37.

Definição de lar

Uma companhia diferente põe o pé na estrada

As palavras de Arwen reverberaram intensamente no fundo da alma de Anna. Finalmente ela entendeu o que todos tentavam lhe dizer a respeito de Thorin.

Anna deveria parecer uma criança mimada e teimosa, insistindo em não viver em Erebor ao mesmo tempo que choramingava por estar longe de Thorin. Todos lhe diziam que seu lugar era ao lado de seu marido, mas ela não escutava: só reclamava.

"Arwen está coberta de razão, Anna", pensou consigo mesma. "Foi sua escolha viver longe de seu marido. Agora aja como uma adulta e viva com essa decisão. Precisa parar com esse mimimi todo. Quem escolheu viver longe de Thorin foi você. Assuma as consequências de sua decisão!"

Foram palavras duras que Anna precisava dizer a si mesma. Arwen as dissera gentil e sutilmente, mas Anna precisava de uma terapia de choque.

Depois desta reavaliação da situação, ficou muito mais fácil receber Gandalf com genuína alegria e entusiasmo. O mago chegara a Rivendell.

— Minha querida — saudou o cinza, com um sorriso nos olhos. — A luz que você irradia agora é capaz de iluminar todo o vale.

— Seu lisonjeador adorável — foi como Anna o cumprimentou. — Senti sua falta.

— E nosso pequeno milagre? — Ele se virou para Darin, que encarava o chapéu de Gandalf com múltiplas intenções. — Ele parece bem esperto.

— Darin está ótimo. Vem se desenvolvendo rapidamente. Deixaria o pai orgulhoso: vive tentando arrancar os diademas de nossos anfitriões.

Aquilo provocou risos altos no Istari, o que fez Darin encarar Gandalf com olhos arregalados. Anna beijou a mãozinha do garoto, que agitou o braço, duplamente disposto a agarrar o chapéu pontudo ou a barba comprida: o que ele conseguisse pôr as mãozinhas primeiro.

Em poucos dias, Anna tinha suas coisas em ordem e estavam todos prontos a partir. Até no momento da partida, Lord Elrond a instruía, garantindo:

— Tudo que eu podia fazer por você está feito, Erulissë. O resto de seu treinamento só cabe a você mesma. Pois é algo que só o tempo constrói. Sua mágica a guiará - basta a você ouvir.

Anna curvou-se profundamente, saudando:

— Lord Elrond, mentor, amigo, parente. Como agradecer todas as gentilezas que me foram concedidas em Rivendell?

Arwen convidou:

— Espero que não se esqueça de nos visitar de vez em quando.

— Vou gostar disso — disse Anna, abraçando-a. — Darin também.

Sidhnanledhiel. Alámenë.

Ela se despediu de Estel e Lindir, bem como Authiel, que parecia emocionada com a separação de Darin. Anna precisou prometer que traria o menino assim que fosse possível.

Eldrin liderava a escolta de cinco elfos que os protegeria até Bree. De lá até o Shire, eles iriam sozinhos.

Foi assim que, numa manhã cinzenta e fria, em que a neve se acumulava no caminho que a carroça decorada de Gandalf tomou o chamado Caminho Verde na direção do oeste, escoltada por meia dezena de elfos. O mago dizia:

— Deveremos ter uma viagem tranquila. Desde a Batalha pela retomada da Montanha Solitária, não se veem mais tantos orcs e goblins atacando os viajantes próximos às Montanhas Sombrias.

Anna quis saber:

— E a situação em Dol Guldur?

— Havia algo do mal naquele lugar, mas já fugiu — disse Gandalf. — Saruman continua convencido de que nunca houve uma grande ameaça, mas eu tenho minhas dúvidas.

Anna comentou:

— Eu apostaria todas as minhas fichas que ele fugiu para Gundabag ou Mordor.

— Fichas? — repetiu Gandalf. — Às vezes não entendo o que diz.

Anna esclareceu:

— Só quis dizer que o inimigo muito provavelmente tenha se refugiado em algum desses lugares.

Gandalf guardou silêncio antes de comentar, de maneira indiferente:

— Saruman veio me perguntar a seu respeito.

— Oh — fez Anna. — Acredito que ele não deve ter tido boas palavras a meu respeito.

— Ao contrário — garantiu o mago cinza. — Saruman disse ter sentido um impacto e tanto com a conversa de vocês.

Anna se espantou:

— Fiquei com a impressão de que ele ficou menos que feliz com minha recusa à oferta que me fez. Ele mencionou essa oferta, suponho.

