somebody to love you
capítulo 36
"Ele gritou comigo! Mandou eu tirar a fita gomada da boca e deixar de ser malcriada, e então mandou todo mundo deixar de ser egoísta, e insistiu que todos nós não devíamos ser estraga-prazeres nas seletivas!"
O sorriso sumiu do rosto de Jesse, e seus belíssimos traços se endureceram numa carranca pronunciada.
"Ele fez o quê?"
"Gritou. Comigo. Perdeu completamente o controle. Só porque achei adequado protestar contra a decisão ridiculamente impensada dele".
"Ele não tinha o direito de submetê-la a isso. Você não fez nada de errado. E se alguém é culpado de malcriação, esse alguém é ele".
"Eu sei. Quero dizer, mesmo se ele estivesse estressado com a competição vindoura, não é justificar pra descontar na gente".
"Se ele está estressado, é culpa dele mesmo. Repertórios não se escolhem sozinhos e, até onde eu sei, existe uma justificativa praquele ditado, 'a prática leva à perfeição'. Do jeito que ele rege as coisas, vocês estão perdidos mesmo antes de tentarem. Os métodos da Shelby eram duros, e a maioria dos seus colegas cairia fora em vez de trabalhar na mesma intensidade, mas ela sabia o que estava fazendo. Contra sucesso não há argumentos".
"Gostaria de pensar que há um ponto intermediário de equilíbrio entre esses dois extremos. Mas sim, a tendência dele de deixar tudo para o último minuto definitivamente não nos favorece".
"E a necessidade patética dele de dar uma chance a todos? Como se as pessoas merecessem um solo só por aparecer!" O tom de Jesse estava carregado de sarcasmo. "Tenho a forte vontade de bater um papinho com o diretor do seu coral quando eu voltar ao Ohio. Ninguém mexe com a minha namorada e escapa inteiro".
Rachel sentiu uma onda de gratidão envolvê-la diante da prona defesa de seu namorado a seus atos. Era tão diferente do que ela experimentara com Finn, que raramente a apoiava em qualquer coisa... Seus lábios se curvaram levemente, e a expressão de Jesse suavizou-se imediatamente.
"O que foi?"
"Estava pensando que posso me acostumar com isso".
A sobrancelha levemente erguida dele serviu como tácita pergunta.
"Você, sempre me apoiando. Às vezes ainda me surpreendo".
"Eu estou ao seu lado. Sempre".
Pelos próximos vários minutos, eles apenas se olharam, ambos tendo sorrisos tolos no rosto. Jesse foi o primeiro a falar.
"Progesso no repertório?"
"Surpreendentemente, sim. A Quinn e o Sam vão cantar (I've Had) The Time of My Life".
"Qual é a do Schue com música dos anos 80? Ele era pouco mais que uma criança na época. Por que diabos ele é tão apegado a esse estilo?"
"Não tenho certeza. Talvez seja o que ele cantou quando estava no Glee, então reaviva lembranças. Ou talvez ele ache que a maior parte dos juízes de coral nasceram na época, e são músicas as quais eles vão se reconhecer".
"As duas justificativas fazem realmente sentido. E não me conte. Deixe-me adivinhar. A Quinn e o Sam vão entrar pelo fundo do auditório, cantando ao longo do corredor, encontrando-se enfim no palco pouco antes de o refrão começar".
Rachel bufou em resposta.
"Nossa, você deve ser vidente. Como adivinhou?"
"Ele é tão previsível que chega a não ter graça. Objetivamente, como acha que o número está indo?"
"Não é o melhor que podia ser. Não chega nem aos pés da minha versão de Don't Rain On My Parade..."
"Nada que o New Directions fez desde então chegou perto disso", comentou ele.
Ela não conseguiu sufocar uma risada.
"Acho que me lembro que você me disse que eu não tinha a profundidade emocional da Barbra".
"Bom, você tava falando com o Jesse St. James – o cara que não distribui elogios, mesmo que merecidos".
"Ah, mas você disse que eu era talentosa".
"Falei sem pensar pela primeira vez, e deixei escapar o que realmente pensava. Devia ter ficado lisonjeada".
"E fiquei. Não se lembra da expressão de fascínio no meu rosto? Não pude acreditar que o Jesse St. James tinha me ouvido cantar, e achara adequado comentar positivamente sobre minha performance".
