Nota:
Muito obrigada pelas reviews e carinho de vocês que estão acompanhando a fic! Eu nem tenho palavras para dizer o quão feliz isso me deixa (e me emocionei pakas no comentário da Daiane sobre a escrita, poxa, muito obrigada!). Nesse capítulo, vai dar pra entender melhor a relação entre Eren e Mikasa e seu tio.
Portanto, desejo uma ótima leitura e um maravilhoso restinho de semana a vocês. ;)
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 35: A Reunião
A música estava mais alta agora, e podiam ver a fogueira em volta da qual os nômades se reuniram em toda a sua glória ardente. O alto pilar de chamas vermelhas e douradas cuspia brasas e fumaça cinza no céu da noite, iluminando as tendas extravagantes e multicoloridas de forma que as lantejoulas que ornavam os tecidos desbotados cintilavam como pedaços de ouro. As batidas de tambor eram pontuadas por gritos entusiasmados e Eren podia ver homens bêbados com seus lungis pendurados em suas cinturas dançando em estranhos pulinhos de um pé só em volta da fogueira em meio às risadas de seus espectadores. Seu guia fez um som irritado para impulsioná-los a ir mais rápido pelo caminho quando diminuíram o passo para assistir ao espetáculo.
— Isso me lembra os velhos tempos. — relembrou Mikasa, com tristeza. A atmosfera estava martelando com energia e vivacidade, mas para ele era muito nostálgico. Lembrava-o do tipo de felicidade da infância que ele nunca sentiria de novo.
A tenda de Hannes era a maior do lote, localizada no centro do acampamento Paāvaena. Uma miríade de tecidos misturados e forrados de forma tão ostensiva que até se destacava das outras.
Seu guia grunhiu e sacudiu a cabeça na direção da tenda.
— Ele está lá dentro? Eṅkaḷ mama? — Outro grunhido afirmativo, agora um pouco impaciente. Os olhos escuros de seu guia viajaram entre Eren e sua irmã cautelosamente, vasculhando-os mais uma vez, machete balançando casualmente em sua mão. Eren sorriu embaraçosamente. — Tudo bem, então. Nandri!
Eles foram cumprimentados pelo cheiro inebriante de ganja e álcool assim que colocaram os pés dentro da tenda. Mikasa e ele compartilharam uma careta. Típico de Hannes; aonde quer que fosse, o fedor de seus vícios o seguiam. A tenda estava quente e um pouco sufocante; os panos suspensos não permitiam muita ventilação e o chão estava coberto de esteiras, tapetes e peles de animais encaixados atropeladamente. Encontraram seu tio mergulhado em um baú, metade do conteúdo espalhado à sua volta.
— Eu estava esperando por vocês! — Hannes emergiu da arca quando os ouviu. Estendeu seus braços em boas vindas, gesticulando para as almofadas próximas. — Venham, venham, sentem-se. — Mikasa o abraçou e deixou-o pegar Armin cuidadosamente nos braços antes de se estabelecer ao lado de Eren. Hannes embalou o bebê adormecido como se fosse feito de vidro e sua expressão amoleceu.
— Você era só uma coisinha pequena na última vez em que estive aqui. Pequenino e rosa e choroso. — Hannes não sabia sobre o parentesco de Armin. Mikasa e Eren decidiram há muito tempo não revelar certas coisas a seu tio sobre sua situação após a morte dos pais; foram forçados pelas circunstâncias e falta de opção, mas Hannes certamente se culparia por não estar lá para ajudá-los. Até onde o mais velho sabia, o pai de Armin morrera no mar e Mikasa era uma dançarina profissional. Era uma péssima mentira, porém a mais plausível que puderam pensar na época. — Carla teria amado você.