— Oh, sim — confirmou Gandalf. — Não me deu detalhes, mas ficou tão surpreso com sua recusa quanto eu com a oferta.

— A oferta também me surpreendeu. Jamais poderia imaginar que Saruman o Branco fosse querer me treinar!...

O cinza ressaltou:

— Certamente ele percebeu sua importância e força nesta terra. Deve ter pensado em manter você ao lado dele, com certeza. Nunca o vi convidar ninguém para morar em Isengard antes.

Nesse ponto da conversa, Anna não tinha certeza do quanto o mago cinza confiava no líder de sua ordem. Mas era importante que ela não interferisse no futuro da Terra Média, ou poderia alterar o resultado da Guerra do Anel. Era como sua versão particular da Primeira Diretriz, conceito que trouxera de Star Trek: sob nenhuma hipótese ela deveria interferir com o desenvolvimento natural de uma cultura menos avançada — especialmente considerando que tudo estava no futuro.

Por isso, para Anna era imprescindível manter inalterada a versão de que Saruman ainda era um aliado no combate a Sauron. Levaria ainda décadas até que a traição de Saruman fosse revelada.

Anna limitou-se a observar:

— Nossa magia não era compatível. Mas acho que Darin é que resolveu a questão: ele usou seus poderes para mostrar sua contrariedade quando Saruman insistiu que fôssemos a Isengard. Foi tão inesperado...

Gandalf virou-se para ela, olhou Darin no seu colo e arregalou os olhos muito azuis para indagar:

— Está me dizendo que Darin usou mágica contra Saruman?

— Não faço ideia de onde ele aprendeu aquilo — disse Anna, com sinceridade. — Fiquei totalmente vexada. Na verdade, eu estava bem confusa: Darin chorava alto e parecia haver um zumbido no ar, um que me deixava atordoada...

Gandalf quis saber:

— Esse zumbido... Poderia ser a mágica de Darin?

— Não, pareceu que a mágica de Darin queria parar o zumbido. E deu certo: o zumbido parou, minha cabeça clareou, Darin parou de gritar.

— Ah — fez Gandalf, com uma expressão de entendimento e um largo sorriso. — Parece então que o pequeno Darin flagrou Saruman usando um de seus mecanismos de convencimento.

Anna indagou:

— Como assim?

— Saruman sempre foi considerado homem de grande persuasão — explicou o mago cinza. — Mas há tempos eu vinha desconfiando que todo esse poder de argumentação poderia ter um certo grau de interferência.

Anna pareceu chocada:

— Ele usa magia? Para convencer pessoas?

— Provavelmente é esse zumbido que descreveu. Quando o miúdo o deteve, o zumbido parou.

Anna encarou o filho, dizendo admirada:

— Você fez isso, meu bebê? Fez de propósito? Isso não é muito gentil, sabia?

Darin olhou a mãe e balançou o braço, soltando:

— Ma!

Gandalf apontou:

— Seu filho é jovem e inocente demais para se impressionar com títulos. Ele viu uma pessoa fazendo uma coisa feia e agiu na hora, mesmo que fosse Saruman. Devia se orgulhar.

— Mas eu estou orgulhosa — garantiu ela, virando-se para o bebê. — Você é impetuoso, orgulhoso e não tem o menor respeito por figuras de autoridade. Em suma, meu amorzinho, você é mesmo filho de seu pai.

Gandalf riu, dizendo:

— Thorin ficará orgulhoso dele. Como estão as coisas com ele? Lord Elrond disse que foi até Erebor.

— Sim — suspirou Anna. — Não foi um encontro fácil para nenhum dos dois. Mas decidi levar Darin da próxima vez que for até lá.

Gandalf quis saber, ainda de olho em Anna:

— Então da próxima vez pretende ir definitivamente, não?

— Como assim? Não, claro que não.

— E por que não, posso saber?

Anna não entendia o que Gandalf queria dizer:

— Gandalf, do que está falando? Sabe muito bem que não posso voltar para Erebor.

Ele respondeu de maneira dura:

— Só o que eu sei é que seu lugar é ao lado de seu marido.

— Pensei que tivesse entendido minhas razões.

O mago estava irredutível.

— Entendi que você decidiu viver longe de seu marido e isso é errado. Está quebrando os votos maritais!

— Acredite, Gandalf, viver com Thorin é meu sonho. Mas o lugar de Thorin é em Erebor, e eu não posso ir para lá. Não se eu quiser viver. Não há outro jeito. Acredite: eu tentei achar um jeito.

