"Samantha, quanto de fermento você colocou nesses bolinhos?"

Nunca a pequena cozinha do apartamento de Samantha esteve tão cheia. Ela, Genevieve, Dominique, Erik e Edmond estavam envolvidos na preparação do almoço de Natal. Na verdade, apenas Genevieve estava fazendo algo produtivo enquanto os outros estavam se encarando com olhares perdidos a espera de novas ordens.

Edmond segurou o riso quando viu Genevieve tirar do forno varias forminhas de algo que deveriam ser cupcakes, mas haviam crescido muito mais do que deveriam e agora pareciam batatas mutantes. Ele cutucou Samantha nas costas para receber uma cotovelada em resposta.

"Ahn... eu coloquei o que estava na receita." Respondeu Samantha sentindo o rosto esquentar. "Duas colheres, certo?"

"Duas colheres de chá" Completou Genevieve olhando para a receita. "Algo me diz que você usou uma colher de sopa para medir." Disse ela erguendo uma colher que Samantha deixou ao lado do pote de fermento.

"É possível..." Murmurou Samantha. "Desculpe-me, madame. Eu estraguei tudo?"

Genevieve apenas deu de ombros colocando a forma encima da pia.

"Iremos descobrir mais tarde, querida. Não fique tão preocupada, eu mesma já cometi esse erro na primeira vez. Por sorte eles não explodiram."

Samantha sorriu timidamente em resposta. Genevieve estava extremamente simpática hoje e ela sabia que isso se devia ao fato desse ser o primeiro Natal dela ao lado de Erik. A atmosfera na casa era de muita felicidade.

Erik sabia que havia algo errado com Samantha quando ela voltou para casa naquela manhã. Ao questioná-la, Samantha não tentou esconder nada e contou tudo sobre o estranho encontro com o Guardião.

"Pelo visto tudo acabou agora." Disse Erik gentilmente para acalmar Samantha.

"Eu imagino que sim. Ao menos eu espero." Respondeu ela.

Logo depois, Samantha entregou a mascara que ela havia conseguido para Erik. Foi com um pouco de dor no coração que ela recebeu seu suspiro de alivio e seu rápido agradecimento antes de ele vestir a máscara. Foi então que uma leve memória que ela sabia que não era sua veio a sua mente.

"Minha mãe me deu de presente minha primeira máscara..."

Ela se sentiu um pouco enjoada. Mesmo que tenha sido um pedido direto de Erik, ela se sentia muito mal por ter feito isso. Era como se ela não fosse nem um pouco diferente de todos os outros que passaram pela vida dele.

"Você está bem, Samantha?" Perguntou Erik por trás de sua máscara branca, Samantha podia ver seus olhos brilharem levemente.

Ela apenas acenou positivamente sem confiar em sua voz. Foi então que ela abriu sua bolsa novamente e tirou um pequeno pacote.

"Feliz Natal, Erik." Disse ela entregando o presente.

"Samantha, mas eu não tenho nada para você. Eu não deveria aceitar." Disse Erik.

Samantha apenas deu de ombros.

"Você me deu mais presentes do que poderia imaginar. Abra, por favor."

Timidamente, Erik abriu o pacote que revelou um belo relógio de pulso.

"Esse relógio era do meu pai, você tinha alguns relógios de bolso tão bonitos. Imaginei que você iria gostar deste." Disse Samantha insegura com a reação dele.

"Samantha, eu estou sem palavras para agradecer." Respondeu Erik atônito. "Mas ainda me parece injusto você me presentear assim. Eu devo lhe dar algo também."

"Cante para mim." Pediu Samantha. "Faz tanto tempo que eu não ouço você cantar."

