N/A: Espero que gostem, suspense, romance e alguns assassinatos.

Para quem não se lembra exatamente da história de AUR, no meu perfil tem um blog com resumo dos capítulos, caso alguém tenha curiosidade em revisar, só ir lá.


Capítulo 37

Recomeço


08 de dezembro de 2007


Sakura, Hospital, às 15h21min.

Quando a enfermeira me falou que eu ainda não poderia visitar Gaara, eu não senti raiva. Encontrava-me ainda entorpecida pela tranquilidade, pela despreocupação e desfecho daquela história. Estava tudo acabado, e tudo, mesmo não da melhor maneira, tinha acabado bem. Naruto acordou ontem, sem qualquer espécie de lesão. Sai já tinha voltado para Kitagawa, Ino também. Gaara tinha acabado de despertar e caído em um sono profundo provocado pela lestargia.

Estava tudo acabado e só de pensar nisso um suspiro involuntário escapou de mim. Andando pelo longo e verde corredor do hospital, procurei um lugar para sentar, como se eu precisasse, antes de ver Naruto, apreciar um pouco mais aquele momento de silêncio e tranquilidade.

Respirei sem dificuldade e fechei os olhos sem pesar. Mentalmente no escuro das minhas pestanas visualizei a notícia de jornal, o encontro com Gaara naquele cemitério e aquela perseguição sem sentido em Shibuya. A morte de Jiraiya, o enterro de Asuma, ele abraçando Ino na sala de Ikebana. Conhecendo Naruto e ele descobrindo eu ser fumante. Eu deixando de lado os cigarros, mais preocupada com tudo que estava acontecendo. A ida a praia e ao Donatello. A morte de Iruka, a exposição de Deidara e o seu noivo, o Festival, o primeiro beijo sem sentido, o açúcar que caiu no chão. As flores amassadas, o poema no mural, as fotografias roubadas, o festival e o corpo de Sai naquela sala, todas as conversas com Neji e o desespero de Hinata. Hiromi naquela delegacia e minha tristeza em saber que ela estava morta. O meu medo de Hinata acabar como ela, o tapa na cara de Naruto, o medo dele ser arrastado para isso também.

A morte de Kabuto. Seus olhos vibrados nos chãos, as mãos afundados na terra. A tranquilidade da ida... Tudo acabado.

Escutei uma porta ser arrastada diante de mim quebrando completamente minha linha de pensamentos.

- Obrigada Naruto, por convencê-la.

O agradecimento veio antes de eu reconhecê-lo. Era Neji.

Ajeitei-me no banco pensando que ele se referia a Hinata. Logo depois nossos olhos se encontraram, e Neji com seu jeito sisudo e elegante de andar veio até a mim.

- Agradeço a você também por tudo Haruno.

Fiquei em silêncio.

- Prometo que ela ficará bem. – falou com uma determinação digna de alguém que ama. Eu imaginei que de alguma maneira, Hinata, apesar de toda essa loucura, um dia se recuperaria. E eu soube que não seria apenas por causa de Naruto. - Naruto te espera lá dentro.

- Obrigada Neji.

Entrei no quarto de Naruto e o vi deitado na cama, o braço engessado, a pele queimada misturada entre roxos. A boca que sorria largamente para mim tinha um corte e um hematoma no canto.

- Mesmo com duas costelas e uma perna quebrada você ainda sorri como um retardado.

Naruto apenas sorriu ainda mais. Eu me aproximei e segurando sua mão me sentei.

-Como você tá?

Ele não me respondeu a princípio, apenas continuou me olhando, como se observasse cada detalhe do meu rosto.

- Fico feliz que você esteja viva e bem. - Naruto falou. O sorriso mais discreto, e uma melancolia repentinanos olhos azuis.

Ele ainda estava quebrado com tudo aquilo. Com a morte de Jiraiya, Iruka, com o desespero de Hinata, e pela sua impossibilidade de fazer qualquer coisa. Até de se vingar de todos eles.

- Eu também estou feliz de você ainda estar aqui. Como você está depois do que aconteceu?

Ele apertou ainda mais minha mão.

- Acho que é muito cedo para dizer, mas eu tenho certeza que eu irei enfrentar um momento bastante complicado a partir de agora.

- Tenho certeza que você irá superar aos poucos.

- Eu também tenho, apesar de me sentir absurdamente sozinho às vezes... Estou pensando em ir para Nakano, passar um tempo lá com um amigo de infância. Ele não é exatamente o cara mais legal do mundo, mas talvez eu me sinta melhor lá...

