Regina estava tentando trabalhar, mas seu corpo não estava colaborando o mínimo possível. Seu estômago doía e a cabeça latejava, e a cada segundo uma vontade de vomitar todo e qualquer nutriente do seu corpo se fazia presente. Ela olhou pela janela e apertou-se ainda mais contra seu casaco. Devia estar com febre.

Infelizmente, ninguém iria trabalhar por ela. Marian pedira demissão, e agora a contabilidade voltava às suas mãos. Nada que ela não estivesse acostumada. Seu telefone tocou e ela oscilou antes de responder. Ultimamente, todas suas ligações vinham carregadas de maus presságios.

"Regina."

"Querida."

A voz de Joseph Nolan escorreu pelos seus ouvidos como um elogio, um carinho feito de leve em seus cabelos.

"Joseph. Como você está?"

"Bem. Este velho aqui é feito de aço, querida. Vou durar mais um século."

"Eu rezo para que sim."

"O David me ligou."

Ela respirou fundo. Amava Joseph demais para envenená-lo ou discordar dele a respeito de seu filho. "Joseph, eu..."

"Regina, eu não vou tomar lado de ninguém. Vocês estão com problemas, tudo bem. Mas sendo minha nora, ou não, eu vou continuar te vendo como uma filha."

Ela sentiu o peito ardendo, e segurou-se firmemente para não chorar.

"Eu amo você, Joseph. Você é o pai que eu perdi." A voz dela saiu trêmula, e ele sabia que ela estava prestes a chorar.

"Então tudo bem você vir aqui fazer um almoço para o seu velho pai no final de semana?"

"Claro" Ela sorriu. "Mas você sabe que eu não sou nenhuma chef."

"Qualquer coisa nós compramos no restaurante e fingimos que foi você quem fez."

"Combinado."

"Beijo, querida. Até breve."

"Beijo, Joseph."

Quando desligou, Regina sentia-se infinitamente melhor.


Ela ouviu toques na porta.

"Entre."

"Prefeita?"

Regina sorriu ao ouvir a voz familiar e levantou-se. Henry entrou, ainda com a mochila na costa.

"Regina, Henry. Não precisa me chamar de prefeita."

"Estamos na prefeitura, quis ser educado."

Ela beijou-o na testa.

"O que está fazendo aqui?"

"Vim ver como estava."

Regina olhou-o com carinho e se afastou novamente, indo até a mesa. "Fique a vontade. Estou apenas terminando um relatório maçante."

"Você está com uma cara péssima, me perdoe dizer."

"Gripe."

Ela levantou os olhos e o viu esboçar um sorriso tímido. Ele sabia que era mentira, mas preferiu aceitar.

"Eu trouxe um presente."

"Henry" Sorriu. "Não precisava."

"Para melhorar da sua 'gripe'."

Ela gargalhou e ele levou a caixa de bombons com formato de coração e um cd até a mesa dela. Regina levantou-se e o abraçou com força, apertando-o alegremente contra ele.

"Obrigada. Você é o menino mais doce que eu conheço."

"Acho que você não conhece muitos..."

"Não mesmo. Mas não vamos entrar em detalhes. De quem é o cd?"

"Trilha sonora de Guardiões da Galáxia."

"Está brincando!"

"Não." Ele sorriu, e ela o adorou naquele momento.

"Eu adorei as músicas! Se falar que é coisa de gente velha, te dou uns tapas!"

"Bem, eu preciso ir para casa antes que a Emma brigue comigo. Venho quando puder, tudo bem?"

"Claro, meu querido. Onde quer que eu esteja, você será sempre bem vindo."


Quando chegou ao apartamento, Regina encontrou Ruby elegantemente vestida. Usava um tubinho preto e brincos de pérola, os cabelos presos em um rabo de cavalo amarrado através do próprio cabelo. Bem maquiada, perfumada, e com uma tornozeleira dourada com um pingente de lobo que caía sobre os elegantes saltos vermelhos.

"Uau" Suspirou Regina, entrando no quarto. "Onde você vai tão maravilhosa assim?"

Ruby sorriu, e a segurou pela mão, levando-a até a cama. Quando as duas sentaram, Regina gargalhou.

"Espero que não esteja dando em cima de mim."

"Convencida" Resmungou Ruby, mostrando-lhe a língua numa careta infantil. "Eu queria falar com você a respeito. Graham e eu andamos conversando, e..."

"Graham? Tudo isso é para ele?"

"Espero que não me odeie por isso, Regina. Ele não é uma pessoa ruim, só tomou decisões erradas."

"Ruby."

"Eu sei que ele é seu ex-namorado, e é esquisito. Mas ele me faz bem, e eu..."

"Ruby! Me deixa falar, menina!" Regina gargalhou, descontraída. "Tudo bem você e o Graham saírem juntos. Claro, eu fico preocupada com você. Mas você sabe se cuidar, e ele sabe que se fizer qualquer coisa que te magoe eu vou matar ele, então tudo bem."

"Sério?" Os olhos dela brilhavam de alívio.

"Claro. Eu quero te ver bem, querida. E se for com ele, tudo bem. Graham é um cara muito legal quando quer."

