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A festa era grande demais para que um boato se transformasse em uma epidemia, por mais contagiosa que fosse a notícia, e nem todo presente, por mais que soubesse muito bem quem era Heero Yuy, sentia-se interessado nos ocorridos da vida dele e por isso seguia aproveitando a noite, tendo para si que ela pertencia exclusivamente a si. Nada havia mudado.
Astuce fora encarregada de controlar o foco. Começou por pedir a Dolf um pouco mais de discrição e passou a usar de cuidado e dubiedade para amainar a curiosidade e preocupação de todos. Assim que Akane saiu, era a ela que todos recorriam para os esclarecimentos. Houve muita movimentação.
Ao saber do episódio, Riene ofereceu a única reação saudável – o choque. Sentiu uma corrente elétrica extremamente incomoda amolecer seus membros e o coração palpitante levou um rubor tépido à face dela.
_Oh, meu Deus! Se eu soubesse! –teceu um sincero e alto lamento. Random a viu vacilar a seu lado e a apoiou. –Coitada da Lena! Eu devia ter ficado com ela! Ela foi tão amiga, me acompanhou até o carro… porque eu não fiz o mesmo? –e meneava a cabeça, a mão na testa, as lágrimas vazando, perplexa. –Foi culpa minha… –murmurou, procurando em redor quem a assistia.
Astuce, desagradada com a atenção que o horror de Riene começava a obter, fez questão de ser a primeira a aproximar-se:
_Claro que não… ninguém esperava que isso fosse acontecer. –rebateu imediatamente, e olhando para Dwight a seu lado, pediu que ele fosse buscar algo para Riene beber e se acalmar. Com seus olhos castanhos quentes toldados de aflição, condoendo-se mais por Riene do que por qualquer outra coisa, Dwight só conseguiu aceitar a ordem e ir para a varanda. –Não chora, Riene. Fique calma… –e Astuce seguiu consolando.
Kyria, decidido a auxiliar Astuce em sua empreitada de manter a atmosfera controlada, decidiu direcionar as energias de Dolf para longe de seu frenesi por entabular com ele uma conversa grave sobre o ocorrido e sobre as medidas que lhes eram coerentes.
Quando Sylvia regressara da varanda bebericando tristemente sua bebida, viu Lori e Dorothy se aproximarem e resolveu mudar de aparência e mostrar-se mais alegre, mesmo que ainda pensasse no que houvera e em como Heero a tratara. Tentava decifrar seu próprio coração quanto às motivações de um comportamento tão pobre em dignidade, mas sorriu, seus olhos em branco escondidos pela máscara, ausentando-se de suspeitas. Sabia como Lori estava ávida em comentar as notícias e achava que distrair-se assim lhe faria mais bem do que residir nos minutos anteriores, porque teria muito tempo mais tarde, antes de dormir, para passar com eles.
Enquanto elas compartilhavam seus espantos e suposições, Dorothy não participava, permitindo-se aparentar ausente, o que era incomum da parte dela. A névoa que encobria seu olhar, o amaciava e afastava, nunca antes fora tão espessa e, como as nuvens de Júpiter, revelavam a grande, mas silenciosa, tempestade que se dava por entre a intricada rede de raciocínios que ela tinha o privilégio de guardar.
Decker era o único que nunca falhava em surpreendê-la. Ela podia prever todos, menos ele, porque não estava nela seguir os mesmos caminhos tortos pelos quais ele era dado a usar. A velocidade com que ele piorava era o que mais a atingia de modo que seu coração se retorcia dentro do peito em excruciante repulsa. Cada batida se alinhava com a crescente inconformidade que a tomava. O nome de sua família era algo sagrado para ela, diante da tradição que abarcava e sua origem nobre, e permiti-lo manchar-se ainda mais pelas atitudes daquele rapaz desestruturado era algo que ela cansara de tolerar. Refletiu sobre o crime que ele cometeu, principalmente repreendeu as intenções tão impuras dele, e o abismo existente em seu íntimo entre ela e qualquer motivação para perdoar e ignorar as ações do primo sofreu de tão grande erosão que jamais poderia ser atravessado.
_Você está bem, Dorothy? –Lori interrompeu a conversa. Estivera observando a atitude da amiga e a achara interessante. A máscara não cobria a amargura que delineava suas feições ali.
_Não. Devo confessar que nunca me senti tão decepcionada em minha vida. –e ergueu seus olhos solenes para suas ouvintes.
Lori assentiu, aparentemente sem dar muita importância à resposta que recolheu, retomando a conversa, mas ocupada ainda em assistir Dorothy meditar. Não se surpreendeu em ouvi-la avisar um minuto depois:
_Deem-me licença, tenho um assunto a ser resolvido.
Retornando do passeio alegre pela feira, com suas prendas e seus doces, Lya e Sara entravam enganchadas no salão para procurar as outras garotas e acabaram se deparando com Riene deixando a casa, em direção das varandas, secando as lágrimas e sendo amparada pelo irmão. Encontrando Astuce próxima da entrada do salão, Sara se achegou, impregnada de um terrível pressentimento produzido não em seu coração, mas através de processamento mental das evidências:
_Tutu, o que houve?
_Riene está preocupada com a Relena… –Astuce explicou com circunspeção e consternação, olhando baixo e premendo os lábios infantilmente.
_Por quê? –Lya replicou de maneira similar, sendo contagiada pelo espírito denso do ambiente naquele canto.
_Decker aprontou de novo. –e usando de um tom de voz cordato e muito baixo, fez entender. –Por favor, sejam discretas, não queremos piorar as coisas.
Sara assentiu e foi puxando Lya para longe. Havia localizado Lori bem perto dali, junto de Sylvia, e decidiu que era bom consultá-la sobre o assunto. Ela sempre sabia de tudo, entretanto, dessa vez, praticamente ecoou o que Astuce mencionara, embora Sylvia trouxesse a atenção o que ouviu de Dwight, sobre como Relena fora encurralada no estacionamento e como por pouco ela escapou, graças a Heero. As duas trocaram um olhar espantado e, ao passo que ficaram a escutar o resto da conversa das garotas mais velhas, mantiveram um silêncio extremamente meditativo. Era Colette e sua imagem cabisbaixa e apagada, seu andar lento e desanimado e sua indagação um pouco chorosa que ocupavam seus pensamentos. Não viam por que não conectar a presença de Decker e a busca de Colette por ele.
Usando de cumplicidade, antes de sair, Sara tocou Lya para comunicar que iria procurar Colette e ver como ela estava antes de tudo apenas se tornar pior.
Apesar de ninguém saber como a persona non grata do círculo social havia executado a proeza de entrar na festa, não se interessavam em pensar ou discutir isso, apenas repetiam-se em falar da seriedade da situação, como se fosse muito importante murmurar contra Decker e usar de palavras um pouco vazias para lamentar a situação de Relena até que se esgotassem o repertório e voltassem a priorizar seus desejos e problemas.
