Capítulo 38


"Eu não quero saber."

"Mas Booth…"

"Não, não me conte." Booth tampou as orelhas com as mãos. "Eu já falei, quero que seja uma surpresa."

"Como espera que eu mantenha isso debaixo da roupa?" ela discutiu, acompanhando o ritmo dele. "Especialmente com Angela ansiosa para comprar os artigos."

"Debaixo do pano, Bones. E se ela não consegue ficar quieta, terá que manter em segredo para Angela, também." Booth andou pelo estacionamento do hospital, até chegar a SUV. "Hum… quando diz artigos, quer dizer tipo roupas, fraldas e um berço, certo?"

"O que acha que quis dizer?" Ela olhou para ele, interessada, quando entraram no carro.

"Nada…" Seu tom era indiferente, enquanto inseria a chave na ignição. "Olhe, talvez na Terra dos Umpa-Lumpa há alguma tribo que evita intervenção médica desnecessária e tem algum ritual onde todos fazem uma... modesta aposta se será menino ou menina."

"Eu realmente não sei onde consegue essas informações, mas posso assegurar que não existe um lugar chamado Terra do Umpa-Lumpa." Ela cruzou os braços e olhou para fora da janela do passageiro. "O que prefere? Um menino ou uma menina?"

"Bem…" Booth pensou por um momento. "Suponho que por já ter Parker… espere!" Ele bateu as mãos contra o volante. "Não vou responder isso, porque é só uma desculpa para me dizer se estou ou não errado."

Eles ficaram em silêncio, enquanto Booth dirigia de volta ao laboratório. De vez em quando, Temperance lançava um olhar ao seu abdômen. Havia uma saliência, mas alguém que já não soubesse, não conseguiria dizer que ela escondia uma vida dentro de si. Não levaria muito tempo para começar a aparecer, já que sua gravidez estava mais avançada do que ela pensava. A especialista previu uma data de nascimento para 6 de janeiro. Muita diferença do começo de março, como Temperance calculou.

Booth deu uma olhada para ela, que se mexia no banco. "Você está bem?"

"Mmn, não estou me sentindo muito bem no momento," ela disse.

"Se precisa vomitar, só me diga quando, para eu encostar."

"Estava refazendo as contas. Se o parto será no começo de janeiro, então, a concepção deve ter ocorrido no meio do mês de abril." Temperance olhou para Booth, esperançosa.

"O que quer dizer?..." Ele perguntou, parando na vaga de costume. "Oh!" Ele sorriu exultante. "O que quer dizer que podemos dizer exatamente quando fizemos o bebê."

"Concebemos."

"Tanto faz. Ainda assim, significa que eu estava certo ao te tirar do avião algemada." Ele lançou seu melhor sorriso charmoso para ela.

Temperance ergueu as sobrancelhas à expressão convencida dele.

"Não acredito que aconteceu na primeira vez!" ele disse. Booth colocou a mão sobre a coxa dela. "Eu só … queria que tivéssemos descoberto antes."

Temperance assistiu os dedos dele acariciarem a perna dela. "Eu sei. As coisas teriam sido … diferentes." Ela evitou o olhar questionador dele, enquanto Booth entendia o que ela havia dito.

"Diferente como? De um modo bom?" ele perguntou baixo. "Ou ruim?"

"Isso só confirma que meus hormônios têm destruído minhas emoções. Como posso confiar em qualquer decisão que tomei desde então?" ela disse.

"Se quiser," Booth ofereceu, "podemos fingir que os dois últimos meses não aconteceram. Voltar ao modo como as coisas devem ser," ele sugeriu, esperançoso.

"Não, Booth. Isso só complicaria as coisas. E como saberei que ser mais do que amigos era algo que eu deveria te concordado antes de meu corpo ser sobrecarregado com estrogênio e progesterona? Acho que seria mais sensível manter o plano original."

"Eu quero acreditar que ainda temos uma chance, Bones." Seus olhos castanhos olharam dentro dos dela.

"E eu não quero arruinar o que temos."

Booth balançou a cabeça lentamente, lutando para aceitar que ela talvez não o quisesse tanto quanto ele a queria. Tanto quanto ele a amava. "Tudo o que eu quero é que você seja feliz, Bones. O que você realmente quer?"

"Sinto muito, Booth." Ela abriu os olhos e saiu do carro. "Eu não sei."


Camille Saroyan encostou-se no corrimão e observou curiosa o entomologista trabalhando. Ele mal saiu do laboratório nas duas últimas semanas, passando mais tempo ali do que a própria Brennan.

"Hodgins está se escondendo da imprensa." Angela confirmou, por trás do copo de café.

"O que? Por que?"

"Cantilever produziu um lote de produtos defeituosos, e agora está sofrendo vários processos de todos os lados."

"Medicamento?" Cam perguntou, curiosa.

"Não. Testes de gravidez. Eles recolheram tudo, mas há muitas mulheres com raiva por aí."

"Isso, e Bones é uma delas. Apesar de que, para dizer a verdade, também estou com muita raiva." Booth andou pela sala, até a máquina de café. "Porque se o teste tivesse dado positivo, Bones não teria fugido. E agora que penso nisso, ela provavelmente não teria motivo para terminar comigo, e eu seria um dos caras mais felizes do planeta agora."