Aquilo provocou-me um aperto no peito, uma saudade antecipada com sua ida. Abaixei instintivamente a cabeça tentando conter os olhos que ardiam. Eu não podia ser egoísta, expressar minha dor dessa maneira sem considerar o que é melhor para ele, seria absurdamente individualista.

- Mas eu pretendo voltar, não precisa chorar. – ele comentou de imediato e por alguma razão aquilo vez com que meus olhos ardessem cada vez mais.

- Que droga Naruto, como você consegue me ler tão bem assim? – eu disse tentando fingir indignação, mas o máximo que se expressava em meu rosto era um sorriso torto e os olhos cada vez mais marejados.

- Não é tão difícil assim. – ele respondeu tentando sustenta um sorriso e aquilo me fez me sentir melhor. Ele estava se esforçando para demonstrar que estava tudo bem.

- E Hinata-chan? - perguntei.

- Ela vai embora. Não sei para onde. Só sei que para fora do país. - ele me respondeu, a voz pausada, os olhos encarando as próprias mãos. Aquilo intensificou o meu incomodo no peito, pois ele estava se contendo, mesmo com mãos apertadas e os olhos repentinamente brilhando pelo choro.

- Foi você quem a convenceu?

- Sim… Vai ser melhor para ela.

Eu não pensei muito. Apenas me levantei e o abracei.

- Você é um cara incrível Naruto.

Ele começou a chorar. E uma melancolia tomou conta de mim, algo que, no entanto me deixou mais tranquilo do que vê-lo reprimindo-se em cada palavra.


Gaara, Hospital, às 20h26min.

Estive inconsciente no hospital, dissera Kankurou, por quatro dias. As balas com sorte tinham atravessado o meu ombro e perna, apenas carne, e o processo da recuperação seria rápida. Depois eu seria submetido a um tratamento psicológico por ter passado aquela experiência "traumática" com um psicopata, o que na realidade acho ser bastante desnecessário.

Tentei alcançar um copo de água na mesa ao lado, mas os meus dedos nem conseguiram tocar. Qualquer movimento brusco são anos de dor. Quando me voltei, a porta de correr se arrastou e meu pai surgiu por ela. Nos encaramos por alguns segundos e repentinamente soltei meu corpo tenso para trás.

Este hospital realmente me cansa e a presença do meu pai, apesar de tudo, me cansava ainda mais. Teríamos que conversar sobre minha mãe em algum momento, se assim eu quisesse que toda aquela história tivesse um fim.

- Quando você acordou?

- Essa manhã.

Ele olhou o relógio de pulso e voltou-se para mim com a sobrancelha franzida.

- Por que só me avisaram agora?

Olhei o céu escuro e me dei conta que eu tinha passado metade do dia apenas dormido.

- Não sei, eu na verdade só dormi o dia todo.

Ele suspirou alto e sentou-se em uma cadeira próxima aonde eu me encontrava deitado.

- Temos que parar com isso…

Eu entendia perfeitamente bem o que ele queria dizer, mas era algo que não precisava ser conversado, as pequenas atitudes que teriam que ser mudadas.

- É só uma questão de hábito.

Nos encaramos por alguns instantes de silêncio e então ele concordou com a cabeça. Em seguida ele retirou do bolso uma cartela de balas marrons e as deixou na mesinha do canto.

- São para você parar de fumar. Sua mãe odiava, é provável que sua namorada também não goste.

Aquele comentário foi irônico e proporcionalmente desconfortável, mas de alguma maneira eu sabia que significava uma aproximação mínima.

- Ela é fumante também.

- Então peça para ela parar de fumar também.

Meu pai não fumava desde que eu tinha seis anos. Ele tinha feito aquilo por minha mãe. Ele tinha feito na realidade muitas coisas por ela.

E talvez por isso e por que aquilo se encontrava engasgado em mim, eu disse:

-Eu conversei com Kabuto sobre minha mãe, e como eles se conheceram no internato e como ela escreveu aquele poema.

- Eu sei de tudo isso.

- Talvez não tudo. Você suspeitava que ela tivesse de alguma maneira envolvida com o grupo suicida, mas você está enganado. Ela escreveu poema para poder ajudar uma garota no orfanato, mas mesmo assim, ela acabou cometendo suicídio… E talvez por isso ela tenha… Minha mãe... - não consegui concluir a frase, era como se nem mentalmente eu pudesse articulá-la.

Meu pai, entretanto, apenas enfiou as mãos nos cabelos enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos. Passou longo meio minuto assim, então com a voz cansada e tremida, concluiu.

- Eu deveria saber...