Erik a encarou em silêncio por alguns momentos antes de concordar com um leve sorriso. Ele se sentou ao lado de Samantha no sofá da sala e ela se aninhou ao lado dele o abraçando. Erik cantou para ela uma canção antiga que fez lágrimas brotarem nos olhos dela. Ela não se lembrava de ouvi-lo cantar dessa forma. Havia uma leveza e uma paixão em suas palavras que combinada com a pureza inebriante e máscula de sua voz que fez Samantha perder o fôlego e toda a noção de espaço-tempo. Ela estava em um mundo de som onde apenas havia ela e a voz magnífica de Erik.

Quando a canção terminou, Samantha precisou de alguns segundos para se situar.

"Uau..." foi a única coisa que ela foi capaz de dizer.

"Desculpe-me, eu não queria..." Começo Erik apologeticamente.

Samantha colocou dois dedos na frente dos lábios de Erik.

" Obrigada pelo belo presente. Foi maravilhoso, você é maravilhoso."

"Samantha..." Suspirou Erik quando ela se aproximou ainda mais, seus rostos estavam tão próximos.

Antes que algum dos dois pudesse avançar, o interfone tocou.

Uma hora depois o apartamento estava cheio de visitas e Genevieve havia começado a distribuir tarefas para todos.

Com a proteção da máscara, Samantha pode notar a rápida mudança de postura de Erik para com os outros. Ele havia voltado a ter aquela aura de superioridade que Samantha conhecia tão bem. Ele recepcionou a mãe e a irmã muito bem, mas seu encontro com Edmond foi bastante... interessante.

Erik estava na cozinha com Genevieve e Dominique quando Samantha abriu a porta para Ed.

"Feliz Natal, Sami!" Cumprimentou Ed puxando Samantha para um abraço apertado.

Samantha retribuiu o abraço na mesma intensidade a ponto de ser erguida do chão pelo irmão. Ela estava tão feliz em estar com ele depois da loucura que foi sua vida nos últimos dias, em todos esses anos ele era a sua única lembrança de casa, ela não iria suportar ficar longe dele. Esse Natal era especial em muitas formas, ela estava cercada por todos aqueles que ela amava. Finalmente ela tinha uma família novamente.

Quando eles finalmente se separaram, Samantha se deparou com os três Rouvier os observando com uma expressão curiosa. Exceto Erik, que mesmo com a máscara ainda transparecia a sua surpresa em ver sua amada cumprimentar um homem de forma tão íntima. Samantha entendeu na hora o que estava se passando na cabeça de Erik e teve que segurar o riso quando puxou Ed para junto do grupo.

"Edmond, estes são Genevieve, Dominique e Erik" Apresentou Samantha. "Pessoal, esse é Edmond Michaelis, meu irmão."

Edmond cumprimentou educadamente as duas mulheres antes de chegar a Erik.

"Erik, é um enorme prazer finalmente conhecê-lo." Disse ele amigavelmente.

"O prazer é mútuo, monsieur." Respondeu Erik aceitando o aperto de mão.

Samantha notou que Erik estava tentando soar de uma forma dominante e até ameaçadora de certo modo. Mas ele parecia ter esquecido de quem Edmond era irmão.

"Por Deus! Me chame de Edmond. Você está namorando a minha irmã, somos quase parentes." Disse ele bem-humorado. "A propósito, feliz Natal."

Agora Samantha teve que realmente se esforçar para não rir da forma com que Erik ficou desconcertado com a forma amigável de Edmond.

"Ed, onde está Lucille? Achei que ela iria passar o Natal conosco." Perguntou Samantha.

"Lucy teve que resolver um problema com o site da empresa, mas ela disse que chegará a tempo para o almoço."

"Trabalhar no Natal? Isso não deveria ser ilegal?" Resmungou Samantha.

"Bem, acho que nós podemos voltar ao trabalho." Disse Genevieve fazendo todos voltarem à cozinha.

No final de tudo, Genevieve havia preparado um belo banquete de Natal para todos. Os outros haviam mais atrapalhado do que ajudado, Erik era um bom cozinheiro, mas não parecia muito interessado na comida a ponto de ser um bom ajudante. Samantha e Edmond estavam bem cientes de suas incapacidades culinárias herdadas de sua mãe e depois do incidente com os bolinhos, eles se limitaram a limpar a cozinha. Dominique era razoável, mas era um pouco bruta para lidar com os cremes e massas leves e mais fazia sujeira do que ajudava.

