chegar àquele momento. Astoria aproximou-se dele, abraçando-o pelas costas e beijando-lhe a cabeça. "Até que enfim, heim, filho? Você desejava tanto ir para a escola aprender magia, e chegou a sua hora. Está animado?"

Scorpius olhou para Astoria com olhos brilhando. "Estou, mamãe! Eu quero aprender muitas coisas!"

"E vai aprender, querido. O que você mais quer estudar?"

Ele pensou por um instante e respondeu: "Poções!"

Astoria surpreendeu-se com a resposta. "Poções? Que interessante! Achei que você iria querer aprender feitiços, ou mesmo estaria interessado nas aulas de vôo."

A empolgação de Scorpius diminuiu um pouquinho.

"Eu acho que não vou gostar muito das aulas de vôo", comentou.

"É claro que vai", interveio Draco. "E é bom que você se aplique bastante, para que tenha chances de entrar no time de quadribol no ano que vem.".

"Não sou muito bom em quadribol", Scorpius respondeu, ficando receoso.

"Tudo é questão de treinamento. Se você se dedicar, conseguirá ser um ótimo jogador.", declarou Draco, passando o braço pelos ombros do filho e conduzindo-o para longe da parede da plataforma 9 3/4.

"Alguma vez você ouviu Scorpius dizer que queria ser jogador de quadribol, Draco?", indagou Astoria, de modo deliberadamente despreocupado.

"Que bruxo não gostaria, Astoria? Eu fui apanhador na minha Casa, seria um orgulho para mim se Scorpius também fosse.".

"Scorpius não gosta muito de voar, caso você não tenha percebido.".

"Ele pode aprender a gostar, depois das aulas.", retrucou Draco.

"Eu vou me esforçar, papai, eu prometo.", disse o menino, percebendo o clima entre o pai e a mãe.

Pararam em um ponto menos movimentado da estação. Scorpius continuava fazendo perguntas, e seus pais iam esclarecendo suas dúvidas. Astoria lembrou-se de uma orientação importante:

"Filho, trate de se alimentar bem durante as refeições. A comida em Hogwarts é muito farta, mas não vá ficar comendo só doces e outras bobagens. Trate de se alimentar direito, não quero que você faça visitas freqüentes à ala hospitalar, e nem que fique gorducho de tanto comer besteira."

Draco riu. Scorpius respondeu: "Pode deixar, mamãe. Prometo que vou comer verduras e legumes todos os dias." Fez uma cara arteira e arrancou uma gargalhada do pai.

"Vou saber se você estiver me enrolando, rapazinho! Mas não fique chateado, não vai ficar sem delícias na escola.", Astoria disse, tirando da bolsa um enorme saco lotado das mais variadas guloseimas. Draco arregalou os olhos, vendo como ela estava sendo contraditória, mas apenas a observou sorrindo, enquanto ela dizia: "Leve com você. Os doces sempre ajudam a fazer amigos", comentou, cantarolando a última frase. Scorpius sorriu abertamente, feliz com aquela quantidade gigantesca de doces.

O menino começou a observar os alunos dos anos superiores, atento aos detalhes que demonstravam a qual Casa pertenciam. "Para qual Casa será que eu vou?", indagou com a voz transparecendo insegurança.

"Todos os Malfoy pertenceram à Slytherin, e espero que você seja o próximo." Astoria tamborilou os dedos no carrinho, enquanto prestava atenção à conversa entre pai e filho.

"E se eu não for para a Slytherin, papai?", o menino indagou, seu sorriso dando lugar a uma expressão preocupada. "E se o chapéu seletor achar que não sou bom o suficiente para ir para lá?"

"Você tem que ir para a Slytherin, Scorpius. Você é um Malfoy! Todos os Malfoys foram da Slytherin. Não quero nem pensar em ver você em outra Casa."

"Entretanto, se isto acontecer – interveio Astoria – alguma outra casa terá a honra de ter você como membro. Não dê atenção a seu pai, Scorpius. Você não precisa ser exatamente do jeito que ele quer."

Draco voltou-se para Astoria. "Não é para ele ser do jeito que quero, apenas estou mostrando a ele que ficaria feliz se pertencesse à mesma Casa que eu."

"Você o está pressionando e deixando-o nervoso por causa de uma escolha que sequer depende da vontade dele", replicou Astoria. "Pare com isso, não é obrigação do menino corresponder às suas expectativas."

"Sei que não, Astoria. Mas não posso conversar com ele sobre minhas expectativas?"