Eu não imaginava que seguindo aquela notícia de jornal, eu conseguiria arrancar toda essa perseguição que meu pai nutria desde o dia em que minha mãe decidiu tirar a própria vida. Senti-me preenchido por algo inexplicável, algo que substituía aquele desinteresse constante por tudo. Eu me sentia bem e livre.


Gaara, uma semana depois, Centro de Tóquio às 8h50min.

Senti o cheiro de cookies logo que eu sai do banho. Desde que estive me recuperando dos tiros, minha irmã tem feito biscoitos constantemente mesmo que eu nunca tivesse pedido. Kankurou continuava agindo da mesma maneira, fazendo comentários com aquele sorriso malicioso, e andando de samba-canção pela casa. O assassino da rosa foi descoberto, mas tudo parecia incrivelmente igual.

Logo que eu entrei na cozinha vi meus irmãos sentados na mesa e Lee em pé se servindo de alguma coisa do balcão.

Lee tem me visitado quase todos os dias desde que eu quase morri, e as vezes trazia a garota de coque que sempre vinha com algum comentário sobre a Haruno. Eu estava esperando o momento que Rock Lee percebesse que eu não iria morrer a qualquer momento. Principalmente depois que a morte de Kabuto foi confirmada. Ainda me lembrava constantemente de seu rosto naquele cachão. Era como um cara qualquer que tinha morrido, tendo em torno do seu túmulo sua pequena família, a velha senhora de um ex-acolhido do Orfanato. Quando me vi analisando toda aquela situação, a Haruno segurando-me pelo braço em um estranho silêncio, quase consegui me esquecer que ele tinha matado 14 pessoas e que ele era digno de um enterro cristão como qualquer outro.

- Eu ainda não consigo vê-lo como o cara que perseguimos todo esse tempo.

Haruno tinha me dito no dia do enterro. Eu a entendia, por que mesmo com conteúdo bizarro de suas falas, ele aparentava ser como qualquer outra pessoa. Em todo o instante em que tivemos juntos naquela ponte de Arakawa, mesmo com toda a tortura, não houve sequer um instante em que ele tenha demonstrado estar fazendo algo errado ou agindo como um assassino.

Alem disso, acredito que eu não tive tempo suficiente para odiá-lo. Mesmo com as duas cicatrizes permanentes no corpo que ele me deixou.

- Gaara-kun, phom...dia.

Lee tinha um cookie na boca de maneira que seu bom dia era quase incompreensível. Eu não respondia, apenas sentei-me à mesa e peguei um biscoito levando-o a boca.

- Sempre mal-educado. – Temari fingiu uma careta enquanto se levantava. Já se encontrava vestida para sair, as chaves do carro nas mãos e a bolsa no ombro. – Bom dia pai.

Eu pisquei quando ela disse isso. Me virei e vi meu pai, vestido em seu terno típico de policial. Ele respondeu com um aceno e em seguida sentou-se à mesa. A princípio uma sensação estranha se instaurou pela mesa, como repentinamente todo mundo estivesse em silêncio, ou em luto diante de alguma situação desagradável.

Era a primeira vez que ele fazia isso em anos. Lee me olhou sem conseguir disfarçar sua incredulidade, mas depois do impacto da novidade, ele foi o único a reagir assim. Kankurou pegou o omelete de arroz e entregou a meu pai. E eu simplesmente comentei.

- Tem café descafeinado.

Estava nos habituando aos poucos.


Sakura, Kitagawa as 15h00min.

Fechei a porta da direção soltando um suspiro enquanto tentava reprimir a empolgação imensurável. Em minhas mãos eu tinha um pedido formal de bolsa dado por Tsunade para o melhor cursinho pré-vestibular da região.

- Mesmo que suas chances de passar sejam significativas, Medicina é um curso que exige muito mais do que você já tem.

Eu já sabia de tudo aquilo, mas apenas concordei, sem conseguir disfarçar minha empolgação. Ri internamente e como se a empolgação tomasse conta do meu corpo sai correndo ao encontro de Tenten no pavimento debaixo. No caminho passei pela sala vazia de Ikebana, e bisbilhotando sobre o vidro da porta pude ver os jarros decorados com as flores sobre as mesas. Observei o painel e me lembrei do poema colocado ali por Hinata e como ele foi arrancado bruscamente logo depois do término com Naruto. Fazendo uma cronologia dos acontecimentos, me dei conta que Hinata tinha colocado aquele poema a pedido de Naruto e que em seguida, quando ele terminou com ela, sua raiva fez com que ela não quisesse vê-lo ali.

- Vou sentir falta daqui, provavelmente o único lugar em Kitagawa que irei sentir falta.

Me virei e me deparei com Ino. Ela não vestia o uniforme de Kitagawa. Tinha apenas uma expressão calma e gentil no rosto.