"Fizemos um ótimo trabalho!" Disse Genevieve olhando orgulhosa para a mesa de jantar.

Os outros quatro se entreolharam sem dizer nada e concordaram em silêncio. Logo depois Samantha abriu a porta para uma bela jovem de cabelos curtos e ruivos e com o rosto pálido coberto de sardas.

"Lucille, feliz Natal!" Cumprimentou Samantha abraçando a futura cunhada. "Estou feliz que tenha vindo."

"Feliz Natal, Sami. Senti muito a sua falta." Respondeu Lucy.

Samantha apresentou Lucille para os outros e logo depois eles se reuniram para almoçar. A cena foi encantadora. Não havia outra palavra para descrevê-la. Todos os natais de Samantha desde a guerra foram momentos deprimentes e muitas vezes solitários. Estar agora rodeada por todas essas pessoas amáveis fez seu coração inchar. O ano que estava chegando prometia grandes alegrias. A vida dela sofreu uma reviravolta para o bem tão grande que ela não poderia acreditar em sua sorte. Genevieve estava insistindo para que Erik comesse um pouco mais. Dominique e Edmond estavam discutindo sobre as últimas novidades tecnológicas. Lucille estava comentando alegremente com Samantha os seus planos para o casamento dela com Edmond que iria acontecer dali a dois meses no inicio da primavera. Samantha não pode deixar de se perguntar se não seria ela a comentar algo do tipo dali alguns meses. Ela e Erik não eram um casal comum, não seria surpresa se ele a pedisse em casamento amanhã. Não havia dúvidas entre eles, eles eram feitos um para o outro. Seria bobagem se apegar tanto as normas sociais.


Marco Zero do Fluxo do Tempo

"Isso é absolutamente impossível!"

"Como vamos modificar as linhas do tempo dessa forma?"

"O Guardião do Tempo perdeu toda a sua sanidade."

"Bem, ele nunca foi tão são assim para ter algo a perder."

"Mas agora os dois são Guardiões, o poder é o mesmo."

"Não! A culpa é toda daquele Criador de Almas!"

"Ele corrompeu o Destino."

"Nunca confiei nele"

"Ele sempre quis tomar o lugar do Guardião das Almas!"

"Mas o Guardião destruiu as almas do Grande Projeto do Destino!"

"Ele é o melhor Criador de Almas de todos, nada mais justo que ele se tornar responsável por elas!"

"Se o antigo Guardião das Almas tivesse feito o mesmo com minhas criações eu já teria partido o Cosmos no meio!"

Os boatos viajavam rapidamente entre as criaturas responsáveis pelo Destino. A notícia de que o velho Criador de Almas iria assumir o cargo de Guardião causou um grande rebuliço no Marco Zero. Os murmúrios de raiva e de aprovação seguiam o velhote por onde ele passava.

"Nunca foi meu desejo me tornar Guardião." Desabafou o velho quando se viu sozinho com o Guardião do Tempo entre os grandes fios do fluxo do Destino.

Tantas vidas, tantas almas, tantas histórias dançavam por aqueles fios. Cada ser humano com sua mente, seus sonhos, suas expectativas tinham seu destino escrito naqueles fios azulados.

"Isso nunca foi e jamais será uma questão de escolha. Sua existência está pronta para resguardar as almas e isso é o que importa. O cargo é seu agora e você não deve negar suas funções." Disse o Guardião do Tempo calmamente enquanto podava seus preciosos fios como um jardineiro amoroso poda suas roseiras.

O velhote permaneceu em silêncio. Sua espécie não era imune a ganância, mas ele nunca teve interesse em ser algo além de um Criador de Almas. Ele não iria se acostumar com a ideia de não ver mais suas belas criações decorando as linhas do tempo daquele mundo.