Scorpius olhava do pai para a mãe, sem saber o que fazer. Foi ficando vermelho, assustado, e então exclamou: "Connor! Ei, Connor!" E saiu correndo, indo em direção ao filho de Eleonora e Gregory Goyle.

Chamados à atenção pelo grito de Scorpius, Draco e Astoria o observaram ir em direção ao amigo, claramente querendo se afastar da discussão ente os pais. Então, Astoria disse: "Que droga. Fizemos de novo."

"Você fez de novo", corrigiu-a Draco.

"Eu?", ela protestou. "Eu não precisaria dizer nada, se você não ficasse projetando suas expectativas no menino! Pare de pressioná-lo a ser tudo o que você não foi. Ele é outra pessoa. Não tem que ser do jeito que você quer."

"Sei que ele é outra pessoa, Astoria, e nem gostaria mesmo que ele fosse exatamente tudo o que eu fui. Você apenas esquece que eu sou o pai dele, e como tal, também tenho sonhos e desejo coisas para ele. Pois bem, prometemos não discutir mais na frente de Scorpius, e lá está ele tentando fingir que não viu outra vez. Ajudaria muito se você parasse de agir como se fosse mais mãe dele do que eu sou pai."

Astoria o encarou zangada.

"Tenho razões para agir desta forma, Draco, e caso você não se lembre, terei enorme prazer em ajudá-lo a lembrar."

Eles se encararam, a tensão entre os dois era palpável.

"Você nunca vai parar de jogar isso na minha cara, não é?", Draco disse amargamente.

"Não, enquanto eu lembrar.", Astoria respondeu com rancor.

"E vai ser sempre assim, você sendo a super mãe e eu sendo um inútil, um cara dispensável que você faz o favor de deixar ser o pai do seu filho?

"E por acaso você acha que estamos disputando alguma coisa? Eu só quero o bem para o meu filho, nada mais. E se percebo que você está colocando caraminholas na cabeça dele..."

"Astoria, pare.",Draco disse, surpreendendo-a com um carinho em seu rosto. Ela o encarou, e eles se olharam nos olhos. Alguma coisa pareceu se agitar entre os dois. Draco, então, disse com suavidade: "Está bem, não vou falar mais nada sobre Slytherin. Você tem razão, ele não pode escolher, então, de que adianta perturbá-lo com isso?"

Astoria assentiu. Depois apertou os lábios e olhou em direção ao filho, que recebia atenção de Connor e seus pais. "Ele vai ficar bem, não vai?", indagou ela, insegura.

"É claro que vai. Veja como ele está feliz!"

"Mas eu estou preocupada", ela disse, angustiada. "Aqueles boatos ridículos..."

"São apenas boatos.", Draco a cortou, categórico. "Scorpius não vai dar importância a uma bobagem dessas, e terá todas as chances de mostrar quem ele é. Não se preocupe com isto."

"Como não vou me preocupar? É meu filho! Eu quero que ele fique bem. Ah, Draco, não sei... Talvez seja melhor levá-lo de volta para casa, e..."

"E deixá-lo arrasado porque não vai para Hogwarts? Astoria, fique sossegada. Ele vai ficar bem.", Draco disse, segurando as mãos dela e apertando-as. Eles ficaram se olhando, ela receosa e ele confiante.

Então, se deram conta de que Scorpius tinha voltado para perto deles, e observava a cena com um largo sorriso, demonstrando empolgação em ver os pais de mãos dadas. Astoria largou as mãos de Draco rapidamente e voltou a abraçar o filho, tentando disfarçar o constrangimento. "Não se esqueça de tomar banho, fazer suas lições, respeitar os professores, alimentar-se bem, escrever para casa com freqüência, não se atreva a entrar na floresta proibida, não ataque ninguém, muito menos pelas costas..."

"Bem observado, Astoria, bem observado...", acrescentou Draco, parecendo lembrar-se de algo desagradável.

Scorpius fez uma cara pensativa e indagou, parecendo inseguro: "Pai, mãe... Eu posso ser amigo dos nascidos trouxas?"

Os dois o olharam com espanto. "É claro que pode, filho.", Draco respondeu. "Por que não poderia?"

"É que o vovô Lucius e a vovó Narcisa disseram que..."

"Esqueça essas bobagens sobre sangues-puros que seu avô fala!", Astoria exclamou, categórica. "Ele é um idiota, cheio de preconceitos e retrógrado. Você não deve levar nada disso em conta, querido, deve tratar todas as pessoas com o mesmo respeito.".