"E veja onde estamos hoje", brincou ele. "Agora não consigo deixar de elogiá-la".
"Eu gosto disso. Me faz feliz".
"Você me faz feliz".
Ela riu suavemente.
"É muito bom que ninguém esteja ouvindo essa conversa. Estariam morrendo de rir de como somos melosos".
"Porque estariam enciumados", insistiu ele. "Todo mundo quer o que a gente tem. Por falar nisso, consequências sobre a sua conversa com a srta. Pillsbury?"
"Eu a vi no corredor hoje. Ela sorriu pra mim, mas foi só isso. Não me arrastou pra sala dela pra termos uma conversa profunda e significativa, e obviamente não mencionou nada ao Sr. Schue, ou sem dúvida teria sido mais algo pelo qual ele me criticaria".
A fúria lampejou no rosto de Jesse mais uma vez diante da menção dos maus-tratos à namorada, mas ele rapidamente controlou-se. Não era necessário que Rachel ficasse novamente abalada.
"Ah, já que estamos falando da coordenadora do seu colégio, isso me lembrou uma coisa. O Nate acha que o tio dele vai ficar noivo em breve".
"É sério?"
"É".
"Ele é a favor ou contra?"
"Com leves tendências ao primeiro, eu diria, mas tem suas reservas".
"Por causa do que você contou a ele sobre ela?"
"Em grande parte. Ele simpatizou com ela, mas o negócio do TOC o preocupa, e ele não bota muita fé que ela tenha superado Will Schuester. Ele receia que ela vá machucar o Carl".
"Depois do que conversei com ela no outro dia, ela pode estar mais disponível ao que o Carl tem a oferecer. Ela parecia ansiosa por passar um tempo com ele, de qualquer jeito. Acho que ela não saiu do lado dele pelo resto da noite".
"Acho que vou contar isso ao Nate. Talvez isso acalme as preocupações dele".
"Se posso opinar, acho que ele é bom pra ela".
"Mas e ela, é boa pra ele?"
"Bom, se o Nate acha que o Carl vai pedi-la em casamento, deve ter algo nela que ele goste".
"É verdade". Ele se calou por um momento, e então sorriu-lhe com malícia. "Chega de falar de pessoas que não são nós. Os seus pais estão em casa?"
"Por que pergunta?" Murmurou ela, com a voz assumindo repentinamente um tom rouco.
"Por que acha?" Respondeu ele, com um brilho maroto nos olhos.
"Deixe-me checar".
Rachel pulou da cama e correu para o corredor. Quando ela voltou, Jesse considerou a expressão dela estranhamente ilegível.
"Papai está trabalhando no escritório, e meu pai está lá embaixo vendo um filme", revelou ela.
O rosto dele murchou diante da notícia, até que ele notou a leve curva de riso nos lábios dela.
"Os dois estão imersos nos próprios mundinhos. Espera só eu trancar a porta..."
Jesse ainda se recuperava da força de seu orgasmo ao se despedir de Rachel e desligar o Skype. Seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso enquanto ele se maravilhava com a recém-descoberta ousadia dela. Que ela se dispusesse a despir-se para ele, dizer-lhe o que queria fazer com ele e procurar o próprio prazer enquanto ele a incentivava, enquanto sufocava seus gritos de êxtase de modo que os pais não desconfiassem de nada – ele certamente tinha feito algo de bom para ter sido recompensado com a garota de seus sonhos.
E o Finn tá convencido de que ela tem pudores demais. Se ele soubesse...
Não que ele tivesse quaisquer planos de divulgar aquele detalhezinho em particular ao ex-namorado dela. Mas, se acontecesse de eles estarem no mesmo aposento num futuro próximo, Jesse não se opunha à ideia de uma demonstração evidente de exagerado afeto físico em público.
Apenas para ter certeza de que ele capte a mensagem de que agora ela é minha.
Pensar em Finn invariavelmente levava-o a pensar no New Directions, e no homem que os treinava. Jesse ferveu de raiva quando visualizou Will Schuester descontando as próprias frustrações em sua aluna mais talentosa. Claramente, o diretor do coral precisava ser informado, em termos irrefutáveis, que esse tipo de comportamente era inteiramente inaceitável. Pegando o telefone, Jesse digitou uma sequência de números que se tornara muito familiar.
