Part XXXV: Broken Wings, New Dreams

Enquanto ouvia já ao longe o som das notícias falando sobre a magnífica apresentação ocorrida no Kaleido Star na noite anterior, suas pálpebras iam pesando cada vez mais. Estava naquele estado pré-cirúrgico de quando dão um remédio ao paciente para que ele relaxe, seguido da anestesia e de todos os sentimentos se confundindo com as lembranças e se misturando com uma sensação de, naquele caso, contentamento, ainda que um pensamento em particular a fizesse preferir manter-se acordada.

Não quis esperar mais dias para aquela cirurgia. Quanto antes melhor, assim poderia seguir em frente e pensar no que fazer da sua vida depois. E claro, havia a possibilidade de que seu ombro se recuperasse perfeitamente, apesar de não acreditar muito nisso, e além disso, as notícias da televisão também anunciavam seu afastamento dos palcos por período indeterminado, o que acabava por deixá-la um tanto sem escolha por hora.

No entanto, de todas as notícias que esperava ouvir antes de entrar em um sono profundo, só se importava com uma: a de que uma pessoa a visitasse, ou que falassem o seu nome ali na tv: Yuri. Não tinha notícias dele desde que o viu sair do consultório de Kate quando ela desmaiara e aquilo a incomodava. Não achava que algo de ruim pudesse ter acontecido, mas... Queria vê-lo. Queria poder falar com ele, nem que fosse para dizer "olá" ou "obrigada pelo que fez", mas ele a privou de tal coisa quando sequer sua sombra pôde ver no Kaleido Star na noite anterior. Quando ia saindo do Kaleido olhou diversas vezes para trás, mas não viu seu carro no lugar de sempre, nem as flores costumeiras em seu camarim. Até seu pai o viu depois que ele saiu do consultório - por causa dela, inclusive -, menos ela e não fazia idéia de que aquela ausência seria tão dolorosa quanto agora. Justo agora que não se deviam mais nada ele desaparecera e nem recado havia deixado, nem em notícias na televisão ele se permitiu mostrar presente. Quando o encontrasse, certamente o cobraria de alguma forma, mas no momento tudo o que podia pensar é que acordaria finalmente sem dor e com um longo e solitário caminho de fisioterapia lhe esperando pela frente.

A cirurgia ocorreu bem, dentro do horário previsto e de forma discreta, assim não haveria o assédio da imprensa, dos fãs ou dos colegas para que assim ela pudesse descansar. Era tudo o que mais queria naquele momento: descansar. Não fazia isso perfeitamente bem há pelo menos um mês, então era mais do que merecido aquele tempo só para si. Kate a olhou satisfeita quando acordou, com aquela expressão que Layla sabia que significava algo do tipo "finalmente eu vou poder te manter quieta em uma cama para se cuidar". Não que isso fosse ruim, mas ela esperava sair o quanto antes dali e poder descansar na sua própria cama, sem aparelhos, odores etéreos e enfermeiros ao seu redor.

Apesar de não receber notícias dele, cerca de dois dias depois, ele próprio se permitiu notícias, mas não para ela. Ligou diretamente para Kate em um final de tarde que felizmente estava tranqüilo para que ela o atendesse.

- Yuri, como vai? A ligação está baixa.

- Olá, Kate. Talvez seja porque estou distante da cidade. Eu liguei... Para saber como ela está.

- Ah, Layla? Ela está bem, mas... Como sabia da cirurgia?

- Eu tive um palpite de que ela não iria esperar muito tempo para fazê-la. Então ela está bem, que bom.

- Sim, se quiser posso transferir para o quart...

- Não. - Interrompeu-a logo, seguido de um suspiro e um leve passar da mão livre nos cabelos - Não, eu... Acho que ainda é muito cedo para falar com ela. Só queria saber se estava bem.

- Ah sim... Está, a cirurgia foi um sucesso e com um pouco de paciência e fisioterapia, o ombro dela voltará a responder, ainda que provavelmente não como antes.

- Bom... Ao menos a sua parte, você já pode dizer que fez, não é? - Disse em tom de deboche, já que paciência não era uma das grandes virtudes de Layla. Kate riu.

- Eu acho que posso te surpreender em dizer que ela fez a cirurgia logo no dia seguinte da apresentação e até agora ela não apresentou nenhum quadro de impaciência.

- Isso sim é um milagre. - Respondeu em tom sincero e divertido, contente por saber daquilo. - Eu pedi para entregarem flores a ela, mas não sei se chegaram...

