Capítulo 37

Se meus dias na mansão Black já eram tortuosos, depois da minha demonstração de insubordinação para com Sirius, eles pioraram consideravelmente. Eu tinha a estranha, porém certa, sensação de que estava sendo vigiada a partir do momento em que colocava a cabeça para fora de casa. Contudo, meu marido descobriria que eu era mais difícil de prender do que ele pensava.

Alvo acabou contando a Perenelle que eu estava sendo seguida e ela, em mais uma prova da bruxa impressionante que era, lançou um feitiço sobre o chalé impedindo que quem estivesse fosse rastreado. E assim, os encontros com Alvo perduraram pelos meses que se seguiram e eu não poderia estar mais feliz…

É claro que, então, alguma coisa atrapalharia essa felicidade.

Eu estava no Ministério, esperando para conseguir falar com um dos responsáveis pela transferência de artefatos mágicos. George começava a ficar mais ansioso do que eu pela chegada do véu negro. De repente, e sem aviso prévio nenhum, como era de seu feitio, tia Sarah apareceu na minha frente com seu par de olhos verde ácido me perfurando por dentro.

— O que está…? - indaguei sendo interrompida por ela.

— Preciso falar com você. - ela disse de imediato. - Agora. - acrescentou ao perceber que eu iria recusar. - Na sua sala, Amélia.

— Estou ocupada. - disse sem me mover.

— Agora. - ela insistiu cheia de eloquência na voz, mas sem demonstrar nada em seu rosto. Tia Sarah sempre teve pressa em ter caprichos atendidos e não somente com sua família.

Era inacreditável que mesmo depois de quatorze anos, ela ainda me tratava como se eu fosse uma criança. E não uma das mais queridas inomináveis do Ministério. Chegamos à minha sala e nenhuma de nós se sentou, visto que uma briga era iminente.

— Do que sou acusada desta vez? - perguntei apoiando um dos pés na mesa.

— Não ouse começar a se fazer de tola comigo, Amélia. - minha tia disse com frieza. - Seu relacionamento com Alvo Dumbledore precisa acabar.

E assim era minha tia. Direta e sem meias palavras ou verdades. Admito que admirava isso nela, pois poupava rodeios desnecessários. Acho que é uma das poucas características que aceito ter herdado dela.

— Todos falam sobre nós? - perguntei cruzando os braços.

— Não, e fico contente que tenha aprendido a ser discreta. Todavia, é comentado que você e Sirius ainda não têm filhos…

— E a senhora acha que Alvo é culpado. - conclui com desdém. - Eu não teria um filho com Sirius Black nem se Alvo não existisse.

— É o seu dever para com ambas as famílias. - tia Sarah começou pacientemente.

— A perpetuação da linhagem da família independe de mim ou de Cornélia. Meus filhos serão Blacks e os dela terão o sobrenome da família do marido dela. - rebati alterando um pouco a voz.

— Ainda assim é…

— Eu não serei a mãe dos filhos dele! - exclamei batendo o punho contra a mesa, e ficamos em silêncio por um tempo.

— Sirius me disse que as tentativas têm falhado desde a consumação do casamento. - ela tentou recomeçar pausadamente. - Até onde sei, nunca houve nenhum problema com você.

— Não há! - cortei começando a sentir minhas mãos tremerem.

— Então como?

— Eu não serei a mãe dos filhos dele. - insisti entre dentes. - E eu não vou parar de ver Alvo só porque o orgulho de Sirius está ferido. - conclui brandamente. - Se é tudo, tia Sarah. - disse indicando a porta.

Ela me deu apenas um leve aceno de cabeça e pôs-se a sair, no entanto, eu sabia que não havia acabado. Ao vão da porta, ela parou e tornou a me encarar.

— Se pensa que essa história vai acabar com um final feliz, então é mais ingênua do que pensei. - sentenciou com uma expressão própria de pena misturada ao orgulho ferido. Eu apenas fiz uma reverência cortês e a segui com os olhos enquanto saía da sala sem fechar a porta ao passar.