O sorriso de Eren desmoronou, e uma olhada rápida para Mikasa mostrou que sua expressão ficou turva também. Pensavam nisso constantemente; como sua mãe teria ensinado a Armin todas as canções populares que ensinara a Eren, ou em como seu pai sentaria a criança no colo enquanto explorava os livros espalhados sobre sua mesa abastada da cozinha. Sempre começava engraçado, mas isso nunca durava.
— Para onde você foi dessa vez, tio? — perguntou Eren, desesperado para evitar aqueles pensamentos. Hannes saiu de seu devaneio e olhou para cima.
— Oh, você nem imagina. — Seus olhos brilharam quando ele sorriu, os lábios se esticando largamente para revelar seus dentes destruídos pela folha de bétele. — Nós cruzamos o deserto Asfar e viajamos pela costa por oito meses até chegarmos à Ponte de Adyama.
— Vocês foram até Serendib? — perguntou Mikasa. Hannes assentiu enquanto usava seu braço livre para extrair uma grande lata do baú, que então entregou a eles. Eren meteu o nariz na tampa e reconheceu o aroma familiar de chá preto antes mesmo de precisar olhar. Lembrava desse cheiro desde sua infância: o chá de tempero especial que sua mãe costumava fazer para eles. Mikasa nunca fora muito de beber chá preto, mas Eren foi praticamente desmamado nele desde que nascera.
— Mmm. Foi bom ir para casa visitar a família e pegar algumas provisões antes de voltar.
— Como é lá? — perguntou Eren, inclinando-se para a frente. Nunca se cansava de ouvir sobre as terras estranhas fora de Trost. Sua mãe costumava ter histórias como Hannes, ela também fora uma Paāvaena antes de encontrar e se apaixonar por seu pai e se estabelecer em Trost. Ela costumava parecer tão saudosa quando transmitia suas velhas aventuras e ele se perguntava como ela foi capaz de desistir daquela vida por uma única pessoa. Sua vida fora tirada, de qualquer forma, e, apesar de ficar feliz por quão apaixonados seus pais eram, não podia deixar de pensar que em outra vida eles poderiam não ter se encontrado e ambos teriam sobrevivido.
— Quente. Não tanto quanto aqui, mas bem mais úmido. É mais verde também; as folhas são grandes o bastante para cobrir um corpo humano, grossas e verdes com troncos como dedos de pessoas mortas. — Hannes sacudiu os dedos para demonstrar e Eren e Mikasa assentiram, encantados. — A selva está por toda a parte e os moradores locais precisam cortá-la constantemente para evitar que se arraste de volta. Na vila da qual sua amma e eu viemos, todos vivem em casas nas árvores em cabanas feitas de galhos amarrados com canas e telhados de folhas de palmeira. Há pontes de cordas conectando todas as casas nas árvores para que possamos visitar uns aos outros sem precisar descer, o que é bom porque há elefantes selvagens que passam por lá com frequência. — Eren só vira elefantes uma vez na vida quando era menor; não conseguia lembrar da ocasião exata, mas fora uma parada ou algo relacionado ao Imperador. Devia ser um casamento ou nascimento para garantir um arranjo tão grande. Ele ficara completamente impressionado pelas gigantescas feras cinzentas com pernas que pareciam troncos de árvores e presas que poderiam facilmente empalar uma pessoa. Nunca conseguiria processar como humanos conseguiam fazê-los caminhar tão obedientemente enquanto as pessoas assistiam das laterais, carregando os toldos em suas costas sem que saíssem correndo desenfreados e atropelando as multidões em volta.
— Eu gostaria de ir lá algum dia. — devaneou.
— Talvez você possa. As Tropas de Exploração vão para todos os lugares em suas expedições.
Hannes franziu o cenho para Mikasa, confuso.
— Eren conseguiu trabalho nas Tropas, tio. — explicou sua irmã. — Lembra-se de como ele queria isso quando era mais novo? — Hannes bufou.
— Eu me lembro do quão determinadamente contra isso Carla era, com certeza.
