Capítulo 36 – Antes da Batalha Final

A confusão no primeiro andar do hotel cessara. Os demônios foram aniquilados um a um; as pessoas que se viram acuadas pelos seres malignos se tranqüilizaram por tudo ter voltado ao normal, embora não compreendessem bem o que ocorrera.

Os anjos e os Winchester's retornaram, às pressas, ao quarto; ao chegarem, encontraram Bobby desacordado, e Cass não estava mais ali. Com rapidez, Dean buscou um pano para passar na testa do caçador, a fim de que despertasse.

– O que... Que diabos aconteceu comigo? – Singer perguntou confuso. – Eu...

– Você deve ter sido atingido por alguém – sugeriu o loiro. – Foi nosso amigo nerd com asas?

– Não, claro – comentou, após se levantar. – Ele nunca faria uma coisa dessas comigo.

– Então quem foi que o atingiu? – questionou Sam, que o auxiliou a sentar na cama.

– Bem... Eu acho que... – forçou a mente, como o único modo eficaz de procurar se recordar dos fatos. – Que... Foi Kasbeel!

– Droga... Aquele desgraçado vai me pagar – murmurou Lúcifer, que se mantivera distante dos caçadores, em um claro sinal de respeito para com os que o acolheram, mesmo que tivesse tentado destruir o planeta há um ano.

– Considero relevante partirmos agora – ponderou Azrael. – É bom darmos o fora antes que mais demônios apareçam aqui e nos retenham.

– Isso não é possível – argumentou o Winchester mais novo. Todos o olharam sem entender, exceto o ex-rebelde, que focava os tristes olhos no nada.

– Como assim Sammy, o que você quer dizer com isso... Que merda é essa de... De não é possível? – perguntou Dean, aflito com a situação indefinida.

– Cass já se foi, eles têm o que queriam – concluiu. – Por isso precisamos ir, porque eles não moverão um dedo para nos encontrar.

– É, tem razão – completou o Winchester mais velho. – Vamos nessa! – e abriu a porta do cômodo.

Azrael ajudava Bobby – que ainda sentia tonturas –, a ir até o Chevy Impala; o loiro ia à frente dos demais, atento a tudo ao redor. Samael e o Winchester mais novo seguiam-no logo atrás, a passos apressados.

Entraram no veículo e Dean deu a partida. Rumavam para um caminho incerto; a única prioridade era encontrar Castiel. Todos, inclusive Singer, estavam imbuídos dessa tarefa.

– Ta tudo bem? – questionou Sam, que se mostrava atento à alarmante expressão facial de Lúcifer.

– Não – o balbucio foi sincero. – Eu sinto muito... Mas enquanto ele não voltar, nada estará bem pra mim.

– Eu sei, e entendo o porquê – fez uma pausa e prosseguiu: – É como perder a criatura mais importante para...

– Eu só acho que isso não devia ser assim – iniciou o ex-rebelde, depois de colocar a mão no ombro do jovem caçador, em um gesto que interrompeu a fala dele. – A culpa é minha. Sempre foi minha. Desde antes de eu cair, quando nós começamos a ter um envolvimento... Quando descobrimos a força do que sentíamos um pelo outro... Eu devia imaginar que acabaria dessa forma. Mas quer saber o que mais me irrita? – todos, inclusive Dean, que guiava o carro, o olharam curiosos. – Que seja ele a ser preso, maltratado, exposto. É grosseiro, amigos, se é que posso chamá-los assim após tudo que fiz. Mas enfim... É inexplicável que o peguem para algo tão cruel. Cass terá de matar o irmão, ou de morrer nas mãos dele... E pra quê? Onde está... Deus? – Lúcifer engoliu em seco ao proferir o nome do Pai. – Sei que sou um rebelde, que não mereço ser ouvido, que sou ruim o bastante e bla bla bla, mas é por ele que peço... É por Castiel, que sempre acreditou na força do Senhor – os caçadores e Azrael o observavam atônitos; e percebiam, nas palavras dele, um tom tão emotivo, que de certa maneira compreendiam e sentiam parte da desesperadora sensação do outro, que gesticulava nervoso. – ... É tão-somente por ele que peço auxílio. Cass nasceu com a bondade a inundá-lo por inteiro. É um anjo, literalmente. E se Deus não intervém para cooperar, eu o farei, nem que seja a última coisa que eu faça – sentenciou. – Porque, afinal de contas, creio que ainda haja algo para o ser mais puro e belo da Criação – uma lágrima teimosa escorreu pela face de Samael, que se mantinha atento às ruas; não pretendia que notassem tamanha debilidade emocional.

