Oi pessoal!
Como estão todos vocês? Eu estou EXAUSTA!
Minhas últimas semanas foram super corridas e loucas, mas maravilhosas! Ainda assim, consegui ir escrevendo esse capítulo aos poucos, publiquei na outra plataforma há alguns dias e agora ele está aí, prontinho e ENORME (me desculpem, de verdade). E não só, está bem polêmico também, quando vocês lerem, acho que entenderão... mas, pelo título da coisa vocês já devem ter percebido que finalmente agregaremos alguns personagens da série ao enredo e eu estava doida para que esse momento chegasse, porque se tem um personagem muito meu CRUSH nesse mangá/anime, além do Naraku, é o Bankotsu! *_*
Sem mais enrolação da minha parte (HIHIHIHI), vamos ao cápitulo - agora sim, a fanfic está 100% atualizada no FFNET!
Obrigada a todos que leem, comentam, favoritam e meu sincero agradecimento também a quem começou a acompanhar a fanfic recentemente, a amiga portuguesa CatarinaK! Desculpem qualquer errinho de formatação, ou uma besteira qualquer que deixei escapar.
Boa leitura!


Capítulo 34 - O Exército dos Sete

Ailyn não fazia ideia de como ela e Naraku chegaram ali. Em dado momento, o babuíno a levou ao verdadeiro meio-youkai em um ambiente escuro e enevoado. Ela não era sensitiva como a irmã, e ainda assim notou certa languidez nas expressões do vilão, no entanto não ousou abrir a boca para fazer um comentário.

Seu coração tremulava dentro do peito, conforme em silêncio seguia o sujeito por uma trilha fúnebre que parecia infindável. Caminharam até estarem diante de uma grande tumba de pedra – nada que a impressionasse, já que os assuntos da morte lhe eram corriqueiros. Então, Naraku abriu uma de suas mãos e nela se encontravam sete fragmentos da Joia de Quatro Almas.

— Pegue um. — o hanyou falou, autoritário.

Após respirar profundamente, a gêmea de Annabelle tomou um caco com cuidado e o guardou no decote.

— Agora, cave. — ele prosseguiu, seco, indicando o túmulo com o olhar.

"Ele não pode estar falando sério" — meneou a cabeça desacreditada, hesitou por instantes, até perceber que o olhar avermelhado continuava recaído sobre si. — Como quer que eu cave, se não tenho um instrumento para isso? — questionou, contendo o volume da voz para não parecer hostil.

Num repente, um dos braços dele se transmutou num objeto parecido com uma pá e Naraku o lançou para ela.

"Que merda!" — Ailyn praguejou em pensamentos e tomou o "acessório" desajeitadamente. Controlando a respiração e os ímpetos, a jovem começou a cavar – e cavava terrivelmente mal. Jogou terra escura displicentemente para os lados até, exaurida, fazer um buraco fundo o suficiente para encontrar ossos.

— Pegue-os. — Naraku ordenou.

— Quer que eu meta minhas mãos nesse defunto?! — empalideceu de nojo. A resposta do araneídeo foi o arquear ameaçador de uma sobrancelha — Eca! — não bastava estar suada e imunda de terra, teve de se abaixar diante da tumba profanada e catar cada pedaço daquele alguém que ela não conhecia, até ter os restos de uma caveira humana quase completa diante de si, sobre o solo úmido.

— Deposite no pescoço dele o fragmento. — orientou-a calmamente.

— No que sobrou do pescoço, você quis dizer... — escapou em um sussurro. O olhar incinerador de Naraku a fez se apressar e cumprir a ordem de uma vez. Ailyn tirou o pedacinho de gema de dentro da roupa e o depositou no lugar indicado. Lentamente, o esqueleto a sua frente começou a tomar corpo. Órgãos foram se formando, depois a carne em volta, por último a camada de pele o recobriu e o cabelo escuro cresceu farto, longo... era um homem. A Rosa Vermelha sorriu orgulhosa de si por ser responsável por aquele feito. O desconhecido abriu os olhos devagar e a primeira visão que teve ao retornar à vida foi da criatura coberta pela mortalha negra, depois do outro ser adiante, cujos olhos vermelhos cravavam-se em sua figura.

Ele se sentou, com uma mão ao redor do próprio pescoço, e parecia surpreso por conseguir respirar ou se mexer. Ailyn o observou olhar em volta com seus globos azulados arregalados e, por fim, os lábios daquele sujeito moreno abriram-se e ele se manifestou roucamente:

— Quem são vocês?

Naraku se aproximou, exibindo em sua mão os outros seis fragmentos.

Venha trabalhar para mim, se aceitar, terá o dom da vida eterna com esse fragmento. — ele fez a proposta em tom tão ameno que quase soou poético — Bankotsu.

Ailyn prendeu um riso na garganta. Vida eterna? Coitado do homem se acreditasse na barganha de Naraku, eis que ela se lembrou de ter caído na conversa do híbrido certa vez e de supetão sentiu-se ainda mais idiota do que o recém-chegado ao mundo dos vivos.

Bankotsu, ainda atordoado, tornou a olhá-la ligeiramente curioso e a escocesa revirou os olhos, impaciente.

— Pronto, já fiz a minha parte, será que posso ir agora? — ela voltou-se a Naraku e resmungou.

— A sua tarefa mal começou, Ailyn Rose... — o hanyou falou em tom jocoso — Você ajudará Bankotsu a ressuscitar os irmãos dele e os orientará, para que eliminem os meus inimigos. — assim, o meio-youkai despejou à frente do rapaz os fragmentos e desapareceu aos poucos, deixando claro que dali em diante o japonês e a europeia trabalhariam juntos, e ai de Ailyn se ela tentasse se fazer de esperta.

Bastou que Naraku tomasse chá de sumiço para a ira contida dentro da mocinha se libertar em gritos agudos. Ela meteu as mãos na terra e começou a jogar a poeira para cima, bem como esmurrar o chão fofo e pisoteá-lo. O capuz arriou de sua cabeça, revelando os cabelos alourados sujos de areia, a testa coberta por uma faixa de seda cheia de bordados, o rosto rubro de raiva e os olhos claros nervosos.

Ela parou a cena ao notar o homem, ainda sentado – e completamente nu – encarando-a com os olhos arregalados.

— O que é?! Está esperando o que para trazer aquele bando de defuntos de volta à vida?! — ainda histérica, virou o rosto para o outro lado, constrangida por seu destempero. Rangeu os dentes ao ouvi-lo gargalhar em resposta. — Não tem graça!

— Acho que você andou dando trabalho para o Naraku com esse seu jeito afetado. — enfim, ele se levantou.

— Conhece aquele embuste? — cruzou os braços, surpresa e ainda irritada ao extremo.

— Ah, sim, algum tempo antes de eu morrer, o encontrei num pântano e ele me contou sobre a Joia de Quatro Almas. Então ela voltou a esse mundo... — fitou os pedaços já reunidos em sua mão. —É, parece que teremos que desenterrar meus irmãos. — sorriu animado.