- Talvez da sala de artes também. – eu comentei e ela sorriu.

- Sai ainda está lá, retirando os quadros.

- Sim, eu o vi por lá.

Antes de falar com Tsunade tínhamos nos esbarrado no corredor das artes. Ele tinha comentado que recebera um convite para estudar em uma escola de artes tradicional de Kyoto. Se mudaria no próximo final de semana. Ino ficaria em Tóquio, pois ainda não sabia o que faria, mas a princípio trabalharia em uma floricultura e conseguiria um certificado para dar aula de Ikebana.

- Talvez ela faça psicologia também.

Era estranho conversar sobre uma pessoa que eu tinha perseguido durante meses, mas nunca tivesse conhecido de fato. Olhar Ino agora me faz pensar que eu não deveria ter sido tão impulsiva durante todo esse tempo. Que eu não deveria ter julgado tanto.

- Você vai ao aeroporto? – perguntei.

- Com certeza.

- Podíamos ir comer alguma coisa depois.

Ela sorriu para mim e eu soube que não era por educação.

- Vamos sim.

Nos despedimos logo em seguida. Ela entrou na sala de ikebana enquanto eu seguia até a saída de Kitagawa. Enquanto passava pelos corredores eu me dava conta dos espaços que ficariam nas minhas lembranças. O terraço, as escadarias, a sala de artes. Eu estava deixando tudo aquilo para trás, para começar outras coisas.

- Hei Sakura-chan! Anda logo com isso!

Tenten me chamou, mas antes de correr em sua direção eu olhei para o portão principal de Kitagawa. Não conseguia deixar de sorrir. Eu estava indo embora.


Sakura, duas semanas depois, Aeroporto Internacional de Tóquio às 16h35min.

Hinata tinha os olhos atentos a saída do bar-café. As mãos estavam segurando nervosamente a bolsa enquanto seu suco de melão continuava intacto sobre a mesa. Eu e Ino trocávamos olhares cúmplices como se tentássemos juntas adivinhar se afinal Naruto viria ao aeroporto ou não. Gaara encontrava-se alheio a situação observando algo em celular. Estávamos todos ali esperando o avião que partiria em 40min.

- Se acalma Hinata-chan, é provável que ele venha, e se ele não vier você sabe que é por que toda essa situação é extremamente complicada para ele.

Hinata apenas concordou com a cabeça, mas não conseguiu transmitir confiança. Depois de tudo que tinha acontecido sua reação é no mínimo esperada. Eu não tentei dizer nada, tudo que eu poderia ter lhe dito eu o disse há alguns dias. Nesta ocasião eu e Tenten fomos convidadas a visitá-la em sua mansão – estilo bem tradicionalista onde as empregadas eram chamadas de serventes e usavam yukatas. No momento em questão ela pediu diversas vezes desculpas, chorou bastante e mais um pouco, e principalmente perguntou sobre Naruto. Nesse processo, entretanto, ela estava aceitando o fato de que era praticamente impossível, principalmente emocionalmente, os dois ficarem juntos.

Por mais que eu tivesse impulsos românticos, eu concordava com ela.

"Ele já foi minha fortaleza por muito tempo."

Por mais emotivo que essa frase soava, na boca de Hinata saiu com uma clareza objetiva e respeitosa. Hinata já estava mudando desde então.

Mas eu ainda sou uma romântica, mesmo negando até a morte. Ainda acho, que em algum momento, eles poderiam ficar juntos.

- Ele não vai vir...

- Vou à banca de revista. – Gaara levantou no meio da frase de Hinata. Talvez ele já estivesse sem paciência com toda aquela situação.

- Ele vai vir. – eu disse logo após Gaara sair da mesa. Minha intenção era amenizar pelo menos por alguns instantes o coração de Hinata.

- Sim, ele não...

Escutamos o barulhinho característico do celular vibrando sobre a mesa. Hinata o agarrou de imediato. Leu por alguns instantes e se levantou da mesa.

- Eu já volto.

Ino e eu trocamos olhares sem entender.

- Ele deve ter mandado alguma mensagem marcando um encontro. – Neji comentou sem tirar os olhos do livro em que lia. Tinha quase me esquecido que ele se encontrava lá. O encarei por um instante tentando imaginar o que ele achava de tudo aquilo.

- Você acha isso uma boa ideia? – Ino perguntou por mim, aparentava estar sinceramente preocupada.

Neji deixou o livro sobre a mesa e nos fitou com um olhar calmo e pragmático.

- Uma ruptura pessoalmente é sempre mais fácil. E tudo que Hinata precisar para facilitar esse processo eu acho uma boa ideia.

