CAPÍTULO 36 – OPINIÃO TÉCNICA

Duas figuras surpresas se encaram na entrada do apartamento: Kuon, que jamais imaginaria encontrar Kyoko segurando uma criança, e ela, que poderia jurar estar abrindo a porta para Naomi.

"Quantas leis de trânsito você transgrediu para chegar aqui tão rápido?" e "Quem é esta menina?", perguntaram-se simultaneamente.

Kyoko não sabia ao certo se Naomi havia contado para Yashiro sobre Aiko, portanto ela se viu na desconfortável situação de selecionar as palavras que usaria, optando por dizer apenas que Aiko era a afilhada dela e que naquela noite ela era a babá. Como ela esperava, Kuon teve a sensibilidade para perceber que ela não pretendia dizer mais, e isto, por si só, era o bastante para que ele desconfiasse que a menina possuía relação com Naomi, tanto pela semelhança física quanto pelo fato daquela ser a noite do encontro entre os agentes.

Perguntando-se se o amigo sabia de tal detalhe sobre a mulher a quem ele se dedicava, Kuon se inclinou para dar um beijo em Kyoko e logo percebeu que a pequena criatura nos braços dela não pretendia permitir que o sujeito alto e desconhecido mordesse a adorada madrinha, a julgar pelos protestos incompreensíveis que ela fazia.

Kyoko apenas sorriu, enquanto Kuon resignou-se ao fato de que agora teria outra dama adorável a lhe impedir os avanços com a própria namorada.

"Aiko-chan, não seja má com o tio Ren!"

"Len! Len!"

Imediatamente entregando a menina para Kuon e informando que precisava evitar que a comida queimasse, Kyoko foi para fogão rindo do namorado enquanto ele dizia não ser bom com bebês.

"Bobagem, você é ótimo com Maria-chan!"

"Maria-chan é uma criança, não um bebê, e já tinha quatro anos quando eu a conheci"

Mesmo desconfortável, ele apenas se sentou no sofá com Aiko no colo, olhando muito atenta para o rosto do estranho, até ela sorrir com os poucos dentes que tinha e conquista-lo por completo.

Kyoko, que observava os dois da cozinha, viu quando a afilhada simplesmente se desmanchou para Kuon assim que ele, em resposta ao primeiro sorriso que ela deu, sorriu de volta e disse que ela era uma daminha adorável. "Playboy!", ela murmurou, e ele obviamente escutou e olhou acusador para ela.

"Foi você quem me pediu para segurar Aiko-chan!"

Como a refeição estava pronta, Kyoko foi para a sala, ainda olhando aborrecida para Kuon, e repreendeu-o. "Você é perigoso para toda a comunidade feminina! Como se Akemi-san não fosse o bastante, agora você conquista Aiko-chan? De dois a setenta anos de idade, você conquista todas as mulheres?". E retirando Aiko do colo dele, Kyoko colocou a menina no chão para caminhar um pouco, mas tudo que ela fez foi voltar para onde ele estava sentado e agarrar contente a perna dele.

Irresignado com a injusta acusação, já que ele nada havia feito para merecer a reprimenda, Kuon protestava enquanto Kyoko voltava para a cozinha, servia três porções e retornava com a pequena refeição para a sala de estar. Ela nada precisou dizer para que Kuon e Aiko automaticamente ocupassem os respectivos lugares à mesa e começassem a comer, mas ele permanecia aborrecido tanto por se sentir injustiçado quanto pela maneira como Kyoko parecia ignorar tudo que ele estava dizendo para se defender, até ela o surpreender com um novo comentário ácido.

"Até Aiko-chan tem melhor apetite que você!"

Ele ficou tão pasmo, que finalmente se dedicou a tentar entender o que estava acontecendo. Até que ele viu. Ele deveria estar realmente muito cansado para não ter percebido antes como, por trás da expressão irritada de Kyoko, havia um mau disfarçado sorriso.

Ela estava se divertindo às custas dele, e o tonto havia levado a sério!

Ela riu quando percebeu que ele havia percebido, e em retorno recebeu um sorriso malicioso que afirmava que haveria troco.

Lá estavam os dois, fazendo uma leve refeição tardia acompanhados de uma criaturinha que há muito tempo deveria estar dormindo, mas a excitação por passar a noite com a madrinha era o suficiente para mantê-la acordada.

Pareciam uma jovem família, ele pensou, e a julgar pela expressão de Kyoko, ela parecia pensar o mesmo.

Kuon se esforçava para não demonstrar o êxtase que a situação provocava nele. Kyoko sorrindo quando olhava para Aiko, comendo e ajudando-a a comer, sorrindo para ele e ruborizando, rindo de algo que a menina dizia e ela estranhamente parecia compreender, comendo um pouco mais e vez ou outra advertindo-o, com um simples levantar de sobrancelha, a parar de brincar com a comida e terminar de comer o pouco que ela havia servido para ele.