Ambas as mulheres assentiram, compreensivas.

"Por mais que aprecie sua companhia, Seeley, por que está aqui?" Cam perguntou. "Não temos caso algum, pelo que eu saiba."

"O café daqui é melhor que o do FBI," ele disse.

"Booth," Angela avisou. "Ela não vai gostar de você vigiando-a a cada cinco minutos."

"É por isso que não contará a ela. Posso entrar e sair sem que Bones sequer perceba."

"Wow," Cam pensou. "Você está mesmo tendo um trabalhão, não está?"

Ele sentou-se ao lado delas. "Sou um homem muito paciente. Posso esperar quanto tempo precisar. Forcei-a a tomar uma decisão e olhe onde isso me levou. Ela fugiu para o Peru. Sim, eu cometo erros. Mas nunca o mesmo duas vezes."

Angela se inclinou na direção de Cam. "Bom saber que ele não te vê como um erro."

"É reconfortante."

"De qualquer modo, G-Man. Você já tomou café, e deu uma olhada na Bren." Angela o expulsou. "Agora, vá, antes que ela suba aqui e te pegue."

"Estou indo," ele moveu-se rapidamente, sutilmente olhando para Brennan, que ainda trabalhava.

Cam e Angela sorriram e riram, enquanto ele fugia rapidamente. "Acha que ele vai mesmo voltar ao Hoover?" Angela perguntou em voz alta.

Cam balançou a cabeça. "De jeito nenhum."


Temperance sentou-se à mesa, o olhar perdido sobre o chá de camomila.

"Fale comigo," Angela instruiu, sentada do lado oposto.

Lentamente, a antropóloga pousou a colher e olhou para sua amiga. "O que eu acreditava ser um fato, na verdade, não é. E agora, me vejo questionando meu próprio julgamento racional. Não há dúvida de que Booth e eu temos algo especial e não me arrependo de pedir a ele para ser pai do meu filho. Mas seus desejos para termos um relacionamento mais socialmente aceitável me deixou insegura se devo ou não aceitar os conceitos que passei tanto tempo recusando."

Angela esticou o braço e tocou o de Temperance. "Por que acha que não quer o mesmo?"

"Porque não somos iguais. Somos pessoas muito diferentes, com nada em comum, e quando ele vir quem eu realmente sou, não vai me querer e vai me deixar. E, se ele não tiver esperança alguma, não serei uma decepção para ele." Sua voz era quase infantil, enquanto expressava seus pensamentos.

"Vocês são mais parecidos do que pensam," Angela disse. "E tiram essa força inacreditável um do outro que fazem de vocês... intocáveis. Individualmente são pessoas maravilhosas, mas juntos, são …"

"Perfeitos!" Cam juntou-se a elas. "São perfeitos juntos. Não entendo como ainda não vê isso"

Temperance olhou para ambas as mulheres. "Como posso ter certeza que da próxima vez que ficar tão sério, não arruinarei tudo novamente? Ser abandonado machuca. Muito. Ele merece mais do que isso."

"O que quer que eu diga, Bren?" Angela continuou. "É o resto da sua vida que estamos falando. Precisa ter certeza do que quer."

"Quero um bebê. Nunca considerei nada mais do que isso."

"Talvez devesse," Cam ofereceu.

Temperance suspirou. "Por que Booth tinha que complicar tudo?"

Cam baixou a voz para um sussurro, enquanto Max se aproximava alegremente delas. "Pediu a Booth para te dar um filho. Ele deu. Dê um tempo a ele."

"Hey, importam-se se eu me juntar a vocês, senhoritas?" Max perguntou, servindo café para si. "E quais os grandes problemas do mundo hoje?"

"Na verdade, pai, é ... conversa de mulheres."

"Ótimo," ele se animou. "Sou ótimo com conversa de mulheres. Então, sobre o que estão falando mal? Menstruação? Calorias? Homens?"

"Bingo," Cam sorriu de volta, pegando a olhada astuta dele. "Na verdade, estávamos falando de Booth."

"Oh, claro que estavam. Aposto que todas estavam dizendo que merda total ele é. Afinal de contas, ele está impedindo minha Tempe de contar o sexo do meu neto. E ele mal tentou ganhá-la de volta. Quero dizer, ela vai ter um filho dele. Droga, ele poderia se esforçar mais. Mas não, tudo o que ele faz é dizer que ela é capaz de tomar suas próprias decisões, e quanto ele a respeita."

"Pai!" Temperance exclamou. "Como pode dizer isso? Booth é o homem mais maravilhoso que já conheci."

"Então, por que não está com ele?"

"O que?"

Angela e Cam silenciosamente escaparam do que, obviamente, estava fora de suas mãos.

"Você me ouviu." Max ergueu o queixo da filha e encontrou seus olhos, com sinceridade. "Booth, ele é um bom homem. E é o que eu quero para você, Tempe. Mas o que não entendo é por que não quer isso também?"