"Suas criações estão espalhadas por muitas eras, vai levar muito tempo até todas as linhas serem seladas. Você ainda vai poder vê-las por boa parte de sua existência como Guardião."

Uma péssima sensação passou pelo velhote. Assim que ele se viu como o novo Guardião das Almas, lhe foi informado que o selamento de algumas linhas do tempo fora adiantado para evitar maiores problemas.

O selamento era uma espécie de cerimônia onde os guardiões selavam uma parte do fluxo do tempo e assim quaisquer mudanças seriam impossíveis e todos os destinos das pessoas que lá jaziam estaria traçado. Raramente uma linha era selada a não ser quando os acontecimentos e rumos do Destino já traçados se tornam extremamente necessário para que o restante das linhas do Fluxo do Tempo possa existir sem problemas.

Ela se lembrava da última linha do tempo selada. Fora o equivalente ao século XV para os humanos. O fim do que eles conheciam como Idade Média. Ele tinha deixado algumas criações naquela era, antes do Destino entender que suas criações não se encaixavam muito bem naqueles tempos. Ele tinha uma criação tão única quanto Erik e que teve um destino igualmente infeliz, mas para aquela pobre pessoa cujas paixões não podiam ser saciadas naquela era, o destino já estava selado.

"Está lamentando o que ouve com o pobre padre da era medieval?" Perguntou o Guardião do Tempo. "Confesso que esperava que ele fosse ser o estopim de sua revolta e não Erik."

O velho deu de ombros.

"Não tive a coragem de desafiar o Destino em relação a aquele trabalho, mas eu tenho minha parcela de culpa naquele caso. Aquela alma não se encaixava naquela era do mesmo jeito que Erik não se encaixava no século XIX, mas o primeiro foi posto lá sob minha total responsabilidade. Erik fazia parte de algo maior, mas eu estaria mentindo se não admitisse que minha luta também era em nome das outras almas que foram vítimas da minha tolice em acreditar que elas poderiam se encaixar em outras eras."

O Guardião do Tempo sorriu.

"Falaste como um verdadeiro Guardião das Almas. Sua experiência e devoção o tornaram a melhor escolha para o cargo."

O novo Guardião das Almas manteve seu silêncio.

"Eles irão selar as linhas do tempo dos séculos XIX, XX e XXI, mas o destino de Erik ainda está salpicado de problemas e ele não merece passar por mais nenhum sofrimento, as cicatrizes em sua alma não irão sumir se deixarmos as coisas como estão. Ele deveria ser compensado por nossos erros."

"O que você sugere, Guardião?" Perguntou o Guardião do Tempo.

O velhote soltou um riso.

"Não finja que você nunca sonhou em fazer algo do tipo." Respondeu o velhote olhando para a expressão neutra do Guardião do Tempo.

"Qual é o plano?" Disse o Guardião do Tempo com um ar resignado.


Paris, 19 de fevereiro de 2034

Era muito tarde da noite, mas Samantha não conseguia adormecer de nenhuma forma. Ela estava deitada nos braços de Erik e bastante feliz. Ela se sentia bastante bem após a última conversa que ela teve com Erik, foi um grande peso que ela tirou de suas costas.

Tudo começou durante a manhã daquele dia ensolarado que precedia o início da primavera. Samantha e Erik estavam caminhando de volta para casa após uma consulta de checagem com Josephine que acabara se afeiçoando a Erik e se tornara sua médica. Erik não entendia muito bem o motivo, mas ele confiava naquela garota de cabelos bizarros.

Foi naquele dia que o assunto sobre o rosto de Erik e uma possível reconstrução facial vieram à tona:
Fora Josephine quem levantou a ideia para Erik que ainda ficava extremamente desconfortável em mostrar seu rosto para pessoas que não fossem Samantha ou sua família. Ele estava bastante relutante em se expor para qualquer médico interessado em sua condição. Isso fez Josephine perder um pouco a paciência e inadvertidamente fazer a pergunta.