"Oi, St. James. A que devo o prazer da sua chamada?"
"Lembra daqueles favores que mencionei, Steadman? Preciso do primeiro agora".
Rachel sentou-se no canto mais distante da sala de coral, ignorando escrupulosamente as várias conversas que aconteciam e fluíam ao seu redor. Não tinha dito uma só palavra desde sua chegada, enquanto seus colegas foram nada além de barulhentos. Nenhum deles demonstrou nem um pouco de preocupação com sua ausência de opinião. Em vez disso, a maioria deles estava ao redor de Santana, parabenizando-a e elogiando-a por ter sido escolhida para o solo em Valerie, a mais recente escolha da set-list das seletivas.
Furiosa com a injustiça de tudo, Rachel mordeu o lábio em um esforço para conter o protesto veemente que torcia-se na ponta de sua língua. Ela estremeceu quando seus dentes furaram a pele, fazendo surgir sangue. Ao lamber a carne ferida, tentando aplacá-la, ela olhou impaciente para o relógio e suspirou. O glee costumava ser o ponto alto de seu dia, mas agora, seu fim não podia vir rápido o suficiente. Exatamente quando estava considerando a ideia de correr porta afora, ela ouviu o zumbido suave que indicava uma nova mensagem de texto. Pegando o telefone, seu corpo inteiro relaxou diante da identidade do remetente, e ela rapidamente abriu o torpedo.
I wanna taste you again, like a secret or a sin
Um rubor assomou a seu rosto. A frase tinha sido considerada particularmente correta por ambos enquanto dançavam na casa da árvore, e Jesse houvera, de brincadeira, ameaçado citá-la algum dia quando ela estivesse no meio dos ensaios. Mais uma vez, ela tinha que admirar seu timing. De algum jeito, ele parecera saber que ela precisava dele naquele mesmo momento. A única frase a acalmara instantaneamente. Apesar de ainda ansiar para que o ensaio chegasse ao seu final, ela seria capaz agora de suportar a hora restante. Acomodando-se em sua cadeira, ela digitou uma única palavra de resposta, enfiou o telefone na bolsa e voltou a atenção para Schue.
Esperando para ser chamado ao palco, Jesse sentiu uma vibração contra a coxa, e puxou o celular do bolso.
Logo.
A resposta monossilábica dela fez com que o coração dele disparasse, e sua calça ficou perceptivelmente mais justa. 'Logo' não podia vir cedo o bastante.
Ciente de que Jesse estaria ocupado com ensaios por uma boa parte da noite, Rachel ficou exageradamente grata por ter feito planos de jantar com Grace. Ficou deliciada, ao chegar na casa dos Chan-Howell, de descobrir que Amy também fora convidada a participar da reunião.
"Oi, Rachel. Entra", Amy cumprimentou-a calorosamente. "A Grace está na cozinha, estudando como se prepara uma fritada. Eu disse a ela que iríamos ajudar assim que você chegasse aqui".
"Parece ótimo".
Enquanto as três garotas trabalhavam juntas para preparar o jantar, e Amy começava a descrever o tipo de vestido que esperava encontrar para o baile de inverno do Preparatório de Lima, Grace olhava para Rachel com curiosidade. Ela só precisou de um momento para deduzir que a amiga estava guardado algo em segredo. Sem esperar que Amy fizesse uma pausa, Grace interrompeu com uma pergunta direta.
"Por quanto tempo vai esconder para si mesma o que te deixou tão nervosa?"
"Tá assim tão óbvio?"
"Para quem está prestando atenção, está".
"Por onde começo?"
"Por onde quiser. O que te abateu tanto?"
"Nosso diretor de coral, Prof. Schuester, finalmente escolheu a set-list das seletivas".
"Tudo bem, acho que estou confusa, mas isso não é algo bom? Vocês vão se apresentar na semana que vem. Isso mal dá tempo o suficiente para trabalhar nos detalhes", ressaltou Amy, acostumada aos treinos pesados por ser ex-líder de torcida.
"É bom que ele tenha escolhido as músicas. A má notícia, pelo menos pra mim, é que eu não vou cantar nem uma delas".