Até o momento, os rapazes ainda não haviam aceitado o fato da polícia não ter sido acionada. O calor de suas declarações indignadas e graves era vivo, ao mesmo tempo, não os levava a tomar nenhuma atitude. O desejo para isso não era inexistente, mas não sabiam o que Heero planejava e como ele levaria toda essa situação e por isso preferiam apenas bastar-se em deixar claro suas posições na questão. Igualmente, por sua vez, eles se sentiam embaraçados ao pensar no que houvera. Por um lapso de tempo, se colocaram no lugar e pensaram em suas irmãs e namoradas passando por algo similar e até conseguiram escutar uma grande agitação abalando suas estruturas internas. Uma confusão inexplicável, infundada, mas inegavelmente intensa, tomava de assalto as ideias deles ao ponderarem como agiriam caso estivessem no mesmo lugar que Heero.
Parando do lado de fora do quarto contra a porta fechada, Heero olhou o corredor sem saber o caminho a seguir. Seu julgamento havia sido temporariamente avariado. Segundo seu hábito, não queria admitir, porém, estava indeciso e também se encontrava estupefato. Encarar a realidade – ele queria?
Havia se esquecido de quantos espelhos havia naquela casa. Por que sua mãe era tão apreciadora deles? Ia encontrando seu rosto nos reflexos, constatando a dureza dos próprios olhos e o modo ausente que eles surgiam em sua face, lançando fitos desdenhosos indiscriminadamente.
Não se ouvia falando tudo que se passara… com que postura encontraria seus amigos?
Já na sala de estar, Jade estava servindo café para os rapazes enquanto eles esperavam o amigo vir do quarto de Relena. Tudo o que tinham ouvido fora o rumor agitado que Dwight levara até eles quando passaram na varanda. Nem Jade ainda sabia o que houvera e a primeira coisa que faria ao sair seria procurar Astuce e se inteirar para tentar ajudar.
Trowa tinha se sentado no piano e estava improvisando alguma coisa preguiçosamente enquanto Duo brincava com sua máscara, largado no sofá. A seu lado, Quatre assistia o modo minucioso de Jade despejar o líquido em sua xícara e sorriu-lhe ao receber sua porção. Wu Fei estava na janela de costas para a porta, estalando os lábios e procurando nas ondas longínquas e aparentemente tão lentas do mar algo que pudesse preencher aqueles minutos perdidos.
A porta se abriu finalmente, sem qualquer som, contudo seu mero balanço capturou a atenção de todos.
Vitimado pelos olhos famintos e intensos de todos, Heero não fez muito, mas jogou a cabeça para um lado e bufou.
_O que aconteceu? –Quatre, em sua suavidade, achava-se mais apto em iniciar, mesmo que fosse direto ao ponto, porque a pergunta na sua boca soava gentil e inócua.
Heero meneou a cabeça. Ele não desapontava:
_Não quero falar sobre isso.
_Café? –Jade surgiu do nada com a xícara.
Ele a olhou mortificado, irritado, apanhou a louça das mãos dela e dispensou-a dali com um fito acre. O sabor de sua expressão não fora proposital, visto que ele todo se sentia lavado de fel.
E por que ainda ia beber café?
Jade saiu, embora desejasse ficar e ouvir a conversa. Ainda não entendia bem como Heero funcionava… obedeceu-o porquê sabia que precisava e tinha trabalhos a fazer ainda por três horas naquela madrugada.
Heero largou a bebida intocada em cima do piano e sentiu-se perdido mesmo dentro de um ambiente tão pequeno, sufocado, apesar de haver somente quatro pessoas com ele ali.
_Quero ouvir o que houve de você e não dos boatos. –Trowa já não usava da mesma sensibilidade de Quatre. Era direto e ia como uma flecha.
_Os boatos… –Heero pausou, inconformado. –Eles sempre são mais rápidos e interessantes. Nem tem graça eu dizer que o Decker atacou a Relena de novo. Pra valer, dessa vez.
Trowa assentiu, ciente de que era inútil esperar por mais.
_E ela está bem? –Quatre meneou a cabeça, sofrendo. Como poderia haver pessoas egoístas como aquele rapaz no mundo? Para ele, sempre seria inaceitável, por mais mal que existisse em toda a parte, longe do olhar e do coração bondoso dele.
_Acho que sim. –Heero redarguiu qualquer coisa que veio a cabeça. Sua voz saiu tão baixa e rouca que era difícil saber se ele acreditava no que pronunciava.
_Por que não chamou a gente? –Duo havia se posto em pé assim que viu o amigo chegar. Parecia que sua voz se expandiu com um pouco de indignação, porém, estava somente preocupado, como todos os outros. Sua fraqueza e sua qualidade eram uma só: a impulsividade.
Dando de ombros friamente, Heero resmungou:
_E o que mais vocês poderiam fazer? O assunto era meu.
Em seu silêncio felino, Trowa escrutinou Heero. Não via inconsistências nele, contudo, algo de novo estava rastejando pelas costelas dele, qualquer coisa que nascia e não parecia passageira.
_Você viu a sua cara? Tem certeza que não precisou de ajuda? –Wu Fei observou em rebote, um tanto seco, quase insultado e até altivo. Tinha um jeito peculiar de demonstrar apreensão.
Heero não tinha modos de quem ouvia. Sentiu ironia retinir naquela frase e a cancelou. Entretanto, a ironia foi ele quem encontrou.
Nunca tinha se visto a voltas com aquela sensação que o visitava tão insistentemente, batendo nele feito em uma porta, querendo entrar, se instalar, indo e voltando, pedindo pouso. Era enfurecedor. Porém ali precisava se conter, precisava ser frio, tão frio que parecesse louco, que parecesse estranho. Tão frio quanto o mar deveria estar lá fora, apesar de tão agitado…
Tomou o lugar que Duo esvaziou. Preferia ter ido à janela, contudo, por algum motivo, Wu Fei não a abandonava.
_E como foi que o mau elemento entrou na festa? –Wu Fei perguntou mais a si mesmo, investigativo, retomando a palavra.
_Pois é, como? –Duo ecoou a mesma curiosidade, felino. –Ane disse que não ia convidá-lo.
_Deve ter subornado o porteiro… se aproveitado de uma brecha qualquer… –Trowa decidiu enumerar, a voz levemente encrespada revelava repúdio ao comportamento do Romefeller. –O de sempre.
_E o que vocês farão agora? –Quatre fazia apenas perguntas perturbadoras, uma atrás da outra, aflito demais para contê-las.
E a pior parte de tudo era tomar aquela decisão. Não era como se ele não soubesse o que fazer, ao mesmo tempo, sentia que aquela ação era tão inútil, tão sem sentido, que preferia se esquivar dela e encolher-se nas mesmas sombras pelas quais Relena sempre pedia, embora os motivos fossem muito diferentes.
