Eu não sou um homem, sou um campo de batalha.

- Friedrich Nietzsche

Rufus Scrimgeour irrompeu pelo quarto a despeito dos aurores que tentaram convencê-lo a não fazê-lo. A cama estava coberta de sangue, assim como os braços do medibruxo; as curandeiras estavam às voltas, indo da cama onde Valkiria jazia inconsciente até um berço onde murmúrios baixinhos se faziam ouvir. A cena suscitou no loiro um forte arrependimento por não tê-la procurado antes daquele dia, e o fato de estar ali somente por ter ouvido o comentário de que a cadela estava quase morrendo ao parir as crias fazia-o se sentir ainda mais amargurado. Sabia que não devia aquilo a ela, não lhe devia coisa alguma, bem verdade, mas havia um impulso estranho dentro de si que fazia-o preocupar-se em demasia e cada vez mais com o bem-estar dela – para se fazer acreditar no mínimo.

- O senhor não pode ficar aqui, Scrimgeour, sinto muito! - Falou uma das curandeiras, enérgica, se aproximando para tentar empurrá-lo educadamente para fora do quarto.

- O que está havendo? Por que ela está desmaiada de novo? Há apenas uma criança no berço? - Ele questionou, insistindo em adentrar o espaço, ter a visão do berço, e do que só não lhe impressionava por ser um auror experiente e já ter visto coisas bem piores antes.

- Ela desmaiou assim que entrou em trabalho de parto. A gravidez sempre foi de risco, o senhor sabia disso, e os bebês acabaram vindo muito cedo... somente uma nasceu, por enquanto, pequena demais para podermos afirmar que será saudável, precisará de muitos cuidados. Merlin queira que a outra nasça o mais rápido, para ter mais chances de viver! Só poderemos fazer algo em relação à Sra. Rookwood depois que ela nascer.

Na medida em que elucidava, ela esforçava-se também para voltar a afastá-lo, e foi bem-sucedida ainda que ele permanecesse olhando para trás a cada segundo.

- Não há como priorizar a vida dela? - Rufus questionou assim que alcançou novamente a porta, fazendo a curandeira e os dois aurores que ouviram suas palavras olharem para ele como a um blásfemo.

- Mas é claro que não! Temos uma obrigação com a vida desta senhora, sim, mas as crianças vêm em primeiro lugar! Se só tiverem chances de sobreviver em detrimento da mãe, assim será! - A bruxa decretou e fechou a porta de maneira hostil.

Scrimgeour permaneceu longos segundos fitando a madeira cerrada perante seu rosto, indignado com a forma como a curandeira conseguia deter absolutamente a razão, afinal nada havia de mais lógico do que salvar primeiro as crianças inocentes, e somente depois a ré convicta de crimes contra a humanidade. Ele mesmo defenderia aquilo com unhas e dentes se não se tratasse de Valkiria. A loira em seu desamparo tomava seus pensamentos agora de forma quase sufocante; ela agia exatamente como uma inocente que fora abusada, humilhada de forma a ser completamente desacreditada, tanto que não poderia confiar em mais ninguém que não ele. E ela o procurou, contou-lhe coisas facilmente verificáveis ainda que de cunho altamente pessoal, coisas que ela não contaria a qualquer um – algo que não faria se não estivesse pedindo ajuda de forma velada. Ele fora um burro de não ter lhe procurado antes, e agora poderia ser tarde demais.

- Chefe... - a voz soou antes que ele pudesse sentir um toque receoso sobre seu ombro. - Não acha melhor voltar para o Ministério? Nós ficaremos aqui, te avisaremos assim que houver alguma novidade.

- Eu agradeço, Williamson, mas serão vocês que retornarão ao Ministério. - O olhar do auror caiu frio sobre seus subordinados, que se entreolharam confusos. - Eu ficarei aqui. Esta porta não precisa ser guardada. Não creio que uma senhora inconsciente e se exaurindo em sangue tentará fugir. Vão, agora!

Quando estava prestes a repetir a ordem de modo a fazê-la ser obedecida quisessem os dois ou não, eles se viraram contrariados e apertaram o passo para deixá-lo a sós no corredor. Scrimgeour se jogou em uma cadeira, sem se importar com as eventuais pessoas que passavam por ali reparando em sua consternação. O mundo não existia além do suspense que o separava de Valkiria e de tudo o que gostaria de dizer para ela naquele momento.