"O quê? Com a voz que você tem? Isso é ridículo!" Exclamou Grace.
"O Prof. Schue acredita piamente na ideia de dar a todos a sua chance de brilhar".
"Bom, isso é burrice", Amy declarou secamente. "Tivemos uma técnica assim uma vez. Ela durou apenas três meses. Assim que seus métodos igualitários nos causaram uma competição que normalmente teríamos vencido de olhos fechados, ela foi demitida".
"Ele não entende que ter sob os holofotes alguém que é excepcionalmente talentosa faz todo o resto do grupo melhorar sua performance, levando a um grupo melhor como um todo?" Especulou Grace.
O riso de resposta de Rachel foi amargo.
"Acho que ele acredita que me dar os solos só vai encorajar minha tendência natural a ser uma diva, enquanto desencoraja o resto dos meus colegas".
"Esse homem é obviamente um idiota", insistiu Amy.
"A essa altura estou tentada a concordar. E essa não é a única coisa que está me perturbando", Rachel apressou-se a acrescentar. "Adivinha quem vai cantar um dos solos?"
Ela olhou significativamente para Amy, que não precisou de mais nada para perceber exatamente a quem Rachel se referia.
"Não. É sério?"
"É. Santana Lopez vai ser a cantora principal, enquanto eu ajo como uma figura de fundo".
"Ela não merece essa honra", Amy resmungou sombriamente, com o rosto corado de raiva.
Um olhar, carregado de significado, foi trocado pelas primas. Rachel considerou-o impossível de decifrar.
"Você devia contar a ela", opinou Grace.
"Não posso. Dei a minha palavra".
"Como você disse, a alguém que não merece".
"Ainda assim, é a minha palavra, Grace. Não vou quebrá-la".
"Eu não estou presa pelas suas promessas".
"Grace..." A nota de aviso de Amy estava clara.
Rachel finalmente compreendeu, e deu um olhar intrigado para a mais jovem das Howell.
"Você sabia o que a Santana fez o tempo todo?"
Grace balançou a cabeça em uma negativa silenciosa.
"Eu sempre soube o que aconteceu com a amiga da Amy. Mas não foi até aquele confronto inesperado na pista de boliche que eu descobri que tinha sido a responsável".
"Se ela te contar", Amy interrompeu, "e você acabar usando o que sabe, tem que prometer que vai dizer à Santana que a informação não veio de mim".
"Eu entendo, Amy. Se algo acontecer entre a Santana e eu, vou te manter fora disso". Rachel virou-se para Grace, cheia de expectativa. "E aí? Qual é a história?"
Grace inclinou-se para a frente, com uma inegável ansiedade nos olhos.
"A primeira coisa que você tem que entender é que Madison Northcott não era a líder de torcida comum. Sim, ela era alta e atlética, e linda como uma modelo, mas, ao contrário do estereótipo desse povo, ela era a pessoa mais doce que existia no mundo. Ela conseguiu sua posição dentro do esquadrão por causa de puro talento, e todos a amavam. Ela era o coração e alma do pessoal e, quando ela foi ferida, o resto do time ficou destroçado".
"Ela certamente parece mais legal que qualquer líder de torcida que já conheci. O que aconteceu com ela?"
"O campeonato estadual daquele ano aconteceria em Cleveland. Maddy estava tão entusiasmada, não apenas pela competição, mas também porque ela teria a oportunidade de visitar o Hall da Fama do Rock and Roll. Ela adorava música, e tinha o sonho de visitar o Hall. Infelizmente, ela nunca chegou a realizá-lo..."
"Ai, meu Deus! Ela morreu?"
"Não, graças a Deus. Perdão por te fazer pensar assim. Mas, por um tempo, ela queria ter morrido".
"E chegou perto de morrer", acrescentou Amy, repentinamente estimulada a dividir as próprias lembranças, apesar de sua recusa anterior.
"Como eu dizia", prosseguiu Grace, como se Amy não tivesse falado. "Maddy era o coração do time. E também era a melhor acrobata, a que podia fazer as manobras mais difíceis parecerem enganosamente fáceis. Ela levou as Panteras à vitória nos campeonatos estaduais por dois anos seguidos, eventualmente perdendo nas duas vezes para as Cheerios de McKinley. Obviamente, Sue a considerava uma grande ameaça. Talvez ela não sentiu tanta confiança no próprio time daquela fez, ou simplesmente queria manter a onda de invencibilidade a qualquer custo. Apesar do motivo, ela decidiu tornar Maddy seu alvo".