- Eu acho que não, não andam permitindo flores no hospital por risco de alergias a alguns pacientes e coisas do tipo. Tente chocolates. - Ela brincou.

- Tudo bem, talvez tenha sido melhor assim. - Disse conformado, suspirando mais uma vez. - Darei um jeito da próxima vez quanto a isso, mas... Não diga que liguei. Em breve eu entrarei em contato com ela.

- Está certo. Cuide-se, hum?

- Obrigado, Kate.

Era como se só eles dois existissem no mundo e no momento estivessem completamente distantes, sem a possibilidade de se comunicarem. Ao menos essa era a sensação que ele tinha e ordenava a si mesmo que esquecesse por hora, já que não levaria a nada ficar preso a isso enquanto ambos precisavam seguir em frente. Ela precisava decidir que rumo seguir agora que não tinha mais o Kaleido e ele precisava repensar em todo o seu passado para poder assim entender seu presente e futuro. Seria em vão qualquer conversa entre eles sobre qualquer coisa em um momento tão delicado como agora.

Ela, por outro lado, só conseguia reviver seguidamente os seus momentos de sofrimento e superação durante os treinos e a apresentação em si, ao invés de pensar no depois. Enquanto olhava pela janela do hospital e via seu glorioso Kaleido Star ao longe, pensava que sequer tinha tido a chance de dizer "obrigada" ao Fool, e agora talvez fosse tarde demais já que provavelmente teria deixado de vê-lo, por ter deixado de ser uma estrela. Não havia nada mentalmente mais complicado do que aceitar sua saída definitiva do Kaleido e precisar procurar outra carreira. Dificilmente encontraria algo tão maravilhoso e desafiador quanto aquele circo, e mesmo que o fizesse, dificilmente seu ombro lhe permitiria tal coisa. Se essa sensação não fosse a de se sentir derrotada de alguma forma, então com certeza estava muito próxima disso.

Apesar das inúmeras lembranças e do volume de pensamentos, nada impedia os dias de continuarem a passar. Em duas semanas pôde sair do hospital, apesar de ter a necessidade de voltar para ele todos os dias por conta da fisioterapia. A imprensa só soube do seu paradeiro quando o táxi parou na porta de sua casa, o que significava que, apesar da solidão do hospital, também pôde descansar e ficar em paz por lá, sem o assédio e as inúmeras perguntas que lhe fariam por conta da apresentação, da lesão e também do seu afastamento. Infelizmente não tinha nem seu pai, nem Kalos nem Yuri para cuidar disso por ela agora, então mais cedo ou mais tarde teria de enfrentar aquele batalhão de perguntas sozinha.

Ainda quando estava no hospital, fez três ligações particulares. A primeira foi para o seu pai, para avisar da cirurgia. Ele ficou surpreso em saber da velocidade com que ela tratou o assunto e, apesar da conversa ter sido breve, desejou-lhe sorte na sua nova jornada e ofereceu ajuda para o caso dela precisar de um novo lugar para começar. Uma força a mais.

A segunda ligação foi para Kalos, pelo mesmo motivo. Disse-lhe também que ele poderia comentar do seu estado, mas não que estava em Cape Mary e ele, é claro, lhe desejou toda a força do mundo e ofereceu toda a ajuda também. Kalos sem dúvidas apaziguaria os ânimos da imprensa por ela sem ela nem precisar pedir, e aquilo já lhe daria mais forças para continuar do que ele poderia imaginar. Por fim, ela ligou para Yuri, mas ninguém atendeu, nem no celular, nem em sua casa. Por um momento, sentiu que ele estava ainda mais distante do que ela poderia ter pensado e aquilo lhe causou um vazio sem motivo racional aparente; apenas sentiu aquela ausência, mas tentou esconder isso até mesmo de si própria. O passado, afinal, era como um rolo de aço que ela precisava continuar empurrando até que chegasse a uma parede e se prendesse nela, sem a possibilidade do rolo se desprender e voltar com tudo, esmagando-a.

Não teve tanto problema com a imprensa quanto pensou que teria. Imaginou que Kalos já havia dado a confirmação de que ela estaria afastada do Kaleido por tempo indeterminado e que precisaria cuidar do ombro, por isso só precisou dizer 'não' a entrevistas quando voltou do hospital para casa. Tiraram poucas fotos e logo foram embora para a sua felicidade, mas talvez o que ela esperava menos estivesse do lado de dentro.