Ser frio como Neji aparentava ser, na realidade revelava um caráter impressionante. Era uma frieza gentil em que na calmaria das suas palavras ele escondesse um objetivo muito nobre.

- Hinata-chan tem muita sorte Neji.

Quando ele me fitou eu soube que ele tinha me entendido. Hinata-chan contava com pessoas que realmente se importaram com ela, entre elas Kurenai-sensei, Neji, Ino e principalmente, e mesmo diante da atual situação, Naruto.

Ino se levantou em seguida dizendo buscar alguma coisa. Neji voltou atenção ao livro e mesmo que eu estivesse sozinha ali eu não me sentia sequer incomodada.


Gaara, Aeroporto Internacional de Tóquio às 16h46min.

Não é como se eu fosse totalmente desinteressado em relação a Hyuuga, mas eu sinceramente não estou muito disposto a participar daquele dilema. Naruto viria caso ele necessitasse. E pelo jeito ele necessitou, por que logo que eu entrei na banca de revista em busca de cigarros, eu o vi andando apressadamente até a escada rolante. Instante depois Hinata surgiu, e quando eles se encontraram no meio de tantas pessoas, ela correu em sua direção.

Eles se abraçaram e mesmo de longe eu posso imaginar perfeitamente bem que ela está chorando e que ele está segurando o choro como em uma típica cena de romance. Eles se resolveriam pelo jeito.

Senti cheiro de cigarros.

Cigarros. Voltei-me para trás para continuar minha compra, mas o que eu vi foi Ino, as mãos no casaco moletom, seus olhos azuis me fitando como se esperasse alguma coisa de mim. Me lembrei quando nos conhecemos naquele terraço e a quantidade de problemas que ela me deu com a Haruno.

- Tudo bem Gaara-san?

Eu franzi um pouco o cenho. Eu sabia que Yamanaka não tinha nenhuma boa razão para me fazer aquela pergunta. Mesmo que ela estivesse cada vez mais próxima da Sakura, eu ainda era apenas o namorado de uma amiga.

- Você quer me perguntar alguma coisa? – eu tentei ser sociável e pelo jeito, em comparação há dois meses atrás, eu consegui. Ela suspirou e se aproximou, demonstrando corporalmente toda a preocupação que tinha.

- Eu necessito que você fale com seu pai sobre uma coisa.

- Uma coisa?

- Sim... – ela me puxou para um canto, seu rosto ficou bem próximo ao meu. – Eu não quero me expor a polícia novamente, mas recentemente eu recebi um envelope com um convite.

- Um convite?

- Sim.

Ela retirou do bolso um envelope negro, em sua superfície com letras bonitas existia seu nome completo, e no outro um coelho. Inconscientemente eu o abri revelando um pequeno cartão. Nele estava escrito umas poucas palavras:

Você foi selecionada para conhecer a Deusa Coelho.

- O que isso significa?

- Eu não sei, mas eu estou apavorada. Eu preciso que você o entregue ao seu pai e diga que não quero nenhum envolvimento com essa história.

Seus olhos estavam levemente umedecidos e as sobrancelhas franzidas. O estado de preocupação de Ino era notável e aquilo de alguma maneira me preocupou. O que me perceber que cada vez mais eu estivesse me sensibilizando com esse tipo de situação.

- Eu irei falar com ele.

- Não fale para mais ninguém, certo? Eu só quero ter uma vida normal.

Eu concordei sem dizer nada.

- Gaara?

A voz de Sakura soou bem atrás de mim e eu tomei um susto mental. Droga. Ela me encheria de perguntas. Ino ao contrário de mim, apenas sorriu voltando a ter postura calma e gentil de alguns minutos atrás.

Ino agarrou o braço de Haruno declarando que deveriam ir para o embarque. A Haruno, no entanto, apenas me olhou entre os ombros. E eu entendi que teríamos uma longa conversa em breve.


Sakura, Estação de Metro, às 18h50min

Estávamos voltando para a estação de metro quando eu decidi que eu era incapaz de deixar aquela história de lado. Há alguns instantes deixamos Ino em casa, pois, por alguma razão ,ela nos pediu para que levássemos até a porta do seu apartamento. Gaara concordou prontamente e, por mais que eu entendesse a posição de Ino, foi inevitável não me sentir incomodada com a situação.

Não é que eu não confiasse em Gaara, eu confiava, mesmo que a gente nem tivesse namorando – pelo menos não formalmente. A questão é que eu sabia que eles estavam me escondendo alguma coisa e por isso, antes de entrarmos na estação de metro, eu parei em frente a bilheteria e com as mãos no bolso o encarei.