– Olhe, não tem como nós dimensionarmos tudo que vocês passaram – comentou Dean, depois de pigarrear, porque não sabia bem o que falar. – Mas tem como nós o trazermos de volta. E com certeza conseguiremos isso.

– É, tem razão. Obrigado pelo apoio – murmurou. – Dobre à esquerda na próxima esquina.

– Por que, acha que podem tê-lo escondido em algum local específico? – perguntou Sam.

– Sim, é bem provável. Há uns armazéns por ali. Kasbeel gosta muito desses lugares retirados.

– É verdade, irmão, que bom que se lembrou desse detalhe – disse Azrael, aliviado por terem alguma esperança.

– Então nos indique onde Dean deverá parar o Impala, ok? – pediu Bobby, decidido a auxiliar como podia.

– Peraí – iniciou o loiro. – Você não está legal, não acha melhor ficar quieto...

– Sugere que eu permaneça aqui sem poder fazer nada? – Singer o olhou com firmeza. – Não mesmo. Esse anjo nerd, como você costuma dizer, me ajudou a retornar para cá depois que ele me matou – apontou para Lúcifer. – Então nada mais justo do que eu fazer alguma coisa também – todos concordaram.

– Ei, pare aí! – exclamou o ex-rebelde, após alguns minutos de silêncio. Dean estacionou próximo a um armazém.

Todos desceram com armas em punho. Caminhavam devagar, como se esperassem um ataque repentino. Porém, não viam nem sombra de demônios ou de anjos.

– Não acha que errou ao pararmos aqui? – o Winchester mais velho se aproximou de Samael, que se mantinha afastado deles, a verificar por completo o ambiente.

– Eu sei que não me equivoquei – apontou para a enorme e pesada porta de vidro do local. – Kasbeel moldou esse território como desejou. E eu vou lhe dar o troco.

– Nossa, o que sugere é realmente emocionante; seria uma bela cena de filme de ação. Mas como pensa fazer isso? – o loiro tentava amenizar a tensão.

– Vou explodir a porta com apenas um golpe; usarei meus punhos para desferi-lo – Dean o olhou com espanto. – Assim abrirei caminho para que vocês resgatem o Cass.

– Ta, acho que entendi. Mas... Vai ficar tudo bem... Digo... Com você? – o ex-rebelde riu.

– Quer saber se sairei vivo? – o caçador assentiu. – Sim. Só que Kasbeel vai pagar por tentar se igualar a mim e por querer machucar o meu garoto.

Os Winchester's, Bobby, Azrael e Lúcifer se preparavam para adentrar o sombrio armazém, sem sequer imaginarem que, lá dentro, uma feroz batalha estava para começar. O irmão de Cass ficaria responsável por auxiliar e por vigiar Robert Singer, que não gostou muito da condição, mas teve de aceitar. Afinal de contas, se queria cooperar, precisava entender que os amigos se preocupavam com ele. Dean, por outro lado, enquanto se preparava, conversava com Azrael e com Bobby, enquanto que Sam ia até o ex-rebelde.

– Por que não vem dialogar conosco? – perguntou, preocupado. – Talvez juntos possamos encontrar uma saída para o problema... Para derrotarmos ele de uma vez por todas.

– Eu sei, mas não me sinto apto a falar nada no momento, me desculpe, Sammy.

– Ta tudo bem, apenas quero ajudar no que puder. Se precisar, me avise, certo?

– Você já fez o que pôde; agora é a minha vez de retribuir a Cass por todo o mal causado na divina existência que ele levava – Lúcifer olhou para a porta de vidro escuro, que ocultava a movimentação no interior do armazém. Aproximou-se e escutou a voz de Kasbeel. – É agora ou nunca! – com um golpe calculado, a despedaçou sem maiores esforços.

– Você ainda o ama, não é? – questionou o Winchester mais novo. – Não ficarei brabo se me disser...

– Responderei depois, ta bem? – e sumiu no ar, indo parar onde Cass estava.

– Vamos! – exclamaram os Winchester's, Bobby e Azrael, que se depararam com um grupo de demônios pelo caminho.

Continua...