— Teremos uma ova! Desenterre você! — pegou a pá improvisada que Naraku "fez" e jogou para ele. Bankotsu, ainda aos risos, a agarrou em mãos e começou o ofício enquanto Ailyn se sentava e apoiava os braços sobre os próprios joelhos.

A escocesa dos cabelos amarelados observou o sujeito de porte atlético tirar as ossadas de suas moradas funestas e depositar os fragmentos no pescoço de cada um. O mesmo processo de recomposição ocorreu com os outros, e num piscar de olhos estavam ali, vivos, em primeiro momento desorientados e em segundo comemorando juntos, planejando os mais diversos saques a vilarejos e sonhando em divertirem-se com mulheres.

— Já acabaram? — ela se levantou e com sua pergunta malcriada chamou a atenção dos baderneiros. Seus olhos prendiam-se no maior deles, como se tentassem desvendar o que poderia ser aquele gigante.

— Irmãos, essa é... — ainda esbanjando alegria, Bankotsu apontou-a — Como é mesmo seu nome? — diante do esquecimento, ele riu e coçou a cabeça, descontraído.

— Lá vamos nós... — a moça rolou os olhos uma vez mais, visivelmente intolerante e antipática — Ailyn Rose.

— Não bastava ser mulher, ainda tinha que ter um nome esquisito desses! — Um rapaz alto e com feições afeminadas riu-se — Irmão, posso matá-la? — escorou o braço no ombro do sujeito mais baixo.

— Tente! — Ailyn o instigou com fogo nos olhos.

Jakotsu, por mim não teria o menor problema, ela é um pé no saco, mas infelizmente também trabalha para o nosso patrão...

— Ah, ele nem ia ficar sabendo. — cochichou.

— Vão para o inferno! — ela deu as costas e começou a se afastar, porém risos e burburinhos a fizeram parar e se virar aos homens outra vez, doida de vontade de ensinar uma lição a todos.

— Está indo para o lado errado. — Bankotsu, então, revelou.

Ailyn contou até dez em pensamentos para não ter outro ataque.

— Precisamos arranjar roupas, armas, bebida... — o primeiro ressuscitado comentou a coçar o queixo — Ei, youkai, se está aqui para servir a gente, arrume tudo!

— Primeiro, não sou youkai! — destemida e a passos pesados, aproximou-se dele e cutucou-lhe o peito com o indicador, — segundo, nanico, eu não sou a serviçal de vocês! — diante do adjetivo que ela usou para ele, os outros se mostraram surpresos e sussurraram coisas entre si. Bankotsu, um pouco menos sorridente, mirava-a sem piscar — Meu papel foi ajudá-los a voltarem ao mundo dos vivos, e agora devo orientá-los sobre quem são os inimigos de Naraku, mas não vou sair por aí arrumando roupinhas e vadias para um grupo de marmanjos!

— Uma coisa preciso admitir, você é corajosa. — o líder do exército piscou os olhos algumas vezes — … mas é mesmo um pé no saco! — e riu de um jeito tão gostoso que o susto dos outros passou e todos riram juntos, escarnecendo dela.

— E vocês são um bando de homens sem cultura, sem títulos, sem posses, que pensam com a cabeça de baixo com certeza, mas se tenho que cooperar com vocês sugiro irmos embora dessa pocilga o quanto antes porque eu não aguento mais sentir o cheiro da decomposição de vocês! — até que enfim, ela seguiu para o lado certo e o bando de indivíduos a seguiu sem dar a menor importância a seu gênio inflamado.


Perambularam pela mata fechada, a moça mal-humorada e os machos pelados tomando carona na plataforma ambulante do maior deles, até que encontraram o primeiro vilarejo e os mercenários endereçaram-se destemidos ao local. Ailyn absteve-se de segui-los para tomar um banho e depois esperá-los, sentada no topo da colina ao longe. Se algo de bom poderia ser tirado de toda aquela confusão, era a possibilidade de admirar o sol do início da tarde. Ela olhou para o céu, respirou fundo e atentou-se à tonalidade azulada com os detalhes esbranquiçados das nuvens e sorriu. Finalmente saíra da inércia em que vivia, dentro de uma... árvore? Que absurdo era aquele destino para ela.

Passos se aproximaram, era o sujeitinho desagradável que ela trouxera de volta à vida. Ainda despido e banhado em sangue, ele sorria enquanto largava uma sacola diante dela.

— O que é isso? — perguntou, sem dar muita importância aos fluidos que o banhavam.

— Um presentinho para você. — Bankotsu respondeu, os outros se chegavam aos poucos, todos traziam algo consigo.

Ailyn, confusa diante do gesto, pestanejou algumas vezes e abriu a sacola. Imediatamente seus olhos reviraram e ela bufou.

— Era para me assustar? — puxou a cabeça de um senhor feudal de dentro do recipiente, e segurando-a pelos cabelos, apontou-a ao homem que a fitava embasbacado e risonho Já vi piores. — e jogou aquele pedaço decepado colina abaixo. — Você é mesmo um morto-vivo desclassificado. — e toda a vez que ela enumerava um xingamento ou palavra que o desmerecesse, Bankotsu se divertia.

— Se me dão licença, o morto-vivo desclassificado aqui vai tomar um banho para poder vestir as roupas novas! — despreocupado, ele se foi a descer o barranco com outra sacola às costas.

Depois de alguns minutos, sentada ao longe dos outros homens que bebiam, riam e falavam besteiras, já isenta do olhar assassino de Jakotsu, Ailyn teve uma ideia e conteve um riso. Discreta, levantou-se e a passos curtos seguiu a mesma direção de Bankotsu. Ao ouvir o som da água corrente, sabia onde o rapaz estaria. Esgueirando-se entre árvores e arbustos, a ocidental o encontrou distraído a banhar-se no córrego, e não muito longe, estavam as novas roupas dele penduradas. Bankotsu estava de costas para o galho e não pareceu perceber quando uma névoa esverdeada surgiu ao redor do traje e o levou consigo para longe, escondendo-o na relva alta.

A irmã de Annabelle, atentada, aproximou-se um pouco mais, escondendo o corpo atrás de um tronco largo e descascado. Com o canto de um olho observou-o terminar de lavar a pele amorenada, sentar-se à beira do rio e trançar os longos cabelos calmamente. Finalmente, ela reparou no quão bem-talhado era aquele corpo, aquele rosto e aqueles olhos sapecas. Sem perceber, entreabriu os lábios e um suspiro escapou da goela. Ele sorriu, como se já esperasse por aquilo.

— Até quando vai ficar aí espiando? — Bankotsu perguntou quando terminou de fazer o penteado.

Ailyn saiu de trás da árvore sem nenhuma respostinha na ponta da língua. Com a mão apoiada à madeira e agora diante dele, persistiu a olhá-lo de cima a baixo, como se pudesse desafiá-lo dessa forma. O homem notou a audácia e abriu sorriso ainda mais largo. — O que é, hein? Nanico, morto-vivo, desclassificado e... o que mais você disse mesmo? — cruzou os braços.