Depois do que pareceu ser uma eternidade, a porta se escancarou violentamente para as curandeiras passarem rapidamente com o berço flutuando entre elas, onde duas bebês muito pequenas pareciam incomodadas com respiradores que pareciam bolhas transparentes e delicadas em seus rostos. As bruxas seguiram com elas até desaparecem em uma curva, certamente estavam as levando para receberem atendimento especializado. O homem não pôde vislumbrar muito do que continuava acontecendo dentro do quarto, além da predominante cor vermelha sobre a cama, e bufou exasperado escondendo o rosto entre as mãos, se preparando para mais uma espera torturante.

- O senhor está parecendo o pai das crianças. Isto não é apropriado, Scrimgeour. - Censurou sem cerimônias a voz de Crouch, e quando Rufus voltou a abrir os olhos se deparou com ele em sua frente, soturno.

- Se eu fosse o pai das crianças, teria corrido atrás delas quando as curandeiras passaram. - Contrapôs, enquanto o outro se sentava ao seu lado, com uma expressão cansada.

- Se você fosse, estaria em Azkaban agora, meu caro. É lá que o Rookwood está, e mesmo que estivesse em liberdade, tenho minhas dúvidas de que ele legitimamente fosse acompanhar seus filhos com alguma preocupação.

- Filhas... - corrigiu, prontamente, tentando ignorar a comparação com aquele homem maldito, por mais retórica que ela fosse. - Devem caber na palma da mão de tão pequenas...

- E o senhor está preocupado com elas, ainda que tente não deixar transparecer, meu caro.

Os dois trocaram um olhar baixo e silencioso. Não era exatamente agradável ter a voz de Crouch a substituir a da própria consciência, principalmente quando Rufus sabia que ele próprio tinha muitas mentiras para contar a si mesmo nos últimos tempos. O velho juiz estava em uma situação de longe mais delicada do que a dele, tivera que mandar o único filho para Azkaban e agora via a mulher definhar cada dia mais. Quando sentiu a mão dele a bater de leve em seu ombro, caiu em si de que Barty abandonara tudo aquilo por um momento apenas para consolá-lo. O sorriso que ele lhe lançou a seguir foi completamente cúmplice e o auror pela primeira vez se sentiu seguro para falar:

- Ela é inocente, Crouch. Aquele desgraçado a manipulou o tempo todo. Você também acredita nisso, não é mesmo? - A voz embargou um pouco, ao invocar a opinião do outro.

- Se eu admitir isto, estarei admitindo que Rookwood é excepcionalmente hábil e inteligente. Valkiria não era uma jovem tola a ponto de deixar-se ludibriar por um ladino, simplesmente. Por outro lado, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e seus seguidores se mostraram muito talentosos com maldições imperdoáveis, eles de fato eram capazes de manter pessoas sob Imperius por anos. Ou ela cedeu de boa vontade ao uso pelo marido e colaborou com ele o tempo todo, ou ela foi presa pelas Artes das Trevas e obrigada a agir a favor deles como o senhor imagina. Chegarei a um veredito quando ela for julgada.

Todo o discurso ponderado e imparcial de Crouch fez vir à tona as palavras de Valkiria em sua carta. As Artes das Trevas a perseguiam, sempre estariam em seu pé tentando puxá-la, arrastá-la, pela maldição de sua ascendência. Mas em um mundo sem Grindelwald e sem Voldemort, talvez ela tivesse a real chance de se reerguer e iniciar tudo como se o passado não existisse e suas origens fossem irrisórias. Scrimgeour ansiava por dispor aquela oportunidade a ela.

- Valkiria manifestou a vontade de divorciar-se de Rookwood o mais rápido possível. Irá conceder isto a ela? - Questionou o mais indiferente que pôde, mesmo que soubesse que o outro não deixaria nada passar.