"Se você se incomoda tanto com o seu rosto, por que nunca fez nada sobre isso durante esses anos?"

Samantha ficou em choque ao ouvir uma pergunta dessas sendo feito de forma tão direta. Ela tentou falar sobre isso com Erik, mas sempre perdeu a coragem no meio do caminho. Erik não percebeu a agitação de Samantha e encarou Josephine friamente.

"O que você quer dizer com isso?" Perguntou ele com a voz inexpressiva.

Josephine corou um pouco antes de responder.

"Bem, eu estou falando sobre cirurgias plásticas, reconstrução facial, essas coisas..." Disse ela com a voz cada vez mais aguda pelo nervosismo. "Mas isso não é da minha conta, sinto muito se lhe ofendi."

Erik se tornou bastante pensativo o que fez ambas as garotas ficarem bastante constrangidas. Se ele notou o rubor em ambas, ele não disse nada.

"Na verdade, eu nunca pensei nisso como uma opção possível." Respondeu ele ainda de forma pensativa como se ele não estivesse falando com alguém em particular.

Foi apenas quando eles estavam de volta ao apartamento de Samantha que Erik finalmente falou.

"Isso é realmente possível?" Perguntou ele de repente para Samantha.

Samantha deu de ombros.

"Eu não sou nenhuma especialista no assunto, mas imagino que sim. Já soube de casos bem mais graves que o seu que foram perfeitamente resolvidos com alguns procedimentos."

"E por que você nunca disse nada sobre o assunto?" Indagou Erik.

"Bem, a oportunidade de discutir o assunto nunca surgiu entre nós." Respondeu ela simplesmente.

Erik tirou a máscara que estava usando e a colocou na mesa ao seu lado com um leve sorriso.

"Você estava com medo que eu pensasse que você preferia que eu mudasse meu rosto."

Samantha corou novamente naquele dia.

"Bem, soa horrível quando você coloca nessas palavras, mas é não deixa de ser verdade. Eu não queria que você se sentisse rejeitado de qualquer forma."

"Bem, isso é muito doce da sua parte." Disse ele sem rodeios. "Mas sua opinião me interessa. Você gostaria que eu tivesse um rosto normal?"

Samantha soltou um longo suspiro. Era uma pergunta bastante delicada que exigia uma resposta ainda mais delicada. Obviamente que ela não se importava nem um pouco com o rosto de Erik. Mas a ideia de ter que vê-lo todos os dias sofrendo e se isolando com receio de tudo e de todos. Esse mundo abria um leque gigantesco de oportunidades para ele, mas sua total desconfiança para com as pessoas poderia prejudicar seu futuro.

"Erik, francamente eu não posso realmente lhe dar a resposta que você quer." Começou ela. "Eu te amo e apenas quero que você seja feliz. O que eu gostaria é que você possa acordar em uma manhã e ir dormir à noite sem precisar pensar ou se preocupar sobre seu rosto. Se para isso acontecer é preciso uma máscara ou uma cirurgia plástica, que assim seja. Mas a resposta real para sua pergunta só pode partir de você."

A conversa se encerrou nesse ponto, mas Erik passou o resto do dia em um silêncio pensativo que Samantha não se atreveu a perturbar. Isso até a noite quando eles se preparavam para dormir. Ela entrou no banheiro para escovar os dentes, mas foi surpreendida ao ver Erik parado em frente ao espelho e sem a máscara. Ele apenas estava lá parado olhando seu reflexo.

"Desde criança eu nunca suportei olhar para meu próprio rosto em um reflexo." Disse ele se tirar os olhos do espelho.

Samantha apenas ficou em silêncio, pois sabia que ele não queria uma resposta.

"Mas agora que a possibilidade de ter um rosto como o de todo mundo surgiu, eu sinto como se estivesse traindo tudo que eu sou."

"O que você quer dizer?" Perguntou Samantha se aproximando dele.