Ruby a abraçou, apertando-a com força contra si mesmo.

"Eu te amo, Regina. Você é a irmã que eu sempre quis."

"Ufa. Se me chamasse de mãe eu ia me sentir muito velha."

"E o Robin?"

Regina deixou o sorriso desaparecer de seus lábios. "Depois falamos sobre isso. Que bolsa você vai usar?"


Ruby tinha saído há pelo menos uma hora quando a campainha tocou novamente. Regina já estava vestindo jeans e a parte de cima do pijama, uma blusinha de alças flanelada. Ela levantou-se a contragosto do sofá e abriu a porta.

"David?"

"Posso entrar?"

"Pode."

Regina abriu espaço para que ele entrasse e fechou a porta. David entrou, mas ficou perto dela, com as mãos nos bolsos da jaqueta. Ela acenou para o sofá, e ele sentou-se. Ao notar ele olhando furtivamente pelo apartamento, ela o reconfortou.

"Estamos sozinhos, se é o que está tentando descobrir. Ruby tinha um encontro."

"Certo." Ele pareceu relaxar os ombros, e recostou-se no sofá, olhando para ela com um rosto abatido e cansado.

"Quer beber alguma coisa?"

"O que tem aqui?"

"Eu comprei uísque e Martini."

"Eu aceito uma dose dupla de uísque."

"Com duas pedras de gelo." Sorriu ela.

Ela entregou o copo para ele, e sentou-se no outro sofá, ficando frente a frente com ele. David bebericou um pouco da bebida, e limpou a garganta para começar a falar.

"Há quanto tempo você está apaixonada por ele?"

Regina mordeu o lábio inferior antes de começar a falar.

"David, por favor." A voz dela estava calma e serena. "Não faça isso."

"Não estou perguntando para te torturar, Regina. Estou perguntando porque amo você. Se você pudesse ficar com ele, e soubesse que eu não iria te odiar nem tentar fazer da sua vida um inferno, você ficaria com o Robin?"

Os olhos dela marejaram, e ela segurou o copo com mais força. Seu coração parecia um canhão do exército, explodindo a cada batida.

"Sim, eu ficaria."

Ele bebeu o resto da bebida em apenas um gole. Voltou a olhar para ela, sério.

"Então você deve ficar com ele."

"David, eu..."

"Olha" Ele olhou para longe, e respirou fundo. "Eu não sou ninguém para te acusar. Para me fazer de vítima. Eu sei que você sabe sobre a Mary Margareth. Sim, eu a levei para casa e transei com ela na nossa cama, porque eu queria que você sentisse o quanto machuca." Regina não demonstrou nenhuma reação a não ser choque. "Mas isso doeu mais em mim do que em você. Eu já tinha a feito gozar no escritório, e havia sido infiel com você. Talvez você já tivesse me traído ou não, mas não importa. Eu te traí também. Sou culpado, tanto quanto você."

Regina limpou uma lágrima que escorreu, e o interrompeu, com a voz trêmula.

"Por que está me contando isso?"

"Porque Regina" Ele apoiou o corpo para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. "Eu não a amo. Eu amo você. Eu senti tesão e fui em frente, e ela estava envolvida o suficiente para aceitar sem questionar. Na verdade, a traição foi recíproca."

"Mas você jogou minhas roupas pela varanda."

"Eu sei e peço desculpas por isso. Você feriu meu orgulho. Eu te traí e você me traiu, tudo bem. Mas você se apaixonou. Foi isso que me deixou furioso. Você ia me deixar para ficar com o cara, enquanto eu pensava em você quando estava com outra. Era uma diversão para mim, e para você, era amor. Foi isso que me enlouqueceu, porque com isso não dá para conviver. Não dá para competir com isso."

"David"

"Mas aí a minha ficha caiu, entende? Eu soube que você estava arrasada, e eu não sei o que aconteceu com você e o Robin. Mas se você o ama, Regina – fique com ele. Eu te amo o suficiente para te deixar livre."

"Eu..."

"Não se desculpe. Mesmo que eu lhe dissesse que te aceito de volta e você voltasse, seu coração ainda seria dele. E eu não quero você assim. Se não posso tê-la por inteira, prefiro ficar sozinho."

"Mas e a Mary? Você não gosta dela?"

"Ela é uma mulher incrível, mas não é você. Me sinto atraído e não elimino a hipótese de algum dia sentir algo mais, mas ainda é muito cedo. Tenho um negócio para gerenciar."

"Sobre o negócio..."

"Eu já descobri o que você fez. E o Wale também. Você precisava ver a cara dele quando descobriu que me deu todo aquele dinheiro de mão beijada. Não tenho palavras para agradecer o que você fez, Regina."

"David, eu não quero que me odeie. Isso para mim é agradecimento suficiente."

"É impossível que eu odeie você, baby. Você é família. Meu pai te considera uma filha. Me desculpe por te tratado daquela maneira. Mas as coisas vão melhorar. Algum dia, eu poderei te chamar de amiga. Não agora, mas um dia."

David se levantou, e se aproximou dela, beijando-a na testa.

"Não quero que você desapareça da minha vida, Regina."

Regina levantou-se e o abraçou. "Eu não vou."