Capítulo XXXIV

~Sakura, Meiling e a mulher de fé~

Depois de uma cirurgia, Sakura descobre a misteriosa ação da esperança na alma de uma mulher…

Sakura não cursava as matérias teóricas na faculdade. Isso e o TCC ficariam para o ano que vem. Mas sua residência andava a todo vapor. Foi a opção que seu orientador lhe deu. Ou fazia as matérias teóricas ou práticas. Era com isso que ocupava seu tempo quando não estava na polícia, pois não gostava muito de teorias. Se dependesse de sua residência, as aulas teóricas do ano que vem seriam mamão com açúcar. Aquela menina que desmaiou na sua frente no parque se tornou parte da sua lição de casa.

A ambulância chegou rápido no parque e levou os dois (Kero na bolsa de Hikaru) para o hospital local de Osaka. O senhor Shuichiro, sempre prestativo, atendeu a paciente e, consultando seu prontuário, deu o diagnóstico, ao lado de Sakura e da mãe da menina, chamada às pressas:

– Leucemia.

A mãe da criança não fez cara de abatimento e para a surpresa de Sakura, viu ela dizer, com toda a segurança e por pura "inevitabilidade", o seu mantra invencível:

– Vai dar tudo certo.

A menina foi posta em uma fila de espera para um transplante de medula óssea. Não era fácil transplantes no Japão e Sakura sabia disso. As pessoas tinham receio de doar seus órgãos, pois acreditavam que para serem "iluminadas", deveriam morrer com todos eles, sem faltar um sequer.

Sakura não visitava a área de oncologia infantil desde a morte de Hokuto. Sakura era mãe e não queria o mesmo para seu filho. Depois da internação, visitou-a por alguns dias e encontrou-se com a mãe da criança um certo dia, observando pela janela da porta, as duas rezando com um japamala estranho que desconhecia. Achou tocante a cena das duas, os olhos fechados, contando as contas daquele objeto.

Sakura viu junto com elas a imagem de uma deusa estranha de traços ocidentais com os dois braços estendidos, como se estivesse esperando algo, doando algo. Lembrou muito a imagem de Guan Yin que Syaoran tinha no apartamento e rezava sempre para ela. Não partilhava da fé do marido, mas simpatizava com o significado daquela imagem e da nova deusa que via diante de si.

A mãe da menina percebeu a presença de Sakura no fim das orações e convidou-a para entrar no quarto. Sakura aceitou o convite e conheceu um pouco mais sobre aquela mulher e aquela criança.

– Oi doutora. Sou Jussara Sakamoto. Essa é minha filha, Janaína. Dá um olá pra doutora, Jana. – Janaína pode finalmente cumprimentar a doutora que a resgatou. Mas as dúvidas de Sakura estavam presentes naquela imagem, naquela oração estranha e naquela fé. Jussara percebeu.

– Essa é Maria, mãe do nosso senhor. Somos brasileiras, doutora. Estamos aqui faz pouco tempo…

– E trouxeram de lá essa fé pra cá, é? Muito bonita as suas palavras, Jussara.

– Se eu não tivesse fé, doutora, eu já teria largado os pontos e estaria no meu país nesse momento… – Sakura e Jussara sorriam. Sakura desconhecia essa fé, mas não importava, era bom saber que a esperança era universal. Mas no meio da conversa dela, Janaína teve uma recaída e Sakura iniciou os procedimentos anestésicos. A menina foi levada para a UTI, mas a mãe não se abalou, olhou serenamente para ela como se tudo, de alguma forma, desse certo.

Sakura contou a história para Meiling e Kero na manhã seguinte. Kero sentiu a mesma admiração que Sakura sentia com a fé da mulher.

– Sakura, aquele japamala que a mulher estava usando era um terço, um rosário como os católicos, não todos os cristãos, usam pra rezar. Ela com certeza era devota de Maria; eles acham que é a mãe do deus deles…

– Mãe de Deus é?

– Esses pregadores cristãos existem em Hong Kong desde que aqueles portugas passaram por lá e espalharam suas igrejas… – Disse Kero

– Eu não quero entrar em detalhes de história agora, mas eu me surpreendi com a esperança daquela mulher…

– Sakura, você acredita que gestos como os que ela fez são muito importantes na magia? Sabe por que? – Perguntou Kero, desafiando a mestra.

– Hoe?

– Sim, Sakura, é magia antiga o que ela estava fazendo.

– Magia antiga, é?

– Explica pra ela, encrenqueira…

– Sakura, se ela só rezar, ela tá pedindo ajuda pra um deus pra realizar seus pedidos. Isso é uma forma de magia e funciona muito bem… – Explicou Meiling.

– Mas como ela funciona?

– Vou fazer o seguinte, Sakura. Vou te levar numa igreja. Lá você vai poder ver como a coisa toda funciona.

Sakura trocou de roupa e foi com Meiling até uma igreja, com Kero na mochila, como sempre.

Sakura, Meiling e Kero foram a grande catedral da virgem Maria de Osaka e observavam atentamente as etapas daquela missa. Os cânticos iniciais, as leituras das profecias e dos evangelhos, a homilia, a eucaristia e as saudações finais. Era a primeira vez que entrava em uma igreja e ficou boquiaberta com o que vira.

– Observe bem, Sakura, olhe pra hóstia, pros cantos. Tem espíritos flutuando ao redor. São eles que levam as preces dos fiéis pro deus. – Explicou Meiling.

Concentrando-se e usando sua mediunidade, Sakura constatou os apontamentos de Meiling.

– Como esses espíritos realizam esses desejos pros fiéis? – Perguntou Sakura.

– Usando o perispírito. Só por eles rezarem e participarem desse ritual, eles já tem o suficiente pra cumprir a missão deles. – Disse Meiling.

– A encrenqueira conhece de magia… – Kero debochava de Meiling e a chinesa fazia o mesmo com o boneco feioso na sua bolsa.

No meio daquela discussão, Sakura encontrava-se com Jussara. As duas se cumprimentaram no fim da missa.

– Eu tenho fé na melhora dela, pedi pra virgem sem cessar, Doutora.

– Eu sei que vai dar tudo certo, Jussara.

No hospital, Sakura observava sorridente, da janela do quarto, Janaína e Jussara felizes, sem saber o motivo disso tudo. Para compartilhar essa felicidade toda, ela convidou a cardcaptor para visitá-la. Jussara contou animada para Sakura a novidade:

– Conseguimos, Doutora, mesmo com uma fila de espera enorme, a gente achou uma doadora compatível com a Janaína!