Ele poderia ter respondido facilmente que gostaria de matar Decker se os tempos fossem outros, se fosse só um ano atrás. Agora, nem isso desejava. Seria muito melhor tudo simplesmente desaparecer e dar aquele episódio por encerrado esquecendo-o facilmente do mesmo modo que se faz com uma caneta em um momento de distração. Por que sentimentos e emoções não são esquecidos e não se perdem e o único jeito de Heero livrar-se das imagens as quais se expusera era rebaixá-las a objetos, pondo a prova quão apático poderia ser. E era por isso que não queria mais falar daquele assunto ou mencioná-lo. Não via razões que o impeliam a retornar a ele.
A delonga de Heero em responder começou a exasperar seus amigos, entretanto, ele parecia tão confortável com sua abstração, sentando no sofá, que era mesmo como se houvesse esquecido ser necessário dizer algo.
_De acordo com a lei, eu sei exatamente o que deve ser feito. –Heero finalmente se manifestou, inexpressivo, a vista sem foco, a feição ainda alheia.
_Então faça! –Wu Fei apressou. –É preciso procurar a justiça.
_E você acha que ela existe nesse caso? Quem é que vai prender um Romefeller? –Heero apresentou, desdenhoso.
_A questão é que o mesmo nome que Decker destrói o protege. –Trowa ousou ampliar, suave e astuto, mas sério e desagradado.
_E você vai simplesmente deixar passar? –Wu Fei insistia, acalorado. Duo só mantinha as sobrancelhas no alto, assistindo. Quatre segurava as próprias mãos, preocupado, desagradando-se da tensão que se acumulava, descrente de que fosse proveitosa.
_A decisão não depende só de mim. –a voz dele, de tão inexpressiva, parecia produzida por outro ser que não era ele, e que estava ali, embora invisível. Era uma voz morta.
Inerte, correu a vista pelas faces cheias de estranhamento que o encurralavam com suas questões mudas chispando sem parar dentro dos olhos coloridos. Riu-se por dentro, sádico e escarninho, mau e miserável. Nenhum deles nunca estivera no lugar em que ele estava então e como é que podiam saber, exigir, sugerir? Nem ele sabia como agir. Nem ele.
Quando é que isso aconteceria?
Nunca, ele murmuraria para qualquer um dos reflexos que reencontraria ao retornar para o andar superior.
Contudo, estava acontecendo ali, bem naquele espaço de tempo.
Novidade.
E o açoitava outra vez aquela pergunta – ele não sabia da onde ela vinha também, se de dentro ou de entre as frestas das paredes, pelo vento – e desconhecia uma justificativa para saná-la. O que estava fazendo ali? Não era ali que queria ficar. Não era ali que precisavam dele.
Uma orla de tecido vermelho todo o tempo cruzava seus pensamentos.
Tinha se fixado demais nela.
De repente, a porta abriu uma fresta.
Feito um esquilo assustado, Astuce pôs seu rosto de lua cheia para dentro da sala:
_Com licença… Heero, a Dorothy está aqui. –seu semblante exposto, visto que havia se livrado da máscara, era tímido e cansado. –Eu sei que você está ocupado… –começou a desculpar-se, cheia de consideração e temor. –Mas ela está muito ansiosa em falar com você. Eu a levei para a biblioteca. –e sorrindo simplória, cerrou a passagem, terminando sua mensagem.
_E essa agora… –Heero reclamou ríspido. Não queria mais ser detido ali.
_Ela deve estar querendo combinar alguma coisa pra resolver essa parada. –Duo pôs em palavras despojadas o que todos imaginaram. Quatre assentiu para apoiá-lo.
_É impossível vir algo bom dela. –Wu Fei resmungou, sempre deixando claro sua rixa com os Romefeller.
Trowa meneou a cabeça, repreendendo os julgamentos precipitados do amigo.
_Tenho certeza que tudo vai terminar bem. –Quatre expressou, assentindo para si mesmo ao passo que Duo deu de ombros.
Heero içou o próprio corpo, bufando e alisando as pernas das calças. Arregaçou as mangas da camisa enquanto saiu da sala.
O corredor não parecia terminar, ao mesmo tempo, quando deu por si, percebeu Dorothy tirar o rosto da mão que o apoiava e recebê-lo na biblioteca, majestática. De que reino ela era princesa? Heero quase riu, cansado do modo daquela gente ser, daquele ar de superioridade, daquela altivez convencida. Olhou o entorno, sem interesse na conversa que ainda precisava começar. E escutou ela suspirar. Parecia que também relutava contra o que queria falar.
_Diga logo para quê eu vim aqui. –pressionou, se encostando a uma parede, voltado para ela, cruzando os braços.
Dorothy assentiu, pesarosa, em nada surpresa pela maneira ríspida com que era tratada. Aquele era Heero Yuy, afinal.
_Esta situação é muito lamentável. Não quero que pense que ficarei ao lado de Decker em qualquer momento. A verdade é que cansei de suportá-lo. Acho que, de fato, eu o preferiria preso, apenas para que me livrasse dele! Ele é tamanho peso!
Heero a encarava, impaciente, desdenhoso. Estalou os lábios, o olhar felino a pressionando cada vez mais, ameaçando-a com sua insistência dura, mesmo que ela não se impressionasse.
_Desculpe, não estou aqui para desabafar. –e ela distraiu-se um momento, olhando para o chão, decidindo suas próximas palavras. –Embora eu já haja expressado minha vontade e, como advogada também, saiba a maneira correta de proceder em face dos inúmeros delitos de meu primo, sinto que não será de nenhum beneficio que o procedimento seja seguido e, por isso, peço que não faça nenhuma denúncia do caso presente.
Heero acompanhou a fala rebuscada dela e simplesmente não reagiu. Esperava isso desde o início. Observava-a, porém, não estava ali. Era impossível para ele manter-se ali, porque era tudo tão despropositado e fútil.
Dorothy sempre entendeu que Heero não reagiria, entretanto, detestou o suspense que ele criou involuntariamente. A apatia dele era alarmante, ela havia se esquecido disso, já que fazia anos que trocara Nova York por Bruxelas. Seu mal-estar não residia no fato de ele não reagir, porque sabia que ele ouvia e recalcava o que ela falava, mas no desinteresse dele, que lhe era adverso e incompreensível. Decidiu continuar a falar:
_Não gostaria de saber minha proposta?
_E que diferença faz? O que você está pensando? –e ele deixou a parede e caminhou por Dorothy, indo debruçar-se na janela. –Está achando que sua atitude é inédita? Brilhante? –e murmurou, grosseiro e desdenhoso, antes de voltar sua face para a paisagem noturna.
_Não, só apropriada. –composta e confiante, replicou, por mais dispensável que fosse corroborar com a implicância que ele usara.
Ao ouvi-la, assentiu. Quem sabe ela tinha razão…
_Quero oferecer uma soma em caráter de indenização de danos morais. –e só prosseguia, não via alternativas diante do silêncio estéril do rapaz.
_Para quê? –rouco, ele olhou sobre o ombro e desafiou.
_Compensá-los do único modo que posso.
_Você não devia chamar isso de proposta. É mais uma intimação, não é? –e apoiando-se no parapeito, ficou de lado para ela, perscrutando-a destemidamente ao passo que não dava sinal algum do que corria em sua mente.