Draco a fuzilou com o olhar ao ouvi-la insultar seu pai, mas não a contestou. "Sua mãe está certa, Scorpius. Deve tratar todos de igual para igual. Já houve muita dor e sofrimento por causa desse tipo de pensamento, e não queremos ver você envolvido nisso. Muito da paz que podemos ter hoje se deve à coragem e à luta dos mestiços e nascidos trouxas."

Neste momento, houve uma agitação. As pessoas começaram a olhar em direção à parede da plataforma nove e meia. Scorpius e seus pais olharam também, e viram a família Potter chegando. Scorpius os observou com curiosidade, e Astoria com uma leve admiração. Draco observou-os por alguns instantes. Depois, voltou a dar atenção a Astoria e Scorpius, até que notou que os Potter e os Weasley estavam próximos a eles. Ele deu uma olhada no grupo, fez um aceno com a cabeça e murmurou: "Vamos para lá". Indicou outro ponto da estação e foi andando, com Scorpius ao lado. Astoria pegou o carrinho e os seguiu.

Astoria continuava dando instruções ao filho, quando ouviu uma voz conhecida.

"E continue arrasando com todos aqueles garotinhos, querida. Você é o orgulho da mamãe!"

"Lottie!", exclamou Astoria, ao ver Charlotte chegando com Jullie.

"Astoria! Por Merlin, com essa correria toda esqueci que você estaria aqui hoje também! Draco.", ela cumprimentou de modo um tanto seco. Desde o nascimento de Scorpius ela guardava rancor do amigo de seu esposo.

"Charlotte.", cumprimentou Draco. "Theodore não veio?"

"Sim, está ali falando com Goyle. Jullie, querida, não vai cumprimentar as pessoas? Que educação é essa, menina?"

Jullie, que já era uma mocinha e conhecia bem o jeito da mãe, riu e cumprimentou: olá, madrinha! Oi Corpie! Como vai, senhor Malfoy?"

"Senhor Malfoy?", disse Draco, fingindo indignação. "Não sou mais seu padrinho? Só porque cresceu não me chama mais de tio Draco?"

Jullie riu. "Desculpe, tio Draco".

"Estou sabendo que a senhorita está aterrorizando os goleiros das outras casas. Que coisa boa, heim? A maior artilheira da Slytherin!"

"Jullie, a terrível!", proclamou Charlotte, orgulhosa.

Draco se aproximou de Jullie e cochichou: "Se puder incentivar seu amiguinho a se interessar por quadribol, ficarei imensamente agradecido!"

Jullie riu, assentindo. Neste momento, Theodore Nott aproximou-se do grupo. "E aí, caras? Todos animados para mandar essa criançada para a escola?"

"Astoria não está", disse Charlotte. "Olha só a cara dela, de quem não quer cortar o cordão umbilical.".

Astoria riu de um modo nervoso.

"Deixa de ser boba, mulher."

Theodore voltou-se para Astoria: "Não fique preocupada. Mandamos essas criaturinhas para Hogwarts e ela nos devolve bruxos cada vez melhores. Veja minha pequena Jullie. Só nos traz alegria.".

Astoria assentiu, mas continuou um tanto quieta, já sentindo saudades do filho, que estava prestes a embarcar.

"Quinze minutos! Vamos, Jullie, ou você terá que embarcar às pressas."

Os Nott se afastaram. Os Goyle passaram e cumprimentaram os três rapidamente, indo em direção ao trem.

Astoria, então, olhou para Scorpius. Deu-lhe um forte abraço, tentando não se emocionar. Draco estava observando o carrinho, conferindo se o filho não esquecera nada. Então, o menino olhou a mãe bem nos olhos e disse: "Mamãe, eu vou ser um grande bruxo! Vou me dedicar bastante nos estudos e tirar as notas mais altas! E vou aprender a voar! Quem sabe se eu for um bom bruxo, papai fica orgulhoso de mim, fica feliz e vem morar com a gente? Aí você não precisa ficar sozinha quando eu estiver na escola!" Ele disse isso e abriu um enorme sorriso.

Astoria deu um sorriso nervoso, espantada. Com pena de Scorpius, disse: "Filho..." Suspirou, triste. "De onde você tirou esta idéia? Eu vou ficar bem, está bem? Pare de ficar sonhando acordado. Mas trate mesmo de estudar." Beijou a cabeça do menino, afagou-lhe os cabelos e mais uma vez o abraçou.