— Nanico, aculturado, morto-vivo, desclassificado, sim... — desceu as rochas e parou em frente a ele. A voz soou ineditamente doce – ou quase — feio, no entanto, eu nunca disse que era. — os lábios pintados de vermelho sorriram discretamente.

— Ora, vejam só... — os olhos selvagens estreitaram-se, os braços de Bankotsu desataram e penderam rentes ao corpo, como se ele fizesse questão que a jovenzinha olhasse para ele. E ela fez mais: quando menos esperava, o líder dos saqueadores sentiu as pontas dos dedos feminis roçarem-lhe a barriga firme e subirem pelo seu peito. Imediatamente, o seu sexo ergueu-se vívido entre as pernas e a garota aproximou os rostos, roçou os lábios avermelhados à orelha dele, perguntando bem baixinho:

— Não está sentindo falta de nada importante? — ah, ela tinha plena consciência de sua boa aparência e capacidade de seduzir...

— De quê? — atordoado e com os olhos quase fechados, perguntou.

Ailyn cessou o teatro, se afastou e se acabou de rir. Dessa vez, ele não encontrou o sentido na graça. Depois de esfregar os dedos nos olhos, enxugando as lágrimas de riso, a escocesa continuou:

— Não tinha um negócio pendurado ali? — apontou o tronco de onde a roupa fora roubada.

— Tsc, tsc, tsc... — Bankotsu mirou o espaço vazio e depois a olhou novamente — se queria tanto me ver pelado era só dizer.

E ela continuou a rir, afastando-se aos poucos.

— Irmão! — a voz aguda ecoou até ficar próxima — Essas não são suas roupas? — Jakotsu esbarrou no monte de tecido embolado, escondido no mato e levantou-o, abanando. Depois, notou junto ao seu parente a outra subordinada de Naraku e fez uma careta de desaprovação.

— É, parece que eu as deixei cair na grama... — o líder escarneceu, fixado na imagem da garota que ainda ria de peito estufado, sentindo-se uma vencedora. — Bem, temos muita coisa para fazer, mas antes precisamos de um lugar para passar a noite e desenvolver um plano. — falou enquanto pegava as roupas com o mais alto e se vestia calmamente.

— Acho que dá para ficarmos naquele vilarejo que atacamos. Não destruímos todas as casas... — Jakotsu comentou e Bankotsu logo concordou. Ailyn, tossiu para desfazer-se do pigarro causado por tanto riso e os seguiu. O que mais poderia fazer?

Peregrinaram até o local, cadáveres encontravam-se esparramados pelo pátio, o sangue tingia o chão arenoso e as paredes das casas. A construção maior – possivelmente uma casa de chá – ainda estava em boas condições e possuía quartos suficientes para todos eles. Ailyn levantou a barra do vestido à altura das canelas e foi passando por cima dos corpos sem sequer olhá-los, Renkotsu, ao observá-la passar a frente destemida e indiferente murmurou no ouvido de seu superior:

— Que mulher estranha, não parece se importar com o massacre, sequer tem medo de nós.

— Ela diz que não é youkai, mas olhem só a aparência dela. — Suikotsu corroborou com o estranhamento — Me pergunto qual seria a cor do seu sangue... — os olhos brilharam curiosos e perversos.

Bankotsu piscou os olhos algumas vezes, pensativo. Olhava-a caminhar elegantemente, e agora subir os degraus de madeira da construção e adentrá-la, os longos cabelos dourados, enfeitados por algumas madeixas trançadas no topo da cabeça perdendo-se na escuridão, e a curiosidade palpitou dentro dele. O homem riu de leve, depois respondeu aos compadres:

— Não importa se ela é estranha, se é youkai ou não, ela trabalha para o Naraku, então não temos que nos meter com ela. Entenderam?

Os dois suspiraram, Jakotsu também. A maioria ali queria fazer qualquer traquinagem com a ocidental – essa era a verdade.

Sentaram-se no pequeno salão festivo enfeitado por corpos de gueixas e lá Ailyn começou a falar o que sabia sobre os inimigos de Naraku. Comentou sobre o meio-youkai Inuyasha e enumerou suas habilidades, depois descreveu Kagome, Miroku e Sango. Salvou poucas palavras para a pequena raposa, Shippou para se ater a narrar alguns detalhes sobre Kikyou. "a sacerdotisa morta-viva" - como se referiu. O desgosto ao falar sobre o antigo amor de Naraku foi evidente.

Os únicos de quem ela não tinha algo a dizer eram Sesshoumaru e Kouga, visto que não convivera ou ouvira falar muito sobre eles, mas não importava, o que contou foi suficiente para os delinquentes começarem a se arranjar e planejar alguns atos. Tendo em vista que ela não teria muito mais a contribuir, procurou um quarto para passar a noite. Assim que encontrou um à altura de suas exigências, desfez-se da capa escura, da espessa camada vermelha de roupa, do espartilho aveludado e esteve coberta apenas pela túnica negra – bem fina – semelhante a uma camisola. À vontade, deitou-se de lado, desfazendo-se daquele pequeno travesseiro rijo e relaxou sobre o leito, mesmo detestando aquele tipo de cama desconfortável. Como podiam as mulheres daquela terra dormirem todas duras, apenas para manter um penteado? Os fios dela, enfim soltos, esparramavam-se sobre o futon branco e escapavam, ondulando sobre o chão.

A porta foi um pouco aberta, tão vagaroso foi o movimento que nem barulho fez. Através da fresta, o olho pequenino a espreitou, cativo em seu ombro descoberto por conta de a manga ter descido.

— Renkotsu, — outro homem sussurrou em ares de repreensão — o que está fazendo aí? Não ouviu o que eu disse?

— Oh, eu... — titubeou, a língua enrolou e foi difícil se justificar sem embolar palavras, então o guerreiro sacudiu a cabeça e se afastou da entrada — desculpe! — apressou o andar pelo corredor até sumir na curva.

— Hum... — Bankotsu cruzou os braços e riu de leve. Estava na cara que seu companheiro estava interessado na mulher.

Ele resfolgou, quieto, e quando finalmente se viu solitário, arriscou-se a olhar pela abertura como Renkotsu antes fizera. Ela mudara de posição – o corpo virou pouca coisa para cima, uma perna dobrou-se de modo que a saia subiu à altura da virilha. — "Sem vergonha até para dormir" — o jovem ressuscitado ressaltou em pensamentos. De repente, os olhos azulados prenderam-se num brilho esverdeado sobre o ventre dela. A mão pousava sobre a barriga e no dedo mínimo havia um anel brilhante – precioso.

Intrigado, Bankotsu terminou de abrir a porta e adentrou o recinto iluminado por duas velas. Sem cerimônia, fez a volta ao redor de Ailyn, até sentar-se diante dela e aproximar uma mão do anel cujo brilho refletia nos olhos ambiciosos dele.