- Bem-vinda de volta, dona Layla! - Sua amiga e empregada a esperava com o sorriso gentil de sempre e ajudava-a com a pequena mala que havia levado ao hospital para aquelas longas duas semanas vivendo por lá.

- Obrigada, Macquarie. Alguma novidade? - Perguntou enquanto notava a enorme quantidade de flores de diferentes tipos na entrada, cada buquê vindo de uma pessoa diferente. O número era um bocado maior do que da vez em que ficou indo e voltando de Londres para dar conta de ser a Estrela Mascarada sem que ninguém soubesse. Por um momento, pensou se talvez um certo buquê a mais não estaria ali...

- Dona Layla? - Macquarie pareceu chamá-la como se ela tivesse ido a algum outro planeta por alguns segundos. E de fato tinha, já que pelo visto a amiga estava lhe contando se havia ou não novidades e ela não ouviu uma só palavra do que ela disse. Mas também notou a pequena pilha de papéis e envelopes nas mãos dela.

- Ah, sim, Macquarie?

- Não param de chegar. Acho que são roteiros. - Comentou como quem repetisse o que havia dito segundos antes e só então Layla ouviu.

- Roteiros? - Parecendo mais interessada, pegou os papéis que estavam sobre a pequena pilha nas mãos da outra e leu a capa: era sim um roteiro, com título, nome dos produtores, do diretor e tudo o mais. Ficou impressionada. - Eu... Vou tomar um banho. Será que pode colocá-los em minha cama? Darei uma olhada com calma depois disso.

- Claro, senhorita! - Disse mais apressada. - Posso já fazer o jantar em seguida?

- Sim, obrigada. - Sorriu de leve e se prontificou a levar a própria mala, já que Macquarie levava os roteiros. Contanto que não usasse a mão direita - e nem poderia, já que o braço estava imobilizado até o pulso com uma faixa e preso por uma tipóia -, poderia carregar algum peso, desde que leve.

Só quando finalmente se ajeitou na própria cama e respirou fundo é que pegou aquela pequena pilha de envelopes para abrir e ler. A maioria dizia a mesma coisa: "Prezada Srta. Hamilton, lamentamos sobre sua atual condição física e esperamos que esteja logo recuperada. Diante de tal magnífica apresentação, gostaríamos de parabenizá-la e convidá-la para participar do próximo filme/peça/série de TV que faremos, cujo roteiro segue anexo a esta carta. Caso se interesse, por favor entre em contato o quanto antes. Agradecemos antecipadamente pela atenção".

Ela não sabia se ficava feliz ou irritada com aquela situação. Mal tinha feito uma cirurgia e já tinha aquele bando de opções jamais vistas antes pedindo que ela esquecesse o passado tão recente. Era maravilhoso ter a possibilidade de escolha, mas conforme lia cada resumo de peça, filme ou o que quer que fosse, ficava ainda mais desmotivada. O motivo ela já sabia: não havia nada que pudesse se comparar à emoção do Kaleido Star, e ela nem estava pensando apenas na Técnica Fantástica. É claro que a sua última apresentação não podia ter sido melhor, mas as outras todas também contavam. Nunca fez uma peça "mais ou menos" no Kaleido Star e seu portfolio não a deixava mentir. Podia até ter tido sucesso com aqueles filmes que fez, mas não se comparou ao sucesso atingido no circo. Naquele circo, em especial.

Estava ficando complicado, portanto, receber diariamente pelo menos 5 roteiros e não aceitar nenhum. Ainda não precisaria se preocupar em aceitar ou negar qualquer coisa formalmente, afinal, estava se recuperando. Mas à medida que o tempo passava, a pressão parecia aumentar. Não queria receber visitas, não importava quem fosse (e não foram poucas; inclusive Charlotte e Julie do Kaleido querendo conversar com ela e nem mesmo elas foram atendidas), chegou até a pedir que Macquarie trancasse a sua sala particular de treinos para não se tentar à idéia de voltar até ela e aquele sentimento deprimido ia tomando um volume tal que pareceria não ter volta, se não fosse por Kate acordá-la antes que fosse tarde demais.

- Acho que está se esquecendo daquela Layla que pisou semiconsciente no meu consultório dizendo que só queria acalmar a dor insuportável que sentia e se manter acordada em troca de uma apresentação. - Ela disse em meio a uma das sessões de fisioterapia.