Erik soltou um leve riso, mas não era algo alegre.

"Parece que toda a minha vida girou ao redor do meu rosto. Tudo que acontecia comigo parecia ser motivado de alguma forma pela minha aparência. Eu não consigo imaginar como seria viver sem ter esse fator em minha vida."

Samantha cautelosamente o abraçou e o fez se virar para encara-la.

"Imagino que seria viver como todo mundo." Disse ela lentamente olhando em seus olhos dourados.

"Imagino que deve ser bastante estranho ser uma pessoa comum quando se está acostumado a ser um destaque simplesmente por existir."

Agora foi a vez de Samantha rir.

"Acho que você tem qualidades o suficiente para se destacar sem precisar do seu rosto."

"De fato." Murmurou Erik. Samantha já estava bem ciente da total falta de modéstia dele quando se tratava de suas habilidades excepcionais.

Ela ficou sorrindo para ele. Era tão bom vê-lo agindo dessa forma despreocupada e bem humorada. Ela esticou seu braço para acariciar seu rosto desmascarado.

"É disso que eu estava falando quando disse que queria vê-lo feliz." Murmurou ela.

Um brilho sombrio passou pelos olhos de Erik, mas logo o seu bom humor apareceu novamente. Ele imitou o gesto de Samantha e acariciou seu rosto fino com seus longos dedos. Seu polegar roçou a ponta do nariz de Samantha.

"As pessoas não sabem o quão sortudas são de ter um longo nariz para chamar de seu." Disse ele vagamente.

Samantha ruborizou violentamente. O tamanho de seu nariz sempre foi um de seus maiores problemas com sua aparência. Ela cogitou cirurgias plásticas em vários momentos de sua vida.

"Eu sinto muito, não quis lhe ofender." Murmurou Erik ao tomar conhecimento do rubor da jovem.

Rio Samantha.

"Já estou conformada com meu nariz." Respondeu ela. "Mas confesso que recebi uns apelidos bem maldosos dos meus irmãos."

Erik ergueu uma sobrancelha.

"Acho que são melhores que os apelidos que recebi por não ter nenhum."

"Justo." Respondeu Samantha sem se deixar abalar.

"Eu irei estudar a possibilidade." Disse Erik de repente.

"Você tem certeza?" Perguntou Samantha. O ar divertido se tornando imediatamente sério.

"Quando estou com você eu consigo acordar e dormir sem pensar no meu rosto, mas quando estou só, a miséria que ele me rendeu pontua cada pensamento, cada respiração e cada gesto meu. Eu não quero mais ser assim."

Samantha ficou na ponta dos pés e beijou os lábios de seu amado.

"Então que assim seja." Respondeu ela.

Eles foram dormir logo após isso. Ela e Erik ficaram conversando tranquilamente até ele cair no sono. Erik nunca adormecia antes que Samantha e mesmo que ela estivesse se sentindo bastante esgotada após um dia cheio, o sono nunca vinha.

Ela se desvencilhou delicadamente dos braços de Erik fazendo o melhor para não acorda-lo. Ela vestiu um roupão por cima de seu pijama e foi até a cozinha onde ela pretendia fazer um chá de camomila para ajudá-la a dormir.

Nada pode expressar o tamanho do susto que Samantha tomou ao ver uma figura muito conhecida sentada na mesa de sua cozinha.

O velhote Criador de Almas era a última pessoa que ela esperava ver sentada na sua cozinha admirando sua coleção de canecas. Ela ficou parada no limiar decidindo se estava ou não tendo uma alucinação antes de falar.

"O que você está fazendo aqui?" Perguntou ela.

O velhote se virou e bateu palmas alegremente quando a viu.

"Finalmente! Estava me perguntando quanto tempo você levaria para desistir de dormir."

"Você estava me deixando sem sono?"

O velhote deu de ombros.

"É um velho truque, mas isso não importa. Eu vim aqui porque quero discutir algo com você."