Draco retornou para perto deles. "Está na hora, filho. Vamos?" Scorpius assentiu, voltou a abraçar e beijar a mãe, depois pegou o carrinho e seguiu decidido rumo ao Expresso de Hogwarts. Grossas nuvens de fumaça enchiam a estação. Astoria ficou olhando enquanto Draco seguia com o filho e o ajudava a embarcar o malão. Pai e filho se abraçaram. Draco pareceu dar algum último conselho ao filho. Então ele entrou no trem. As portas se fecharam. O Expresso apitou e começou a andar.

Alguns pais começaram a se dirigir à saída ou aparatar. Draco ficou parado olhando o trem partir, no mesmo ponto onde se despedira de seu filho. Astoria também ficou olhando, vários metros atrás, enxugando uma lágrima. Permaneceram ali, até que o trem desapareceu em uma curva.

Draco ainda continuou olhando, pensativo, mesmo após o trem ter desaparecido, na direção em que ele seguira. Astoria voltou-se em direção à saída, imediatamente após o trem desaparecer.

Astoria caminhara alguns metros, quando ouviu a voz de Draco. "Astoria! Astoria! Espere um minuto!"

Ao ouvi-lo, Astoria apertou as vestes contra o corpo e acelerou sua caminhada. Draco aproximou-se dela, tentando alcançá-la. "Espere aí, Astoria! Quero falar com você!"

"Estou com pressa, Draco. Tenho algumas coisas para resolver. Se quiser falar sobre Scorpius, me procure no meu escritório ou deixe algum recado com Charlotte.", respondeu um tanto evasiva.

"Ei. Por que tanta frieza?", Draco perguntou, levemente magoado. "Eu só ia perguntar se você aceita almoçar comigo.".

Astoria deu uma gargalhada bastante sarcástica, parou de andar e olhou para Draco.

"É incrível como há dez anos você faz a mesma pergunta, ouve a mesma resposta e continua insistindo.".

"Ora, o seu não eu já tenho. O que me custa tentar um sim?", ele retrucou de um jeito um tanto despreocupado.

"Pode adicionar mais um não à sua coleção, então", Astoria respondeu, voltando a caminhar.

"Poxa, Astoria. Hoje é diferente. Acabamos de embarcar nosso filho para Hogwarts. É um momento especial. Não acha que deveríamos celebrar?"

Astoria estreitou os olhos ao encarar Draco novamente.

"Você acha que sou idiota, Draco? Sei que você tem muitos interesses ao querer se aproximar de mim, e o último deles seria celebrar algo que sabíamos que aconteceria no tempo certo. Então, não importam seus argumentos, minha resposta é não."

"Sabe, Astoria, você pode não acreditar, mas sinto muita falta de você. De conversar, de te ouvir, de estar ao seu lado... Aliás, conseguiu resolver aquele problema com o Ministério da Magia?"

Ela pareceu perturbada ao ouvir a pergunta.

"Estamos resolvendo, ainda vai haver um julgamento. Charlotte garantiu que não haverá problema. É uma questão idiota, espero que eles enxerguem isto."

Draco sufocou uma risadinha antes de comentar: "Não foi muito sensato de sua parte fazer uma coleção de jóias para trouxas chamada Magia. Não pensou que poderia dar problema?"

Astoria respondeu com irritação: "Não, afinal, os elementos que usei não pertencem ao mundo mágico, e sim ao que os trouxas acham que tem a ver com magia. Qualquer um percebe a diferença e que não existe perigo!"

"Concordo com você", ele comentou, "Mas... se considerarem que você violou o Estatuto Internacional de Sigilo em Magia..."

"É sinal de que são muito burros.", Astoria respondeu, finalizando o assunto.

Astoria notou que Draco estava mancando, e que trazia consigo, uma bengala semelhante à que Lucius costumava usar.

"O que houve com sua perna?", indagou.

"Me machuquei jogando quadribol. Fui ao St. Mungus, mas por algum motivo ainda estou sentindo dor. Scorpius não lhe contou?"

"Não costumo ficar conversando sobre você. E você já está meio velho pra ficar brincando de quadribol, não?" Comentou, com uma boa dose de maldade. Draco apenas sorriu. Astoria, então, comentou, observando a bengala: "Você está cada vez mais parecido com seu pai."

Aquilo, sem dúvidas, não era um elogio.