"Isso parece um comportamento típico de Sue Sylvester", opinou Rachel.
"Pelo que pudemos descobrir depois, o plano foi iniciado na sala de jantar em comum, poucas horas antes da competição começar. Alguém – que agora sabemos que foi Santana – abordou Maddy e começou a elogiá-la efusivamente e pedir conselhos para como melhorar uma rotina. Já que nunca desconfiou de ninguém, Maddy não achou isso estranho. Mostrou de boa-fé algumas acrobacias a Santana, e as duas se afastaram. Aparentemente, enquanto Maddy estava de costas, Santana colocou algo no seu shake proteico".
"Uma droga para desqualificá-la? Mas isso seria ilegal!" Protestou Rachel.
"Tenho sérias dúvidas de que Sue Sylvester considera-se submissa a algo tão pequeno quanto uma lei", Grace bufou de desprezo. "Mas não, pelo que se apurou, era uma substância razoavelmente benigna".
"Então não entendo".
"Nós também não", Amy interferiu mais uma vez. "A substância não fez efeito imediatamente, então Maddie se uniu a nós para o treino, como sempre. Mas, pouco depois que começamos, ela ficou atordoada, e pediu permissão para ir se deitar – o que era tão raro para ela. Ela sempre trabalhava apesar das dores, e nunca pedia dispensas. Certa de que não era fingimento dela, nossa técnica autorizou que ela voltasse ao seu quarto. Algumas de nossas substitutas a acompanhou, e ela estava sonolenta, mas bem, quando a deixaram lá".
"Foi com um sonífero que a Santana a drogou?"
"Esse foi o consenso. E provavelmente mais de uma, considerando o dano causado".
"Tenho até medo de perguntar", Rachel disse em voz baixa.
"Ela acabou na UTI do hospital. Mas isso veio depois. Primeiro, a Sue mandou dois dos machos idiotas das Cheeiros para o quarto da Maddie. Até mesmo deu uma chave a eles, sem dúvida adquirida por algum tipo de mentira ou chantagem".
Rachel ofegou, e seus olhos arregalaram-se de horror diante do que suspeitava ter acontecido, mas Amy balançou a cabeça.
"Em certos aspectos, Maddy foi incrivelmente abençoada. Nunca chegou a tal ponto. Mas eles tiraram a roupa dela, para que pudessem tirar fotos dela, nua. As fotos se espalharam pela internet em menos de um dia".
"Se eles não a atacaram, por que ela foi hospitalizada?" Rachel perguntou em voz alta.
"Aparentemente, Maddy era uma daquelas raras pessoas a terem alergia a soníferos", revelou Amy. "Felizmente, pelo menos um daqueles filhos da puta tinha consciência o bastante para chamar a emergência, mas nenhum deles ficou com ela até chegar a ajuda, por motivos óbvios. Foi algo meio delicado a princípio, mas ela eventualmente se recuperou por completo".
"E a técnica Sylvester conseguiu outra viagem para o campeonato nacional", disparou Rachel, com a voz cheia de amargura.
"Sim. Nós saímos da competição. Estávamos tão preocupadas com a Maddy que não tínhamos como possivelmente nos concentrar em nosso número. Ela nos deu uma bronca depois por isso, mas sei que, secretamente, ela ficou tocada por nosso gesto de apoio".
Quando Amy se calou, Rachel lembrou-se de algo que Grace tinha mencionado antes, e virou-se para a caçula dos Howell para confirmar sua suspeita.
"Você disse que a Maddie preferia ter morrido. Acho que foi por causa das fotos".
"Tem razão. Ela sempre levou uma vida muito protegida. Era filha única, seus pais a mimavam e faziam tudo o que podiam para mantê-la a salvo. Ela era virgem e, apesar de o médico ter assegurado de que ela ainda o era, ela sentiu-se violada. Exposta. Já que todo mundo na escola amava-a profundamente, ninguém mencionava nada, mas, quando ela ia ao shopping, ou até mesmo pisava na rua... Vamos dizer apenas que garotos adolescentes podem ser uns cafajestes, e algumas garotas não são melhores", bufou Grace.