- O que foi? – ele levantou uma sobrancelha.

- Você sabe o que é.

Ele bagunçou os cabelos confirmando minha teoria.

- Eu te conto quando eu puder. Ela me pediu para não contar para ninguém.

Aquilo me afligiu. Era como se ele declarasse que não confiava em mim. Eu sei, isso é extremamente infantil, mas é o que estou sentindo. Esfreguei os olhos pensando em uma maneira de abordar o assunto. Em seguida eu o senti puxando levemente meu braço para que pudesse segurar minha mão. Seus dedos estavam gelados e quando o fitei vi um rastro de incômodo em seus olhos.

- Não é que eu não confie em você.

Minha expressão não mudou. E ele em resposta me puxou para um abraço. Senti-me quente e relaxa, como sempre acontecia quando ele me rodeava com seus braços.

- Isso me deixa... um pouco... – era difícil admitir, mas tínhamos chegado a um acordo que seriamos mais sinceros um com o outro. – insegura.

Por fim eu disse por mais estúpido que possa parecer. Sim, eu me sinto insegura, mesmo, aposto que todo mundo em relacionamento se sente assim às vezes.

Ele em resposta se afastou um pouco de mim, e me deu um leve beijo na altura do maxilar em seguida depositou outro na linha da bochecha, até que me beijou levemente nos lábios. Um beijo carinhoso e intimo.

Mas eu ainda me sentia insegura.

- Isso não vai melhorar as coisas. – eu disse e mesmo que minhas palavras tivessem soadas mais duras do que o pretendido, não me senti sequer desconfortável.

Ele suspirou e bagunçou os cabelos vinho novamente.

- Certo, ela me pediu ajuda por causa de um convite estranho.

Afastei-me só para que ele pudesse ver claramente minha expressão de confusão.

- Sim, ela recebeu um convite com um coelho desenhado no envelope e dentro uma mensagem "Você foi selecionada para conhecer a Senhora Coelho." – ele me explicou e eu me senti repentinamente preenchida. – E ela queria que eu conversasse com meu pai sem que ela fosse o centro da questão.

Então era isso. Suspirei alto e em seguida sorri, um sorriso enorme.

- Era só isso? – perguntei repentinamente muito empolgada. – Uma mensagem com ares de um grupo misterioso e lunático?

- Exatamente.

- Caramba, em pensar que eu fiquei preocupada com isso.

Comecei a andar como se tudo estivesse resolvido. Na realidade podíamos até ignorar o assunto e esquecê-lo. Talvez assim não ficasse tão óbvia minha crise de insegurança semanal.

- Você achou que poderia ser o que? Um encontro no cinema?

Eu o encarei sem conseguir esconder meu sorriso "você não está falando sério, certo?". Sua cara de concreto retornou como sempre acontecia quando eu parecia estar rindo as suas custas. O que na realidade só me provocava mais gargalhadas internas.

- Não se ache tanto. – eu disse. Começamos andar até a bilheteria, onde recarreguei meu cartão. Quando chegamos nas catracas eu me virei bruscamente e com o meu sorriso mais convencido continuei – E pelo que eu saiba, não somos namorados, para que eu possa sentir ciúmes dessas coisas.

Certo, era uma óbvia tentativa de tocar naquele assunto que já estava me incomodando há algum tempo. Não que eu me preocupasse verdadeiramente com esses tipos de rótulos... Mas já estava meio cansativo eu não saber como defini-lo para minha avó ou para o mundo, por exemplo.

Bem certo que é uma preocupação tipicamente adolescente. E daqueles adolescentes viciados em karaokê e inseguros. Será que estou sendo idiota? Me virei bruscamente passando pela catraca, obviamente tentando disfarçar o repentino constrangimento.

- Haruno.

Retornei e o vi no outro lado da catraca se apoiando no suporte de metal. Sua expressão claramente incrédula. Mais cinco pessoas estavam atrás dele o esperando o atravessar.

- Como assim não estamos namorando?

- Er... Depois de tudo que aconteceu, acho que não formalizamos nada assim... Digo é meio estúpido e tudo mais e...

- Sim, é realmente estúpido. – ele disse e eu senti minhas bochechas queimarem. – Por que é óbvio que estamos namorando.

Era uma simples frase falada pelo o sociopata funcional mais inexpressivo do universo. Não tinha sequer uma entonação mais gentil, ou uma escolha de palavras adequadas, mas eu realmente acho todas essas coisas muito entediantes. Então eu só sorri, um sorriso sem covinhas, exatamente do jeito que Gaara está pensando.