"Ele está bem mudado, sabe?", Draco respondeu apressadamente. "Depois que passou a conviver com Scorpius, tornou-se outra pessoa. Está menos ranzinza, e mais alegre, e de vez em quando pergunta como você está. Ele inclusive demonstrou interesse em que um dia possamos todos nos reunir, e..."

"Eu não me sentaria à mesma mesa que seu pai novamente nem mesmo se minha vida dependesse disto. Eu o odeio, e já acho bastante ruim que meu filho conviva com ele. Enquanto puder evitar, vou continuar bem longe dele."

Draco pareceu murchar um pouco.

"Eu entendo você, entendo mesmo, sabe. Porém, posso te garantir que ele mudou. Ele se arrepende muito de tudo o que fez, ele realmente gostaria de se desculpar."

"É algum mal de família, essa coisa de achar que palavras consertam ações tenebrosas?", Astoria comentou com raiva na voz. "Pessoas como seu pai não se arrependem. Elas reorganizam os próprios interesses quando lhes é conveniente.".

Ela continuou andando, incomodada em conversar com Draco, quando de repente ele disse: "Eu ainda te amo, Astoria."

Ela lhe deu uma breve olhada e respondeu: "Sabe Draco... Isto é um problema inteiramente seu."

Astoria apressou-se e passou de volta pela parede da plataforma 9 3/4, indo em direção à estação trouxa.

Draco ainda continuou seguindo-a. Falou bem perto dela: "Eu sinto tanto a sua falta, Astoria. Sinto-me tão só por não ter mais a sua companhia.".

"É mesmo?", ela respondeu irônica. "Não é o que eu estou sabendo. Não que eu me interesse pela sua vida, mas por algum motivo as pessoas acham que devem comentar. E segundo eu soube, você não passa nem duas noites com a mesma mulher. Duvido realmente que lhe sobre tempo para pensar em alguém, quanto mais em mim".

Sem se constranger, Draco respondeu:

"Sim, é verdade que tenho tido muitas mulheres. E é tudo por sua causa."

Astoria parou de andar e voltou-se para ele, indignada. Ele, então, prosseguiu:

"Eu busco você em cada uma delas, mas é impossível encontrar. Algumas têm um sorriso lindo e sincero como o seu, mas não tem esse seu olhar. Ou a sua voz doce, interessada em saber de mim ou dizendo o quanto me ama. Ou o seu toque suave, que me faz sentir vivo. Ou esse corpo tão sensual, que eu daria tudo para ter outra vez. Posso transar com todas elas, mas não consigo fazer amor como fazia com você. Nenhuma me dá o mesmo prazer que sentíamos juntos. Então, Astoria, eu fico indo atrás de você, em cada pedacinho por pedacinho das outras mulheres, porque a mulher que eu quero, eu não tenho, e é você."

Aquelas palavras a perturbaram por um instante. Ela, então, comentou:

"É uma pena, Draco. Sinto muito que esteja tão insatisfeito. Sabe... os homens com quem eu tenho transado não me dão a menor chance de lembrar que você existe.", disse, voltando a andar.

Aquele plural explodiu nos ouvidos de Draco, de modo que parecia que tinham lhe esbofeteado as orelhas.

Entretanto, ele insistiu.

"Você fala isso, mas todo mundo sabe que você não se envolveu seriamente com mais ninguém. Nunca foi vista namorando, não assumiu nenhum relacionamento mais sério... Você também não está muito satisfeita com todos esses caras com quem tem se envolvido, está?"

Astoria parou e encarou o ex-marido novamente.

"Vou lhe contar uma coisa, Draco. Um segredo que talvez você desconheça. Bruxos na minha faixa de idade geralmente querem constituir família. Eles querem uma mulher que possa lhes dar filhos e garantir a continuidade do nome de suas famílias. Eles não querem uma mulher que tenha um passado com um homem conhecido, de sobrenome forte, que tenha um filho com este homem e que não possa lhes dar mais nenhum. Em outras palavras, Draco, quando eles ficam sabendo a verdade sobre mim, eu viro uma mulher que só serve para transar."

Draco, profundamente constrangido em ouvir aquilo, tentou apaziguar.

"Isso é bobagem, Astoria. Você é uma mulher bonita, interessante, de bom caráter. Tem outros atributos a oferecer."

"É", ela disse, perturbada, "é sempre isso o que eles dizem, antes de me chutar. Sou bonita, inteligente, talentosa, uma mulher interessante... mas nunca o suficiente. Nunca completa o bastante para merecer que alguém fique comigo. Obrigada por isto, sabe? Você me condenou a uma vida solitária".

