Para Lílian Evans
Por Ayame N. Yukane
Capítulo 37
Ter e Não Ter
Logo que Remo a soltou gentilmente, também no intuito de encarar quem fizera a intromissão, Lílian virou seu rosto para ver quem era. Seu coração estava acelerado, sua vista estava turva, e, para completar, o céu já estava escuro. Como escurecera sem notar nada?
Aliás, o que estava fazendo ali, em tal pose comprometedora com seu melhor amigo? E, ainda por cima, fora do castelo depois do entardecer? Ela, uma monitora-chefe! A razão chegara tarde demais para ela.
O fato de Lílian não conseguir enxergar quem era não diminuía seu embaraço, afinal, fora realmente uma cena romântica. Mas aquele não agia em nada como Remo Lupin, talvez como Tiago Potter, mas Remo nunca faria aquilo... Ou pelo menos, nunca fez.
"Não, Lílian. Remo é seu melhor amigo, por Merlin!!", repreendeu-se irritada tentando se libertar dos braços acalentadores do amigo. "Diminua essa proximidade agora!!!".
Xingou-se mais um pouco por ainda sentir a respiração do rapaz em seu pescoço, mesmo depois de ter se afastado o suficiente para não senti-la. Xingou-se por deixar chegar onde estava. Xingou-se por não ter descoberto que Remo era Ille mais cedo. Xingou-se por achar que aquele Remo diferente era extremamente sedutor... Descobriu-se querendo ficar um pouco mais como estava antes.
- Lumus – disse Lílian reunindo toda a coragem que ainda lhe restava, erguendo a própria varinha em direção à visita indiscreta com a mão trêmula.
A figura ainda parcialmente encoberta pelas sombras da noite, tinha apenas poucas partes do corpo visíveis, obrigou Lílian a forçar a vista mais um pouco. Olhou bem para o que conseguiu enxergar da pessoa e sentiu seu coração começar a bater mais rápido e forte, como que se em seu interior ela soubesse quem era. Aquela voz masculina que gritara era inconfundível. Não podia ser... Era só sua imaginação.
- Não... – murmurou ela mais para si mesma do que para os dois rapazes presentes, afastando-se de Remo lentamente.
- Lílian, venha para cá! – Pediu o rapaz que acabara de chegar.
Ela negou com a cabeça olhando para o rapaz que antes abraçava... Como podia haver dois Remos?
Estava ficando louca? Podia ver claramente dois Remos Lupin diante de si. Um a abraçando e outro, o que chegara, pedindo com urgência para que ela fosse para perto dele.
Era só um sonho... Um sonho ruim. Ou bom? Até chegar o segundo Lupin ela estava gostando... não estava? Não sabia ao certo. Remo fora bom amigo por tantos anos, nunca demonstrara gostar dela de outra forma. Mas isso não o impedia de gostar, talvez tivesse apenas escrito as cartas para extravasar esse sentimento de uma forma diferente do que declaração direta... Nada era impossível.
Mas aquilo, ainda sim, estava muito errado. Se ele realmente tivesse escrito as cartas e fosse tão tímido quanto ela pensava, porque resolvera fazer tal mudança drástica naquela noite? Porque ele sabia que ela gostava de Tiago, mas depois do que ele fez não gostava mais?
"Coragem, Lílian", a ruiva ergueu primeiramente a varinha em direção ao Lupin recém-chegado, e depois para o que quase beijara.
- Lílian... – chamaram os dois juntos.
- Expelliarmus! – Exclamou num impulso atingindo o rapaz para que erguera a varinha por último.
Porém, para sua surpresa, os dois foram jogados para trás, para lados opostos, e ambas as varinhas voaram para sua mão.
Ambas eram estranhas, como se fossem metades de uma varinha cortada ao meio transversalmente. Eram muito mais finas do que o comum. Lílian as juntou sem pensar, como quem junta peças de um quebra-cabeça, e, para sua surpresa, quando olhou novamente para os Lupins, só havia uma única figura no gramado, assim como uma única varinha.
- Remo! – Gritou ela correndo em direção ao rapaz estirado no chão, ajoelhando-se ao seu lado.
Não obteve resposta, ele permaneceu imóvel. Lílian passou a chacoalhá-lo, sem saber muito o que fazer diante da visão dele desacordado a sua frente, por culpa sua.
- Remo! Remo!! – Agora seus olhos estavam marejados. Nada poderia ter acontecido de grave com ele, poderia?! Onde estava o outro? – Remo!!!
Lentamente o rapaz abriu os olhos, dando de cara com Lílian desesperada, chacoalhando-o, com lágrimas silenciosas escorrendo livremente pelo rosto.
-... Por que está chorando?