"Ela nunca mais foi a mesma depois do incidente. O brilho sumiu de seus olhos, e sua natureza confiante praticamente desapareceu. Ela está começando agora a sair de sua casca, e já fazem dois anos". A expressão de Amy ficou sombria. "E tudo isso foi consequência de Santana colocar aquele comprimido na bebida da Maddy".
"Não me admiro que você a odeie", murmurou Rachel.
"Honestamente, durante muito tempo, eu teria estrangulado todas as quatro com as próprias mãos", Amy confessou. "A Maddy tinha que ficar me lembrando que tudo que eu conseguiria por isso era um mundo de confusão".
"Ela as perdoou?"
"Por incrível que pareça, sim. Essa parte dela não mudou. Por mais ferida que ela estivesse, ela ainda acredita piamente que todo mundo erra, e todos merecem uma segunda chance".
"Eu dei uma a Jesse, mas isso foi por nunca deixei de amá-lo, e o que ele fez não chega nem aos pés disso. Não sei se eu poderia ter sido tão magnânima quanto Maddy".
"Eu com certeza não seria. No minuto que vi Santana Lopez outra vez, a mesma raiva sufocante me envolveu, e precisei de cada grama de autocontrole que tenho para não me vingar do mesmo jeito ali mesmo. Por falar nisso, agora que você sabe a história toda, o que vai fazer?" Questionou Amy.
Rachel calou-se para ponderar a pergunta.
"Nada".
"Nada?" Repetiu Amy, com a voz cheia de incredulidade.
"Por agora. Ela tem guardado o meu segredo sobre o Jesse, e foi o que pedi a ela. Quando tornarmos tudo público, vou dizer a ela que sei o que ela fez. No mínimo, vai ser o suficiente para impedi-la de prejudicar as pessoas de quem eu gosto".
"Eu queria tanto que pudéssemos acusar a ela e todos os envolvidos, mas não temos evidências fortes".
"A técnica Sylvester transformou em arte o ato de se safar de crimes", declarou Rachel.
"Um dia ela vai pisar na bola. Se isso não acontecer, acredito que o carma um dia vai virar-se contra ela de um jeito grave", observou Grace.
As três garotas se calaram, perdidas nos próprios pensamentos. Depois de vários minutos, Rachel ergueu o olhar, com um leve sorriso nos lábios.
"Essa conversa é muito deprimente, então vamos mudar pra um assunto mais positivo, tá? Grace, por que não mostra pra gente aquela cena nova que você tá escrevendo?"
No dia seguinte, Rachel mais uma vez sofreu em silêncio por toda a duração do glee, falando educadamente se um dos colegas fazia uma pergunta que exigissse sua resposta, mas ao contrário disso não falando mais do que a letra das músicas que eles estavam preparando para as seletivas. Assim que o Prof. Schue os liberou, ela saiu da sala como um raio, louca para pôr o máximo de distância possível entre ela e todos aqueles cuja proximidade no momento ela não suportava. Nenhum dos outros membros do coral prestou o mínimo de atenção à sua partida.
Por algum motivo que ela não conseguia entender, ela repentinamente descobriu-se do lado de fora da porta do auditório. Entrando no espaço deserto, ela dirigiu-se sem parar ao palco, um lugar aonde sentia-se verdadeiramente em casa. Reflexivamente, começou a brincar com o piano, tirando conforto do som das notas que enchiam o ar ao seu redor. Perdendo-se na música, passou-lhe despercebido o fato de que ela não estava mais só.
De seu ponto de vantagem no final do estacionamento de McKinley, Jesse observou vários membros do New Directions saírem do prédio e dirigirem-se a seus respectivos carros. Sentado no Volvo muito mais discreto de Cat, ele esperou pacientemente que Rachel aparecesse. Quando ficou claro que todos os colegas dela tinham ido embora e ela ainda não tinha aparecido, ele decidiu que entrar na escola para encontrá-la era um risco que valia a pena correr.