_Se desejar chamar assim, fique à vontade. A quantia que disponho dar-lhe é de trezentos mil dólares.
Heero meneou a cabeça. Ele já havia se vendido antes, é verdade, se entregado ao caminho mais fácil, entretanto, naquele momento, tinha para si que não houvera escolha. Outra vez, tempo demais parecia ter passado… e se houvesse sido confrontado com tal oferta há um ano, talvez a aceitasse, embora estivesse incerto mesmo assim, visto perceber-se de repente com dificuldades em reconhecer o rapaz que fora no Verão anterior. A abominação experimentada diante do que lhe fora ofertado ficou sepultada fundo em seu âmago, junto da maioria de suas emoções, mas seus olhos preenchidos de intenso desprezo serviram de identificação a qual opinião ele formara da proposta.
_Entendo que não esteja contente com a situação. Não vou reprová-lo. Do mesmo modo, a última coisa que eu sinto agora é alegria por ter de ficar limpando a sujeira que Decker apronta.
_E você limpa a sujeira dele com mais lixo?
_Meu intento com essa indenização nunca foi comprá-lo, mas recompensá-lo pelo favor de não contribuir para que mais mal seja feito a minha família.
_Vocês Romefellers são todos iguais! Só se preocupam com vocês mesmos! –Heero definiu. Tudo que conhecia sobre aquele clã só lhe testemunha essa impressão. –Você fala como se o dinheiro significasse mesmo alguma coisa e conseguisse consertar, não, cancelar tudo o que aconteceu. –e foi o momento dele discursar, porém, ao invés de floreios amaciantes, ele usava de ácida franqueza.
_Esse dinheiro não pertence a mim. Sairá dos fundos de Decker. Já recebi a autorização de transferi-lo para sua conta.
Heero assentiu com a cabeça bruscamente, aborrecido. Seu gesto, no entanto, não queria dizer aquiescência.
_Pode transferir para a conta de outro.
_Perdão? –sorrindo incrédula, deixou escapar.
_Veja, Dorothy: foi bem interessante aturar sua ladainha até agora, só que você está longe de me convencer a aceitar sua indenização… –e muitas das palavras pronunciadas ele pontuou com ironia fria, tão gélida, que fustigava mesmo os ouvidos couraçados dela. –Que audácia você teve de pensar que eu iria querer esse dinheiro sujo! O que faria com ele? Qualquer coisa tocada por ele ia ser manchada para sempre e se tornaria desprezível.
Suspirando, Dorothy encolheu-se, contemplativa. A surpresa que experimentara fora tão fugaz que já havia aberto espaço para que ela se entregasse a uma conformidade leda e desembaraçada que lhe permitiu tecer um comentário:
_Advogados com consciência – não acreditei que você fazia parte desse grupo também. –e sorriu, ofídia, vestida daquela suavidade que a pérola exibe, macia e ao mesmo tempo, resistente. –E o que vai fazer então? –esnobe, indagou, lançando um fito malicioso para o rosto dele.
_Estou pensando em marcar uma reunião com seu avô querido na segunda-feira e atualizá-lo sobre o que seus netos têm tramado. –e para tirar aquele sorriso insípido do rosto dela, resolveu atacá-la com raiva e sarcasmo, abocanhá-la pelo seu ponto fraco.
_Você nunca teve intenção de denunciar Decker de qualquer maneira… Por que não aceita o dinheiro e terminamos isso?
_Quem é você para me forçar a te dar uma garantia? Ao menos está preocupada com a Relena? Você também é mulher, devia saber melhor que eu que certas coisas não têm preço.
Dorothy apertou as sobrancelhas, praticamente emudecida pelas declarações secas que a cravaram em seu lugar impiedosamente.
_É impossível me pronunciar contra isso. –e murmurou, para dentro, incomodando-se com o modo de Heero atingir sua decência. Deixando que um suspiro a abandonasse, meneou a cabeça e se pôs de pé.
_Antes de você aparecer, já tinha decidido não fazer o boletim de ocorrências… Meus motivos para isso não te dizem respeito, mas vão te beneficiar de qualquer forma. –e deu as costas para ela outra vez, obstruindo ainda mais o acesso dela a ele.
Estacada, coberta pela onda gelada e alienadora que Heero lançava sobre ela, Dorothy permaneceu em seu lugar. Deixou-se ficar confusa por um tempo, insistindo em considerar tudo o que Heero lhe falara e a imagem que ele passara.
_Não precisava ter vindo te procurar. –sussurrou, embora alto o suficiente para que ele a ouvisse, descansando seu fito nas costas da camisa branca amarrotada de Heero.
_Que bom que percebeu. –ele replicou, tão seco que também não extraiu qualquer reação da moça. Ela se aproximou, buscando ver um pouco da face que ele negava-lhe, e ele acabou encarando-a novamente e exibiu um olhar tão vazio e cansado que explicou enfim a razão dele não querer recorrer à justiça, principalmente depois das palavras seguintes: –Tudo o que eu quero é nunca mais ver Decker na minha frente ou perto da Relena. Vá em frente e faça o que quiser com ele. Não vou te impedir.
_Está certo. Você tem razão, Heero. –ela sorriu, polida.
As palavras dela foram bastante enigmáticas. Ele tentava interpretar que sorte de sorriso era aquele, tão felino, tão estranho, e descobrir como a conversa acalorada de minutos atrás chegara ali. De que modo a tinha satisfeito, convencido e tranquilizado a ponto de fazê-la voltar atrás e desistir?
_Obrigada. Foi um prazer conversar com você. –ela estendeu a mão enluvada para ele, solene e cordata. –Sinto muito pelo incômodo.
Heero apertou a mão dela, mecânico. Estava desconfiado, seu cenho exigente a analisava, por mais que só enxergasse leve contrição na feição arrojada da moça.
_Continue cuidando bem da Relena. –e incentivou, suave e bondosa, referenciado o modo zeloso e peculiar de ele defender a honra da esposa.
Lançando um olhar longo e monótono, Heero enfiou as mãos nos bolsos. Quando se viu só, meneou a cabeça.
Que papel estava fazendo?
Abrindo a porta do cômodo, Dorothy deparou-se com Duo, que riu baixinho e pentelho, levando uma mão ao alto da cabeça, admitindo que havia sido flagrado
_Com licença? –ela pediu, sem revelar na voz quão divertida e intrigada ficou naquele instante pequeno, e conforme Duo lhe concedeu espaço, mesurando buliçoso, ela viu que Quatre, Trowa e Wu Fei também estavam ali.
Ela meneou a cabeça e manteve seu silêncio austero, sua pose superior e intocada, quando na verdade só estava retornando ao aconchego do alívio de ter conseguido o que queria de qualquer modo. Ao mesmo tempo, notava-se bastante ensimesmada. Seus passos em direção ao salão de festa iam trazendo à tona suas ações que passaram despercebidas e novas considerações. Julgou a situação tão mal e passou por cima de seu próprio bom senso. Esqueceu-se de colocar-se no lugar de Relena, ignorou os sentimentos de Heero, que, por mais desconhecidos, não poderiam ter sido ignorados.