As esferas cerúleas abriram-se num segundo e a moça sentou em um só movimento. A única coisa que ela cobriu foi o anel, protegendo-o com a outra mão. As pernas jaziam escancaradas e descobertas, as mangas arriadas mostravam-lhe o colo e o desenho dos seios. O mercenário a fitou de cima a baixo, silente, e nem precisava que falasse algo para que ela o desvendasse.

— O que faz no meu quarto? — ela perguntou arredia. Os olhos dele subiram do decote à face dela e expandiram.

— Um fragmento da joia... você também estava morta?

Ela enrijeceu, dando-se conta de que não estava com a testa enfaixada.

— Não, estive sempre bem viva, diferente de você.

— Foi Naraku quem te deu? — inclinou-se para ficar mais perto e poder analisá-la com maior detalhe.

— Isso não é assunto seu. — rosnou, destemida — Saia daqui!

— E esse anel? — puxou a mão dela sem cuidado algum e se firmou na pedra verde limão — Parece valioso...

Ailyn estapeou o punho dele e o fez soltá-la. Depois, recolheu a mão ao seio e a protegeu novamente. Seu instinto fez com que pouca bruma verdoenga se formasse ao redor deles dois, e quando se deram por percebidos a temperatura do quarto caíra drasticamente.

— O que você é, se não é uma youkai? — arqueou uma das espessas sobrancelhas negras.

— Por que não me deixa dormir em paz? — a névoa, pouco a pouco, ficou mais densa.

— É uma bruxa? — persistiu, encarando-a com certo interesse.

— Sim, e das boas. Poderia amaldiçoá-lo aqui e agora, portanto... — o tom soou ameaçador, mas Bankotsu não demonstrou temor algum, até riu.

— Só estou te fazendo algumas perguntas, mulher! Se estamos trabalhando juntos, tenho que saber mais sobre você.

— Você já sabe o suficiente. — encarou-o de modo diferente, não era apenas raiva que compunha seus traços, havia uma sombra nos olhos dela que a fazia melancólica.

— Uma garota que não se importa em ver corpos à sua frente, que não tem vergonha de chegar perto de um homem nu... — pegou um maço de cachos áureos entre os dedos com uma força acidental — e com cabelos dessa cor?

— E daí? — dolorida, livrou-se do toque e penteou a mecha que ele puxara — Você também não se importa em ver cadáveres, tampouco tem vergonha de estar pelado diante de alguém. Eu tenho que me impressionar com essas mesmas coisas só por ser mulher?

Os olhos sanguinários arregalaram-se, piscando algumas vezes, em seguida o rapaz sorriu admirado e pousou o queixo sobre uma mão.

— O que está olhando? O que veio buscar aqui, a essa hora? — persistiu a encará-lo, sem nunca fugir daquele olhar desacanhado. O comparava a uma criança por sua curiosidade quase inocente. Como podia, um sujeito que matava outros sem critério, parecer tão menino?

— Bom... — Bankotsu alongou os braços e se levantou num impulso — temos muito a fazer daqui para frente e eu quero aproveitar ao máximo a minha nova chance de viver.

— Defunto doido! — reclamou, vislumbrando-o já em frente a porta.

— Até amanhã. — disse a dar uma piscadela, e se foi.

Ailyn jogou-se na cama e respirou fundo, os olhos cravados no teto. — "Que sujeitinho inconveniente!" — sentiu o rosto esquentar, tinha certeza de que era de raiva.


Annabelle lavava algumas roupas num rio próximo ao vilarejo onde estava hospedada. Sim, "hospedada" - assim preferiria considerar para manter a ideia de que seria uma condição passageira.

Concentrava-se em esfregar os tecidos entre os dedos e de vez em quando olhava a fauna ao redor, atendo-se às formas das árvores, dos arbustos, às cores das flores locais e aos cheiros. Às vezes ela fechava os olhos e suspirava, buscando sentir a paz que o lugar lhe oferecia ainda que alguns youkais a espreitassem pelos cantos da floresta. Para a sua sorte, eles eram fracos demais para ousarem chegar perto, ou a sua luz faria o papel de se mesclar à pureza da barreira e purificá-los de uma vez só. Eram, em suma, seres em forma de repteis, aracnídeos e insetos, nunca um humanoide – e ainda bem.

— Shinrinko! — a voz doce e infantil soou ao longe, a garotinha saltava sobre pedras, equilibrando-se.

— Yoru! — no mesmo instante, correu até a menina e a segurou nos braços, tirando-a daquele percurso acidentado — Já disse a você que é perigoso sair sozinha do vilarejo!

— Desde aquele dia, quando você encontrou o seu amigo, as coisas estão assim... — suspirou lamentosa. Os olhinhos cinzentos enxergavam por dentro das folhas os olhares maliciosos dos monstros mal-intencionados, e mesmo se ela não os pudesse ver, sentia o youki a queimar.

— Você contou sobre meu encontro a alguém? — perguntou aflita enquanto a colocava no chão cuidadosamente. Abaixada em frente a pequenina, Annabelle transpareceu o medo no olhar tremulante, e recebeu um sorriso afetuoso acompanhado de um meneio de cabeça como resposta. — Obrigada! — os ombros relaxaram por fim, e ela baixou o olhar para a grama, sentindo-se culpada. A sua decisão trouxera perigo para aquelas pessoas.

— Você brilha tanto, Shinrinko... — a menininha, admirada, pegou uma mecha alaranjada nas mãos e começou a trançá-la — A cada dia que passa, você brilha mais.

— Talvez eu devesse partir, não posso expor vocês a tamanho perigo... — fechou os olhos, cabisbaixa, os dedos das mãos trançaram-se sobre o ventre.

— Não diga isso! — Yoru choramingou e deu um abraço nela — Você protege a gente, eu sei!

Anna não falou mais nada, tudo o que fez foi retribuir o abraço daquela criança tão inocente. Yoru tinha razão, conforme o tempo passava a aura da estrangeira resplandecia cada vez mais intensa, bem como o lume do fragmento no seu peito. Cedo ou tarde alguém a encontraria. Aliás, havia sim uma pessoa que já sentira o fulgor de sua energia benigna, mesmo de longe...


Como haviam planejado, o Exército dos Sete se dispersou para que cada um deles abordasse algum dos inimigos do Naraku pelo caminho e os enfrentasse. Enquanto isso, Bankotsu focava-se em se preparar para reaver seu tão estimado "companheiro" de quem muitas vezes não parava de falar. Ailyn se perguntava quem seria essa pessoa tão importante para ele, e jurava que a matemática não batia já que os outros seis compadres já compunham o número sete. Então eram oito? Ah, de que importava? Desde que sentiu a energia cálida de sua irmã a emanar de longe, não conseguia pensar em outra coisa além disso, e um forte aperto se formava no abdome. Quando menos percebia, estava tão desprendida da realidade presente que ouvia os sons como se estivessem imensamente distantes.