Agora Astoria estava realmente magoada. Falar sobre isto com Draco tornava o sentimento de fracasso mil vezes pior. Ela voltou a caminhar, agora com mais pressa, querendo se livrar da presença de Draco. Ele, a uma certa distância, disse: "Tem uma solução para isso.".

"Talvez, se um dia algum velho cheio de filhos se interessar por mim. Porém, não tenho muito interesse nesse tipo de relação,sabe? Então, melhor me contentar com o que venho conseguindo. Pelo menos não fico sem sexo, não é?", acrescentou, provocante.

"Ou então", retrucou Draco, marotamente, "você pode ficar com um cara que te ama e te deseja loucamente, que já tem um filho e não precisa de outros, e que não se importa se você não pode ter mais.".

Astoria o encarou com incredulidade.

"Por que ainda perco meu precioso tempo falando com você?", disse com raiva, e apressou o passo.

Draco ficou observando-a andar, reflexivo, se agitando entre fazer ou não algo que se passava em sua mente. Então, de repente decidiu. "Astoria!", ele exclamou quando ela já se encontrava a uma boa distância.

Ela virou-se com uma expressão irritada, mas ele não se abalou. Foi andando até ela tão rápido quanto pôde, manco do jeito que estava, e remexendo em um bolso do seu sobretudo. Ao se aproximar dela, surpreendeu-a com um gesto que ela jamais iria esperar: tirou do bolso uma caixinha de veludo e abriu-a, enquanto flexionava uma perna e encostava um joelho no chão. Um brilhante magnífico reluziu em sua mão, enquanto as pessoas ao redor os rodeavam, espantadas e encantadas com a cena.

Ela o olhou, escandalizada. "Draco, por Merlin, o que você está fazendo?"

Sem medo do que iria acontecer, ele respondeu: "Estou tentando reconquistar a mulher da minha vida, meu único amor, a única pessoa que eu quero ter ao meu lado para sempre. Estou fazendo o que deveria ter feito há anos atrás, e tentando acertar desta vez. Astoria, eu não sou o mesmo homem que você conheceu. Eu só te peço uma chance, uma única chance de mostrar que posso ser o homem que você sempre quis que eu fosse."

Eles se encararam por alguns instantes, que pareceram uma eternidade. O brilhante reluzia entre seus olhares, cheios de esperança e de promessas. Os olhos de Astoria ficaram rasos d'água. Seus lábios tremeram. Ela tentou dizer algo, mas não conseguiu. Sua cabeça começou a acenar de modo quase imperceptível em sinal negativo, como quem diz "você está louco?" Ela respirou fundo, e murmurou: "Draco, eu n..."

Ele se levantou rapidamente. Pôs a caixinha com a jóia em sua mão, fazendo com que ela fechasse-a mantendo o objeto em sua palma. E disse, com um olhar triste de quem sabe que foi derrotado: "Por favor, Astoria. Eu sei que já tenho o seu não. Deixe-me, pelo menos por esta noite, dormir com a ilusão de um dia conseguir o seu sim.".

Ao dizer isso, enfim afastou-se dela e foi embora, deixando-a completamente perdida em meio aos olhares decepcionados de todos os que presenciaram a cena.

Minutos depois, em seu carro, Draco encarava o volante, arrasado. Arriscara tudo, não hesitara em se humilhar perante Astoria, na esperança de reconquistá-la. Porém, aquela que tinha sido sua esposa tão dedicada e amável agora lhe parecia uma pedra de gelo. Ele não sabia quantas camadas ela havia criado para mantê-lo longe de seu coração. Então, chorou, sabendo que se não a tinha mais, era unicamente por sua própria culpa.

No Expresso de Hogwarts, Scorpius viajava com a cabeça encostada no vidro, sonhando acordado, pensando no quanto seria bom se tornar o melhor dos bruxos e fazer com que seu pai e sua mãe se tornassem novamente um só coração. Os sonhos do menino desconheciam a realidade triste que os rodeava.

Enquanto isto, Astoria saiu da estação e andou a esmo, chamando atenção por suas vestes, mas completamente alheia a isso. Sem saber o que sentir, sem saber o que pensar, mas completamente certa de que estava fazendo o que devia ser feito: ficar bem longe de Draco. Jamais permitir que ele machucasse novamente seu coração. Ela odiava admitir para si mesma que não o odiava, e que ele ainda despertava seus sentimentos. Porém, mais uma vez, prometeu a si mesma ser forte. No dia seguinte, enviaria a jóia de volta, e aquela manhã de setembro pareceria nunca ter acontecido. Não. Ela tinha poucas certezas na vida, mas uma delas era a de que Draco não merecia seu sim.