Ele também fazia parte de uma família tradicional, além de estar cuidando do processo de direitos autorais contra o escritório Romefeller, e não queria se envolver em publicidade negativa e falatórios, por melhor que fosse sua posição naquela situação. O escândalo era de fato um chamariz para o imprestável, e Dorothy o julgou um tanto cansado de ficar se explicando para quem não merecia. Ele relutou em revelar os motivos até mesmo para ela, que, apesar de ter tido intenções egoístas e feito uma proposta repreensível, era envolvida direta e preocupada com a questão.
Com uma preocupação eliminada, era hora de cuidar em punir Decker alternativamente. Enfim, poderia cortar as asas dele, confiante de que, quando as penas tiverem crescido novamente, um pouco de mudanças tenham sido operadas nele, para seu controle. Contudo, não acreditava em conserto para ele. Uma alma selvagem, um coração sem regras, uma razão possuída pelo mal não aprendeu a ser assim, mas nasceu de um sinistro alinhamento das estrelas.
_O que rolou? –Duo invadiu a biblioteca enquanto Dorothy se afastava e Heero cobria-o de um fito usurpado.
_O que vocês estavam fazendo? –enfureceu-se.
Quatre quase sorriu, sem graça, contudo, decidiu que esse não era o melhor curso e só juntou as mãos e suspirou, entrando também.
Foi a vez de Heero sair, ficar sozinho enfim. Passou na varanda, pegou um litro de Jack Daniels e instalou-se no jardim onde poderia se abrigar nas sombras das roseiras, agir como a fera em sua reclusão, protegendo-se das próprias feridas, inutilmente procurando soluções no ar e no tempo, imobilizado por sua própria vontade. Não obstante, os fantasmas daquela noite eram tão diferentes de todos os anteriores. A companhia que ofereciam era mais austera, formavam um conselho e levaram Heero em uma caminhada alegórica pelas galerias de suas memórias. A Lua no céu cumpria seu curso ao passo que ele se deparava com quadros de si próprio que, apesar de expostos nos côncavos de sua mente, nunca fora capaz de aceitar. E ainda não era, embora passasse então a reconhecê-los.
Quando o Sol exibiu as extremidades de seus raios entre mar e céu como arauto de sua chegada, Heero sentiu como se tivesse completado uma jornada semelhante. Varara uma noite sem fim e de repente, surgira aquela luz, aquela certeza de que, embora não tivesse chegado em casa, existia um farol guiando-o ao destino que lhe cabia.
Se soubesse que esse farol fora ele mesmo quem erigira, por engano, por acaso, talvez se surpreendesse.
-8-8-8-8-
Relena só sabia que precisava escapar. Via o Sol na superfície chamando-a enquanto ela lutava com monstros invisíveis abaixo da película plástica que dividia as duas faixas azuis – o céu de Verão e o oceano. Cavava, os movimentos amplos dos braços esguios queriam impulsioná-la, entretanto, tudo o que faziam era agitar mais as ondas que a cobriam. Enquanto isso, ar precioso ia vazando dela, sendo substituído pelo líquido salgado, as lágrimas de Deus. Não havia porque gritar, mas ela queria, queria e em pensamentos o fazia.
Estava afundando, cada vez mais, a água acrescia em espessura, limitando seus movimentos, e diminuía em temperatura, endurecendo seus membros. Olhar a luz furando o mar lhe dava a impressão de que os céus se abriam para recebê-la. Era um espetáculo lindo, encantador, calmante. Estava morrendo, embora não cessasse de lutar.
De repente, braços surgiram junto dos fachos de Sol, feito fossem sua extensão. Aquelas mãos a buscaram no fundo e a trouxeram ao ar outra vez. Emergindo do mar, mergulhou em um novo azul – o dos olhos que a recebiam de volta, taciturnos e revoltos como um furacão.
_Heero! –ela deixou o nome escapar, sem saber se comemorava ou chocava-se com o que via.
E ergueu-se de repente, encontrando-se no escuro silencioso. Estava seca sobre uma cama, envolta em um vestido macio que de repente se lembrou de ser vermelho, contudo, seu coração estava correndo como único sinal real do que estivera enfrentando em pesadelos.
Sentou-se, levou a mão à testa. Havia dormido, porém, ironicamente, viu-se cansada.
Que horas podiam ser?
E para que preocupar-se com isso?
Procurou o chão, tateando-o com as pontas dos dedos do pé, porém, sua vista já estava se acostumando com o breu e passou a enxergar silhuetas maciças dos móveis no ambiente. O quarto em The Wing surgiu em sua mente feito fosse meio-dia e ela chegou no banheiro sem esbarrar em nada. Estava com medo de acender a luz e se encarar no espelho. Era uma tolice, de fato, ela admitia, mas tolices também são luxos aos quais nos damos, servem de âncora ou muleta, fazem a diferença por um momento para depois serem descartadas com facilidade. Lavou o rosto, atenta ao som do fluxo que a torneira manava, igual ao ruído branco que tivera em seus pensamentos, horas atrás. Figuras controversas passearam em sua frente e de súbito decidiu que elas eram piores que enfrentar seu reflexo, e por isso bateu no interruptor a sua esquerda. O banheiro de azulejos brancos nasceu da lâmpada e encheu-se feito um balão a seu redor. Encheu o peito de ar e sorriu para sua imagem. Ensaiou uma nova máscara, feita de carne e osso, para enfrentar os dias vindouros. A vida não iria parar e nem poderia desejar por isso. Alcançara um nível de humor que só lhe oferecia a rija estagnação ou uma escalada de retorno. Fechou a torneira concentrando-se nas voltas que dava, nos guinchos do metal.
Voltou para o quarto, querendo despir-se, porém, acabou distraindo-se se recordando do pesadelo que provara. Compreendeu que ele era mais uma recordação.
Uma vez, anos atrás, havia até se esquecido disso, ela estava velejando com Zechs e por uma virada de vento, se desequilibrou e caiu do barco.
Entretanto, por que, no final, não foi a face de Zechs que lhe foi apresentada e não foram as íris cerúleas e límpidas dele que a receberam?
_Heero… –ela sussurrou, indo até a janela. Aquele era um nome do qual não escapava. Ele estava escrito na sua aliança.
A que horas a festa havia terminado? Os jardins estavam mudos e adormecidos, nem pareciam os mesmos de horas atrás…
Precisava ser resistente e proibir o vazio que sentiu rondando-a a tomasse. Ele vinha com o ar noturno, feito uma canção de sereia, para hipnotizar seus sentidos. Encolheu-se, resfriada pelo sereno que o sopro da brisa trazia para ela, assoviando aquele nome em seus ouvidos, reanimando o fogo das lembranças. Em quanto embaraço se encontrou! Tanto, que precisou buscar apoio no parapeito da janela. O sorriso que ensaiara jamais seria égide suficiente para salvaguardá-la do mundo que precisaria enfrentar, porque lá estava ele, e uma feição forçada não a esconderia dele. Estava certa de que, por mais que ele não demonstrasse, Heero sempre via quão profunda eram as rachaduras que ela ganhava a cada percalço.