- Tinha uma razão específica para aquilo, Kate. Se eu desistisse naquele momento, eu nunca mais seria capaz de continuar de onde parei...

- E não é assim agora? - Uma encontrou o olhar da outra com aquela pergunta. - Diga: o que está tão diferente? Se desistir agora, vai se aposentar? Ou vai tentar achar um outro lugar que está esperando pelo seu brilho? O Kaleido Star não é o único lugar que o merece, Layla, ele já teve sua cota. Procurar outro lugar não quer dizer que você está traindo qualquer coisa. Se desistir, aí sim você estará traindo a todos que acreditaram em você e que são seus fãs.

Trair... Estava aí algo que ela não tinha pensado ainda, mas com toda certeza sentia. Seria por isso que não conseguia enxergar nada de bom e novo à sua frente? Por achar que trairia seu tão adorado circo e as pessoas contidas nele em troca de algum sucesso e o que mais viesse? Não. Kate tinha razão, ninguém a culparia por sair à procura de novos sonhos - ao menos, ninguém do Kaleido Star. Sabia que a mídia era terrível quanto a mudança de carreira de pessoas conhecidas. A atriz que virou cantora, a cantora que lançou linha de perfumes, a bailarina que virou comediante. Nenhum tipo de artista tinha vida fácil quando decidia mudar o seu foco, não importava o quão famoso fosse, então... O que seria de si se resolvesse mudar seu rumo e não desse certo? Ela não se preocupava exatamente em fracassar onde quer que fosse aos olhos da mídia, mas sim em se sentir feliz e resolvida com o que quisesse fazer dali em diante. Mesmo que não fosse algo que mexesse tanto com a sua adrenalina quanto o Kaleido mexia, que ao menos fosse algo que continuasse a fazer seu coração vibrar, que continuasse lhe proporcionando outros desafios, mas estava difícil de encontrar tal lugar. Estava difícil de se desapegar e mudar de carreira quando nenhuma lhe atraía tanto quanto a sua primeira, aquela que decidiu ser desde criança e "para sempre"...

Quando estava começando a perder qualquer esperança de que algo a iluminasse, alguém lhe bateu à porta. Ou melhor, telefonou antes. Apresentou-se como Cathy Taymor, uma produtora nova da Broadway e perguntou se poderia lhe fazer uma visita para conversarem. Seu jeito incisivo e que não aceitava não como resposta fez com que Layla finalmente aceitasse receber alguém. Macquarie subiu às pressas dizendo que ela tinha visita e ela ficou com cara de quem não entendia aquele desespero, mas tratou de descer logo, sem as esperanças de que algo mudaria sua visão das coisas na atual conjuntura.

Quando estava chegando ao final da escada, no entanto, travou. Podia ser quem ela tanto esperou que fosse. Ele. Por isso o desespero de Macquarie? Tinha todas as razões para ser, por não ter tido notícias dele depois de semanas e também porque ele adorava aparecer nas horas mais improváveis, mas, para a sua infelicidade, não era. Talvez ele tivesse tido a chance de vê-la animada novamente, mas sendo uma desconhecida, dificilmente se animaria.

- Pois não? - Disse ao fazer o coração voltar ao lugar depois de perceber que era a tal moça que ligou há 2 dias. - Sente-se.

- Puxa, que viagem longa! - A moça de cabelos curtos e olhos azuis se sentava espaçosamente no sofá à sua frente. Por um momento, Layla achou que a cena era a coisa menos entediante que havia visto em semanas, mas logo em seguida viu o roteiro de capa vinho ser jogado na mesa na sua direção. - Tome, aqui está o roteiro. E então, quando estará recuperada da sua lesão?

"Mais um roteiro...", pensou antes de dar uma olhada melhor no título e preferindo dar atenção a ela antes de dispensá-la.

- Se eu seguir as instruções do médico, será daqui a um mês.

- Seria maravilhoso que fosse antes, mas ordens são ordens, não é? Diga, o que você acha?

- Salomé in Vegas... - Leu em voz alta e em seguida os nomes do produtor e diretor da capa. Não era de toda instância ruim, então deu sua opinião. - Parece uma peça nova e original.

