Rituais e guardiões
Thorin leva a relação adiante
O dia seguinte passou-se numa névoa de felicidade para Anna. Por mais que ela tivesse dificuldade em acreditar, seu amor por Thorin parecia ter aumentado, e agora ela estava mais semelhante a uma adolescente, enrubescida a cada lembrança da noite anterior. Mesmo que durante o dia eles mantivessem o decoro (e que ela disfarçasse as dores nos músculos após a vigorosa sessão noturna romântica), Anna se sentia a ponto de explodir de alegria.
Enquanto ela navegava numa nuvem romântica, membros da companhia curtiam graus variados de ressaca, trocando ruidosas impressões sobre as comidas, danças e mulheres da noite anterior, enquanto começavam os preparativos para a partida. Os habitantes da Cidade do Lago continuavam a mostrar sua boa vontade com a companhia, notou Anna, fornecendo comida e roupas, além de provisões.
Mas quando Anna reconheceu a mulher chamada Bella, da noite anterior, entrando na casa e procurando por Anni, ela rapidamente pensou em fugir para junto de Bilbo. O hobbit, porém, devia estar no mercado, pois não estava na casa.
E agora? Para onde fugir?
— Anni! — gritou a voz feminina, alertando a moça. — Onde está você?
Anna correu a se refugiar num cantinho do estábulo, perto dos pôneis. Só depois que ela se escondeu é que notou que havia dois homens lá, mandados pelo Senhor da Cidade, conversando enquanto arrumavam os arreios e selas dos pôneis e cavalos.
— Não deveríamos mandar animais melhores para esse rei?
— Não — respondeu o outro. — Ordens do Senhor da Cidade. Ele não quer dar muita trela para esses anões.
Ao ver que eles não tinham percebido sua presença, Anna se escondeu para ouvir mais. O segundo fez a observação que estava na cabeça de Anna.
— Como assim? Eu pensei que o Senhor da Cidade os tinha aceitado, que os anões tinham voltado para a montanha.
O primeiro explicou:
— Que nada. Provavelmente esses anões são impostores. Mas, diz o Senhor, se eles querem virar comida de dragão, melhor eles do que nós. E se, por um acaso, eles conseguirem derrotar ou afugentar o dragão, haverá ouro na cidade.
— Mas então o Senhor da Cidade acha que não são os anões de Erebor?
— Impostores, ele diz, e impostores que usam o nome da Linhagem de Durin. O verdadeiro Thorin Oakenshield já deve ter morrido há muito tempo.
Nesse momento, Anna ouviu a voz de Bilbo.
— Anni! Anni, onde está você?
Os dois homens também ouviram e saíram do estábulo.
— Mestre hobbit!
— Olá — cumprimentou Bilbo. — Estou procurando meu sobrinho Anni. Ele é um outro hobbit, mais ou menos desse tamanho. Por um acaso, vocês o viram?
— Não, chegamos há pouco tempo. Cuidado para não perdê-lo: ele é tão pequeno!
Os dois saíram, rindo, e Bilbo parecia encafifado. Anna esperou até que os homens se afastassem para sair e chamar, em cochicho:
— Ei, Bilbo!
— Anni! — Ele foi até ela. — Onde você se meteu?
— Eu me escondi daquela mulher. Ela já foi embora?
— A mulher? Sim, ela já foi. Mas por que estava se escondendo, o que houve?
Embaraçada, Anna respondeu, saindo do esconderijo:
— Bom, ela e as amigas estavam muito interessadas no seu sobrinho.
— Interessadas? — repetiu Bilbo. — Interessadas em quê? Não estou enten- — No meio da frase, ele mesmo se interrompeu. — Oh! Sério?
Anna estava mortificada.
— Sério. Foi tão sério que Thorin teve que me resgatar ontem durante a festa.
Então Bilbo começou a rir. Ria às gargalhadas. Anna ficou brava:
— Bilbo, isso é sério! Já imaginou se elas descobrem?
— Eu queria ver a cara delas quando descobrissem.
— Não diga isso nem brincando. Elas vão se sentir enganadas. Vão achar que estamos rindo delas. Não tem nada mais perigoso do que uma mulher traída. Acredite, eu sei: eu sou uma mulher.
Ele conseguiu parar de rir um pouco e admitir:
— É verdade, não tinha pensado nisso. Mas tem que reconhecer que a situação é engraçada.