Ao fim da refeição, Aiko finalmente começou a demonstrar o aborrecimento típico de um bebê que passou da hora de dormir. Kyoko apenas a pegou novamente nos braços, sumiu por alguns minutos no quarto e retornou com Aiko, dizendo que seria melhor se a menina permanecesse acordada um pouco mais, já que Naomi deveria chegar a qualquer momento e seria péssimo se a bebê acordasse pouco tempo depois de ter adormecido.

Kuon nada entendia sobre bebês, portanto nada comentou. Ele apenas respondia às perguntas que Kyoko fazia sobre o período dele no exterior e a observava de pé, movendo-se aleatoriamente no mesmo lugar e periodicamente respondendo aos balbucios, para ele ininteligíveis, de Aiko. Como as duas pareciam conversar estava além da compreensão dele, mas mesmo assim a cena era absolutamente adorável.

"Kyoko daria uma ótima mãe", era o pensamento que se insurgia na mente dele.

Poucos minutos depois, Naomi bate à porta e Kyoko suspira aliviada, já que Aiko estava quase cochilando. Kuon, levantando-se do sofá por mera curiosidade, considerando que poderia descobrir como o encontro havia transcorrido se tivesse um mero vislumbre de Naomi, aproximou-se o suficiente para ter uma boa visão sem ser invasivo.

"Boa visão sem ser invasivo", que piada.

A imagem que Naomi representava quando Kyoko abriu a porta sobressaltou os dois, mas o cansaço (talvez mais mental que físico) que a agente aparentava sentir foi o necessário para que ninguém perguntasse como a noite havia sido. Kuon apenas retribuiu o cumprimento automático que recebeu, e Kyoko se limitou a dizer que Aiko estava mais do que pronta para dormir enquanto entregava a sonolenta afilhada aos braços da mãe.

Em um gesto automático que Kuon não poderia recriminar, já que ele passou boa parte do tempo invejando a menina, Aiko relutou em sair do confortável e aconchegante corpo que a embalava, e por uma cruel travessura de Deus, as retinas dele foram invadidas pela imagem de um níveo e redondo seio.

Tão rápida quanto a imagem surgiu, desapareceu. Tudo que ele pôde fazer foi olhar para o lado oposto e tentar obrigar o próprio cérebro a pensar noutra coisa que não fosse...

A porta do apartamento se fechou com um clique, depois veio o absoluto silêncio. Receoso, Kuon lentamente virou a cabeça na direção em que supõe estar Kyoko, para encontrá-la de costas para ele e com a testa apoiada na porta.

Ela parecia ter murchado para metade do tamanho habitual, o que para ele era um feito e tanto, já que ele sempre a considerou pequena. Respirando profundamente e evocando todo o ator que existia dentro dele, Kuon tranquilamente comentou sobre a aparência estranha de Naomi e sobre como ele desejava que Yashiro não tivesse feito uma bobagem.

Era uma atuação digna de um Oscar, na verdade, por isso foi extremamente decepcionante e surpreendente quando Kyoko se virou para ele, com os olhos marejados, acusadores e temerosos, e desferiu a pergunta que mais parecia um gancho de direita.

"Você viu, não viu?"

"Merda". Ele deu uma risada dissimulada e nervosa. "Vi? Vi o quê?"

Tanto talento, treino, experiência e ele parecia não conseguir engana-la.

"CORN, SEU BAKA!"

"Kyoko-chan, espere!" Ouvi-la chama-lo de Corn o fez automaticamente reagir como tal e chama-la de Kyoko-chan, mas ele não teve tempo de impedir que ela se trancasse no quarto.

"Kyoko, está tudo bem, saia daí, vamos conversar!"

"Não está tudo bem e não temos o que conversar!"

"Kyoko, por favor!". Ótimo, ela estava chorando e ele não fazia ideia sobre como conduzir a situação. O que ela esperava que ele fizesse, afinal? "Está tudo bem!"

"Não está! Você pode ser indiferente ao que acabou de acontecer, mas eu não sou!"

"Indiferente? O que a faz pensar que eu esteja indiferente?"

"Você está! Você agiu normalmente, como se nada tivesse acontecido... como se... como se fosse nada!"

"E como você queria que eu reagisse?"

"BAKA BAKA BAKA! Vá embora, eu não quero mais falar com você!"

Ela se sobressaltou ao ouvir o que pensava serem murros na porta, quando na verdade ele estava batendo a cabeça contra a porta do quarto.

"Meu amor, eu tenho certeza que estamos lidando com algum mal-entendido. Por favor, abra a porta para que possamos conversar com calma!"

Ela respirou fundo. Era injusto como ele sempre a acalmava quando a chamava de 'meu amor'.