- E então? O que aconteceu depois, Lily? – Perguntou Mel irrequieta, com os olhos brilhando, sentada com as pernas cruzadas na cama de Lílian.
Passara-se um dia desde seu encontro com Lupin na cabana de Hagrid, ele fora a Ala Hospitalar, mas ela não tivera coragem de ir visitá-lo. Nem mesmo o fato de Kate ainda estar sendo tratada serviu para que ela passasse perto da enfermaria. Vergonha de si mesma. Sentia vergonha do que quase fizera.
- Então, ele disse uma frase que eu reconheci de algum lugar...
- Que frase?
- "Às vezes em me pergunto, Lílian... O que é fé? O que é acreditar? De que adianta ter fé em algo e ao mesmo tempo não acreditar de fato nisso?" – Imitou a ruiva, tentando imitar a voz grossa do amigo.
- De onde você a reconheceu? – Perguntou Mel confusa. – Eu não me lembro de ter escutado nada parecido...
Então, Lílian se levantou da cama e foi até seu malão, de onde tirou uma caixa. Postou-se ao lado de Mel e abriu-a, revelando que abrigava inúmeras cartas.
- Lily, você não disse que detestava esse Ille? Por quê... Por que tem uma caixa exclusiva para as cartas dele??
- Eu também não sei, Mel... Mas leia esta carta – disse ela entregando uma carta em um envelope pardo para ela. – Foi a última que recebi dele.
- "Às vezes em me pergunto: O que é fé? O que é acreditar? De que adianta ter fé em algo e ao mesmo tempo não acreditar de fato nisso?" – leu Mel arregalando os olhos a cada palavra. – Lupin? Remo Lupin é o nosso Ille?!
- É o que penso, Mel. Depois do que ele fez e o que eu quase fiz...
- Espere, o que vocês quase fizeram?
- Calma. – Riu-se a ruiva da expressão atônita da loira. - Depois dele dizer a frase, ele disse que inventou uma sigla de "I Love Lílian Evans", o que é Ille, certo?
Mel soltou uma exclamação de "Que óbvio! Por que não percebemos antes?", mas Lílian a fez permanecer calada, esperando ansiosa pelo resto, como se a vida da amiga fosse uma de suas novelas favoritas.
- Ele disse que não podia competir com nenhum "deles"... Então não entendi...
- Não podia competir com Tiago e o resto – esclareceu Mel, como se aquilo fosse o óbvio.
- Disse que com medo de me perder para sempre tentou apagar meu rosto, tentou esquecer minha voz... Mas eu não entendo. Se ele dissesse para mim o que ele disse hoje eu teria me rendido. Qualquer garota teria! Por que ele disse que não tinha chances, então? E contra Potter?! Por favor...
- Não é assim, Lily! – Exclamou Mel. – Ele viu que não podia te ter por causa do Tiago, ele não queria fazer isso com o amigo dele...
- Então, ele disse que não tinha conseguido, e me perguntou o porquê. – Ignorou-a Lílian. - Eu não respondi.
- E ele?!
- Ele fechou os olhos e se aproximou... E eu acabei fazendo o mesmo.
Mel soltou outra exclamação.
- Lily! Vocês... Qual é a situação de vocês agora? – Exaltou-se ela.
- Calma, Mel. Não nos beijamos.
- Por quê?! – Bradou ela irritada.
- Porque chegou alguém onde estávamos.
- Ah, sempre tem que ter algum estraga prazeres! Quem era o infeliz? Tem toda cara de ser o Sirius! Eu vou bater nele!
- Era o Remo.
- Ah, o Remo! Eu vou bater nele por estragar seu momento com o... o Remo? Lílian, quem foi que chegou?! – Perguntou ainda mais aborrecida.
- O Remo – insistiu a ruiva.
- Mas o Remo estava com você – disse a loira irritada. Sua amiga, como sempre, estava variando as idéias...
- Sim, parte dele...
- Oh, Merlin!!!! – Exclamou Mel levando as mãos à boca, parecendo que entendera o que acontecera.
- O que foi?! – Perguntou Lílian querendo saber se a amiga tinha alguma informação a mais do que ela.
- Tonks... Ninfadora Tonks!! Merlin, Merlin, Merlin!!!!!!
- Tonks? O que tem a garota? – Perguntou Lílian tentando fazer alguma conexão entre ela e Lupin, mas nenhuma lhe veio à mente, a não ser a confusão que ela armara por achar que Remo lhe daria atenção se tomasse a aparência de Lílian.
Por fim, lembrou-se vagamente de Mel falando algo sobre uma poção... Mas não dera muita atenção à amiga.
- Tonks estava preocupada com Remo... Então, parou-o no corredor e pediu que ele ficasse lá. Eu fiquei com ele por um tempo.
