História: Perímetro
Imóvel, Tsunade alternou o seu olhar entre o papel deixado na sua mesa e a sua pupila parada de pé do outro lado da escrivaninha.
"O que essa porcaria está fazendo na minha mesa?" ela perguntou, mantendo distância do papel como se esse fosse uma bomba—o que ela preferia que fosse.
Sakura pigarreou, entrelaçando as mãos nas costas. "É a minha carta de demissão do hospital."
Tsunade a encarou por alguns segundos. "Se essa é a sua tentativa de ser engraçada, saiba que eu não estou achando a menor graça, Haruno." E chamar a sua pupila, que era quase a sua filha, pelo sobrenome, era um indício de que ela realmente não achou aquilo nada divertido.
"Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida."
A Hokage respirou fundo, pinçando o canto dos olhos em busca da sua paciência. Tinha tido um dia longo e difícil. Um atrito com Sakura era tudo o que ela não precisava naquele momento.
"Eu posso saber por que você está pensando em cometer essa atrocidade?"
"Eu só volto quando Sasuke estiver fora da cadeia."
Tsunade suspirou. Não estava tão surpresa mais. "Por que eu desconfiava que isso tinha a ver com aquele traste? Eu vou ignorar por alguns instantes que você esteja chantageando a Hokage para não exatamente para o lugar de onde você quer que o Uchiha saia. Sakura, você não pode fazer isso. Você é a médica mais importante da vila. Muitas vidas dependem de você."
Ela não dizia isso para inflar o ego de Sakura a ponto de fazê-la mudar de ideia. Depois de si mesma Haruno Sakura era, sim, de longe, a médica mais importante da vila. Era a única que tinha as habilidades comparáveis às da Hokage. Konoha não podia se dar ao luxo de perde-la – especialmente por um motivo desses.
"E é por isso que sugiro que pense com carinho na minha proposta."
"Isso não é uma proposta. É um ultimato."
"Pense como quiser. Os resultados, dependendo da sua decisão, serão os mesmos."
"Você não pode sair do hospital, Sakura." A Hokage também se pôs de pé em uma vã tentativa de intimidar a sua antiga aluna. Não obteve o efeito desejável. "Qual justificativa você usará para essa decisão absurda? Não pode dizer que é por causa daquele traste. Você não deveria saber que ele está na prisão, se esqueceu? O Conselho vai pegar a minha cabeça se souber que você sabe."
"Eu não sou burra o suficiente para usar isso como desculpa para alguém mais além de você," ela retrucou, levemente ofendida com a assunção de Tsunade. "Eu posso inventar outras desculpas. Posso dizer que cansei de trabalhar lá –"
A Hokage riu em escárnio. "Você cansada de trabalhar? Pelo amor de Deus, Sakura. Ninguém vai acreditar nisso."
"Eu não estou me importando com quem vai ou não acreditar."
"Pois deveria! O Conselho pode desconfiar disso. Todo mundo sabe que só alguma coisa muito drástica te tiraria daquele hospital." Ela passou uma mão pelos cabelos loiros já injuriados durante o restante do dia. "Sakura, você sabe que tem casos naquele hospital que só você pode resolver. Não há nenhum outro médico com a mesma competência que a sua em todo o país. Vai mesmo deixar centenas de pacientes desassistidos por causa de um garoto?"
Sasuke não é mais um garoto, ela pensou, mas se absteve de dizer. Sentiu um aperto no coração ao se lembrar dos seus pacientes e do prazer que sentia ao acordar cedo todos os dias para ir ao hospital, mas ela não tinha outra escolha. Por mais que tivesse pensado em outras possibilidades na última semana, desde que visitou Sasuke, nada lhe veio à cabeça. Ela não podia pedir diretamente ao Conselho e não podia arrancar Sasuke de lá à força.
Ela não conseguia pensar em outro meio de tirá-lo de lá e, se realmente houvesse outro, ela já não tinha mais paciência para esperar. Sair do hospital talvez fosse a via mais rápida para a liberdade de Sasuke. Depois que ela viu com os seus próprios olhos a maneira como ele estava sendo tratado naquele inferno, ela se prometeu que faria de absolutamente tudo para tirá-lo de lá. Ela não conseguira ficar um segundo sequer tranquila, lembrando-se de como ele estava magro, desidratado, desnutrido, fraco e doente, e isso causava uma dor no seu coração infinitamente maior do que a perspectiva de não trabalhar.