— Ela disse que não gostava da ideia de eu ficar vagando por países estranhos com o exército, o que era extremamente hipócrita da parte dela, considerando como passou sua juventude. Pelo menos como soldados estaríamos melhor equipados para nos defender do perigo.
— Você não pode comparar nós, nômades, com as Tropas, moleque. Eles saem por aí negociando acordos e explorando terras perigosas, enquanto nós apenas viajamos tocando música.
— Amma morreu por ser uma nômade. — revidou Eren. Estava cansado dessa discussão, já a tivera muitas vezes antes quando sua mãe estava viva. Ela agia como se entrar para as Tropas fosse o estilo de vida mais perigoso que ele poderia ter escolhido, mesmo que o dela fosse muito mais perigoso só por causa da cor de sua pele e de sua origem. — Ela provavelmente estaria mais segura com as Tropas do que jamais esteve em Trost.
A conversa encalhou em uma pausa sufocante. Hannes balançou Armin em seus braços silenciosamente, mas com a expressão sombria e distante. Eren sabia que ele estava pensando sobre aquilo de novo, o que acontecera há alguns anos. Sabia que seu tio se culpava um pouco, mesmo que nem estivesse na cidade e não houvesse nada que ele pudesse ter feito. Culpava-se por sua ausência, e todos os anos em que Mikasa e Eren ficaram sozinhos, órfãos e vivendo nas ruas. Na época em que ele passara por Trost depois do ocorrido, ambos haviam amadurecido muito mais do que o número de anos que passara, e só então ele soube do assassinato de Carla e Grisha. Foi uma baita de uma bomba para contar, e Eren se lembrava da caixa de joias de vidro que Hannes havia comprado para sua mãe escorregar de seus dedos e se despedaçar no chão quando contaram as notícias. No início, ele ficou sem palavras e desacreditado. Precisaram levá-lo aos restos carbonizados de sua antiga casa incinerada antes de finalmente cair a ficha, e foi então que ele se ajoelhou à beira das cinzas e chorou. Pegou punhados de fuligem em suas mãos e observou-os deslizar pelas lacunas entre seus dedos, como se esperasse encontrar ossos ou restos carbonizados, mas Eren e Mikasa haviam feito aquilo anos atrás. Ficaram ao lado e se abraçaram, vendo seu luto se repetindo de novo através de seu tio, mas exaustos demais para chorar de novo. Nunca haviam visto Hannes chorar antes, e essa fora a primeira vez em que Eren pensou que talvez ele amasse sua mãe mais do que como mero compatriota.
Hannes limpou a garganta após um silêncio prolongado. Forçou um sorriso contente no rosto.
— Vocês já comeram? Nós fizemos kottu roti e tenho certeza de que sobrou bastante. — Eren sentiu a mão de Mikasa deslizar até a sua e apertá-la.
— Parece perfeito. — disse ela. Isso é o que ele quis dizer quando disse que as visitas dos Paāvaena eram amargas. Era muito fácil escorregar e pensar no passado quando envolvidos por tanta familiaridade.
Hannes olhou para ele, e Eren odiava ver o toque de pesar em seus olhos que o sorriso não alcançava.
— É, eu gostaria de comer.
Notas:
Lungi: tecido que fica amarrado na cintura, formando uma espécie de saia (que pode ser usado mais curto, até os joelhos, ou mais longo, até os pés). Usado principalmente na Índia e regiões vizinhas.
Ganja: maconha.
Folha de bétele: um tipo de folha alucinógena muito utilizada como droga no sul asiático.
Kottu roti: uma refeição de rua típica do Sri Lanka, preparada na chapa e feita de um pão fino e tostado (chamado pão roti), que é rasgado em pedaços e então misturado com vegetais, carne e ovos, juntamente com temperos aromáticos e molhos.
Traduções:
Eṅkaḷ mama: nosso tio.
Nandri: obrigado.
Amma: mãe.