- Está bem, mas o que isso tem a ver? Eu lembro que você me falou sobre uma poção...
- Isso mesmo! Tem tudo a ver! Ela perguntou se alguma coisa estava incomodando Remo... Ele disse que sim. Então ela estendeu a ele uma poção e disse que o que o incomodava sairia dele.
- Tá bom, Mel, acho que você está com sono... – Lílian revirou os olhos sem dar crédito às palavras da amiga.
- Não, Lily! E se algo literalmente saiu dele??! A única coisa que vi antes de sair de lá era que a varinha de Remo estava partida ao meio. Ele disse que estava tonto e ela o segurou ali, dizendo que eu podia ir embora.
- Varinha partida?! Mel, quando eu uni as varinhas...
-... Você não viu mais dois Remos? Só tinha um?
- Exatamente.
- Quer dizer que era você que estava incomodando o Remo, Lily? – Zombou Mel.
- Isso não tem graça, Mel – repreendeu-a Lílian. – Será que foi por isso que a outra parte dele me ignorava?
- Acho que é provável – disse Mel colocando a mão apoiando o queixo, pensativa.
Lílian ainda não podia acreditar que tudo aquilo acontecera... Afinal, o que dera nela para querer beijar o melhor amigo? Se a outra metade de Lupin não tivesse aparecido... O que ela teria feito?
O mais irônico para ela era que acertara logo de cara quem era seu suspeito de quem era Ille... Mas fora também o que descartara mais rápido do que todos os outros. O que seria de sua amizade agora?
- O que pretende fazer, Lily? – Perguntou Mel após longos minutos de silêncio.
- Como assim?
- Digo, uma das metades de Remo viu você quase o beijando... Agora que estão juntos novamente você tem de explicar o que aconteceu.
- Mas se estão juntos novamente, ele já sabe – disse Lílian. Ela não queria explicar para Remo o que acontecera... Afinal, o que tinha para explicar?
- Lily... Você tem que explicar a ele o porquê de quase tê-lo beijado – disse Mel impacientemente. – Ele não pode ficar sem essa explicação... Vai ficar confuso! E é possível que vocês nem mais amigos sejam!!
A coisa que Lílian menos queria era estragar a amizade que já tinha há tantos anos com Remo... Desde de seu primeiro dia no Expresso de Hogwarts, quando estava sendo maltratada por alunos, que viriam a se tornar sonserinos, Remo a ajudara, e já era um excelente bruxo para a idade.
Em contra partida, o que ela explicaria? Nem a própria Lílian sabia o porquê de quase tê-lo beijado! Não sabia o porquê de ter-se deixado entorpecer por encantos e o charme que ele demonstrara ter... Lembrava-se apenas que ele agia como Tiago.
- Eu vou falar com ele, é claro – tranqüilizou-a Lílian sem colocar muita fé em suas palavras.
- Quando? – Perguntou Mel interessada. – Já se passou um dia!! Tem que ser rápido!
- Que curiosa você está hoje, senhorita McGonagall! – Brincou a ruiva saindo do quarto, com a caixa com as cartas de Ille em mãos. – Eu não tenho toda essa pressa...
- Aonde você vai?! – Perguntou Mel, levantando-se com um salto da cama.
- Pensar – respondeu Lílian antes de sumir pela porta do dormitório.
Desceu as escadas calmamente, não se importando com quem estava no Salão Comunal da Grifinória, apenas se sentou em um sofá próximo e abriu a caixa, pegando as cartas desde o início para tentar clarear as idéias.
Foi quando alguém se sentou a seu lado.
- O que está lendo, Lily?
- Remo! – Exclamou ela apertando a carta que lia contra o peito. – Que susto você me deu!
Mas ele não riu como rira no dia anterior. Seu semblante descontraído começou a ficar sério.
Até que pairou um silêncio incômodo na Sala Comunal. Ele não dizia nada, apenas a encarava com seriedade e ela sabia que ele buscava por uma resposta, mesmo que ela continuasse em silêncio, ele a esperaria.
- Olha, Remo... – começou ela sem saber ao certo o que dizer. - Eu... eu fiz aquilo porque... foi o momento e... – começou ela, mas ele a interrompeu.
- Eu não entendo, Lílian... – disse olhando nos olhos dela, seu olhar era pesaroso e aquilo fez Lílian ajeitar-se no sofá. – Era pra ser platônico, entende? Já estava conformado, eu não esperava que...
- Não deveria ter se conformado, Remo, devia ter falado comigo, como fez ontem! – Exclamou ela sem saber ao certo o porquê.
- Não fui eu que falei com você ontem, Lílian!
- Mas é claro que foi! Por mais que a poção da Tonks tivesse feito você se partir em dois, ainda sim era você! – Acusou ela pensando seriamente em começar a apontar com o dedo indicador para parecer mais autoritária, porém desistiu da idéia. Afinal, estava dando um conselho ou brigando?