Ao esgueirar-se pelos corredores familiares, algo atraiu-o inexoravelmente para o auditório. Enfiando a cabeça por um vão da porta, sua boca curvou-se em um sorriso ao avistar a namorada no palco – exatamente aonde ela pertencia. Ele estava a ponto de dirigir-se até lá para surpreendê-la quando um leve movimento nas coxias o fez parar no lugar. Agradecido pelo esconderijo que a iluminação fraca provinha, ele deslizou silenciosamente na fileira mais distante e olhou à frente, respirando aliviado quando viu Kurt emergir detrás da cortina.
Pelo menos ele não vai surtar quando me ver.
Curioso quanto ao que trouxera Kurt de volta a McKinley, Jesse relaxou a respiração de modo a ficar o mais quieto possível, para melhor ouvir a conversa acontecendo no palco.
"Oi, Rachel".
"Kurt! Você me assustou! Se está aqui espionando, não se dê ao trabalho. Não tenho solos pra você roubar".
Uma expressão de genuíno arrependimento surgiu no rosto de Kurt.
"Lamento ouvir isso. Quem vai cantar no seu lugar?"
"A Quinn. O Sam. A Santana".
"Tá de brincadeira, né?"
"Eu pareço estar de brincadeira?"
"Não. Na verdade você parece péssima".
"Eu me sinto péssima. Mas você tá ótimo nesse casaco de Dalton".
Kurt estremeceu.
"Pelo amor de Deus. Tem muitas coisas que são ótimas em Dalton, mas sinto muita falta de ser capaz de me expressar por meio das minhas roupas".
"Se você está seguro, esse é um pequeno preço a se pagar", protestou Rachel.
"Tem razão. Eu não devia reclamar".
"Então, se você não está aqui atrás da nossa set-list, a que devo essa visita?"
"Preciso da sua ajuda. Os Warblers vão deixar que eu concorra a um solo nas seletivas, e tenho que preparar algo".
Uma onda de ressentimento assomou em Rachel, mas ela a sufocou.
"Por que eu devia te ajudar?"
"Sejamos sinceros, ninguém mais sabe arrasar numa balada como você. Você é tão brilhante e talentosa quanto é irritante".
Ela sorriu levemente diante do elogio distorcido, escolhendo ignorar o insulto que ele encaixara no final da frase.
"Tem algo em mente?"
"Eu estava cogitando My Heart Will Go On".
"Certamente se encaixa no seu tom, mas acho que você devia escolher algo mais pessoal".
"Tal como?"
Navegando pelas playlists dele, Rachel assentiu quando achou o que estava procurando, e apertou o play. Quando os acordes de abertura explodiram, ela posicionou-se no centro do palco e fechou os olhos. Em seu lugar no fundo do auditório, Jesse olhou atentamente para a namorada, com escancarada admiração no rosto bonito.
It won't be easy; you'll think it strange
When I try to explain how I feel
That I still need your love after all that I've done
Quando as notas finais sumiram, Jesse resistiu à vontade de pular e aplaudir loucamente. Apesar de sempre ter acreditado que essa música em particular era perfeita para Rachel, ele tinha que admitir que a voz de Kurt era igualmente adequada à peça.
"O Jesse uma vez me disse que eu cantar Don't Cry For Me Argentina na frente de uma plateia lotada é inevitável", ela admitiu suavemente.
"Ele tem razão", concordou Kurt para surpresa de Rachel.
"Obrigada".
"Nem comente. Ele vai vir pras seletivas?"
"Eu disse a ele que não valia a pena".
"Mas aposto que ele vem mesmo assim".
"Vem, sim".
Ela se calou, deliberando por um momento antes de prosseguir com sua pergunta.
"Parece que você abandonou a hostilidade no que diz respeito ao Jesse. Por quê?"
"Descobri que ele não é um cara tão ruim assim afinal. Acho que pode-se dizer que vi um lado dele que era completamente inesperado".
"E que ele mantém fortemente guardado. Poucas pessoas sabem que existe".
"Fico feliz que acabei sendo uma delas, então".
"Eu também. Boa sorte com seu teste, Kurt. Tenho certeza que você vai arrasar".
"Valeu, Rachel. Eu te conto como que foi".
Descendo do palco, Kurt avistou o adolescente de cabelos cacheados levantando-se de uma cadeira na fileira do fundo. Olhando para Rachel, ele notou que ela ainda não percebera a presença do namorado. Sorrindo imensamente, o garoto mais jovem falou em voz alta.