Ela caminhou até as imediações o rio Tâmisa, onde parou para observar as águas. Seu pensamento estava distante agora, desejando coisas boas para o filho. Enquanto pensava nele, um som começou a sair de sua bolsa: seu celular estava tocando.

Chamada de volta à realidade, Astoria pegou o aparelho e olhou para a tela. Sorriu ao ver o número de quem lhe chamava.

"Alô?"

"Oi, querida. Como você está?"

"Estou bem. Telefone?"

"Imaginei que estaria na rua e seria complicado pegar o espelho. Onde você está?"

"No Tâmisa. Não o vi na estação. Não foi levar Joshua?"

Um riso do outro lado da linha.

"Rapazes de quinze anos preferem embarcar com a namorada. E Scorpius? Ficou tudo bem com ele?"

"Com ele sim", suspirou Astoria, "eu é que ainda estou um pouco abalada.".

"Já está com saudades do pequeno? Logo chega o Natal e você poderá revê-lo."

"Não é só isso... É que... Fui pedida em casamento."

Silêncio breve.

"Como é?"

Um riso de Astoria.

"Isso mesmo. Um pedido de casamento em plena King's Cross. Pode?"

"E o que você respondeu?"

"Eu nem respondi, mas é claro que vou negar o pedido e devolver o anel."

"Que alívio! Por um instante, pensei que tinha ficado para trás." A voz soou bem atrás de Astoria, em vez do telefone. Surpresa, ela virou-se.

"Está louco? Aparecer aqui assim... E se você foi visto?"

"Se minha adorada está sendo pedida em casamento por outro cara, não vou perder um segundo antes de correr para perto dela. Quem foi?"

Astoria sorriu.

"Quem mais? Draco.".

"Ele não desiste, não é?" Um suspiro irritado.

"Ele não consegue aceitar um não e insiste porque não admite ter perdido algo que agora sabe que quer. Eu não vou me preocupar com isto. Ele teve a oportunidade dele. Agora, faz parte do meu passado.".

"Nem tanto. Ele é o pai do seu filho. Vocês sempre estarão próximos."

"Apenas o suficiente para o bem de Scorpius. Eu não o quero na minha vida para nada, além disto."

Um sorriso satisfeito.

"Está um dia lindo. Quer passar a tarde comigo?"

"Eu adoraria".

O recém chegado acariciou o rosto de Astoria, deu-lhe um beijo suave e rápido, depois passou o braço por sua cintura. Eles começaram a andar, e ele disse:

"Sabe, se há um esperto tentando conseguir sua mão, eu tenho que agir rápido."

"Como assim? Em que está pensando?"

"Em casar com você antes que ele consiga convencê-la."

Astoria riu.

"Já conversamos sobre isso...".

"Eu não vejo nenhum problema. Você tem um filho. Eu também. Dois já me parecem suficientes. Eu adoraria ter uma menininha parecida com você, mas se isto não é possível e este é o preço a pagar para ficar com você, para mim está tudo bem."

Astoria suspirou, insegura.

"Eu não sei. Não sei se isto é certo.".

"Não tem nada de errado, Toya. Você só precisa perder esse medo que você tem de ser completamente feliz."

Astoria sorriu abertamente.

"É. Talvez você tenha razão.", ela concluiu. Ele pegou sua mão esquerda e a beijou no lugar onde ele desejava em breve colocar uma aliança.

Os dois foram andando à margem do Tâmisa, serenos, conversado sobre amenidades.

Talvez não houvesse verdades absolutas na fala de Astoria para Draco mais cedo, na estação. Ela, afinal, não estava assim tão sozinha e desiludida da vida. Apenas aprendera a guardar seus tesouros com o mesmo cuidado com que guardava as jóias que produzia. Ninguém precisava saber das emoções que andavam agitando seu coração, nem daquela novidade cheia de promessas e daquele homem tão disposto a ser feliz com ela. Scorpius agora estava crescido e passaria boa parte do tempo longe de casa. Talvez fosse mesmo a hora de perder o medo e se abrir para aquele amor que chegara em sua vida de forma tão sutil. Sem pressa. Sem medo. E com toda a disposição para fazer tudo dar certo. Para sempre.


NOTA DA AUTORA

E

AGRADECIMENTOS FINAIS

Olá, queridos leitores e queridas leitoras!