- Ela não teria dinheiro sequer para concluir o processo, se divorciasse. - Ele falou, suscitando o olhar surpreso do auror. - A propriedade na Irlanda e em Düsseldorf, os cofres em Gringotes, nada jamais fora legitimamente dela, e sim de Reiniger, que lhe cedia o direito de uso. Há alguns meses ele retirou este poder dela e passou-o unicamente para o filho dela, Caesar, que não pode decidir sobre nada ainda por ser apenas uma criança. Ela e Rookwood possuem algum dinheiro guardado, não é muito, mas seria o suficiente para ela poder recomeçar com os filhos caso seja inocentada. Eu não aconselharia o divórcio por hora.

- Ainda que ela se casasse novamente com outro homem que custeasse este divórcio?

- Isto talvez até mesmo a auxiliasse no julgamento para provar que seus laços com o marido, ou ex-marido, eram incômodos e dignos de serem rompidos na menor oportunidade, mas, Scrimgeor, é a sua vida. Pense bem. Ela pode ser inocente para você agora e se provar assim para o tribunal, mas você sempre se perguntará, mesmo que somente nas horas mais taciturnas, se ela não poderia ter feito nada pelo próprio feitio. Os filhos dela, são dele, não seus, e você não poderá ignorá-los ou deixá-los para trás. Ela poderá sair lesada daquele quarto se sair viva, necessitar de cuidados, assim como as gêmeas, e você estará para sempre preso à lembrança desses dias, em que todos a tomam por Comensal sem titubear. Não é um destino que eu escolheria se tivesse a oportunidade.

Rufus observou atentamente os modos do homem enquanto falava, tentando encontrar algo além da irrepreensível e justa reflexão ponderada. Por que não conseguia partilhar dela? Por mais que racionalmente concordasse com cada palavra e fosse capaz de dar um conselho idêntico se um amigo estivesse na mesma situação, os impulsos ainda eram outros, e insanos. A oportunidade de prosseguir com seus planos passados e cumprir com a palavra que dera a si mesmo – a de que Valkiria seria dele, não importasse o quê – motivavam-no sobremaneira; até mesmo os filhos do verme lhe pareciam amáveis pela ótica egoísta, afinal até o mais frio dos homens odiaria aquele que assumisse sua família, e ouvir seus filhos chamando outro de pai doeria em qualquer peito. Não importavam os malefícios de casar-se com ela, quando o controle de toda a situação parecia perfeito para as suas mãos.

Antes que pudesse responder a Crouch, a porta do quarto se abriu e o medibruxo, com um olhar estarrecido e exausto, e os braços ainda cobertos de sangue, dirigiu-se aos dois que estavam sentados em sua frente:

- Todo o possível foi feito, já era para ela ter voltado para nós... ela está viva. - Ele adicionou, assim que percebeu a expressão de desespero que se formou no rosto do auror. - No entanto, permanece desacordada.

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- Você não acha que nossos filhos morrerão, acha? - A voz dela soou no frio da cela, mais fraca do que os gritos dos outros prisioneiros, e tão etérea que certamente seria esquecida. - Eu não pude evitar que eles nascessem antes do tempo, Augustus, sinto muito.

Ele sentiu-a sentando-se em seu lado, e pôde até vê-la, abatida e com feições sonolentas, como se estivesse mais uma vez lutando contra o sono. No entanto, não havia calor nenhum em sua presença, e homem não se sentia em nada impelido a tocá-la.

- Você não deve pedir desculpas a mim. Não deve pedir desculpas a ninguém, na verdade, eles nasceram quando deveriam nascer, e se o fizeram, certamente sobreviverão. - Ele falou, mais por consolá-la do que por convencer-se das próprias palavras.

- Eu temo não conseguir livrá-lo daqui... ah, Augustus, eu seria capaz de ficar aqui neste estado só para não deixá-lo sozinho, só para não ter que fazer as coisas terríveis que terei que fazer se quiser minimamente manter a mim e as crianças em segurança...

- Eu não quero você aqui neste estado, Valkiria. Você foi treinada para fazer coisas terríveis, e você não é ninguém se não for desafiada a fazer algo ainda mais complexo. Livrar a si e as crianças é só o primeiro passo, os próximos te guiarão até mim, eu tenho certeza disso. Não fique, retorne, você nunca saberá se eles sobreviveram se não o fizer.

- Augustus... eu acho que são duas meninas... - ela murmurou, enquanto balançava-se de leve, abraçada nas próprias pernas.