Gaara, quatro dias depois, loja de conveniência, às 19h35min.

Ela está atrasada como sempre. Não entendo qual é a dificuldade em chegar no horário combinado ou mandar uma mensagem avisando. Cruzeis os braços e as pernas enquanto sentia meus dedos gelarem. O frio e as luzes natalinas não melhoram meu humor. Alem disso as luzes faiscantes dessa loja de conveniência me lembram algum tipo de filme tipo B de terror. Inclusive, o que a Haruno enxergava de romântico nesse lugar eu não entendia. Talvez ela simplesmente não fosse romântica.

- Quantas reclamações mentais nos últimos minutos?


Sakura, loja de conveniência, às 19h35min.

É realmente divertido observar Gaara. Principalmente quando ele está esperando algué terceiro chiclete antitabagismo que ele ingere em 5 minutos. Eu poderia passar horas aqui o imaginando me xingar mentalmente, mas quando ele bagunçou os cabelos pela trigésima vez eu decidi que a diversão já tinha acabado.

- Quantas reclamações mentais nos últimos minutos?

Ele se virou na minha direção e eu não consegui deixar de sorrir quando o vi claramente mal-humorado. Aproximei-me um passo, me inclinando para dar um lento beijo na bochecha.

Ele respirou um pouco mais pesado que o normal e quando retornei para olhá-lo ele tinha os olhos semi-cerradoa. É impressionante como Gaara era mais sensível a um beijo na bochecha do que um beijo de verdade.

- Muitos pensamentos ruins nesses dez minutos... – ele respondeu sem expressão e eu ri.


Ela sentou a minha esquerda e roubou um gole da minha bebida como sempre. Sorriu daquele jeito sem covinhas e enfiou suas mãos no bolso do meu casaco, sempre me olhando, me dizendo calada que estava feliz de estar simplesmente ali, em uma barata loja de conveniências tomando café de latinha.

Era bom saber que não precisávamos de razões perigosas para nos encontrar e que não havia necessidade de me controlar ou retrair qualquer vontade que eu tinha perto dela. Era bom poder admitir que estivesse tudo bem. Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha apenas para sentir sua pele em meus dedos.

- Vamos falar com a Ino amanhã?

- Para quê?

Ela suspirou em seguida respondeu:

- O envelope.

- Eu já lhe disse que ela não quer saber dessa história.

- Não é nada que eu não consiga descobrir.

Isso é verdade.

- Apesar de que o caso dela eu não queira exatamente manipulá-la...


Gaara voltou-se para mim com uma das sobrancelhas ralas levantadas. Era um dos pontos a qual éramos totalmente divergentes.

- Eu quero resolver esse mistério... – mordi o lábio inferior exatamente da maneira como ele achava mais atraente. Não resultou. Lá estava a típica cara de concreto que tanto me irritava e que eu tinha aprendido a gostar, mesmo que ela ainda me provocasse um alto suspiro.

- Pelo que eu saiba, você quer psiquiatria em Todai. Você precisa estudar.

Ele comentou pontualmente.

- Sim eu sei, mas seria ótimo, não acha? E olha, Sabaku, eu tenho certeza que caso você siga a profissão policial, você irá pedir muita ajuda minha…


Era algo que ela constantemente adorava falar mesmo que eu nem tivesse certeza se eu seguiria a profissão do meu pai.

- Você parece minha irmã insistindo nesse assunto…

- Temari só é inteligente, como eu. - ela voltou-se em minha direção apoiando o rosto no dorso da mão enquanto sorria. Um sorriso sem covinhas. - E pensa que seriamos uma dupla impressionante…

- Não estamos em um mangá Haruno.

- Eu sei, mas sejamos sinceros aquele cartão da Ino merece ao menos uma rápida investigação não acha?

Suspirei mentalmente. Eu sabia que aquele era o ponto que ela queria chegar. Aquele maldito cartão.

Senti algo caindo em minha calça jeans e no reflexo me levantei do balcão.

- Desculpa...

O homem ao meu lado pediu no instante seguinte que o seu café caiu sofre a mesa.

- Desculpa, minhas mãos tremeram e eu…

Era um senhor de aspecto cansado, que eu raramente via em lugares como uma loja de conveniências. Ele não me fitava enquanto falava e apenas tentava irracionalmente limpar o estrago no balcão com o jornal que ele segurava.

- Senhor, está tudo bem, nós cuidamos disso.

Haruno disso enquanto dava a volta. Em seguida retirou o jornal da mão do senhor, e com um lenço limpou a sua mão.