E, de novo tolamente, sentia medo da reação dele. Será que ele considerou quão seriamente ela pediu desculpas e lhe agradeceu?
Por mais dotados que fossem os olhos dele do poder estranho de sondar além da superfície, haviam passado tanto tempo fugindo dos dela naquela noite que provavelmente ignoraram a verdade do que ela sentia. Poderia ser melhor assim… tinham se envolvido tanto! Agora, ela devia muito a ele… quase se obrigava a admitir que dependia dele.
Julgou-se confusa sobre o que sentia. De tudo o que vivera, do medo, da gratidão, do arrependimento, da resistência e do anseio, a confusão predominava. Sim, mas não poderia excluir a solidão, esse fantasma sem forma. Tal mescla a envolvia feito uma espessa mortalha obrigando-a a dar voltas, sem eixo e sem direção.
Baixou os olhos, quase os cerrando, liberando um suspiro breve, e qual foi sua surpresa ao erguê-los e encontrar o céu mudando de tom! A expectativa extática da antemanhã era invisível e inaudível, porém demandava atenção por meio de seu toque e de como podia se infiltrar nos seres vivos. Naquele exato instante, ela tomava os pássaros, que com o primeiro clarão, deixaram seus pousos e desfiaram seu chilreante cumprimento a manhã de domingo. Para Relena, foi como se o céu estivesse dormindo e simplesmente acabara de abrir os olhos – era dia.
Heero sentiu a mesma agitação. Olhou seu velho amigo sobre a mesa, agora tão sem assunto e graça e tomou só um copo, o único desde que ali se sentara, por simples piedade. Depois, deixou tudo ali e, enfiando as mãos nos bolsos, saiu sem rumo pelo gramado.
Era todo dia a mesma coisa, como é que não poderia haver cansaço? Entretanto, os passarinhos não cansavam de despertar com o Sol e o Sol não se entediava de retornar vez apos vez. A existência simples deles parecia promissora.
Então Heero ergueu os olhos para o alto e, feito um retrato numa moldura, lá estava Relena no centro da abertura das venezianas, as mãos pousadas no parapeito, apoiando o torso que se projetava para fora. Os cabelos, despenteados, mas soltos e levemente ondulados, protegiam a pele do colo dela, escorrendo pesados pela frente. E embora tudo parecesse artístico demais, os olhos dela cravados nele revelavam que era uma figurava viva na janela, a poucos metros, e ao mesmo tempo, como que dentro do mais remoto dos sonhos.
As roseiras e seu perfume delicado eram só o que criavam o pano de fundo para o rapaz altivo, em mangas arregaçadas de camisa, presença selvagem e olhos vorazes e doridos. Sentir-se na mira era uma condição com a qual ela nunca se habituava. Relena baixou o olhar outra vez, estabelecendo uma comparação mental do início da festa, de Heero no smoking impecável de príncipe com a visão da descuidada fera vagante. O fito nunca mudava. Ele aparecia tão irresistível estudando-a do pátio quanto parecera ao pé da escada no hall. O calor, ela conhecia, era sempre presente em seus braços, por mais glacial que fosse seu íntimo.
Voltou a fitá-lo e, umedecendo os lábios antes, preparou-se para erguer o escudo conforme praticara – sorriu.
Ela era o Sol nascente.
E o impulso que Heero teve foi de sacudir a cabeça para atenuar sua expressão de admiração e eliminar a passagem shakespeariana dos pensamentos, mas conteve-se, perplexo demais para desfocar sua atenção do rosto dela.
Se ela sofria, porque sorria?
Não precisava ser forte, ele não cobraria isso dela.
E se sofria, continuava linda, a dor que a martirizava nunca a denegria.
Não viu quando o sorriso dela se desfez, deixando seu magnetismo para trás, mas logo depois, Relena também desocupou a janela, desaparecendo para o interior do quarto.
Por um minuto, ela recolheu-se na beirada da cama, insistindo em repassar o que houvera, interessada em confrontar Heero sem e com o rosto esfolado, os lábios feridos, o ar cansado. Foi por ela que ele lutara. Ficava insegura sobre se sentir feliz com isso, mas sentia-se mesmo assim, sem perceber.
Em pé outra vez, abriu o zíper do vestido realizando contorcionismos graciosos com os braços esguios e deixou a roupa escorrer do seu corpo. Desejava amaldiçoar aquele traje, porém reprimia-se. Estendeu-o na cama e o observou. Devia estar mesmo à beira da loucura para agir assim… Que culpa aquele objeto tinha?
Foi mergulhar na banheira para se distrair, lavar de si tudo que a perturbava sem motivo ou mesmo com razão. Contudo, a única utilidade que sua ação teve foi de contrariar seu propósito. O rorejar do líquido na banheira a devolvia a seu pesadelo, ela o considerava com insistência, perdida em tanto pensar. Era ela mesma quem se confundia porque não podia evitar. E foi uma mera pergunta a responsável por despertar esse retrocesso em seu humor. Sua mente lhe pregou uma de suas peças cruéis por tornar irresistível a consideração do que pensariam de ela tão deliberadamente refrear-se de fazer a denúncia oficial sobre o ataque que sofrera.
Pouco poderia explicar, mesmo a si mesma, dos motivos que guardava para isso, porém, colocava sua incapacidade de enfrentar um tribunal então como a primeira, ainda mais quando estava para começar a lecionar. Não queria tamanha mancha a distinguindo de todos, ressaltando-a e tornando-a desaprovável.
Forçar-se a chegar a essas explicações foi exaustivo. Uma combinação de dores e temores a assolou, apesar de não conseguir evitar tocar no que mais lhe incomodava sobre tudo.
Achava vergonhoso para si ter sido vítima daquela qualidade, mesmo que isso soasse ilógico. Talvez um dia, até ela mesma chegaria à conclusão de que era ilógico ter vergonha, contudo, há certos fatos passados que, analisados, estão despidos de tudo o que eles representaram no dia em que foram presente, porque essa é a sabedoria do tempo. Por ora, não era dona de tal.
Tremia e não era de frio. Não era de medo. Era de revulsão da intensidade de emoções que a devastavam internamente, tendo somente ela mesma como testemunha e repórter incapaz de relatar com fidelidade as sensações.
O que pensar? Adiantava mesmo procurar sentidos nas coisas e sofrer daquele choque de temperaturas, sentir-se pega no meio da luta dos polos iguais do imã? Ela queria tanto decidir como agir, se ao menos soubesse por onde começar…
E se o segredo fosse parar de pensar? E se o segredo fosse deixar tudo correr? Desistir de tentar interferir… afinal, ela sentia-se mesmo como um destroço sem escolha no rio da existência. Mesmo que lutasse, era inútil, porque a correnteza era mais forte que ela.
E chegaria o momento em que entraria em contato pleno com sua força interna e a partir de então, se reconstruiria.