E finalmente o fim!

Com o epílogo, chegamos ao final dessa verdadeira epopéia, que começou há cinco anos, ficou três anos parada e só agora, em 2016, chegou ao final.

Muito obrigada, de coração, a todos que acompanharam a fic. Aos que sempre ficaram esperando pra ver se atualizava, a quem voltou pra dar uma olhadinha, a quem por acaso descobriu que estava sendo atualizada, a quem encontrou a história este ano... Obrigada por terem lido, por terem enviado seus comentários, sugestões e críticas... Cada palavra escrita por vocês foi um incentivo para que eu escrevesse mais um bocadinho, não desistisse e me comprometesse a terminar essa história, em respeito a vocês. Valeu mesmo, de coração.

Desculpem - me pelos enormes hiatus (que, por incrível que pareça, não foram propositais) e pela demora em postar os capítulos.

O epílogo demorou um pouquinho porque eu pedi à queridíssima Mell para betá-lo, pois vocês esperaram tanto pelo final que mereciam que ele viesse bonitinho, redondinho. Obrigada, Mell! Espero que todos gostem do final que preparei para a Astoria.

Como eu havia dito, vou escrever umas cenas soltas que não couberam na fic. Vou escrever todas de uma vez, além de considerações sobre o final e o porquê de ele ter ficado assim. E se houver reviews novas, respondo junto com estas cenas.

Respondendo às reviews:

Guest Você com toda a certeza me surpreendeu com esse final, mas eu ameeei!
Apesar de ser apaixonada pelo Draco, ele realmente não merecia o perdão da Astoria!
Odiei ele ter fugido por tanto tempo em conhecer o filho, mas essa é bem a cara do Draco mesmo!
Enfim, adorei ler sua fic, e estou ansiosa para o epílogo e para as cenas extras, poste todas elas ok?kkkk

O Draco fez muita besteira ao longo da história... acho que ficou difícil salvar este casamento... E essa demora em conhecer o filho foi para mostrar o sentimento dele de culpa e vergonha.

Cenas extras serão postadas todinhas, não sei se consigo antes do fim do ano,mas vou me esforçar!

Arya Que capítulo maravilhoso!

Esse mistério no final me deixou feliz demais haha.
Estou louca pelo epílogo e espero que ele seja bastante maravilhoso também.
Sobre o material extra: super apoio.
Ainda não estou aceitando muito bem o fato da fic estar no fim e quero dizer que uma continuação ou uma fic totalmente diferente seria muito bem vinda!
Obrigada por responder minhas perguntas sobre os outros capítulos!
Não demore a postar o epílogo por favor!
Beijos e aproveite o começo da semana!

Espero que goste do epílogo também! Material extra em produção, tentarei não demorar!

Continuação desta fic acho bem difícil... não consigo pensar em nada sem deixar Draco ainda pior,rs! Porém, penso em duas fics Drastoria, uma sobre como eles se conheceram e outra baseada na história de Criança amaldiçoada... Fique de olho!

Flavia Poxa fiquei muito feliz que a Astoria nao morreu, agora o Draco ta comendo o pao que o diabo amaçou pois ficou sem filho e esposa, esses Malfoys sao tao cinicos gzuis principalmente pai e filho (lucio e draco), e bem fiquei contente com o caputulo hot deles dois afinal na fic tinha bastante kkk, e bom eu meio que fiquei assim mau pela Astoria no começo ter estranhado o Scorpius , Mas finalmente nao caiu na tentaçao de ter o perdoado ficou melhor solteira. Amei na verdade sua fic mesmo nao ha ter acompanhado desde o começo lir poque me recomendaram e devo dizer que fizeram bem. Bjs

Seria muita maldade ela morrer, depois de tudo o que passou, não é? A cena hot foi curtinha, mais pra uma "despedida" do casal,rs. Eu pus isso de ela estranhar o bebê para mostrar que as atitudes ruins do Draco tiveram efeitos péssimos. Astoria ainda tinha sentimentos por Draco, mas venceu o bom senso. Ela sabia que ele não merecia ser perdoado outra vez.

MUITO OBRIGADA POR TEREM ESCRITO PARA MIM!

Pessoal, encerro por aqui a história, com agradecimentos gigantes a todos vocês. Em breve posto o "material extra" para vocês. E quem gostou desta história, fique de olho, que devo escrever mais com este ship.

Um beijão para todos vocês, e obrigada por terem ficado comigo até o fim!

Com carinho,

Padma Raven.

=)