XXXIV.
Amy Jesup viu quando o landau dos Bishop parou diante do New England. Olivia Dunham viera só, apenas com o cocheiro, obedecendo as determinações contidas no bilhete enviado dias antes.
Senhorita Dunham,
Uma pessoa que se preocupa com o seu futuro solicita um encontro para tratar de assunto
de seu interesse, relacionado ao seu futuro marido.
Próxima terça, às cinco da tarde, no restaurante do hotel New England. Procure o reservado de número três. desnecessário dizer que venha só.
Um amigo
John Scott aprovara o teor da mensagem. Não havia pista, pois Amy utilizara a máquina de escrever da biblioteca do pai. Notou que a sua rival saltou apressada. Usava um de seus habituais costumes pretos, os cabelos louros presos num coque fixado na base da nuca. O rosto estava encoberto até o queixo por um véu negro que saía do chapéu.
Amy esperou alguns minutos. depois rumou para o reservado contíguo, de onde poderia ouvir a conversa entre as duas com toda a liberdade. Destruir o casamento não era o suficiente, ela precisava presenciar a derrota das pretensões da outra. Ficou bem perto das frestas de ventilação. Seu coração palpitava, excitado com a perspectiva de enfrentamento entre as duas.
-Boa tarde, Senhorita Dunham.
-Quem é você?
A voz da outra soava baixa, um pouco abafada.
-Meu nome é Tess Amaral. Acho que já ouviu falar de mim, não?
-É a mulher que levou Peter para casa, quando ele foi surrado por marginais.
-Boa menina...-a voz de Tess era um misto de deboche e agressividade.
-Não temos nada a tratar.
-Sente-se aí, garota. Ainda não comecei a falar.
-O que quer de mim?
-Deve saber que eu e ele dormimos juntos, muitas vezes.
Amy exultou com o mutismo da outra. Daria tudo para ver a decepção em seu rosto.
-Não me interessa. Eu e Peter ainda não éramos noivos, ele não me devia nenhum tipo de fidelidade.
-Ele não ama você, garota boba.
-Não ama? Mas ele está contando os dias para o nosso casamento.
-Ele deseja você. Sabe que, sem casar, não conseguiria tê-la. Mas ele não a ama, não de verdade.
-E é a você que ele ama?
-Não senhorita garota bobinha. Estou dizendo que homens como Peter Bishop não amam ninguém.
-Pode ser. Mas eu vou arriscar.
Tess silenciou por alguns instantes, mas logo voltou à carga.
-É com você. Mas eu quero algum dinheiro. Preciso sair de Boston.
-Escolheu a pessoa errada.
-Não me interessa. Venda o seu anel ou peça a Peter. Se não me der uma boa quantia vou contar tudo para Paul e a vida de seu noivo não vai valer nada.
-Paul?
-Meu companheiro. É da confiança de Big Eddie. Ele adoraria se vingar de Peter usando você. Eu ainda posso fazer um belo escândalo durante a cerimônia...
A outra não dizia nada. Amy estava absorvida, as narinas dilatadas, os olhos semicerrados, o rosto colado, como se a proximidade total pudesse revelar algo mais. Não reparou que tinha companhia. Dentro do reservado estavam agora Peter Bishop, John Scott e seu pai, Ephraim Jessup.
-Nunca vou poder lhe pagar o favor, Scott.
John Scott deu o seu melhor sorriso pretensioso. Estavam sentados os três: Scott, Peter e Lincoln. Junto a eles, radiante, estava Rachel, vestida com as roupas da irmã, mas sem o chapéu.
-Rachel foi perfeita.
-Tem razão, Lincoln. Rachel esteve impecável. Que bom que as vozes são parecidas.
-Viram a cara do velho Jessup levando a filha pelo braço? Estava furibundo. Não suporto gente esnobe. –falou Scott.
-É verdade. O pai morreu de vergonha, mas não perdeu a pose...
Peter foi interrompido por Charlie, que regressava.
-Despachei a senhorita Amaral, Bishop. Foi correta, mereceu o dinheiro que ganhou.
Peter falou tranquilamente:
-Bem, só me resta agora virar um homem sério.
Na antevéspera do casamento, Olivia experimentava o vestido diante de Grace Higgins e de Astrid. Como era de se esperar, faltavam quatro dedos para fechar. Olivia aflita,fez cara de choro. Astrid saiu de fininho para não deixá-la constrangida.
-E agora, como vai ser?
-Fique calma. Tudo tem um jeito, senhorita Olivia.
-Grace, você nem imagina...
-Eu sei, senhorita .
-Sabe?
-Bem, não vamos falar nisso. Vou dizer o que podemos fazer. Abrir as costuras e aumentar com um pouco de cetim e renda da parte interna da cauda, ninguém vai notar. Eu mesma me encarrego disso.
A cor voltara ao rosto de Olivia.
-Que bom poder contar com você, Grace. Eu estava tão preocupada. Tenho medo que minha tia descubra e fique envergonhada.
-A senhorita só engordou um pouco.
-Quem mais está sabendo, Grace?
-Não se preocupe, apenas o velho doutor e eu. O jovem patrão já descobriu?
-Sim, eu contei a Peter, assim que tive certeza. Ele está louco de felicidade. Eu tive medo que ele se assustasse, mas não, ficou orgulhoso. Fica o tempo todo preocupado comigo.
-A senhorita fez um bom trabalho, ele parece em paz; está bem com o pai e consigo mesmo.
-É muito gentil, Grace.
-Sou apenas justa. As coisas melhoraram imensamente nesta casa com a sua presença. Fez a todos mais felizes.
O casamento transcorreu dentro da normalidade. A festa na mansão foi um sucesso. Apenas para amigos íntimos. A noiva estava belíssima, com o magnífico vestido Worth. A tia e Nina Sharp trocaram um olhar de entendimento, pois sentiam-se diretamente responsáveis pela elegância de Olivia. Parecia uma grande dama.
Amy Jessup viera a contragosto. Trazia a tiracolo uma novidade. Por uma imposição direta de seu pai aceitara o senhor Augustus Wilkinson como noivo. Por fora aparentava calma, mas interiormente estava furiosa. A noiva estava deslumbrante. Anotou os detalhes do vestido, pois exigiria do pai um Worth para o seu casamento, só que mais luxuoso. Notou que Olivia usava uma tiara de diamantes – joia de família - e para piorar, o noivo parecia embasbacado por ela. Nunca pudera imaginar que Peter Bishop fosse tamanho idiota. Olhava a calva de seu futuro marido, a pequena barriga, o cavanhaque: ainda não estava casada, mas mal suportava olhá-lo.
Lincoln Lee assistiu o casamento ao lado dos pais e de Rachel. A moça era muito dedicada, estava se empenhando em consolá-lo e ao que tudo indicava, com sucesso.