— Ei... — o líder do grupo voltou-se à moçoila um pouco afastada, tão absorta que nem o ouviu de primeira — Ei! — falou mais alto, quase fazendo-a dar um pulinho.

— O que é? — irritadiça, mirou-o desaprovadora.

— Você está calada demais. — comentou de boca cheia, mastigando a carne de um animalzinho que caçou no meio da floresta e cozinhou além da conta nas chamas da fogueira.

— E que assunto eu tenho com um sujeito como você? — escarneceu, como sempre. Sentada do outro lado do fogo, passava os dedos perto das labaredas como se pudesse modulá-las.

— A sua companhia com certeza não é a minha preferida, mas já que temos que andar juntos você poderia tentar ser mais agradável, ou pelo menos fazer um jantar decente pra gente. — e deu outra mordida generosa na carne esturricada.

— E lá vem mais um dizer que eu tenho que saber cozinhar porque sou mulher! — bufou — Vocês são tão óbvios, me dão até sono... Quando seus irmãos voltam para irmos atrás do seu amiguinho, ou sei lá o quê?

— Não vão demorar, tenho certeza. — despreocupado, terminou de comer e limpou a boca no canto da mão, provocando uma reação enojada na mocinha. Ele riu, nem um pouco constrangido pela própria falta de bons costumes. Então, deitou-se sobre a grama, a cabeça apoiada sobre os braços.

Ela o olhou em silêncio, atendo-se aos traços bem desenhados do nariz e dos lábios curvados num sorriso satisfeito, depois notando o quanto aqueles trajes claros combinavam com o tom de pele dele e, sem perceber, persistiu a fitá-lo mesmo quando o mercenário já a percebera e devolvia o olhar.

— Você bem que podia me ajudar a tirar essa armadura para eu dormir com um pouco mais de conforto. — ele provocou, finalmente chamando a atenção dela.

— Em seus sonhos, nanico! — a ocidental riu levemente nervosa, jogou o cabelo para trás e focou os olhos em outra direção.

Bankotsu riu de leve, despiu-se da armadura por conta própria e fechou os olhos. Ao ouvi-lo respirar um pouco mais devagar e profundamente, Ailyn tornou a contemplá-lo. O rapaz dormia tranquilo, como se nunca passara por uma execução violenta, como se nunca morrera de fato. E quem o olhasse ali, vislumbrasse o seu viço, jamais diria que sua vida era sustentada por um fragmento da Joia...

Em outro momento, a mulher teria pensado em aproveitar o sono dele para arrancar a peça, mas naquela noite estrelada Ailyn só conseguia pensar na tal luz que ela sentia emanar e sabia de onde vinha. Precisava de um momento a sós para investigar sobre aquilo e, sem pensar muito, se levantou e caminhou por dentro da mata, endereçando-se a um pequeno lago no final de um barranco.

A Rosa Vermelha se enganou quando pensou que o líder dos guerreiros dormira tão rápido. Ainda que ele parecesse sereno, tinha os instintos de um sobrevivente e seu sono era leve como uma pluma. O som do vestido dela a arrastar-se pela grama o fez abrir os olhos e girar a cabeça para onde ela deveria estar. Quando não a viu lá, se sentou e pensou um pouco sobre o correr do dia ao lado dela. A garota estava diferente, deveras distante e a curiosidade dele acerca dela o encorajava a querer segui-la.

O rapazote não era qualquer um, ele era um sujeito que fora assassinado precocemente, aproveitou bastante o tempo em Terra – de fato – mas ainda assim, não experienciara tudo o que o mundo tinha a oferecer, sua vida foi interrompida no auge. Agora ele estava de volta, todavia. Ter a chance de viver novamente não tinha preço, e ele beberia dessa fonte até se embriagar. Não perderia tempo se abstendo de fazer aquilo que tinha vontade, fosse trucidar corpos de homens ou de youkais, tomar o nectar virginal de mulheres, ou de simplesmente alimentar a curiosidade de ir atrás de uma garota exótica e temperamental. Assim, o cabeça do grupo de mercenários seguiu o rastro de Ailyn por entre as árvores e a encontrou ajoelhada em frente a um lago, fazendo movimentos circulares na água com as pontas dos dedos. Os olhos dela estavam cerrados e a boca proferia palavras em um idioma que ele desconhecia. O anel esverdeado, sozinho, alumiava a moça e o que a rodeava.

Bankotsu pensou em chegar perto, mas temeu que a proximidade a fizesse cessar o que quer que estivesse fazendo.

Pouco a pouco, na água, uma imagem se formou como se fosse um espelho – uma mulher idêntica a Ailyn, diferente apenas na cor dos cabelos, adormecida sobre leito humilde em um casebre. E, da mesma maneira vagarosa, a tal efígie se desfez na água, e os astros da noite tornaram a ser o único reflexo juntamente às feições da mulher de cabelos doirados.

Ailyn lavou o rosto e cobriu os olhos com as mãos. Bankotsu, ainda escondido, viu os ombros dela moverem-se agoniados algumas vezes. Ouviu soluços baixos que não duraram muitos minutos. Logo, a escocesa molhou o rosto outra vez, esfregou os olhos e o único indício do choro era o tom avermelhado de seu nariz, os traços, porém, tornaram à acidez cotidiana e ela se levantou, batendo a areia do vestido que o homem sabia ser vermelho por conta da tênue iluminação dos vaga-lumes. A capa jazia atrás dela, sobre a terra. Quando ela se virou para pegá-la, notou-o ereto entre dois troncos finos de árvores. Em momento algum o sujeito teve o intuito de se esconder.

Dessa vez, Ailyn não o encheu de questionamentos ou o enxotou. Em verdade, ela desistiu de cobrir-se com a mortalha e sentou novamente. Bankotsu encarou aquilo como um convite silencioso para se juntar à estrangeira e simplesmente caminhou até ela, sentando-se em seguida, ficaram um de frente para o outro.

— O que você tem? — perguntou despojado.

Ela respirou devagar e mirou o lago novamente, não respondeu.

— Não é do seu feitio ficar chorando pelos cantos, mesmo te conhecendo há pouco tempo dá para saber disso. — o homem de média estatura vergou-se um pouco para frente, analisando-a.

— Eu não estava chorando. — mentiu deslavadamente, provocando um riso breve nele — Me diga uma coisa... — já que ele estava ali, por que não saciar a própria curiosidade? — como é estar morto?

— Bom, sinceramente? — esperou-a balançar a cabeça em positivo para prosseguir: — Não há nada do outro lado, é como ser engolido por uma escuridão e um silêncio sem fim. — Bankotsu recostou-se na grama, à vontade. Ailyn olhou-o atentamente, pasmada com a espontaneidade e a despreocupação dele.

— Como vocês morreram? — a pergunta surgiu num murmúrio.

Bankotsu, que já estava com os olhos fechados, abriu apenas um em primeiro momento, encarando-a, depois outro. Sentou-se novamente, ligeiramente sisudo. A ocidental insistiu em retribuir a profundidade do olhar, ansiando pela resposta. Então, ele contou sobre como ele e o seu bando viveram no passado, sobre as chacinas causadas por suas mãos e sobre como os senhores de terras das redondezas se voltaram contra eles, os encurralaram e os executaram friamente.