"Algo comigo?" Perguntou Samantha. "O que deu errado agora?"

"Sempre pessimista, Samantha Michaelis." Respondeu o velhote sem perder o tom alegre. "Na verdade eu quero garantir que algo vai dar certo."

"O que você quer dizer?"

"A principio, você está olhando para o mais novo Guardião das Almas."

Samantha ergueu uma sobrancelha.

"Meus...parabéns?" Disse ela.

O velhote não respondeu nada e continuou.

"Em segundo lugar, em breve a linha do tempo em que você vive será selada. Isso significa que essa será a última vez que nos veremos já que quando uma linha é selada, ninguém mais pode interferir nela."

"E qual é o problema disso?"

"Bem, o Conselho permitiu que Erik voltasse para a sua linha do tempo original e vocês estão juntos, mas isso não é o bastante. Veja, deixar que vocês vivam suas vidas a partir de agora sem nenhuma influência com o destino de vocês traçado não irá compensar tudo que essa troca ilegal causou. Erik nunca vai superar todos seus traumas, as cicatrizes sempre irão existir e é injusto que ele passe por mais desventuras depois de ter uma vida cheia delas."

Samantha guardou silêncio por alguns segundos antes de falar.

"Bem, acho que isso significa que não vamos viver felizes para sempre."

"Todos vocês têm seus momentos de dor, mas também seus momentos de alegria." Começou o velhote. "Viver uma longa vida de sofrimentos com tão poucos momentos de alegria não é justo com vocês. Erik não pode suportar tantos traumas que seu passado carrega e ainda estar pronto para as eventuais desventuras do seu futuro."

"Entendo, mas o que eu posso fazer por ele?" Perguntou Samantha.

O velhote deu um sorrisinho, mas sua expressão não era alegre.

"Exatamente isso que eu quero discutir com você. Eu estou tão cansado de ditar o destino de minhas almas que eu decidi dar o poder de escolha para você, Samantha. Em agradecimento a toda a sua devoção para com Erik. Eu tenho um grande plano em mente que irá causar um grande rebuliço no Conselho, mas eu garanto que vocês não irão correr nenhum risco."

Samantha soltou um longo suspiro.

"Estou ouvindo." Disse ela.

O velhote começou a explicar seu plano. Como Guardião das almas, ele teria maiores poderes para alterar e rearranjar todas as almas que ele quisesse. Com o Guardião do Tempo como seu cúmplice, ele iria modificar radicalmente o Fluxo do Tempo. Eles iriam excluir todas as linhas relacionadas com a existência de Erik nos três séculos em que ele existiu (séc. XIX, XX e XXI). E logo após refaze-las novamente de forma que toda a confusão causada pelo antigo Guardião das Almas não exista mais e seja substituída pelo plano original.

Tudo o que Samantha conhecia, tudo que ela e Erik viveram...

Simplesmente deixaria de existir.

"Você entendeu?" Perguntou o velhote quando Samantha não disse a menor palavra sobre seu plano.

"Mas... tudo o que aconteceu. Eu... Erik... nós jamais iriamos nos lembrar de tudo isso. Ele não iria passar por nada... nem as pessoas do passado... Christine, Raoul, Nadir e tantos outros que conheceram Erik."

"Nenhum deles estava destinado a conhece-lo em primeiro lugar. Por décadas ele foi uma alma perdida, nada que ele passou estava nos planos originais." Respondeu o velhote. "E quanto a vocês dois. Imagino que o Destino reservava um encontro muito melhor."

"Como?" Perguntou Samantha. "Como iriamos nos encontrar?"

O velhote deu de ombros.

"Isso depende inteiramente de vocês. Mas eu asseguro que vocês irão arranjar um meio de fazer isso."

"Não seria melhor discutir isso com Erik e não comigo. Quem sou eu para decidir se esse plano irá acontecer ou não."

O velhote sorriu e tomou as mãos delas nas suas.