- Bem, dê um jeito de dizer a elas que eu as amo e que acabarei com a raça de qualquer imbecil que ousar se aproximar delas quando eu sair daqui. Estou falando sério. - Completou, quando a ouviu rir tristemente. - Se puxarem para a sua família, sairão lindas, se puxarem para a minha, bem, acredito que se pareceriam com Ailís, ou seja, sairão lindas de toda maneira. Se não forem azedas como você, teremos muitos problemas com o excesso de pretendentes.

- Oras, cale-se, isso não é preocupação para se ter em uma cela em Azkaban! - Ela elevou a voz, parando de balançar-se para olhar para ele, indignada.

Sua figura pequena estava coberta com uma espécie de cortina de névoa, que o fazia ter a impressão de poder vê-la com nitidez quando não poderia se ater aos mínimos detalhes, tal qual um sonho se fazia, e ele reconhecia-o. Mesmo naquelas condições, sabia dizer quando os delírios eram oníricos, e estava tão acostumado com as visitas dela pela noite que até se alegrava por tê-la olhando para ele daquela forma. Num revés de vontade enlaçou-a em um abraço, e sentiu o toque dos lábios contra os dela, uma mera lembrança, uma sensação vaga, algo para odiar ao acordar como em todas as outras vezes, e ainda assim queria cair naquela ilusão o máximo que podia antes de fazer o que devia ser feito.

Acordar.

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O branco do teto desta vez irritou-a tanto que instintivamente levou a mão direita contra os olhos recém-abertos, cerrando-os novamente e reabrindo-os de leve para perceber o que pesava em seu dedo e batera contra a testa de maneira tão dura e fria. O ouro e o diamante se definiram aos poucos para a sua visão, e ela se viu acordando da maneira que desejou tantos anos atrás, quando viu o anel de Claddagh de Augustus em seu dedo. Aquele era de Scrimgeour. Em um impulso doloroso lembrou-se de como afirmara perante Voldemort que a destruição abria espaço para coisas novas nascerem, e sabia que o que presenciava era exatamente aquilo. Não desejava, execrava, sentia vontade de enlouquecer, matar a todos, destruir a vida e o destino por terem interrompido tudo aquilo que ela amava. No entanto, ao sentir a mão de Rufus sobre a dela e ao vislumbrar seu olhar, ao mesmo tempo alegre e preocupado, sorriu com o máximo de beleza que pôde.

- Rufus, eu... o que está acontecendo? - Murmurou rouca, a voz lhe falhando na garganta.

- Desta vez você ficou catorze dias desacordada. Não se lembra de nada? - Ele perguntou ao invés de responder, e parecia haver alguma esperança em sua voz de que ela lhe respondesse afirmativamente.

- A última coisa de que lembro-me foi da dor lacerante... eu entrei em trabalho de parto, não é mesmo? Eles estão bem? - Agitou-se por um momento, reconstruindo, com tudo, a angústia por não ter notícias dos filhos.

- São duas meninas... elas nasceram muito pequenas, estão incubadas para ganharem peso. A mais velha é perfeita, a mais nova necessita do respirador ainda, mas em algumas semanas elas deverão estar bem. Estão sendo bem-cuidadas.

- Eu quero vê-las! - Ela exclamou, antes de sentir a mão dele mais forte sobre a dela, um pedido mudo que se acalmasse. - Irão permitir que eu as veja?

- Eu permitirei, Valkiria. Seja qual for o resultado do seu julgamento, eu estarei disposto a adotá-las e criá-las como minhas filhas. Se você aceitar usar novamente este anel, poderemos lutar juntos pela sua liberdade e dar para elas uma família de verdade. - Ele beijou a mão dela, cobrindo-a entre as suas no final, os olhos fixos e determinados nos dela. - Eu lutarei pela sua liberdade, independente de qualquer coisa. - Corrigiu-se.

- Eu não mereço tal coisa, Rufus, ainda me lembro de como eu rejeitei este anel... eu era tão burra... - murmurou, desviando o olhar e encolhendo de leve os ombros, sentindo o corpo cansado ceder facilmente à postura baixa.