— Não importa em que canto do mundo estejamos, as pessoas sempre hão de temer os que são mais fortes, ou os diferentes do comum. — Ailyn suspirou e mirou a lua acima dos dois.

— Pelo visto, você também tem história para contar. Já que contei a minha, nada mais justo do que você contar a sua.

— Justo, sim. — revirou os olhos e cruzou os braços — Mas meu conto é longo, você pode ficar entediado.

— Duvido que qualquer coisa sobre você me cause tédio, mulher. — disse aos risos, e sem perceber a desconcertou.

— Nesse caso... — inspirou e expirou de uma vez — tudo bem, vamos lá. — e respirou fundo de novo, e de novo.

— Anda logo! — mandou, impaciente.

— Está bem! — respondeu de modo malcriado, depois pigarreou e começou: — Sou de um país distante e completamente diferente do seu. Meu pai casou-se com uma mulher bem mais jovem do que ele e tiveram duas filhas, gêmeas. Acontece que minha mãe tinha um dom especial, repassado de geração em geração, sempre para a criança primogênita, e como minha irmã foi a primeira a ver a luz do mundo, a dádiva foi para ela e eu nasci comum...

— Comum? — ele a interpelou de olhos arregalados.

— Minha mãe curava os enfermos, fazia terras áridas tornarem-se férteis e graças a isso, nosso povo prosperava. Só que um talento desses não ficaria desconhecido por muito tempo e logo homens poderosos ouviram os boatos sobre ela. Quando vieram averiguar os milagres operados por minha mãe, temeram seu poder e a consideraram uma bruxa perigosa. No fim das contas, sentenciaram-na à morte e as pessoas que um dia a admiraram por seus feitos acompanharam a procissão até o lago, jogando-lhe verduras e ovos podres, gritando os mais diversos impropérios aos risos, até que o carrasco amarrou os braços e as pernas de minha mãe, encheu os bolsos do vestido de pedras e a atirou na água. De longe, tivemos que assistir o desespero dela ao tentar se livrar das cordas e das pedras e falhar miseravelmente. Quando, finalmente, o corpo cessou os movimentos, todos se afastaram aos poucos e meu pai quis recolhê-la, todavia foi impedido. Era para ficar de exemplo por uns dias, eles disseram. — riu, amarga, fitando a água. Bankotsu não tirava os olhos sob a moça endurecida — Depois dessa tragédia, nos isolamos numa cabana distante da vila. Afinal, nos rotularam como amaldiçoados, tinham medo de passar perto de um de nós. E foi a melhor decisão que meu pai fez, se afastar de todos, pois algum tempo depois o dom finalmente se manifestou em minha irmã e éramos apenas criancinhas... Annabelle ressuscitou um passarinho que encontramos enquanto brincávamos no bosque. Ela simplesmente o abraçou, se balançou algumas vezes e o bichinho alçou voo... acho que foi uma das coisas mais lindas que já vi. — suspirou, meio sorriso formado à face, e um brilho diferenciado nos globos celestes — Meu pai fez negócios com um sujeito qualquer e passou de camponês a comerciante. Foi assim que conseguimos sair do interior para as cidades e durante algum tempo vivemos como nômades, mas não achei ruim. Finalmente fomos para lugares onde não éramos conhecidos por ninguém e assim não sofríamos preconceito. Annabelle precisou manter seus poderes escondidos, porém, para que pudéssemos viver uma vida normal, ninguém entenderia ou aceitaria, pensamos... até conhecermos Amelie em Paris. — o sorriso se alargou admirado. — Amelie era uma cigana que vivia de ler a sorte dos outros nas linhas da mão. A conhecemos em uma praça em frente a imensa Catedral de Notre Dame...

— Catedral de que? — Bankotsu estranhou as nomenclaturas.

— Existem certas construções magníficas ao redor do mundo, pena que foram feitas para a adoração de um Deus repressor, e por causa desse Deus gente como eu sofre tanto. — eriçou-se de rancor — O lado bom de ter vindo para cá, é que nessas terras os adoradores desse Deus ainda não dominaram o pensamento do povo.

— Que Deus é esse?

— O Deus cristão. — a voz aveludou quase num rosnado. — Enfim, voltando ao assunto, Amelie e meu pai se apaixonaram e ela começou a frequentar a nossa casa. Minha irmã nunca gostou da presença dela, acho que tinha ciúmes porque até então a atenção de nosso pai era quase restrita a ela, e de repente se viu obrigada a dividir todo os carinhos e mimos com outra mulher.

— E você? — ele perguntou.

— Eu sempre gostei de Amelie, ela foi mais mãe para mim do que a minha própria.

— Não, quis dizer, e você não recebia todo esse mimo do seu pai?

— Ah... — meneou a cabeça e riu, não de alegria, mas de ironia — meu pai... eu o amava muito, fazia de tudo para conseguir um pouco de sua atenção, só que ele acabava se dedicando mais à Annabelle por se afligir com o perigo que ela corria se descobrissem sobre seus poderes. Como eu era apenas uma menina normal, ele não tinha muito com o que se preocupar, até porque eu sempre me virei. Enquanto Annabelle tinha os dotes de costurar, cantar, cozinhar e fazer os serviços que cumpriam às mulheres – e meu pai se esforçou para que ela aprendesse, para que parecesse o mais comum possível, eu desenvolvi a minha esperteza e o meu instinto de sobrevivência. Nunca fui ingênua ou sonhadora, sempre me preocupei em descobrir o que poderia tirar de proveitoso das situações...

— Então você morria de ciúmes da sua irmã. — ele desvendou sem muito esforço.

— Qualquer criança em meu lugar ficaria enciumada, mas acima de tudo eu admirava minha irmã e queria ser como ela. E, quando meu pai e Amelie se casaram, eu ganhei algum destaque só para mim. Amelie viu em mim algo que nunca minha família notara, potencial. Com ela, aprendi que se não nascemos com o poder, podemos adquiri-lo e que isso também merece mérito. Ela também nascera comum, mas na flor da idade decidiu entrar para uma ordem de bruxas e assim obteve o dom da visão. Podia prever acontecimentos na vida de outros e também lançar feitiços. Ela era forte, talvez mais poderosa do que minha mãe e sequer tinha nascido com aquilo. Eu sabia que teria condições de entrar para aquela ordem também, bastava adquirir idade. Eu não renegaria meus poderes como Annabelle fazia. Nunca quis ser comum, nunca senti ter nascido para o ser.

— Ah, você é tudo, menos comum! — Ele deixou escapar. O comentário a fez sorrir sem perceber.

— Por alguns anos, fomos felizes, meu pai ganhou muito dinheiro como comerciante e chegamos a viver em um palacete no reino da Espanha, só que as coisas, quando começam a dar muito certo, não demoram a desmoronar. Não é mesmo?