"Não há nada para dizer. Eu sei que eu sou... desfavorecida neste aspecto, mas agir com indiferença foi muito cruel, Corn!"

"O quê?" Ele se esforçava arduamente para processar o que ela estava balbuciando do outro lado da porta.

"Primeiro Shotaro me chamando de tábua e me apalpando por cima da fantasia de Bo, e agora você, agindo como se você nada tivesse visto... snif. Eu posso não ser como as americanas de seios grandes com as quais você deve ter se acostumado, mas eu esperava que você ao menos se mostrasse agitado!"

Ok, ele precisava reservar a informação de que Fuwa havia tomado liberdades com ela para além do que ele sabia para outro momento. Que ele a chamou de tábua não era uma novidade, mas o surpreendia descobrir que ela havia relacionado os comentários depreciativos do cantor com o acidente daquela noite.

"Meu amor, eu apenas me mostrei indiferente para não perturbar você!"

"Mentira" Ele apenas suspirou em resposta. "Você não estaria tão calmo se realmente tivesse sido afetado pelo... pelo que você viu!"

Kuon explodiu. "Senhor de Misericórdia, eu nunca fui devoto mas hoje lhe rogo por paciência! Criatura, eu estou fingindo! Estou atuando! Lembra? Sou um ator! Em um momento estou tranquilo... não tranquilo, mas controlado. Vendo você tão adorável era reconfortante após passar uma semana inteira sentindo sua falta e temendo que você pudesse gostar de Kijima o suficiente para me deixar. Então eu vejo você com Aiko e fico pensando como seria bom se nós fôssemos uma família e você fosse minha esposa e mãe dos meus filhos, e então eu me assombro porque eu nunca pensei em ter filhos mas de repente lá estou eu, com tais pensamentos, e em seguida eu me sinto um verdadeiro animal por somente conseguir pensar sobre me afundar em você em cada canto deste apartamento, em todas as posições possíveis. E quando eu me congratulo por ter conseguido sobreviver a mais uma provação, aquilo acontece!"

Em algum momento durante o desabafo de Kuon, Kyoko se levantou do chão do quarto e entreabriu a porta, observando-o, por uma fresta, caminhar desesperado de um lado para o outro da sala, até finalmente dar uma pausa para respirar e se atira no sofá. Com os cotovelos nos joelhos e as mãos cruzadas diante da testa, ele não viu nem ouviu quando Kyoko abriu totalmente a porta e ficou a observa-lo murmurar o resto do relato angustiado.

"Agora eu vou ter que conviver com a imagem na minha cabeça. Deus do céu, como eu vou trabalhar amanhã neste estado? Eu não sonhei, certo? Aquilo estava realmente ali, na minha frente. Tão delicado e adorável e... róseo! O que eu vou fazer? Preciso esquecer! Esqueça, esqueça, esqueça..."

"É verdade?" Ele deu um pulo de susto. Era óbvio que não contava com ela ali, a alguns passos de distância, olhando espantada para ele. "Você... não está decepcionado?"

Ele precisou rir da situação. Ele, decepcionado? Se ela soubesse o tamanho da ereção que ele tentava controlar...

"É verdade, Corn?"

"Ela escolhe os momentos mais estranhos para evocar o amigo de infância", ele pensou. Como se os pensamentos dele já não fossem pervertidos o bastante sem ela fazer isso.

"Sim, é verdade. Você me tem na mais profunda agonia, agora que eu tive um vislumbre do paraíso. Satisfeita, agora?"

"Mas... foi só um vislumbre!". Se as palavras dela não o assustassem, o simples fato de que ela se aproximava lentamente dele faziam sinais de alerta soarem, o bastante para que ele buscasse refúgio afastando-se dela e se recostando no sofá.

"Um vislumbre é o suficiente", ele respondeu nervoso.

"Não, não é. Como eu posso ficar aliviada achando que você não está decepcionado, se você viu tão rápido?"

Não havia saída para aquilo e Kuon sabia, mas ainda assim ele tentou. Pelo bem da escassa sanidade mental que restava a ele.

"Acredite, eu vi o bastante!"

"Não acredito" O que era aquilo? Ela estava fazendo beicinho? "Não acredito em você, Corn. Eu preciso ter certeza de que você realmente viu, porque só assim eu vou acreditar quando você disser que não está decepcionado!"

"Ah, não, eu não acho que..."

"Por favor, Corn!"

"Kyoko, pare..."

"Eu preciso de uma opinião técnica!"

"Pffftt... Opinião técnica? Que diabos é isso, agora? Opinião técnica? Mulher cruel, você quer me matar, esta é a verdade!"