- Não faço idéia de como soube dessa poção, mas o que estava me incomodando não era isso! Tonks entendeu errado! E além do mais, a minha parte sóbria não estava lá, Lílian! – Defendeu-se Remo. – Você acha que eu teria feito o que fiz se estivesse normal?!
Lílian ficou por um momento em silêncio. Aquilo a ofendera... Será que era tão difícil amar Lílian Evans a ponto de não querê-la? Ela não queria ser um peso para ele, mas se feriu de alguma forma ao escutar que ela não era o que o incomodava.
- Mas... Por que você quer resolver tudo sozinho?! Droga, Remo!!! Poderia ter falado comigo desde o início!! Pensei que fôssemos amigos! – Explodiu ela sentindo a garganta começar a doer. Não tardaria a cair no choro, podia sentir.
- Somos amigos! Mas se eu falasse pra você, nem isso talvez fôssemos mais!! – Rebateu Remo no mesmo tom da ruiva.
- Quando foi que eu não entendi você, Remo?! – Sua voz estava falha.
- Engraçado que não está entendendo agora!! – Exclamou ele irônico.
Lílian respirou fundo e tentou dizer no tom de voz mais calmo possível para não acabar chorando:
- Certo, então o que está tentando me dizer?
Para a surpresa de Lílian, Remo riu sarcasticamente e amparou os cotovelos nas coxas, para apoiar a testa nas mãos.
- Desculpe, Lílian... Mas eu não posso. Não posso... – Lílian sentiu seu tom de voz pesaroso. Como seria querer muito algo e quando pudesse possuí-lo, não pudesse tê-lo ao mesmo tempo?
- Como não pode? Você quem começou com essas cartas!
- Mas eu não esperava ser descoberto, era só um desabafo.
Lílian fez menção de concordar mecanicamente com a cabeça, mas logo se deu conta do que faria e negou.
- Não, eu não entendo! – Protestou ela, fazendo com que o rapaz a seu lado erguesse a cabeça e a olhasse nos olhos.
- Entende sim, Lily. Tiago é meu amigo e...
- Tiago? TIAGO?! – Bradou ela com os olhos faiscando de fúria, agora com lágrimas escorrendo livremente por seu rosto. Lutara tanto para não chorar... Mas já não importava mais. Como ele podia? Depois de tudo... Como conseguia dizer tais coisas? – Como pode dizer que aquilo é seu amigo?! Por acaso se esqueceu de Kate?!
Porém, ela não pode continuar com sua gritaria, já que subitamente Remo a abraçara contra seu próprio peito. A ruiva podia escutar seu coração bater, acelerado e desajeitado, saindo fora do ritmo que costumava seguir.
- Eu tenho certeza, Lílian! Aquele não era Tiago. – Começava Remo, tentando fazer com que sua explicação não soasse absurda demais... Afinal, quem acreditaria? – Dumbledore me disse que... Ah, esquece. Não sei como você viu o que houve, mas tenho certeza que viu. Eu não quero te ver sofrer, Lílian.
Foi nesse momento de fraqueza que Lílian permitiu a si mesma chorar nos ombros do amigo. Abraçou-o com firmeza, apertando-o contra si, e começou a sussurrar com voz embriagada:
- Por que aquela sereia tagarela maldita tinha que falar logo com você?
- Era para ter sido assim... – sussurrou ele a seus ouvidos em tom sereno, afagando os cabelos da ruiva.
Foi então que alguém se sentou em uma das poltronas próximas aos dois, fazendo com que eles se soltassem envergonhados para ver quem era.
Era Tiago. E pegara algumas das cartas de ILLE da caixa de Lílian, e agora as tinha na mão direita.
Lílian e Remo abriram a boca e fecharam algumas vezes, sem deixar que nenhum som escapasse.
Tiago poupou-os do trabalho de falarem qualquer coisa, olhando friamente para Remo e dizendo em tom amargo:
- É, muitas revelações para uma só noite.
C.O.N.T.I.N.U.A.
N/A: Olá!!
Consegui acertar as coisas entre Remo e Lily, mas e agora que o Tiago apareceu? Como eu, uma mera ficwriter, teria a coragem de estragar a amizade de Remo e Lily? Mesmo que Remo seja meu protegido... Meu querido e... Ah, eu amo o Remo!
Desejo a todos umas ótimas férias! Não consegui aparecer antes do Natal ou do Ano Novo, mas, espero que tenham se divertido, descansado, e passado esses dias com as pessoas que vocês mais gostam em todo o mundo!
Muito obrigada a todos! Espero reviews!
Beijinhos!!
AyaNayru