O luto não detém a existência e não foi criado para isso. É feito de respeito. Usá-lo de desculpa era um erro. Sabia disso pela experiência que obteve quando sua mãe partiu. Sofrer por ela não ajudou em nada, não a trouxe de volta, não fez o tempo regredir, não a fez satisfeita. Sofrer faz parte do viver, mas não é a prioridade.
Depois de ter saído da banheira, envolveu-se no robe e ficou ante o espelho, brincando com os próprios cabelos molhados e estudando seu rosto, as linhas e nuanças e quais mensagens transmitiam, perguntando para elas sua idade, até que batidas na porta a vieram chamar.
E ela já sabia quem era.
Abriu pouco a porta, tímida, e não se esforçou em sorrir dessa vez, exibindo uma expressão paciente.
_Você está bem? –a pergunta não tinha nenhum sabor na boca dele e soava quase falsa. E após falar, Heero desviou os olhos para o lado.
_Estou sim. Só um pouco cansada…
E porque não havia mais nada a dizerem, Heero se afastou e ela cerrou a porta.
Ele não estava exatamente contente com o que acabara de fazer. Por que a procurou para perguntar algo tão disparatado? Como se ela fosse ser sincera ainda… certamente, depois daquele ano, Relena nunca mais seria sincera com ele. Para quê mencionar aflições a quem não se importa?
Assentiu e foi para seu quarto. Iria se lavar, se trocar, deitar e tentar descansar um pouco.
E antes de adormecer, ouviu a voz angélica lhe pedir perdão e agradecer, melancólica e pura. Mas ele não poderia aceitar nada disso. Não poderia se envolver mais.
-8-8-8-8-
The Elysium, a casa de praia da família Maxwell, era somente dez minutos de distância de The Wing e era lá onde os quatro rapazes haviam se hospedado no fim de semana. Foram caminhando animadamente quando o evento acabou, depois de tomarem o café colonial às três da manhã no salão de festas junto dos demais amigos. Comportaram-se de maneira neutra e perceberam como a história do ocorrido no estacionamento não estava presente na boca de ninguém, embora com certeza não descolasse de seus pensamentos. Também não saía do deles, que durante o caminho comentaram mais e discutiram a natureza provável do encontro de Dorothy e Heero. E nem se preocupavam em citar o fato do amigo ter desaparecido ao sair da biblioteca, porque o conheciam bem e nunca o impediam de ficar sozinho.
Com aquele tumulto e clima, Duo e Akane passaram a festa inteira separados.
Não comentou com ninguém quão descontente se sentia com isso, mas a primeira coisa que fez ao chegar em casa foi tomar um banho rápido e se vestir com seus jeans preferidos e uma camisa polo preta para telefonar para ela.
Tinha certeza de que ela não estava dormindo, mesmo que fossem quatro horas da manhã. Ele também não tinha planos de dormir naquele momento, como mostrava a sua opção de vestuário.
Ele deixou o telefone tocar até dar na caixa postal. Encarando o visor do iPhone, careteou diante da ideia de ela ainda estar trabalhando, porém, não poderia repreendê-la por isso, já que o evento fora tão grande que ela precisava cuidar de muitos mais detalhes ao seu final do que quando esse começou. Para se distrair enquanto aguardava ela retornar, ficou jogando Angry Birds, verificando o Twitter, caçando sinais de alguma fofoca da noite, e vasculhando o Facebook para descobrir os comentários e acontecimentos da festa que, apesar de terminada, ainda prosseguiria viva no assunto de todos por alguns dias.
Instalara-se tão confortavelmente em sua cama para fazer suas pesquisas que de repente estava sonhando que Slash estava solando "Sweet Child o'Mine" em um show exclusivo em seu jardim. Acontecia que era esse o toque de seu celular. Virou-se de lado, sem abrir os olhos, e tateou pelo iPhone.
_Alô… –não disfarçou que estava dormindo, se é que tinha mesmo acordado. Parecia mesmo impossível não acabar dormindo após desgastar-se tanto e largar-se em seu colchão macio. Seu corpo havia cedido à tentação.
_Hey, Docinho. Tudo bem?
_Ane… –murmurou, um pouco mais alerta. –Já acabaram seus afazeres?
_Sim. Vou correr na praia, venha me encontrar.
_Agora? Há essa hora?
_Ah, mas são seis e meia já.
_Sério? E você já dormiu?
_Ainda não…
Ele riu, incrédulo:
_E não está cansada?
_Parei de prestar atenção nisso seis horas atrás… Depois que eu voltar, vejo se deito um pouco.
_Certo, estou descendo.
Terminando a ligação, Duo sentou-se, espreguiçou-se, divagou mais um pouco em seu show particular do Guns N' Roses, divertindo-se em lamentar-se que fora só um sonho e foi lavar o rosto. Refletiu sobre o que calçar e acabou recorrendo aos tênis converse, mesmo que para sujá-los de areia. Abriu a janela para conferir a aparência da nova manhã, pensando em quão diferente era a vista da sua janela em Nova York. Ali, só mar e céu, as árvores do jardim… nenhum ruído podia ser captado, nem mesmo dentro da casa. Até os empregados ainda estavam dormindo aquele horário.
Depois da descompromissada caminhada de dez minutos para chegar a areia, apreciou os arredores, sentindo o mar rugindo para ele, querendo arrastá-lo para o meio de suas vagas, tanto que Duo sentiu-se estranho quanto às roupas que vestia.
Vinte minutos depois, Ane o encontrou, trajando shorts e top pretos e seu melhor sorriso travesso, o cabelo se agitando loucamente com a corrida, preso em um rabo de cavalo. Ofegando, parou e, levando as mãos à cintura, olhou para trás. Tinha deixado as primeiras pegadas daquele dia na faixa de areia branca. Aquelas que as ondas alcançavam eram apagadas para sempre com uma facilidade poética e surpreendente. Esboçou um sorriso diferente, concordando com o mar. Ele tinha um jeito brando de fazer desaparecer as marcas desnecessárias a sua beleza, por mais fundas que fossem.
_O que está fazendo? –ele aproximou-se, abraçando-a por trás, dando sua atenção a mesma direção que ela.
_Pensando…
_No quê?
Ela deu de ombros, desfazendo-se do laço dos braços dele, encarando-o e beijando-o de leve.
_Acho que eu sei… –e passou a mão pelo rosto dela, tirando um fio da franja que escapara e pousara em seu nariz. –Você só pode estar pensando no que aconteceu com a Lena.
_Mais ou menos. –suspirou, ficando distante por um pouco, olhando para o céu, apertando os olhos mesmo à claridade tão tenra.
_Me explica melhor o que rolou porque o Heero não estava em condição de falar do assunto. –Duo pediu, consternado, banhando-a com um olhar concentrado.
_Vamos caminhar. –cobrindo a vista com a sombra de sua mão, ela sorriu e indicou o espaço a sua frente antes de passar a contar o que viu e descobriu depois de deixar Relena dormindo. Relatou que Alaric lhe mostrou o convite falso com que Decker enganou o porteiro descuidado que realmente não se deu o trabalho de consultar a lista de presentes.