- Valkiria, este anel nunca teve outra dona, ele sempre foi seu. - Rufus adiantou-se para a cama dela, sentando-se na beirada e tocando polidamente em seus cabelos bagunçados, guiando sua face para dirigir-se a ele novamente.

Ela soltou um suspiro desolado antes de fitá-lo nos olhos novamente, e ao fazê-lo, lentamente se inclinou para dentro dos braços dele, invadindo a zona de seu calor, sentindo seus hálitos se misturando com uma intimidade há muito esquecida. Ele fechou os olhos quando os lábios dela roçaram nos dele, ainda que estivessem secos, instigavam-no a umedecê-los com a própria saliva e avançar para dentro da boca dela. O gosto amargo da consciência por dias perdida dentro de si em nada abatia a vontade ilimitada dele, que envolveu-a, apertou-a contra o peito enquanto continuava, lenta e dedicadamente a desvendar os mistérios de sua língua. O fluxo do sangue nas veias esquentou-o como há muito não esquentava, pois nem mesmo batalhas eram capazes de provocar-lhe aquele nível de entrega e excitação.

Quando ela gemeu dentro de sua boca, lânguida, e tocou-o no rosto com delicadeza, ele separou-se dela delicadamente e aconchegou-a em seu ombro, acarinhando os cabelos loiros levemente emaranhados entre os dedos.

- É impróprio fazer isto aqui, Valkiria, me perdoe. Você ainda está na quarentena, e, bem... teremos a vida inteira pela frente. - Ele buscou seus olhos mais uma vez, com segurança. - Eu prometo.

- E eu prometo não decepcioná-lo desta vez, Rufus... agora eu sei o que é certo. Irei começar tudo de novo com você.

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- Valkiria Hella Rookwood, você foi trazida aqui, perante o Conselho das Leis da Magia, para ser julgada pelos crimes de espionagem e pela participação nas atividades dos Comensais da Morte. A senhora está se apresentando perante este tribunal em situação especial, devido ao recente nascimento de suas filhas, que ainda encontram-se hospitalizadas em St. Mungus. Já ouvimos as provas contra você e lhe daremos a oportunidade de uma declaração antes de chegarmos a um veredito e lavrarmos a sua sentença.

A mulher tremia algemada na pesada cadeira, ainda que houvesse aurores em seu redor em vez de Dementadores, as condições de saúde dela pareciam tão frágeis que não havia como muitos dos olhares que se dirigiam a ela não serem penalizados. A maioria ainda estava revoltada pelo suposto engodo que a mulher era, mas ainda assim, naquele estado, ela fazia o benefício da dúvida aumentar. Os cabelos amarrados em coque pareciam uma palha sem vida perto da pele pálida, as olheiras arroxeadas sem nenhum disfarce no rosto e o corpo franzino e ossudo, com somente a barriga e os seios inchados, coberto com uma capa simples e negra. O anel fora deixado para trás, pois não seria conveniente a falação que aquilo suscitaria.

- Crouch... Crouch, Bones, Fudge, vocês me conhecem, sabem quem eu sou a despeito da doentia vida familiar que eu levava. Se eu soubesse como pedir por suas ajudas antes de ser tarde demais, acreditem, eu não teria hesitado... mas aquele homem, ele... ele me levou até Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, e o que ambos fizeram comigo, eu sinceramente agradeço por não conseguir lembrar de todo. Só o que permeia a minha mente já é terrível o bastante. - Ela gaguejou enquanto declarava com a voz fraca, entrecortada.

- A senhora deveria ter nos dado algum sinal desta situação, Sra. Rookwood, nós teríamos a capacidade de ajudá-la, sabe disso. - Censurou Crouch, enquanto alguns bruxos que assistiam concordavam aos murmúrios.

- Vocês não têm muita noção do poder de um Imperius lançado pelo próprio Você-Sabe-Quem, não é mesmo? E mesmo nos momentos de lucidez, eu era ameaçada a todo momento em ver meu filho morto... quantos de vocês conseguiriam pedir ajuda neste estado?

Ninguém sequer murmurou perante a pergunta dela, apesar de alguns olharem como se ela tivesse sido por demais petulante.