— Vou adorar rir disso mais tarde. Bem mais tarde. Quem sabe daqui a uns três anos?
Bilbo ainda não parara de rir. Comentou:
— Quando os rapazes souberem, vão deitar e rolar.
— Nunca vou conseguir me livrar disso. Mas não conte agora, por favor. Se um deles deixar isso escapar, pode ser um desastre para toda a companhia. Além disso, tenho notícias para Thorin. Vamos lá que eu conto.
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Embora Anna estivesse agitada com a notícia da possibilidade de uma traição do Senhor da Cidade, para os demais não havia muita novidade no que ela dizia. Anna se espantou:
— Vocês já sabiam que ele pensava assim?
Toda a companhia estava reunida, após o jantar, em volta da mesa no grande salão. Balin respondeu à pergunta de Anna:
— O Senhor da Cidade nunca escondeu seu interesse no ouro de Erebor.
Anna indagou:
— Mas se acham que somos impostores, então por que nos tratam como se fôssemos reais?
Balin respondeu:
— O povo da cidade crê que, com os anões de volta a Erebor, o ouro voltará e a cidade prosperará. Então, o Senhor não quer desagradar ao povo. O Senhor da Cidade é eleito; se desagradar ao povo, eles podem escolher outro.
Thorin emendou:
— Por isso vamos partir em breve.
Bilbo indagou:
— Em breve? Mas e Gandalf? Combinamos com ele de nos encontrarmos aqui na Cidade do Lago.
Thorin retrucou:
— Planos mudam. Ademais, Gandalf sabe para onde vamos. Já começamos a juntar as provisões e animais. A primeira parte do percurso será pelo rio, até o antigo ancoradouro. Os barcos estão sendo providenciados.
Bilbo soltou um chiado:
— B-barcos?
Anna ressaltou:
— Barcos, Bilbo. Não são barris.
Bofur reforçou:
— É, Mestre Baggins, nada de cair na água desta vez.
— Ou de ficar apertado dois dias! — disse Bombur.
— Nem de cheirar a maçãs! — lembrou Fíli, com uma careta.
— Ou peixe! — lamentou-se Ori.
Kíli tentou animá-lo:
— Fique tranquilo, Mestre Boggins! Vai ser uma viagem tranquila desta vez.
O hobbit negaceou:
— Não sei, não. Hobbits e água não se misturam, todos sabem disso.
Anna garantiu:
— Vai dar tudo certo desta vez. Não precisará entrar na água.
— Yavanna a ouça!
Todos riram ao ver a expressão de Bilbo, que se recuperara há pouco de uma forte gripe. Quando o barulho diminuiu, Thorin se ergueu, proclamando:
— Agora que estamos todos juntos, quero aproveitar e, na presença de todos, me dirigir a Bilbo Baggins, nosso ladrão, para respeitosamente pedir a mão de Anna em casamento e negociar os termos da união.
Exclamações abafadas percorreram a mesa. Óin teve que pedir que repetissem o que Thorin dissera, e depois sorriu, satisfeito. Bilbo estava atônito.
— E-eu? — indagou o hobbit. — Por que pedir a mão dela para mim?
Balin respondeu:
— Ela vai precisar de um Responsável (você), que vai escolher o Negociador e o Guardião.
Aquelas palavras surpreenderam Anna, que quis saber:
— Balin, poderia explicar? Não entendo o que se passa. Guardião?
— O pedido formal de casamento é o início do processo de negociação das condições de casamento — explicou Balin, de maneira didática. — Os negociadores discutirão os termos do contrato de casamento, e os guardiões zelam pelo cumprimento do contrato. Quebra de contrato ou mero descumprimento das condições do contrato incorrem em penalidades de ambas as partes.
Bilbo comentou:
— Pensei que fosse um casamento, não uma tratativa de guerra.
Dori comentou:
— Pelo que ouvi, nem sempre é possível distinguir um do outro, Mestre Baggins.
Os demais riram alto. Balin continuou:
— Serei o Negociador de Thorin, e Dwalin vai atuar como Guardião. O Negociador cuida dos termos e do cumprimento do contrato. O Guardião reforça e protege seu contratado do contratante ou de outras partes, se preciso for.
Anna confessou:
— Não entendo.
Balin explicou:
— O Guardião basicamente defende sua virtude, milady. No caso da noiva de um rei, ele deverá defendê-la também dos inimigos do rei.
Anna enrubesceu.