- Sim, é. e acho que ficará perfeita como Salomé, é adaptado do conto! - Aquela moça à sua frente parecia tão animada que parecia não conseguir tratar de negócios com seriedade. Se fosse antigamente, a teria dispensado no momento seguinte, mas depois de Sora... Aquela mulher não parecia nada errada com o que fazia, pelo contrário. - Será que se eu te pedir para me dar uma resposta até amanhã, você consegue ler e me falar o que acha com mais detalhes? Sei que no Kaleido Star você também participava das produções, dava sua opinião. é isso que estou procurando agora, alguém que possa lotar aqueles 500 lugares com suas idéias e performances. E você é perfeita para isso.

Quinhentos lugares... Isso significava que era uma peça Off-broadway, e não Broadway. Não seria nada tão grande que fizesse a mídia especular demais sobre ela. Além disso, era uma boa história. Conhecia Salomé desde criança e foi uma tragédia que lhe marcou quase tanto quanto Hamlet quando a leu. Teria dança, e talvez pudesse incorporar acrobacias no palco...

O olhar de Cathy não mentia. Ela parecia saber ler no olhar de Layla o que a mesma sentia e sorria satisfeita. Se ela poderia dar a opinião que quisesse, teria a liberdade de criar algo novo, partindo de suas próprias idéias, e isso era o que todo artista que se preza gostaria na vida: ter a liberdade de escolher o próprio papel.

- Está bem. Irei ler e hoje ainda lhe darei o meu prognóstico.

- Maravilha! Então ficarei na cidade até que se decida. Será um prazer ouvir sua opinião, mesmo que não aceite, mas como eu espero que aceite, então não direi mais nada!

Cathy era realmente elétrica. Os adjetivos alegre, maluca, hiperativa e sinônimas descreviam-na muito bem. Parecia que para ela não havia tempos difíceis e aquela alegria foi o que pareceu convencê-la de ler aquele roteiro. E que roteiro. Comparado a todos os outros, aquele era o que mais lhe chamou a atenção. Havia muito desafios para ela, desde dança até a própria atuação. Uma pessoa que preferiu a morte de quem mais amava a ter de viver sem ele não era algo que lhe cabia na vida real, já que, se comparasse ao Kaleido, escolhera justamente o contrário. Preferiu se afastar a fazer o circo cair em desgraça com atuações medianas que ela acabaria por fazer dali em diante por conta do ombro. Mergulhar em um mundo cuja visão não era a sua talvez lhe fizesse mais bem do que a própria liberdade que teria na produção. Mas havia um porém: teria de se mudar para Nova York. Um novo começo... Por que não?

Não precisou de mais muito tempo para aceitar a oferta, ou pedir que Macquarie lhe listasse os apartamentos à venda próximos à Broadway, ou simplesmente avisar o seu pai de que estava indo para Nova York dentro de alguns dias sem avisar mais ninguém. Macquarie não poderia ir com ela, então ficaria sozinha, o que era mais um tópico daquele novo começo. Apesar de ter tido grande parte de sua vida como solitária, não estava acostumada a não ter ninguém ao seu redor e aquilo a fazia ficar imaginando como seria. Jamais pensou que Cathy, no futuro, pudesse ser seu braço direito em tantas coisas. Foi quando se lembrou da ligação de Charlotte e Julie e, apesar de não saber o motivo pelo qual havia se lembrado disso justo naquele momento, pediu o telefone delas à Macquarie. Ambas queriam trabalhar com ela, não importava onde, e quando anunciou que iria para Nova York, as duas aceitaram imediatamente o papel de assistentes proposto. Ao menos assim não ficaria tão sozinha.

No outro lado do mundo, um certo loiro também se movia. Já que ele não iria querer pensar no Kaleido Star por algum tempo, decidiu correr atrás de algo que há muito não fazia: estudar. Havia parado no colegial e nunca mais tinha cogitado seguir adiante, mas a julgar pela situação, não seria má idéia. Não queria sair do ramo artístico, mas a maioria das faculdades que lhe interessavam lembrava o Kaleido em si: design, artes cênicas, dança, arquitetura. Por mais matemático que pudesse ser, desgostou da idéia de continuar ligado ao passado de alguma forma, então escolheu o menos provável: história da arte. Não era nada muito complexo e segundo as instruções da universidade, ele poderia comparecer às aulas quando bem entendesse, ainda que necessitasse de ir no último mês do semestre para entregar todos os trabalhos necessários e passíveis de serem avaliados. Ou seja, teria liberdade no que escolhera. Não seria nada mau, depois de tantos anos preso a um circo, às suas próprias idéias distorcidas e a um desejo de vingança, mas não podia negar: sentiria falta de uma pessoa em particular desse passado e esperava um dia poder trazê-la de volta para o presente.