Ele estava rindo nervosamente, mas parou imediatamente quando as mãos trêmulas dela subiram aos botões da blusa sem mangas. Sem deixar de olhar para ele, ela desabotoou cada um dos pequenos botões, até finalmente deixar as alças escorregarem pelos ombros, revelando o sutiã lavanda que usava.

Kuon observava atentamente, sem piscar, os movimentos hipnóticos das mãos dela. Cada novo botão aberto era um nó a mais em sua garganta. Ele engoliu em seco quando a blusa foi aberta o suficiente para revelar a peça íntima. Seus olhos apenas desviaram da imagem que ela revelava quando as mãos dela se moveram novamente, desta vez para a parte da frente do sutiã.

Quando o primeiro mamilo ficou visível, ele gemeu. Aquilo não estava acontecendo de verdade. Ela não estava se revelando para ele.

Kyoko não desviava os olhos de Kuon, intrigada com as reações dele a cada gesto dela. Ela estava com vergonha, claro que ela estava com vergonha, por isso evitava remover totalmente as peças de roupa, mas era tão poderoso domar o "Imperador da Noite" que Kyoko simplesmente se concentrou mais na tarefa do que na modéstia que a impelia a se cobrir.

Quando os dois seios ficaram totalmente à mostra, ela viu uma gota de suor escorrer do rosto dele, o pomo de Adão se mover freneticamente e um som gutural que apenas atiçou a ousadia que ela sentia. Após se deixar observar por alguns instantes, ela fez a pergunta que jamais pensou em fazer, mas agora agradecia aos céus pela possibilidade de fazê-la, já que era uma dúvida que às vezes a deixava receosa e insegura.

"E... então?"

Ele apenas olhou brevemente para o rosto dela e de volta para os seios. Ele ora cerrava os punhos, ora esfregava lentamente as palmas das mãos nos joelhos. Os olhos dele pareciam escurecer a cada segundo, e conforme escureciam, o olhar se tornava mais intenso, até ela sentir como se ele a tocasse onde os olhos dele pousavam. Ele sorriu satisfeito quando os mamilos dela reagiram ao escrutínio dele, enrijecendo.

"Ótimo, eu não quero ser o único enrijecido aqui", ele pensou.

"Você... não vai falar nada?" O sorriso malicioso que ele exibia agora começava a deixa-la nervosa. Kyoko não sabia, nunca quisera em saber, mas por mais estranho que fosse, "Tsuruga Ren" era virgem. Portanto, por mais que Ren e Kuon já não fossem mais personas distintas, quando o assunto era sexual Kuon assumia completamente o controle. Este era provavelmente o único aspecto de Kuon Hizuri que não foi amenizado pelo amadurecimento como Tsuruga Ren, e Kyoko estava inadvertidamente brincando com todo o lado selvagem e carnal de um homem sedutor.

E ele agora tinha toda a intenção de brincar de volta.

"Não me apresse. Você pediu uma opinião técnica, então eu preciso avaliar cuidadosamente"

Quando ela começou a se contorcer, ele se deu por satisfeito. A voz dele era baixa, rouca e pecaminosa ao finalmente responder.

"Seus seios são lindos. Os seios mais lindos que eu já vi". Ela pareceu aliviada, mas apenas por um segundo, e logo estava franzindo a testa. "O que? Não é técnico o suficiente para você? Ok, então: as aréolas são de um tom rosado que eu considero particularmente excitante, e os mamilos... bem, digamos apenas que eu perderei algumas noites de sono por causa deles. Seus seios são adoráveis, perfeitamente proporcionais ao resto do seu corpo e simétricos, e aposto que são densos e firmes e do tamanho exato para caberem nas palmas das minhas mãos. Minha avaliação foi técnica o bastante, agora?"

Ela parecia tão chocada que as palavras que ela disse em resposta o surpreenderam profundamente. "Você quer toca-los?"

Se a intenção dele fosse constrange-la o bastante para ser deixado em paz, ele teria se decepcionado. Mas longe disto, Kuon estava satisfeito por ter encontrado uma parceira à altura das provocações dele, por mais que ele ainda pensasse em se controlar para não deixar a situação ir longe demais.

Mas diabos, ele sentia a falta dela. Ele sentia falta do relacionamento que tinham antes das regras que ela impôs meses atrás, e agora avaliava que se desvendarem aos poucos era o meio-termo ideal para eles, para construírem intimidade antes do passo final.

Em resposta ao oferecimento, ele apenas levantou a mão, deixando a cargo dela decidir o que fazer a seguir.

N/A – Ok, eu sei que é maldade terminar aqui, mas eu juro que isto é tudo que eu consegui fazer no escasso tempo que eu tenho. Nem eu mesma sei como consegui produzir os capítulos desta semana, quando meu planejamento me dizia que só semana que vem eu conseguiria!

Como sempre, obrigada por me acompanharem! Beijos!