— Oh. Isso tudo é mesmo necessário?
Óin garantiu:
— Devemos seguir a tradição, ainda mais se tratando da linhagem de Durin.
Os demais concordaram ruidosamente. Balin indicou a Bilbo e Anna:
— Já que vocês obviamente precisam se familiarizar com nossas tradições, podemos escolher hoje o Negociador e o Guardião, e deixar para discutir os termos do contrato em si amanhã.
Bilbo comentou:
— Parece justo. E então? Voluntários?
— Eu! — disse Bofur, erguendo a mão. — Eu sou voluntário para negociar o contrato.
Nori se ofereceu:
— Eu também posso ajudar.
Bilbo sorriu para eles, Anna também, mas Balin lembrou:
— Desculpem, mas há uma questão de ranking. Para negociar com a linhagem de Durin, só sendo também da linhagem. Dwalin e eu somos do povo de Durin.
Anna exclamou:
— Mas aí só sobram Kíli e Fíli!... Eles sabem algo sobre isso?
Balin lembrou:
— Não necessariamente. Há também os filhos de Gróin, Óin e Glóin.
Todos olharam para os dois. Glóin fez uma mesura, dizendo:
— Dona Anna, para mim, será uma honra negociar seu contrato de casamento com Thorin, filho de Thráin, filho de Thrór.
Anna sorriu para ele, garantindo:
— A honra será toda minha, Mestre Glóin, filho de Gróin.
Balin olhou para Thorin, que assentiu. O anão de barbas brancas, então, pareceu satisfeito, dizendo:
— Só falta então apontar o Guardião. Esse não precisa ter status igual ao rei.
Bilbo encarou Anna, que encolheu os ombros. Agora que havia mais opções, deveria ser fácil, mas não era.
Havia um clima de expectativa na mesa. Bilbo disse, em voz baixa:
— E então? Você deve escolher. Se não, sou eu quem escolhe.
Anna disse:
— Eu preferia voluntários.
Bilbo observou:
— Ninguém está muito disposto a enfrentar Dwalin, se for o caso.
Os anões pareciam concordar com a avaliação de Bilbo, murmurando entre si. Anna estava angustiada, mas então uma voz se ergueu:
— Eu aceito! Eu serei o Guardião da virtude de dona Anna — se ela me aceitar.
Todos se viraram para Ori, o mais jovem da companhia, que estava de pé, com uma expressão determinada. Dori estava vermelho (obviamente ele não gostara da ideia), Nori parecia orgulhoso do irmão, e os demais demonstravam graus variados de espanto — inclusive Bilbo.
— Tenho certeza que qualquer um aqui está disposto a defender a honra de Dona Anna — acrescentou Ori. — Mas seria para mim uma honra defender a virtude da noiva do rei.
As palavras de Ori emocionaram Anna, que fez uma mesura com a cabeça, dizendo:
— Suas palavras me honram, Mestre Ori. Se seus irmãos não fizerem objeção, aceito com gosto.
Dori assentiu, Nori deu um sim entusiasmado, e todos pareciam satisfeitos. Thorin assentiu para Balin, que deu um sorriso e anunciou:
— Está tudo em ordem, então. Amanhã voltamos a nos reunir para negociar os termos do contrato.
A reunião se desfez, e Bilbo se virou para Anna:
— Você sabia sobre isso?
Anna respondeu, confusa:
— Thorin comentou que iria fazer o pedido para você, mas eu pensei que fosse só isso: um pedido. Na minha cabeça, a coisa seria assim: Thorin faria o pedido, eu diria sim, você diria "tudo bem", e pronto! Seria só isso. Ninguém me falou nada sobre contrato, negociações e essas coisas.
Glóin, que tinha ficado para trás, comentou:
— Um contrato de corte e esponsais é muito importante e fundamental, ainda mais para um rei. Se você fosse uma princesa, haveria todas as cláusulas de comércio e terras mútuas, além de alianças políticas. — Ele a encarou. — Tem certeza que não é uma princesa?
Anna respondeu:
— Absoluta!
O anão de cabelos e barbas decoradas ruivo escuro sorriu, com um brilho nos olhos.
— Então já sei qual a primeira questão a negociar. Vou pensar nas demais e falaremos amanhã. Bem, boa noite.
Anna ainda estava meio tonta quando foi dormir. E a coisa não melhorou no dia seguinte, quando Glóin passou a negociar o contrato.