"Eu posso auxiliar nos casos mais complicados, mas não trabalharei oficialmente no hospital," ela disse. "Não vou mais participar das pesquisas nem do treinamento de outros médicos. Eu estou fora."
O Conselho perderá muito dinheiro dos investimentos de outras vilas se ela sair, Sakura concluiu. Muitas outras autoridades financiavam pesquisas em Konoha por ser um centro tecnologicamente mais avançado – e, obviamente, por ter a melhor médica do país no encargo de muitas das pesquisas. Além disso, muitos enviavam estudantes de medicina para serem treinados em Konoha sob os comandos de Sakura, e Konoha lucrava com isso. Sakura conhecia o Conselho bem o suficiente para saber que o melhor alvo para injuriá-los era o bolso deles.
Tsunade ficou alguns segundos em silêncio, observando o rosto da sua pupila. "Você tem certeza disso?"
"Absoluta. Tire Sasuke da cadeia e eu retornarei imediatamente."
"Eu não posso passar isso para o Conselho, Sakura!" A Hokage alteou a voz. Começava a se desesperar com a perspectiva de perder o seu melhor profissional no hospital. "Você não deveria saber nada sobre Sasuke! Se eles souberem que você sabe, desconfiarão de mim, e eu não posso ter mais atritos com o Conselho."
"Pois então diga que eu descobri de outra forma!" Sakura também aumentou o seu tom de voz. Não iria desistir daquela ideia – não quando a vida de Sasuke estava em jogo e, sim, ele estava naquele buraco, no estado em que estava, era um risco de vida. "Diga, sei lá, que há rumores sobre Sasuke. Alguém pode tê-lo visto chegando pelos portões ou... ou alguém de dentro da prisão pode ter aberto o bico aqui fora – ou, quem sabe, alguém que o atendeu no hospital –"
"Todos eles prometeram sigilo total nesse caso! Eu teria que punir alguém. Você quer mesmo ser responsabilizada pela punição de um inocente só porque você quer que o seu namoradinho esteja fora da cadeia – lugar que ele merece estar?"
"Ele não merece estar encarcerado feito um bicho!" Sakura se enfureceu. "Como você pode pensar assim? Ele eliminou o maior grupo mercenário do país, shishou! Que outro benefício maior você acha que ele poderia ter trazido a Konoha? Ele deveria ter tido uma estátua erguida em praça pública e não estar apodrecendo em uma cela fétida!"
"Por um acaso você se esqueceu de todos os nossos shinobis que ele tentou assassinar – inclusive você?"
Sakura engoliu em seco. Ela não precisava que a Hokage a lembrasse do pior momento de toda a sua vida. "Eu também tentei mata-lo. E, mesmo assim, ele me acolheu na casa dele e salvou a minha vida."
"Ele é uma ameaça para Konoha. Você sabe o que há por trás do massacre da família dele. Sabe que ele tem motivos de sobre para querer se vingar de Konoha. Ele é uma ameaça em potencial."
"E você acha que submetê-lo a uma vida dessas irá melhorar a situação? Acha que ele passará a amar Konoha depois de passar o que está passando naquela prisão? Quando ele sair dali—se ele sair dali – ele terá um motivo a mais para querer vingança. Quer saber, Hokage-sama, eu não vim aqui para discutir," Sakura continuou quando a Hokage abriu a boca para continuar, "Eu vim aqui para anunciar que estou encerrando as minhas contribuições para o hospital até que Uchiha Sasuke esteja livre – e, eu juro por Deus, se algo pior acontecer com ele até lá, eu prometo que nunca mais volto a pôr os pés em Konoha."
"Você tem noção da situação que está me colocando?" Tsunade rugiu. Parecia prestes a pegar a escrivaninha e jogá-la em Sakura. "Eu não tenho esse tipo de poder sobre o Conselho! Uchiha Sasuke foi encarcerado por decisão unânime! Isso não é algo contra a qual eu possa combater!"