Mais tarde, Elifas, Linda, Alvo e eu nos reunimos na casa de Nicolau e Perenelle para comemorar o aniversário do senhor gênio. Embora ele nunca tenha sido de comemorações, Nicolau insistiu para que fôssemos para a casa dele e não poderíamos negar nada a família Flamel. Por sorte seriam apenas nós a comparecer e eu finalmente seria apresentada para os maiores alquimistas da história.

A primeira impressão que tive de Perenelle e Nicolau foi a mesma que qualquer pessoa teria ao encontrar pessoas de renome no mundo da magia. À primeira vista, eles parecem intimidadores, quase inatingíveis, contudo, bastou receber um sorriso daqueles dois para perceber que primeiras impressões nem sempre precisam "ficar". Ela era uma mulher muito bonita e Nicolau possuía o mesmo ar inteligente de Alvo. Juntos, eles formavam um casal formidável.

— Alvo me contou que você tomou conta do meu pequeno jardim por mim. - disse Perenelle unindo nossos braços para que entrássemos juntas na casa.

— Ah, não foi nada. - respondi sem jeito. - Precisava de uma distração para quando estava sozinha. O chalé é realmente adorável.

— Foi a nossa primeira casa. - comentou ela. - Antes que Nicolau e eu nos mudássemos para cá… na Idade Média, um alquimista ter uma casa enorme seria suspeito demais. - acrescentou brincando no final. Eu sorri.

Eu conseguia entender o porquê. O chalé era humilde, ainda que muito bem decorado. Contudo, a casa em que comemoramos o aniversário e no futuro faríamos reuniões da brigada dos loucos, era muito mais glamurosa e imponente. Nos reunimos na sala de estar, até estarmos prontos para o anúncio do jantar. Perenelle nos ocupava com várias perguntas, sendo uma anfitriã muito simpática.

E eu soube da cena que aconteceu no seu casamento. - dizia ela com um sorriso malicioso. - Eu sempre soube que os Black gostavam de atenção, mas aquilo… elevou os padrões.

— Eu me senti a bruxa mais poderosa do mundo expulsando ele de lá. - confessou Linda sorrindo.

— Era só o Sirius, Linda. - desdenhei. - Não o ministro da… ah, espere, deveríamos estar falando de bruxos poderosos, não é? - brinquei. Ambas riram.

— E como foi a sua lua de mel, senhora Doge? - perguntou Perenelle cruzando as pernas e sorrindo maliciosamente para Linda.

— Pelo seu olhar, espero que tão boa quanto a sua deve ter sido. - respondeu a minha amiga, me fazendo cair na gargalhada, enquanto ela mesma corava um pouco.

Desculpe, foi mesmo uma pergunta muito impertinente da minha parte. - desculpou-se Perenelle reprimindo algumas risadinhas. - Mas, acho que posso presumir o melhor para vocês duas.

Queremos saber a piada. - disse Nicolau a alguns passos de nós. - Alvo disse que somente os piores motivos fazem a senhorita Preminger gargalhar assim.

Não foi nada demais. - respondi terminando de beber o meu vinho. - Só estávamos perturbando a Linda e sua vida privada com Elifas.

Às vezes nem parece que ela tem vinte e dois anos. - ponderou Elifas fingindo estar ofendido. - Ainda ri das mesmas coisas que ria aos quatorze anos.

Não se deve esperar muito das pessoas. - concluiu Alvo entrando na brincadeira.

Haha, eu me esqueço do quanto vocês são inteligentes juntos. - desdenhei me levantando.

Por que ela simplesmente não aceita que não pode ganhar de nós? - indagou Elifas virando para encarar Alvo com as sobrancelhas arqueadas.

Já se esqueceu da vez em que ela ficou horas na porta do nosso dormitório te chamando? Ela é obstinada.