_Alguém dever ter colaborado com ele, não é? Se não, não teria falsificado o convite tão fácil.
_Foi a Colette.
_O quê?
_Ainda não tenho certeza, mas também não adianta nada ir atrás disso. –e meneou a cabeça, inconformada com a atitude da menina.
_A Lette sempre entrando nas maiores frias, mesmo sem querer. –Duo juntou-se à desaprovação condoída da namorada. Ficou grave por um minuto e enchendo o peito da brisa, retornou a falar. –Me diz, da onde o Decker tira tanta audácia para fazer essas coisas? Como pode ser tão maníaco? Quase não dá para acreditar!
Akane criou uma expressão chateada para participá-lo de sua opinião. Sacudiu a cabeça e suspirou:
_Ele é doente, não sei como ninguém percebe e toma uma atitude.
_Que fim ele vai levar? –e depois de alguns passos, ele considerou.
_Pode parecer estranho, mas não estou preocupada com isso…
_Ninguém o denunciou, certo? –percebeu ela responder afirmativamente com a cabeça. –Mas então o que vai impedi-lo de continuar com as investidas?
_Ele mesmo. Tenho certeza de que ele desistiu agora que recebeu tudo pelo que sempre pedira.
Duo assentiu, digerindo as palavras dela. Como sempre, ela parecia ter certeza do que falava e transmitia essa confiança tão bem através da voz e da expressão facial que evitava que ele se perguntasse como ela sabia. Contudo, se ele tivesse visto o modo como Decker deixara o estacionamento, também derivaria conclusão semelhante. O rapaz simplesmente largou tudo para trás em troca de desaparecer, se afastar e esquecer o que viera fazendo, admitindo forçadamente uma derrota que odiou.
_E quanto aos boatos?
_Só um quarto dos presentes na festa sabe realmente o que aconteceu. O evento acabou como se nada extraordinário tivesse agitado a noite… Também, Sylvia e Dorothy vão cooperar comigo mesmo sem eu pedir, porque elas principalmente não querem ouvir o nome da família delas atrelado a uma imagem tão negativa. Vão fazer o melhor possível para controlar os boatos, desviar as conversas, dar as respostas certas a perguntas indiscretas. Daqui algumas semanas, ninguém vai estar disposto a falar sobre isso.
_Vocês operam milagres. –Duo riu-se, perplexo, provocando-a um pouco e perturbando seu reinado de dona da verdade. Era um mal de família esse de querer estar sempre com a razão.
Contudo, ela não se acabrunhava, dando de ombros e sorrindo despreocupada:
_É a força da influência. É uma espada de dois gumes que exige manejo cuidadoso, mas estamos reduzidos a contar com ela para diminuir os estragos. –e mantinha a voz untada de soberba, contudo em uma camada inofensiva e felina, traquina e adorável, do jeito que ele gostava.
_Acho que sei como funciona… –ele comentou em sotto voce, enfiando as mãos nos bolsos e parando de andar.
Akane meneou a cabeça, rindo, mantendo o movimento cadenciado de suas pernas.
_Mas, sabe… –e falando assim, Duo a fez sustar. –Não quero te contrariar, só que acho que esse ocorrido vai ter muito mais consequências do é possível controlar.
_Por que diz isso? –ela se interessou, voltando-se para ele.
_Eu nunca tinha visto o Heero tão perdido quanto nesta madrugada. Ele está diferente. –havia alguma malícia astuta colorindo sua voz ali junto de um meio sorriso.
_Você também notou? –comentou, e quando ele a alcançou, ela apanhou a mão dele com a sua e seguiram em frente. Ficou satisfeita em saber que era àquilo que ele se referira. –Pelo jeito, Heero já não está mais se esforçando tanto em esconder que sente alguma coisa.
_Ele não está… –anuiu. –E me diverte que Decker não imagina o quanto falhou em tirar a Lena do Heero. –e ainda observou com pilhéria. –Acabou até aproximando-os mais!
_Agora só é preciso que eles aceitem isso. –e ela adicionou, suspirando risonha.
_Não falta muito… –ele também tinha suas certezas inexplicáveis, mas não menos dignas de confiança.
Akane não teve medo de concordar com Duo, balançando a cabeça, sonhadora.
_Estou curioso para ver como vai ser daqui para frente. –ele confessou mais a seguir, Akane encostou-se a ele e abraçados continuaram acompanhando a linha irregular que o mar criava na terra.
Houve uma pausa na qual eles ponderaram muitas coisas velozmente e, quando se entreolharam, reconheceram já haver tratado daquele assunto antes, contudo, aquela conversa os entretinha, não por cruel especulação, mas com a mesma expectativa alegre de quem, por fidelidade, carinho e bondade, sem falta aposta no cavalo azarão em todas as corridas, fingindo que não perdiam nada. Era tudo o que podiam fazer, assim, alimentavam desavergonhadamente aquela esperança, porque sabiam que ela não ficaria frustrada para sempre e, quando fosse concretizada, compensaria abundantemente, muito mais do que torcer pelo certo e vê-lo se realizar.
Bom dia, leitor!
Não, essa não é nenhuma voz do além falando com você! Sou eu sim, a autora, regressando após o que parecem séculos!
Desculpe fazer você esperar TANTO.
Eu não consegui evitar.
Peço que fique tranquilo porque eu não vou abandonar esse projeto e ele não está em hiato, eu só sou lerda mesmo.
Depois do circo que eu armei no capítulo anterior, sobrou para eu lidar com as feras que escaparam das jaulas, né? Fazer o quê, ossos do ofício. É sempre um grande doloroso prazer terminar um capítulo! É sempre uma vitória…
Quero assim agradecer a você que me acompanha fielmente. Se você soubesse quanto suas reviews e apoio são importantes!
Dedico esse capítulo a três pessoas muito especiais: Lica, Suss e Sue.
Fiquei feliz com os novos leitores! Muito obrigada pela torcida e pelas reviews, mas peço que escrevam mais, me contem sua opinião e expectativas e sejam pacientes. Me pressionar a continuar não vai colaborar em nada para meu ritmo e meu humor.
Enquanto aguardam a postagem do capítulo 36, sugiro que leiam meu outro romance, Modern/Strange Fairytale, no qual Heero e Relena vivem outra história não menos empolgante do que esta!
Escrever este capítulo foi muito interessante. Eu tive todo tipo de emoção!
Assim, queria explicar que, apesar do curso de ação que optei para a fic pela mera eliminação de trabalho, alerto a todos que, em caso de estupro ou tentativa de estupro ou ainda qualquer tipo de abuso, o correto é procurar as autoridades e fazer sua voz ser ouvida. Não siga o exemplo da Lena aqui e tenha vergonha. Se as vítimas não levarem a sério o que sofreram, a violência sexual nunca vai ter o destaque e a punição que merece.
Isto posto, espero que tenham gostado do capítulo!
Logo, logo tem mais!
Amo vocês!
Beijos!
16.04.2012