"E é por isso que eu estou te ajudando! Eu estou te dando uma arma para combatê-los! Eu sei que você não o quer lá, shishou. Eu sei que o seu coração não é tão podre quanto os dos membros do Conselho. Ninguém tem o direito de ser tratado como Sasuke tem sido tratado. Diga ao Conselho o tamanho do alívio de Konoha ao se ver livre dos Mãos Limpas. Diga que eu certamente não estaria viva se não fosse por Uchiha Sasuke. Diga que se ele tivesse intenções hostis contra Konoha ele já teria agido há muito tempo. Ele escolheu ficar longe daqui durante todos esses anos. Ele não quis vir até aqui esse tempo todo justamente para evitar esse tipo de problema. Ele odeia Konoha, shishou, isso é verdade, mas ele não vai fazer nada. Eu coloco a minha mão no fogo por ele."
A Hokage se sentou, ligeiramente mais calma. "E se você estiver errada, Sakura? E se o que ele realmente quiser for destruir Konoha? Não me surpreenderia se fosse esse o caso. Você o conhece melhor do que ninguém, sabe da personalidade sombra e vingativa dele."
"Ele não vai fazer nada. Eu tenho certeza."
"Como você pode ter certeza?"
"Eu sinto."
Mais uma vez Tsunade riu em deboche. "Você sente? Você acha que o Conselho vai permitir que um criminoso fugitivo com um ódio profundo pela vila seja libertado porque você, a garota completamente apaixonada por ele, sente?"
"Não. O Conselho vai libertar Sasuke porque é essa a minha condição para continuar trabalhando no hospital."
"Talvez você esteja se julgando importante demais, Haruno. Você pode não ser tão indispensável quanto pensa que é."
"Se eles não aceitarem, eu posso pedir a ajuda de Naruto. Eu posso pedir que ele faça o mesmo que eu, e eu tenho certeza que ele não pensaria duas vezes antes de aceitar. Talvez Kakashi também faça o mesmo. Talvez eu possa convencer o Sai. A decisão é de vocês."
Tsunade fitou a sua pupila. Maldição. Aquela era a primeira vez que se arrependia de ter transmitidos certos valores seus para ela durante todos aqueles anos de aprendizado. Sakura não estaria ali, na sua frente, tomando essa medida drástica, se Tsunade não tivesse lhe ensinado o quão importantes são a lealdade, a amizade, a teimosia e, acima de tudo, o amor.
Ela tinha subestimado os sentimentos de Sakura por aquele moleque arrogante. Pelo que tinha ouvido de Kakashi e da boca da própria Haruno, ela suspeitava que o amor que ela sentia pelo Uchiha fosse muito mais superficial do que aquilo. Certamente imaginou que ela priorizaria o seu trabalho – o que, Tsunade achava, era a coisa mais importante no mundo de Haruno Sakura – ao garoto que a deixou, anos atrás, e que tanto sofrimento causou.
Entretanto, vendo-a agora, resoluta, ela tinha certeza de que o peso de Uchiha Sasuke no coração de Sakura era maior do que ela desconfiava. Tsunade não sabia o que aconteceu durante os dias em que eles estiveram juntos. Suspeitava, é claro, mas não tinha certeza de nada. Sakura não quis revelar nada além de que Sasuke salvara a sua vida quando ela esteve à beira da morte.
Ela sabia que o seu dever era repreender a sua pupila por aquela peça que estava pregando. Estava chantageando a Hokage de maneira desrespeitosa em um assunto de alta delicadeza. Porém, ela não tinha forças para dizer mais uma palavra sequer em reprovação. Deveria, mas não iria. Sabia o que era amar tão intensamente quanto Sakura amava aquele vermezinho. Sabia o que era sacrificar tudo pelo bem estar de outra pessoa – e, ela não tinha visitado o infeliz da prisão, mas sabia que ele estava sendo maltratado. Sakura não chegaria a esse ponto se ele estivesse sendo massageado todo dia em uma cela com aromas de rosa, desfrutando de um banquete rodeado de virgens.
A Hokage estava tão dividida quanto a sua pupila. De um lado estava o desejo de agradar a sua quase filha (por mais cruel que fosse o tratamento que o Uchiha estava recebendo, ela não ligava tanto assim para ele, e sabia que ele era mais forte do que aquilo). Do outro, a fúria e desconfiança do Conselho.
O amor e o dever. Exatamente como Sakura.
"Saia daqui," foi o que ela acabou dizendo, exausta. Silenciosamente Sakura a deixou.