"A gente já acabou aqui. Ela é toda sua".
"Ela com certeza é", veio a resposta orgulhosa.
Rachel virou-se na direção da voz familiar. Despedindo-se de Jesse com um aceno, Kurt saiu rapidamente enquanto Rachel corria em direção ao amado, que preparou-se para o momento em que ela se jogou em seus braços.
Suas bocas se uniram em um beijo exigente, cheio de desejo reprimido. Lábios se abriram segundo vontade própria, permitindo que suas línguas se envolvessem em um doce duelo. Os dedos dela mergulharam nos cachos dele. Uma das mãos dele tocou a nuca dela, enquanto a outra, que estivera apoiada na base de sua espinha, subiu levemente pela lateral do corpo dela antes de vir pousar gentilmente sobre seu seio. Ela ofegou diante do contato íntimo, mas não fez gesto para impedi-lo. Os dedos dele provocaram o mamilo sensível, e ele sorriu de deleite quando o sentiu endurecer mesmo sob as camadas de roupa dela.
"Sentiu minha falta?" Ele murmurou sedutoramente contra sua boca.
"Ai, sim", murmurou ela, antes de beijá-lo mais uma vez.
Ele afundou numa cadeira e ela sentou-se no colo dele, roçando-se contra sua rigidez. Ele respondeu movendo a mão para a beira de sua saia e subindo, até que os dedos tocaram a beira de sua calcinha. O que faziam era ousado, e estavam flertando com uma exposição em potencial, mas ambos estavam incrivelmente excitados.
Provavelmente devíamos procurar um lugar mais privado.
Como se lesse a mente dela, ele parou de se mexer. Ela gemeu de protesto.
"Quer que eu pare?"
Pegando a mão dele com uma das suas, ela respondeu colocando os dedos dele firmemente entre suas curvas úmidas.
"Vou aceitar isso como um não", ele riu suavemente.
Pressentindo que eles podiam não ter muito tempo, ele enfiou os dedos dentro dela, mergulhando profundamente em sua umidade. Ela enterrou o rosto na curva do pescoço dele, lambendo e chupando no ponto pulsante de sua veia, enquanto ele a trazia à beira do êxtase. Quando o toque dele a fez explodir em doce relaxamento, ela desabou contra ele, respirando ofegante. Afastando-se de leve dele, a mão dela mergulhou dentro de sua cueca. Ele estava tão excitado pelo risco que estavam correndo que, depois de algumas carícias, ele gemeu o nome dela enquanto derramava-se no assento. Ela tentou, sem sucesso, sufocar uma risadinha, e logo seus corpos tremiam em riso silencioso.
"O próximo moleque a se sentar aqui não vai ter ideia do que aconteceu nessa cadeira hoje à noite", Jesse sorriu, malicioso.
"E isso é algo bom", insistiu Rachel.
Levantando-se juntos, eles ajeitaram as roupas e dirigiram-se o mais silenciosamente possível ao estacionamento. Assim que saíram em segurança, ele a levou ao Volvo de Cat. Quando se acomodaram dentro do carro aquecido, ela virou-se de modo a fitá-lo. Ele piscou para ela antes de se concentrar na estrada. Poucos momentos depois, ela deu voz à pergunta que a perturbava desde que ficara ciente da presença dele no auditório de McKinley.
"As seletivas são apenas daqui há alguns dias. Não que eu esteja reclamando, mas por que está aqui tão cedo?"
"Quer dizer, além do fato de que senti uma saudade louca sua?"
"É, além disso".
"Você estava passando por um tempo difícil, e precisava de mim".
Rachel sentiu o coração explodir de amor pelo garoto ao seu lado. Estendendo a mão, ela acariciou seu queixo, e ele inclinou-se procurando seu toque.
"Você veio de tão longe só porque achou que eu precisava de ti?"
"Vim. E eu faria de novo num piscar de olhos. Quero ser a pessoa com quem você pode contar. Pra sempre".
Ela não resistiu, inclinou-se e o beijou de leve no rosto.
"Eu te amo", ela declarou, ferventemente.
"Eu te amo", repetiu ele, apertando gentilmente a mão dela. "Vamos surpreender os seus pais agora."