Imagine se fosse menor. - lembrou Elifas tentando parecer sério. Nesse ponto Linda limpou a garganta. Minha amiga tinha várias qualidades. Ser alta não era uma delas. - Não que eu tenha algo contra baixinhas…

— Acho melhor parar por aqui, senhor Doge. - sugeriu Nicolau rindo. - Bem, vamos? - chamou oferecendo o braço para Perenelle.

— Vamos. - concordou Alvo vindo até mim para entrarmos juntos na sala de jantar.

— Vai deixar o Eli se safar dessa, Linda? - provoquei enquanto andávamos até lá.

— A vingança apropriada não poderá ser executada entre vocês. - ela respondeu. - Contudo, Mélia, pode estar certa que a lua de mel acaba hoje.

Elifas e eu nos entreolhamos. Ele com cara de quem iria me matar e eu sorrindo vitoriosa. Quando estávamos reunidos era, de fato, uma festa. Linda e eu sabíamos muito bem como brincar com nossos parceiros, fazendo-os corar na frente dos anfitriões que não conseguiam conter suas gargalhadas com as histórias que contávamos. Elifas e Alvo também respondiam as provocações à altura. No fim, um jantar virava uma batalha acirrada sobre quem iria constranger o outro mais vezes.

Muito bem, agora que todos já comemos e estamos cheios demais para constranger um ao outro, - começou Elifas se erguendo da cadeira. - Eu gostaria de aproveitar para entregar ao aniversariante o nosso presente de aniversário, certo Mélia?

Sim. - concordei me levantando também. - Nós pensamos muito no que seria um bom presente, já que esse ano não queríamos enchê-lo de livros ou cuecas, por mais que sejam úteis.

Cuecas?! - indignou-se Linda. - Alvo que tipo de amigos são esses?

— Lin, eu realmente não sei… mas, nunca recebi essas cuecas…

— Eu não via necessidade para elas. - brinquei piscando maliciosamente para ele.

— Muito bem, antes que o nível caia demais, - interrompeu Eli, rindo. - vamos entregar o seu presente. Ele veio das terras longínquas da antiga Grécia, cidade de Atenas e achamos que será o melhor presente da sua vida. Sim, somos pretensiosos o bastante para pensar assim. - brincou Elifas.

Pelo menos foi o que permaneceu com ele por mais tempo. Fui até o quarto onde havíamos deixado o presente dias antes e o trouxe para baixo. Elifas falou muito sobre as fênix em suas cartas sobre a Grécia e eu sabia que Alvo tinha muita admiração por aquelas criaturas. Combinamos, então, Eli e eu, que esse seria o presente ideal. Ele viajou de volta para a Grécia e conseguiu uma de um mercador. Era muito bonita, com um tom avermelhado bem intenso.

— Feliz aniversário, senhor gênio. - desejei, colocando o filhotinho de fênix nas mãos dele. - Ela virou cinzas há alguns minutos.

Alvo mirou a ave por alguns minutos e eu pude notar algumas lágrimas no canto de seus olhos.

— Obrigado, pessoal. - agradeceu ele com um sorriso enorme no rosto.

— Que nome vai dar para ele? - Linda cortou ansiosa.

— Aceito sugestões. - ele disse olhando especialmente para mim, ao que eu não pude deixar de sorrir e me sentir especial. - Mélia? - insistiu.

— Posso presumir que esse foi o seu presente favorito até hoje? - perguntei tentando acessar meu arquivo de nomes para animais, o qual não era muito grande.

— Mas, claro. - concordou Alvo.

— Não consigo pensar em nenhum nome. - eu disse frustrada. - Quer dizer… que tal Fawkes? Se não estou enganada é favorita em indiano…

— Se é ou não, pouco importa. - retrucou Alvo. - É um bom nome… o que acha, amiguinho? Fawkes está bom?