"Minha cara Samantha. Você foi a única que tornou tudo isso possível. Sua coragem a conduziu para essa jornada e seu amor a fez capaz de passar por ela e salvar uma pessoa tão preciosa quanto Erik. Foi sua escolha dar início a essa luta, creio que o golpe final só deve caber a você."

Samantha não respondeu. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela amava Erik e desejava que ele fosse inteiramente feliz, mas ela também temia que se tudo isso fosse apagado ele não a amaria da forma como ela sabe que ele a ama. Nada garantia que eles iriam se tornar amantes. Almas gêmeas poderá ser apenas bons amigos, não havia nada que lhe desse certeza sobre quais circunstâncias eles iriam se aproximar. O Erik que ela conhece não iria mais existir.

Ela estava se sentindo um monstro.

Como ela poderia ser tão egoísta?

Ela amava Erik e sabia que não importa quais seriam suas novas memórias, ela sempre iria ama-lo. E ela o amava tanto que sua felicidade significa tudo para ela.

Mesmo que isso signifique deixa-lo ir...

O velhote se mexeu em seu assento e puxou um embrulho que estava embaixo de sua cadeira. Ele foi até Samantha e lhe entregou.

"Meu violino!" Exclamou ela. "Você o recuperou."

"Esse violino é um grande paradoxo, sabia? Ele foi fabricado em meados dos anos 2000, mas foi trazido de volta para esse tempo como uma raridade fabricada no final do século XIX. No momento que você embarcou nessa viagem temporal, Christine o manteve com ela já que ele fora abandonado quando você e Erik desapareceram. Ele passou de mão em mão por gerações até parar em um velho baú no porão de sua antiga casa em Rouen. Se você tivesse ido até a casa, poderia ter encontrado seu violino novamente ou se tivesse explorado em sua adolescência, teria encontrado uma réplica paradoxal de seu violino."

Samantha não falou nada novamente, sua mente estava zunindo.

"Mas esse violino não é importante apenas por isso. Ele é a chave do meu plano."

"Chave?" Indagou Samantha.

"Se você decidir concordar em modificar o Fluxo do Tempo, eu quero que você toque esse violino assim que o Sol nascer. Sabe, a Música é uma força poderosa e nada mais poético para minhas criações musicais do que ligar suas linhas de destino à Música. Esse violino irá desencadear uma grande reação nas linhas do tempo, assim que você toca-lo, as linhas serão trocadas e isso irá acontecer momentos antes que as linhas sejam seladas. Nem o próprio Destino será capaz de modifica-las."

"Velhote esperto." Murmurou Samantha.

"A decisão é sua, escolha com sabedoria." Disse o velhote. "É aqui que nós nos despedimos."

"Obrigada...por tudo, velhote." Disse Samantha com a voz embargada.

"Eu que agradeço, minha doce violinista."

Logo após ele desapareceu.

Samantha ficou parada olhando o ponto onde o velhote estava segundos atrás. Ela apertou o velho violino contra seu peito e respirando lentamente ela voltou para o quarto.

Ela se sentou em uma poltrona na parede oposta da cama e observou Erik dormir. Ela lembrava de sua conversa com ele horas atrás que agora pareciam ser décadas. Ela pensou em Genevieve e sua família que passaram décadas de luto por um filho que fora cruelmente arrancado deles. Erik merecia uma mãe, um pai (que ele nunca tivera a chance de conhecer) e uma doce irmã caçula como Dominique. Erik merece toda a alegria que esse mundo tem a oferecer.

E assim será.

O nascer do Sol foi saudado com o som de um violino.


Não surtem, ainda teremos um epílogo a frente. Mas eis o final dessa fic que revolucionou minha vida por 3 longos anos. Nada pode expressar a gratidão que eu tenho por ter tido essa ideia que trouxe tanta gente incrível pra minha vida. Vou fazer os agradecimentos corretamente no próximo cap, mas se sintam abraçados.

Bjs e até mais!

SM