- Obrigada, é gentil da sua parte…

Não prestei atenção no que ele dizia estava mais interessado na maneira sincera em que a Haruno era prestativa com ele. Segundos depois Haruno o estava levando pela saída da loja, enquanto ambos me ignoravam completamente.

Me apoiei na mesa enquanto me sentava novamente em um dos altos banquinhos. O jornal manchado de café estava diante de mim e logo que eu li baguncei os cabelos. Quando a vi retornando tentei imaginar de que maneira ela tentaria me convencer. E só de vê-la ali, com seus olhos verdes sem a tipica empolgação dos meses anteriores, ultimamente se adaptando as simples conversas sobre intimidades e bobagens diárias, eu tive a certeza de que ela conseguiria. Aparentemente aquela simples notícia de jornal me arrastaria para longe da nossa recente rotina de dias tranquilos.


Quando retornei ao balcão Gaara tinha em mãos o jornal manchado de café. Reconheci de longe sendo um daqueles jornais pequenos e baratos de conteúdo totalmente sensacionalista.

- O que tem de interessante ai?

Ele voltou-se para mim com sua cara de concreto e me mostrou o jornal.

Não aguentei e simplesmente sorri.

- Nem pense nisso Haruno.

Eu não disse nada, apenas continuei sorrindo e ele em resposta bagunçou os cabelos vermelhos. Nos encaramos um minuto a mais, como se de alguma maneira esperássemos quem daria o primeiro passo. Mas ninguém disse nada.

Gaara apenas se levantou com o café de latinha em mãos e o chiclete antitabagismo na boca. Segurou-me primeiramente pelo braço até deslizar a mão até os meus dedos. Saímos dali como todas as vezes. Mas desta vez eu tinha um jornal debaixo do braço, e qualquer pessoa que fixasse seus olhos na capa, poderia ler aquela manchete…

"Casal assassinado em Shibuya. No local encontram apenas uma faca e um coelho vivo."

E tudo parecia incrivelmente certo.


N/A: Então meu povo, AUR ACABOU! Fogos, lágrimas e suspiros de alívios saem dessa escritora fajuta, muito feliz de finalmente ter terminado uma longfic em seus sete anos escrevendo por aqui. E lamento informar que acabou mesmo, por mais que eu tenha colocado esse caso da Deusa Coelho ele é apenas uma especie de epilogo para ficar na imaginação de vocês e também, para não dizer principalmente, para demonstrar que Gaara e Sakura sempre estarão envolvidos com algum mistérios - inclusive eu realmente os vejo sendo detetive e medica legista ou médica psiquiatrica, trabalhando juntos ou não haha'

Tem tanta coisa que eu gostaria de comentar sobre esse final. Sobre a escolha de profissão de ambos, o término do Kabuto – que para ser bem sincera eu teria mudado se eu pudesse, assim como diversas outras coisas, mas isso é uma fic e não um livro, então não vai rolar - o fim de Naruto e Hinata, as novas amizades que surgiram, em fim, muitas coisas (alguém notou a participação rapidinha do Sasuke na história? hauha' Ok, meio desnecessário, por que ele nem ao menos foi citado nos 38 capitulo).

Mas vou deixar isso com vocês e por isso não deixem de comentar sobre o que acharam da fic como um todo, do fim, do que sentiram falta nesse final – procurarei responder todas os comentários, incluindo as dúvidas, indignações e críticas. Em fim, a fic acabou e eu duvido muito que vocês terão oportunidade de falar sobre ela em algum outro momento da vida de vocês. Sim, to carente de comentários, mas sejam condescendes comigo, afinal foram quase dois anos e meio dedicados a essa história e eu quero resultados haha'

Quero agradecer a algumas leitoras e leitores que me acompanharam no decorrer desses meses, sempre comentando, me dando incentivo para terminar A Última Rosa. É um fato que sem esses comentários talvez eu nunca tivesse tomado vergonha na cara para terminar. Então meus sinceros e imensos agradecimentos:

B. Lilac

Bianca Caroline

Cah Hoshiko

Conny C.

D. F. Brine

Evangeline Uchiha

Faena

Nina Starling

Otowa Nekozawa

Raiza

Susan n.n

Taiana-chan

Vick Yamada

Violak

Yoko Nick-Chan

Aos comentários doces, inteligentes e divertido que direcionaram a minha fic, mesmo com os atrasos, a lentidão imensurável do romance e as pontas que não ficaram muito claras.

Agradecimentos também a todas as outras pessoas que comentaram e até para aqueles que leem, favoritaram e não deram sinal de vida.

Obrigada e obrigada. E mais uma vez obrigada, seu lindos e lindas.

Imensos beijos dos sabores que mais lhe agradarem.

Até.

Oul K.Z