- Bem, e qual era o interesse especial que Você-Sabe-Quem tinha em você para ele mesmo te amaldiçoar? - Questionou Fudge, sob um menear de cabeça excessivamente afirmativo de sua secretária nojenta.

- Para quem não sabe, meu avô e o irmão dele, o atual Ministro da Alemanha, serviram juntos a Grindelwald e eu fui criada por eles a seguir o mesmo caminho. Em primeiro lugar, meu tio-avô financiava Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado por debaixo dos panos, eu acabei descobrindo pouco tempo depois de chegar na Grã-Bretanha e minha primeira atitude foi querer levar isso a público... em segundo lugar, eu me neguei a me juntar a eles de boa vontade... e em terceiro, não é qualquer bruxo que consegue me amaldiçoar, Fudge, minha resistência é muito boa... - a voz fraca com que falava contradizia o que afirmava, ainda assim cada palavra pareceu surtir um efeito sobre quem assistia e as falas pequenas foram tantas que Crouch teve de bater o martelo e impor ordem.

- Nós recebemos a informação do envolvimento de Korbinian Reiniger e as provas já foram ouvidas. Infelizmente ele está fora da nossa jurisdição, pois toda a movimentação de dinheiro ilegal fora efetuada na Alemanha, cabendo, portanto, às leis de seu Estado julgá-lo. - O juiz declarou com certo pesar. - Sra. Rookwood, há algo mais que queira acrescentar para que possamos atingir um veredito?

- Crouch, se me der a permissão. - O auror loiro de cabelos vastos levantou-se imponente e honrado no meio do público, que voltou-se para ele com surpresa. Após o sinal afirmativo do juiz, ele prosseguiu, seguro: - Eu, Rufus Petrus Scrimgeour, afianço esta mulher por estar convicto de sua inocência. As situações que a levaram a ser manipulada não se encontram mais presentes entre nós, e desta maneira é justo que ela tenha o direito de reconstruir sua vida ao lado dos filhos. Ofereço-me para reconduzi-la à sociedade e acompanhá-la, além de auxiliá-la em tudo o que necessitar.

- Ela continua sendo uma mulher casada. Até onde fui capaz de entender, Sr. Scrimgeour, isto é um indecoro! - Falou com uma vozinha infantil a secretária de Fudge, sem se abalar com o olhar severo do auror sobre ela.

- Nada foi consumado, Umbridge, e não será até que a situação dela seja completamente resolvida. Mas não esconderei de ninguém que pretendo tomá-la por esposa. É até aí que chega a minha confiança no caráter dela. - Declarou, elevando a voz à medida que os burburinhos se tornavam mais altos.

Crouch teve que bater o martelo mais algumas vezes até conseguir ordem para falar.

- E a Sra. Rookwood, está disposta a divorciar-se do seu marido e anular qualquer magia que os mantenha juntos em matrimônio?

- Eu faria isso nem que fosse a última coisa, Crouch. Se eu morresse ainda atada àquele homem, eu teria medo do meu corpo poluir a terra que me enterraria. - Ao dizer isto ela trocou um olhar cúmplice com Rufus, que permaneceu de pé dentre a plateia. Sabia que aquele gesto responderia por completo à pergunta que Crouch temeu fazer com todas as letras.

Valkiria renegava Augustus. Valkiria se casaria com Rufus.

E ela rasgava-se por dentro, sem deixar ninguém perceber a náusea que sentia ao olhar para o auror e ver nele seu futuro próximo. Deveria manter-se livre, não teria nenhuma oportunidade de cuidar dos filhos e conseguir retirar o – ainda – marido de Azkaban se não se mantivesse; mas parecia-lhe que engendrava a cada palavra um labirinto tortuoso que separava-a dele. Conseguiria fazer o caminho de volta quando se tornasse Sra. Scrimgeour? As dúvidas eram tão dolorosas quanto a encenação que fazia, os sorrisos que sua boca desenhava para o loiro e os olhares de piedade que lançava à corte. Mil mentiras atravessavam sua alma e atravessariam ainda quantas vezes fossem necessárias. Ela respirava fundo, o ar ajudando-a a resistir sempre um pouco mais, sempre além do limite do que já sentira.

A guerra para os justos terminara, enquanto a que se travava no interior dela ainda sofria de um longo começo.