Ela piou melodiosamente e nós estendemos como um sim. Fomos para o lado de fora depois, andar pelos jardins de Perenelle que eram tão belos quanto os do chalé. Num determinado momento, consegui ficar a sós com Linda para conversarmos.

— Para mim você pode contar. - disse unindo nossos braços.

— Só porque todos sabemos que a sua vida conjugal com Alvo é maravilhosa, não significa que eu tenho que tornar a minha pública também. - ela disse na defensiva, corando violentamente. - Pelas barbas de Merlin, Mélia, você sabe ser irritante quando quer…

— Vou entender com isso que é tão bom que se você falasse eu teria pesadelos com vocês dois. - brinquei apertando o braço dela. - Puxa, como eu adoro quando estamos todos reunidos. Faz com que eu me esqueça de todos os problemas.

— Sirius está te dando dor de cabeça de novo? - perguntou Linda com um sorriso esperto.

— Indiretamente, sim. Mas, quem veio falar comigo foi tia Sarah. - falei respirando fundo. - Ela disse que todos comentam o fato de ainda não termos filhos, porque sabe que não há nada errado comigo. - expliquei.

— Eu posso entender a confusão dela quanto a isso. - disse minha amiga. - Quero dizer, ele forçou você muitas vezes, seria de se esperar ao menos uma criança… mesmo que fruto de um estupro… - ponderou ela com pesar.

Uma pessoa pode ter vários arrependimentos na vida, mas alguns sempre irão persegui-la por mais tempo do que outros. No meu caso, tal fardo estava ligado ao meu asco pela ideia de ser mãe dos filhos de Sirius Black. Linda estava certa, uma mulher pode engravidar sendo vítima de um estupro… ainda mais com a frequência em que ocorriam os meus. E mais uma de vez… mas eu não seria capaz de falar sobre isso… não sem respirar fundo várias vezes e saber que poderia contar com a discrição do meu ouvinte…

— Eu os abortei. - murmurei reprimindo as lágrimas de culpa.

— Amélia! - exclamou Linda horrorizada, com as mãos na boca para abafar o grito.

— Três vezes. - continuei, agora que tinha começado precisava terminar. - Sempre que eu sentia que estava começando, eu ia até a Travessa do Tranco e comprava uma poção que eu sabia que… os mataria… Eu odiava tanto o Sirius que acabei descontando o meu ódio em inocentes. Seriam meus filhos também, Linda, mas eu não conseguiria tolerar ouvi-los chamando aquele monstro de… de pai. E quando crescessem e viessem me perguntar sobre amor… eu teria que fingir me importar com Sirius por eles… eu não conseguiria!

Eu não conseguia falar e muito menos encarar Linda de frente. Sabia que ela deveria estar perplexa e que provavelmente me julgaria por ter o sangue tão frio, logo ela que sempre foi tão calorosa mesmo com estranhos. Contudo, era tarde demais. Já estava feito e eu não poderia voltar no tempo para reparar o dano; viver tudo aquilo de novo era impensável. Eu fiquei em silêncio sem olhar para ela ainda.

Até que por fim, Linda me abraçou com força, correndo as mãos pelas minhas costas… como a minha mãe costumava fazer para me acalmar. Minha amiga sempre teve um instinto materno que eu admirava muito… e invejava, até.

— Você contou isso ao Alvo? - ela perguntou sem me soltar.

— Não, nem poderia…

— É claro. - assentiu ela. - Pode contar comigo, eu não vou contar para ninguém. - prometeu ela.

— Obrigada, Linda. - agradeci ainda abraçada a ela.

— Sempre que precisar.


Então, meus queridos, vocês não conseguem imaginar o quanto eu estou feliz. Frozen ganhou o oscar de melhor animação e Let it Go levou o prêmio de melhor canção original... estou vibrando ainda hoje. Culpem essa felicidade pelo atraso. Capítulo pronto há três dias e... só hoje. Antes tarde do que nunca, certo? Bem, espero que gostem. Deixem reviews linda, okey? Bjooos