Enquanto isso não acontecia, ele comprava e enchia o seu apartamento de telas e tintas e livros para começar seus estudos. Sentia-se mais confortável em mudar de ramo também, assim ninguém (ou quase) o reconheceria, fosse pelo seu sucesso, fosse pelos seus erros e fracassos.

Foi questão de uma semana até ver tudo: papéis de admissão, passagens, apartamento, roupas, mala. Pediu que Macquarie não fosse com ela ao aeroporto, assim não sentiria que aquilo era um adeus, ou no mínimo um até breve muito longo. Ela instalaria no apartamento que comprou um telefone com câmera, assim ela poderia ajudá-la à distância, mas mesmo assim sabia que para a amiga não era a mesma coisa do que ''servi-la ao vivo''.

Quanto ao teatro em si, quando chegou não sentiu nada demais. O palco não a chamava como o Kaleido, mas era o suficiente por enquanto. O diretor da peça, Mike Abbott, ficou honrado em conhecê-la e parecia um homem de tanta visão quanto Cathy, e por falar nela, achava que ter tido Sarah em sua vida já era loucura demais em um ser só, mas Cathy superava expectativas. Estava sempre falando, dando suas opiniões, fazendo perguntas diretas e observando. Parecia saber de tudo, querer saber de tudo e analisar os mínimos detalhes, além de andar sempre com um caderno e uma caneta ao alcance das mãos para possíveis novas idéias. "Vou saber se não estiver satisfeita ou contente aqui'', ela lhe dizia, como se realmente pudesse ler sua mente. Era desconfortável por muitas vezes, mas ao mesmo tempo parecia preencher o tempo em que sua mente e o seu coração ficariam pensando em coisas que não devia ou que a fazia se sentir mal.

O tempo passaria logo e seu ombro continuaria sendo tratado em uma clínica especializada de Nova York. Como já sabia, ele não teria um conserto 100%, mas ao menos estaria em um mês de volta no lugar. Enquanto isso estudou suas falas, acompanhou os testes dos atores, a produção e deu poucos e humildes palpites no que achava que conhecia. Charlotte e Julie se envolveram como assistentes dela e de palco, além de coadjuvantes menores. Também andavam humildes, para a sua surpresa. Ela em si podia não ser nada humilde quando se tratava de circo, mas sabia onde era o seu lugar e que ali era apenas uma iniciante que fizera dois bons filmes e nenhuma peça de teatro. Estava ali por conta de seu nome em outro ramo e precisaria aprender muito antes de realmente criticar qualquer coisa. Apenas se perguntava quanto tempo isso levaria, já que no Kaleido isso demorou bons anos.

A cidade grande estava lhe fazendo mais bem do que mal; os chamados pelo seu nome não paravam e suas opiniões eram sempre bem-vindas, até mesmo no figurino, mas toda vez que saía do teatro após um longo dia de trabalho e olhava o céu perdido por entre os enormes prédios de Nova York, aquela leve melancolia lhe voltava aos olhos e a fazia se perguntar o que fazia ali todas as vezes que parava para recapitular a sua vida. Os jornais locais também ajudavam, acusando-a de "fugitiva" por não ter respondido pessoalmente ou diretamente à imprensa, ou por simplesmente ter se "refugiado" em um teatro pequeno ''aparentemente sem futuro'' com a peça que estreariam. A opinião da mídia, àquela altura, era o que menos lhe incomodava, mas era difícil de ignorar. Afinal, não sabia ainda o que seu futuro lhe reservava, só esperava que aquela sensação de algo faltando se extinguisse com o tempo.


Nota da autora: Ahhh! Como é bom escrever algo que não seja estritamente fiel ao anime! Adoro esses ''desenrolares'', mesmo que tenha se tratado de um momento delicado para os nossos loiros, né? Mas imaginem vocês no lugar deles: ela é obrigada a se afastar do que ela mais ama fazer na vida e ele é obrigado a se afastar de todo mundo por culpa dos erros que cometeu. Triste, hm? Mas só uma Fênix e um Dragão pra aguentar o tranco mesmo e no próximo capítulo terá, já aviso, romaaaaance! AUhauahauh XD mas não pensem que é entre eles dois não! Vai ser bem mais interessante que o reencontro (por enquanto xD).

Reviews, onegai! *-*/