— Olha, quem sou eu para dizer o contrário? — diante da própria biografia, ele assentiu.

— Meu pai foi tomado por uma doença rara e sucumbiria rápido. Nenhum médico pôde ajudá-lo com qualquer elixir, tinham pouquíssimo conhecimento sobre aquele mal. Amelie, convicta, tentou de todas as formas convencer minha irmã a utilizar seu poder em prol de nosso pai... — e ela rosnou — Mas aquela idiota continuava insistindo que não poderia, pois disse ter prometido a ele não fazê-lo, e ele, mesmo morrendo por conta daquela doença nos dizia que não queria que Annabelle se arriscasse. Agora, eu te pergunto, se fosse o seu pai, e você tivesse o dom da cura, abdicaria de ajudá-lo por temer o que aconteceria se outros descobrissem?! — o tom soou quase gritado, tamanho era seu furor. Antes que Bankotsu respondesse, ela retomou: — Annabelle não fez nada além de amassar ervinhas, fazer caldinhos e dar para ele tomar. Isso sustentou a vida dele por mais um tempo, mas não foi suficiente e ele morreu. Então, contei a Amelie sobre o episódio do pássaro e ela, desesperada, implorou para que minha irmã fizesse algo, ela era nossa última esperança! — àquele ponto, Ailyn já ofegava diante à indignação e internamente se questionava se fora uma boa ideia reviver tudo aquilo — Aquela imbecil insistia que nossa madrasta havia envenenado nosso pai de propósito para forçá-la àquela situação, mas eu duvido! Vi o sofrimento de Amelie, o luto escorria pelos olhos dela! Annabelle se negou a trazer nosso pai de volta à vida, e em meio aquele desespero e dor da perda, Amelie disse que o reviveria a qualquer custo, por isso se esgueirou pelos becos da cidade em busca de ingredientes proibidos e teve o azar de ser seguida por representantes da Santa Inquisição. Não muito depois, os homens da igreja brotaram em nossa casa para buscá-la e como ela previra que isso aconteceria, me deu seu anel e me contou algo importante... — fechou os olhos devagar.


Ailyn, escute-me, minha criança! — a mulher segurava sua mão com firmeza, o anel se escondia naquele toque, batidas à porta faziam-na se desesperar ainda mais — Há uma forma de você conseguir os poderes de sua irmã, mas preste atenção, é um caminho sem volta!

Me diga, por favor! Ela não os merece! — a menina chorava de tristeza e raiva.

Não há tempo para palavras, pegue o livro com a capa negra de couro, está escondido dentro do colchão da cama de seu pai! Lá, você encontrará tudo o que precisa saber sobre a minha Ordem, e sobre o que você precisa fazer!

A porta foi arrombada, e os homens fardados em vestes pretas e púrpuras com enormes crucifixos bordados na frente pegaram Amelie pelos braços, arrastando-a para fora da nobre morada. O anel jazia guardado entre os dedos de Ailyn.


— Eu peguei o livro e fugi da casa junto de minha irmã. Àquele ponto eu já não conseguia sequer olhá-la nos olhos sem pensar em matá-la. Nos escondemos na floresta, e como vivemos em uma cabana dentro de um bosque por alguns anos, sabíamos nos virar. Encontramos uma árvore grande e com o tronco oco, fizemos um buraco e nos escondemos ali, eu li cada linha daquele livro, aprendi cada feitiço e como eu deveria fazer para firmar o pacto para adquirir os poderes de uma bruxa da Ordem das Trevas. Ofereci minha alma em troca de um dom, e o anel se tornou meu — mostrou-o e ele brilhou novamente aos olhos de Bankotsu — Diferentemente de Amelie, que era como uma profetisa, eu herdei os poderes do submundo, consigo manipular almas angustiadas e também posso me locomover através de portais, sem ter que andar por horas a fio, simplesmente me materializo onde desejo. Além do mais, aprendi a lançar feitiços também, e alguns truques bobos, como, por exemplo, me comunicar com qualquer pessoa, sem importar em qual idioma, por isso nos entendemos tão bem. Annabelle, certamente, teve que estudar como uma condenada... — ela riu brevemente. Para o seu ouvinte, seus talentos pareciam muito relevantes, ao menos era isso o que dava a entender a expressão embasbaca na face dele — E, bem, no livro eu também descobri o que Amelie quis dizer quando me contou que eu poderia obter os poderes de minha irmã. Havia um feitiço que deveria ser feito na noite de Lua de Sangue, em uma noite assim eu poderia comer seu coração e absorver as suas forças.

Ele esboçou uma careta de desagrado e depois riu.

— Um mês se passou e todas as noites eu olhei para o céu, esperando que a lua se avermelhasse. Fingi a mesma amizade que tínhamos na infância e Annabelle acreditou, porque sempre foi ingênua. Aquilo me rasgava por dentro e eu me odiava por ter de me fazer de sonsa, mas era preciso. Um dia, eu resolvi vestir uma capa e ir à cidade para saber o que tinha sucedido à Amelie, então ouvi os rumores sobre a execução dela e se ainda havia um traço de afeto por minha irmã dentro de mim, ele se foi completamente... Amelie foi queimada em uma fogueira, também por culpa de Annabelle! Digo que foi culpa dela porque, se ela tivesse se empenhado e salvado nosso pai, Amelie nunca teria ido atrás dos ingredientes e, portanto, não teria sido descoberta. Ficamos completamente órfãs e sozinhas no mundo por causa da covardia dela. Se eu tivesse as mesmas habilidades, jamais aquilo teria acontecido. E, foi assim, que eu me convenci de que aqueles poderes deveriam pertencer a mim, pois de nada adiantava estarem nas mãos de uma pessoa fraca de espírito. Eu teria muito mais a oferecer ao mundo do que Annabelle. Retornei à floresta decidida, mas quando olhei dentro do largo tronco, tudo o que encontrei foi o meu livro revirado. Ela lera tudo e já sabia das minhas intenções. A coitadinha tentou fugir, mas sabia que por sermos gêmeas tínhamos um elo forte, e como eu adquirira poderes tinha meios de encontrá-la sem esforço. Ironicamente, a minha perseguição a obrigou a usar seus poderes para criar uma espécie de capa ao seu redor que a tornasse invisível para mim. — de repente, ela gargalhou, riu tanto que se curvou e ficou sem ar, uma de suas mãos esmurrou a terra — Sabe como foi para aquela idiota desfazer a capa e eu conseguir encontrá-la outra vez?

— … Como? — prendendo o riso diante da situação inusitada, Bankotsu perguntou.

— A retardada veio parar aqui, nesse fim de mundo, se escondendo de mim. Se apaixonou por um fulano qualquer, daí veio Naraku, matou o pobre-diabo, roubou sua aparência e ela, no auge de sua dor de cotovelo, desfez o feitiço que a mantinha protegida porque sabia que com minha ajuda poderia conjurar uma arma capaz de ceifar a vida daquele meio-youkai. No fim das contas, ela falhou ao tentar matar Naraku e já não pode se esconder de mim.