"Porque… com Booth, é bom demais. E eu sei que não durará para sempre."

"Querida, sinto tanto, mas tanto, por sua mãe e eu termos ido embora. Honestamente pensamos que seria melhor. Não pode deixar seu medo e raiva prejudicarem o que poderia ser uma coisa maravilhosa para vocês dois. Você terá um bebê, com o homem que ama."

Temperance se levantou abruptamente e desceu rapidamente as escadas, até seu escritório.

"Tempe, onde está indo?" Max perguntou, alcançando-a rapidamente. Quando ele chegou aos pés da escada, sentiu um punho firme segurando seus ombros. Os dois homens trocaram um olhar, e Max permitiu que Booth continuasse a busca.

Booth bateu gentilmente na porta do escritório dela e entrou devagar.

"Se o amor é algo tão maravilhoso, não deveria ser tão difícil," ela concluiu. "Agora, por favor, pai, me deixe sozinha … oh!" Temperance congelou quando percebeu que sua companhia não era quem ela pensava que fosse.

Booth se aproximou e puxou o cabelo dela para trás da orelha. Seus olhos se arregalaram maravilhados, quando sentiu a respiração dele provocar sua pele, e ela engoliu nervosa. "Coisa engraçada, Bones. Por um minuto, quase pareceu que você realmente acreditava no amor."

Enquanto olhava dentro dos olhos castanhos, a tentação de simplesmente deixar acontecer, abandonar-se ao inevitável, se tornou devastadora. Abaixando a cabeça, ela assistiu seus dedos alcançaram e alisaram sua gravata, sentindo uma fagulha ao contato. Ela se mexeu sem rumo, pensando se deveria ou não entrar no abraço acolhedor dele.

Booth assistiu e esperou paciente, seus lábios se curvando em um leve sorriso, enquanto a mulher diante de si lutava com sua consciência. Ele manteve seu braço tranqüilo ao lado de seu corpo, sabendo que, no segundo que ela tomasse sua decisão, ele passaria os braços ao redor dela, e não a deixaria mais ir. Metaforicamente falando, é claro – qualquer tentativa de permanentemente prendê-la, resultaria no maior chute na bunda.

"Não deveria espiar as pessoas," Temperance criticou em voz baixa, ainda brincando com a gravata vermelha.

"Eu bati na porta."

Ela suspirou ao calor da respiração acariciando sua bochecha. "Bateu mesmo," ela disse, erguendo a cabeça, vendo os olhos quentes olhando-a em adoração. "Booth?"

"Dra. Brennan!"

Em perfeita harmonia, eles se viraram para olhar quem interrompeu. O novo estagiário. Booth fez para feia para ela. Wendell ou Nigel-Murray deveriam saber que não deveriam interromper um momento como esse. Até Daisy Wick tinha melhores habilidades interpessoais do que esse cara.

"Dra. Brennan, gostaria de saber se poderia dar sua opinião sobre uma anomalia que encontramos no fêmur."

"Claro." Temperance virou-se para Booth. "Eu só preciso …"

"Claro," ele disse, os dentes cerrados, andando ao seu lado, enquanto ela ia para a plataforma. "Então, hum, quer comer alguma coisa quando terminar por aqui?" Booth perguntou, enquanto esperava pacientemente.

"Não. Mas suponho que deveria," ela respondeu, enquanto trabalhava.

Booth viu quando ela se virou e explicou ao estagiário algo que ele não entendeu. Então, ela se virou para olhá-lo, sorrindo timidamente e andando em direção aos degraus à frente dele. Enquanto Temperance avançava, sua expressão mudou.

Alguma coisa estava errada, e o tempo pareceu parar enquanto seu coração palpitou em seu peito. A preocupação evidente no rosto de Booth foi a última coisa que ela viu, antes de tudo ficar preto.

O alarme que soou pelo laboratório, quando Booth quebrou a segurança e subiu na plataforma, foi ignorado enquanto a equipe corria na direção deles.

Por um segundo, Booth pensou que seus reflexos foram lentos demais, e então, ele a sentiu – cada pedaço do ser frágil que ela era – caiu dentro dos braços dele.

"Ligue para 911," Booth latiu para Cam, enquanto carregava uma Brennan inconsciente para dentro do escritório, deitando-a no sofá. "Bones," ele sussurrou. "Bones, acorde, por favor!"

"A ambulância está a caminho," Cam disse suavemente, da entrada, alguns minutos mais tarde. "Tenho certeza que é … alguma coisa e nada."

Booth se virou para encará-la, sua expressão menos do que convencida. Tão focado na mulher que amava, ele não reparou que todos seus amigos permitiram-no estar aqui. Ângela estava parada, rígida, olhando para Brennan com uma expressão de puro pânico nos olhos, e Hodgins a segurava apertado, acariciando seu braço em conforto.

Booth se virou para Temperance, afastando as mechas soltas do rosto dela. "Por favor," ele implorou, sufocado com o medo, "por favor, acorde, Bones! Seja forte por mim – por nós?" Ele olhou para cima, abraçando-a apertado. "Oh, Deus, pelo nosso bebê."


TBC