Gandalf estava inconformado e bateu pé:

— Bem, então procure mais!

Anna estava achando a reação dele cada vez mais peculiar e encarou-o para indagar:

— O que está acontecendo? O que você não quer me dizer? Mithrandir, não me esconda nada.

O Istari aparentava cada um de seus milhares de anos ao suspirar, agora desviando o olhar:

— Eu temo mais por você no Shire do que na montanha.

Anna se sobressaltou.

— Por quê? O que há de errado?

— Eu trouxe Bilbo de volta, como sabe. E ele não era mais o mesmo — disse Gandalf pesadamente. — Ele encontrou algo nessa viagem, e ele nunca mais será o mesmo.

Anna sentiu o sangue fugir de seu rosto. O Um Anel...! Ela estava indo para a mesma casa onde morava o anel de Sauron!

Mas será que Gandalf sabia disso?

Num átimo, ela argumentou:

— Mas era de se esperar que ele mudasse. Veja o que ele encontrou: morte, perigo, privação, mas também viu coisas inacreditáveis, fez novos amigos...

Gandalf a encarou de novo. Anna não tinha certeza se o mago cinza já sabia sobre o Um Anel, mas não quis arriscar. Durante 60 anos, o anel ficaria dormente, com Bilbo. Se Gandalf o tirasse de lá, Sauron poderia ser alertado precocemente e toda a Terra Média estaria em perigo.

Por outro lado, agora que Anna estava indo morar com Bilbo, podia ser que o Anel não ficasse mais tão quieto. E poderia o Anel interferir em Anna? Ou quem sabe Darin?

Seria esse o temor de Gandalf?

Anna ponderava sobre essas questões e outras questões quando o mago disse, mudando de opinião:

— Hum, acho que tem razão. De qualquer forma, faz pouco que Bilbo voltou ao Shire. Obviamente ele ainda está se adaptando ao local.

Anna sutilmente procurou desviar o foco:

— Espero que as coisas tenham ficado mais tranquilas. A primeira carta que Bilbo escreveu falava de conflitos com os parentes: eles tentaram tomar sua casa. Mas agora ele me mandou um bilhete, sem falar no assunto. Vou interpretar como sinal de que as coisas se acalmaram.

Gandalf sorriu:

— Ah, hobbits! Certamente fazem um grupo muito social. Gosto muito deles. Às vezes sinto saudades do Velho Took. É o avô de Bilbo, pai de Belladonna. Lamento dizer que os Baggins nunca me aprovaram, à exceção de Bungo, pai de Bilbo — mas ainda assim suspeito que isso só tenha sido para não irritar Belladonna.

Anna lembrou:

— Vou ter que aprender todas essas relações e parentescos, e são muitas pessoas!...

— Agora sim, é que você vai sentir o peso de uma grande família. A primeira coisa a lembrar é que depois que sairmos de Bree, praticamente todos os hobbits de todas as localidades são parentes entre si, de uma forma ou de outra.

E lá foram eles estrada afora, Gandalf a tagarelar alegremente sobre os hobbits, um de seus assuntos preferidos. Ele discursou extensamente sobre as conexões familiares de Bilbo, o que deixou Anna um pouco tonta.

A tarde ia avançada quando Gandalf anunciou:

— Vamos parar na próxima localidade, pois a noite se aproxima e lá teremos pousada numa estalagem. Amanhã não teremos esta comodidade: deveremos acampar nas ruínas de Amon Sûl.

Eldrin opinou:

— Será um dia puxado, amanhã. Mas Mithrandir tem razão: Amon Sûl nos dará algum abrigo, mesmo que precário.

— Portanto, será importante dormir bem hoje, quando pudermos. — Gandalf encarou Anna, sorrindo. — Acredito que você vá gostar do lugar, Anna.

Ainda era dia quando chegaram ao lugar para pernoitar. Anna notou um ar conhecido naquele lugar. Mas foi só quando a carroça parou que ela finalmente se deu conta:

— Minha nossa, Gandalf. Não é à toa que estou conhecendo este lugar!...

O mago sorriu, indagando:

— Ah, então você se lembrou, hein?

O rosto da moça se iluminou:

— Isso aqui é a Curva do Rio!...

Palavras em Sindarin

miruvor = tônico restaurador

alámenë = Vá com nossas bênçãos

sidhnanledhiel = Que a paz esteja com você

PS — A Curva do Rio é uma localidade perto do Ford do rio Bruinen, que eu inventei em "Jornada para Erebor" olhando os mapas compilados por Karen Wyman no "Atlas da Terra Média".