— Espera aí! — estava confuso diante de tanta informação, não entendia como uma subordinada poderia se referir ao patrão de modo tão desrespeitoso, e também não entendia muito bem a sucessão de eventos que ela vomitou sem muita preocupação em explicar direito.

— Aquela idiota deixou de usar os poderes para salvar nosso pai, mas sequer pensou duas vezes antes de oferecer a própria vida a mim, por causa de uma paixão besta! Entende? Não a perdoo por isso!

— Então por que não mata ela de uma vez? Você já sabe onde ela está. — para ele a situação era muito simples.

— Porque aquela vadia poupou a minha vida quando teve a chance de me matar! — finalmente, a tristeza que a assombrava antes retornara impetuosa.

— Então, era por causa disso que você estava chorando...

— Naraku quis se livrar de mim, e tentou usá-la para isso, mas Annabelle não se deixou levar e me poupou, mesmo sabendo da minha intenção de matá-la... Ela me ajudou a fugir!

— Oi? Você tá me dizendo que o Naraku quis te matar? Mas você não trabalha para ele?

Ailyn olhou em volta, desconfiada. Depois, arrastou-se para perto dele, apoiou uma mão em seu ombro e cochichou ao pé do ouvido:

— Cuidado com Naraku, ele não é alguém para se confiar... — dito isso, a Rosa Vermelha tornou a sentar onde estava e fez-se de desentendida.

Os orbes escuros com uma ligeira tonalidade azulada pestanejaram atônitos pelo número de informações e pelo conselho recente, dito à surdina, como se a moça desconfiasse que alguém os escutasse. Por instantes, ele a contemplou a fundo e não a viu titubear. Quase se perguntou sobre a integridade de Naraku, no entanto, não interessava a ele as intenções por trás do "contrato". Não sabia também que tipo de motivos a ocidental dera ao mestre para que tivesse a cabeça a prêmio e que se danasse, ele estava vivo, enfim! Nada valia mais do que isso. Bankotsu sorriu despreocupado.

— Eu não estou nem aí pra isso. — enfim respondeu e se levantou — O importante é que estou vivo e livre para fazer o que eu quiser. — Alongou os braços e as pernas, antes de se afastar a olhou de novo — Se não vai mais matar a sua irmã, deveria tentar aproveitar um pouco a vida também. Você é jovem, poderosa e bonita, pode conseguir o que quiser. Para de perder tempo! — mirava-a sobre o ombro, o olho sorria por si só.

— Oh... — e ela riu também, surpresa pelo elogio inesperado — Pensarei sobre isso.

— Vai ficar aí? — encaminhou-se à trilha que o levaria até o acampamento improvisado.

— Não, vou com você. — também se levantou e andou ao lado dele. A partir dali, não falaram mais nada, às vezes olhavam-se discretamente e continham risos. Inesperadamente, abriram-se um para o outro numa conversa inusitada e pegavam-se a pensar sobre isso.

Bankotsu ajeitou-se para dormir, Ailyn ainda demorou um pouco para se asserenar. Sentada diante da fogueira, viu-o descansar através das brasas e quando deu por si, não conseguia parar de mirá-lo uma vez mais. Tão tranquilo, a respiração pesava enquanto o peito subia e descia devagar por baixo do peitoral da armadura. Até durante o sono, ele parecia sorrir.

"Tenho certeza de que, quando eu morrer, irei para um lugar bem mais soturno, Bankotsu..." — ela refletiu, enfim a contemplar o brilho esverdeado da gema em seu anel — "mas não me arrependo da minha escolha" — e fitou o céu escuro da noite, os olhos firmes e melancólicos, mas sempre duros como ela toda aprendera a ser. Sem razão aparente, uma lembrança mais recente surgiu em seus pensamentos, apreendendo-a tão sutilmente que nem um de seus traços estremeceu:

Por que me mostrou o seu passado e o de sua irmã? — a sacerdotisa Kikyou perguntou sem disfarçar o estranhamento.

Eu não sei, — ela riu, fingindo-se indiferente — talvez quisesse dividir isso com mais alguém. Nunca comentei sobre minha vida com Annabelle antes, sinta-se privilegiada.

Você sente culpa? — serena, a vida passada de Kagome perguntou, ainda com os olhos vidrados no líquido a remexer-se dentro do caldeirão.

Culpa? De quê? — arregalou os olhos, surpreendida.

Duvido que você tenha me mostrado tudo isso apenas para dividir o passado comigo. Você sabe que tentei assassinar a sua irmã, assim como você mesma tentou, e ainda assim quis passar todas essas cenas nesse espelho para que eu testemunhasse as alegrias e tristezas que as duas viveram. Sente-se culpada por ter desejado a morte de sua irmã? — insistiu, agora olhando nos orbes azuis que tremeluziam confusão.

Eu não tenho arrependimentos! — enfatizou irritadiça.

Pode mentir para si mesma, mas não para mim. Sei que me mostrou essas coisas porque não quer ver a sua irmã morta pelas minhas mãos.

Mas é claro, porque a vida dela me pertence! Só eu posso tirá-la!


"Só que eu não sei se ainda quero isso, Annabelle..." — Ailyn suspirou, ainda a mirar os astros pincelados no firmamento enquanto a respiração de Bankotsu chiava e ele dormia tranquilo. "Mesmo que a absorção do seu poder seja a única salvação da minha alma"— Ela selou os longos cílios alourados, deitou-se de lado e pousou a cabeça sobre as mãos. — "A sua sorte é eu ter encontrado a Joia de Quatro Almas. Se eu viver para sempre, não terei que ir para o inferno."

Continua...


Então gente, curtiram essa pequena bíblia narrando a mais nova aventura de Ailyn e um pouco do seu ponto de vista sobre o passado? Esperei muito para contar o lado dela da história, e estou ansiosa para saber o que vocês acharam!

Eu disse que esse capítulo seria polêmico, e eu o considero assim por causa da forma como a minha personagem se expressa acerca do Cristianismo e de Deus. Como eu não tenho religião, não me ofendo com nenhum comentário sobre elas, mas gostaria de dizer que respeito muito os cristãos e os não-cristãos, e que essa obra é apenas uma ficção. No tempo em que minhas personagens viveram, no entanto, infelizmente houve sim uma certa perseguição da Igreja Católica à pessoas que seguiam crenças diferentes (principalmente na Espanha). Então, peço que observem o contexto e a fantasia, é só fanfic. Ok? Amo e respeito vocês! ^^
Ailyn que é rebarbada, eu só fui quando mais nova! hehehehehe...

Dito isso, espero que tenham gostado e tenham se divertido com o destempero da personagem, eu bem disse que ela teria algum destaque, né não? E sobre o Exército dos Sete, busco colocar bastante da minha criatividade na história deles, porque senti no anime e no mangá que essa parte foi bem superficial. Gostaram, gente? Sério, tô muito ansiosa!
Kissuuuuuuuuuuus!